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Avaliação Psicológica

versão On-line ISSN 2175-3431

Aval. psicol. v.4 n.2 Porto Alegre nov. 2005

 

RESENHA

 

Teste Wisconsin de Classificação de Cartas

 

 

Fabiano Koich Miguel1

Universidade São Francisco

 

 

Heaton, R. K., Chelune, G. J., Talley, J. L., Kay, G. G., & Curtiss, G. (2004). Teste Wisconsin de Classificação de Cartas. São Paulo: Casa do Psicólogo. 346 p.

O Teste Wisconsin de Classificação de Cartas (WCST) é um instrumento que foi desenvolvido em 1948 para avaliar a capacidade do indivíduo raciocinar abstratamente e modificar suas estratégias cognitivas como resposta a alterações nas contingências ambientais. Para tanto, o teste é composto de dois baralhos idênticos com 64 cartas cada e quatro cartas-estímulo, fornecendo escores quanto aos acertos, assim como apontando fontes de dificuldade nas tarefas. Além de avaliar a capacidade de raciocínio abstrato, o WCST também tem sido progressivamente utilizado em pesquisas sobre lesões e disfunções do lobo frontal. O manual do teste, publicado pela Casa do Psicólogo, é composto de duas partes, sendo que a primeira é uma tradução do manual original em inglês, e a segunda apresenta os estudos de adaptação e padronização do teste no Brasil.

A primeira parte lista os materiais que compõem o teste, a saber, o manual, quatro cartas-estímulo, dois baralhos iguais de 64 cartas-resposta e o protocolo de registro. As cartas apresentam figuras que possuem três tipos de configuração: Cor, Forma e Número. As cores podem ser vermelho, azul, amarelo ou verde; as formas podem ser cruzes, círculos, triângulos ou estrelas; e o número de figuras pode ser um dois, três ou quatro. Já o protocolo de registro possui três páginas, sendo que na primeira são preenchidos os dados do sujeito, na segunda estão 128 itens que compõem as respostas e na terceira estão as áreas para cálculo dos escores.

A administração do teste é apresentada em detalhes e exemplificada. As quatro cartas-estímulo devem ser dispostas na frente do cliente, então é avisado que o aplicador não pode dizer muito em relação ao que deve ser feito, apenas que o sujeito deve retirar uma carta do baralho de resposta e associá-la a uma das quatro cartas-estímulo, posicionando-a embaixo. Será informado apenas se a associação foi correta ou errada, antes do cliente pegar a próxima carta. O aplicador terá em mente que a configuração inicial é Cor, portanto dirá que a resposta foi correta toda vez que o cliente associar a carta retirada com as cartas-estímulo pela cor. Após 10 respostas consecutivas corretas, o examinador passará a dizer como correta as associações de Forma, e assim por diante, até o término das 128 cartas ou da seqüência Cor, Forma, Número, Cor, Forma, Número (CFNCFN). Ocasionalmente, o sujeito pode associar uma carta que não se encaixe em nenhuma das três configurações, sendo então classificada como Outra. Há também situações em que mais de uma associação pode ser possível, por exemplo, Cor e Número. Ambos os tipos devem ser assinalados no protocolo.

A atribuição do escore tem sido motivo de confusão, uma vez que diversos estudos utilizaram procedimentos diferentes, tornando difícil a comparação. O presente manual busca sanar esse problema apresentando uma padronização e regras de pontuação claras, acompanhadas de ilustrações de casos clínicos. Entre esses esclarecimentos está a correta utilização da terminologia do teste, apresentando conceitos como fracasso na manutenção do contexto, que ocorre quando o cliente acerta cinco ou mais respostas, mas erra antes de completar as 10 necessárias para se mudar de categoria. As respostas são então avaliadas baseadas em três dimensões, a saber: Correta-Incorreta, que indica se a associação que o sujeito realizou está certa; Ambígua-Não-ambígua, que diz que uma associação não é ambígua quando apenas uma característica da carta-resposta combina com a carta-estímulo; e Perseverativa-Não-perseverativa, que diz que o princípio perseverante ocorre quando o sujeito, ao receber a informação de que o critério de associação já não está mais correto, não inibe sua tendência de persistir no padrão antigo.

