SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.7 número3Diferenças relacionadas ao sexo observadas no Cheklist de Relações Interpessoais: revisadoÍndices educacionais associados à proficiência em língua portuguesa: um estudo multinível índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Avaliação Psicológica

versão On-line ISSN 2175-3431

Aval. psicol. v.7 n.3 Porto Alegre dez. 2008

 

ARTIGOS

 

O Teste de Pfister e o transtorno dissociativo de identidade

 

The Pfister Test and the dissociative identity disorder

 

 

Marcello de A. Faria*

Universidade Católica de Brasília

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O Transtorno Dissociativo de Identidade, anteriormente denominado Personalidade Múltipla, é um transtorno mental de difícil diagnóstico, de sintomatologia diversificada e forte comorbidade. Neste estudo de caso objetivamos contribuir com a divulgação deste transtorno e relatar a riqueza da utilização do Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister em casos desta natureza. A amostra foi composta por uma paciente múltipla, que apresentou dez personalidades em atuação no seu psiquismo. Os dados foram analisados segundo os princípios de interpretação do teste tendo sido considerados o modo de colocação dos quadrículos, o processo de execução, as síndromes cromáticas, o aspecto formal, a fórmula cromática, as variações cromáticas e de matizes, as cores por dupla, o tempo de execução, o tempo psíquico de reação, a análise das pirâmides em função dos planos da personalidade e os valores posicionais. Verificaram-se indicadores sintomatológicos e dissociativos significativos caracterizados por amnésia, traumas e emersões espontâneas entre personalidades.

Palavras-chave: Avaliação psicológica, Pirâmides Coloridas de Pfister, Transtorno dissociativo de identidade, Trauma.


ABSTRACT

The Dissociative Identity Disorder, formerly called Multiple Personality, is a mental disorder of difficult diagnosis, diversified symptomatology and strong comorbidity. The purpose of this case study was to contribute to the divulgation of this disorder and to report the richness in the use of Pfister's Color Pyramid Test in cases of this nature. The sample was composed by a multiple patient who presented ten active personalities in her psychic life. The data were analyzed according to the test's interpretation principles, considering the position of the small squares, the execution process, the color syndromes, the formal aspect, the sequence formula, the chromatic and matrix variations, the colors by pairs, the execution period, the psychic time of reaction, the analysis of the pyramids in terms of the personality plans and the positional values. Significant dissociative and symptomatological indicators, characterized by amnesia, traumas and spontaneous emersions among personalities were verified.

Keywords: Psychological assessment, Pfister's color pyramid test, Dissociative identity disorder, Trauma.


 

 

Introdução

A Personalidade Múltipla - um transtorno mental de difícil diagnóstico devido à sintomatologia diversificada e à sua forte comorbidade -, atualmente catalogada como Transtorno Dissociativo de Identidade, só se tornou um diagnóstico oficial da Associação Americana de Psiquiatria em 1980. Para este distúrbio dissociativo existem critérios específicos definidos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR, 2003), e registro na Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID-10, 1993).

No âmago das características da síndrome, que não é um artefato iatrogênico e cuja característica essencial é a existência dentro do indivíduo de duas ou mais personalidades distintas, cada qual dominante num momento específico, encontram-se as chamadas personalidades alternativas, múltiplas ou alters (Hacking, 1995).

Explicações etiológicas focalizam questões traumáticas como sendo o principal fator desencadeador da dissociação anormal da consciência, um mecanismo de defesa resultante de agressões e abusos físicos, sexuais ou psíquicos, responsável pelo encadeamento das emersões-imersões das múltiplas personalidades (Putnam, 1989; Steinberg, 1994).

Para Freud (1923/1996), "(...) talvez o segredo dos casos daquilo que é descrito como 'personalidade múltipla' seja que as diferentes identificações apoderam-se sucessivamente da consciência." (pp. 43). Ele também, juntamente com Joseph Breuer, apresentou informações que estão em consonância com os critérios diagnósticos atuais da Personalidade Múltipla:

(...) Num mesmo indivíduo são possíveis vários agrupamentos mentais que podem ficar mais ou menos independentes entre si, sem que um 'nada saiba' do outro, e que podem se alternar entre si em sua emersão à consciência. Casos destes, também ocasionalmente, aparecem de forma espontânea, sendo então descritos como exemplos de 'double consciente' (Freud, 1910 [1909]/1996, p.35).

Outros autores (Haddock, 2001; Kluft & Fine, 1993; Ross, 1989) afirmam que a liberação dos aspectos traumáticos, objetivando processos de integração, constitui a essência maior do tratamento porque dissolve o impacto do trauma recalcado e, conseqüentemente, diminui ou cessa a dissociação da consciência. Tais processos, não poucas vezes, vêm acompanhado do chamado Inner Self Helper, ISH, uma personalidade auxiliar que contribui com o terapeuta no tratamento da paciente (Allison, 1980).

Historicamente, há diversos casos considerados clássicos na literatura científica da Personalidade Múltipla. O primeiro deles, um registro envolvendo dissociação e duplicidade, ocorreu por volta do século XVI, quando Paracelso apresentou uma mulher que se encontrava amnésica perante uma alter que havia roubado o dinheiro dela (Hacking,1991; Putnam, 1989).

Um outro caso clássico foi registrado por Eberhardt Gemelin no final do século XVIII. No começo da Revolução Francesa, refugiados aristocráticos chegaram em Stuttgart. Impressionada com esta visão, uma jovem mulher alemã, de vinte anos de idade, mudou repentinamente a própria personalidade para os modos e maneiras de uma senhora francesa, imitando e falando o francês perfeitamente e o alemão como se fosse uma francesa. Esses estados, de francês, repetiram-se. Quando em sua personalidade francesa, a mulher tinha completa memória de tudo aquilo que tinha dito e feito durante o estado francês anterior. Quando em sua personalidade alemã, ela nada conhecia da sua personalidade francesa (Ellenberger, 1970).

