SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.25MAL-ESTAR NA SOCIEDADE GERENCIAL: REFLEXÕES ACERCA DA GOVERNAMENTALIDADE NEOLIBERAL E O CULTO DA PERFORMANCE“SOMOS REIS MANO”: ESTUDO DE REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA SOCIEDADE NO RAP BRASILEIRO índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Revista Psicologia Política

versão On-line ISSN 2175-1390

Rev. psicol. polít. vol.25  São Paulo  2025  Epub 08-Dez-2025

https://doi.org/10.5935/2175-1390.v25e25199 

Artigo

DOS AFETOS À ESCREVIVÊNCIA: UM CAMINHO DECOLONIAL NA FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA

De los afectos a la “escrivivencia”: un camino decolonial en la formación en psicología

From affects to “escrevivências”: a decolonial path in psychology training

Laysa Fontes de Souza, Conceitualização, Curadoria de dados, Análise formal, Investigação, Metodologia, Escrita original, Escrita - revisão e edição1 

Mestranda em Psicologia Social na UFS, Universidade Federal de Sergipe


http://orcid.org/0009-0000-7872-2079

Marcelo de Almeida Ferreri, Escrita - revisão e edição2 

Doutor em Psicologia Social (UERJ); Professor Titular do Departamento de Psicologia e Professor Permanente do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFS, Universidade Federal de Sergipe


http://orcid.org/0000-0001-7562-8124

1Mestranda em Psicologia Social na UFS, Universidade Federal de Sergipe, São Cristovão/Sergipe, Brasil. E-mail: laysafontess@gmail.com

2Doutor em Psicologia Social (UERJ); Professor Titular do Departamento de Psicologia e Professor Permanente do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFS, Universidade Federal de Sergipe, São Cristovão/Sergipe, Brasil. E-mail: marceloferreri002@gmail.com


Resumo:

O presente trabalho é construído pela escrevivência, termo cunhado por Conceição Evaristo, tomada aqui como uma metodologia que se apresenta enquanto possibilidade de uma escrita-memória que ao mesmo tempo que é de si, é coletiva. O texto trata-se de uma experiência de formação em psicologia, entrelaçando memórias do processo de tornar-se negra da autora, até chegarmos ao surgimento do Coletivo PretasPsi, um coletivo inicialmente composto por mulheres negras graduandas em psicologia e psicólogas. A partir disso, desdobram-se análises de algumas das epistemologias coloniais que se fazem presentes na psicologia brasileira e a sua permanência enquanto um saber racista. Questiona-se o epistemicídio e o eurocentrismo presentes na formação, assim como a estagnação perante a essas constatações. A fim de apontar um caminho, pensa-se a subversão dos saberes estabelecidos por meio da decolonialidade e do aquilombamento, ambos operando como estratégia de resistência política.

Palavras-chave: Coletivo PretasPsi; Escrevivência; Psicologia; Decolonialidade; Aquilombamento

Resumen:

El presente trabajo se construye a través de la “escrevivência”, término acuñado por Conceição Evaristo, entendido aquí como una metodología que se presenta como una posibilidad para una escritura-memoria tanto autoconstruida como colectiva. El texto explora una experiencia de formación en psicología, que entrelaza recuerdos del proceso de devenir negro de la autora, que condujo al surgimiento del “Coletivo PretasPsi”, un colectivo compuesto por mujeres negras, estudiantes de psicología y psicólogas. A partir de esto, se desarrollan análisis de algunas de las epistemologías coloniales presentes en la psicología brasileña y su permanencia como conocimiento racista. Se cuestiona el epistemicidio y el eurocentrismo presentes en la formación, así como el estancamiento ante estos hallazgos. Para señalar un camino a seguir, consideramos la subversión del conocimiento establecido a través de la decolonialidad y el “aquilombamento”, ambos operando estrategias de resistencia política.

Palabras clave: Colectivo PretasPsi; Escrivivencia; Psicología; Decolonialidad; Aquilombamento

Abstract:

This work is constructed through “escrevivência”, a term coined by Conceição Evaristo, understood here as a methodology that presents itself as a possibility for a memory-writing that is both self-made and collective. The text explores a psychology training experience , interweaving memories of the author’s process of becoming black, leading to the emergence of the “Coletivo PretasPsi”, a collective initially composed of black women psychology undergraduates and psychologists. From this, analyzes of some of the colonial epistemologies that are present in Brazilian psychology and its permanence as racist knowledge are developed. The epistemicide and Eurocentrism present in psychology training are questioned, as well as the stagnation in the face of these findings. To point a way forward, we consider the subversion of established knowledge through decoloniality and “aquilombamento”, both operating as strategies of political resistance.

Keywords: Coletivo Pretaspsi; Escrevivência; Psychology; Decoloniality; Aquilombamento

INTRODUÇÃO

As reflexões apresentadas neste artigo têm como proposta tratar de uma experiência de formação em psicologia. Entrelaçando o processo de tornar-se negra ao incômodo da bran(quietude) do curso, até chegarmos ao surgimento do Coletivo PretasPsi, um coletivo inicialmente composto por mulheres negras, graduandas em psicologia e psicólogas de uma universidade pública no interior do Rio de Janeiro, do qual a autora foi membro-fundadora.

A partir das vivências da formação, se desdobram, aqui, análises de algumas das epistemologias coloniais, que se fazem presentes na psicologia brasileira, e que nela permanecem enquanto um saber racista. Na oportunidade de desenvolvimento da pesquisa, trabalhamos com elementos mnemônicos que desafiam a lógica hegemônica, pois adquirem o tom de subversão no campo de saberes e práticas psi.

Segundo Cida Bento (2022), a branquitude é uma dimensão que assegura os privilégios do branco em relação ao negro, evitando focalizar o sujeito branco, a fim de negar a herança escravocrata cravejada na história e nas instituições brasileiras. A racialidade do branco, assim, não existe, sendo ele então universal. Na nossa formação, sustentada por essa dimensão e consequentemente pela disseminação do racismo em diversas esferas, houve um incômodo compartilhado entre mulheres negras que não se reconheciam no curso, as quais se uniram para trazer a continuidade de uma psicologia feita por aqueles que foram apagados pelo epistemicídio.

Dentre tantos motivos, a aposta nessa metodologia se deu porque o primeiro contato ocorreu através do Coletivo PretasPsi. Era novo para nós, e ao mesmo tempo precioso, nos encontrarmos com as metodologias negras que sequer sabíamos que existiam. Pensá-la e movimentá-la é criar e olhar para os novos jeitos de produzir conhecimento, interessando, a refletir, portanto, sobre a construção de mundos que não esse estagnado em uma história única1 e ocidental.

Essa escrita se faz numa composição de memórias que dançam com um presente-agora. Há, nela, aquilo que salta aos olhos, ela é feita por experiências que nos atravessam e permanecem. São fragmentos que não podem ser repetidos e nem tidos como um método em busca de verdades objetivas (Bondía, 2002), mas que se organizam contrariando o tempo linear na intenção de fazer borrar o tempo cronológico, o tempo da razão.

