A adoção é o meio pelo qual se busca oferecer um ambiente favorável ao desenvolvimento de crianças e adolescentes que, por motivos diversos, restaram privadas do convívio com sua família biológica. Ta l medida traz consigo o pressuposto de que toda criança e adolescente tem direito ao convívio familiar e que, caso seus parentes consanguíneos não consigam ou não queiram desempenhar tal função, ocorre a intervenção do Estado para encaminhá-la a uma nova família. Nesse contexto, a adoção possui, antes de tudo, o objetivo de atender às reais necessidades das crianças e adolescentes a serem adotados (Riede & Sartori, 2013; Teixeira et al., 2022).
Na realidade brasileira, pessoas que desejam adotar crianças necessitam solicitar sua habilitação formal para adoção junto ao Poder Judiciário. Ta l processo envolve o encaminhamento destes pretendentes à equipe técnica do serviço, composta por psicólogos e assistentes sociais, que realizam avaliação dos mesmos, com vistas a subsidiar a decisão judicial quanto ao mencionado pedido. O foco avaliativo desses profissionais se dirige a condições e às motivações dos pretendentes à adoção, almejando identificar recursos pessoais e materiais de suporte ao processo, evitando seu insucesso e a devolução da criança ou adolescente ao sistema judiciário, especialmente durante o estágio de convivência (Alves, 2022; Riede & Sartori, 2013; Silva et al., 2020).
Na avaliação técnica sobre as características psíquicas e socioafetivas dos pretendentes à adoção, os psicólogos brasileiros necessitam seguir diretrizes apontadas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) (BRASIL, 1990). De acordo com o ECA, pretendentes à adoção (e futuros pais adotivos) podem ser homens e mulheres, maiores de 18 anos de idade, não importando o seu estado civil, desde que sejam (no mínimo) 16 anos mais velhos do que o adotado e ofereçam um ambiente familiar adequado. Apenas não podem adotar os avós e irmãos do adotando.
O ECA define apenas um critério objetivo para identificar um ambiente familiar inadequado para adoção: presença de pessoas dependentes de álcool e de drogas ilícitas. Porém, a avaliação realizada pela equipe profissional da Vara da Infância e da Juventude considera outros aspectos que deem indícios de um ambiente salutar para a criança/adolescente, aspectos estes que não estão claramente pré-definidos nas diretrizes oficialmente regulamentadas (Albuquerque et al., 2021).
No geral, considera-se que, na constituição da possível nova família, é fundamental proporcionar para as crianças/adolescentes que já sofreram uma ruptura afetiva anterior, um ambiente acolhedor e favorecedor do estabelecimento de novos vínculos. A preocupação nesses casos é de inspecionar se os pretendentes à adoção podem vir a receber, de forma emocionalmente saudável, uma criança ou adolescente na condição de filho. Procura-se identificar e compreender os determinantes (conscientes e inconscientes) envolvidos em sua motivação para tornarem-se pais e mães adotivos, bem como avaliar se, por suas características pessoais, de personalidade e disposição pessoal, estariam dentro do considerado perfil esperado para o desempenho de tal papel (Machado et al., 2015; Santos, 2023).
Do outro lado dos processos da adoção encontram-se homens e mulheres que almejam exercer a paternidade e/ou a maternidade, a partir do acolhimento de crianças ou adolescentes que foram separados de seus familiares biológicos. De acordo com pesquisas brasileiras, existem casos onde a motivação para adotar crianças se associa à impossibilidade de gerar filhos biológicos, embora não seja o único desencadeante desse processo (Morelli\ et al., 2015; Schwochow & Frizzo, 2021).
Sentimentos de culpa, inferioridade e baixa autoestima foram identificados em casais inférteis (Nascimento & Térzis, 2010), caracterizando evidências empíricas de que a infertilidade pode representar profunda ferida emocional para alguns indivíduos, prejudicando a vida conjugal. Sentimentos de esvaziamento, improdutividade, inutilidade e humilhação foram reportados também no estudo de Silva et al. (2020) com casais considerados inférteis. Destaca-se, portanto, que, apesar da multiplicidade de fatores associados à infertilidade, há consenso de seu impacto nas vivências psicológicas nos indivíduos e, eventualmente, na disposição interna para adoção de criança ou adolescente (Fernández-Sola et al., 2016).