O notável caso de Mary Reynolds, considerado um dos mais famosos de Personalidade Múltipla, foi publicado pela primeira vez em 1815, ampliado em 1860 e refinado em um novo livro - intitulado Mary Reynolds: A Case of Double Consciousness -, em 1889 (Putnam, 1989). Na primavera de 1811 Mary foi encontrada em sono profundo que durou muitas horas e do qual despertou tendo perdido toda a memória e o uso da fala. Posteriormente, despertou em seu estado natural expressando surpresa à mudança de estação sem perceber que algo anormal havia ocorrido. Estas alterações de um estado para outro continuaram durante mais de uma década. Finalmente cessaram quando ela alcançou trinta e cinco anos, permanecendo em seu segundo estado sem mudança adicional até sua morte em 1854 (Ellenberger, 1970).

Genuinamente, o primeiro estudo objetivo de Personalidade Múltipla foi inaugurado na França, em 1836, por Antoine Despine, com a publicação da história de Estelle L'Hardy, sob a forma de monografia. Estelle tinha onze anos quando chamou a atenção de Despine. Ela era absorvida em devaneios, visões fantásticas e esquecia de um momento para outro tudo aquilo que acontecia ao seu redor (Ellenberger, 1970; Hacking, 1995).

Em julho de 1885 Jules Voisin descreveu o caso do paciente francês Louis Vivet que apresentou oito estados de personalidade, além de um grande número de estados fragmentários. Para Faure, Kersten, Dinet e Onno (1997), várias fontes em Vivet indicam que ele foi exposto a experiências de vida extremamente opressivas, incluindo abuso físico, negligência severa, abandono, desamparo e prisão.

Um outro clássico que tornou a Personalidade Múltipla mais conhecida, embora não se trate de um caso clínico propriamente dito, foi o conto intitulado The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, em 1886 (Ellenberger, 1970). Na história narrada, o doutor Jekyll é um homem normal e respeitado, de conduta exemplar. Seu monstruoso alter ego, Sr. Hyde - condição segunda -, é uma personalidade hedonista, cruel, irresponsável, que busca os prazeres carnais. O doutor Jekyll objetivava permitir a transmutação entre os dois estados ou condições para explicar a convivência do bem e do mal dentro do ser humano. Porém, dividido e perdendo de forma crescente o controle e o domínio do segundo estado, procura desesperadamente uma forma de resolver o impasse. Ao mesmo tempo, é cobaia das experiências - realizadas com drogas sintéticas auto-aplicáveis - sem conhecer o alcance dos experimentos. Subjugado pela própria invenção, sem poder refreá-la, escraviza-se e sucumbe.

Em 1887 Eugène Azam publicou um livro intitulado Hypnotisme, doubleconscience et altérations de la personnalité, prefaciado por Charcot. Conforme Ellenberger (1970), de 1858 a 1893 Azam estudou e acompanhou intermitentemente Félida. Ele declarou que em sua condição normal ela era de inteligência comum, mas que se tornava brilhante na condição secundária. Nesta última, era bem consciente não somente da condição secundária prévia, mas também sobre toda a sua vida. Em seu estado normal nada conhecia de sua condição secundária exceto o que os outros lhe contavam.

O caso Hélène Smith, cujo verdadeiro nome era Élise-Catherine Müller, foi publicado pela primeira vez em 1899. Encontra-se registrado no livro intitulado From India to the Planet Mars: A Study of a Case of Somnambulism with Glossolalia, escrito por Théodore Flournoy, prefaciado por C. G. Jung. Um conceito pioneiro que Flournoy fez uso em seu estudo, diretamente ligado à problemática da Personalidade Múltipla, foi o de criptomnésia ou memória escondida (Flournoy, 1899/1994).

Christine L. Beauchamp representa mais um clássico de expressivo valor para a compreensão da Personalidade Múltipla. Conforme Prince (1905/1957), cada uma de suas personalidades secundárias era somente uma parte do ego normal e inteiro. A paciente mudava de personalidade de vez em quando, freqüentemente de hora em hora, e em cada mudança seu caráter era transformado e suas recordações alteradas. Além da realidade original, Christine podia ser qualquer uma dentre três pessoas diferentes. Embora fazendo uso de um mesmo corpo, cada personalidade possuía características distintas. Uma diferença manifestada por diferentes traços de pensamento, por diferentes pontos de vista, diferentes convicções, ideais e temperamentos, e por diferentes aquisições, gostos, hábitos, experiências e recordações.

Certamente, muitos outros casos envolvendo a Personalidade Múltipla poderiam ser descritos detalhadamente, tais como: Léonie, paciente cujo caso está documentado em Janet (1889); Eva, história registrada em Sizemore (1978), que se transformou num clássico do cinema tendo Joanne Woodward desempenhado o papel principal e ganhado o Oscar de melhor atriz de Hollywood, em 1957; Sybil, paciente da psicanalista Cornelia B. Wilbur, descrita em Schreiber (1973), cujo quadro clínico apresentou uma hierarquia contendo dezesseis personalidades; Henry Hawksworth, paciente múltiplo documentado por Schwarz (1977); e Billy Milligan, serial killer que apresentou vinte e quatro personalidades distintas identificadas em seu psiquismo e cujo caso está registrado em Keyes (1981).

Importante enfatizar que, apesar desta evolução histórica e científica, no Brasil - embora as últimas décadas tenham sido caracterizadas por uma extraordinária expansão da psicologia, sendo marcante a aplicação de princípios e técnicas em áreas específicas (Cunha, Minella, Werlang & Carneiro, 1993) - a Personalidade Múltipla carece de aprofundamentos. Não há congressos que abordem a temática de forma específica, quase nada em termos de pesquisadores dedicados ao assunto e nenhuma literatura científica original.

