Os grupos minorizados (sexo, gênero, diversos) são Pansexual e “+” em representação às diversidades exisusualmente compostos por Lésbicas, Gays, Bissexuais, tentes, assim representados pela sigla LGBTPQIAN+ Transexuais, Transgêneros, Queers, Intersexo, Assexual, (Tan et al., 2020). Pessoas desta comunidade sofrem discriminações diariamente, as quais têm como consequências o aumento da vulnerabilidade social, que resulta em maiores níveis de ansiedade, depressão e ideação suicida desse público (Santana & Melo, 2021). No Brasil, travestis e transexuais são os alvos mais acometidos, sendo um dos países com maiores índices de homicídios de pessoas trans no mundo (Chinazzo et al., 2021).
Cabe destacar que os termos “pessoas trans” e “população T” são designados para pessoas que se identificam como transexuais, transgêneros, travestis e outras identidades de gênero discordantes do sexo atribuído ao nascer. Essas pessoas sofrem preconceito e discriminação nas esferas familiar e social em geral, sobretudo por se diferenciar visivelmente do que é posto como cisheteronormativo na sociedade, tendo consequências em serviços de saúde e no mundo do trabalho, acarretando em altos números de pessoas trans em trabalhos informais (Chinazzo et al., 2021; Costa et al., 2020). A intolerância direcionada às pessoas trans resulta, ainda, em aspectos como a falta de direitos civis (Freires et al., 2021; Lima et al., 2022), dificuldade de acesso a serviços de saúde (Francisco et al., 2020), baixa empregabilidade e renda, o que em muitos casos pode levar ao aumento de pessoas T em situação de rua (Carrieri et al., 2014).
Nesta direção, os estressores vivenciados por pessoas LGBTPQIAN+ contribuem para o isolamento social (Cardoso et al., 2023), evasão escolar (Paveltchuk et al., 2020) e interrupções de relacionamentos românticos, que propiciam maior risco à saúde mental (Costa et al., 2020), maior risco de experiências discriminatórias (Tan et al., 2020) etc. Levam ainda à marginalização e vulnerabilidade desse público, visto que o pertencimento é fundamental para o reconhecimento identitário e aumento da autoestima (Francisco et al., 2020).
A partir disso, a Teoria do Estresse de Minoria (TEM) surge como uma alternativa para investigar o cotidiano estressor dos grupos minorizados quanto à orientação sexual e identidade de gênero. Meyer (2003) considera que grupos minorizados como lésbicas, gays e bissexuais (LGBs) enfrentam situações estressoras específicas, que pessoas não pertencentes a grupos de minorias não vivenciam (Paveltchuk et al., 2020). Precisamente, o Estresse de Minoria (EM) é considerado uma parcela do estresse que deriva das características que tornam o sujeito pertencente a grupos minorizados no contexto LGB (Meyer, 2003).
A TEM estrutura o EM em três facetas: (a) vitimização/preconceito percebido - decorrente de experiências de estigma; (b) homofobia internalizada/preconceito internalizado - quando o sujeito apresenta ideias aversivas sobre si mesmo e sua orientação sexual; e (c) ocultação da orientação sexual/preconceito antecipado - que leva a tentativas de fuga e proteção, fazendo com que o sujeito permaneça em estado de vigilância. Apesar desses estressores serem utilizados como estratégias de enfrentamento, tornam os grupos minorizados mais vulneráveis ao mal-estar psicológico e, por conseguinte, o adoecimento mental (Chinazzo et al., 2021; Costa et al., 2020; Meyer, 2003; Paveltchuck et al., 2020).
Um instrumento disponível para avaliar o EM é o Protocolo para Avaliar o Estresse de Minorias em Lésbicas, Gays e Bissexuais (PEM-LGB-BR) (Costa et al., 2020), adaptado ao contexto brasileiro com base nas seguintes escalas: Escala de Negatividade Internalizada (Smolenski et al., 2010), Escala de Revelação da Sexualidade (Frost & Meyer, 2009) e Escala de Experiências de Estigma (Herek, 2009). Assim, os três pilares da TEM são abordados no instrumento, tornando o protocolo alinhado com a teoria. Entretanto, há de se considerar que a construção de um instrumento que considere apenas o público LGB deixa de fora uma porção de subgrupos minorizados (sexo, gênero, diversos), com estressores específicos tão importantes quanto o grupo supracitado. A partir disso que surge a necessidade de se adaptar o PEM-LGB-BR (Costa et al., 2020) para a população T (travestis e transsexuais), uma vez que esse grupo apresenta um cotidiano estressor mais violento que os demais da comunidade.
