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Avaliação Psicológica

versão On-line ISSN 2175-3431

Aval. psicol. v.4 n.2 Porto Alegre nov. 2005

 

RESENHA

 

WISC III: Escala de Inteligência Wechsler para crianças: Manual

 

 

Maria Beatriz Zanarella Cruz1

Universidade São Francisco

 

 

Wechsler, D. (2002). WISC-III: Escala de Inteligência Wechsler para Crianças: Manual. 3ª ed.; São Paulo: Casa do Psicólogo. 309 p.

A Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC-III) representa a terceira edição da Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC) e tem por finalidade avaliar a capacidade intelectual de crianças.

O WISC-III é composto por 13 subtestes, sendo 12 deles mantidos do WISC-R e um novo subteste, Procurador de Símbolos, organizados em dois grupos: Verbais e Perceptivos-motores ou de Execução, que são aplicados nas crianças em ordem alternadas, ou seja, um subteste de Execução e depois um subteste verbal e vice-versa. Os Subtestes Verbais são compostos pelos itens: Informação, Semelhanças, Aritmética, Vocabulário, Compreensão e Dígitos, enquanto que os subtestes de Execução são formados pelos itens: Completar Figuras, Código, Arranjo de Figuras, Cubos, Armar Objetos, Procurar Símbolos e Labirintos. Na elaboração do WISC-III, muitas investigações foram realizadas (teóricas e empíricas) e, embora tenham sido realizadas melhoras substanciais e acrescentado importante número de itens novos, as características fundamentais do WISC e do WISC-R mantiveram-se iguais no WISC-III.

Como no WISC-R, o WISC-III, é formado por diversos sub-testes que avaliam diferentes aspectos da inteligência, sendo o desempenho das crianças nesses sub-testes resumidos em três medidas que oferecem estimativas da capacidade intelectual das mesmas a saber: QIs Verbal, Execução e Total. O WISC-III oferece também estimativas de quatro escores opcionais de índices fatoriais, sendo que, o desempenho da criança nos subtestes resulta em três medidas: escore em QI Verbal, escore em QI de Execução e QI Total.

A Escala de Inteligência Wechsler para Crianças WISC-III, foi desenvolvida levando em consideração a concepção da inteligência como uma entidade agregada e global, ou seja, capacidade do indivíduo em raciocinar, lidar e operar com propósito, racionalmente e efetivamente com o seu meio ambiente. Por esta razão, os subtestes foram selecionados com o objetivo de investigar muitas capacidades mentais diferentes, mas que juntas, oferecem uma estimativa da capacidade intelectual geral da criança.

Como medida da capacidade intelectual geral, o WISC-III pode ser utilizado para diferentes finalidades, como por exemplo: avaliação psicoeducacional, diagnóstico de crianças excepcionais em idade escolar, avaliação clínica, neuropsicológica e pesquisa. Além disso, o instrumento pode ser útil não apenas para diagnósticos de deficiências ou avaliações de uma criança, mas também para identificar as forças e fraquezas do sujeito e fornecer informações relevantes para a elaboração de uma programação educacional específica para cada caso.

Em relação à padronização brasileira do instrumento, o grupo utilizado para montar os dados normativos da pesquisa de adaptação foi realizado com 801 escolares com idade entre 6 anos e 16 anos e 11 meses da cidade de Pelotas (RS), com uma proporção semelhante de meninos (49%) e meninas (51%). Foram selecionadas 34 instituições localizadas tanto no centro como na periferia. Não fizeram parte desta amostra os sujeitos portadores de dificuldades mentais, motoras e/ou sensoriais.