Diante dessa carência de investigações relacionadas com o transtorno no âmbito nacional, o Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister - que desde a sua criação em 1948 (Villemor Amaral, 1978) tem sido considerado, sucessivamente, útil e confiável nos processos psicodiagnósticos (Villemor-Amaral, 2005) - apresenta-se como uma técnica valiosa para a compreensão da dinâmica emocional e das habilidades cognitivas dos múltiplos, termo pelo qual são conhecidos os pacientes portadores de Personalidade Múltipla (Hacking, 1995). Adicionalmente, há na técnica de Pfister uma intensa correlação entre a percepção da forma e da cor. A forma diz respeito ao aspecto objetivo da percepção, constitui um dos elementos essenciais da análise e é importante por indicar as possibilidades de controle racional que um indivíduo tem sobre os afetos e as emoções. A cor escapa à objetividade e reflete um mundo que emerge da subjetividade, que se configura e se projeta através da forma (Brauer, 1998; Heiss & Halder, 1983; Justo & Kolck, 1976; Marques, 1988; Villemor Amaral, 1978; Villemor-Amaral, 2005).

Portanto, esta pesquisa, um estudo de caso fruto da experiência profissional do autor, tem como objetivo contribuir com a divulgação do Transtorno Dissociativo de Identidade no âmbito científico nacional e relatar a riqueza da utilização do Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister em uma paciente múltipla.

 

Método

Descrição

O método do estudo de caso é uma inquirição empírica que pesquisa um fenômeno contemporâneo dentro de um contexto da vida real, quando a fronteira entre o fenômeno e o contexto não é claramente evidente (Yin, 1989). Segundo André (2005) os estudos de caso são valorizados pela sua capacidade de projetar luz sobre o fenômeno estudado, de modo que o leitor possa descobrir novos sentidos, expandir suas experiências ou confirmar o que já sabia. Espera-se que o estudo de caso favoreça a compreensão da situação investigada e possibilite a emersão de novas relações e variáveis levando o leitor a ampliar suas experiências. Espera-se ainda que desvele pistas para aprofundamentos ou para futuros estudos.

Participante

Inicialmente, realçamos que em todos os momentos deste trabalho, princípios éticos relativos à pesquisa envolvendo seres humanos, inclusive aqueles que dizem respeito ao sigilo da paciente, foram obedecidos.

Para o presente estudo de caso tivemos um sujeito único, Caroline, nome fictício. Brasileira, casada, quarenta e sete anos à época de nosso primeiro contato, escolaridade média. Aceitou tomar parte desta pesquisa homologando a sua participação através do Termo de Consentimento Informado Livre e Esclarecido. Pela primeira vez foi diagnosticada como múltipla. O diagnóstico foi feito à medida que os critérios contidos no DSM-IV-TR (2003) foram sendo comprovados ao longo do tratamento clínico. Tivemos colaborações à distância de psiquiatras americanos renomados e de colegas da ISSTD - International Society for the Study of Trauma and Dissociation. Antes do início do processo psicoterápico a paciente recebeu o diagnóstico de depressão segundo os critérios da Classificação Estatística Internacional de Doenças, CID-10 (1993), nas várias consultas com diferentes psiquiatras. Alguns laudos médicos foram apresentados pela paciente. Exames cardiológicos e neurológicos foram realizados ao longo da vida, com resultados negativos, caracterizando ausência de comprometimentos orgânicos.

Foram identificadas dez personalidades encapsuladas no psiquismo de Caroline. Salientamos que todas as alters foram registradas conforme identificadas por elas mesmas quando de suas emersões. O controle intermitente exercido por cada uma das personalidades em relação ao comportamento do sujeito, a incapacidade para recordações importantes relacionadas com eventos de sua vida quando em processo dissociativo, a sua conduta de abstemia sem nunca ter feito uso de drogas ilícitas, somadas a ineficácia de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos prescritos por psiquiatras, fundamentam a inclusão da paciente na descrição dos critérios diagnósticos para o Transtorno Dissociativo de Identidade.

Instrumento

Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister criado em 1948 (Villemor-Amaral, 2002) pelo suíço Max Pfister como tese de doutorado em Psicologia à Sociedade de Psicanálise de Zurique e introduzido no Brasil, em 1956, por Fernando de Villemor Amaral. Consiste de um jogo de três cartelas contendo o esquema de uma pirâmide, subdividida em 15 pequenos quadrados e um jogo de quadrículos coloridos composto de 10 cores subdivididas em 24 tonalidades, havendo no mínimo 45 unidades de cada tom e a mesma quantidade para todos os tons (Villemor-amaral, 2005).

Procedimento

As aplicações do teste ocorreram no consultório particular do pesquisador, em condições adequadas ao bom desempenho do sujeito, ou seja, ambiente calmo e tranqüilo, com privacidade, isento de decorações repletas de cores, com iluminação natural apropriada e com uma mesa de cor neutra em sua superfície (Villemor Amaral, 1978; Villemor-Amaral, 2005).

Somente duas personalidades - em atuação num mesmo psiquismo - estiveram envolvidas neste estudo de caso, Caroline e Dalva, uma das alters. A coleta de dados foi feita em duas sessões clínicas conosco. A segunda sessão, ocorrida com espaçamento de um mês, foi necessária para retestagem devido ao processo dissociativo ocorrido durante a primeira aplicação. Os dados foram analisados globalmente, tendo sido considerados o modo de colocação dos quadrículos, o processo de execução, as síndromes cromáticas, o aspecto formal, a fórmula cromática, as variações cromáticas e de matizes, as cores por dupla, o tempo de execução, o tempo psíquico de reação, a análise das pirâmides em função dos diferentes planos da personalidade e os valores de posição, de acordo com a interpretação de Justo e Kolck (1976), Villemor Amaral (1978) e Villemor-Amaral (2005).