Nesta direção, Santos e Freires (2024) relataram uma análise das publicações da Revista Avaliação Psicológica entre os anos de 2011 e 2021, especificamente no tocante aos grupos participantes dessas pesquisas, sob a ótica de fornecer uma perspectiva das pesquisas com grupos minorizados no Brasil (Freires et al., 2022). Os autores apontam que os termos "travesti" e "transsexuais" não tiveram nenhuma ocorrência entre os 498 artigos analisados. Nesse sentido, Santos e Freires (2024) discutem que a visão de mundo da cisheterossexualidade é ressaltada nas publicações no campo da avaliação psicológica no Brasil, o que destaca e justifica a necessidade de estudos que deem mais visibilidade à população T.
É importante sublinhar que recentemente foi proposta uma adaptação do PEM sob denominação de “Protocolo para Avaliação do Estresse de Minorias em pessoas trans e diversidade de gênero (PEM-TD-BR)” (Costa et al., 2023). Todavia, tal proposta não invalida a adaptação que buscamos realizar no presente estudo, especialmente porque nossa intenção é oferecer uma adaptação especificamente para pessoas da população T, ao contrário da versão supracitada. Precisamente, no estudo de adaptação do PEM-TD-BR, Costa et al. (2023) contaram com 8,35% da amostra final constituída por pessoas de outras identidades de gênero (e.g., não-binário, gênero fluído) que não transsexuais, transgêneros ou travestis. Além disso, nos itens da Escala de Preconceito Internalizado, os autores não especificam a identidade de gênero do(a) respondente (e.g., “Item 2. Com que frequência você apanhou por ser uma pessoa [...]?”). Consideramos que com esse artifício não é dada ampla visibilidade a pessoas da população T, de modo que tentamos fazê-lo em nosso instrumento, específico para este público.
Diante do exposto, o presente trabalho busca contribuir para uma maior visibilidade da população T nas investigações científicas no campo da Psicologia e teve como objetivo principal adaptar o PEM-LGB-BR para a população T (PEGM-T-BR), além de reunir evidências de validade da medida, sob a perspectiva de ampliar o leque de possibilidades de avaliação do EM em grupos minorizados quanto à orientação sexual e identidade de gênero no Brasil. Para tanto, adaptou-se os itens da PEM-LGB-BR para a população T, além disso, investigou-se as evidências de validade de conteúdo, baseadas na estrutura interna da medida, padrão de resposta dos itens e medidas externas, a partir da validade de critério.
Método
Participantes
Inicialmente, um grupo focal foi realizado, com o objetivo de avaliar as adaptações da medida, para tanto, contou-se com a participação de seis pessoas, todas elas sendo mulheres trans (100%), com idades variando entre 24 e 43 anos (M=33,83; DP=7,35). Para a análise de juízes contou-se com cinco experts da área de psicologia, com idades variando de 28 a 39 anos (M=31,40; DP=5,03), sendo 60% deles doutores (as) e 40% com doutorado em andamento. O tempo de formação variou entre quatro e 12 anos, a área de atuação dos juízes foram: Gênero, Psicologia Social e Política educacional de juventudes e processos de In/Exclusão.
Em um segundo momento, as análises psicométricas do instrumento foram realizadas com uma amostra de 201 mulheres trans, com idades entre 18 e 44 anos (M=27,57; DP=6,02). Dentre estas, 100 se autodeclararam pardas (49,75%), 56 brancas (27,86%) e 45 negras (22,39%). Além disso, a amostra foi composta de 193 pessoas solteiras (96,02%), sete casadas (3,48%) e uma pessoa que preferiu não identificar seu estado civil no momento da coleta de dados (0,5%).
Finalmente, as análises comparativas foram realizadas considerando uma amostra de pessoas autodeclaradas Lésbicas, Gays e Bissexuais (LGBs), contendo 283 pessoas com idades entre 18 e 35 anos (M=23,22, DP=3,50), com 164 (57,95%) do sexo feminino e 119 (42,05%) declaradamente do sexo masculino. Declararam-se bissexuais 105 (40,63%) pessoas, 95 (33,57%) gays e 68 (24,03%) lésbicas. Destaca-se que cinco (1,76%) pessoas foram retiradas do estudo por se autodeclararem de outra orientação sexual. Ademais, a maioria da amostra foi composta por pessoas solteiras (84,80%) e autodeclaradas brancas (56,89%).
