O estudo da personalidade visa a explicar as diferenças individuais nas tendências humanas de se comportar, pensar e sentir (Natividade & Hutz, 2015). Essas tendências, relativamente estáveis ao longo do tempo e das situações, são chamadas de traços de personalidade (Pervin, 1994). Considerando a importância das diferenças individuais concernentes à sexualidade para explicar mecanismos que levam a reprodução humana, Schmitt e Buss (2000), nos Estados Unidos, e Natividade e Hutz (2016), no Brasil, conduziram dois estudos semelhantes. Nesses estudos, os autores selecionaram adjetivos descritores da personalidade e por meio de procedimentos analíticos encontraram sete fatores explicativos dos traços de sexualidade, a saber: Atratividade sexual; Exclusividade no relacionamento; Orientação de gênero; Orientação sexual; Disposição erótica; Restrição sexual e Investimento emocional
O fator Investimento Emocional (IE) é definido como uma disposição em despender tempo e atenção, nos relacionamentos amorosos (Natividade & Hutz, 2016; Schmitt & Buss, 2000). Entendido como traço, ele envolve características como ser romântico e amoroso. Pessoas altas em IE frequentemente fazem demonstrações de afeto em seus relacionamentos amorosos, gostam de manifestar carinho e costumam ser românticas. Elas se dedicam em tentar agradar seus parceiros por meio de carinho e demonstrações de afeto. Pessoas baixas em IE são contidas em demonstrações de afeto, fazem pouco ou nenhum carinho em seus parceiros, não gostam ou não sentem vontade de serem afetuosos.
Uma vez que dispor de tempo e atenção em uma escuta compreensiva contribui para a intimidade do casal (Laurenceau et al.,1998; Laurenceau et al., 2004), a comunicação entre os parceiros (conversas e escuta) e troca de afeto (i.e., demonstrar afeto) proporcionam proximidade afetiva e companheirismo. Esses fatores estão diretamente relacionados à formação e à manutenção dos relacionamentos românticos (Floyd, 2001; Floyd et al., 2005; Londero-Santos et al., 2021).
Dessa forma, a predisposição em investir emocionalmente em um relacionamento apresenta vantagens na retenção de parceiros (Buss, 2006; Ellis, 1998; Kenrick, 2006). Isto é, entendendo as estratégias reprodutivas como conjuntos de adaptações recorrentes da sobrevivência e reprodução (Buss, 2006), investir emocionalmente nos relacionamentos parece ter servido como um indicador de estabilidade para o cuidado biparental presente nos relacionamentos de longo prazo (Buss, 2006; Ellis, 1998). Em outras palavras, o investimento emocional é mecanismo psicológico que facilita o vínculo entre os parceiros, que pode ser estabelecido pela troca de afetos e pela comunicação.
Relações entre Investimento Emocional e Outras Variáveis
Estudos sobre investimento emocional (IE) com instrumentos de adjetivos têm mostrado que as mulheres apresentam maiores médias em IE do que os homens (e.g., d=0,43 a 0,19, Natividade & Hutz, 2016, d=0,66, Schmitt & Buss, 2000). Contudo, esses resultados de diferenças entre homens e mulheres, encontrados na literatura talvez estejam refletindo a diferença na capacidade de reconhecer os descritores e não, necessariamente, diferenças sexuais no construto (Natividade et al., 2012).
O investimento emocional apresenta relações teóricas e empíricas com outras variáveis. Por exemplo, no que diz respeito às relações entre IE e outras características de personalidade, no estudo de Schmitt e Buss (2000) o fator IE apresentou correlações com os seguintes fatores do Big5: socialização para homens (r=0,50) e para mulheres (r=0,59), e extroversão para homens (r=0,26) e para mulheres (r=0,24). Enquanto Natividade e Hutz (2016) encontraram correlações mais fortes entre IE e o fator Socialização (r=0,30, no estudo 1; e r=0,34, no estudo 2). Esses achados estão de acordo com Tov et al. (2014), em que os autores argumentam que Extroversão e Socialização são os traços de personalidade, do modelo dos cinco grandes fatores, com maior associação com características emocionais dos relacionamentos amorosos. Isso porque as pessoas com altos níveis a serem comunicativos (Extroversão) tendem a dar e receber mais apoio e pessoas com tendência a demonstrarem empatia (Socialização) são preocupadas em manter relacionamentos positivos com os outros.
