Apesar de ainda pouco estudada, a psicanalista húngara Margaret Mahler trouxe grandes contribuições para a compreensão do desenvolvimento mental. A partir de um método de pesquisa e tratamento inovador, denominado método “tripartite”1, ela elaborou uma rica teoria sobre o desenvolvimento mental precoce normal e patológico e revolucionou o atendimento psicanalítico de crianças nos Estados Unidos, como comenta Coates (2004).
Mahler publicou centenas de artigos, nos quais apresentou uma teoria densa e descritiva sobre o desenvolvimento dos três primeiros anos de vida da criança, sobre o que ela denominou “processo de separação-individuação” ou “nascimento psicológico da criança”. Além de caracterizar o que é típico, neurótico e borderline no desenvolvimento infantil precoce, sua teoria aborda a questão do risco de surgimento de psicoses ao longo dos cinco primeiros anos.
Três tipos de fenômenos e processos podem ser diferenciados no desenvolvimento psíquico infantil, segundo Mahler: aqueles que dizem respeito ao desenvolvimento psíquico precoce normal, ou seja, que podem ser considerados como saudáveis e típicos; os que configuram crises do desenvolvimento, ou seja, que caracterizam momentos aparentemente patológicos, mas que podem ser superados com os cuidados maternos, de forma a poderem ser incluídos dentro do desenvolvimento normal; e os que caracterizam formas precoces de psicoses, decorrentes de falhas, de origem genética ou ambiental no desenvolvimento psíquico precoce.
Inicialmente, a autora se destacou nos estudos sobre as psicoses precoces, sendo pioneira nos EUA na investigação da relação entre as fases iniciais do desenvolvimento emocional, especialmente a condição simbiótica da criança, e a qualidade psíquica da mãe. Entretanto, quando Mahler decide comparar o desenvolvimento das crianças em risco de psicose com crianças com desenvolvimento típico, percebe que há, neste último, fases supostamente patológicas, mas que configuram um fenômeno necessário ao desenvolvimento “normal”, tema central deste trabalho.
O presente artigo se propõe a apresentar a teoria da separação individuação da autora, problematizando alguns períodos específicos, denominados “crises do desenvolvimento” ou “perturbações naturais do desenvolvimento”, os quais, segundo ela, apresentam grande potencial para desencadear neuroses infantis, quando não vivenciados de maneira satisfatória. Pretende-se, com esse estudo, contribuir para a ampliação do conhecimento acerca da primeira infância, em particular para a elucidação dos impactos psíquicos de desequilíbrios naturais dessa fase, o que é importante, entre outras coisas, para evitar encaminhamentos equivocados pelos profissionais envolvidos nos cuidados das crianças desta idade.
O nascimento psicológico da criança
De acordo com Mahler, Pine e Bergman (1977), as perturbações inerentes ao desenvolvimento se diferenciam das patologias por serem transitórias, mostrando somente que, emocionalmente, a criança ainda está imatura para seguir para a próxima fase. É através dos cuidados maternos que as perturbações vão enfraquecendo e a fase subsequente pode ser vivenciada. Segundo ela, a crise de reaproximação é a perturbação mais importante descrita em sua teoria, embora essa inclua também a ansiedade de separação, a agressividade e o negativismo. No texto “O nascimento psicológico da criança” (1975/1977), a autora e seus colaboradores comentam que:
Parece ser um fato inerente à condição humana que, nem mesmo a criança mais normalmente dotada, com uma mãe otimamente disponível, é capaz de superar o processo de separação-individuação sem crises, sair incólume do esforço de reaproximação, e entrar na fase edipiana sem dificuldades de desenvolvimento (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 269).
As observações da autora sobre a relação mãe-bebê as levaram a descrever o desenvolvimento emocional segundo duas perspectivas: o que se espera como normal2 e o que pode ser considerado patológico. Sua teoria divide o desenvolvimento infantil em quatro fases: a “fase autística normal”, que corresponde ao primeiro mês de vida; a “fase simbiótica”, que vai do segundo ao oitavo mês; a “fase de separação”, que inicia no quarto mês e se estendo até o vigésimo quarto mês; e a “fase de individuação”, que se estende do vigésimo segundo ao trigésimo sexto mês. Esse desenvolvimento segue um percurso que vai desde a dependência absoluta, tanto orgânica como psíquica, até um funcionamento autônomo e supostamente independente, alcançado por volta dos três anos de idade (Ribeiro & Caropreso, 2018).
A ideia que permeou a teoria é a de que a criança deve constituir, ao longo dos três primeiros anos, uma constância de objeto emocional que a leve a “concretizar” a sua individuação. A ênfase na construção da relação objetal fica clara na seguinte passagem:
Sentimos que nossa contribuição ocupa um lugar especial no estudo psicanalítico da história da relação de objeto. Os primeiros escritos psicanalíticos demonstraram que o desenvolvimento da relação de objeto dependia das pulsões. Conceitos tais como narcisismo (primário e secundário), ambivalência, sadomasoquismo, caráter oral e anal e triângulo edipiano são relativos, simultaneamente, a problemas de pulsão e de relação de objeto. Nossa contribuição deve ser encarada como suplementar a essas, ao mostrar o crescimento da relação de objeto desde o narcisismo, em paralelo com a história de vida do ego em seus primeiros tempos, e no contexto do desenvolvimento libidinal concorrente (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 18)
A teoria da separação-individuação descreve minuciosamente como a relação de objeto se constitui desde a fase autística anobjetal, passando pelo narcisismo primário (fase identificada como simbiótica), sofrendo modificações ao longo da fase de separação, e atingindo a constância de objeto emocional no narcisismo secundário, ao fim da fase de individuação.
