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Cógito

versão impressa ISSN 1519-9479

Cogito v.9 n.9 Salvador  2008

 

PSICANÁLISE E ARTE

 

Freud e Klint em Viena “fin-de-siècle”: interfaces entre psicanálise e arte

 

Freud and Klimt in Vienna 'fin-de-siécle': interfaces between psychoanalysis and art

 

 

Nadja Nara Barbosa Pinheiro*

Universidade Federal do Paraná

 

 


RESUMO

O objetivo principal deste trabalho é o de promover algumas considerações sobre dois movimentos específicos, um científico (a Psicanálise) e outro artístico (a Secessão) que foram constituídos na passagem do século XIX ao XX, em Viena. Para tal, inicia-se através de uma análise sucinta do contexto histórico em que ambos puderam emergir: a modernidade vienense. Nesse cenário são descortinadas as condições de possibilidades para entendermos a Psicanálise e a Secessão como dois entre os inúmeros movimentos culturais que tematizam as crises existencial, política e social emergentes em Viena 'fin-de-siècle'. Ilustrando tal proposição, três telas de Klimt são apresentadas, destacando-se alguns temas que as constitui e, simultaneamente, perpassam o saber psicanalítico.

Palavras-chave: Psicanálise; Secessão; Modernidade vienense; Arte; Freud; Klimt.


ABSTRACT

The main objective of this work is to promote a few comments on two specific movements, one scientific (Psychoanalysis) and other artistic (the Secession) that were set in the passage from nineteenth to twentieth centuries at Austria. Thus, it initiates by a brief analysis of the historical context in which both movements could emerge: the Viennese Modernity. Then, it is presented the conditions of possibilities for understanding Psychoanalysis and Secession as two among many cultural movements that shows the existential, political and social crises which emerged in Vienna fin-de-siècle. As an illustration, three of Klimt's paintings are shown, highlighting some issues that are related to psychoanalysis.

Keywords: Psychoanalysis; Secession; Art; Modernity in Vienna; Freud; Klimt.


 

 

INTRODUÇÃO

A idéia sobre o tema da presente comunicação surgiu a partir do desenvolvimento de uma disciplina optativa lecionada no curso de graduação em psicologia da Universidade Federal do Paraná. A proposta da disciplina versava sobre a possibilidade de produzirmos algumas interfaces entre a Psicanálise e a Arte em geral. Iniciamos através da leitura e análise de alguns textos freudianos nos quais o autor aborda tais relações e propõe formas específicas de entendimento sobre o movimento criativo e a produção artística (FREUD, 1908[1907]), a interpretação de romances pelo prisma da psicanálise (FREUD, 1907[1906]), a interpretação de uma escultura (FREUD,1914), finalizando com a obra em que o autor propõe uma possibilidade de interpretação do próprio artista (FREUD,1928[1927]). A partir dessas leituras, cada grupo de alunos construiu e apresentou, oralmente, um trabalho diferenciado nos quais as relações entre psicanálise e arte foram debatidas, estudadas e refletidas a partir dos mais diferenciados pontos.

Filmes, romances, contos, pinturas, narrativa mítica foram temas abordados pelos trabalhos desenvolvidos. Nesse contexto a presente comunicação foi desenvolvida procurando produzir uma correlação entre a psicanálise e o campo cultural de sua emergência, utilizando-me da magnífica obra de Gustav Klimt para ilustrá-la, na medida em que em seus traços fortes, contraditórios e paradoxais podemos vislumbrar alguns temas caros ao campo psicanalítico.

A minha intenção era fazer com que os alunos não perdessem de vista o fato que a psicanálise, como ciência, tenha nascido em um momento histórico determinado no qual algumas condições de possibilidade para tal estavam presentes. Um momento que nos é conhecido hoje como “Modernidade Vienense” em que inúmeras expressões, nos mais diversos campos da produção humana, surgiram na tentativa de produzir um entendimento sobre o Homem Moderno. Resumidamente, Viena, ao lado de Paris e Berlim, foi berço e expressão da Modernidade em suas mais profundas crises e contradições. O interessante é que o debate, na tentativa de solucionar e compreender as crises que se mostravam aparentes nos planos social e cultural, tenha se concentrado sobre a tematização de questões referentes ao impacto que tais crises produziram sobre a interioridade individual. Dessa forma, podemos compreender tanto a Psicanálise quanto a obra produzida por Klimt como dois modos de expressão da tematização sobre a subjetividade em crise na Modernidade, em planos diferenciados: ciência e arte. Daí podermos perceber que, em ambos, as mesmas questões e temáticas estejam presentes.