Há, aqui, uma aposta no caminhar, na processualidade que se afasta dos métodos preexistentes, buscando o movimento que compõe a vida. Por isso esta escrita é defendida como uma escrevivência, carregada de afetos, mas não mais para fazer ninar os da casa-grande, mas para proteger os nossos sonhos2. A escrevivência, segundo Conceição Evaristo (2007, p. 21), surge para “incomodar os sonos injustos”, e é feita a partir do chão do nosso cotidiano, é a narrativa de nossas histórias negras habitando o mundo, muitas delas partindo da oralidade, do lugar onde nos permitimos tocar com a nossa sensibilidade, uma narração construída pelo caminho trilhado e pela nossa invenção. Inventar não como mentira, mas como imaginação inevitável que compõe a experiência, como um “espaço de profundidade” (Evaristo, 2017, p. 11).

Escreviver extrapola os limites de um texto academicista, nos dando conta da sua importância principalmente por não encaixar em uma objetividade científica, a qual busca uma padronização das experiências e das formas de viver, um dos inúmeros artefatos da colonização. Ao usar a escrevivência como metodologia, sustentamos o fazer pesquisa sem a perspectiva do controle e de elementos a priori, se tornando, então, um exercício de descolonização do saber (Neves & Heckert, 2021).

A escrevivência faz, da memória, algo maior em nós. Escreviver para não morrer. Escreviver para não esquecer. Escreviver para ser ouvida. Para deixarmos algo sobre o que vivemos, conhecemos, sofremos, aprendemos, experimentamos. Faço e me refaço pelo caminho, na companhia dessa escrita que se desperta e que se entrelaça pelo meu corpo e pelas memórias das histórias escutadas, conversas compartilhadas e toques ainda vivos na pele.

Uma escrita caminhante, que possui nela uma rede complexa de conexões heterogêneas, o imprevisível da vida e das coisas e a multiplicidade de significações que esse texto tomará a cada leitura feita. Uma escrita compartilhada, feita por muitas mãos, que primeiro é inscrita na pele e depois transformada em grafias.

A conexão que há entre experiência, memória e narrativa é o ponto de encontro da metodologia adotada nessas linhas. A experiência que fica e finca se recria em memória e ganha corpo através das narrativas. Em uma escrita feita por afetações, nada está dado e tudo está sempre em processo, ao passo que “toda realidade é ficcional enquanto produção colaborativa em processo” e ambas, ficção e realidade “são constituídas em um processo artificioso de invenções muitas em constante variação” (Costa, 2020, p. 190).

O uso da linguagem a partir dessa metodologia é expresso como uma prática política inserida nas relações de poder, indicando, assim, a escrevivência como movente e transformadora – do mundo e de si – uma escrita que aqui é feita com autoria, mas é carregada com vozes outras, confundindo o que é de uma e o que é da(s) outra(s), sendo a expressão de um eu que se faz sempre coletivo (Soares & Machado, 2017).

Antes mesmo de receber esse nome dado por Conceição Evaristo, a escrita escrevivente é marcada em sua história principalmente por mulheres negras e periféricas (Evaristo, 2020). Seu uso é político à medida que reivindica a escuta dessas vozes que sempre existiram e falaram, mas que foram silenciadas pelo racismo, sexismo e classismo vigentes na sociedade capitalista e brasileira, sendo assim uma ferramenta que também se configura em uma denúncia de um passado ainda presente.

Ao assumir o caráter de denúncia, a escrevivência pode ser vista como uma ação coletiva que rompe com estruturas que nos cercam. Esta assume um tom ainda mais político quando retirada da literatura e posta para uso como método de produção nas ciências humanas, aqui mais especificamente no campo da psicologia. É uma aposta de narratividade que rompe os limites da literatura brasileira (Soares & Machado, 2017).

Tendo isso em vista, a partir daqui a proposta deste texto se manifesta com algumas marcações e diferenças. Primeiro, a escrita em primeira pessoa vem para frente, a fim de fortalecer o laço entre experiência (na pele) e escritura, deixando nítida a dimensão do enfrentamento, do afeto sentido, do questionamento no formato individualizado que quer apagar a presença dos outros, do social e do histórico em cada conflito. Entrecortando com esse formato vem a escrita no plural, que rompe com a armadilha individualizante explicitando a faceta coletiva da experiência e dos conflitos, dos processos históricos em sua abrangência tamanha que nos leva a falar de grupos, coletividades, classes, comunidades e povos. Essa será a forma, então, de assinalar a luta contra a branquitude, através da escrevivência, numa experiência de formação em psicologia.

MEMÓRIAS DE UMA ESTUDANTE NEGRA EM FORMAÇÃO: IDENTIDADE, SUBJETIVIDADE, PSICOLOGIA E DECOLONIALIDADE

Ao iniciar a discussão tomando um olhar a partir do que experienciei, sinto que algo me incomoda; pego os incômodos e faço deles também caminho para a pesquisa. Quando escrevo a partir de mim, me pergunto se isso não soaria pessoal demais. Sabendo o que está em jogo, temo. Por isso, recuo com os dois passos para trás e ao mesmo tempo um turbilhão de pensamentos vem ao meu encontro. Tento, como um pescador em maré cheia, lançar o anzol e pesco na memória meu encontro com o livro Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano, da Grada Kilomba (2019).

Ela é uma das principais referências no meu caminho acadêmico. Me atenho a sua discussão sobre o conhecimento, sobre a relação entre as teorias e nossas experiências. A autora nos diz que os escritos tidos como pessoais demais são uma crítica a construção do conhecimento ocidental e universal, realizado por uma maquinaria de ensino branca. Respiro. Sei que o que estou a enfrentar não é pouco, mas agora não temo, teimo.

Dizem que teimosia é coisa de criança, mas eu digo que teimosia é coisa de gente grande que não perdeu a criança e a esperança dentro de si.

O discurso das/os intelectuais negras/os surge, então, frequentemente como um discurso lírico e teórico que transgride a linguagem do academicismo clássico. Um discurso que é tão político quanto pessoal e poético, como os escritos de Frantz Fanon e os de bell hooks. (Kilomba, 2019, p. 59)

Como já dito, essa história não é só minha, carrego comigo outras gentes, vozes, conhecimentos, com um olhar atento e crítico sobre a construção desse saber chamado psicologia. Minha formação não se limitou somente às disciplinas e provas que fiz ao longo da graduação. Não foi só na sala de aula que me formei, aprendi com o tempo que era preciso explorar as possibilidades dentro e fora dos muros da universidade. A formação é um processo continuado, feito não só pela academia, mas pela vida e pelos encontros que nos fazem descobrir outras psicologia(s). Uma psicologia que se limita somente às teorias e ao academicismo está em si faltante, defasada e distante da realidade social.

Digo isso porque as leituras e discussões na minha formação, nos anos de 2015 a 2020, se aproximavam somente de um tipo de contexto social, que de nada abrangiam as populações das favelas, ribeirinhas, de remanescentes quilombolas, rurais, LGBTQIA+, indígenas, entre outras subjetividades que se desviam dessa hegemonia eurocentrista. Entende-se aqui eurocentrismo segundo Dennis de Oliveira (2021), que o apresenta como uma ideologia pautada em estabelecer e sustentar como centralidade hegemônica a branquitude, se expressando primeiramente pela dimensão metafísica e religiosa, à fomentação das teorias eugenistas – em que a psicologia teve grande contribuição – até a sua cristalização no processo civilizador, ou seja, na ideia de desenvolvimento que é tida a partir de um imaginário da modernidade ocidental, da lógica colonial.