Essa temática foi objeto de estudos por alguns pesquisadores, como Levinzon (2014) e Ramírez-Gálvez (2014). Apontaram possíveis aspectos inconscientes envolvidos na adoção motivada pela infertilidade, tais como o luto pelo filho biológico e a ocorrência da chamada “gestação simbólica”, advinda da espera pelo filho ou filha por adoção. Esse processo pode se tornar conflituoso no caso de reduzida elaboração dos sentimentos e fantasias inconscientes relacionados à infertilidade, podendo impactar negativamente a vinculação afetiva a ser desenvolvida junto ao filho por adoção. Wasinski (2015) reitera que um dos desafios fundamentais a serem alcançados por pretendentes à adoção, antes de concretizarem seu intento, é a aceitação da infertilidade (sua e/ou do parceiro), libertando-se do significado de família como apenas associado a laços consanguíneos.
Trata-se, portanto, de importante componente a ser compreendido pelos profissionais que lidam diretamente com a temática (Huber & Siqueira, 2010; Rampage et al., 2016), exigindo criterioso trabalho do psicólogo no Sistema Judiciário (Alves, 2022; Cavalcante et al., 2020). Sua atuação visa à garantia da qualidade deste tipo de avaliação psicológica num campo de elevada complexidade, pela multiplicidade e dinamismo de variáveis envolvidas (Albuquerque et al., 2021).
A partir do exposto, este trabalho almeja contribuir com o conhecimento científico que embasa a atuação dos psicólogos judiciários no campo da adoção de crianças e adolescentes. Focalizou-se a investigação em mulheres com diferentes experiências de exercício da maternidade, caracterizando indicadores de seu funcionamento psicológico. Procurou-se examinar a hipótese de que eventuais sinais de conflito psíquico estariam presentes em mulheres com diagnóstico de infertilidade que pretendiam adotar ou já haviam adotado crianças, comparando-as com indicadores do funcionamento psicológico em mães biológicas na realidade do Brasil (Guimarães-Éboli, 2017).
Método
O presente trabalho segue delineamento empírico, transversal, caracterizando-se como estudo descritivo-comparativo, a partir de instrumentos padronizados de avaliação psicológica, aplicados a diferentes grupos de mulheres. O referencial teórico adotado no estudo se pauta na concepção psicodinâmica de personalidade, na qual se consideram elementos inconscientes e seus derivados como componentes do comportamento e das ações humanas.
O estudo foi devidamente avaliado e aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, cujo parecer está sob o n. 2.685.080 e pelas autoridades legais competentes do Sistema Judiciário local, seguindo-se os princípios éticos da Declaração de Helsinque em seu desenvolvimento. Trata-se de recorte de trabalho maior, desenvolvido por Guimarães-Éboli (2017).
Participantes
A amostra de conveniência foi composta por 60 mulheres, voluntárias, entre 30 e 50 anos de idade, com ensino médio ou superior, residentes em cidade de médio porte no interior do Estado de São Paulo, Brasil. Estavam em relacionamento conjugal estável (há pelo menos um ano) e foram distribuídas em três grupos numericamente equitativos, a saber:
Grupo 1 (G1=pretendentes à adoção): 20 mulheres em situação de infertilidade primária (até o momento não conseguiram ter filho biológico, mesmo após um ano de tentativas para engravidar), que estavam judicialmente habilitadas como pretendentes à adoção pelo Sistema Judiciário.
Grupo 2 (G2=mães adotivas): 20 mulheres em situação de infertilidade primária, que tinham ao menos um filho adotivo. Elas conviviam com este filho há pelo menos um ano (de modo a permitir a experiência concreta da maternidade adotiva), sendo que a idade do filho estava entre um e 12 anos de idade, ou seja, eram crianças.
Grupo 3 (G3=mães biológicas – grupo de comparação): 20 mulheres sem problemas de infertilidade, com ao menos um filho biológico (que tivesse, na data da avaliação, entre um e 12 anos de idade). Em referido grupo foram incluídas apenas mulheres que não apresentaram, no momento da pesquisa, indicadores de transtornos de saúde mental, avaliadas por instrumento específico (SRQ-20).
Instrumentos
Diante dos objetivos propostos para o presente estudo foram utilizados instrumentos para avaliação psicológica das voluntárias, incluindo estratégias de autorrelato e métodos projetivos voltados à área da personalidade. Neste trabalho são destacados os achados identificados específicos relativos ao Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20), utilizado para avaliar indicadores relativos à saúde mental (Santos et al., 2009) e ao Método de Rorschach (Escola de Paris). Este método projetivo de avaliação psicológica permite a avaliação de características estruturais e funcionais da personalidade (Pasian, 2000). No presente trabalho optou-se pelo referencial técnico-científico de Rausch de Traubenberg (1998), tratando-se de uma perspectiva psicodinâmica para análise das suas variáveis.
