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Cógito

versão impressa ISSN 1519-9479

Cogito vol.11  Salvador out. 2010

 

O poder do objeto

 

The power of the object

 

 

Sonia Campos Magalhães *

Associação Científica Campo Psicanalítico – Salvador.

 


RESUMO

Tomando como referência o conto dos irmãos Grimm – Hans im Glück –, citado por Freud em uma carta a Ferenczi, a autora busca trabalhar questões relativas ao poder do objeto na experiência psicanalítica. –, citado por Freud em uma carta a Ferenczi, a autora busca trabalhar questões relativas ao poder do objeto na experiência psicanalítica.

Palavras-chave: psicanálise; poder; objeto; fantasia.


ABSTRACT

Using as a reference a Grimm Brothers’short story – Hans in Luck – mentioned by Freud in a letter to Ferenczi, the author approaches questions related with the power of the object in the psychoanalytical experience.


Key words: psychoanalysis; power; object; phantasy.


 

 

Senti-me instigada a construir esse trabalho, que denominei “O poder do objeto”, tomando como ponto de partida um conto dos irmãos Grimm. A minha atenção foi atraída por esse conto graças a um artigo do psicanalista Bernard Nominé - Une histoire à dormir debout (Uma história extravagante) - no qual ele nos diz que Freud, em uma carta endereçada a Ferenczi, em 10 de janeiro de 1910, refere-se à esse conto. Nominé nos leva a encontrar essa referência em um artigo de François Ansermet.

Vejamos:

Quando alguém revela os seus complexos infantis [...] ele é despojado de uma pele que abandona ao analista. No entanto, a Deus não agrada que ele esteja nu, sem pele! Nosso ganho terapêutico consiste em uma troca como no conto Hans im Glück (ANSERMET, 1994, p.22).

Nominé observa que Freud está se referindo ao conto de Grimm, intitulado em francês “Jean la Chance”, e em português “João Sortudo” (Grimm, 2005, p. 221-226). Trata-se da história de João, um jovem que, após ter servido por sete anos a seu mestre, recebe, como pagamento, uma barra de ouro do tamanho de sua cabeça. No caminho de retorno a sua casa, enquanto caminhava, “arrastando um pé atrás do outro”, ele vê surgir um cavaleiro, a cavalgar, muito confiante e alegre, o seu fogoso cavalo. João se maravilha diante do que vê e se queixa ao cavaleiro do quanto se sentia incomodado com o peso da sua barra de ouro. Este lhe faz, então, uma proposta: dar-lhe-ia o seu cavalo e, em troca, João lhe passaria a sua trouxa pesada. Realizada a troca, em um primeiro momento, João vai-se sentir encantado, cavalgando e dominando o seu cavalo... De repente, ao querer fazê-lo correr mais e mais, ainda, este vai atirá-lo ao chão. Prestes a fugir, o cavalo é detido por um camponês que vinha pela estrada trazendo uma vaca. Desgostoso com o seu cavalo, João passa, então, a imaginar o quanto seria bom ter uma vaca e não um cavalo. Já sonhando com o leite, a manteiga e o queijo que teria se ficasse com a vaca, ele vai aceitar a proposta do camponês de trocá-la por seu cavalo. Mas, ao tentar ordenhar a vaca, João não percebeu que, por mais que se esforçasse, dela não tirava nem uma gota de leite. A vaca, impaciente com o mau jeito de João, lhe dá um forte coice na testa, deixando-o desacordado. João é socorrido por uma mulher que passava, levando o seu porco para o açougue. Ele passa a imaginar o quanto lucraria se trocasse a sua vaca por um leitãozinho como aquele! Até salsichas teria! Troca, então, a sua vaca pelo leitão, pensando o quanto era afortunado, pois, após cada troca, ele sempre saía ganhando. Mais adiante, João vai encontrar um rapaz levando um belo ganso branco debaixo do braço. Pararam para conversar e o rapaz levanta a suspeita de que João estaria a correr riscos ao ficar com o porco, pois ouvira dizer que ele teria sido roubado. Temeroso, João já se dispõe a fazer mais uma troca: a do seu leitão pelo ganso. Livrava-se, assim, do risco de ser preso e, mais ainda, ganharia muito: primeiro, um delicioso assado, depois a gordura do ganso e, por último, as belas penas brancas com que encheria o seu travesseiro para dormir regalado...