Quando eu entrei na universidade, o interesse por esses assuntos me chegou por não saber e não querer separar a militância da prática profissional, como também pelo desinteresse da psicologia acerca deles. Posso dizer que me dediquei a estudar sobre as questões raciais na academia por exatos três motivos, talvez o primeiro deles é que eu sentia falta de saber sobre isso, pensava em ser uma psicóloga que trabalhasse com “o social” e por isso era algo que não podia faltar no meu arcabouço teórico. Até que me encontrei com o segundo motivo. Entre o branco e o preto, lá no pardo eu me encontrava, até virem os questionamentos se eu me considerava negra ou não.

O meu processo de encontro com minha negritude sem ser pela via do racismo foi com a transformação do meu cabelo, que não me dizia só sobre um cabelo. Foi um processo difícil, de muito sofrimento e de muitas dúvidas, tudo isso porque sentia uma necessidade de me encaixar em alguma coisa, em algum lugar, em alguma identidade. Assim, se começava a delinear o segundo motivo, que também ia de encontro com o primeiro. Não havia separação entre o social e o pessoal (ou privado), e essa constatação veio porque a busca pela terapia – comumente lida como algo restrito ao âmbito individual - foi exatamente por questões que me atravessavam socialmente.

Eu comecei a pensar que não só eu passava por aquilo, mas também outras pessoas negras. Afinal, o racismo se constitui como causador de sofrimento psíquico e seus impactos perduram na constituição de nossas subjetividades. Quando eu entrei a primeira vez em contato com a análise, eu tinha medo, me perguntava se minha psicóloga, branca, entenderia meu sofrimento. Todavia, essa não é mais uma história de racismo na psicologia, e talvez por algum momento você deve ter pensado isso. Eu tive sorte. Minha psicóloga era uma pessoa atenta aos processos de construção histórico-social e, aos poucos, fui entendendo que meu sofrimento também era político, porque ela o via assim.

Foi um longo processo, e há exatos dois anos eu colocava em escrita todos esses sentimentos que vieram à tona ao me tornar negra, na elaboração na minha escrita monográfica. Tornar-se para não mais cumprir o desejo de ser branco, tornar-se porque não existe essência ou condição a priori (Souza, 1983). Assim, o terceiro motivo vinha à tona, eu não queria contar com a sorte, não queria que outras pessoas negras ou não brancas contassem com ela também, eu queria uma psicologia comprometida com essas questões. Todo esse incômodo me dizia e me diz de um atraso que há em nossa formação enquanto o racismo segue adoecendo, prendendo e matando.

Grada Kilomba (2019) e Lívia Souza (2018) nos colocam que escrever sobre o nosso próprio corpo pode ser considerado, por alguns, um ato narcísico. Cabendo a nós, então, indagar tais formas de produção do conhecimento brancas-universais, pois mesmo ao deslocarmos – corpos negros, não brancos - do lugar de objeto de estudo para o de sujeitos da produção, ainda nos é colocado que devemos afastar de nossas experiências para cumprir o rigor científico da neutralidade quando, cotidianamente, nos deparamos estudando uma realidade branca, hétero, cis, que é vista como única, verdadeira e universal.

A academia, assim, dá continuidade à colonialidade presente em suas estruturas, epistemologias, construção de saberes. Em contraponto a isso, escreviver assume uma outra forma de relação com a linguagem, estando aquele que fala, um corpo dissidente, em confronto não só com a academia, mas também com sua forma de escrita e suas estéticas, implodindo para além de uma perspectiva hegemônica, a fim de romper com a noção de representação3 (Souza, 2018), de uma recusa dos binarismos e dicotomias como teoria e prática, mente e corpo, sujeito e objeto, entre tantos outros.

É preciso enfrentar o eurocentrismo, o racismo e o identitarismo branco cravado no peito da psicologia e, ao mesmo tempo, não se deixar levar por uma outra constituição do que seja a verdade ou de quem é o detentor da verdade. Enfrentar as amarras coloniais de uma psicologia branca, fechada às multiplicidades das epistemologias subalternas, sem anular outras que nos ajudam a pensar criticamente sobre o mundo.

Ao intuir uma perspectiva de uma psicologia decolonial e antirracista, desejamos um caminho de uma pesquisa que rompa com os essencialismos, como nos diz a pensadora decolonial Suze Piza (2021), é preciso que estejamos atentos à fetichização das identidades e às práticas eurocêntricas com uma nova roupagem. A autora nos convida também, como pensadores decoloniais, à tarefa de enfrentar as armadilhas da identidade, estas que criam prisões epistêmicas que se excedem da dimensão meramente epistemológica e se espalham para as dimensões políticas, econômicas e sociais.

A decolonialidade compõe uma crítica veemente ao eurocentrismo, que é se não essa hegemonia do conhecimento, capitalista, eurocentrado e colonial. Assumir uma postura decolonial é olhar para as experiências e saberes aniquilados, para aquilo que foi escondido, depreciado e tido como inválido (Mignolo, 2008). Esse ponto de vista contra hegemônico dentro da psicologia, por exemplo, vem de modo a dizer das violências do modelo eurocêntrico e da perpetuação das opressões, evidenciando a psicologia como serventia desse modelo, propondo, assim, um outro caminho que não o da racionalidade colonial, buscando novos paradigmas de análise, intervenção e produção de conhecimento. A decolonialidade firma um compromisso com a alteridade, com uma intervenção prática e com a construção de novos saberes e sujeitos, não com a fixação de essências.

Como um movimento que rompe com a lógica colonial, a decolonialidade se desfaz do universal, situando a relação da modernidade e do capitalismo como produtos dessa lógica. A colonialidade do poder (Quijano, 2005) irá se configurar como uma análise dessa relação, sendo uma categoria que se fundou no processo histórico de conquista da América, a partir da criação da ideia de raça, diferenciando através dos fenótipos os colonizadores e colonizados, configurando as relações de dominação. Segundo Anibal Quijano (2005, p. 118) “na América, a idéia de raça foi uma maneira de outorgar legitimidade às relações de dominação impostas pela conquista”, colocando-se como uma dominação global que se insere em todos os planos da existência.

De certo, não podemos definir exatamente o que seja o pensamento decolonial, nem definir como apenas um pensamento, pois este engloba diversos povos com diferentes atravessamentos, epistemologias, áreas de estudos, metodologias. Segundo Suze Piza (2022), pode-se dizer, sim, que há um comum no que podemos chamar de corrente decolonial, que é justamente reunir categorias analíticas que visam uma crítica à modernidade colonial, fazendo-o de forma interventiva, pois ultrapassa a teoria, mesmo que seja forjado por meio dela. Isso nos diz também que o fim do colonialismo não implica em uma mudança automática das práticas e discursos coloniais, estas se permanecem e nos é empurrado goela abaixo nas nossas esferas do tempo, do espaço, do conhecimento e da subjetividade.

O que nos oferece a decolonialidade, dentre outros aspectos, é o desvincular com as estruturas epistemológicas das ciências europeias, rompendo com a realidade lida de uma forma parcial. Veja, estamos então participando do que Nelson Maldonado-Torres (2018) chamou de giro decolonial, uma das teses formuladas sobre sua analítica da colonialidade e da decolonialidade, que é esse movimento de resistência político, teórico e prático em relação à modernidade-colonial, um enfrentamento à neutralidade, a objetividade e ao sujeito universal.