Procedimento
A coleta de dados se deu individualmente, em sessão única, em locais com a devida privacidade e silêncio, sendo os instrumentos aplicados e avaliados conforme seus respectivos manuais técnicos.
Análise de dados
Os resultados foram organizados em planilhas, compondo banco de dados, submetidos a análises descritivas (tendência central e variabilidade), com posterior análise comparativa dos grupos. Nas variáveis em que foi detectada distribuição normal dos dados, utilizou-se ANOVA na comparação entre os grupos, enquanto nas demais foi usado o teste de Kruskal-Wallis. Na análise inferencial de variáveis nominais ou categóricas utilizou-se Qui-quadrado na comparação entre os grupos. Adotou-se o nível de significância de 5% nas análises estatísticas efetivadas.
Resultados
O SRQ-20 serviu, na presente pesquisa, ao propósito de caracterizar a amostra estudada em termos de indicadores de saúde mental, bem como critério de seleção das integrantes do grupo de comparação (G3). Para compor o G3 as mulheres não poderiam atingir a nota de corte no SRQ-20 (pontuação maior que sete, conforme Santos et al., 2009).
A comparação estatística entre os grupos estudados no que se refere à presença de indicadores psicopatológicos, conforme avaliação pelo SRQ-20, não evidenciou diferenças significativas. Desse modo, os três grupos retrataram mulheres sem queixas e sinais de dificuldades psicológicas (sintomas não psicóticos), bem como homogeneidade quanto a este quesito entre os grupos avaliados.
No que se refere à avaliação das participantes a partir do Método de Rorschach (Escola de Paris), os principais resultados constam na Tabela 1.
Tabela 1 Resultados Descritivos e Comparação Estatística das Variáveis do Rorschach entre Grupos de Mulheres (n=60)
| Variáveis Rorschach | Dados | Grupo 1 (n=20) | Grupo 2 (n=20) | Grupo 3 (n=20) | Comparação estatística | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Estatística | p | |||||
| R (número respostas) | Média | 22,4 | 17,5 | 21,4 | 4,870* | 0,080 |
| DP | 9,5 | 5,7 | 6,9 | |||
| RA (respostas adicionais) | Média | 0,3 | 0,5 | 0,2 | 2,300* | 0,304 |
| DP | 0,6 | 0,7 | 0,5 | |||
| Recusa | Média | 0,1 | 0,3 | 0,1 | 4,980* | 0,083 |
| DP | 0,4 | 0,4 | 0,3 | |||
| Denegação | Média | - | 0,1 | 0,1 | 1,050* | 0,589 |
| DP | 0,2 | 0,3 | 0,4 | |||
| TLm (tempo médio de latência) | Média | 23,1 | 14,7 | 16,4 | 7,905** | 0,001 |
| DP | 8,2 | 5,8 | 6,8 | |||
| TRm (tempo médio de resposta) | Média | 49,3 | 51,4 | 45,1 | 0,666** | 0,518 |
| DP | 19,1 | 14,2 | 18,6 | |||
| G% (respostas globais) | Média | 35,4 | 42,6 | 25,9 | 1,471* | 0,479 |
| DP | 15,1 | 20,9 | 23,3 | |||
| D% (grande detalhe) | Média | 38,8 | 38,4 | 35,3 | 0,295** | 0,746 |
| DP | 13,2 | 15,1 | 19,2 | |||
| Dd% (pequeno detalhe) | Média | 24,6 | 18,4 | 27,7 | 4,980* | 0,083 |
| DP | 12,8 | 11,7 | 15,1 | |||
| Dbl% (detalhe branco) | Média | 1,2 | 0,4 | - | 6,128* | 0,047 |
| DP | 2,3 | 1,4 | - | |||
| F% (respostas forma) | Média | 25,5 | 27,5 | 26,0 | 0,929* | 0,629 |
| DP | 16,8 | 12,7 | 12,6 | |||
| F+% (forma bem vista) | Média | 73,2 | 66,3 | 75,7 | 0,100* | 0,905 |
| DP | 29,2 | 29,9 | 20,1 | |||
| F+extenso% (respostas bem vistas) | Média | 74,6 | 72,8 | 72,9 | 0,170** | 0,844 |
| DP | 11,0 | 11,4 | 10,5 | |||
| K (movimento humano) | Média | 2,4 | 2,1 | 1,9 | 0,104* | 0,604 |
