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Boletim - Academia Paulista de Psicologia

versão impressa ISSN 1415-711X

Bol. - Acad. Paul. Psicol. vol.44 no.106 São Paulo jan./jun. 2024  Epub 23-Set-2024

https://doi.org/10.5935/2176-3038.20240013 

RESENHA

Trinca, W. (Org.) (2023). A organização do pensamento clínico em psicoterapia. São Paulo: Vetor Editora Psico-Pedagógica

Aracê Maria Magenta Magalhães42 
http://orcid.org/0000-0002-4285-1204

42Psicóloga UNESP/BU, Mestra e Doutora pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Contato: Rua Joaquim da Silva Martha, 16-21, Bauru/ SP CEP 17012-030. Tel.: (14) 996031717

Trinca, W.. A organização do pensamento clínico em psicoterapia. São Paulo: Vetor Editora Psico-Pedagógica, 2023.


O livro que se resenha reúne textos do organizador e diversos autores psicólogos, psicanalistas, filósofo, supervisores, docentes, pesquisadores que se debruçaram sobre o relevante tema: A organização do pensamento clínico em psicoterapia. Na capa atual, dois olhos marcantes se destacam num caos de cores, investidas de certa harmonia. Nos atendimentos clínicos, destacam-se o colorido e a pujança dos conteúdos relatados pelos pacientes. Trinca evidencia fatores básicos e comuns à maioria destes, mesmo frente a diferentes perturbações psíquicas. Na apresentação, o psicólogo, psicanalista e pesquisador Walter Trinca discorre sobre como desafiador é pensar um Modelo Geral com a finalidade de organizar, investigar e descobrir os princípios de ordenação do pensamento clínico. Para tanto, utilizou a perspectiva da Psicanálise Compreensiva a qual revisita os seus principais conceitos. No capítulo 1, “A concepção de um modelo de atendimento psicoterapêutico”, Walter Trinca relata como se deteve sobre o estudo da fobia e do pânico, acabando por determinar as características da personalidade fóbica - a desestabilização das noções de si mesmo e o desencadeamento de perdas profundas em suas experiências de existência (Trinca, 1992/2006). Citou outros autores e seus pontos privilegiados de observação. No capítulo 2, “O ser interior e o self” Trinca (2023) enfatiza a importância do ser interior como organizador das experiências genuínas de existir, a realidade existencial primária, verdadeira e mais profunda da pessoa. Não menos importante, o self como órgão de contato que se relaciona em diferentes graus com o ser interior, trazendo-o à consciência ou mantendo-o invisível, no inconsciente, na oclusividade. O autor aprofunda o estudo e conteúdo. Nesses termos, “O contato e o distanciamento de contato com o ser interior”, suas implicações e ressonâncias no fortalecimento ou na fragilidade do self são tratados, no capítulo 3, por Martão, Prestes e Villela. As autoras apresentam um caso clínico de uma jovem de 13 anos, encaminhado pela escola, com histórico de dificuldades de aprendizagem, reprovação, desinteresse, alheamento e retraimento. Considerado pelas autoras com bom prognóstico, este é um caso cuja organização do pensamento clínico ateve-se ao Modelo Geral de intervenção (Trinca, 2023) focado nas dificuldades emocionais e no contato da pessoa com o ser interior, cuja função é promover o desenvolvimento da pessoa e trabalhar a favor da vida. No capítulo 4, “A fragilidade e a angústia de dissipação do self”, Villela pontua que a experiência de inteireza é estabelecida no contato com o ser interior. Já o contrário da experiência de inteireza, o distanciamento de contato fragiliza o self, incrementa a angústia da dissipação do self e o surgimento de defesas contra essa agonia, tanto maiores quanto maior for o grau de enfraquecimento e esvaziamento do self (Trinca,2011). A autora ainda apresenta um caso clínico onde se evidencia a angústia de dissipação do self: o paciente é um homem de 30 anos, acometido de forte crise de ansiedade no trabalho, coincidente com uma promoção profissional e o aparecimento de vários sintomas como crises de choro sem motivo aparente, sudorese, falta de ar, insônia e sensação de perda de sentido. No capítulo seguinte, “A sensorialidade: compreendendo a forma básica e a sua intensificação”, Freitas versa sobre a sensorialidade, as decorrências de sua intensificação, o pensamento concreto, a rigidez da mente, a tendência de objetificar e reificar os dados da realidade psíquica e da realidade externa. Compreender a mente tomada pela sensorialidade é o que nos propõe a autora, referida a Trinca (1999) e congruente com o Modelo Geral deste que procura auxiliar o clínico no trabalho com seu paciente, na busca de condições essenciais ao ser humano para sua autonomia, harmonia e felicidade. No capítulo 6, Prestes apresenta vários exemplos clínicos do que o próprio título nomeia como “A sensorialidade de preenchimento substitutivo”. A autora aponta que, em todos, estão instalados objetos e produtos destinados a amenizar o sofrimento psíquico em áreas do self que estão enfraquecidas ou esvaziadas, suprimindo ou contendo a ameaça representada pela angústia/dissipação do self. Em seu relato dos casos encontramos elementos e produtos substitutivos tais como: drogadições, compulsividades (alimentar, bebidas, jogos eletrônicos, consumismo, excesso de trabalho e atividades, excesso de televisão) e dependências. Aponta ainda outras manifestações como a destrutividade antissocial e a adesão indiscriminada a ideologias e seitas dogmáticas. Dando continuidade ao assunto, no capítulo 7 denominado “A sensorialidade produzida pelos ataques dos objetos”, Walter Trinca enfatiza um tipo de sensorialidade muito presente na atualidade, que se caracteriza pela procura interna de objetos que ofereçam proteção, compreensão, afeto, quando a pessoa está em posição de fragilidade e angústia. A busca pelo “objeto amoroso” reside na tentativa do encontro por atenção, sustentação e cuidados afetivos, indicativo de conflitos relacionados a objetos primários de amor, associados a objetos externos. Conforme o Modelo Geral, faz-se necessário a análise compreensiva dos fatores em interação: o decorrente distanciamento de contato com o ser interior, a fragilidade do self, a angústia de sua dissipação, dentre outros que podem resultar tipos específicos de sensorialidade. No capítulo 8 “ A sensorialidade produzida por corte e exclusão”, Martão aponta uma estratégia do self para evitar ou eliminar a angústia de dissipação do self fragilizado ou em vias de se fragilizar, bem como as demais angústias. A autora pontua diferentes tipos de cortes e exclusão de vínculos e atividades, lançando mão, para isto, de deslizamentos, inércias, neutralizações, expulsões, desconexões, desinvestimentos libidinais, indiferenças, amortecimentos, imobilidades, embotamentos etc. Estas atividades drásticas privam a pessoa de lidar com os aspectos conflituosos, desfavoráveis e turbulentos das relações internas e externas, buscando soluções criativas para estes. A autora descreve um caso clínico para ilustrar a manifestação de sensorialidade produzida por corte e exclusão. No capítulo seguinte intitulado “As implicações da pulsão de morte”, Wierman vai até o “Paraíso perdido” de John Milton (2018) para abordar os recantos mais sombrios da alma, dominada pela destruição, ódio, rivalidade e inveja. Continua com a “Ilíada” de Homero (1982) cujo tema é a Guerra de Tróia, as “Considerações