 

Resultados

A seguir, registramos os resultados das análises dos protocolos de Caroline e de Dalva, teste e re-teste respectivamente, obtidos nas duas sessões clínicas. Realçamos que durante a primeira sessão, quando da aplicação do teste, após a elaboração da segunda pirâmide, Caroline entrou em processo dissociativo espontâneo. Dalva, uma das alters, emergiu e desejou executar a mesma atividade. Após o término do teste completo com Dalva, Caroline retornou e, nada percebendo - amnésia -, deu continuidade a tarefa que estava executando. Fez, então, a terceira pirâmide e nos pediu para fazer uma quarta adicional, justificando-se querer "representar algo mais". Consentimos apesar desta última elaboração não entrar na mensuração do teste.

Em relação ao protocolo de Caroline, como mostrado na Figura 1, as elaborações das quatro pirâmides seqüenciais produzidas, com ausência de trocas, foram:

 

 

Em continuidade, registramos informações complementares relacionadas com o inquérito realizado. Tais informações se justificam por demonstrar que a paciente mantém o senso de realidade quando ausente de processos dissociativos.

Qual das três pirâmides ficou mais bonita? Qual você gostou mais? Por quê? A terceira, porque tem um dégradé perfeito. Cores combinadas e ordenadas. Qual das três pirâmides ficou menos bonita? Qual você gostou menos? Por quê? A segunda, porque dá idéia de prisão. Dá a impressão que esse amarelo jamais sairá daí. Geralmente, qual a cor que você mais gosta? Azul. Geralmente, qual a cor que você menos gosta? Preta. Aqui no material do teste, qual a cor que você mais gostou, a sua cor preferida? Azul - Az2. Aqui no material do teste, qual a cor que você menos gostou? Marrom. Esta aqui - Ma1. Logo após o inquérito, tivemos o seguinte diálogo com a paciente, que evidenciou aspectos traumáticos pretéritos e transformação de sentimentos negativos:

O que você quis representar com a primeira pirâmide construída quando disse Apesar de você ter me pedido para fazer uma pirâmide bonita estou com vontade de fazer uma que representou a minha vida até antes da terapia. O que significa a cor vermelha no centro, rodeada pelos quadrículos pretos? Eu quis representar o meu passado traumático de muita dor e sofrimento. Eu estava na escuridão. Ele, o meu passado, está sendo apagado. O vermelho representa o meu coração, que era preso e sangrava. E, em relação à quarta pirâmide, você mencionou que queria "representar algo mais" - intenção explícita e específica. O que ela significa? Significa que todo o meu sofrimento está sendo transformado em esperança e equilíbrio.

Podemos dizer que em relação às síndromes cromáticas - contraste e fria -, Caroline apresentou conflitos interiores. Ficou caracterizada como uma pessoa internamente ansiosa, tensa, que se esquiva ao contato mantendo atitudes frias e distantes em relação ao mundo exterior. As cores azul e preta significativamente aumentadas, e a cor branca aumentada discretamente, caracterizaram a paciente como introvertida, que sofreu repressões e que possui tendência à perda do contato com a realidade. A ausência da cor laranja pode indicar enfraquecimento estrutural, dissociação. Em relação ao aspecto formal (ver a Figura 1), ela fez uso de estruturas em mosaico - primeira e quarta pirâmides -, uma tendência a estrutura em manto - segunda pirâmide - e formação em camadas monocromáticas - terceira pirâmide -, o que indica, respectivamente, uma mistura de desenvolvida inteligência e sensibilidade artística, perturbação proveniente de dissociações no curso do pensamento e manejos defensivos, inibição e retraimento. O modo de colocação - simétrico para a primeira e quarta pirâmides, ascendente e direto para a terceira - refletiu uma busca de equilíbrio e de integração que pode ser conseqüência dos sentimentos de insegurança da paciente. O processo de execução foi diversificado, ou seja, desordenado no início e ordenado no restante do teste, indicando uma mescla de ansiedade, insatisfação e instabilidade, com certa vontade de alcançar flexibilidade. A fórmula cromática obtida - 0 : 1 : 4 : 5 - foi classificada como restrita e instável, indicando sentimentos de instabilidade controlados por mecanismos inibitórios. As cores por dupla - Az? Pr?, Vd? Az? e La? Vi? - indicaram bloqueios e obstáculos ao desenvolvimento emocional, tendência ao estabelecimento de relacionamentos profundos e autênticos, atitude morosa e baixa produtividade. Em termos de variação cromática e de matizes, Caroline obteve resultado rebaixado em relação à média esperada, indicando limitação tensa, sentimentos de insegurança, inibição e medo de se expor. O tempo de execução foi de 10'13" para a primeira pirâmide, 4'29" para a segunda, 4' para a terceira e 2' para a quarta e última pirâmide elaborada. Assim, considerando os resultados apresentados, trata-se de pessoa com dificuldades psicológicas acentuadas e com indicadores dissociativos.

A seguir, apresentamos as análises do protocolo obtido com a alter Dalva, quando Caroline esteve em processo dissociativo espontâneo. As elaborações piramidais de Dalva, como mostrado na Figura 2, foram também obtidas durante a primeira aplicação do Pfister, com ausência de trocas, logo após Caroline ter finalizado a construção de sua segunda pirâmide.

 

 

A pirâmide que Dalva disse ter mais gostado de fazer foi a primeira. A que gostou menos foi a terceira. As cores que disse mais e menos gostar no dia-a-dia são azul e marrom respectivamente. Em relação ao material do teste, as cores que mais e menos gostou foram Vi1 - ela disse ser esta a cor da espiritualidade - e Vd1.