| DP | 1,9 | 1,3 | 1,2 | |||
| kan (movimento animal) | Média | 3,7 | 3,0 | 3,0 | 0,564* | 0,754 |
| DP | 2,8 | 1,7 | 1,8 | |||
| kob (movimento objeto) | Média | 0,2 | 0,1 | 0,2 | 0,600* | 0,741 |
| DP | 0,3 | 0,3 | 0,5 | |||
| kp (movimento parcial humano) | Média | 0,1 | 0,1 | 0,3 | 2,464* | 0,292 |
| DP | 0,3 | 0,3 | 0,5 | |||
| FC (resposta forma-cor) | Média | 3,0 | 2,3 | 3,2 | 1,401* | 0,496 |
| DP | 2,2 | 1,3 | 1,9 | |||
| CF (resposta cor-forma) | Média | 1,7 | 1,0 | 1,9 | 2,824* | 0,444 |
| DP | 1,2 | 1,0 | 1,9 | |||
| C (resposta cor) | Média | 0,5 | 0,2 | 0,1 | 1,305* | 0,321 |
| DP | 0,2 | 0,5 | 0,3 | |||
| FE (resposta forma-sombreado) | Média | 3,1 | 2,3 | 2,8 | 0,747* | 0,478 |
| DP | 1,9 | 2,1 | 1,7 | |||
| EF (resposta sombreado-forma) | Média | 1,9 | 1,5 | 1,7 | 1,779* | 0,411 |
| DP | 1,9 | 0,8 | 1,4 | |||
| E (resposta sombreado) | Média | 0,5 | - | - | 2,000* | 0,368 |
| DP | 0,2 | - | - | |||
| FClob (resposta forma-sombreado disfórico) | Média | 0,2 | - | 0,2 | 4,532* | 0,104 |
| DP | 0,4 | - | 0,5 | |||
| ClobF (resposta sombreado disfórico-forma) | Média | - | - | 0,1 | 4,069* | 0,131 |
| DP | - | - | 0,3 | |||
| A (animal inteiro) | Média | 7,6 | 6,8 | 7,4 | 0,381** | 0,827 |
| DP | 4,1 | 2,7 | 3,6 | |||
| (A) (animal inteiro desvitalizado) | Média | 0,9 | 0,9 | 1,6 | 4,048* | 0,132 |
| DP | 0,8 | 1,0 | 1,5 | |||
| Ad (parte de animal) | Média | 1,0 | 1,1 | 1,5 | 0,537* | 0,765 |
| DP | 0,8 | 1,1 | 1,6 | |||
| (Ad) (parte de animal desvitalizado) | Média | 0,3 | 0,5 | 0,2 | 3,540* | 0,170 |
| DP | 0,5 | 0,2 | 0,4 | |||
| A% (porcentagem de animais) | Média | 44,1 | 52,2 | 50,9 | 4,589* | 0,101 |
| DP | 12,1 | 10,7 | 9,8 | |||
| H (ser humano inteiro) | Média | 2,2 | 2,0 | 1,8 | 0,977* | 0,614 |
| DP | 1,5 | 1,1 | 2,3 | |||
| (H) (ser humano inteiro e desvitalizado) | Média | 0,9 | 0,9 | 1,1 | 2,237* | 0,327 |
| DP | 1,7 | 0,8 | 1,0 | |||
| Hd (parte de humano) | Média | 1,0 | 0,8 | 1,3 | 0,716* | 0,699 |
| DP | 1,1 | 0,9 | 1,0 | |||
| (Hd) (parte de humano desvitalizado) | Média | 0,5 | 0,5 | 0,2 | 4,335* | 0,114 |
| DP | 0,8 | 0,2 | 0,5 | |||
| H% (porcentagem de humanos) | Média | 20,3 | 22,1 | 21,2 | 0,223** | 0,801 |
| DP | 7,7 | 9,9 | 7,8 | |||
| Ban% (porcentagem de banalidades) | Média | 24,5 | 28,6 | 23,8 | 3,682* | 0,159 |
| DP | 8,0 | 7,1 | 8,1 | |||
| Reatividade afetiva (terceira fórmula afetiva) | Média | 30,6 | 29,3 | 31,7 | 0,481** | 0,621 |
| DP | 8,9 | 8,3 | 6,1 | |||
| Fórmula da Angústia (porcentagem sinais angústia) | Média | 18,6 | 14,7 | 17,5 | 1,175* | 0,556 |
| DP | 12,2 | 8,9 | 11,3 | |||
Nota. *Teste Kruskal-Wallis; **ANOVA, DP=desvio-padrão
No tocante a número total de respostas, respostas adicionais, recusas e denegações emitidas diante do Rorschach, bem como em relação ao tempo de reação médio, tanto as pretendentes à adoção (G1), como as mães adotivas (G2) e biológicas (G3) apresentaram padrões similares de resposta. Entretanto, foi possível verificar que as pretendentes à adoção (G1) apresentaram tempo médio de latência significativamente mais elevado que as demais. Ou seja, este grupo de mulheres levou mais tempo, em média, para processar internamente as instruções da técnica, bem como para absorver o impacto afetivo diante do instrumento antes de emitir uma resposta ao Rorschach, quando comparada aos demais grupos avaliados.