A fase autística ocorre nas primeiras semanas extrauterinas, sendo caracterizada pela incapacidade de distinguir dentro e fora de si mesmo, ou seja, de diferenciar entre as realidades interna e externa. Neste primeiro mês, o bebê se encontra em um estado de “desorientação alucinatória primitiva” (Mahler, 1967, p. 741). Ele está voltado para sua órbita onipotente e usa sua catexia para a equilibração homeostática. Nessa fase inicial, o estado de sono é consideravelmente maior do que o de vigília e o bebê alterna entre a sonolência e a satisfação das necessidades. A autora considera esse comportamento como envolvendo “reminiscências daquele estado primal de distribuição da libido predominante na vida intrauterina” (Mahler & Furer, 1966/1982, p. 66). Durante a gestação, toda a economia libidinal do bebê estaria em um equilíbrio “perfeito”, não sendo necessários esforços para amenizar excessos de qualquer ordem.
Devido a essas duas características citadas, a sobreposição do sono à vigília e o sistema libidinal fechado, a autora nomeia a primeira fase do desenvolvimento “autismo normal”. Segundo Mahler, esse nome se justifica pelo fato do bebê estar imerso em uma satisfação alucinatória de suas necessidades, como se essas satisfações fossem provenientes dele mesmo. Contudo, apesar de protegido, ele não está isolado dos estímulos externos e esta tendência inata do estado vegetativo, e o consequente estado psíquico de alucinação primária, deve ser gradualmente substituída por uma consciência sensório-motora. Em termos econômicos, o que se espera é que, com o desenvolvimento, ocorra um deslocamento da catexia dos órgãos em direção à periferia do corpo.
A partir do segundo mês, com o amadurecimento fisiológico e perceptivo e com a passagem da criatividade primária para a percepção da existência de algo para além do bebê, como uma fraca consciência de um objeto externo que satisfaz suas necessidades, inicia a fase de simbiose normal, na qual a criança sente que ela e sua mãe são um sistema onipotente compartilhando um limite comum (Mahler, 1967). A capacidade do bebê de perceber algo do mundo exterior o impulsiona à fase subsequente do desenvolvimento emocional primitivo.
Na fase simbiótica, então, há uma fusão entre mãe e bebê, não havendo limites bem definidos, para a criança, entre o seu corpo e o que não é seu corpo, ou o corpo da mãe (Mahler & Furer, 1966). Um dos aspectos essenciais da fusão existente entre a díade é o fato dela ser “onipotente, psicossomática ou ilusória com a representação da mãe e, particularmente, a ilusão de limites comuns dos dois indivíduos real e fisicamente separados” (Mahler, 1979/1982, p. 68). Seria para esse funcionamento psíquico fusional que o ego regrediria nos casos graves de psicose simbiótica.
Mahler, Pine & Bergman (1975/1977) consideram que “as imagens do objeto de amor, assim como as imagens do eu, inicialmente corporal e depois psíquico, emergem dos traços mnêmicos, cada vez mais abundantes, das experiências instintivas e emocionais prazerosas (boas) e desprazerosas (más), e das percepções a elas associadas” (Mahler, Pine & Bergman 1975/1977, p. 68). Assim, a mãe é a maior responsável, nesta fase, por fazer o bebê ir reconhecendo os estímulos externos e formando ilhas de memória. Os autores consideram que a consciência do mundo exterior emerge, gradativamente, à medida que o escudo protetor contra os estímulos externos vai se rompendo, devido ao deslocamento da catexia do centro para a periferia sensório-perceptiva.
Ao final da fase simbiótica, o ego rudimentar do bebê se inclina contra o aprisionamento da simbiose, buscando diferenciação, movimento este vivido de maneira conflitiva e não naturalmente simples. O bebê encontra-se em uma situação emocional de não mais querer estar fusionado, mas também não se sente seguro o suficiente para se afastar. Essa conduta conflitiva começa a ser facilmente observada aos cinco meses e se repete, ao longo do desenvolvimento dos primeiros trinta e seis meses de vida.
O período de exploração, localizado no clímax da fase simbiótica, em torno do quinto mês de vida, mostra uma sobreposição da primeira fase de separação (fase de diferenciação) com as etapas finais da simbiose. Assim, aos sete/oito meses, há um esforço do bebê para desligar-se da mãe, deslocando sua libido para objetos externos substitutivos da representação materna, o que inaugura a fase de separação-individuação.
Essa terceira fase é composta por dois momentos distintos que se entrelaçam no processo do desenvolvimento psíquico. Mahler conceitua separação como a saída da criança da condição fusional com a mãe, enquanto individuação é o movimento de consolidação da individualidade, de um Self. A separação advém da diferenciação e perdura durante todo o primeiro ano de vida, cedendo lugar, por volta do início dos dois anos, para que o processo de individuação aconteça (Mahler, Pine & Bergman 1975/1977). Na fase de separação-individuação, a adaptação do bebê ao mundo já não é exclusivamente feita pela mãe, mas também pelas aquisições cognitivas que o mundo externo possibilitou. A autora considera que a interação entre os cuidados protetores, a bagagem congênita e o registro de estímulos contribuem tanto para a formação do caráter, como para as condutas defensivas. A complexidade dos fenômenos psíquicos dessa fase, aliada ao fato de haver uma sobreposição de fenômenos característicos tanto da fase simbiótica quanto da fase de separação individuação, levaram Mahler, Pine & Bergman (1975) a subdividirem a fase de separação-individuação em quatro subfases. O objetivo dessa subdivisão foi propiciar uma descrição mais acurada dos processos do desenvolvimento emocional primitivo.
A primeira subfase, chamada de “diferenciação”, tem início por volta do quinto ou sexto mês. Nela, as funções locomotoras, desde o engatinhar até o andar livremente, ganham destaque, bem como a coordenação motora e visual. Durante esses meses, o bebê vai de uma completa dependência da mãe à independência para explorar o mundo ativamente. Ludicamente, ele se interessa por jogos de esconder e pela exploração do entorno aos pés da mãe.
A segunda subfase, de “treinamento”, sobrepõe-se à fase anterior por volta dos 8-10 meses, seguindo até os 15-18 meses. Nesta fase, a exploração do mundo animado e inanimado se intensifica, mas sua intolerância quanto a ser frustrado ou se machucar aumenta significativamente. É também nessa fase que a criança passa a aceitar substitutos de sua mãe, normalmente, familiares conhecidos. Mesmo ativa e absorta em suas explorações, a criança ainda tem a necessidade de, de tempos em tempos, retornar ao contato com a mãe para “reabastecimento emocional”.