Os sujeitos foram selecionados pelo critério idade e sexo, totalizando aproximadamente 24 crianças em cada escola, sendo quatro de cada faixa etária, ou seja, dois do sexo feminino e dois do sexo masculino. A seleção dos estudantes foi realizada levando em consideração a listagem dos alunos por série, buscando escolher ao acaso alunos em diferentes graus de adiantamento. A maioria das crianças apresentou idade adequada para a série em que se encontravam. Para a escolha das escolas, foi levado em consideração o critério de abrangência de ensino e localização. Procurou-se, também, manter uma proporção equivalente dos diferentes tipos de estabelecimento de ensino, ou seja, municipais, estaduais e particulares não-assistenciais.Assim, os critérios utilizados para a amostragem do estudo foram: faixa etária, sexo, tipo de escola e local da escola.

As técnicas gerais de avaliação e procedimentos básicos de aplicação e correção do WISC-III são de extrema importância, uma vez que explicam os princípios de administração que se referem a todos ou a alguns subtestes específicos. Em resumo, os princípios básicos para o uso do WISC-III são: limites apropriados de idade, procedimentos padronizados, tempo de aplicação, condições ambientais e rapport. Os princípios referentes à administração do instrumento são: seqüência dos subtestes, início e interrupção dos subtestes, cronômetro do tempo, ensinando a tarefa e repetição dos itens e verificação das respostas. As considerações para a pontuação das respostas no WISC-III são objetivas e exigem pequenas ou nenhuma interpretação dos critérios e, os tópicos relacionados a esse princípio são: como usar as respostas dadas pela amostra, respostas acrescentadas após o Questionamento (inquérito), respostas erradas, conceitos gerais sobre os itens de compreensão e respostas múltiplas. As instruções para a aplicação e avaliação do teste são também minuciosamente informadas no manual do instrumento, sendo que as instruções são relatadas para cada um dos subtestes.

Em se tratando das propriedades psicométricas da Escala, o manual apresenta indicadores de fidedignidade para os subtestes, as escalas em QI e para os índices fatoriais do WISC-III e, também, estudos sobre teste-reteste (na amostra brasileira, somente com os subtestes de velocidade) e da consistência entre examinadores. As escalas em QI apresentaram coeficientes de fidedignidade entre 0,81 e 0,93 e os índices fatoriais entre 0,74 e 0,91. Os valores obtidos para os subtestes permaneceram entre 0,63 e 0,82. Em resumo, os coeficientes das escalas em QI e dos índices fatoriais foram, em geral, superiores aos valores obtidos para cada um dos subtestes.

A fidedignidade por meio teste-reteste para a pesquisa de adaptação brasileira do WISC-III foi realizada somente com os subtestes Código e Procurar Símbolos, devido às dificuldades práticas de realizar uma segunda aplicação do teste nos mesmos sujeitos. Para tanto, participaram 52 crianças de idades diferenciadas. O intervalo de tempo entre as duas aplicações foi de 3 meses e os estudantes pertenciam a duas escolas estaduais. Não foram calculados coeficientes específicos para cada grupo de idade, em razão da baixa representatividade das faixas etárias, levando em consideração os coeficientes de correlação como índices médios para a amostra geral. O valor obtido no teste-reteste para o subteste Código foi de 0,70 e para o subteste Procurar Símbolos foi de 0,63.

Na amostra brasileira pesquisada, foi utilizado um tipo de correlação intra-classe para avaliar a concordância entre avaliadores, que leva em consideração a tolerância do avaliador. As concordâncias entre avaliadores foram 0,94 para Semelhanças, 0,92 para Vocabulário, 0,90 para Compreensão e 0,92 para Labirintos. Quando os escores totais dos subtestes foram utilizados nas análises, as concordâncias obtidas entre avaliadores foram: 0,98 para Semelhanças, 0,98 para Vocabulário, 0,97 para Compreensão e 0,92 para Labirintos.