A partir dos indicadores de localização (G, D, Dd, Dbl) das respostas ao Rorschach (representantes da forma de captação da realidade pelos indivíduos), observou-se que as participantes deste estudo apresentaram modo de apreensão dos estímulos predominantemente vinculado aos detalhes relevantes (respostas D) e às minúcias (respostas Dd). Sua captação pareceu menos marcada por uma perspectiva generalista (resposta G) da realidade, quando comparadas ao seu grupo de referência.
Os detalhes brancos (Dbl) chamaram significativamente mais a atenção do grupo das pretendentes à adoção (G1), quando comparadas às mães biológicas (G3). As mulheres de G1 apresentaram maiores índices que a média populacional de referência nesta variável Dbl. A despeito da baixa frequência de ocorrência deste modo de apreensão diante do total de respostas, estas diferenças podem representar um marcador específico para estas mulheres, atentando-se para o seu significado psicodinâmico ligado à angústia e ao temor diante do vazio, com tendência à oposição.
A comparação dos resultados médios dos grupos nos determinantes formais do Rorschach apontou inexistirem diferenças estatisticamente significativas. Assim, observou-se que as participantes do estudo, em sua totalidade, assim como seu grupo de referência, utilizaram os contornos formais dos estímulos para responder ao instrumento em cerca de um terço das respostas emitidas. Em relação à qualidade formal das respostas, pode-se dizer que o total de mulheres participantes desta pesquisa apresentaram suficientes recursos lógicos e de raciocínio para se adaptarem ao meio em que vivem, denotando eficiente teste da realidade e boa precisão perceptiva.
No tocante a determinantes cinestésicos das respostas ao Rorschach (K, kan, kob, kp), para além da similaridade entre os grupos, o que se pode depreender das análises relacionadas às respostas-movimento destas mulheres, é que houve predomínio de pequenas cinestesias (sobretudo movimento animal) sobre as grandes cinestesias (movimento humano), o que também se equipara ao padrão de referência. Referido indicador aponta para características de espontaneidade da vida psíquica e imaginativa destas mulheres, em detrimento da elaboração reflexiva sobre os impulsos, que também está presente, porém em menor intensidade.
A análise comparativa dos dados médios referentes aos determinantes cromáticos no Rorschach apontou para ausência de diferenças estatisticamente significativas entre os grupos. Observou-se que as participantes apresentaram boas habilidades em coordenar racionalmente os afetos, com predomínio do uso da cor associada à positiva qualidade formal na maioria das respostas. Referidas características colaboram, assim, para caracterizar estas mulheres como possuidoras de suficientes recursos adaptativos internos, independentemente de terem ou não filhos biológicos ou adotivos. Essa interpretação ganha força quando comparamos os resultados médios destes grupos de voluntárias com os apresentados pelo referencial normativo (Pasian, 2000), reforçando a noção de bons recursos adaptativos para controle da impulsividade por meio da razão. Notou-se baixa incidência desse tipo de determinantes entre as respostas das participantes (sem diferenças significativas entre os grupos), nomeadamente nas categorias E, FClob, ClobF, reforçando o dado de reduzidos indicadores de ansiedade no funcionamento psíquico das mulheres avaliadas.
Em termos dos conteúdos das interpretações das participantes diante do Rorschach, também não houve diferenças estatisticamente significativas entre os grupos. Os conteúdos animais predominaram nas respostas das participantes, em detrimento dos conteúdos humanos, indicadores que corroboram achados anteriormente mencionados, apontando para sinais de alguma imaturidade e projeção de conteúdos mais primitivos da personalidade, bem como percepção mais intuitiva e menos elaborada da realidade.
A análise comparativa da frequência de respostas banais (Ban) no Rorschach também sinalizou homogeneidade dos grupos, sendo observado um perfil próximo a seu padrão de referência (Pasian, 2000). Desse modo, é possível dizer que pretendentes à adoção (G1), mães adotivas (G2) e mães biológicas (G3) denotaram, em proporções similares, possibilidade de compartilhamento perceptivo acerca dos elementos da realidade, indicadores relacionados, do ponto de vista psicodinâmico, a adequado teste de realidade, independentemente de sua condição frente à maternidade.