A terceira subfase é chamada de “reaproximação” e começa quando a criança está apta a caminhar livremente. Ela ocorre, normalmente, entre 14-15 e os 22-24 meses. O caminhar livre é importante nesta fase porque marca o domínio do bebê sobre suas vontades, mas traz consigo a ansiedade de separação. Essa ansiedade, decorrente do distanciamento da mãe, é necessária para o processo de individuação, no entanto, quando ocorre em excesso, pode dificultar a superação dessa etapa. Diferentemente do que ocorre na subfase anterior, na subfase de reaproximação, a criança não mais aceita com facilidade substitutos, mantendo um domínio sob a mãe que, muitas vezes, se manifesta de maneira agressiva. Por exemplo, atirando objetos ou mesmo batendo. É também nessa etapa do desenvolvimento que os nomes “mim” e “meu” ganham força e adquirem sentido para a criança.
A quarta subfase, denominada fase de“consolidação da constância de objeto”, vai dos 22-24 meses aos 36 meses e envolve o desenvolvimento de funções complexas, como a comunicação, a fantasia e o teste de realidade. A presença constante da mãe ao final desta subfase já não é mais necessária, pois as funções egoicas já se estabeleceram. Para a autora, “essa fase de separação-individuação está próxima da experiência de um segundo nascimento, sendo [...] um rompimento da membrana simbiótica...” (Mahler, 1983, p. 8). Entretanto, este desenvolvimento não é linear e não acontece como uma sucessão encadeada de eventos, havendo momentos de crises e conflitos, que podem, equivocadamente, ser interpretados como patológicos (Pine, 2003). Tais momentos, segundo Mahler e seus colaboradoes, devem ser pensados como decorrentes de vulnerabilidades psíquicas inerentes ao desenvolvimento emocional precoce. Este desenvolvimento é marcado por oscilações e deslocamentos de catexias no campo da experiência com os objetos, sendo caracterizado por quadros inconstantes de tensões, ansiedades traumáticas, ansiedades intrapsíquicas, comportamentos regressivos, defesas exageradas ou humores depressivos (Mahler, Pine & Bergman 1975/1977).
Foi a partir das observações da díade mãe-bebê que Mahler, Pine & Bergman (1975) perceberam determinados momentos do desenvolvimento normal em que estas respostas de oscilação de catexia aconteciam com mais vigor em termos comportamentais e adaptativos. Segundo a autora:
Como clínicos psicanalistas, queríamos descobrir que curso toma o processo de separação-individuação ‘normal’. Mas também esperávamos descobrir que tipo de variações, pequenos desvios fronteiriços, iriam exibir estes bebês normais com suas ‘mães costumeiras e zelosas’ no seu desenvolvimento mais inicial (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 240).
Além disto, Mahler estava preocupada em decifrar como os processos adaptativos da criança aconteciam diante das oscilações tensionais em cada fase e subfase do desenvolvimento normal. Buscava identificar em quais momentos deste desenvolvimento normal as vulnerabilidades eram mais evidentes e o que atrapalhava ou contribuía para a adaptação da criança na subfase posterior.
Mahler comenta que “em nosso trabalho clínico, assim como em nossas observações dos pares mãe-criança, para nossa própria surpresa, nos deparamos com conflitos de desenvolvimento específicos de uma fase, apesar de individualmente variáveis.” (Mahler, Pine & Bergman, 1950/1977, p. 270). A autora acrescenta que o desenvolvimento normal, especificamente a fase de separação-individuação, permite que a criança seja sucessivamente confrontada com situações de mínimas perdas de objeto, em contraponto ao temor patológico das grandes perdas de objeto.
A seguir, vamos nos deter na análise destes momentos de conflitos que são identificados pela autora como “ansiedade de separação” e “crises de reaproximação”, as quais se intercalam entre as fases simbiótica e a individuação. Abordaremos também respostas específicas que não revelam grandes distúrbios tensionais, mas que se apresentam como comportamentos aparentemente “desviantes”, como a agressividade e o negativismo (Mahler, 1965).
Crise da ansiedade de separação
A separação é um movimento natural, que acontece, pela primeira vez, no nascimento. A capacidade libidinal da mãe de estar disponível emocionalmente ao filho dependente é o que facilita o desenvolvimento dessa potencialidade inata, diferentemente do que se pensa muitas vezes. Assim, espera-se que a evolução psíquica neste sentido aconteça naturalmente, de forma que sua ausência pode ser uma indicação de que ocorreu uma falha no desenvolvimento (Mahler, 1963). Mahler, Pine & Bergman esclarecem que:
Mantemos o ponto de vista segundo o qual essa fase de separação-individuação é crucial em relação ao ego e ao desenvolvimento das relações de objeto. Alegamos também que o medo característico deste período é a ansiedade de separação. Esta ansiedade de separação não é sinônimo do medo de aniquilação pelo abandono. É uma ansiedade menos abruptamente esmagadora do que a ansiedade da fase anterior. No entanto, é mais complexa, e mais tarde esperamos elaborar melhor essa complexidade (Mahler, Pine & Bergman, 1950/1977, p. 22).
Spitz (1987) localiza a ansiedade de separação como a primeira experiência real de ansiedade, pois ela acontece depois da fase de diferenciação. Baseando-se neste autor, Mahler & Furer (1966) pontuam que há uma ambivalência intrínseca à ansiedade de separação: por um lado, o bebê encontra-se em uma unidade gratificadora, com movimentos adaptativos mínimos e pouca demanda intrapsíquica. Por outro lado, o bebê precisa lançar-se à separação para sair desta condição fusionada, supostamente, aprisionadora. Para isso, precisa romper a barreira simbiótica com o objeto mãe e renunciar à fantasia onipotente das gratificações vindas desta fusão, em busca de uma autonomia secundária (Mahler & Furer, 1966).