Objetivando sustentar essas argumentações, inicio através de uma sucinta apresentação do cenário vienense na virada dos séculos XIX/XX, para então, passar para algumas telas de Klimt através das quais destacarei temas caros à psicanálise, ressaltando que não os faço de uma forma linear, ou seja, como se cada tela apresentasse determinado tema que nela se esgotasse. Ao contrário, tal como no campo psicanalítico, os temas se sucedem, se superpõem, se entrelaçam, e se apresentam em todas as telas, algumas vezes de uma forma mais aparente, outras menos, porém, certamente, sempre presentes.

 

VIENA "FIN-DE-SIÈCLE": MODERNIDADE E CRISE.

Segundo Schorske (1990) inúmeros são os estudos que tratam o contexto cultural vienense uma vez que o panorama político, social e intelectual de Viena, na passagem do século XIX para o século XX, se apresenta como sendo o mais ilustrativo e elucidativo do movimento da modernidade em sua efervescência, crítica e transformação. O traço comum entre todos esses estudos, informa o autor, é a pontuação de que podemos observar que nos anos compreendidos entre 1890 e 1910 estabeleceu-se, na cidade de Viena, uma série de movimentos inaugurais nos mais diversos campos da atuação humana. Tal riqueza intelectual acabou por caracterizar esse período, que se convencionou denominar de “modernidade vienense”, no qual puderam ser estruturadas importantes manifestações culturais, tais como: o positivismo e a epistemologia de E. Mach; a fenomenologia e filosofia da linguagem de F. Brentano (desembocando na ‘gestaltpsichologie’ e no Círculo de Viena); o movimento de Secessão de G. Klimt e o expressionismo de Kokoschka; a música de Mahler e Schomberg; e a psicanálise de Freud.

Para os estudiosos e pesquisadores atuais, o cenário vienense se tornou um marco na história da modernidade, na medida em que seus intelectuais, ao perceberem a instauração de uma profunda crise nos sistemas simbólicos tradicionais que sustentavam o pensamento intelectivo da época, procuraram entendê-la e resolvê-la produzindo interpretações genuinamente inovadoras, que possuíam como denominador comum o caráter crítico e/ou transgressor das tradições. Nesse sentido, a oposição à herança cultural liberal e racional predominante à época se tornava, assim, o solo comum do qual todas essas abordagens germinaram, interpondo, cada uma a seu modo, os campos social e subjetivo. Nas palavras do autor:

Nessa passagem de heróis prometéicos para heróis epimetéicos da cultura, a mais extraordinária foi a de Marx para Freud. Pois aqui a busca e compreensão dos males que afligem a humanidade tenderam a se deslocar do domínio público e sociológico para o privado e psicológico. (SCHORSKE, 1990,p.19).

Ao se debruçar sobre as produções culturais vienenses, Schorske (1990) destaca que, a partir desse movimento histórico singular, estruturou-se aquilo que aparece como sendo a maior contribuição vienense ao mundo: a construção de uma nova concepção de homem. Concepção esta que se tornou possível a partir da indagação de vários intelectuais sobre a sobrevivência do indivíduo diante de um mundo social em franco processo de desmoronamento. Ou seja, para o autor, a modernidade vienense se caracterizou por ser um movimento de crítica e questionamento sobre as formas tradicionais de se pensar o mundo e o homem, engendrado, principalmente, a partir de um desencanto existencial generalizado que se estabeleceu pela desilusão acarretada pelo fracasso do projeto liberal e Iluminista de proporcionar o bem-estar social e individual. A tese do autor é que a intensa crise cultural e política, centralizada e vivenciada na cidade de Viena, fertilizou o solo intelectual a partir do qual foi possível o surgimento da concepção do homem psicológico, tornando-se, no século XX, o centro das atenções de psicólogos, filósofos, antropólogos, cientistas sociais, etc.