A justificativa de Dalva para escolher a primeira pirâmide como a mais bonita, atentando para os aspectos cor e forma, foi: Porque as cores se combinaram e a formação ficou muito boa. Já para a terceira pirâmide, escolhida como a menos bonita, realçando necessidades de liberdade e proteção familiar, ela verbalizou: Por causa da formação. Dá impressão de falta de liberdade. Tanto o azul quanto o rosa parecem estar presos e pressionados. Nas outras as cores estão juntas pela liberdade. Por outro lado, apesar da impressão de falta de liberdade, eu quis representar três personalidades - intenção explícita e específica. De certa forma, quis representar a nossa proteção. O azul tendo significado em Rony - seu grande amor - e o rosa tendo a mim representado. Dentro do amparo de nossos pais, representado pela outra cor envolta. Quero deixar claro que a proteção de nossos pais não nos enclausura. Temos as laterais para o nosso próprio esforço de crescimento.

Dalva, demonstrando incongruência com a realidade de Caroline, ditou-nos as seguintes informações quando do preenchimento do protocolo: Nome: Dalva. Idade: 32. Sexo: Feminino. Estado Civil: Muito bem casada. Naturalidade: Escócia. Grau de Instrução: Meus pais encontraram mestres para me instruir. Data: Estamos no outono, entrando para o inverno, perto da mudança de estação.

Em relação à síndrome cromática - esbranquiçada -, Dalva apresentou enfraquecimento estrutural da personalidade. As cores azul, vermelha, cinza e violeta estiveram aumentadas com prevalência significativa para esta última, o que indica perturbações na esfera emotiva. As demais cores mencionadas caracterizaram a paciente como introvertida, sensível, carente emocionalmente e reprimida afetivamente. A ausência da cor laranja pode indicar enfraquecimento estrutural, dissociação. Em relação ao aspecto formal (ver a Figura 2), ela construiu as pirâmides fazendo uso somente de estruturas - simétrica para a primeira pirâmide, escada para a segunda e mosaico para a terceira -, o que indica, respectivamente, capacidade cognitiva diferenciada, conflitos emocionais e desenvolvida inteligência. Além disso, suas elaborações formais também assestam para contextos de divisão ou de dissociação da personalidade. O modo de colocação - simétrico para a primeira pirâmide, diagonal para a segunda e direta para a terceira, todos ascendentes - refletiu uma busca de equilíbrio, de integração, que pode ser conseqüência de sentimentos de insegurança. O processo de execução foi ordenado durante todo o teste, indicando vontade de alcançar flexibilidade. A fórmula cromática obtida - 1 : 2 : 1 : 6 - foi classificada como restrita e flexível, caracterizando uma pessoa cautelosa e inibida, capaz de se adaptar ao ambiente. As cores por dupla - Az? Ci?, Vm? Vi?, Vd? Az?, Vd? Vm? e Ci? Vm? - indicaram fechamento em si e introversão, excitação e impulsividade, tendência ao estabelecimento de relacionamentos profundos e autênticos. Em termos de variação cromática e de matizes, Dalva obteve resultado rebaixado em relação à média esperada, indicando limitação tensa, sentimentos de insegurança, inibição e medo de se expor. O tempo de execução foi de 4'18" para a primeira pirâmide, 3'25" para a segunda e 2'50" para a última pirâmide elaborada. Considerando os resultados apresentados, trata-se de pessoa com dificuldades emocionais e com indicadores dissociativos.

As elaborações de Caroline, bem como os resultados apresentados quando da emersão de Dalva indicam um contexto de multiplicidade e reforçam características traumáticas da Personalidade Múltipla. Como enfatizado na discussão, o trauma, a divisão da personalidade, a dissociação e a necessidade de integração, apresentaram-se plenos nas elaborações produzidas. Foram estes os resultados obtidos com a primeira aplicação do Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister.

Nos mesmos moldes anteriores, apresentamos a seguir os resultados logrados com o re-teste de Caroline. Expomos ainda informações comparativas dos resultados alcançados no seu teste e no re-teste. Como mostrado na Figura 3, as elaborações piramidais obtidas no re-teste da paciente, também com ausência de trocas, foram:

 

 

A pirâmide que Caroline disse ter mais gostado de fazer foi a terceira e a que gostou menos foi a segunda. As cores que disse mais e menos gostar no dia-a-dia são azul e preta respectivamente. Em relação ao material do teste, as cores que mais e menos gostou foram Az3 e Ma1.

A justificativa dela para escolher a terceira pirâmide como a mais bonita, salientando necessidade integrativa, foi: Porque não sinto conflito nas cores. Não existem conflitos. A pirâmide está inteira. Já em relação a segunda pirâmide, escolhida como a menos bonita, realçando novamente a questão da liberdade, ela verbalizou: O branco e o azul estão impedindo a liberdade do verde.

Enfatizamos que antes de iniciar a elaboração da primeira pirâmide, após ficar mexendo nos quadrículos como que estudando as cores num tempo de latência igual a 2 minutos, Caroline verbalizou: Vou repetir a primeira pirâmide que fiz da vez passada - referindo-se à primeira testagem -, acrescentando um pouco mais do vermelho. Será um coração sangrando dentro da escuridão.

Os indicadores obtidos por Caroline no re-teste demonstraram similaridade com os da primeira aplicação. Ou seja, cores mais significativas perfeitamente equivalentes, inclusive, com idênticos valores obtidos para as cores azul e branca. Percentuais zerados para as cores violeta, laranja, marrom e cinza. Além disso, síndromes cromáticas - fria e de contraste - análogas. Idêntico processo de execução, ordenado, exceção para a parte inicial na primeira aplicação, idêntica classificação para a fórmula cromática - restrita e instável - e idênticas cores por dupla - Az? Pr?, Vd? Az? e La? Vi?. Ambas as variações cromáticas e de matizes foram classificadas como rebaixada.