Falar do Coletivo PretasPsi, é dizer sobre a decolonialidade, esta que nos ensina que é impossível separar a teoria da prática e que também é preciso “aprendermos a desaprender”, se não queremos mais jogar o jogo do imperialismo (Mignolo, 2008, p. 290). Inicialmente, a jornada na graduação foi de estranhamento, uma certa insatisfação e solidão que se transformou num desafiador caminho coletivo, pois para bancar e compor uma empreitada contra o racismo epistêmico evidente e alçar novos rumos para o conhecimento, é preciso criar embates consigo mesmo e com o mundo.

Ouvi um professor falar, certa vez, que tudo aquilo que não existe pode ser inventado, achei tão bonito isso, me fez pensar que como um corpo coletivo, a gente se inventou. O mais incrível de tudo isso é que nem tínhamos a pretensão de criar um coletivo, mas realmente só se percebe o acontecer no momento em que acontece (Bondía, 2002). Era um incômodo compartilhado, de todo o contexto da universidade e propriamente da graduação em psicologia, que apesar de nos oferecer uma gama de aprendizados, nos coloca em contato direto com a perversidade do racismo, do lugar de saber e de poder, do discurso.

Nos regimes de poder, podemos identificar que alguns pensamentos, conhecimentos, argumentações, enfim, discursos, são tidos como verdades, à medida que outros são marginalizados e mantidos escondidos na história4. Um discurso possui sua singularidade, à medida que institui o sujeito, o contexto histórico que o permite surgir e mantê-lo. Há a construção de um sistema dominante, pautado pelo projeto colonial, que não permite que construamos o conhecimento à nossa maneira, “fora dos moldes”.

Podemos ver isso quando Grada Kilomba (2019, p. 50) se indaga: “quem está no centro? E quem permanece fora, nas margens?” ou “quem tem permissão para produzir conhecimento?” Sueli Carneiro (2005) chama esse processo de epistemicídio, entendendo-o para além do apagamento da intelectualidade negra, mas como o funcionamento de todo o aparelho educacional a partir do dispositivo de racialidade, que se configura como um dos dispositivos que compõe os processos de vida e de morte.

Ao entender o racismo como elemento estrutural na sociedade, os dispositivos buscam procedimentos estratégicos para que se sujeitem às racialidades, entendendo-as como uma noção relacional que é social e construída historicamente, onde ser branco e não-branco colocam em xeque vantagens e desvantagens. No interior dessa “unidade analítica” (Carneiro, 2005, p. 10) que se encontra o epistemicídio, o qual é arquitetado conjuntamente com a tecnologia do que Michel Foucault (2008) chama de biopoder, faz com que forças hegemônicas assegurem de modo eficaz e duradouro uma produção incessante da pobreza cultural.

Confrontamos o epistemicídio durante a graduação de psicologia com o Coletivo PretasPsi, que se tornou um lugar seguro para compartilhar nossas experiências das quais muitas eram atravessadas pelo racismo. Um lugar de pertencimento e acolhimento. Para nós, era preciso transversalizar4 e não mais criar um recorte sobre as questões raciais nos estudos em psicologia. O nosso intuito era promover uma mudança necessária na grade curricular, confrontar o apagamento de nossas vozes e escritas, e pensar também em projetos voltados à população negra que não pertencesse apenas ao universo acadêmico. O que poderíamos fazer em meio a uma psicologia que não estava olhando para essa questão ou sequer olhando para nós? É um pouco disso que vamos tratar na próxima parte.

COLETIVO PRETASPSI: UMA APOSTA DE AQUILOMBAMENTO NA PSICOLOGIA

O surgimento e a permanência do Coletivo PretasPsi na universidade têm por objetivo estudar assuntos sobre questões raciais e psicologia, fomentando projetos voltados à saúde mental da população negra, denunciando a branquitude e o racismo estruturante. Além disso, essa pesquisa visa também provocar a psicologia brasileira e sua responsabilização como um dispositivo racista, depois de seis décadas de sua regulamentação como ciência e profissão.

Ao apontar a invisibilidade de autores/as negros/as/es e temáticas raciais como a própria constituição da subjetividade do sujeito negro, podemos dizer que há, na formação do profissional de psicologia, um buraco, uma insuficiência, uma violência não só para futuras/es/os psicólogas/es/os e pesquisadoras/es/os negras/es/os, mas para toda uma sociedade. É preciso escancarar as marcas do racismo que perduram pela história da psicologia, como sua contribuição direta no racismo científico, a negligência com os projetos curriculares de formação, a colonialidade e o racismo presente em toda a estrutura que comporta seus autores e livros “tradicionais, essenciais e indispensáveis”6.

Tatiana Espinha (2017) em sua tese de doutorado, nos traz uma pesquisa aprofundada dos Projetos Políticos Pedagógicos (PPP’s) em relação àas temáticas raciais em psicologia, um estudo minucioso das 35 grades curriculares as quais ela conseguiu ter acesso. O (PPP) é composto por ações e propostas teórico-metodológicas no campo do ensino e da aprendizagem, que dão as coordenadas de efetivação de uma proposta educacional, administrativa e de gestão acadêmica, centrando aqui aquelas ligadas à instituições de ensino superior (IES) dos cursos de psicologia.

Silêncio e ocultação são as palavras que a autora traz para discutir seus resultados, parte de uma pesquisa necessária e crítica, mas que infelizmente não nos conta de algo inédito. A partir das análises curriculares por meio de palavras chaves relacionadas às temáticas raciais, nota-se uma superficialidade em relação ao tratamento do tema, junto a uma formação predominantemente clínica, nos revelando uma dimensão psicologizante e individualista de sujeito.

Ao decorrer desse texto, contaremos com alguns relatos de memórias que marcaram as integrantes do Coletivo, as quais não estarão identificadas. Os relatos foram feitos de maneira informal, no aplicativo da rede social WhatsApp, em um grupo do PretasPsi, que consta com 79 participantes. Nosso símbolo para representar o coletivo foi um girassol e nossa escolha foi intencional. Girassóis são flores que quando não acham o sol, em dias nublados e de chuva, procuram uns pelos outros. Adquirimos uma singela tradição de entregar um girassol a cada integrante que se formasse. A primeira de nós a se formar, nos diz:

minha defesa de monografia e as pretas mantiveram a tradição de entregar um girassol, símbolo do coletivo. Aquilo foi tão simbólico pra mim, eu estava tão fragilizada, que simplesmente me debulhei em lágrimas. Foi a concretização de um sonho e o girassol selou como mágica. Me senti abraçada física e espiritualmente. Foi um carinho na alma, especialmente quando lembro o significado dos girassóis. (Integrante do Coletivo PretasPsi)

A troca que se formava a partir do nosso cotidiano se consolidava em uma rede de apoio fundamental e ancestral. No início, éramos um grupo de estudos para estudar autores e autoras negras/os/es, porque era algo distante do que víamos nas aulas que frequentávamos. Esse lugar seguro do estar juntas se formava como um ambiente que não era somente físico (mas também era), feito para nos dedicarmos a pensar a saúde mental da população negra e a nossa própria saúde mental como estudantes universitárias racializadas.

Na medida em que nos encontrávamos, víamos questões aparecendo que nos atravessavam: “Tal professor já foi racista comigo! - Comigo também! - E também comigo!” “Me sinto tão insegura com a minha escrita, sinto que nunca é suficiente para a academia” “Sou a primeira da minha família a cursar uma universidade, mas sinto que aqui não é meu lugar” “Porque são poucos os professores que falam sobre nossa realidade (preta e pobre)?”