A cultura liberal tradicional tinha se concentrado sobre o homem racional, cujo domínio científico sobre a natureza e controle moral sobre si, deveriam criar a boa sociedade. No nosso século (séc. XX), o homem racional teve de dar lugar àquela criatura mais rica, mais perigosa e inconstante, que é o homem psicológico. Esse novo homem não é simplesmente um animal racional, mas uma criatura de sentimentos (SCHORSKE,1990,p.26).

O estilhaçamento do credo liberal trouxe, como uma de suas conseqüências, a vivência de um sentimento de instabilidade profunda. Podemos entender a base desse movimento através da noção de que o liberalismo, a partir do Iluminismo, depositava toda sua confiança no poder da racionalidade, tomando-a como instrumento de controle da natureza e das ações morais humanas, em prol da construção de uma sociedade ideal. Com o fracasso desse projeto Iluminista, uma crise existencial se abateu sobre os vienenses que passaram a buscar alternativas para solucioná-la. Nesse sentido, o autor assinala que o marco característico da modernidade vienense é um sentimento de perda, de decadência, de desmoronamento do mundo e de desconfiança no futuro, sublinhando que, em todos os campos intelectualizados, tal mal-estar tenha sido problematizado em termos individualistas a partir da intimidade, da privacidade e da subjetividade.

A catástrofe da ruína do liberalismo metamorfoseou ainda mais a herança estética em cultura de nervos sensíveis, hedonismo inquieto e, muitas vezes, franca ansiedade. E, acrescentando-se ao quadro já complexo, a inteligentsia liberal austríaca não deixou totalmente de lado o fio anterior de sua tradição, a saber, a cultura moralista-científica da lei. Com isso, a culpa se mesclou, e mutilou, nos melhores representantes austríacos, a afirmação da arte e da vida dos sentidos. Essa presença continuada da consciência no tempo de Narciso reforçou as fontes políticas da ansiedade na psique individual (SCHORSKE, 1990, p.31).

Em consonância, para LeRider (1992), a modernidade vienense se caracterizou por vivenciar a crise do indivíduo sentida como uma perda produzindo, em conseqüência, inúmeras tentativas de reconstrução do “eu”, destroçado, inseguro, dividido e sem esperanças. Essas tentativas centralizaram-se em preocupações estéticas, éticas e psicológicas, considerando, com ceticismo, determinadas idéias modernas como a de progresso guiado pela racionalidade científica e o programa de emancipação dos indivíduos animado pelo otimismo iluminista. De todo esse questionamento ocorreu, sobretudo, a substituição da concepção de homem racional, centrado no domínio de si mesmo e da natureza, voltado para a construção de uma sociedade ideal, por um conceito de homem muito mais rico e abrangente. Uma concepção de homem muito mais complexa e multifacetada, passional e inconstante.

 

PSICANÁLISE E ARTE: TEMATIZAÇÕES E ENCONTROS POSSÍVEIS.

Sobre esses pilares, tanto a obra de Freud quanto a obra de Klimt podem ser tomadas como representes de um mesmo momento histórico, debruçadas sobre as mesmas preocupações e questões. Fato este que nos permite destacar, então alguns temas que perpassam ambas as produções:

a) Dualismo de base: Vida e Morte

 

Vida e Morte, 1908/1916.

 

Podemos perceber que essa tela traz de forma explícita o dualismo freudiano entre Pulsões de Vida e Pulsão de Morte em constante tensão e complementaridade, transparecendo a impossibilidade de se conceber uma sem a ação da outra. Vida e morte aparecem aqui como noções mutuamente opostas e complementares: diante da confusão e profusão de movimentos e cores, corpos e intenções, afetos e expressões, a Morte permanece como contraponto necessário e constituinte, só, isolada, silenciosa à espreita.Se contrapondo ao burburinho da vida, uma silenciosa, mas macabra Morte dela faz parte, o que podemos notar ao perceber que o manto da morte, se pudéssemos aproximá-lo do contorno da vida, com esse se encaixaria perfeitamente. Assim como na teoria freudiana, tal tensão parece percorrer toda a obra de Klimt.

b) Relacionamento: entre a Paixão e o Abismo

 

O Beijo, 1907/1908.