Procedimentos
A fim de adaptar o Protocolo para Avaliar o Estresse de Minorias, para o contexto da população de Travestis e Transsexuais (PEGM-T-BR), utilizou-se das diretrizes da International Test Comission (ITC, 2010), baseando-se no contexto de estressores cotidianos da população T e, por consequência, ampliando o leque de possibilidades de aplicação do PEM. Posteriormente, um grupo focal foi realizado para discutir as questões adaptadas e a possibilidade de criação de novos itens avaliativos ao instrumento. Além disso, buscou-se reunir evidências de validade de conteúdo do instrumento, através do processo de análise de juízes, considerando a avaliação de experts quanto à redação dos itens.
Os resultados dos procedimentos supracitados geraram a versão experimental do instrumento, utilizada na coleta de dados que foi realizada de maneira presencial, em ambulatórios, casas de apoio a pessoas Trans, centros de acolhimento e na universidade de uma cidade do nordeste do Brasil, ao longo de um mês. No momento da coleta, foi evidenciado o caráter anônimo e voluntário do estudo e solicitada a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os riscos da participação da pesquisa foram explicitados e a garantia de desistência da participação em qualquer momento da coleta de dados foi assegurada. Assim, foram garantidos os preceitos éticos das pesquisas com seres humanos preconizados pelas resoluções CNS 466/2012 e 510/2016. A pesquisa com pessoas LGBs foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos da [OCULTO], sob o Parecer n. [OCULTO], enquanto a pesquisa com pessoas da população T foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos da [OCULTO], sob o Parecer n. [OCULTO].
Instrumentos
O Protocolo para Avaliar o Estresse de Minorias em Lésbicas, Gays e Bissexuais ([PEM-LGB-BR]; Costa et al., 2020) foi utilizado para a adaptação ao contexto da população T (PEGM-T-BR). O PEM-LGB-BR possui três dimensões e 18 itens, que foram adaptados para uma estrutura de três dimensões e 35 itens : (a) Escala de Homonegatividade Internalizada (adaptada para a Escala de Transnegatividade Internalizada [ETI]), tendo sete itens de sete pontos, variando de 1 (Discordo totalmente) a 7 (Concordo totalmente); (b) Escala de Revelação da Homossexualidade (adaptada para a Escala de Afirmação da Identidade de Gênero [EAIG]), com quatro itens de 1 (Não se aplica) a 5 (Revelei para todas(os)); e por fim (c) Escala de Experiências de Estigma (adaptada para a Escala de Experiências de Estigma da população T [EEE-T]), composta de sete itens de cinco pontos, de 1 (Nunca) a 5 (Três ou mais vezes).
É importante ressaltar que o processo de construção de itens para o Protocolo para avaliar o Estresse em Grupos Minorizados, para a População T (PEGM-TBR) foi realizado através de métodos indutivos, ou seja, a partir de discussões com um grupo focal de seis pessoas autodeclaradas pessoas travestis e/ou transsexuais. A proposta de criação de itens foi realizada por considerar que o instrumento original (PEM-LGB-BR) não poderia cobrir todos os aspectos da população T apenas com os itens originais adaptados.
Além do questionário sociodemográfico utilizado para fins de caracterização da amostra, os (as) participantes do estudo responderam a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (Depression, Anxiety and Stress Scale; [DASS-21]). A DASS-21 foi adaptada ao contexto brasileiro por Vignola e Tucci (2014), é composta por 21 itens e tem o objetivo de mensurar os comportamentos e sensações experimentadas nos últimos sete dias a partir de uma escala de quatro pontos entre 0 (não se aplica a mim) e 3 (se aplica muito a mim).
Análise dos Dados
A análise de juízes consiste em uma avaliação qualitativa do instrumento, e foi realizada de modo que os peritos avaliaram se o conteúdo dos itens estava de acordo com os fatores latentes inicialmente delimitados (ETI, EAIG, EEE-T), além das diretrizes de Pasquali (1998). Os resultados foram avaliados a partir da faixa de concordância entre os juízes, com índice de concordância de até 40% indicando necessidade de exclusão do item, valores entre 41% e 79% indicando necessidade de ajuste do item, enquanto valores de 80% ou superior indicaram a possibilidade de manter o item original.
Os dados obtidos foram analisados através do software R 4.2.1. A fim de investigar a plausibilidade da estrutura fatorial do PEGM-T-BR, foi executada uma Análise Fatorial Confirmatória (AFC). Utilizou-se o método Weighted Least Squares (WLS), devido às matrizes policóricas dos dados (Li, 2016). Quanto à interpretação do modelo, utilizou-se dos indicadores de ajuste Qui-quadrado (χ2, p>0,05), razão de Qui-quadrado por graus de liberdade (χ2/gl≤5), CFI e TLI (≥0,95), SRMR e RMSEA (≤0,08), conforme sugere Brown (2015). Já a consistência interna da medida foi avaliada através dos indicadores ômega de McDonald (ω) e alfa de Cronbach (α), com valores aceitáveis a partir de 0,60 (Hayes & Coutts, 2020).