Há também resultados de estudos que testaram relações entre investimento em relacionamentos e as dimensões de apego (Etcheverry, et al., 2012; Londero-Santos, et al., 2020) Assim como o investimento emocional, o Apego está associado à maneira como o indivíduo estabelece vínculos afetivos ao longo da vida. Esse construto é explicado pelas dimensões Evitação relacionada ao apego e Ansiedade relacionada ao apego (Brennan, et al., 1998; Etcheverry, et al., 2012; Natividade & Shiramizu, 2015; Shiramizu, et al., 2013).
Em dois estudos realizados por Etcheverry et al. (2012) os resultados mostraram relação entre Investimento e a dimensão Evitação (r=-0,65), no Estudo 1; e entre Investimento e a dimensão Ansiedade (r=0,17), e Investimento e Evitação (r=-0,40), no Estudo 2. Os indivíduos com níveis altos de evitação investem menos em relacionamentos românticos para minimizar a dependência da relação, visto que sentem desconforto com proximidade emocional. Enquanto os indivíduos com ansiedade relacionada ao apego tendem a investir mais no relacionamento, com o objetivo de estabelecer proximidade (Etcheverry, et al., 2012).
Outro aspecto que deve ser considerado ao analisar investimento emocional é a desejabilidade social. Esse construto refere-se à tendência em responder conforme seja aceitável ou aprovado socialmente (Ribas et al., 2004). Neste estudo, supondo-se que exista a demanda por ser mais afetuoso e comunicativo no relacionamento, deve-se controlar estatisticamente o efeito da desejabilidade social para não se confundir o escore do investimento emocional com esse possível viés de resposta.
Instrumentos para Mensurar Investimento Emocional
Os traços relacionados à sexualidade, tais como aqueles revelados na Sexy7 (Natividade & Hutz, 2016) são importantes para explicar tendências e comportamentos que levam a reprodução (evento crucial para qualquer ser vivo). Apesar da importância, existem poucos instrumentos para mensurar investimento nos relacionamentos. Esses que existem, mensuram o investimento como contribuições do indivíduo para com o relacionamento (e.g., Ellis, 1998; Lund, 1985; Rusbult, 1980) ou a percepção de investimento do parceiro (e.g., Londero-Santos, et al., 2020). Isso é conceitualmente diferente do investimento emocional de que trata este artigo. Por exemplo, Rusbult (1980) e Lund (1985) definem o investimento despendido ao longo do relacionamento como emocional ou material. Esse investimento aumenta o comprometimento do próprio indivíduo, tornando um possível término mais custoso. Enquanto para Ellis (1998) o investimento inclui características individuais (físicas e psicológicas) que aumentam a aptidão do indivíduo e o comprometimento do parceiro. Assim, o investimento no relacionamento diz respeito às formas de interação ou percepção de interação com um parceiro amoroso específico, diz respeito, portanto, a uma característica do relacionamento. Já o investimento emocional diz respeito a uma característica pessoal, estável, como um traço de personalidade, que pode ser acessada mesmo em pessoas que não estão em relacionamento amoroso.
O instrumento Sexy7 desenvolvido por Schmitt e Buss (2000) mensura o investimento emocional enquanto traço, como proposto neste artigo, e com propriedades psicométricas satisfatórias (Schmitt & Buss, 2000). A versão para o contexto brasileiro de Natividade e Hutz (2016) também apresenta evidências de validade e coeficientes de fidedignidade adequados (alfa de 0,84, teste-reteste de 0,74). Porém, nesses instrumentos, os itens encontram-se em formato de adjetivos descontextualizados. Os adjetivos podem ter diferentes significados dependendo da cultura (John et al, 1988; Natividade & Hutz, 2016), e sendo descontextualizados, os adjetivos sozinhos não esgotam as possibilidades de interpretação de significados de características humanas.