 

Talvez essa seja a tela mais conhecida de Klimt. Em meu entendimento, acredito que em nenhuma outra tela o dualismo (tão caro ao pensamento freudiano) se apresenta de forma tão intensa e explícita quanto nessa: nas linhas retas do manto masculino em contraposição às flores e traços arredondados do manto feminino; no contraste entre a pele clara da mulher e a pele escura do homem; entre a atividade presente no ato de abraçar masculino em oposição à passividade da entrega feminina (não esqueçamos que Freud fez equivaler atividade- masculinidade e passividade-feminilidade). Para além do dualismo, a tela tematiza também outra importante questão psicanalítica: a relação amorosa. Se à primeira vista, a tela parece apontar para a possibilidade de ocorrência de um encontro perfeito entre duas pessoas, ilusão que se estabelece no momento da entrega apaixonada, o detalhe destacado por Klimt, que a um passo da entrega, efetivada sobre um convidativo e inocente campo florido, abre-se um abismo sem fim, demonstra que basta um pequeno deslize, um simples desencaixe que o impossível da relação afetiva se faz, nos precipitando ao vazio.

c) Constituição do Eu: auto-erotismo, narcisismo e Alteridade

 

Danae, 1907/1908

 

Klimt recorre aqui (tal como Freud) à mitologia grega para expressar o que deseja. Danae era filha do rei de Argos que a trancou em uma torre onde nenhum homem poderia dela desfrutar. Porém, Zeus, deus dos deuses, se transforma em chuva de ouro para poder fazer de Danae uma mulher. No meu entender, a tela tematiza duas questões: em primeiro lugar, a dificuldade da aceitação da castração, por parte do pai de Danae que assim confunde o exercício da função paterna, ou seja, ser o representante da Lei e não ela própria. Lei que se apresenta a despeito de sua vontade e se insinua na constituição de Danae como sujeito de seu desejo abrindo a segunda questão: o movimento de constituição do Eu, a partir de um auto-erotismo, já que satisfeita consigo mesma, Danae se completa narcisicamente, como se nada além dela própria importasse, como se idealmente pudesse se constituir sem a presença de um outro, que, no entanto, se faz presente através da erotização fantasiada que a ela chega sem compreensão e conhecimento racionais, através de um Outro que se mostra grandioso em seu fazer, em sua ação de afetização, como ouro, como deus, como pó, como chuva de afeto desconhecida.

 

REFERÊNCIAS

FREUD,S.(1907[1906]) Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. IX. Rio de Janeiro:Imago, 1980.

FREUD,S.(1908 [1907]) Escritores criativos e devaneios. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

FREUD,S.(1914) Moisés de Michelangelo. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XIII. Rio de Janeiro:Imago,1980.

FREUD,S.(1928[1927]) Dostoieviski e o parricídio. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XXI. Rio de Janeiro:Imago,1980.

HARRIS, N. Vida e Obra de Gustav Klimt. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.79p.

LE RIDER, J. A modernidade vienense e as crises de identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.224p.

SARMANY-PARSONS, I. Gustav Klimt. New York: Crown, 1987.96p.

SCHORSKE, C. E. Viena Fin-de-Siècle: política e cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.373p.

KLIMT, Gustav. Imagens disponíveis em:
Art.com: http://www.art.com/asp/display_artist-asp/_/crid--9/Gustav_Klimt.htm
WebMuseum, Paris: http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/klimt/
The Artchive: http://www.artchive.com/artchive/K/klimt.html
Expo-shop.com: http://www.expo-klimt.com/

 

 

*Psicóloga, Psicanalista, Mestre e Doutora em Psicologia Clínica, Professora Adjunto da UFPR, Pesquisadora do Núcleo de Estudos do Desenvolvimento Humano (NEDHU-UFPR), Colaboradora no Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPIS/PUC-Rio).

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