Para as análises estatísticas multivariadas, a normalidade dos dados foi investigada com o teste de KolmogorovSmirnov (Field, 2024), e a partir disso, realizou-se uma Análise Multivariada de Variância por Permutações (PERMANOVA), com post hoc de Bonferroni. A variável independente utilizada neste estudo foi o subgrupo minorizado (Lésbicas, Gays, Bissexuais e população T). A partir disso, testou-se a diferença estatisticamente significativa nos níveis de Negatividade Internalizada (EHI, ETI), Revelação da Sexualidade/Afirmação da Identidade de Gênero (ERS, EAIG) e Experiências de Estigma (EEE-LGB, EEE-T).
Por fim, utilizou-se de uma Análise de Caminhos (path analysis) para investigar em que medida as variáveis de Estresse de Minorias influenciam nos indicadores de Mal-estar psicológico. Para tanto, utilizou-se do estimador WLS, por se tratar de dados com distribuição assimétrica (Li, 2016). Os mesmos indicadores de ajuste analisados na AFC serviram para identificar a qualidade do modelo. Além disso, a porcentagem de variância das variáveis dependentes foi avaliada a partir do coeficiente R2.
Resultados
Visando melhor organização, os resultados são apresentados em subseções distintas, sendo as evidências de validade de conteúdo (análise de juízes), estrutura interna (AFC), processo de reposta (PERMANOVA) e relações com medidas externas (Análise de Caminhos).
Evidências de validade de conteúdo
A Escala de Transnegatividade Internalizada (ETI) não obteve itens com índices de reformulação ou exclusão. Ainda assim, os juízes sugeriram alterações nos itens 5 (inserir exemplos de situações sociais) e 7 (alteração de “ser visto em público com uma pessoa trans” para “ser visto em público com pessoas trans”). Além disso, uma breve explicação sobre “pessoas cis” e “pessoas LGBTPQIA+” foi inserida imediatamente antes dos itens do instrumento. Enquanto na Escala de Afirmação da Identidade de Gênero (EAIG), apenas o item 5 apresentou percentual de concordância abaixo do ideal (entre 40% e 80%), com sugestão de alteração de “Amigos gays ou amigas(os)” para “Amigos(as) gays ou bissexuais”. Ademais, os peritos solicitaram a adição dos itens “Professores(as)” e “Colegas de escola/ faculdade”.
Já para a Escala de Experiências de Estigma para Travestis e Transsexuais (EEE-T), observou-se que os itens 1 e 11 apresentaram índices de concordância que indicaram necessidade de ajuste (entre 40% e 80%). Os peritos sugeriram alterações de pontuação dos itens, além da inserção do pronome feminino quando necessário, além de alterações do item 1 (“Você já apanhou ou foi espancado (a) ou agredido (a) fisicamente ou sexualmente porque perceberam que você era pessoa trans?”) e 11 [“Você já sofreu violências (físicas, psicológicas e/ou verbais) em ambientes escolares e/ ou universitários por ser uma pessoa trans?”].
Evidências de validade baseadas na estrutura interna
Os resultados do modelo geral de 35 itens da PEGMT-BR apontaram ajuste insatisfatório, [χ2(557)=4.042,46 (χ2/gl=7,25), CFI=0,91, TLI=0,90, RMSEA=0,17 (0,17 - 0,18), SRMR=0,19]. Observou-se que os indicadores RMSEA e SRMR obtiveram valores que excedem os pontos de corte delimitados pela literatura (Brown, 2015). Esses achados apontam que o modelo de mensuração é defensável, mas apresenta resíduos, sendo então realizadas novas análises de modelos alternativos do instrumento.
Os itens com cargas fatoriais abaixo de |0,40| foram retirados do modelo (EEE9, EEE13, EEE15, EEE16, EAIG2, EAIG4, EAIG5), resultando numa estrutura fatorial de 28 itens. Os resultados do modelo reduzido apresentaram ligeira melhoria dos indicadores de ajuste [χ2(347)=1.642,89 (χ2/gl=4,73), CFI=0,96, TLI=0,96, RMSEA=0,13 (0,13 - 0,14), SRMR=0,13]. Já os indicadores de consistência interna da EEE e EAIG apontaram resultados superiores com a redução dos itens que não saturaram em seus respectivos fatores latentes [ETI (α=0,84, ω=0,73), EAIG (α=0,93, ω=0,90) e EEE-T (α=0,97, ω=0,94)], indicando que a exclusão dos itens contribuiu para a consistência dos fatores latentes.