Presente Estudo
Considerando-se a necessidade de um instrumento capaz de mensurar o investimento emocional com itens contextualizados, este estudo teve o objetivo de construir e buscar evidências de validade e precisão para tal instrumento. Para isso, buscaram-se evidências baseadas no conteúdo, na estrutura interna e nas relações com outras variáveis. Foram testadas relações entre os fatores do investimento emocional, os fatores da personalidade (Big5), as dimensões do apego e desejabilidade social. Espera-se encontrar estrutura de dois fatores (Romantismo e Carinho), conforme a definição do construto; correlações positivas entre os dois fatores do investimento emocional e os fatores socialização e extroversão do Big5; correlações positivas com ansiedade relacionada ao apego; negativa com evitação relacionada ao apego e correlação positiva com desejabilidade social.
Método
Participantes
Participaram 769 brasileiros, com média de idade de 27,3 anos (DP=8,60; Min.=18; Máx.=65), sendo 64,9% mulheres e 35,1% homens. Do total de participantes, 78,5% classificaram-se como heterossexuais; 7,5% como bissexuais; 5,3% como homossexuais e 2,0% não souberam ou preferiram não informar e 6,6% foram considerados omissos pelo sistema. A maioria dos participantes, 48,8%, informaram ter ensino superior incompleto, 45,4% informaram ter ensino superior completo (21% com pós-graduação completa, 13,7% com ensino superior completo e 10,7% com pós-graduação incompleta) e 4,8% informaram ter até ensino médio completo.
A amostra foi constituída por participantes de todas as regiões do Brasil. Mais da metade dos respondentes era proveniente da região Sul, 55,7% dos participantes, seguida da região Sudeste, 24,4%; região Nordeste, 10,4%; Centro-oeste, 4,3%; Norte, 3,1%; e 2,1% declaram estar fora do Brasil no momento da coleta. Quanto ao status de relacionamento amoroso, 72,8% dos participantes indicaram estar envolvidos em um relacionamento amoroso e 26,8% informaram que não estavam em um relacionamento amoroso.
Instrumentos
Utilizaram-se três questionários on-line disponibilizados em endereços na internet. O primeiro questionário foi destinado para juízes especialistas que avaliaram um conjunto de itens elaborados para mensurar investimento emocional. Esse questionário continha questões sociodemográficas (sexo, idade e escolaridade), uma definição do construto Investimento Emocional e um conjunto de itens elaborados para mensurá-lo. Ao lado de cada item foi solicitado que os participantes julgassem se consideravam o item representativo ou não do construto, conforme a definição operacional apresentada. Os juízes podiam, também, sugerir modificações e novos itens no espaço destinado para sugestões.
O segundo questionário foi destinado para a população geral, contendo questões sociodemográficas (e.g., sexo, idade, escolaridade, questão sobre relacionamento amoroso), questão critério (O quanto se considera romântico) e as seguintes escalas:
Experiences in Close Relationship Scale - Reduzida ([ECR-R-Brasil], Natividade & Shiramizu, 2015). O instrumento possui 10 itens e afere duas dimensões do apego adulto “ansiedade relacionada ao apego” e “evitação relacionada ao apego”. Maiores escores indicam maiores níveis de ansiedade e evitação relacionada ao apego. O instrumento original apresenta consistência interna adequada nas dimensões, com coeficientes alfa de 0,73 em ambas.
Bateria Fatorial de Personalidade ([BFP], Nunes, et al., 2010). O instrumento contém 126 itens e mensura os cinco fatores da personalidade: Neuroticismo, Socialização, Realização, Abertura para experiência e Extroversão. No estudo de Nunes, et al. (2010) a escala apresenta adequada consistência interna, com coeficientes alfa variando de 0,74 a 0,89 nos fatores.
Escala de Desejabilidade Social (Ribas et al., 2004). A escala é composta por 13 afirmativas e avalia a tendência de um indivíduo a responder conforme o esperado socialmente. Quanto maiores os escores nessa escala, maior a tendência a se comportar de acordo com o que é mais socialmente aceito. A escala adaptada por Ribas, et al. (2004) apresentou adequada consistência interna, com coeficiente alfa de 0,70.
Escala de Investimento Emocional (desenvolvida neste estudo - Anexo A). Trata-se de uma escala que conta com 16 itens em sua versão final e afere o investimento emocional por meio de dois fatores: Romantismo e Carinho. A versão beta tinha 20 itens. As evidências de validade e índices de fidedignidade desse instrumento são apresentados neste artigo.