O movimento ambivalente do bebê em relação à simbiose, estar fusionado e sair desta condição, renunciar à satisfação já conhecida para lançar-se à busca por gratificação ainda sem objeto conhecido, acontece com desgaste energético à economia psíquica e é justamente por isso que tais momentos são identificados como fases de maior tensão no desenvolvimento e de maior vulnerabilidade.
Por volta dos seis meses, o bebê inicia efetivamente um movimento de separação, diferenciando o corpo da mãe de seu corpo, o que Mahler denomina “desabrochamento”. Ele está mais alerta aos estímulos externos e sua capacidade sensório-perceptiva se expande de dentro do próprio organismo para o mundo externo, sendo tal movimento expresso pelos atos da criança de empurrar o corpo da mãe para melhor observá-la, puxar seu cabelo e passar longos períodos a focalizar o rosto materno, quase que o decifrando (Mahler, Pine & Bergman 1975/1977). Esta exploração do corpo da mãe (cabelo, nariz, boca...) e de seus objetos usuais (brinco, anéis...) forma ilhas de memórias afetivas e cognitivas, levando a criança à comparação do familiar com o não-familiar, e à criação de padrões de confrontação. Aos 7, 8 meses, o bebê adquire uma predileção por tudo o que é familiar à mãe e assume uma reação aversiva ao que não é familiar. O desabrochamento e o consequente reconhecimento da mãe, aliados ao processo exploratório e ao confronto entre o familiar e não familiar, faz com que o desenvolvimento psíquico precoce chegue a um período de tensão, denominado “reações e ansiedade relacionados a estranhos” (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 76).
Dessa forma, na diferenciação, o bebê vivencia sua primeira crise de ansiedade de separação; vivencia uma “baixa geral da atividade” (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 250). Os autores supõem que, na ausência da mãe, as crianças redirecionam a catexia para o próprio corpo, novamente identificando-se com o objeto e mantendo-se em estado de choro ou de mínimo contato com o mundo externo. Mahler chega a comparar esse estado de baixa geral de atividade a uma “depressão anaclítica em miniatura” (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 98), fazendo uma alusão ao conceito de depressão anaclítica de Spitz (1987).
Bergman (1993) comenta que, nesta fase, o brincar prazeroso do bebê está no jogo “peek-a-boo” (Bergman, 1993, p. 362), que consiste em esconder o rosto para depois ser encontrado, quando o rosto for destampado. Desta forma, os primeiros indícios da separação são experimentados e, se tudo se desenvolver de maneira saudável, após a ansiedade de separação e a locomoção estabelecida, esta experiência será retomada na brincadeira “hiding and finding” (Bergman, 1993, p. 362). Bergman esclarece o seguinte sobre a evolução lúdica relacionada à ansiedade da separação:
Os jogos de esconder fomentam o estabelecimento da diferenciação eu-outro, mas ao mesmo tempo só podem ser jogados depois que a relação com a mãe tenha sido estabelecida de forma suficientemente segura para que o retorno dela, após uma separação, possa ser antecipado (Bergman, 1993, p. 363).
A ansiedade vivida pelo bebê próximo ao oitavo mês foi descrita por Spitz (1987), quem a denominou “ansiedade dos oito meses”. Neste momento, segundo o autor, a criança rejeita um estranho por este não apresentar os traços de sua mãe. Quando se encontra na presença de alguém que não consta em seu arsenal mnêmico, ela reconhece a ausência da mãe, o que faz emergir o sentimento de que ela a deixou e a rejeição a essa pessoa.
Spitz (1987) aponta, e Mahler reitera, que a resposta de ansiedade da criança pode aparecer diante de estranhos com quem nunca viveu situações desagradáveis anteriormente. Para o bebê, é estranho todo aquele diferente da mãe, mesmo que seja familiar ao convívio da criança. Nesse movimento de rejeição a partir da comparação com a mãe, há um reflexo do estabelecimento real da relação objetal, sendo a mãe, ou a função materna, o objeto de amor do filho. O bebê pode ter diversas experiências desagradáveis junto à mãe e, ainda assim, manifestar ansiedade frente a outros com quem não há este tipo de registro.
As respostas de ansiedade podem se apresentar de diferentes maneiras e com qualidade e intensidade diversas. Mahler concluiu que elas surgem como consequências das experiências vividas pela criança ao longo das fases que antecedem o oitavo mês e que geraram um sentimento de expectativa confiante ou desconfiança básica (Benedeck,1938).
A ausência da mãe, causando desconforto e a necessidade da criança de separar-se dela, juntamente com todo o quadro de ansiedade frente a estranhos, impulsiona à vivência dos fenômenos transicionais descritos por Winnicott (2000) e situados por Mahler no momento limítrofe entre a simbiose e a fase de separação. Esses fenômenos acontecem entre os 4 e 12 meses de idade, atingindo seu clímax por volta dos oito meses, e são impulsionados pelas frustrações impostas pela mãe. Mahler se apropria dos argumentos de Winnicott (2000) quando esse autor diz que a frustração faz com que haja um tempo de espera entre a necessidade e a satisfação e, portanto, propicia a percepção de que há algo para além da sua capacidade criativa, ou seja, que há um mundo externo. Ele afirma que: “A mãe suficientemente boa, [...], parte de uma adaptação quase total às necessidades de seu bebê, e com o passar do tempo adapta-se cada vez menos inteiramente, de acordo com a capacidade do bebê de lidar com suas falhas” (Winnicott, 2000, p. 326).
Todos esses acontecimentos preparam a criança para a chegada do oitavo mês, época em que, de fato, ela começa a se separar de sua mãe. Mahler, Pine & Bergman (1975/1977) contribuem para a compreensão do fenômeno transicional descrito Winnicott quando introduzem uma visão motora desta fase, dizendo que, neste momento, a criança, estando apta a engatinhar, se movimenta para longe da mãe e retorna quando a distância ou o tempo sem sua presença se faz angustiante, numa tentativa de reabastecimento emocional. O mesmo ocorre quando a mãe, por necessidades pessoais, se ausenta, da mesma maneira que o brinquedo sumia e aparecia, causando desconforto, ansiedade e insegurança à criança.