Finalmente, investigou-se os índices de modificação do modelo, que apontam possíveis adequações que podem ser realizadas no modelo para auxiliar no ajuste da AFC, que evidenciaram covariâncias residuais substancialmente altas do item EEE17 com os itens ETI1 (mi=120,404), ETI3 (mi=88,083), EAIG9 (mi=81,984), além da sugestão de modificação do item EEE17 para os fatores ETI (mi=220,972) e EAIG (mi=181,364). A partir disso, optou-se pela retirada desse item, além do item ETI4 (“Sinto-me confortável em espaços de sociabilidade de pessoas LGBTPQIA+”), por apresentar covariância residual muito alta com o item ETI5 (“Situações sociais com outras pessoas trans/travestis me fazem sentir desconfortável”), indicando redundância entre os itens. Além disso, optou-se pela estimação das covariâncias residuais entre os itens EAIG1 com os itens ETI1 (mi=86,221) e ETI3 (mi=125,845), além das covariâncias residuais entre ETI5 com os itens ETI4 (mi=55,652) e EEE7 (mi=42,891). Os resultados do modelo final apresentaram valores limítrofes [χ2(293)=1.330,586 (χ2/gl=4,541), CFI=0,99, TLI=0,98, RMSEA=0,09 (0,08 - 0,09), SRMR=0,11], com elevados níveis de resíduo, mas valores excelentes de CFI e TLI, e adequados da razão χ2/gl (Figura 1).
Evidências de validade baseadas no processo de resposta
A normalidade dos dados foi investigada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov, o qual apontou desvio da normalidade dos dados para as distribuições das variáveis Transnegatividade Internalizada (p<0,001), Afirmação da Identidade de Gênero (p<0,001) e Experiências de Estigma (p<0,001). Sendo assim, optou-se pela realização de análises não paramétricas.
Os resultados da PERMANOVA confirmaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos [F(3)=91,132, p<0,001, R2=0,358], explicando 35,8% da variância. Os modelos comparativos considerando cada escala apontaram diferenças significativas para Negatividade Internalizada [F(3)=4,089, p=0,007, R2=0,024], explicando 2,4% da variância; Revelação da Sexualidade/Afirmação da Identidade de Gênero [F(3)=64,030, p<0,001, R2=0,282], explicando 28,2% da variância, e Experiências de Estigma [F(3)=102,790, p<0,001, R2=0,386], com 38,6% da variância explicada.
Comparações pareadas permitiram identificar quais grupos se diferenciam entre si. Para a Negatividade Internalizada, foi possível inferir diferenças estatisticamente significativas entre a população T e pessoas Gays [F(1)=5,251, p=0,025, R2=0,017], e da população T com pessoas Bissexuais [F(1)=7,130, p=0,007, R2=0,021]. Além disso, foi possível inferir diferenças significativas entre Gays e Lésbicas [F(1)=4,626, p=0,024, R2=0,026], e entre Bissexuais e Lésbicas [F(1)=6,770, p=0,012, R2=0,034].
Em resumo, as estatísticas descritivas indicaram que a população T apresenta maiores níveis de Negatividade Internalizada quando comparadas às pessoas Gays e Bissexuais. Além disso, pessoas Lésbicas apresentam maior Negatividade Internalizada que pessoas Gays e Bissexuais, conforme aponta a Tabela 1. As pessoas Trans apresentaram o maior nível de EM, quando comparados os subgrupos investigados neste estudo (LGBs), sendo importante ainda ressaltar o resultado das Experiências de Estigma, no qual a população T apresentou resultados significativamente superiores aos demais.
Tabela 1 Estatísticas Descritivas das Variáveis do PEM Apresentadas por Grupos Minorizados (Sexo, Gênero, Diversos)
| Negatividade | Afirmação | Estigma | ||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| L | G | B | T | L | G | B | T | L | G | B | T | |
| Med | 5,57 | 5,28 | 5,28 | 5,87 | 3,75 | 4,00 | 3,37 | 4,77 | 1,21 | 1,42 | 1,14 | 2,10 |
| M | 5,51 | 5,19 | 5,17 | 5,58 | 1,34 | 1,47 | 1,26 | 2,15 | 3,85 | 3,94 | 3,45 | 4,51 |
| DP | 0,82 | 1,02 | 0,90 | 1,56 | 0,39 | 0,42 | 0,33 | 0,64 | 0,62 | 0,79 | 0,63 | 0,66 |
Posteriormente, a comparação pareada foi feita a partir da variável de Revelação da Sexualidade/Afirmação da Identidade de Gênero, que apresentou diferenças estatisticamente significativas entre a População T quando comparadas a Gays [F(1)=42,966, p=0,001, R2=0,124], Bissexuais [F(1)=196,672, p=0,001, R2=0,381], e Lésbicas [F(1)=52,545, p=0,001, R2=0,163]. Entre os grupos LGBs, foi possível identificar diferenças significativas entre Gays com Bissexuais [F(1)=26,159, p=0,001, R2=0,106], e entre Bissexuais e Lésbicas [F(1)=17,576, p=0,001, R2=0,085], não sendo possível atestar diferenças entre Gays e Lésbicas.