Para aqueles que demostraram interesse em prosseguir com o estudo, foi disponibilizado convite por e-mail para responder ao terceiro questionário:
Questionário Segunda aplicação: Aplicado 60 dias após o questionário destinado à população geral. Nesse questionário, os participantes responderam novamente a versão beta da Escala de Investimento Emocional, descrita anteriormente, juntamente com o Sexy7-Brasil (Natividade & Hutz, 2016).
O Sexy7-Brasil é um instrumento composto por 28 adjetivos referentes a características sexuais que medem sete dimensões da sexualidade: Atratividade sexual, Orientação de gênero, Orientação sexual, Investimento emocional, Disposição erótica, Restrição sexual; e Exclusividade em relacionamentos. No estudo de elaboração do instrumento, a dimensão investimento emocional apresentou coeficiente alfa de 0,81 (Natividade & Hutz, 2016).
Procedimentos
Elaboração dos Itens
Para a construção do instrumento, foram elaborados 30 itens com base na literatura sobre a temática (e.g., Ellis, 1998; Floyd, 2001; Laurenceau et al., 2004; Natividade & Hutz, 2016; Rusbult; 1980; Schmitt & Buss, 2000) e da definição de construto elaborada neste estudo. Após a construção dos itens, cinco juízes independentes e especialistas em elaboração de instrumentos psicológicos (dois doutores e três doutorandos em psicologia) julgaram a adequação dos itens ao construto investimento emocional, de 1 = não representa nada o construto; a 3 = representa bem o construto. Eles também podiam sugerir alterações na redação e novos itens.
Então, calcularam-se as médias de adequação dos itens ao construto, conforme essa avaliação. Os itens que tiveram média inferior a 2,5 e/ou itens considerados com conteúdos muito semelhantes foram excluídos da versão beta do instrumento.
Com as respostas dos especialistas, obteve-se uma lista final de 20 itens que foram avaliados pela amostra piloto. A amostra piloto foi constituída por 25 pessoas (escolaridade variando de ensino médio à pós-graduação completa) que avaliaram a compreensibilidade e adequação da versão beta às suas realidades. A partir das respostas da amostra piloto, realizaram-se pequenos ajustes no questionário e obteve-se a versão para aplicação na população geral, versão beta do instrumento. Os itens, quando necessário, foram flexionados quanto ao gênero a fim de evitar possíveis vieses de resposta (ver Natividade et al., 2012).
Coleta
Os participantes foram convidados por e-mail e em redes sociais. Os convites explicavam a pesquisa e disponibilizavam o link para acessar o questionário. Ainda, solicitava-se a divulgação da pesquisa entre outros possíveis participantes (procedimento bola-de-neve). Os critérios para participação eram: ser brasileiro, ser alfabetizado e ter 18 ou mais anos de idade.
Após os participantes serem informados sobre a pesquisa, eles assinavam o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE), conforme as diretrizes éticas para pesquisa envolvendo seres humanos, contidas na Resolução 510/16. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade [omitido], sob número de protocolo [omitido].
Análises
Inicialmente, realizou-se a limpeza dos dados, excluindo as respostas erradas às questões controle. Em seguida, substituíram-se os 0,56% de repostas faltantes aos itens da Escala de Investimento Emocional por meio do método tendência linear do ponto. Então, foram realizadas análises fatoriais exploratória e confirmatória com a amostra dividida aleatoriamente em duas metades. Dessa forma, em uma metade (n=382) executou-se a análise fatorial exploratória robusta, utilizando o software Factor (Ferrando & Lorenzo-Seva, 2017) a partir da matriz de correlações policóricas, método de extração Robust Diagonally Weighted Least Squares - RDWLS, rotação Robust Promin (Lorenzo-Seva & Ferrando, 2019) e análise paralela com 500 amostras simuladas como critério de retenção de fatores.
Na outra metade (n=387), testou-se a análise fatorial confirmatória utilizando o software R (R Core Team, 2019), pacote lavaan (Rosseel, 2018) com estimador Maximum Likelyhood Robust. Para a avaliação do ajuste do modelo aos dados, utilizou-se os seguintes indicadores: qui-quadrado (χ2), Comparative Fit Index (CFI), Tucker-Lewis Index (TLI), Root Mean Square Error of Aproximation (RMSEA) e Standardized Root Mean Square Residual (SRMR).