No entanto, esses sentimentos devem ser superados pelo bebê para que ele se separe da mãe e se individualize. É para ajudar nessa superação que há a escolha do “objeto transicional”, ou objeto “não-eu”, descrito por Winnicott (2000). Esse objeto supre uma lacuna no relacionamento mãe-bebê, oferecendo segurança quando a distância da mãe produz sentimentos de desconforto, pois ele se constitui, de maneira simbólica, como a representação interna da presença materna. Assim, a grande função do objeto transicional é proporcionar à criança segurança e alívio na vivência da angústia de separação. Segundo Mahler & Furer (1966), “este objeto ou gesto estereotipado não faz mais que, enquanto objeto transicional, facilitar a constância do objeto” (Mahler & Furer, 1966, p. 560).
Spock (1963), autor a quem Mahler faz diversas referências ao longo de sua obra, comenta que a eleição do objeto transicional se dá por uma necessidade psíquica de prazer. Segundo ele, este objeto produz um investimento libidinal em representações que num momento anterior foram prazerosas, diminuindo o potencial ansiogênico desta fase. À medida que cresce e assume-se como diferenciada da mãe, vai havendo um desprendimento também do objeto transicional por este não ser mais tão necessário, uma vez que estar longe da mãe não causa tanto desconforto quanto antes. Porém, Winnicott (2000) aponta que, em qualquer momento da vida, a criança pode retornar ao objeto transicional, o que ocorrerá quando alguma situação se fizer ameaçadora e despertar a mesma angústia experienciada na vivência de separação.
O oitavo mês se faz, então, de grande importância no desenvolvimento da criança, visto que ele é o marco de um movimento de separação e o início do processo de individuação, que somente se completa, segundo Mahler, Pine & Bergman (1975/1977), por volta dos três anos de idade. O impulso de separar-se da mãe, ainda que angustiante, é necessário à criança que, em pleno desenvolvimento de sua potencialidade locomotora, testa sua capacidade de se manter longe da mãe. Primeiro engatinhando e depois andando, ela vai para longe e retorna quando achar que precisa ter a figura da mãe real aos olhos. A autora chama isso de treinamento e reaproximação, movimento esse que só finaliza quando a criança se sente segura de que a mãe continua existindo, mesmo quando ela não consegue vê-la.
Com a locomoção acontecendo por volta de dez meses através do engatinhar, a ansiedade de separação atinge níveis um pouco mais tensos. A criança muitas vezes se sente desconfortável ao se distanciar fisicamente da mãe e retorna, de tempos em tempos, ao seu contato próximo. É importante para a qualidade da ansiedade de separação a maneira como a mãe se apresenta disponível neste reabastecimento. Essa disponibilidade pode facilitar ou prejudicar o processo adaptativo da criança.
Segundo Mahler (1982):
quanto menos a mãe se tornar disponível emocionalmente, mais fará com que o bebê a solicite de maneira insistente e mesmo desesperada. Em alguns casos, este processo exaure tanto a energia de desenvolvimento disponível, que não deixa energia neutralizada suficiente para a evolução de muitas funções ascendentes do ego (Mahler, 1982, p. 21).
Entretanto, quando a satisfação da liberdade exploratória do ambiente prevalece, satisfação que Greenacre (1960) descreve como um caso de amor com o mundo, a criança pode suportar a ausência da mãe e aceitar substitutos maternos como cuidadores (Mahler, Pine & Bergman 1975/1977).
Nos últimos anos de seus estudos, o que Mahler, Pine & Bergman (1975) apontam como interessante sobre a ansiedade frente a estranhos é que o afeto de ansiedade não está sozinho nesta fase, mas está acompanhado de um aspecto cognitivo de curiosidade e interesse diante do estranho. Frente a isto, compreendemos melhor que a criança, nesta fase, aceita ser cuidada por outro que não a mãe, pois o estranho lhe desperta algum interesse exploratório. Entretanto, nem sempre ela suporta esse cuidado e há variações, que dependem da qualidade psíquica estabelecida pela díade. O infante pode lançar mão do mecanismo da ambitendência para se defender da ausência materna e, ao fazer isso, deslocar o afeto negativo da imagem da ausência da mãe para o cuidador, não aceitando sua presença (Mahler & Mc Devit, 1968).
Uma importante descoberta é que “no desenvolvimento normal, reações a estranhos, com uma estrutura diferente daquelas que aparecem entre os sete e nove meses de idade, ocorrem de novo no início da subfase de reaproximação, isto é, aos quinze meses ou depois” (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 249). Segundo os autores, quanto mais velha a criança, maior sua vulnerabilidade diante da ansiedade de separação, pois sua inteligência simbólica lhe permite perceber, de forma cada vez mais clara, seu desamparo frente à separação física e psíquica da mãe.
Na idade de dez/onze meses, a criança está em plena subfase de treinamento, o que aparentemente, de acordo com a teoria de Mahler, não causa grande impacto na avaliação das crises do desenvolvimento. Entretanto, há um detalhe que não deve passar despercebido que é a “impermeabilidade relativamente grande em relação a batidas e quedas e outras frustrações, como ter um brinquedo tirado por outra criança” (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 94). Essa intolerância frente ao objeto que causa frustração aponta para um dos comportamentos aparentemente críticos do desenvolvimento.
Outro aspecto relacionado à ansiedade de separação e que se manifesta durante a terceira subfase, a de reaproximação, é a dificuldade de dormir devido ao conteúdo ansiogênico que este simples ato suscita. Segundo Mahler:
Desde que o conflito de separação-individuação alcance o auge na terceira subfase, adormecer é característica de regressão e experiência de separação. Deste modo, distúrbios de sono são indicadores de progressiva individuação da criança e sua defesa contra a ameaça de fusão simbiótica representada pelo mesmo (Mahler, 1965, p. 488).
Anna Freud (1982) comenta que, durante o segundo ano de vida, adormecer deixa de ser um processo natural para o corpo físico cansado da criança e passa a ser um evento intrapsíquico. A ansiedade gerada a partir da possibilidade de ruptura com o objeto faz a criança permanecer em estado de vigília. Entretanto, a autora ressalta que “tais manifestações desaparecem de novo, espontaneamente, quando as relações objetais da criança se tornam mais seguras e menos ambivalentes...” (A. Freud, 1982, p. 141).