Assim, pode-se inferir que pessoas da população T apresentaram maior nível de Afirmação de sua Identidade de Gênero, quando comparadas ao nível de Revelação da Sexualidade de pessoas Lésbicas, Gays e Bissexuais. Além disso, as pessoas Gays apresentam maiores níveis de Revelação da Sexualidade quando comparadas ao grupo de pessoas Bissexuais, assim como as pessoas Lésbicas, indicando que o grupo de pessoas Bissexuais apresentaram menor nível de Revelação da Sexualidade quando comparadas pessoas LGT.
A última comparação pareada foi feita a partir dos níveis de Experiências de Estigma, que indicaram diferenças estatisticamente significativas entre a população T com os grupos de pessoas Gays [F(1)=94,348, p=0,001, R2=0,238], Bissexuais [F(1)=198,651, p=0,001, R2=0,383], e Lésbicas [F(1)=99,121, p=0,001, R2=0,269]. Além disso, foi possível identificar diferenças significativas entre as pessoas Gays com Bissexuais [F(1)=16,983, p=0,001, R2=0,071], e Lésbicas [F(1)=4,214, p=0,049, R2=0,024].
Diante disso, torna-se evidente que população T apresenta os maiores níveis de Experiências de Estigma, quando comparados aos grupos LGBs. Pessoas Gays apresentaram maiores níveis dessa dimensão quando comparadas ao grupo de Lésbicas e Bissexuais, sendo que estes últimos apresentaram nível semelhante de Experiências de Estigma entre si.
Evidências de validade baseadas na relação com medidas externas
O modelo estrutural investigado (Figura 2) considerou a influência das variáveis de estresse de minorias nas variáveis de Mal-estar Psicológico (i.e., Depressão, Ansiedade e Estresse). A Path Analysis considerou o impacto das variáveis de EM no fator Estresse, e este, por sua vez, impactando nos níveis de Ansiedade e Depressão. Os resultados apontam ajuste defensável [χ2(7)=20,546, p=0,005, χ2/df=2,93, CFI=0,99, TLI=0,98, SRMR=0,11, RMSEA=0,09 (IC95%=0,050,14)], com exceção dos resultados de SRMR e RMSEA, que apresentaram resultados ligeiramente maiores. O modelo explicou 73,1% da variância da Depressão, 68,9% da Ansiedade e 90,9% do Estresse, indicando que o EM impacta no estresse geral de grupos minorizados (sexo, gênero, diversos), e que esse estresse, por sua vez, resulta em altos níveis de Ansiedade e Depressão.
Discussão
Esse estudo teve como objetivo adaptar e reunir evidências de validade baseadas no conteúdo, estrutura interna da medida, padrão de resposta e relação com medidas externas. Para tanto, utilizou-se de análises do percentual de concordância, Modelagem por Equações Estruturais (MEE), sendo modelos de mensuração e estrutural, além de análises comparativas através da Análise Multivariada de Variância por Permutações (PERMANOVA).
Evidências de validade de conteúdo e de estrutura interna da PEGM-T-BR
Inicialmente, os resultados da análise de juízes possibilitaram inferir que o instrumento adaptado está em consonância com a Teoria do Estresse de Minorias (TEM) e com o contexto da população T. O PEGM-T-BR apresentou como principal diferença em relação ao instrumento original a adaptação de questões relacionadas à orientação sexual para o contexto da identidade de gênero, a fim de abarcar a vivência da população T. Nesta direção, as escalas utilizadas no protocolo mudaram de escopo, sendo a Escala de Homonegatividade Internalizada (EHI) adaptada para Escala de Transnegatividade Internalizada (ETI), a Escala de Revelação da Sexualidade (ERS) adaptada para a Escala de Afirmação da Identidade de Gênero (EAIG), e a Escala de Experiências de Estigma (EEE) adaptada para a Escala de Experiências de Estigma para a população T (EEE-T), com 19 itens, ao invés dos 7 da EEE.