Em seguida, calcularam-se índices de consistência interna da escala (alfa e ômega), testaram-se diferenças de médias entre homens e mulheres para os fatores Romantismo e Carinho e entre participantes que estavam em um relacionamento e não estavam em um relacionamento para os dois fatores por meio do teste t de Student. Realizaram-se análises de correlação de Pearson entre os fatores do investimento emocional e as demais variáveis do estudo, para buscar evidências de validade baseadas nas relações com outras variáveis. Por fim, realizou-se correlação entre as duas aplicações (teste-reteste), com o intervalo de 60 dias entre as respostas, averiguando a estabilidade da escala ao longo desse tempo.
Resultados
Evidência de Validade Baseadas na Estrutura
Inicialmente, constatou-se a adequação dos dados à fatorização, KMO=0,94 e teste de esfericidade de Bartlett: χ2(190, N=382)=4300,1; p<0,001. De acordo com a análise paralela (Timmerman & Lorenzo-Seva, 2011) e método RDWLS, considerou-se adequada a extração de dois fatores que explicaram 57% da variância dos dados. Os fatores apresentaram correlação de 0,75. De acordo com o conteúdo dos itens de cada fator, denominaram-se eles de: “Romantismo” e “Carinho”. As cargas fatoriais e demais propriedades psicométricas são apresentadas na Tabela 1.
Tabela 1 Cargas Fatoriais do Itens
| Análise Exploratória n=382 | Análise Confirmatoria n=387 | ||||
|---|---|---|---|---|---|
| Romantismo | Carinho | h2 | Romantismo | Carinho | |
| 1 | 0,85 | 0,02 | 0,71 | 0,82 | |
| 2 | 0,81 | 0,19 | 0,45 | 0,82 | |
| 3 | 0,78 | 0,19 | 0,43 | 0,49 | |
| 4 | 0,77 | -0,05 | 0,65 | 0,67 | |
| 5* | 0,75 | -0,10 | 0,69 | ||
| 6 | 0,73 | 0,14 | 0,40 | 0,56 | |
| 7 | 0,72 | 0,02 | 0,55 | 0,74 | |
| 8* | 0,69 | -0,12 | 0,62 | ||
| 9 | 0,68 | 0,07 | 0,39 | 0,61 | |
| 10 | 0,64 | -0,01 | 0,42 | 0,54 | |
| 11* | 0,62 | -0,19 | 0,60 | ||
| 12 | 0,22 | 0,91 | 0,58 | 0,57 | |
| 13 | 0,03 | 0,89 | 0,75 | 0,72 | |
| 14 | 0,11 | 0,85 | 0,59 | 0,68 | |
| 15 | 0,20 | 0,82 | 0,47 | 0,54 | |
| 16 | 0,02 | 0,75 | 0,54 | 0,61 | |
| 17 | -0,15 | 0,62 | 0,55 | 0,69 | |
| 18* | -0,06 | 0,57 | 0,39 | ||
| 19 | -0,22 | 0,53 | 0,51 | 0,53 | |
| 20 | 0,21 | -0,48 | 0,43 | -0,60 | |
| Número de itens | 11 | 9 | 8 | 8 | |
| Eigenvalue | 9,05 | 1,46 | |||
| Variância total (%) | 0,57% | ||||
Em seguida, para verificar qual estrutura melhor se adequaria aos dados, testaram-se as estruturas de dois fatores, conforme o estudo exploratório, e de um único fator hipotético por meio da Análise Fatorial Confirmatória. O modelo de um único fator foi configurado com os 20 itens sendo explicados por um fator de primeira ordem e obtiveram-se os seguintes índices de ajuste: χ2(170, N=387)=559,7; p<0,001; TLI=0,82; CFI=0,84; RMSEA=0,087 [IC90% 0,079-0,095]; SRMR=0,069. O modelo de dois fatores foi configurado com os itens 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 e 11 sendo explicados pelo fator Romantismo; e os itens 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19 e 20 sendo explicados pelo fator Carinho (ver Tabela 1, no anexo a numeração dos itens foi aleatorizada para correta aplicação do instrumento). Os índices de ajuste desse modelo foram superiores ao modelo de fator único: χ2(169, N=387)=385,2; p<0,001; TLI=0,90; CFI=0,91; RMSEA=0,065 [IC90% 0,056-0,073]; SRMR=0,054.