Eu me recordo que enquanto mulher negra e periférica, os primeiros anos de graduação foram muito dolorosos, sempre que eu procurava meu eu enquanto graduando, eu achava o lugar de depreciação, não me via naquele espaço, tão menos achava que era pra mim. (Integrante do Coletivo PretasPsi)

Era na salinha de psicologia, no prédio mais antigo da universidade, no interior do Rio de Janeiro, que nos despertávamos e começávamos a olhar para essas questões. Habitávamos uma cidade marcada e atravessada pela história do genocídio da população indígena e da escravidão, uma cidade carregada com esses rastros, racistas, que se fazem visíveis nas andanças cotidianas pelas ruas, em meio aos olhares repressores voltados a esses corpos desviantes.

Cidade onde suas estruturas coloniais não foram cessadas pela abolição, e que se mostram ainda em suas usinas e engenhos de açúcar. Em meio à fuligem, trabalhadores ainda morrem pelas suas condições de trabalho, uma forma de continuação das plantations. Cidade que, mesmo atravessada por inúmeras questões, ainda segue fazendo resistência em todo esse tempo, cidade de muitos quilombos, movimentos negros, personalidades negras potentes. Cidade que me foi casa por cinco anos e cidade em que eu pude também fazer resistência junto aos seus quilombos, à rede de saúde mental e a todos os lugares ao qual passei ao decorrer da minha graduação em psicologia.

Graduação essa que tomou outras direções a partir da nossa articulação, que vinha com o intuito de uma ampliação da formação em psicologia, pensávamos em uma reforma da grade curricular do curso, visando o projeto político pedagógico, pensávamos e propúnhamos a inserção de autores não-brancos e estudos voltados às questões raciais em todas as disciplinas.

Enquanto Coletivo PretasPsi, encontramos algumas dificuldades no caminho. A nossa proposta de mudança da reforma da grade curricular foi levada para o colegiado de curso, um momento de ombros tensos e frio na barriga, indicando uma relação de poder já estabelecida tanto pela relação professor x aluno, quanto do racismo estrutural e institucional presentes na universidade. Era ali onde se encontravam todos os professores do departamento de psicologia. Lembro-me de haver uma recusa por quase todos eles, além de não aceitarem facilmente a proposta, postergaram a resposta, e o que ficou acordado na reunião por parte deles é que tínhamos que nos articular melhor.

Ao tomarmos como dimensão de análise a atitude frente à organização de luta de mulheres negras que visava um olhar dos profissionais de psicologia para o racismo que marca a construção da psicologia no Brasil e que a acompanha no passar dos anos, principalmente no que se diz respeito ao epistemicídio nos cursos de formação em psicologia, tomamos também as configurações do academicismo branco e suas exigências que permeiam o curso de psicologia e a universidade como um todo. Apesar de se revelar em um contexto específico, a necessidade de uma mudança efetiva na grade curricular, o descompromisso e a falta de ação em direção àa problemática, como vimos anteriormente, não se trata de uma questão individual.

O pedido para uma articulação melhor nos mostra que a maneira a qual fizemos a proposta, feita de forma explícita e escurecida, não cabe a uma forma pré-determinada por esse espaço predominantemente branco e colonial da academia e do Núcleo Docente Estrtuturante - NDE. Ainda, nos indagamos: o que não está dentro dos moldes desejados é somente a forma como fizemos a proposta ou somado a isso, o conteúdo nela exposto?

Ações antirracistas requerem trabalho, disposição e renúncia de privilégios e confortos. Débora Medeiros (2020, p. 56) relata em sua monografia sobre esse momento “a reunião já durava horas e eles continuavam nos enrolando. Não acredito que seja uma ignorância de não compreender do que se tratava, mas um cinismo de quem não quer abrir mão da zona de conforto do privilégio”. De todo modo, ao incitar movimentos no até então grupo de estudos, houve sim uma articulação, uma organização, mas em direção ao enfrentamento dessa estrutura, a construir nossas próprias ferramentas, pois como nos diz Audre Lorde (2019), as ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande, ferramentas essas que aqui estavam postas para jogo através do silenciamento diante da questão do racismo na psicologia e na instituição e do apagamento de autores negros e negras.

De todo modo, o coletivo se reuniu para formular uma carta-proposta, falando sobre nós, apontando e tornando visível o racismo presente no curso:

Somos as PretasPsi, um grupo de mulheres pretas graduandas em psicologia que estão se organizando e trabalhando em conjunto na universidade. Considerando que a psicologia (e a academia como um todo) é um campo que invisibiliza e negligencia questões raciais, compreendemos a importância de nos unirmos para não permitir que o racismo se perpetue enquanto causador de sofrimentos psíquicos. É importante destacar o descumprimento e descaso do nosso curso que não aborda com afinco as questões étnico raciais. O que acaba produzindo sofrimento nos estudantes que não se veem representados pelas temáticas abordadas em aula e sobretudo na formação de futuros profissionais que não terão devido cuidado com a população negra na sua atuação. Temos o intuito de cobrar o estudo de autores e autoras negras durante a nossa formação, entendendo a nossa responsabilidade enquanto profissionais da saúde para com essa população. Conhecendo a realidade do epistemicídio na academia, precisamos estar dispostos a combatê-lo produzindo e articulando temáticas voltadas a população preta, de forma que esse conhecimento seja também acessível a ela, visando sempre que esse conteúdo possa ser instrumento de transformação social. Segundo o artigo primeiro da resolução 18/2002 do Conselho Federal de psicologia “ Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão contribuindo com seu conhecimento para sua reflexão sobre o preconceito e para a eliminação do racismo”. Baseadas nisso, o PretasPsi entende como imprescindível a participação de alunos e alunas negras na estruturação do projeto político pedagógico do nosso curso juntamente com o NDE (Núcleo Docente Estruturante). Além disso, convocamos o curso de psicologia a se comprometer com ações externas que contemplem a população negra e periférica tendo em vista que possuímos esse compromisso por fazer parte de um polo de desenvolvimento regional.

Atenciosamente. (Grupo de Estudos PretasPsi)

Nossa proposta foi votada para ser “pensada mais pra frente” e em alguns cantos da universidade já ouvíamos burburinhos sobre nós. Qual era o risco? Por que a recusa? Nossa articulação era para trazer um leque de possibilidades que iria além de uma grade forjada em autores que nos esqueciam. Os argumentos de alguns professores era de que o regulamento não comportaria, quais são esses regulamentos e o que comportam, então? “na TCC7 não encontramos esse tipo de referência”, bastava apenas uma pesquisa básica pra achar não uma, mas várias referências; outro argumento é que teríamos que fazer uma mudança em toda grade... sendo essa exatamente a proposta, mudarmos toda a grade, movimentar as estruturas, como nos convida Angela Davis (2016).

Com uma singela ingenuidade, eu não esperava que houvesse uma resistência quanto a nossa proposta, porém alguns professores nos apoiavam e com eles era mais fácil que nossa voz fosse ouvida, eram nossos aliados institucionais. O apoio institucional de tais professores foi importante para que alcançássemos certos espaços para trazer nossas propostas institucionais e furássemos a bolha da universidade. Isso também nos traz à tona uma outra discussão, a psicologia como um campo múltiplo de saberes, o qual é perpassado por tensões, que se de um lado se encontra ainda em antigos padrões, que reproduzem velhas estruturas de opressões, por outro se encontra aberta às diferenças, uma psicologia política e implicada à mudança, crítica ao seu contexto social.