Por outro lado, os aspectos formais elaborados estiveram um tanto discrepantes. Enquanto que na primeira aplicação (ver a Figura 1) Caroline fez uso de mosaicos - primeira e quarta pirâmides - e camadas monocromáticas - terceira pirâmide -, no re-teste (ver a Figura 3) ela fez uso de estrutura em manto fechado - primeira pirâmide - e formação em camadas monotonais - terceira pirâmide. Apesar disso, as duas pirâmides interpostas, segunda pirâmide de cada aplicação, foram classificadas de maneira idêntica, ou seja, como tendência à estrutura em manto. O modo de colocação apresentou diferença somente em relação as primeiras pirâmides elaboradas: enquanto que a classificação foi simétrica no teste, no re-teste, foi em manto. Nas demais, o modo de colocação foi idêntico, ou seja, não evidenciado para as segundas pirâmides e ascendente e direto para as terceiras elaborações. O tempo de execução foi significativamente menor no re-teste, isto é, 4'42" para a primeira pirâmide, 3'51" para a segunda e 3'13" para a última pirâmide elaborada, demonstrando execução da tarefa de forma mais adaptada.

A principal observação, no nosso entender, que sugere convergência de necessidades da paciente, está registrada na formação em camadas monocromáticas - terceira pirâmide da primeira aplicação -, na estrutura em mosaico - quarta pirâmide da primeira aplicação (ver a Figura 1) -, e na formação em camadas monotonais - terceira pirâmide do re-teste (ver a Figura 3). A primeira mencionada reflete busca de integração. A segunda, um desejo de equilíbrio. A terceira, uma integração plena. Todas, entretanto, assestam para o desejo da cura, para as reversões traumáticas e dissociativas identificadas nas elaborações das pirâmides anteriores.

 

Discussão

Para que a Personalidade Múltipla seja desenvolvida num indivíduo é essencial que esta pessoa tenha sido acometida por traumas reais e severos, reincidentes e intermitentes, que tiveram papel fundamental no desencadeamento da dissociação consciencial e, conseqüentemente, na fragmentação do psiquismo. Tais traumas, que podem ser de natureza diversificada nos variados quadros clínicos, não necessariamente irá gerar uma mesma síndrome. Existem fatores outros, como a capacidade de absorção ou de elaboração de conteúdos traumáticos, que diferem de pessoa para pessoa, explicando satisfatoriamente as razões de uma mesma causa não gerar quadros clínicos idênticos (Kluft & Fine, 1993; Ross, 1989).

Segundo alguns autores da área (Allison, 1980; Kluft & Fine, 1993; Putnam, 1989; Ross, 1989; Steinberg, 1994), eventos traumáticos podem ocorrer em qualquer fase da vida, desde o nascimento ou desde a mais tenra infância. Entretanto, o desenvolvimento da Personalidade Múltipla está diretamente vinculado a traumas ocorridos antes dos sete anos de idade. A gravidade, duração e proximidade da exposição de um indivíduo ao evento traumático são fatores determinantes na probabilidade do transtorno. Tais indivíduos apresentam pontuações significativas em medições da suscetibilidade à capacidade dissociativa e experimentam amnésia para a história pessoal tanto remota quanto recente. Em síntese, a seqüência obrigatória para o desenvolvimento da Personalidade Múltipla é:

 

 

Este esquema estabelece que fatores traumáticos reais geram processos dissociativos. Estes, por sua vez, fazem emergir alters, característica maior da Personalidade Múltipla. Esta seqüência ou encadeamento resulta na busca, pela terapia, de um processo reverso, ou seja, num tratamento curativo para o transtorno, alcançado com a integração da fragmentação do eu, pela fusão das personalidades dissociadas (Hacking, 1995; Haddock, 2001; Kluft & Fine, 1993; Putnam, 1989; Ross, 1989).

Os dados obtidos com a técnica de Pfister sugerem uma homologação do esquema apresentado. Na primeira aplicação (ver a Figura 1), logo na pirâmide inicial, Caroline enfatizou a sua questão traumática numa estrutura em mosaico. Ela manifestou contextos inconscientes, projetando-se na escuridão, na dor e no sofrimento. A estrutura elaborada, bem como as cores selecionadas retrataram integralmente o que hipotetizamos ser os choques violentos vivenciados ao longo de sua vida. Em seguida, na segunda pirâmide - uma forte tendência à estrutura em manto -, hipotetizamos que Caroline enfatizou a questão dissociativa. Da mesma forma, interpretamos que a base da pirâmide representada, numa linguagem simbólica, pelo cerne do seu psiquismo, rompeu-se. Nitidamente, o alicerce de sua estrutura consciencial está desfocado do conjunto. A pirâmide está decepada ou mutilada indicando, conforme Villemor-Amaral (2005), implicações de fragilidade estrutural e prováveis alterações de pensamento. Neste momento da execução do teste, primeira aplicação, ou seja, após a construção da segunda pirâmide, ocorreu um processo dissociativo espontâneo. Caroline imergiu e Dalva emergiu.

Nas pirâmides elaboradas por Dalva (ver a Figura 2) hipotetizamos as divisões inconscientes elaboradas. A primeira pirâmide, em seu aspecto formal, é uma estrutura simétrica; a segunda é uma estrutura em escada; e a terceira é uma estrutura em mosaico. Importante enfatizarmos que todas as elaborações da alter, no nosso entender, retrataram divisão ou fragmentação. O resultado obtido por esta personalidade demonstra a pertinência da seqüência do nosso esquema relativo ao trauma, realçando a questão fragmentária da personalidade. Adicionalmente, vale destacar o que associamos ser a presença do ISH - Inner Self Helper - na primeira pirâmide de Dalva. Esta personalidade está representada no eixo central, vertical, pela cor cinza e sinaliza uma ênfase aos valores de posição, considerados pontos-chaves na execução das pirâmides segundo Villemor Amaral (1978). Como não existem outras pesquisas para comparações, à partir deste estudo, sugerimos cautelosamente que os valores de posição - ápice, centro e base dos esquemas das pirâmides - pelo menos nos casos de Personalidade Múltipla, estejam associados à presença do ISH.