Após verificar os índices de modificação, testou-se novamente a estrutura com a exclusão dos itens 5, 8 e 11 do fator Romantismo e o item 18 do fator Carinho (conforme numeração da Tabela 1, no anexo a numeração dos itens foi aleatorizada). Obteve-se, assim, a versão final da escala com 16 itens com os seguintes índices de ajuste para a estrutura de dois fatores: χ2(103, N=387)=217,7; p<0,001; TLI=0,92; CFI=0,93; RMSEA=0,060 [IC90% 0,049-0,072]; SRMR=0,055.
Indices de Precisão
Quanto à fidedignidade, obtiveram-se coeficiente alfa 0,85 (IC95% 0,84-0,87) para o fator Romantismo e alfa de 0,81 (IC95% 0,79-0,83) para o fator Carinho. O fator Romantismo apresentou ômega total de 0,85 (IC95% 0,84-0,87), o fator Carinho apresentou ômega total de 0,81 (IC95% 0,79-0,83). Para verificar a estabilidade temporal, calculou-se correlação entre as respostas da primeira e da segunda etapa da pesquisa (teste-reteste), n=92, com um intervalo de aproximadamente 60 dias. O fator Romantismo apresentou coeficiente de correlação de r(92)=0,83 e o fator Carinho apresentou coeficiente de correlação r(92)=0,84.
Evidências de Validade Baseadas nas Relações com Outras Variáveis
Primeiramente, testaram-se diferenças de médias entre homens e mulheres para os fatores Romantismo e Carinho. Não foram encontradas diferenças significativas para o fator Romantismo, t(767)=-1,45; p=0,15; d=0,11. No entanto, para o fator Carinho, as mulheres (M=5,56; DP=1,15) apresentaram média maior do que os homens (M=5,34; DP=1,12), t(767)=-2,50; p=0,013; d=0,19.
Também se testaram diferenças em investimento emocional entre participantes que estavam em um relacionamento amoroso e os que não estavam. Os participantes que estavam em um relacionamento apresentaram maiores médias tanto em Romantismo (M=4,72; DP=1,19), quanto em Carinho (M=5,60; DP=1,08), comparados com aqueles sem relacionamento (Romantismo: M=4,12; DP=1,27, Carinho: M=5,15; DP=1,21), t(764)=6,00; p<0,001; d=0,49, e t(332,2)=4,70; p<0,001; d=0,40, respectivamente.
Os resultados das relações entre investimento emocional, os cinco grandes fatores de personalidade, as dimensões de apego adulto e uma pergunta sobre o quão romântico os participantes se consideravam podem ser vistos na Tabela 2. Destacam-se as correlações dos fatores Romantismo e Carinho com a pergunta critério “O quanto me considero romântico”. A fim de verificar um possível efeito da desejabilidade social nas correlações com essa pergunta critério, calcularam-se os coeficientes controlando-se a desejabilidade social e encontraram-se resultados muito semelhantes, r(766)=0,74 para Romantismo, e r(766)=0,57 para Carinho.
Tabela 2 Correlações de Pearson entre Investimento Emocional e Demais Variáveis do Estudo
| 1 n=769 | 2 n=769 | 3 n=766 | 4 n=678 | 5 n=678 | 6 n=678 | 7 n=678 | 8 n=678 | 9 n=720 | 10 n=720 | 11 n=691 | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1. Romantismo | -- | ||||||||||
| 2. Carinho | 0,65** | -- | |||||||||
| 3. PQ - romântico | 0,73** | 0,56** | -- | ||||||||
| 4. Extroversão | 0,18** | 0,14** | 0,12* | -- | |||||||
| 5. Socialização | 0,26** | 0,33** | 0,24** | 0,06 | -- | ||||||
| 6. Realização | 0,19** | 0,15** | 0,15 | 0,25** | 0,19** | -- | |||||
| 7. Neuroticismo | -0,05 | -021** | -0,06 | -0,25** | -0,34** | -0,30** | -- | ||||
| 8. Abertura | 0,07 | 0,09* | 0,06 | 0,29** | -0,19** | 0,07 | 0,09* | -- | |||
| 9. Ap. Ansiedade | 0,25** | 0,02 | 0,20** | 0,01 | -0,09** | -0,07 | 0,42** | 0,03 | -- | ||
| 10. Ap. Evitação | -0,50** | -0,55** | -0,39** | -0,09* | -0,26** | -0,15* | 0,12* | -0,05 | 0,09* | -- | |
| 11. Desej. Social | 0,07* | 0,17** | 0,07 | 0,07 | 0,39** | 0,23** | -0,47** | -0,09* | -0,24** | -0,05 | -- |
| M | 4,56 | 5,49 | 7,40 | 4,62 | 5,14 | 5,24 | 3,72 | 5,09 | 4,00 | 2,38 | 1,47 |
| DP | 1,25 | 1,14 | 2,09 | 1,01 | 0,75 | 0,87 | 1,15 | 0,84 | 1,14 | 1,09 | 0,20 |
Nota. PQ - romântico: pergunta critério: “O quanto sou romântico?”. Ap. Ansiedade=Ansiedade relacionada ao apego. Ap.