A adição de 12 itens na EEE-T em relação a EEE se deu pela percepção de estressores específicos da população T, considerados imprescindíveis na avaliação do estresse de minorias desse contexto, tais como: término de relacionamentos e rejeição afetiva (Paveltchuk et al., 2020), violências físicas (Hottes et al., 2016), dificuldade de acesso a serviços de saúde (Souza & Tanaka, 2021), exclusão em ambientes educacionais e do núcleo familiar (Chinazzo et al., 2019) e vulnerabilidade ao uso de substâncias (Souza & Tanaka, 2021).
O modelo final de 28 itens da PEGM-T-BR obteve performance significativamente superior ao modelo experimental do instrumento (35 itens), com indicadores como CFI, TLI, χ2/df demonstrando resultados satisfatórios, o que nos leva a crer que a retirada dos itens pelo critério das cargas fatoriais trouxe mais assertividade ao modelo, com a melhoria do ajuste e a redução de resíduos. Além disso, os indicadores de consistência (α e ω) do modelo de 28 itens, apresentaram valores excelentes (Hayes & Coutts, 2020). Contudo é importante considerar que o modelo de mensuração do instrumento apresentou resíduo consideravelmente alto, que impacta na estimação do modelo estrutural investigado na Análise de Caminhos.
Evidências de validade baseadas no processo de resposta e na relação com medidas externas
A partir das análises comparativas, observou-se que a população T apresentou maiores níveis de estresse em todas as dimensões do EM. Os resultados indicaram que pessoas da população T apresentam mais preconceito internalizado do que seus pares LGBs, indicando que as experiências de estigma podem deixar marcas, como a propagação interna de mensagens estigmatizantes contra pessoas dessa população (Chodzen et al., 2019).
Quanto à Revelação da Sexualidade/Afirmação da Identidade de Gênero, a maior pontuação das pessoas T indicam que esse grupo é o que mais "sai do armário" quando comparados a pessoas LGBs. Esse fenômeno pode ser explicado devido ao fato de que, para as pessoas T, a possibilidade de esconder sua identidade de gênero é muito mais laboriosa do que a ocultação da orientação sexual de pessoas LGBs (Testa et al., 2015). Ainda, a população de pessoas Bissexuais obteve o menor valor nessa dimensão, indicando que é o grupo que menos revela sua sexualidade para outras pessoas.
O conceito de passabilidade nos ajuda a pensar a relevância desse resultado. Caracterizando-se como a capacidade de uma pessoa T de "se passar" como pessoa cisgênero (Monteiro & Porchat, 2021). A passabilidade está diretamente associada à satisfação social de ser reconhecido publicamente como alguém que a pessoa sempre foi (Porto et al., 2021). Assim, pessoas T tendem a viver na constante busca por passarem despercebidas no contexto social, pois partir disso se tornam menos vulneráveis a eventos discriminatórios (Silva & Calais, 2020). Por outro lado, a negação da identidade de gênero, para pessoas da população T é ainda mais adoecedor, sendo então a afirmação da identidade de gênero um aspecto importante para a saúde mental dessa população.
Pessoas T também apresentam maiores níveis de Experiências de Estigma quando comparadas aos grupos LGBs. Esses resultados corroboram com Schulman e Erickson-Schroth (2017), que apontam que a população T possui risco significativamente maior de sofrer discriminação e violência, do que seus pares LGBs. Esse fenômeno acontece devido à problemática de que as pessoas T têm menos possibilidade de esconder sua identidade de gênero, e por sua vez, se tornam mais suscetíveis a discriminações (Testa et al., 2015).
Ademais, ainda que todos os grupos minorizados (sexo, gênero, diversos) tenham apresentado altos níveis de estressores específicos. A presença de altos níveis de estresse de minorias na população LGBT corroboram com os achados recentes da literatura científica, que indicam que o contexto dessa população tende a ser marcado por discriminações, que por sua vez, influenciam negativamente nos níveis de saúde mental desses sujeitos (Silva et al., 2020).
Diante disso, buscamos testar um modelo explicativo do mal-estar psicológico de pessoas LGBT a partir do estresse de minoria. Os resultados da MEE apresentaram índices de ajuste satisfatórios, com ressalva para os índices residuais. De toda forma, considera-se que os resultados são confiáveis, reforçando os achados de Tan et al. (2020) e Testa et al. (2015) que apontam que o estresse de minorias está diretamente relacionado a indicadores de mal-estar psicológico, como a depressão e a ansiedade.
O referido modelo nos permite inferir que estressores das minorias influenciam diretamente no aumento dos níveis de estresse geral de pessoas pertencentes a esses grupos, conforme aponta Meyer (2003). O elevado nível de estresse, por sua vez, acaba propiciando a proliferação de sintomas psicológicos como depressão e ansiedade (Souza et al., 2020). Além disso, o modelo investigado neste estudo aponta que o estresse de grupos minorizados (sexo, gênero, diversos) é explicado pelos estressores específicos, e implica em maiores níveis de depressão e ansiedade, corroborando com o estudo de Chinazzo et al. (2021). Sendo assim, podemos concluir que o estresse de minorias, resultante da discriminação social a pessoas T, influencia significativamente na saúde mental desse público.