Sobre o surgimento de psicose em crianças pequenas, Mahler (1983) aponta que essa patología só se manifesta em crianças cujos psiquismos são vulneráveis ou nos casos em que o ego rudimentar passa por situações de intenso desprazer e acúmulos graves de tensão, perdendo a capacidade de utilizar o objeto gratificador de maneira saudável. Assim, para ela, a psicose resultaria de um desenvolvimento emocional insatisfatório, no qual o processo de separação e individuação não tivesse sido alcançado, ou não tivesse sido plenamente consolidado. As condições ambientais e, em especial, a qualidade dos cuidados maternos, desempenhariam papel essencial nesse processo.
Mahler (1983) descreve duas formas de psicoses infantis, a “autista” e a “simbiótica”, as quais estão relacionadas com a maneira como a relação objetal se desenvolve nas fases autística normal e simbiótica, respectivamente. Na psicose autista infantil, a criança se apresenta como se nunca tivesse chegado a perceber a mãe como um objeto emocionalmente representativo. Na psicose simbiótica, por sua vez, há a permanência de uma relação simbiótica mãe-bebê. Essa fase objetal não é ultrapassada e a criança funde sua própria imagem com a imagem mental da mãe, permanecendo em uma relação não diferenciada. Dessa forma, a psicose seria um quadro de regressão emocional às fases primitivas do desenvolvimento.3
No entanto, em um curso saudável do desenvolvimento, em torno dos doze meses, tendo alcançado a sensação de liberdade do caminhar livre e ereto, a criança que teve suporte emocional materno suficiente para superar a fase da ansiedade de separação, segue rumo à subfase de treinamento. Após a vivência do enamoramento pela locomoção, alguns fatores farão com que a criança novamente tenha um aumento de tensão libidinal, passando pelos fenômenos descritos a seguir.
Crise de reaproximação, agressividade e negativismo
Ainda na fase de separação, concomitantemente ao momento da ansiedade de separação, o bebê, ou o toddler,4 inicia a segunda subfase da fase de separação, denominada por Mahler, Pine & Bergman (1975) “treinamento”. Nela, há um intenso interesse pelos objetos inanimados e a catexia direcionada à mãe, própria da ansiedade de separação, é deslocada para os objetos do mundo. O bebê mantém contato exploratório com estes objetos através das mãos e boca, o que ainda o assegura no nível de satisfação oral, próprio do princípio do prazer (Mahler, Pine & Bergman, 1975).
A autora alerta que, quando a subfase de treinamento acontece de forma precoce, independentemente do motivo, o interesse pelo objeto externo é empobrecido. Isto faz com que o caráter exploratório da fase não alcance seu objetivo pleno, deixando a mãe no lugar de investimento quase maciço de libido objetal, dificultando o processo de separação (Mahler, Pine & Bergman, 1975). Em compensação, nos casos em que a fase simbiótica se estende para além do esperado, a locomoção é de grande valia para despertar o interesse e a curiosidade do bebê pelo mundo além da díade.
Na subfase normal de treinamento, observa-se como característica central “um elevado investimento no exercício das funções autônomas, especialmente da motilidade, até uma quase exclusão ocasional do interesse aparente pela mãe” (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 91). De tempos em tempos, a criança retorna à proximidade física da mãe, se reabastece emocionalmente, afastando-se em seguida novamente.
O andar ereto, depois dos 10/12 meses, altera a perspectiva de mundo do bebê, inaugurando uma nova relação de autonomia e narcisismo primário. Nesse momento, há um investimento em suas funções egoicas para absorver tudo o que a autonomia do livre caminhar proporciona (Mahler, Pine & Bergman, 1975). Entretanto, quando tudo parece estar em plena harmonia psíquica, com o toddler experimentando sua máxima autonomia, inicia-se a subfase denominada “reaproximação”, por volta dos 15 meses.
Com a locomoção ereta e livre, a criança percebe, cada vez mais, a separação física entre ela e a mãe. Ao mesmo tempo, com o desenvolvimento de funções cognitivas, a criança percebe com mais afinco que houve, de fato, uma separação e essa consciência aciona os mecanismos rudimentares de defesa do ego com o objetivo de resistir a essa separação. A autora localiza a crise de reaproximação da seguinte maneira na subfase de reaproximação:
O toddler gradualmente percebe que estes objetos de amor (os pais) são indivíduos separados, com seus próprios interesses particulares. Ele deve, gradual e dolorosamente, renunciar à ilusão de sua própria grandeza, frequentemente por meio de brigas dramáticas, com a mãe - em menor grau, nos parece, com o pai. Esta é uma encruzilhada por nós denominada ‘crise de reaproximação’ (Mahler, 1972, p. 495).
Assim, a subfase de reaproximação é caracterizada por uma vulnerabilidade psíquica, um decréscimo significativo da impermeabilidade à frustração, negativismo e agressividade, bem como por uma incompatibilidade de comunicação entre mãe e bebê pois, muitas vezes, o comportamento regressivo e exigente da criança não é bem compreendido pela mãe. Mahler, Pine & Bergman (1975/1977) afirmam o seguinte sobre esse suposto retrocesso no desenvolvimento:
Foi formulada uma hipóteses segundo a qual, em alguns toddlers, o ímpeto gerado pela maturação, que atinge a função locomotora e outras funções autônomas do ego, é concomitante a um atraso na prontidão emocional para funcionar separado da mãe, e produz um pânico organísmico cujo conteúdo mental não é prontamente discernível, porque a criança (ainda no estágio pré-verbal) não consegue comunicar-se (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 23).
A autora explica que aquele bebê que docilmente vinha ao encontro da mãe para abastecer-se emocionalmente, a partir dos 15 meses, inicia um movimento novamente de ambitendência. Ou está numa busca deliberada pela mãe, dando a impressão de que toda aquela autonomia e independência adquirida na fase anterior foi perdida, ou chega próximo à mãe e recusa o contato físico, num mecanismo de punição àquela que não estava presente todo o tempo, mostrando sua ambivalência (Mahler, Pine & Bergman,1975/1977).