Evitação=Evitação relacionada ao apego. Desej. Social: Desejabilidade Social;
*p<0,05;
**p<0,01
Discussão
O objetivo deste estudo foi construir uma escala para mensurar o Investimento Emocional. Para isso, foram formulados itens a partir da literatura existente sobre o construto. Depois, os itens foram avaliados por cinco juízes e submetidos a um estudo piloto com uma pequena amostra. Esses procedimentos indicaram que os itens estavam de acordo com a definição do construto e eram compreensíveis, demonstrando evidências de validade baseadas no conteúdo. As evidências de validade baseadas na estrutura interna do instrumento foram buscadas por meio de análises fatoriais exploratória e confirmatória. A análise fatorial exploratória mostrou adequada a extração de dois fatores, denominados Romantismo e Carinho, que explicaram 57% da variância dos itens. A análise fatorial confirmatória demonstrou adequação da estrutura de dois fatores para o instrumento e permitiu obter a versão final da escala com 16 itens, oito em cada fator. Os resultados ainda mostraram índices satisfatórios de fidedignidade para o instrumento: alfa, ômega e correlações teste-reteste maiores que 0,80 (Nunnally, 1978).
O fator Romantismo diz respeito a demonstrações de amor e de quanto o indivíduo está apaixonado pelo parceiro. Essas demonstrações consistem em dedicar tempo, dar presentes e fazer surpresas românticas ao companheiro romântico. O fator Carinho diz respeito a estar próximo do parceiro e demonstrar seu afeto por meio de carinho. A estabilidade temporal dos fatores ressalta sua característica de traço, tal como formulado teoricamente e evidenciado em outros estudos (e.g., Natividade & Hutz, 2016), um traço de personalidade relacionado a aspectos da sexualidade.
Já as médias maiores nos fatores Romantismo e Carinho entre quem estava em relacionamento, bem como, as correlações negativas dos fatores com a dimensão Evitação do Apego, sugerem que esses traços são preponderantes para a retenção de parceiros românticos. Assim, as características pessoais explicadas pelos fatores Romantismo e Carinho indicam uma tendência ao comprometimento para com o relacionamento amoroso, o que é essencial para o cuidado biparental (Buss, 2006; Ellis, 1998). Esse resultado corrobora que o investimento emocional apresentou vantagens em contextos de relacionamentos de longo prazo (Buss, 2006; Ellis, 1998).
Não foram encontradas diferenças significativas entre homens e mulheres para o fator Romantismo; contudo, houve diferença para o fator Carinho. Apesar de significativa, essa diferença no fator Carinho, teve tamanho de efeito pequeno. Esses resultados se opõem aos encontrados por Schmitt e Buss (2000) e Natividade e Hutz (2016), que acessaram o construto por meio de instrumentos com itens em formato de adjetivos. Os resultados deste estudo sugerem suporte à hipótese de que o traço investimento emocional estaria sendo igualmente selecionado para homens e mulheres. Essa contradição entre os estudos pode ser explicada por diferenças nos instrumentos utilizados, visto que as mulheres podem se identificar mais do que os homens com adjetivos como “afetuoso” e “carinhoso” devido a vinculação da imagem feminina a esses adjetivos. Itens contextualizados evitam esse viés por descrever situações na qual a pessoa pode reconhecer suas características mais claramente.