Foi um momento estressante e de denúncias, mas ao mesmo tempo foi lindo ver o tanto de mulheres negras juntas lutando para que nós e as próximas gerações de graduandos do curso pudesse experienciar uma formação diferente do que estava ali exposto. Mais tarde, vimos os resultados, professores e disciplinas passaram a discutir e usar teóricos negros em suas aulas. (Integrante do Coletivo PretasPsi)

A internet foi uma grande aliada na divulgação das reuniões e projetos que fazíamos, além de fazermos diversas postagens de textos muitas vezes construídos em coletivo falando sobre nossas experiências, sobre determinadas datas importantes e sobre a própria psicologia. Com a pandemia da Covid-19, ainda mantínhamos online nossas reuniões e grupo de estudos (aberto a todas as pessoas negras, independentemente de ser graduando de psicologia ou psicólogo), assim alcançamos outras pessoas negras pelo Brasil, as quais somavam forças juntos a nós em um momento tão difícil e delicado.

uma memória que tenho forte é do elo que construímos durante a pandemia nas horas e horas a fio no Google Meet, isso fez muita diferença nos meus dias, me dava força pra continuar mesmo quando tudo parecia desmoronar. O jeito que a gente se acolhe se escuta vai dando um quentinho por dentro, e fortifica demais, guardo com carinho cada lembrança desse espaço que é coletivo em sua essência. O Pretaspsi se constrói nas memórias que sempre revivem o amor que nos une. (Integrante do Coletivo PretasPsi)

O intuito além de uma ruptura com essa psicologia concentrada só em autores eurocêntricos, que não abrangem e olham para nossas diversas realidades, era também compor políticas de saúde mental voltadas à população negra da cidade. Assim, os convites foram chegando, nosso coletivo começava a tomar um corpo que iria além de nós, ele integrava a cidade (e agora outras cidades, estados), as praças, a prefeitura da cidade, as ruas, as escolas.

Eu me lembro com carinho do meu primeiro Forúm de Saúde Mental, que foi realizado na prefeitura. Recordo dos conflitos que envolviam estar presente no mesmo espaço que a gerência de saúde mental do município, sendo que nossas meninas, as mulheres negras que tencionavam as estruturas racistas de “cuidado” que deveria ser ofertado pela rede que atende em sua grande maioria usuários negros, onde são negligenciados e violentados dentro dos serviços que deveriam estar no lugar de cuidado e proteção de direitos. Essas mesmas mulheres que também eram violentadas nesses espaços, que sofriam ao ver seus iguais em situação de violência e passam por outras tantas, lugar de dupla violência. Contudo estávamos lindas, com nossos cabelos para o alto, nossas coroas, agrupadas marchávamos da universidade até prefeitura como um bando de mulheres, poderosas, que desfilavam em grupo pelas ruas, com o intuito de ocupar, denunciar e fazer história. Revivo nos meus pensamentos como aquele dia brilhava ou erámos nós que brilhávamos? Me lembro de não sentir medo ao lado delas, pelo contrário, eu sentia algo novo, o sentimento de confiar, sentir potência em mim mesma, em nós. Por todo o caminho que passamos, todas, repito, todas as pessoas sem exceção viravam para nos olhar com um misto espanto e admiração, e nos acompanhar seguir. Nas ciclovias, nos carros, nas ruas, os funcionários dos estabelecimentos. Foi um choque para mim pessoalmente me sentir vista. Entendendo que em coletivos temos mais força, coragem, confiança, mãos dadas. Como diz aquele samba: “A gente se fala no olhar”. (Integrante do Coletivo PretasPsi)

Nós ocupando o espaço da prefeitura, nossa caminhada até o local, cercada de olhares, me sentindo potente, inabalável, por estar com as minhas: mulheres incríveis, inspirações gigantescas de pessoas sensíveis. Ver uma de nossas integrantes sentada na mesa com demais figuras importantes no município me fez pensar “um dia pode ser eu” e fomos todas, de punhos cerrados, no ponto mais alto do auditório. (Integrante do Coletivo PretasPsi)

Ao decorrer do tempo, construímos uma biblioteca online, em um drive, chamada “Biblioteca PretasPsi”, onde não só possui textos, artigos, livros de diversos autores racializados, mas que também possui memórias e conta a história do nosso coletivo por meio de fotos de eventos, reuniões, encontros (que não só acadêmicos), viagens, documentos feitos de forma coletiva, estruturação do PPP, atas de nossas reuniões e finalmente, nossas próprias produções textuais.

Houve, nesse período, realizações de lives com temáticas diversas como Polarização, vírus e lutas: o Brasil depois de 2013”, “Luta antimanicomial, feminismos e perspectivas decoloniais”, “Cuidar de si em tempos de pandemia”, “Reflexões sobre o epistemicídio e o bem viver” etc., com convidados como Jeane Tavares, Geni Núñez, Rachel Gouveia Passos, entre outros, além de um ciclo de debates da Visibilidade LGBTQIA+ e a realização da IV Semana de Psicologia: Poder, política e resistência, a qual teve uma grande adesão de pessoas.

Paralelamente, o coletivo se organizava para formar o chamado Grupo de Acolhimento Psicológico Dona Ivone Lara, destinado a pessoas pretas em sofrimento devido a todo contexto pandêmico, prestigiando a enfermeira, assistente social, sambista e terapeuta ocupacional, uma das pessoas mais importantes da luta antimanicomial no Brasil, pouco mencionada e lembrada, mas que usou a arte como ferramenta para ultrapassar os muros do manicômio. Sua representatividade para o grupo de acolhimento parte da perspectiva de se querer construir uma psicologia preta, decolonial e de aquilombamento:

Diante da atual situação da pandemia e vulnerabilidade psicossocial que escancarou as desigualdades já vividas por alguns grupos minoritários – o qual a população negra encontra-se exposta – o PretasPsi, Coletivo Negro de Psicologia, iniciou em 2020 o projeto Ivone Lara que oferece acolhimento gratuito sensível a subjetivação de minorias subalternizadas para demandas que possam ser vivenciadas diante das instabilidades políticas e sociais decorrentes da atual crise sanitária, visto que, em nossa história, os quilombos foram o grande símbolo de resistência anticolonial, onde se perpetuam nossos ideais de coletividade, tradições, auto-organização, cultura e principalmente a possibilidade de existir.

Junto ao Grupo de Acolhimento Ivone Lara, o coletivo também firmou parceria com um projeto de extensão da universidade, uma rede de apoio online formada por profissionais da saúde e da assistência, estudantes e professores, trabalhando para além da clínica, com formação e rede de solidariedade comunitárias. Durante esse período, usávamos nossas redes sociais para divulgar e informar sobre o coronavírus, o auxílio emergencial e o isolamento social.