Outro padrão estabelecido nesta idade é o de “perseguição e fuga” (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 101). Neste padrão, o toddler persegue a mãe, vigiando tudo o que ela faz ou onde ela vai, indicando uma tentativa de novamente se fusionar à díade, ou foge dela, indicando um medo de novamente ser incorporado à fusão da díade e, com isso, perder a autonomia que já foi conquistada com a livre locomoção e separação. Segundo a autora, parece fazer parte da perseguição o fato da criança manter-se agarrada à mãe, de forma a impedir sua partida. Quando o intento não obtém sucesso, há um embotamento inicial na criança, o qual tira dela a possibilidade de investir em brincadeiras ou em um novo objeto. Muitas vezes, ocorre o adormecimento do toddler, como uma reação psíquica próxima ao luto. Em alguns casos, especialmente naqueles em que a disponibilidade materna operou de maneira mais satisfatória, a criança consegue avançar do estado de embotamento e tristeza para a substituição da mãe por outro cuidador durante determinado espaço de tempo (Mahler, Pine & Bergman, 1975//1977).
Como este mecanismo de perseguição e fuga parece possuir um objeto já delineado e objetivo, no caso a mãe, a função psíquica evolui da ambitendência para a ambivalência, abordada bastante por Melanie Klein (Mahler, Pine & Bergman,1975/1977). Na ambitendência, a criança estaria numa posição dependente, usando a clivagem como mecanismo de defesa primordial. Na ambivalência, ela já percebe a mãe como objeto externo integrado, a quem pode amar e odiar quando na presença gratificadora ou na ausência frustrante (Klein, 1981).
A passagem da ambitendência para a ambivalência ocorre na transição da “posição esquizo-paranóide” para a “posição depressiva”, descritas por Melanie Klein (1946/1969). Na primeira posição, os objetos são divididos entre os bons e os maus e os afetos são direcionados separadamente a esses objetos. Para o bebê, a mãe boa, gratificante, não é a mesma mãe má, que frustra. Na segunda posição, a criança se torna capaz de perceber que os mesmos objetos podem ser fontes de prazer ou desprazer, de forma que surge a ambivalência, ou seja, sentimentos opostos são direcionados ao mesmo objeto. Segundo Mahler e colaboradores, nessa etapa, ao mesmo tempo em que a criança vive um conflito entre deixar a mãe e estar presa à díade, ela tem a ilusão de que a mãe quer deixá-la, fato que é confirmado quando não encontra a disponibilidade materna em seu retorno ao contato físico. É como se a criança e a mãe experimentassem a perda da relação anteriormente vivenciada, elevando o nível de ansiedade, principalmente do toddler (Bergman; Harpaz-Rotem, 2004). Mahler comenta que “quanto menos emocionalmente disponível for a mãe na época da reaproximação, mais insistente e mesmo desesperadamente vai o filho esforçar-se por conquistá-la” (Mahler, Pine &Bergman, 1975/1977, p. 104).
Devido a esse conflito e ao receio de ser invadido em sua autonomia, a criança de 15 a 24 meses apresenta uma tendência à agressividade, reagindo de maneira desproporcional, principalmente quando recebe um não. Segundo a autora, neste caso, a comunicação verbal é de grande importância no estabelecimento dos limites simbólicos entre o que é permitido à criança e o que não é (Mahler,Pine & Bergman, 1975/1977).
Mahler (1974) nos alerta que, ao mesmo tempo em que a agressividade pode ser dirigida a um objeto externo, entendendo-se objeto também como pessoa, ela pode voltar-se contra o próprio self, de forma que a criança agrida a si mesma, mecanismo este compreendido como um protótipo da formação do superego. Neste mesmo sentido, Spock (1965) diz que, chegados os dois anos de idade e com o senso de identidade cada vez mais claro, há uma liberação da energia agressiva. Eventualmente, esta agressividade hostil pode ser contra outra criança que a persiga ou que dispute brinquedos e objetos. A agressividade contra a mãe, nos casos em que esta frustra o filho, parece ser menos percebida. Segundo o autor, a criança teme perder o amor e a segurança vindos da mãe, inibindo o impulso agressivo e hostil a ela direcionado.
Mahler, Pine & Bergman (1975) constataram que quase todas as crianças, próximas aos 24 meses de vida, observadas durante a subfase de reaproximação, reagiam com acessos de cólera diante de estranhos que se aproximavam ou que se propunham a ajudá-las quando caíam ou se machucavam. Podemos inferir que essa resposta consiste em uma reação psíquica à dúvida entre seguir ou paralisar na fusão simbiótica. Algumas crianças aceitavam o pai como uma pessoa possível de se estabelecer vínculo na ausência da mãe. Segundo os autores, o estranho representa a concretização da ilusão fortemente abalada do bebê acerca de sua fusão com a mãe.
Comportamentalmente, podemos identificar a crise de reaproximação como uma “insatisfação geral, insaciabilidade, com uma propensão a rápidas oscilações de humor e a acessos temperamentais de raiva” (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 122). Outro comportamento observado com frequência é a indecisão, a hiperatividade e a agitação, que parecem apontar para uma dificuldade de suportar a tristeza oriunda da perda da relação simbiótica.
Um pouco depois dos 24 meses, além de todas as questões intrapsíquicas, a criança vivencia uma maturação orgânica relacionada ao controle dos esfíncteres. Nessa fase, ela internaliza constantemente a aprovação ou reprovação dos pais pela maneira como age com os excrementos. Desta internalização, rudimentos do superego vão se constituindo, o que, consequentemente, eleva os padrões de ansiedade, pelo fato da criança ter que responder de determinada maneira esperada e não mais poder desfrutar do princípio do prazer. Esta nova experiência corporal pode intensificar a agressividade. Mahler & La Pierre (1965) esclarecem o seguinte:
Os primeiros sinais de agressividade dirigida, nessa fase, coincidem com a fase anal; igualmente cresce o sentimento de posse e impulsiva avidez do bebê em relação à mãe. Nesse período a necessidade do bebê é especificamente por sua mãe; os substitutos não são aceitos com facilidade, especialmente quanto ao contato físico (Mahler & La Pierre, 1965, p. 487).