Ao passar pela última aldeia, de volta a casa, João vai encontrar um amolador de facas com a sua carrocinha, cantando para a roda de amolar, que produzia um zumbido alegre. Seduzido por esse clima de alegria, João passa a pensar o quanto seria bom ser como o amolador de facas... E é assim que ele vai se dispor a aceitar a proposta que este lhe faz de lhe dar uma pedra de amolar para receber, em troca, o lindo ganso gordo de João. Passando-lhe a pedra de amolar, o afiador de facas, de sobra, lhe dá, também, uma outra pedra, um seixo comum, apanhado na beira da estrada.

A história nos conta que “João pôs a pedra nos ombros e seguiu o seu caminho com o coração leve e os olhos brilhando de alegria”.

Mais adiante, cansado, sedento, detém-se à beira de um poço para beber água e, “sem querer, dá um pequeno empurrão nas duas pedras que despencam dentro da água. Quando João as viu desaparecer diante de seus olhos, deu pulos de alegria e agradeceu a Deus por ter sido aliviado das pedras pesadas, extenuantes, supliciantes; e, mais ainda, sem que ele tivesse de se censurar por isso já que nem mesmo nisso pensara”.

No artigo de Nominé, acima citado, ele nos convida a refletir sobre a pertinência da metáfora proposta por Freud na sua carta a Ferenczi.

Há, segundo Freud, um “ganho terapêutico”, na análise. Este ganho se dá à semelhança das trocas sucessivas feitas pelo sujeito das quais se pode dizer, a priori, que, no registro das perdas e ganhos, parecem desastrosas. No entanto, quanto mais o sujeito se despoja, mais feliz ele fica.
Nominé observa que há algo intrigante na carta de Freud a Ferenczi, pois, no final da referência acima citada, ele coloca mais uma frase: “La dernière rognure ne tombe dans le puits qu´avec la mort elle-même” (NOMINÉ, 1994, p.79) - o último dejeto só tomba no poço com a morte. Essa frase leva Nominé a indagar sobre a razão que teria Freud para introduzir a morte nessa questão, já que não há alusão a ela no conto.

No conto dos irmãos Grimm, podemos perceber que, a cada troca, o sujeito se regozija e se alegra por se sentir mais leve e mais feliz que antes. No final da história, João Sortudo já não tem mais nada e a história termina por nos dizer que, “com o coração alegre, livre de todo fardo, ele se levanta e, com um passo alerta, sem se deter mais, chega à casa onde habitava sua mãe”.

Voltemos, então, à pergunta de Nominé: por que teria Freud introduzido a morte na sua carta a Ferenczi? Teria ele querido se referir à infinitude da análise ou estaria se referindo à pulsão de morte?

Nominé se dispõe a observar a lógica dessas trocas de objetos entre o sujeito e o Outro: no conto dos irmãos Grimm, João Sortudo acabara de receber de seu mestre o objeto de troca por excelência – o padrão a partir do qual se avalia tudo o que se troca – a barra de ouro. Com isso, ele vai retornar à casa de sua mãe. Em termos psicanalíticos poderíamos dizer que João Sortudo herdou o falo e que, no caminho de retorno à casa materna, ele fica embaraçado com isso. Ele o troca, de início, por um primeiro objeto que seria aquele que melhor simbolizaria o domínio do sujeito.