atuais sobre a guerra e a morte” quando Freud (2010) está preocupado com as guerras e traz sua ideia de um instinto destrutivo que habita os seres humanos - a Pulsão de Morte, conceito este desenvolvido pelo pai da Psicanálise de 1920 à 1938. A autora percorre, ainda que rapidamente neste capítulo, o cenário da Pulsão de Morte para alguns grandes nomes da Psicanálise mundial: Winnicott, André Green, Melanie Klein, Bion e Trinca. Neste último, a autora procura trazer não somente suas ideias sobre a Pulsão de Morte, como sua proposta metodológica de compreensão dos fenômenos complexos relacionados à destrutividade, tanto no mundo interno como no externo, instrumentalizando o pensamento clínico, a observação e a intervenção. Ana Maria Trapé Trinca aponta, no capítulo 10 “As relações com o ambiente e com os processos de desenvolvimento”, a importância das relações básicas entre mãe e filho nos processos psíquicos iniciais, com base no conceito de ser interior. Utilizando a perspectiva da Psicanálise Compreensiva, a autora aborda o desabrochar da individualidade, a formação do sujeito desde o estado fetal e a relação deste com seu primeiro objeto de amor: a “mãe”. Também alude sobre as tragédias iniciais e situações graves ocorridas na gravidez e primeira infância que podem interferir no processo de desenvolvimento do bebe, no “estado de ser bebe”, no despertar de seu ser interior. As contribuições de vários autores, como Walter Trinca, Bion, J. Wilheim, dentre outros, embasam este capítulo. No capítulo 11, “Enfim, o que é um modelo metodológico?” Walter Trinca sensibiliza o leitor para a importância da organização do pensamento clínico, a necessidade de se estabelecer critérios e sentido para a gama multifacetada de conteúdos trazidos pelos pacientes e apresenta uma sugestão de modelo metodológico: o compreensivo ou de processo de tipo compreensivo (Trinca, 2022), cujo propósito é englobar e compreender a pessoa em sua totalidade, tendo como base a distinção entre o ser interior e o self. Generosamente, traz vários recortes de casos clínicos que ilustram a teoria cujo modelo metodológico tem como pedra angular a experiência de contato com o ser interior e seus desdobramentos. Migliorini, no capítulo 12 com o título “A interioridade do psicoterapeuta no atendimento clínico”, se propõe refletir sobre a interioridade do psicoterapeuta e o lugar dos objetos não sensoriais no atendimento clínico, sobre a ótica do modelo psicanalítico compreensivo. O autor ressalta a qualidade simbólica dos objetos materiais, quer estejam impregnados ou liberados de sensorialidade. Elenca vários objetos, como o objeto fetiche, o autístico, o transicional, o tutor e o imaterial. Este último, objeto imaterial, ou não sensorial seria apreendido por meio do contato profundo de uma pessoa consigo mesma, sobre a ótica do modelo psicanalítico compreensivo. O autor também enfatiza a técnica do procedimento de Desenho-Estória (Trinca, 1976,2022) o qual possibilita a exploração da dimensão transferencial, intersubjetiva e interpessoal. Walter Trinca, no capítulo 13 com o título “Atitude clínica: a livre expressão”, traz o relato de um caso clínico, cujo atendimento contou com a aplicação do instrumento “Procedimento de Desenho-Estória (D-E). Neste é apresentado uma situação livre, aberta e disponível que propicia a emergência de conflitos e situações. Nas respostas da criança (10 anos) às cinco unidades do D-E, pode-se verificar a presença do ser que desenha, conta estórias, fala, é ouvido à luz da psicanálise compreensiva e se relaciona com o clínico de forma livre, e por meio de um setting facilitador da emergência do si mesmo!