O grupo utilizado para montar os dados normativos americanos do WCST foi composto de 899 sujeitos considerados normais, divididos em seis amostras separadas. A faixa etária abrangeu dos 6 anos e meio até 89 anos, e buscou-se manter as proporções de grupos de idade da amostra semelhante aos grupos mostrados pelo censo americano de 1984 projetado para 1995. Foram feitas análises de regressão a fim de verificar a influência das variáveis idade, sexo e escolaridade nos dados obtidos. Encontrou-se uma relação quadrática (curvilínea) entre todos os escores no WCST e idade que explicava uma média de 17% da variância, e uma relação linear entre quase todos os escores e escolaridade que explicava cerca de 7% da variância. Não houve indícios de influência significativa do sexo. Por esse motivo, as tabelas normativas foram agrupadas por idade.

O manual apresenta indicadores de fidedignidade para os escores de Respostas Perseverativas, Erros Perseverativos e Erros Não-Perseverativos com avaliadores experientes, que obtiveram índices entre 0,91 e 0,96, e avaliadores novatos, com índices entre 0,75 e 0,97. Também são apresentados dados de fidedignidade interavaliadores, que variaram de 0,895 a 1,000 (exceto para a pontuação Aprendendo a Aprender, que obteve 0,658), e intra-avaliadores, que variaram de 0,828 a 1,000. Em relação à fidelidade de mensuração, os coeficientes de generabilidade variaram de 0,39 a 0,72, com média de 0,57, sendo que índices a partir de 0,60 podem ser considerados demonstrativos de uma fidedignidade muito boa.

Em relação à validade, são apresentados diversos estudos com adultos e crianças que atestam a validade convergente do WCST como medida da função executiva que envolve o lobo frontal. São relatados estudos com pacientes neurologicamente comprometidos, portadores de transtornos convulsivos, esclerose múltipla, doença de Parkinson, entre outros, mostrando que há prejuízo de desempenho em comparação com pessoas normais. Há evidência, também, de que o WCST é sensível à disfunção do lobo frontal.

A segunda parte do manual introduz os estudos de normatização do WCST para a população brasileira de 6 anos e meio a 17 anos e 11 meses, realizados pela equipe de Jurema Alcides Cunha, Clarissa Marceli Trentini, Irani de Lima Argimon, Margareth da Silva Oliveira, Blanca Guevara Werlang e Rita Gomes Prieb. A amostra original contava com 651 sujeitos. Foram utilizados o subteste Vocabulário do WISC-III e do WAIS-R, cuja média foi de 10,85, e o subteste Cubos, com média de 9,37, para se estimar quais sujeitos estavam num nível intelectual médio. Dois instrumentos de triagem traduzidos para o português foram utilizados, a saber o Child Behavior Checklist e Teacher's Report Form. A amostra final foi reduzida para 515 sujeitos, sendo 307 do sexo feminino, atendendo a um nível de escolaridade adequado à idade e ausência de alterações no desenvolvimento, disfunções cognitivas e distúrbios psicopatológicos.

Uma comparação entre as médias brasileiras e americanas foi realizada, mostrando que existem diferenças, provavelmente devido a fatores socioculturais. Quanto às variáveis demográficas, verificou-se a influência da idade nos resultados, cujos efeitos foram significativos em quase todas categorias do WCST. Numa análise de variâncias univariada, investigou-se a influência de escolaridade e sexo sobre os escores, encontrando-se F=10,377 apenas para escolaridade, não havendo efeitos significativos para sexo e também não havendo interação entre os dois fatores. Os resultados da análise de regressão igualaram-se aos americanos, revelando uma relação quadrática entre escores do WCST e idade e relação linear entre os escores e escolaridade.

Em relação à fidelidade da medida, o estudo brasileiro também utilizou a teoria da generabilidade, seguindo a metodologia dos autores americanos, reaplicando o instrumento em um subgrupo de 46 adolescentes após o intervalo de um mês. Os coeficientes de generabilidade variaram de 0,37 a 0,72. Para verificar a validade, o WCST foi aplicado em 24 crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, comparadas com outras 24 crianças sem esse diagnóstico. As idades variaram de 7 a 10 anos, sendo cerca de 83% do sexo masculino. Os resultados obtidos indicaram que o teste pode ser útil na avaliação da função executiva nas crianças com esse transtorno.

O manual do WCST apresenta ainda, tanto para a tradução do inglês quanto para os estudos brasileiros, as tabelas normativas para todas as idades, auxiliando a transformação dos escores brutos em percentis, escore T e escore padrão. A publicação impressiona pelo elevado número de páginas, o que é justificado pelo nível de detalhamento de seu conteúdo.

 

 

Sobre o autor:

1 Fabiano Koich Miguel: psicólogo, especialista em Psicologia do Trânsito e aluno do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia pela Universidade São Francisco. Bolsista CAPES.