Trata-se aí de uma metáfora do objeto anal. Em seguida, João Sortudo vai trocar o cavalo por uma vaca, depois por um porco, depois por um ganso – três objetos do registro do oral. No entanto, a troca vai mais além... o amolador de facas fará brilhar, diante dos olhos de João Sortudo, algo que conseguirá fazê-lo soltar o objeto oral. E o que é surpreendente é que esta alguma coisa nada mais é que uma pedra apanhada na beira da estrada, aliás, bem pesada. A partir daí, não há mais outro para organizar a troca. Há, apenas, a “escolha” de abandonar a pedra no fundo do poço, que nada lhe pedira.

Seguindo Freud, poder-se-ia dizer que o caminho percorrido por João Sortudo é o mesmo de uma análise. A experiência analítica resultaria em uma série de fragmentos, de pedaços, dos quais o analisando se desfaz até o último, que se deixa tombar, enfim, no poço.

Em termos psicanalíticos, poderíamos entender, aí, enquanto poço, o furo do real?

Pergunto-me, então, agora: como justificar o título deste trabalho: O poder do objeto?

Numa tentativa de dar conta dessa questão, remeto-me, primeiro, ao artigo Escritores criativos e devaneios, que Freud intitulou em alemão Der dichter und das phantasieren (O poeta e a fantasia). Nele, Freud nos fala da tentativa incessante que faz o ser humano para reencontrar algo suposto perdido. A criança tenta encontrá-lo no brincar, que é, segundo Freud, a ocupação favorita e mais intensa da criança. Ao crescer, o homem parece renunciar aos jogos da infância. No entanto, adverte-nos Freud, “não renunciamos a nada, só fazemos trocar umas coisas por outras. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação de um substituto ou sub-rogado” (FREUD, 1987, p.150-151). Uma vez adulto, o ser humano, no lugar do brincar, vai recorrer à fantasia.

Será, então, sob a orientação da fantasia que o sujeito buscará encontrar o objeto que preencheria a falta. Será preciso lembrar, no entanto, de mais uma advertência de Freud: nesta busca para encontrar o objeto perdido, nenhum objeto vale mais do que o outro.

O analista disso está advertido. Em seu Seminário Livro 8, A transferência, vemos Lacan a dizer que “não há objeto que tenha maior preço que o outro” e acrescenta: “aqui está o luto em torno do qual está centrado o desejo do analista” (LACAN, 1992, p. 381).

Em uma experiência de análise, qualquer que seja o percurso do analisando, é importante que haja como parceiro “o desejo do analista”.

O poder do objeto está no fato de que o objeto “não é isso”, o que levou Lacan a propor uma fórmula para a demanda: “peço que me recuses o que te ofereço porque não é isso” (LACAN, 1982, p. 152). A esse “não é isso”, ele vai chamar objeto a. Lacan propõe ao analista, não que ele seja este objeto - pois é impossível - nem mesmo semblant deste objeto, mas que, ocasionalmente, ele seja o lugar de semblant para deixar o objeto a operar conforme a ética da psicanálise.

 

 

Referências

ANSERMET, François. “L´enfant comme réél”. L´enfant et le désir du psychanalyste. Série de la Découverte Freudienne. Toulouse: Universitaires du Mireil, 1994.

FREUD, Sigmund. Escritores criativos e devaneios. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. V. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

GRIMM. Contos. Organizado, selecionado e prefaciado pela Dra. Clarissa Pinkola Estes; ilustrado por Arthur Rackham; tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

LACAN, Jacques. A Transferência. Seminário Livro 8. Cap. XXVII: O analista e seu luto. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

______. Mais, ainda. Seminário Livro 20. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

NOMINÉ, Bernard. Une histoire à dormir debout. In: L´enfant et le désir du psychanalyste. Série de la Découverte Freudienne. Toulouse: Universitaires du Mireil, 1994.

 

 

* Psicóloga, Psicanalista, Analista Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil – Fórum Salvador, Membro da Associação Científica Campo Psicanalítico – Salvador.

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