Também nos indicadores relativos à reatividade emocional (Terceira Fórmula do Rorschach) não houve diferenças estatisticamente significativas. A maioria das mulheres, em cada um dos três grupos, apresentou perfil classificado como tipo introversivo ou ambigual, com poucos casos classificados como extratensivos em termos de tipos de reatividade emocional.
Pode-se inferir que as mulheres presentemente avaliadas, independentemente de sua condição frente à maternidade, apresentaram indicadores de reatividade emocional semelhante, com maior tendência a refletir e raciocinar antes de reagir aos estímulos (estilo introversivo), embora parte delas demonstre flexibilidade em sua forma de reagir ao ambiente (estilo ambigual). Por outro lado, houve algumas participantes que mostraram tendência a reagir de maneira mais direta diante das emoções e estímulos ambientais (estilo extratensivo).
O valor médio assumido pela Fórmula da Angústia nos três grupos de mulheres superou o valor teto de 12,0%, sugerindo sinal importante de vivência de ansiedade (sem diferenças significativas entre as mesmas). Apesar desses indicadores, os resultados foram próximos ao padrão normativo geral desta variável no Brasil (15,0%, conforme Pasian, 2000). Tem-se, assim, que os sinais de angústia detectados não comprometem a capacidade geral de adaptação à realidade das mulheres avaliadas.
Com relação ao Tipo de Ressonância Íntima (TRI), mediante sua avaliação pelo Rorschach, notou-se que a frequência dos diferentes Tipos foi bastante semelhante entre os grupos, sem diferenças estatisticamente significativas (χ2=0,454, p=0,490). O tipo mais frequente foi o Extratensivo, englobando 58,3% das mulheres avaliadas, ou seja, mais da metade das mesmas. Especificamente, o TRI Extratensivo dilatado foi o mais comum, mostrando que a maioria das mulheres avaliadas apresentou tendência habitual a expressar sua afetividade de forma direta no ambiente, vivenciando satisfação nas experiências de contato com o mundo exterior.
O tipo Introversivo ocorreu em 23,4% das participantes, predominando nesse subgrupo a modalidade dilatada. Assim, pouco menos de um quarto das participantes sinalizou vivenciar suas emoções habitualmente de forma mais reflexiva e interiorizada, embora com possibilidade de exteriorização (pela dilatação do estilo de vivência) dos sentimentos e contato com o mundo exterior.
Uma parcela menor das participantes apresentou o estilo coartativo de vivenciar os afetos. Assim, aproximadamente 10,0% das voluntárias demonstraram reagir ao Rorschach e, por conseguinte, aos estímulos da realidade (conforme fundamentação teórica do instrumento), de maneira restritiva e com poucas manifestações afetivas, sugerindo estilo evitativo de contato. Por fim, pequeno grupo de participantes apresentou estilo afetivo do tipo Ambigual. Desse modo, poucas mulheres (8,3%) apresentaram tendência habitual a expressar seus sentimentos e afetos no ambiente em igual proporção a um modo mais reflexivo e introspectivo para lidar com emoções.
Discussão
Diversos autores convergiram em afirmar sobre perdas afetivas e sofrimento emocional em mulheres vivenciando o limite em exercer a maternidade pela existência da infertilidade. Numa perspectiva psicanalítica, Lins et al. (2014) versaram sobre abalos na estrutura narcísica da personalidade das mulheres atingidas pela infertilidade, bem como sobre a mesma sendo vista como obstáculo ao acesso à feminilidade, que seria viabilizado por meio da maternidade. Maux e Dutra (2009) ponderaram sobre os sentimentos de incompletude e frustração relacionados à impossibilidade de ter filhos como fatores complicadores das relações sociais e também da autoimagem de pessoas inférteis.
A partir de diversos estudos realizados por pesquisadores na área (Levinzon, 2014; Ramírez-Gálvez, 2014; Schwochow & Frizzo, 2021), a infertilidade, no caso específico das adoções de crianças, tem sido retratada como potencial elemento complicador no vínculo entre pais e filhos adotivos. Estes trabalhos apontavam, portanto, para possíveis prejuízos adaptativos relacionados à vivência da infertilidade, o que a colocaria como elemento relevante na avaliação de pretendentes à adoção, considerando-se ser esta uma das principais motivações pela busca desta via de maternidade (Morelli et al., 2015).