Voltando à situação do teste, interrompido naturalmente o processo dissociativo e espontâneo com Dalva, fato que fez com que Caroline retornasse do seu processo de imersão sem ter consciência do ocorrido, ela elaborou a terceira pirâmide conforme já registrado. Avaliamos que sua construção assesta para a necessidade de integração, objetivo maior do tratamento da Personalidade Múltipla. Constatamos nesta pirâmide - formação em camadas, ou estratificada - a busca de uma fusão, que está representada pela integração monocromática, cor azul em dégradé (ver a Figura 1).

Aproveitando a elaboração da quarta pirâmide de Caroline - estrutura em mosaico - acentuamos o que hipotetizamos ser a busca do equilíbrio, o desejo das reversões traumáticas e dissociativas. Enfim, a ênfase para a continuidade do processo de restabelecimento psíquico já vislumbrado na terceira pirâmide. Conforme Villemor Amaral (1978) podemos dizer que, geralmente, a presença do verde nas pirâmides tem uma conotação positiva desde que situado dentro dos padrões de normalidade, isto é, entre 18% e 20% aproximadamente, incidindo tais percentuais com uma utilização mais expressiva das tonalidades Vd2 e Vd3, esta última caracterizada como tonalidade padrão. Realçamos que oito quadrículos preenchidos com a cor Vd3, conforme identificado na quarta pirâmide de Caroline (ver a Figura 1), equivale à 18%. E, tal resultado representa valores normais, dentro da média, consoante registrado em Villemor-Amaral (2005).

Também não devemos deixar de referenciar o que Villemor Amaral (1978) chama de análise das pirâmides, em função dos diferentes planos da personalidade. Segundo este autor, supõe-se que o indivíduo ao executar o teste apresente na primeira elaboração um aspecto mais externo de sua personalidade. A segunda elaboração, ligada a uma camada intermediária, corresponde a uma parte mais ou menos acessível do indivíduo e cujo controle é parcial. Finalmente, a terceira elaboração corresponde à parte mais profunda da sua personalidade. Em síntese, a primeira elaboração corresponde a características da personalidade que podem estar sob o controle do indivíduo, porque conscientes; a segunda, está ligada ao pré-consciente, corresponde aos aspectos da personalidade cujo controle não está muito ao alcance do indivíduo, mas que podem tornar-se conscientes; por fim, a última elaboração está fora do controle e do alcance do indivíduo e corresponde ao inconsciente.

Hipotetizamos que as pirâmides elaboradas por Caroline corroboraram a descrição acima. Na primeira, ela retratou aspectos traumáticos de sua vida, sendo alguns, atualmente, conscientes e controlados. Trata-se do aspecto mais externo de sua personalidade representado pela presença marcante de suas lembranças torturantes. A segunda pirâmide, a faixa pré-consciente do iceberg ou da montanha de gelo flutuante (Hall & Lindzey, 1978), representada pela camada intermediária, a parte mais ou menos acessível de Caroline, equivale às alters que emergem em processos dissociativos cada vez mais sob controle parcial dela. Na terceira e última pirâmide, a camada mais profunda da paciente - o seu inconsciente -, busca o bem-estar, a descarga das tensões e da ansiedade. Ou seja, busca o equilíbrio e a integração (ver a Figura 1).

Válido atentarmos para o desligar-se do mundo e analisarmos mais detalhadamente o tempo de execução de Caroline para as suas elaborações piramidais. Lembramos que ela construiu a primeira pirâmide em 10'13", a segunda em 4'29" e a terceira em 4'. Para a quarta pirâmide levou apenas 2'. Esteve além para os valores medianos do teste, mas, dentro dos parâmetros aceitáveis para o tempo total de execução. Ênfase maior deve ser dada ao tempo da primeira pirâmide, fato que caracterizou significativamente o chamado tempo psíquico de reação.

Conforme Villemor Amaral (1978), em relação ao tempo de execução, os valores médios variam entre 4 e 8 minutos para cada pirâmide e entre 15 e 20 minutos para o total das três pirâmides. Por ser nova, a execução da primeira pirâmide, em geral, poderá exigir um pouco mais de tempo que as duas subseqüentes. O tempo psíquico de reação é fator que deve ser levado em consideração porque há indivíduos cujas reações normais são mais lentas e hesitantes, enquanto que outros executam habitualmente suas tarefas com maior precisão e rapidez. Por outro lado, há pessoas muito inseguras e com forte tendência à hesitação, que exigem longo tempo para executar suas pirâmides. São meticulosas, prudentes e extremamente cautelosas. São pessoas, via de regra, aparentemente sossegadas, calmas e que se desligam totalmente do mundo, quando se aplicam a um trabalho que as fascina.

Podemos dizer que Caroline apresenta dificuldades para o controle das emoções e dos impulsos, demonstra capacidade adaptativa em evolução, e capacidade relacional em processo de estabilização aceitável. Os distúrbios dissociativos foram desencadeados por eventos traumáticos severos, ainda não totalmente elaborados satisfatoriamente pela paciente. Adicionalmente, os dados trazidos pelos registros do tempo psíquico de reação apontam para uma facilidade de desligamento total do mundo, fenômeno característico da dissociação, comum no quadro clínico da Personalidade Múltipla.

Por fim, os dados do re-teste, no nosso entender, corroboraram a primeira aplicação em termos traumáticos, dissociativos e de integração. A primeira pirâmide ressaltou mais enfaticamente os fatores traumáticos. A segunda manteve a base dissociativa e a estrutura tendente a manto fechado. O verde, Vd3, substituiu o amarelo, Am1, como se Caroline estivesse, inconscientemente, querendo superar dificuldades de canalizar e expressar emoções, passando a ter relacionamentos afetivos e sociais satisfatórios, além de uma esfera de contatos sadios (Villemor-Amaral, 2005). Por fim, a terceira pirâmide evidenciou mais fortemente a questão fundamental do desejo de integração, representado pela formação em camadas monotonais (ver a Figura 3).