A saída da crise de reaproximação está no que foi chamado “padrões individuais de reconciliação” (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 128). Entretanto, Mahler e seus colaboradores mantiveram a hipótese de que a crise de reaproximação se configura como um conflito intrapsíquico não totalmente resolvido ao longo da vida, interferindo, inclusive, na qualidade da resolução do Complexo de Édipo e nos demais momentos de rupturas e distanciamentos. Dizem os autores:
A tarefa empreendida pelo desenvolvimento, no auge do esforço de separação-individuação durante a subfase de reaproximação é imensa. Conflitos e pressões orais, anais e genitais precoces se encontram e se acumulam nesta importante encruzilhada do desenvolvimento da personalidade. Há uma necessidade de se renunciar à onipotência simbiótica e também um aumento na consciência da imagem corporal e da pressão vinda do corpo, especialmente nos pontos em que houve libidinização de uma zona. A crença na onipotência materna parece abalada (Mahler, Pine & Bergman - 1975/1977, p. 135).
Segundo Mahler, a crise de reaproximação tende a chegar a um fim. Ela afirma que é através dos processos intrínsecos à fase de reaproximação, especialmente à crise de reaproximação, que o “sentimento de identidade, a representação do self, como distinto da representação de objeto, começa a consolidar-se” (Mahler, 1971, p. 411). Entretanto, quando tudo parece se acalmar, com a linguagem sendo o intermediador das relações de agressividade, um último e derradeiro momento de crise ocorre, o “negativismo”, ou seja, uma fase em que a criança frequentemente nega o que lhe é apresentado para, com isso, impor limites ao outro, ratificando a individuação desta forma.
Segundo Anna Freud (1951), o negativismo faz parte do desenvolvimento normal da criança entre 24 e 36 meses, etapa em que ela aprende a falar e a andar. Ele aponta para a marcação da separação, comunicando, através deste comportamento, que ninguém há de invadir a membrana imaginária que faz continente na criança em processo de individuação. Muitas vezes mal interpretado pelos cuidadores, o negativismo mostra uma forma de neutralizar as intensas variações de catexias quando a percepção cognitiva e psíquica da separação e da individuação, com a constância de objeto emocional, é colocada novamente em risco pela invasão do domínio externo.
Considerações finais
Ao longo desses meses iniciais, desde a ansiedade de separação até a crise de reaproximação e a consequente construção da constância de objeto emocional, o toddler passa, gradualmente, da regência do princípio do prazer para a do princípio de realidade. O narcisismo primário e a onipotência devem ser substituídos pelo funcionamento autônomo e individuado da criança, bem como seu impulso agressivo deve ser neutralizado pelos mecanismos egoicos desenvolvidos até os 3 anos.
Muito do que acontece ao longo dos primeiros 36 meses de vida apontam para uma fragilidade psíquica que, quando não conduzida de maneira satisfatória, pode gerar casos de neuroses ou transtornos limítrofes. Mahler identifica a insuficiência emocional na vivência da crise de reaproximação como causadora de distúrbios neuróticos na criança, uma vez que a ansiedade e a agressividade experimentadas nesta fase se mantêm como crivos para vivências ansiogênicas posteriores, como no Complexo de Édipo (Mahler, Pine & Bergman 1975/1977). Ela admite que, quando uma dessas fases de vulnerabilidade não recebe a devida atenção e disponibilidade por parte do cuidador, ali pode se estabelecer um ponto de defesa neurótica. Desta forma, sempre que a criança for exposta a situações semelhantes, como à separação, ela terá um comportamento exacerbado, bem além do que se espera como resposta saudável. Também pode ocorrer do ego rudimentar da criança precisar se adaptar a situações às quais ela ainda não é capaz, tendo que avançar no desenvolvimento das defesas antes de desenvolver estruturas psíquicas e orgânicas para tal. A autora acredita que tais situações podem também ser desencadeadoras de neuroses, pois exigem do aparato psíquico e físico mais do que ele pode elaborar. Nestes casos, Mahler sugere que o embotamento afetivo emerge como um traço neurótico específico.
A autora comenta que “a predominância do prazer no funcionamento com interdependência, em atmosfera de disponibilidade libidinal materna, permite à criança dominar aquela quantidade de ansiedade de separação que parece adquirir a cada novo passo em direção à atuação individual” (Mahler, 1963, p. 26). Isso “permitiria que os aparatos do ego atingissem uma autonomia secundária, e, finalmente, permitiria uma catexia do mundo dos objetos com um certo grau de libido neutralizada promovendo, desta forma, a sublimação” (Mahler, Pine & Bergman, 1975/1977, p. 268).
Assim, para Mahler, Pine & Bergman (1975/1977), a relação materna teria um potencial de superação desses momentos de crises, o que dependeria da “capacidade” da díade de acolher, estar emocionalmente disponível, e facilitar o avanço da criança para a próxima etapa do desenvolvimento. Sobre a estruturação da personalidade da mãe, Mahler comenta que uma mãe depressiva e psicoticamente perturbada, dificilmente estará disponível emocionalmente para traduzir e compreender as demandas do bebê. Ela considera que o bebê precisa estar apto a preencher a fantasia inconsciente da mãe para que ela possa se disponibilizar a ele.
O pensamento de Mahler nos permite entender que alguns momentos de crise devem ser compreendidos como inerentes ao desenvolvimento. O desconhecimento dessas crises faz, muitas vezes, com que certos comportamentos sejam, equivocadamente, julgados como patológicos e esse diagnóstico equivocado pode expor a criança a tratamentos desnecessários. Por esse motivo, o conhecimento da teoria de Mahler pode contribuir para o trabalho dos profissionais da primeira infância, ao permitir identificar os sinais da vivência destas fases e propiciar a melhora da qualidade da relação mãe-bebê, fator fundamental para que as crises sejam superadas e quadros psicopatológicos sejam evitados.