Nesse âmbito, reitera-se que a saúde mental dos indivíduos interessados em efetivar uma adoção constitui elemento relevante no processo de análise dos candidatos pela equipe técnica do Sistema Judiciário, visto que interfere diretamente no relacionamento conjugal e familiar, podendo expor futuros filhos adotivos a fatores de risco para o desenvolvimento, como aponta a literatura científica da área (Alves, 2022; Cunha et al., 2008; Pemberton et al., 2010; Roisko et al., 2011; Schwochow & Frizzo, 2021). Diante dessas evidências empíricas, portanto, observa-se que, nos processos de análise de pretendentes à adoção, a avaliação sistemática de indicadores de sua saúde mental é medida fundamental, de modo a oferecer suporte psicossocial para o desenvolvimento infantil (Alves, 2022; Santos, 2023).
No presente trabalho, de modo diverso ao retratado pela literatura, foi possível identificar que todos os casos de G1 e G2 (mulheres que compartilhavam a vivência da infertilidade, bem como a busca pela maternidade pela via judicial da adoção), mostraram indicadores positivos de preservado nível de saúde mental. Tais achados permitem reafirmar a relevância do trabalho de triagem realizado pelo psicólogo judiciário nos fóruns onde estavam cadastradas no Brasil.
Adentrando à temática da personalidade das mulheres avaliadas, com base na literatura científica identificada na área, neste estudo inicialmente levantou-se a hipótese de efeito negativo da infertilidade e/ou da ausência de filhos sobre o funcionamento da personalidade neste grupo de participantes. Especificamente sobre os principais indicadores do Método de Rorschach, uma primeira hipótese era a de que mulheres inférteis e candidatas à adoção (G1) sinalizariam mais indicadores de angústia no Rorschach [maior uso do detalhe branco (Dbl) nas localizações das respostas; maior proporção de determinantes do tipo sombreado e com disforia; maior frequência de conteúdos Anat, Sex, Hd, (Hd), Elem Fog, Frag] em suas respostas. Esses indicadores destacados seriam mais frequentes em G1 do que em G2 e, por sua vez, menores em G3.
No que se refere a esta complexa hipótese, foi confirmado apenas o maior uso do detalhe branco nas localizações das respostas ao Rorschach nas mulheres pretendentes à adoção (G1) em relação às mães biológicas (G3). Não se confirmaram as expectativas sobre as demais variáveis deste método projetivo, de modo que os três grupos mostraram-se praticamente homogêneos entre si, com poucas diferenças entre os mesmos. Depreende-se, portanto, funcionamento da personalidade compatível com o que é considerado frequente e comum na população geral, em todos os grupos, independentemente de sua condição frente à maternidade.
Diante do conjunto dos resultados encontrados, a partir dos métodos utilizados de avaliação psicológica, vivência de infertilidade e ausência de filhos não evidenciaram, neste grupo de mulheres, marcas significativas na personalidade que pudessem diferenciar as pretendentes à adoção das demais participantes que já eram mães (por adoção ou biológicas). Além disso, mães por adoção e biológicas apresentaram, no presente estudo, funcionamento psicodinâmico adaptativo, inexistindo marcas afetivas relevantes que permitissem diferenciar os grupos de mulheres, em relação às diferentes vivências de maternidade.
O histórico de vivência de infertilidade (G1 e G2) e da ausência de filhos (G1) estariam potencialmente relacionados, de acordo com a literatura científica consultada, tanto no âmbito do Brasil (Ghirardi, 2008; Nascimento & Térzis, 2010; Ramírez-Galvez, 2014), como internacional (Bejenaru & Roth, 2012; Chen & Landau, 2015; Fernández-Sola et al., 2016; Fonseca, 2016), a sofrimento emocional e prejuízos no funcionamento da personalidade. Entretanto, as atuais participantes parecem já ter alcançado nível suficiente e satisfatório de elaboração interna destas perdas, a ponto desses sinais não serem detectáveis pelos instrumentos utilizados. Importante destacar que G1 e G2 foram formados por mulheres que, por estarem em processos judiciais de adoção de crianças, já foram submetidas, em diversos momentos, a avaliações psicológicas por peritos do Poder Judiciário, sendo consideradas aptas a adotarem crianças.
Ta l fato pode ter contribuído para a constatação de funcionamento psicodinâmico sem marcas específicas de angústia associada à infertilidade. Ou seja, estas mulheres já estavam lidando com as questões da ausência de filhos e da impossibilidade de conceber uma criança há alguns anos e, no momento, ao menos parte destas perdas já poderiam estar minimamente elaboradas. Além disso, a exigência de boas condições de saúde mental e suficiente elaboração da infertilidade como pré-requisito comum em avaliações psicológicas para a inserção no cadastro de pretendentes à adoção no Sistema de Justiça, exerceram provável influência sobre os resultados ora encontrados no contexto regional pesquisado.