Na investigação das evidências de validade do WISC-III para crianças brasileiras, foram analisados os 12 subtestes com exceção do subteste Labirintos. Para tanto, foram considerados os dados da amostra geral (N=801) reagrupada em faixas etárias da seguinte forma: 6 e 7 anos (N=265), 8 a 11 anos (N=270) e 12 a 16 anos (N=266). Em se tratando da validade de construto, foram realizadas a análise da representação comportamental (análise fatorial e análise fatorial confirmatória) e análise por hipótese (análise convergente-discriminante e validação pela idade). Para a validade de critério, foram feitas análises de validação preditiva (notas escolares) e validação concorrente (teste Raven).

A validação convergente-discriminante foi analisada estimando-se as intercorrelações de todos os subtestes e escalas compósitas entre si. Em termos gerais, os resultados indicaram que as correlações entre os subtestes verbais são maiores entre si (0,35 a 0,64) do que entre os subtestes não-verbais (0,28 a 0,64). Quanto às escalas em QI, os subtestes verbais apresentaram maior correlação com a escala Verbal, exceto Aritmética e Dígitos, que apresentaram maior comunalidade com a escala Total, 0,655 e 0,538. Os subtestes não-verbais correlacionaram-se com a escala Total e os subtestes Armar Objetos (0,549) e Procurar Símbolos (0,560) correlação com Execução. Em consideração aos índices fatoriais, os subtestes verbais obtiveram maior correlação com Compreensão Verbal, exceto Dígitos, que apresentou maior correlação com Resistência à Distração, 0,485. Já os subtestes não-verbais, estes se correlacionaram mais com Organização Perceptual, exceto para Código e Procurar Símbolos que apresentaram coeficientes maiores com Velocidade de Processamento, 0,600 em ambos.

Na validação por idade, as correlações dos escores brutos do WISC-III com a idade foram todas significativas com p<0,01, isto é, as correlações foram altas e positivas, indicando que a idade influenciou significativamente os escores obtidos no teste, com média das correlações de 0,75 e média do desvio padrão de 0,06. A significância das diferenças entre as médias dos escores nas escalas em QI e nos índices fatoriais teve um aumento diretamente proporcional com a idade e os dados mostraram que as diferenças entre as médias dos escores foram altamente significativas com p<0,05.

Foi utilizado o índice de realização acadêmica como critério para verificar o grau de eficácia do WISC-III em predizer o rendimento escolar acadêmico das crianças. Para isto se utilizou uma amostra de 612 sujeitos com média de idade de 10 anos e 3 meses e 10 dias de ambos os sexos. As correlações entre as notas e o desempenho no teste foram significativas, embora baixas, variando entre 0,25 e 0,37 nos subtestes Informação, Semelhanças, Aritmética, Vocabulário e Cubos, entre 0,32 e 0,41 nas Escalas em QI e, entre 0,27 e 0,40 nos índices fatoriais.

Para o estudo da validade de critério, foram utilizados os escores do WISC-III e correlacionados com os do teste Matrizes Progressivas Coloridas de Raven Escala Especial. Visto que o Raven é um instrumento de inteligência não verbal, as correlações nos subtestes não-verbais (Execução e Organização Perceptual) foram maiores, 0,68 e 0,69. Esses dados indicam que as capacidades avaliadas pelos instrumentos são similares, ou seja, que o WISC-III é um teste válido para a criança brasileira que apresentar características equivalentes à da amostra pesquisada.

O manual do WISC-III apresenta ainda, estudos comparativos de correlação com o WISC-R, WAIS-R, WPPSI-R, Teste de Capacidade Escolar Otis-Lennon, com Escalas de Capacidade Diferencial, com Testes Neurológicos, com o Wide Range Achievement Test-Revised, com Testes de Aproveitamento Aplicados em Grupo, com notas escolares e estudos de grupos especiais realizados com crianças em programas para superdotados intelectuais, com deficiências mentais e com distúrbios de aprendizagem.

 

 

Sobre a autora:

1 Maria Beatriz Zanarella Cruz: psicóloga, aluna do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia pela Universidade São Francisco. Bolsista CAPES.