Acredito que a possibilidade de ser voluntária como psicóloga junto a outras psis pretas me trouxe segurança em entender que a psicologia também é lugar pra nós. Os grupos de atendimento e intervisões são sempre muito enriquecedores. Fiz uma rede de apoio que me deixou segura para permanecer nos atendimentos e acolhida como psi recém-formada. (Integrante do Coletivo PretasPsi)

Mesmo sabendo das questões concretas que nos atravessavam enquanto estudantes, nossa formação foi feita de modo espontâneo. Firmávamos ali um lugar de expressão, de acolhimento e de ação. Fazíamos algumas dinâmicas entre nós, líamos textos e discutíamos, víamos filmes e ganhávamos corpo. Sentíamos que ali poderíamos denunciar o racismo institucionalizado, falar sobre nós, além de querer e fazer balançar as estruturas de um curso de graduação em psicologia branco e elitizado. Uma das integrantes do Coletivo PretasPsi, relata sobre esse balançar: “A primeira reunião que participei onde pude falar abertamente sobre a sensação de ser desmerecida intelectualmente pelos professores e ver meu sentimento sendo validado coletivamente”.

Algumas perguntas nos moviam e ecoavam quando nos juntávamos e ainda reverberam por aqui: quantos autores não-brancos você leu na sua graduação em psicologia (ou em qualquer outra graduação)? Em que momento você estudou sobre a saúde mental da população negra sem ser como um mero recorte, em uma aula dedicada a pensar sobre “raça”? E por que quando falamos de quaisquer outros assuntos, além do racismo, não escutamos a vivência de pessoas não-brancas?

Essas são perguntas das quais me questionava, questionava porque não queríamos ser olhadas como algo a parte: queríamos ler Virginia Bicudo (2010) e Isildinha Baptista (2017) em uma aula sobre psicanálise e não só quando se fala sobre psicanálise e raça, como se fosse só mais um tópico a parte. E porque não trazer Ailton Krenak, Álvaro Tukano, Daiara Tukano, Francy Fontes e Idjahure Kadiwel (2020) para pensar uma psicologia comunitária? E ler Frantz Fanon (1952) e Rachel Gouveia Passos (2018) e suas grandes contribuições para a reforma psiquiátrica? Não queremos empretecer e ocupar lugares que não nos caibam, mas existe uma centena de autores negros fantásticos que não são estudados em um país que isso se mostra extremamente necessário, pois a cada 23 minutos morre um jovem, negro, favelado.

O conteúdo não é o que nos falta e não se trata de um problema individualizado, estamos falando de um projeto bem arquitetado que, junto ao país Brasil, foi fundado, é o sangue, a voz e a luta de pessoas indígenas e negras que são ceifados. Apagam tudo que é nosso. Eu pensava em tudo isso e me incomodava, pensava em Estamira, Stella do Patrocínio, em Arthur Bispo, pensava em Barbacena e no navio negreiro que se atualizava, pensava nas comunidades terapêuticas e nos corpos negros que em sua maioria lá estava. Foi assim que a indignação foi tomando conta, porque a conta não fechava.

Certo dia, em uma reunião da organização de um evento que eu participava, uma mulher falou: “vocês sempre nos chamam, a gente vai, fala da nossa dor, as pessoas choram e acaba ficando por isso mesmo, mas qual a devolutiva que vocês vão dar pra gente disso que a gente discute?” E o silêncio reinou, nem um pio. Abriu-se um questionamento: por que a psicologia para essa gente não olhava? Foram alguns desses encontros que nos levaram até o caminho da formação - uma formação que está sempre a se fazer - do coletivo.

quando estamos juntas

nossa irmandade ecoa

floresço com mais facilidade

os caminhos se abrem com mais afeto

e as estratégias de renascimento

ficam mais próximas e possíveis

me vejo em você

te escuto em mim

Ryane Leão

CONCLUSÃO: UM CAMINHO SEM FINAL

Desejo que essa escrita possa movimentar pensamentos, inspirar trabalhos, causar incômodos, espanto, que possa despertar afetos e memórias. Que o Coletivo PretasPsi seja lembrado como um movimento singular que fez com que mulheres negras no interior do Rio de Janeiro pudessem pensar na construção de uma psicologia que transgrida o academicismo branco e o conhecimento homogêneo e eurocêntrico, para que assim elas pudessem também sonhar, por exemplo, com um mestrado, e que a partir disso outras mulheres negras também acreditassem que poderiam fazer seu próprio caminho.

Desejo que a escrevivência encontre passagem em outros trabalhos e desejo ainda mais trabalhos que se façam entendíveis para pessoas fora da academia, trabalhos que realmente levem isso a sério e como prioridade. Escreviver é dialogar com as periferias do mundo, é dançar com as memórias, é lembrar, para depois escrever. É fazer com que a nossa experiência enquanto mulheres negras ganhe outro lugar. Que as metodologias negras e decoloniais ocupem seus lugares de direito e que possam também se reinventar, cruzando caminhos com outras metodologias. Que o comum extrapole as identidades.

A psicologia, enquanto um saber que perpetua e corrobora com o racismo científico, reduz a população negra e indígena aos efeitos das suas práticas colonialistas, um saber psicológico impregnado pelos mecanismos de controle dos corpos racializados, onde colocava e coloca esses mesmos corpos como objetos a serem analisados. Lembremo-nos que a negação do racismo é uma dinâmica de que se utilizam para manter e continuar perpetuando a violência racial, colocando, principalmente, a mulher negra como o Outro do Outro (Kilomba, 2019).

Por fim, espero que esse trabalho perpetue sentimentos que aqui deixei, que ele alcance às vistas de pessoas dispostas a repensarem a si e à própria psicologia, pois as intelectualidades escondidas pela história universal precisam sair dos escombros e se colocarem como formas legítimas de serem o que são: trans(formação) das engrenagens que movem o entendimento das subjetividades negras que habitam o mundo.

1“O poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de fazer que ela seja sua história definitiva” (Adichie, 2009, p. 12). É assim que a autora Chimamanda nos convida à reflexão, para pensar sobre a história única, criada por meio das epistemologias ocidentais, a qual silencia outras múltiplas narrativas, tornando povos não-brancos em um mero objeto de discurso e/ou fonte de estereótipos, tornando uma história, a única história. Não somos somente uma coisa, não somos somente uma história única, que possamos desfrutar desse paraíso.

2“Sonhos nem sempre são românticos, mas proteja seus sonhos como matéria prima de suas vidas. Sonhe olhando para o futuro, mas façam de hoje o tempo do sonho acontecer” (Evaristo, Ferr, & Zagrae, 2020).

3A representação compõe um problema da teoria do conhecimento que vem sendo discutido pela filosofia através da história. Para a filosofia platônica, o mundo sensível o qual é acessado pela nossa experiência, sensações e percepções, é uma mimese, uma representação, ou seja, o mundo da representação do real, que seria uma cópia do mundo das ideias chamado mundo inteligível, onde o real estaria, pois este seria o mundo das essências verdadeiras, do conhecimento racional. A poesia, por exemplo, seria uma forma imitativa da realidade, uma cópia da cópia, longe da verdade, atuando como uma sombra da realidade. No mundo contemporâneo, com influência das ciências neopositivistas, conhecer significa representar. Refuta-se, aqui, essa hegemonia da perspectiva representacional, em nome de uma busca ao verdadeiro e universal, tomando o pensamento como uma potência criadora. (Mauricio & Mangueira, 2011)

4Uma referência ao termo “história escondida” de Grada Kilomba (2019), onde aborda as histórias, línguas, discursos ceifados ao longo dos tempos pela violência racial, colocando a escrita como ato político que responde a toda essa autoridade de projeto colonial.