Os atuais achados reiteram, portanto, empiricaente, a qualidade das avaliações técnicas realizadas pelos psicólogos do Sistema Judiciário, envolvendo estas pretendentes à adoção. Estes resultados, em parte, confirmam a literatura científica da área ao apontar indicadores de preservação da saúde mental geral, que seriam esperados nestas mulheres avaliadas, em se tratando de pretendentes à adoção ou mesmo mães adotivas já constituídas (Pemberton et al., 2010; Roisko et al., 2011; Wasinski, 2015).
Faz-se importante pontuar que, tanto em relação à infertilidade como em relação à maternidade pela via da adoção, pairam estigmas sociais diversos, que podem, inclusive, materializar-se no discurso científico em torno do tema. Assim, se por um lado a impossibilidade de gerar filhos se relaciona, no discurso dominante e na percepção de muitas pessoas que a vivenciam, a perdas, incapacidade, redução na autoestima e sofrimento emocional (Cunha et al., 2008; Fonseca, 2016), a maternidade pela via da adoção é referida, muitas vezes, como uma forma substitutiva e incompleta de satisfação do desejo de ter filhos, além de se mostrar associada, no imaginário e nas expectativas sociais, e até no discurso científico, a possíveis transtornos emocionais dos filhos (Chaves, 2002; Guimarães-Éboli et al., 2015).
Diante destas noções, os achados empíricos apresentados são relevantes na medida em que fragilizam os estigmas sociais acima destacados. Não foi verificado suporte científico para argumentos que apontem para prejuízos emocionais ou dificuldades adaptativas envolvendo mulheres inférteis e/ou mães por adoção.
Há que se considerar, no entanto, os limites amostrais deste trabalho, bem como da circunscrição regional e momento histórico onde foram coletadas as informações. As variáveis em foco na avaliação projetiva permitida pelo Método de Rorschach abordam uma perspectiva psicodinâmica de personalidade, buscando informações adicionais ao comportamento manifesto das mulheres, o que nem sempre é valorizado em processos de avaliação psicológica, porém, aqui argumentado (e empiricamente evidenciado), como relevante na prática profissional em contextos da Justiça no Brasil.
Em suma, a partir dos objetivos propostos, pondera-se que foi possível obter panorama descritivo e comparativo das características de personalidade de mulheres inférteis, envolvidas em processos de adoção de crianças (em fila de espera ou com adoção efetivada), em relação a mães biológicas. Espera-se, com este trabalho, estimular novas pesquisas científicas dentro desta temática, sobretudo com delineamentos longitudinais, bem como focalizar momentos distintos da vida destas mulheres que desejam o exercício da maternidade e encontram obstáculos frente a este objetivo.
Cabe ainda ponderar sobre as dificuldades para comparar os atuais resultados com outros estudos científicos na área. Há escassez de pesquisas voltadas, especificamente, para o exame de características de personalidade de mulheres envolvidas na adoção de crianças, sobretudo mediante a utilização de métodos padronizados de avaliação psicológica. Desse modo, o diálogo entre os achados da presente investigação com a literatura científica disponível foi limitado, tendendo a circunscrevê-los e interpretá-los a partir de suas respectivas premissas teórico-técnicas.
Outro elemento que pode ser apontado como limite do trabalho é seu delineamento transversal, que possibilitou apenas uma avaliação pontual destas mulheres. Sendo assim, não foi possível verificar, por exemplo, prováveis diferenças na avaliação psicológica das mulheres, ora pretendentes à adoção, após se tornarem mães adotivas. É possível conjecturar que a vivência concreta da maternidade adotiva possa suscitar modificações no funcionamento psicodinâmico destas mulheres, algo que somente seria possível avaliar em um estudo longitudinal, com avaliações repetidas em momentos diferentes de vida destas mesmas mulheres.
Diante destes argumentos, novas pesquisas científicas dentro desta temática se fazem necessárias, sobretudo com delineamentos longitudinais, bem como focalizando momentos distintos da vida destas mulheres que desejam ser mães e encontram obstáculos frente a este objetivo. Fica reforçada, ainda, a relevância de serem realizados estudos com enfoque clínico, que possibilitariam aprofundamento nas temáticas afetivas ligadas à infertilidade e à vivência da maternidade.