Em relação aos fatores da personalidade, foram encontradas correlações positivas entre os fatores Romantismo e Carinho com os fatores Extroversão e Socialização. Esses resultados estão de acordo com os encontrados por Schmitt e Buss (2000) e Natividade e Hutz (2016) e sustentam que traços emocionais dos relacionamentos românticos parecem ter laços com os cinco fatores de personalidade, principalmente com extroversão e socialização (Tov et al., 2014). Os indivíduos com altos níveis de extroversão, por serem mais comunicativos, dialogam mais com os parceiros. A comunicação entre parceiros envolve tempo e atenção, características associadas aos fatores Romantismo e Carinho. Enquanto as pessoas com maiores níveis de socialização são mais empáticas e preocupadas em manter relacionamentos positivos, o que também está relacionado com demonstrar mais afeto em seus relacionamentos.
Ao que se refere ao apego, verificaram-se correlações significativas positivas entre o fator Romantismo e a dimensão Ansiedade relacionada ao apego, assim como encontrados por Etcheverry et al. (2012). Esses resultados sugerem que indivíduos com altos níveis de ansiedade relacionada ao apego relatam intenso desejo de estabelecer e manter proximidade do parceiro amoroso, característica encontrada em indivíduos com altos níveis de Carinho. Em contrapartida, o fator Carinho não apresentou correlação significativa com a dimensão Ansiedade relacionada ao apego. A respeito desses resultados, ao mesmo tempo que pessoas com altos níveis de Ansiedade relacionada ao apego relatam desejo de proximidade por medo de perder o parceiro, podem se manter distantes por não considerarem que o parceiro esteja próximo e investindo o bastante no relacionamento.
Quanto ao fator Evitação relacionada ao apego, os fatores Romantismo e Carinho apresentaram correlação negativa com Evitação, tal como encontrado por Etcheverry et al. (2012). Esses resultados podem ser explicados pelo desconforto com proximidade emocional de pessoas com altos níveis de evitação relacionada ao apego (Brennan et al., 1998; Etcheverry et al., 2012). Para minimizar ou evitar a proximidade, esses indivíduos podem fazer poucas demonstrações de amor e de afeto, que está associado a baixos níveis de investimento emocional.
Por último, constataram-se correlações entre os fatores Romantismo e Carinho e a medida diretamente correlata, o fator investimento emocional do instrumento Sexy7. Essa correlação fornece evidência de validade convergente para o instrumento. No mais, as correlações com desejabilidade social com ambos os fatores foram de baixa magnitude, mostrando que o instrumento apresenta pouca suscetibilidade à desejabilidade social. Ainda, ao controlar a variável desejabilidade social, os fatores do investimento emocional mantiveram correlações significativas com os construtos correlatos investigados, conforme esperado teoricamente.
Deve-se considerar como limitação deste estudo a amostra por conveniência, constituída, em sua maioria, por participantes da região sul do Brasil e de alta escolaridade. Apesar dessa limitação, os resultados encontrados são satisfatórios e estão de acordo com a literatura. Eles são capazes de preencher lacunas existentes na literatura tanto do ponto de vista teórico e prático. Por exemplo, a construção de um instrumento para mensurar investimento emocional enquanto traço, sobretudo com itens contextualizados, permite acessar características relativamente estáveis que são importantes para explicar tendências e comportamentos associados a relacionamentos amorosos.
Do ponto de vista evolucionista, os relacionamentos amorosos são essenciais para garantir a proximidade e intimidade necessária para uma reprodução bem-sucedida. Além do contato sexual, o relacionamento amoroso permite o estabelecimento de um vínculo emocional que faz com que os parceiros permaneçam juntos por tempo suficiente para gestação e cuidado da prole. Por isso, as diferenças individuais relacionadas à sexualidade e em específico, ao investimento emocional, têm implicações diretas para o sucesso reprodutivo. Acredita-se que este estudo tenha apresentado um instrumento para mensurar investimento emocional com satisfatórias evidências de validade baseada no conteúdo, na estrutura interna e nas relações com outras variáveis, além de índices de confiabilidade adequados. Baseados nesses resultados, o instrumento pode ser útil em pesquisas e na prática clínica, principalmente, na área de relacionamentos românticos.