5“A função transversalização diz respeito à ampliação e intensificação da capacidade de comunicação entre sujeitos e grupos (Guattari, 1981) e de intersecção entre elementos e fluxos heterogêneos, materiais e imateriais” (Escóssia & Tedesco, 2015, p. 105).

6“a psicologia é racista porque não elabora o seu próprio passado eugenista, acreditando ser possível extirpar o racismo e salvar o racista.” (Hilário, 2023).

7Terapia Cognitivo Comportamental

FinanciamentoO presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de financiamento 001. EDITAL MESTRADO COMUNIDADE PPGPSI /POSGRAP/UFS N° 03/2020.

Consentimento de uso de imagem

Não se aplica

Aprovação, ética e consentimento

Não se aplica

REFERÊNCIAS

Adichie, C. N. (2019). O perigo de uma história única. Companhia das Letras. [ Links ]

Baptista, I. (2017). Cor e inconsciente. In N. M. Kon, M. L. Silva, & C. C. Abud (Orgs.), O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise (pp. 121-126). Perspectiva. [ Links ]

Bento, C. (2022). Pacto da Branquitude. Companhia das Letras. [ Links ]

Bicudo, V. L. (2010). Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. Sociologia e Política. [ Links ]

Bondía, J. L. (2002) Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, 19, 20-28. https://doi.org/10.1590/S1413-24782002000100003Links ]

Carneiro, A. S. (2005). A construção do outro como não-ser como fundamento do ser [Tese de Doutorado em Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo/SP]. https://negrasoulblog.files.wordpress.com/2016/04/a-construc3a7c3a3o-do-outro-como-nc3a3o-ser-como-fundamento-do-ser-sueli-carneiro-tese1.pdfLinks ]

Costa, L. A. (2020). Narrar-se para se desgarrar do razoável: a ficção como dispositivo clínico-político ético-estético. Paralelo31, 2(15), 180-207. https://doi.org/10.15210/p31.v2i15.21006Links ]

Davis, A. (2016). Mulheres, raça e classe. Boitempo. [ Links ]

Escóssia, L. & Tedesco, S. (2015). O coletivo de forças como plano de experiência cartográfica. In E. Passos, V. Kastrup, & L. Escóssia (Orgs.), Pistas do método da cartografia: Pesquisa-intervenção e produção de subjetividade (pp. 92-108). [ Links ]

Sulina. Espinha, T. G. (2017). A temática racial na formação em psicologia a partir da análise de projetos políticos-pedagógicos: silêncio e ocultação [Tese de Doutorado em Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas/SP]. [https://doi.org/10.47749/T/UNICAMP.2017.983457Links ]

Evaristo, C. (2007). Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita. In M. A. Alexandre (Org.), Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces (pp. 16-21). Mazza Edições. [ Links ]

Evaristo, C. (2017). Becos da memória. Pallas. [ Links ]

Evaristo, C. (2020). A escrevivência serve também para as pessoas pensarem. Itaú Social, Agenda de notícias. https://www.itausocial.org.br/noticias/conceicao-evaristo-a-escrevivencia-serve-tambem-para-as-pessoas-pensarem/Links ]

Evaristo, C., Ferr, J., & Zagrae, T. (2020, novembro, 20). Proteja. On Proteja Os Seus Sonhos. SLAP. https://www.youtube.com/watch?v=OUqk0bIpFlULinks ]

Fanon, F. (1952). Pele negra, máscaras brancas. Fator. [ Links ]

Foucault, M. (2008). A arqueologia do saber. Forense Universitária. [ Links ]

Guattari, F. (1981). A revolução molecular: pulsações políticas do desejo (1ª ed.). Brasiliense. [ Links ]

Hilário, L. (2023). Não há sequer dentro: um ensaio sobre a experiência subjetiva do racismo. Revista SUBVERSA [online]. https://www.revistasubversa.com/blog/nao-ha-sequer-dentro-leomir-hilarioLinks ]

Kilomba, G. (2019). Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano (1ª ed). Cobogó. [ Links ]

Krenak, A., Tukano, A., Tukano, D., Fontes, F., & Kadiwel, I. (2020). O mundo está sendo parido o tempo inteiro – Cadernos Selvagem. Dantes Editora. [ Links ]

Lorde, A. (2019). As ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande. In Irmã Outsider (pp. 135-140). Autêntica. [ Links ]

Maldonado-Torres, N. (2018). Analítica da colonialidade e da decolonialidade: algumas dimensões básicas. In J. Bernardino-Costa, N. Maldonado-Torres, & R. Grosfoguel (Orgs.), Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico (pp. 27-54). Autêntica. [ Links ]

Mauricio, E. & Mangueira, M. (2011). Imagens do pensamento em Gilles Deleuze: representação e criação. Fractal: Revista de Psicologia, 23(2), 291-304. https://doi.org/10.1590/S1984-02922011000200005Links ]

Medeiros, D. B. (2020). Viajantes: passado, presente e afrofuturo [Trabalho de conclusão de curso em Psicologia, Universidade Federal Fluminense, Campos dos Goytacazes/RJ]. https://drive.google.com/file/d/1-XdZoMIViShHkqKAJszWxrNgXgsYubLu/view?usp=drive_linkLinks ]

Mignolo. W. D. (2008). Desobediência epistêmica: A opção Descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF, 34, 287-324. http://professor.ufop.br/sites/default/files/tatiana/files/desobediencia_epistemica_mignolo.pdf.Links ]

Neves, G. S. & Heckert, A. L. C. (2021). Escrevivência: uma ferramenta metodológica de análise. Mnemosine, 17(1), 139-162. https://doi.org/10.12957/mnemosine.2021.61847Links ]

Oliveira, D. (2021). Racismo estrutural: uma perspectiva histórico-crítica (1ª ed.). Editora Dandara. [ Links ]

Passos, R. G. (2018). “Holocausto ou Navio Negreiro?”: inquietações para a Reforma Psiquiátrica brasileira. Argumentum, 10(3), 10-23. https://doi.org/10.18315/argumentum.v10i3.21483Links ]

Piza, S. (2021). Des-pensar as subjetividades, enfrentar as armadilhas da identidade. Das Questões, 8(2), 284-291. https://periodicos.unb.br/index.php/dasquestoes/article/view/37685Links ]

Piza, S. (2022). O pensamento decolonial para superar a Colonialidade e o Racismo Epistêmico. Casa do saber. https://www.youtube.com/watch?v=8qs9uXf0I0YLinks ]

Quijano, A. (2005). Colonialidade do poder, eurocetrismo e América Latina. In E. Lander (Org), A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais (pp. 107-130). CLACSO. [ Links ]

Soares, L. V. & Machado, P. S. (2017). “Escrevivências” como ferramenta metodológica na produção de conhecimento em Psicologia Social. Rev. Psicol. Polít., 39(17), 203-219. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2017000200002&lng=pt&nrm=isoLinks ]

Souza, L. M. N. (2018). Uma reflexão sobre os discursos menores ou a escrevivência como narrativa subalterna. Revista Crioula, 21, 25-43. https://doi.org/10.11606/issn.1981-7169.crioula.2018.146551Links ]

Souza, N. S. (1983). Tornar-se Negro: as vicissitudes da identidade do negro em ascensão social. Graal. [ Links ]

Recebido: 18 de Janeiro de 2024; Revisado: 12 de Maio de 2024; Aceito: 13 de Maio de 2024

Editor científico

Dr. Antonio Euzébios Filho

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.