No capítulo 14, “Atitude mental: a estética como aproximação”, Adriana Maria Nagalli de Oliveira aponta o processo analítico como o de: reviver experiências, suportar a não inclusão idealizada, reexperimentar o trauma e a construção efetuada pelo analisando de uma obra de arte aceita pelo analista no trabalho clínico. A autora busca a contribuição de vários psicanalistas que se debruçaram sobre a estética e o valor criativo, como o fez Freud, Klein, Bion, Meltzer dentre outros. Traz ainda casos clínicos que propiciam elencar considerações interessantes sobre a experiência clínica. No capítulo seguinte, de número 15, “Atitude sociopsicológica: a capacidade de holding e de consciência crítico-social”, Gallo-Belluzzo e Vaisberg ponderam sobre as capacidades, além dos conhecimentos teórico-clínicos, requeridos daquele que cuida da constituição de um ambiente clínico suficientemente bom. Dentre várias, as autoras elegeram duas capacidades como objeto de estudo, o que propiciou o maior aprofundamento desses quesitos: (a) a capacidade de sustentar o acontecer clínico (holding) como encontro inter-humano assimétrico e (b) a capacidade de consciência critico-social a qual encontra ressonância na psicanálise compreensiva, cujo termo em latim “comprehendere” significa abraçar, tomar e apreender o conjunto. Uma retrospectiva histórica pode ensejar a passagem da dimensão dicotômica da vida humana para a abrangência da dimensão sociocultural, fazendo toda a diferença no modo de olhar o sofrimento do paciente. No capítulo 16, “Atitude filosófica e artística: a busca de si mesmo na confluência dos campos filosófico, psicanalítico e estético”. Hamraoui, filósofo, professor e pesquisador utiliza o conceito de ser interior e as pesquisas de Walter Trinca para refletir sobre algumas questões confluentes aos campos filosóficos, psicanalíticos e estéticos. São algumas destas: a busca de si mesmo e o encontro da finalidade da própria prática que reside no alcance de uma verdade de si ligada a ideia de uma transcendência na experiência imanente da vida. No mesmo sentido, a prática da psicanálise compreensiva concebida como “arte interior” (Trinca, 2011) instaura um diálogo com a criação artística evocando, segundo o autor, os jogos de ecos e transferências entre os planos do visível e do invisível, nos campos estético e imaterial, nas práticas psicanalíticas, artísticas e na busca de respostas às questões filosóficas. Assim, Hamraoui retoma alguns dos principais conceitos em Trinca, da psicanálise compreensiva e as reflexões de grandes filósofos, pertinentes ao tema. Nas considerações finais apresentadas no capítulo 17, “Psicanálise compreensiva - conceituações, reflexões e discussões”, a amabilidade de Doris Lieth Nunes Peçanha transparece ao nos falar dos colegas acadêmicos Walter Trinca, ocupante da cadeira de número 40 da Academia Paulista de Psicologia e da saudosa Aidyl Macedo de Queiroz Pérez-Ramos, uma das fundadoras da APP e do Boletim. Vale salientar que Peçanha é membro titular da APP e ocupa a cadeira de número 19. Grande conhecedora dos conceitos da Psicologia Compreensiva, inclui o leitor utilizando o tempo verbal que acompanha a primeira pessoa do plural - o nós, e se permite falar das nossas emoções. Resume a obra de Trinca como uma possibilidade de usufruir da alegria, da harmonia, da saúde mental na experiência do viver. Assim também é a escrita da autora, mesmo para apontar os graus de distanciamento de contato com o ser interior, que acabam por resultar e caracterizar as perturbações psicológicas. É com alegria que destaca uma psicanálise, compreensiva, que inclui os aspectos sadios da personalidade. Revisita grandes autores: Rogers, Freud, Marx, Maslow, Pagès, Bion, Klein, dentre outros. A autora ainda nos fala que não basta compreender o psiquismo humano, com a profundidade atingida por Trinca - tarefa hercúlea esta, mas é necessário divulgar com apresentações diversas e que alcancem diferentes públicos. Nas conclusões gerais, Walter Trinca ressalta a importância de se distinguir o ser interior, do self, passando posteriormente, a analisar o que se passa no self, de forma clara, didática e precisa. O autor comprova que há uma ordem no estudo e compreensão das patologias, assim como na normalidade e ampliação da consciência, o que permitiu ao autor, identificar os elementos, diferenciá-los ou assemelhá-los, em cada caso, atinando assim, em um Modelo Geral para a organização do pensamento clínico em psicoterapia. No adendo, Walter Trinca discorre sobre “Formas de pensamentos em psicoterapia”. Esta pesquisa foi realizada na área de diagnósticos de personalidade e resultou na existência de pelo menos 15 formas de organização do pensamento, resultando na Tese de Livre-Docência do autor. Por último, mas não menos importante, encontramos no “Sobre os autores”, a apresentação por ordem alfabética, de cada um dos autores e sua trajetória. O sucesso do lançamento da obra, no I Simpósio Internacional da Academia Paulista de Psicologia (2024) e online pela Editora Vetor (2024), expressa o alcance que a perspectiva compreensiva tem tocado, como abordagem e organização do pensamento clínico. Para além disto, estão questões muito atuais presentes não só na clínica, como no dia a dia das pessoas: angústia, sentimento de inexistência X sentimento de existência, distanciamento de contato da pessoa com o ser interior, diferentes graus de sensorialidade, dentre outras tantas queixas. Contempla também as experiências de expansão da consciência, a saúde, a alegria, a beleza da vida, que estavam a margem nos modelos tradicionais psicanalíticos. O psicanalista Nasio pontua que “Um homem apaixonado, apaixona”. Assim é Walter Trinca: psicanalista, psicólogo, poeta, apaixonado pelo ser humano, apaixonado pelo que faz!

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