É importante ressaltar que o contexto de adversidades enfrentado por pessoas da população T se faz presente em diversos contextos (Tan et al., 2020). Especificamente, a discriminação social sofrida pela população T perpassa relações interpessoais, como família (Gomes et al., 2020) e amigos (Alvares et al., 2022), e até em relações institucionais, como a escola (Alvares et al., 2022; Gomes et al., 2020) e o trabalho (Silva et al., 2016).
A partir disso, a população T se mune de mecanismos de defesa, a fim de sobreviver ao contexto social nocivo no qual se insere, que funciona sob a ótica da heteronormatividade. São exemplos desses mecanismos a hipervigilância (Paveltchuk et al., 2020) e passabilidade (Silva & Calais, 2020), usados pelas pessoas T para se adaptarem ao contexto social, que evidenciam a vida marcada pela necessidade de se proteger a todo momento.
Como limitações do estudo, ressalta-se o tamanho da amostra relativamente baixo para a investigação da qualidade psicométrica e inferências multigrupais. Sugere-se então que o estudo de validação da PEGMT-BR seja reproduzido em amostras a nível nacional, a fim de angariar resultados com maior confiabilidade. Além disso, é importante notar que o estudo se propôs a utilizar a AFC para investigar as evidências de validade baseadas na estrutura interna, porém, sugere-se também a aplicação de técnicas derivadas da Teoria de Resposta ao Item (Baker, 2001), a fim de investigar parâmetros individuais de cada item, possibilitando uma análise mais criteriosa sobre o instrumento. Ainda, destaca-se a necessidade de análises de invariância fatorial da PEGM-T-BR com a PEM-LGB-BR, de maneira a confirmar que os escores podem ser comparados diretamente, uma vez que as estruturas sejam equivalentes.
É importante ressaltar a existência do Protocolo para Avaliação do Estresse de Minorias em pessoas trans e diversidade de gênero, o PEM-TD-BR (Costa et al., 2023), que conta com 27 itens. Contudo, ressalta-se as diferenças do PEM-T-BR (adaptado nesse estudo) para o PEM-TD-BR, uma vez que novos itens foram criados através de métodos indutivos, trazendo à tona temas importantes para a população T, evidenciados por pessoas do público-alvo.
Destaca-se a importância do protagonismo em pesquisa, que justifica a relevância deste estudo. A preeminência de uma mulher transexual como autora principal, rompe a lógica social cisheterossexista que subalterniza esses corpos apenas como objeto de estudos (Rodrigo et al, 2019). Por décadas o discurso científico demarcou corpos e naturalizou verdades sobre gênero. O estudo transpõe os vieses discriminatórios que pautaram a estigmatização histórica da população LGBTQIAPN+, com destaque para a população T, vitimizadas diariamente pela patologização que marca as suas existências (Santos & Freires, 2024).
Assim como analisado por Freires et al. (2022), nenhum dos 498 artigos revisados no estudo apresentou os termos "travesti" e "transsexuais". Tal resultado evidencia a necessidade de estudos que visibilizem a população alvo deste estudo no campo da avaliação psicológica no Brasil. Somente através de uma reflexão crítica sobre aspectos individuais, sociais e históricos a avaliação psicológica estará comprometida com a ética e com os direitos humano (Santos & Freires, 2024). Neste sentido, a PEGM-T-BR se coloca como uma proposta complementar a já publicada por Costa et al. (2023), contudo, cumpre seu papel científico alinhado ao combate das injustiças sociais, uma vez que garante a devida visibilidade a pessoas da população T, tanto a nível do instrumento, com marcador específico nos itens para este público, quanto a nível político. Tal abordagem possibilita ter em conta uma proposta ampliada e contemplativa dos aspectos metodológicos e instrumentais da AP com grupos minorizados, assim como reivindica uma urgente e necessária contextualização com as diversidades, racialidades, inclusão e injustiças sociais, presentes na realidade brasileira.
Em suma, as questões acima levantadas além de versarem sobre elementos metodológicos, envolvem, sobretudo, implicações éticas e políticas, que são fundamentais de serem consideradas nos processos avaliativos. Tal perspectiva parece estar alinhada com as diretrizes da Avaliação Psicológica no Brasil, na medida em que esta última se ancora nos princípios da Justiça e Proteção dos Direitos Humanos (CFP, 2022).
