 

Conclusão

Os resultados logrados com este estudo de caso nos permitem considerar que o Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister representa um instrumento enriquecedor para a avaliação psicológica de pacientes múltiplos. Os aspectos amnésicos, as referências traumáticas e dissociativas descritas na literatura para a Personalidade Múltipla foram identificados significativamente: pela seqüência apresentada segundo o esquema relativo ao trauma e à dissociação; pelas análises interpretativas pertinentes ao teste - modo de colocação, processo de execução, síndromes cromáticas, fórmulas cromáticas, variação cromática e de matizes, cores por dupla e tempo de execução; pelo registro dos valores de posição, bem como as divisões elaboradas nas construções piramidais; pelo exame das pirâmides em função dos diferentes planos de personalidade e pela caracterização do tempo psíquico de reação, sugerindo facilidade para o desligamento total do mundo.

 

Referências

Allison, R. B. (1980). Minds in Many Pieces. Califórnia: Paso Robles.

André, M. E. A. (2005). Estudo de caso em Pesquisa e Avaliação educacional. Série pesquisa, 13. Brasília: Líber Livro.

Associação Psiquiátrica Americana. (2003). DSM-IV-TR, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (4a ed.). Porto Alegre: Artmed.

Brauer, J. F. (1998). O Teste das Pirâmides Coloridas de Max Pfister. São Paulo: VETOR.

Braun, B. G. (1986). Treatment of Multiple Personality Disorder. Washington, DC: American Psychiatric Press.

Cunha, J. A., Minella, D. M. L., Werlang, B. G., Carneiro, T. F. (1993). Psicodiagnóstico-R. Porto Alegre: Artes Médicas.

Ellenberger, H. F. (1970). The Discovery of the Unconscious - The History and Evolution of Dynamic Psychiatry. New York: Basic Books Inc.

Faure, H., Kersten, J., Dinet, K., & Onno, V. D. H. (1997). The 19th Century DID Case of Louis Vivet: New Findings and Re-Evaluation. Dissociation, 10 (2), 104-113.

Flournoy, T. (1994). Des Indes à la planète Mars: Etude sur un cas de somnambulisme avec glossolalie [From India to the Planet Mars. A Case of Multiple Personality with Imaginary Languages]. New Jersey: Princeton University Press. (Trabalho original publicado em 1899).

Freud, S. (1996). Cinco Lições de Psicanálise. In. J. Strachey (Ed. e Trans.), Edição STANDARD Brasileira das Obras Psicológicas Completas. (Vol. XI). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1910[1909]).

Freud, S. (1996). O Ego e o ID. Em. J. Strachey (Org. e Trans.), Edição STANDARD Brasileira das Obras Psicológicas Completas. (Vol. XIX). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1923).

Hacking, I. (1991). Double consciousness in Britain 1815-1875. Dissociation: 4(3), 134-146.

Hacking, I. (1995). Múltipla Personalidade e as Ciências da Memória. Rio de Janeiro: José Olympio.

Haddock, D. B. (2001). Dissociative Identity Disorder - Sourcebook. Contemporary Books: A Division of The McGraw-Hill Companies.

Hall, C. S., & Lindzey, G. (1978). Teorias da Personalidade. São Paulo: EPU.

Heiss, R., & Halder, P. (1983). O Teste das Pirâmides de Cores. São Paulo: VETOR.

Janet, P. (1889). L'automatisme psychologique. Paris: Alcan.

Justo, H., & Van Kolck, T. (1976). O teste das Pirâmides de Cores. São Paulo: VETOR.

Keyes, D. (1981). The Minds of Billy Milligan. New York: Bantam Books.

Kluft, R. P., & Fine, C. G. (1993). Clinical Perspectives On Multiple Personality Disorder. Washington, DC: American Psychiatric Press, Inc.

Marques, M. I. B. (1988). O Teste de Pirâmides Coloridas de Max Pfister. São Paulo: EPU.

Organização Mundial da Saúde. (1993). Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 - Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas.

Prince, M. (1957). The Dissociation of a Personality. New York: Meridian Books. (Trabalho original publicado em 1905).

Putnam, F. W. (1989). Diagnosis and Treatment of Multiple Personality Disorder. New York: Guilford.

Ross, C. A. (1989). Multiple Personality Disorder - Diagnosis, Clinical Features, and Treatment. New York: John Wiley & Sons. Inc.

Schreiber, F. R. (1973). Sybil. São Paulo: Nova Época Editorial.

Schwarz, T. (1977). The Five of Me. Chicago: Henry Regnery Company.

Sizemore, C. C. (1978). I'm Eve. USA: Berkley Publishing Group.

Steinberg, M. (1994). Structured Clinical Interview for DSM-IV Dissociative Disorders (SCID-D), revised. Washington, DC: American Psychiatric Press.

Villemor Amaral, F. (1978). Pirâmides Coloridas de Pfister. Rio de Janeiro: CEPA.

Villemor-Amaral, A. E. (2005). As Pirâmides Coloridas de Pfister. São Paulo: CETPP.

Villemor-Amaral, A. E, & Silva, T. C., & Primi, R. (2002). O Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister e o Transtorno Obsessivo Compulsivo. Avaliação Psicológica, 2, 133-139.

Yin, R. K. (1989). Case Study Research - Design and Methods. USA: Sage Publications Inc.

 

 

Endereço para correspondência
E-mails: mafaria@hotmail.com

Recebido em Abril de 2008
Reformulado em Julho de 2008
Aceito em Setembro de 2008

 

 

Sobre o autor:

* Marcello de A. Faria: Marcello de Abreu Faria: Psicólogo, Mestre em Psicologia Clínica e Tecnólogo em Informática. Adicionalmente, é Membro Regular da International Society for the Study of Trauma and Dissociation (ISST-D), Sócio Efetivo da Associação Brasileira de Rorschach e Métodos Projetivos (ASBRo) e Membro Titular do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP).