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Revista da SPAGESP

versão impressa ISSN 1677-2970

Rev. SPAGESP v.1 n.1 Ribeirão Preto  2000

 

PARTE I - O GRUPO DA INSTITUIÇÃO E O GRUPO NAS INSTITUIÇÕES

 

A experiência de coordenar equipes que coordenam grupos1

 

 

Dênis Eduardo Bertini Bó2

Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O autor propõe, a partir de sua própria experiência, uma reflexão sobre o fazer grupal nas instituições que tratam a doença mental. Relata a resistência e o descompromisso com que os profissionais da área executam a atividade de terapia em grupo. Analisa aspectos econômicos, políticos, culturais e pessoais envolvidos na questão. Observa como os técnicos se relacionam entre si enquanto equipe de trabalho e o quanto negam o processo grupal.

A formação técnica e as expectativas idealizadas em relação ao exercício profissional são levantadas como fatores de peso na determinação do comportamento. Mas também sentimentos íntimos como o medo da rejeição e o sentimento de onipotência são apontados como fundamentais.

O autor conclui que em situações menos protegidas, (como a grupal e/ou a institucional), o profissional fica mais exposto a tais elementos geradores de conflito, provocando-lhe uma crise de identidade.


ABSTRACT

The author proposes a reflection about the group work is institutions that treat mental diseases, doing it from his own experience.

He relates the resistance and the irresponsibility which the area professionals execute the group therapy activity. He analyzes economic, politic, cultural and personal aspects involved in this question. He observes the technicians' relationship each other as a work team and the way they deny the group process.

The technique formation and the idealized expectation in connection to professional activity are analyzed as some important factors on behavior determination. But close feelings as the rejection fear and the omnipotence feeling are also appointed as fundamental.

The author concludes that in less protect situations, (like the group and/or institutional ones), a professional is more exposed to these generator elements of conflicts, bringing about an identity crisis.


RESUMEN

El autor propone, a partir de su propia experiencia, una reflexión sobre el hacer grupal en las instituciones que tratan la enfermedad mental. Relata la resistencia y la falta de compromiso con que los profesionales del área ejecutan la actividad de terapia en grupo. Analiza aspectos económicos, políticos, culturales y personales envueltos en la cuestión. Observa cómo los técnicos se relacionan entre sí en cuanto al equipo de trabajo y cuánto niegan el proceso grupal.

La formación técnica y las expectativas idealizadas en relación con el ejercicio profesional son levantadas como factores de peso en la determinación del comportamiento. Pero también sentimientos íntimos como el miedo al rechazo y el sentimiento de omnipotencia son apuntados como fundamentales.

El autor concluye que en situaciones menos protegidas (como la grupal y/o la institucional), el profesional queda más expuesto a tales elementos generadores de conflicto, provocándole una crisis de identidad.


 

 

Longe de propor respostas, estas observações carregam dúvidas e inquietações sobre o processo grupal, envolvendo-o, pacientes/clientes ou profissionais/equipes. É principalmente no bojo dessas relações que qualquer teoria sai do estado de livro para o de intervenção e por isso é preciso mais e mais análises sérias. Nesse sentido, o que pretendo é provocar uma discussão vinculada à prática que a alimenta e é alimentada por ela, num constante movimento pendular de ir e vir, acarretando uma contínua adaptação crítica à realidade (Lema, 1996).

Sempre me chamou a atenção como o fazer grupal é inserido nas práticas diárias das várias equipes e instituições para tratamento da doença mental, nas quais tive oportunidade de trabalhar ou supervisionar.

No discurso, fazer grupos é valorizado e incentivado. Mas a prática acontece enviesada. Têm-se pacientes sentados em círculo conversando com o coordenador. Se é um grupo não se sabe. Autores como Pichon-Rivière (1971) alertam para conceitos como grupalidade e serialidade. Para se ter um grupo é preciso mais do que gente sentada em círculo; são precisos vínculos e tarefa em comum. É preciso sobretudo que ele faça parte de um projeto terapêutico.

O conteúdo implícito que geralmente existe entre os técnicos é que o grupo tem um compromisso com a instituição na qual está inserido e somente com ela. A prática de grupos seria inerente a se atender em uma instituição. Existiria para suprir demandas políticas e financeiras. Os projetos terapêuticos pouco seriam levados em consideração.

Tais idéias se associam àquelas que defendem ser o grupo o "primo pobre" da intervenção individual e que só se justificaria por dar conta da grande quantidade de pacientes e por ser mais acessível economicamente. Idéias que colocam o atendimento individual como ideal e soberano, ao qual seriam feitas concessões para adaptá-lo à instituição, ao público, às classes menos favorecidas. Os técnicos argumentam que não podem dar a devida atenção a cada paciente por estarem reunidos. Questionam como podem tratar assuntos diversos e pessoas distintas, todas juntas. Querem transpor diretamente o tipo de manejo que fazem no trabalho individual para o grupal.

Mostram na verdade preconceitos e desconhecimento. Poucos profissionais sabem realmente o que estão fazendo ao coordenar um grupo. A maioria tem sua formação, principalmente, alicerçada na intervenção individual e a própria terapia pessoal é feita individualmente. E a resistência é grande para mudar. Raros são aqueles que buscam aprender ou aprimorar as técnicas grupais. Há um descompromisso com a intervenção grupal, como se fosse algo superficial, terapeuticamente limitada, e por isso, de menor importância.

Há também e sobretudo, um descompromisso com os outros integrantes da equipe e com a instituição como um todo. É curioso observar esse fato. Cada profissional colocando a frente um escudo para se defender da instituição, dos colegas e dos pacientes. É comum se colocar os técnicos de um lado, os pacientes de outro e argumentar que grupo é bom para estes últimos. A equipe geralmente não se reconhece como um grupo. Negam os processos grupais. Raramente elegem um coordenador para suas reuniões. Trabalhar em equipe, então, é entendido como cada um dando conta apenas da sua parte, o que acarreta resultados bastante insatisfatórios.

Mas o que está por trás desse comportamento?

É essa a pergunta que me faço todos os dias.

A primeira idéia que levanto se relaciona com o contexto cultural. Em nossa sociedade impera a ideologia burguesa-capitalista na qual a valorização da individualidade é fundamental para justificar a propriedade. O maniqueísmo usado para estruturar os nossos valores, desenha o público como ruim e o privado como bom, (veja as privatizações, inclusive a privatização da saúde). O profissional carrega de casa, reafirmada pela universidade, a expectativa ideal de ter um consultório e ser autônomo. Trabalhar no setor público (ou mesmo em instituição que se presta ao atendimento do grande público), como empregado, dividindo sua prática com outros colegas fere quase que mortalmente seu narcisismo. Sobra-lhe o ressentimento como apontado por Durand (1996). Ressentimento que é alimentado todos os dias pelas dificuldades reais de se trabalhar em uma instituição, cujo controle do setting é muito tênue. As intromissões são comuns, sejam elas do administrador, dos políticos, dos colegas.

Essa questão me leva a pensar no limite das concessões feitas à técnica para se possibilitar a realização do trabalho. Qual será esse limite? Mas também me faz refletir sobre as tendências pouco democráticas que nós técnicos temos. Muitas vezes o discurso científico (campo que dominamos muito melhor que administradores, políticos e pacientes) serve, no fundo, para se exercer um autoritarismo e preservar a resistência à transformação.

Nesse momento vale um adendo: é a partir daí que me preocupa o atendimento ao paciente. Quais serão os reflexos sobre o vínculo terapêutico dessa impermeabilidade à renovação e à reflexão? Como será que andam as trocas com o paciente?

A segunda questão que trago se relaciona com aspectos íntimos do profissional. Na medida em que ele se desvincula de seu setting ideal, que o enquadra feito moldura de fotografia onde só há lugar para 2 pessoas, ele se fragiliza. Sua vulnerabilidade aumenta na proporção em que avança do atendimento individual no consultório, para o grupal na instituição e mais modernamente para intervenções extramuros (sejam elas visitas domiciliares, programas de saúde da família, programas de redução de danos-troca de seringas). O profissional entra em pânico quando entra na casa de seu paciente e perde o controle da situação.

Ao meu ver, tal vulnerabilidade se relaciona com o que Kesselman e colaboradores (1984) chamam de cenas temidas do coordenador de grupo. O profissional revisita vivências conflituosas da sua história pessoal, provocadas pelas experiências no trabalho, bloqueando sua capacidade técnica. A complexidade da rede vincular no grupo favorece o surgimento de uma gama muito variável de conteúdos afetivos e que, inclusive, são ampliados pelo próprio processo grupal. Essa avalanche de afetos tem imensa probabilidade de tocar o coordenador, principalmente, vivências como o medo da crítica, o medo da vergonha, os sentimentos de impotência, o medo da rejeição e da solidão. Sentimentos que fazem uma ligação direta com pretensões onipotentes, como nos pontua Mello Franco Filho (1989). Onipotência de querer curar, executar o bem, mas que nada mais é do que fruto de um narcisismo imaturo, delatando um conflito de identidade.

É, sem dúvida, um desafio coordenar grupos, trabalhar em instituições, atender em domicílio. Rever o papel de profissional e de terapeuta. Dividir com o outro, seja ele paciente, colega ou familiar, o poder de tratar. Acreditar verdadeiramente na capacidade que o outro (mesmo sem título algum) tem de curar.

É também um desafio aprender a trabalhar com as interferências externas. Não no sentido de uma adaptação cômoda, mas de uma adaptação criativa. Contar com a interferência. Esperá-la. Poder usá-la como ferramenta no aprimoramento do instrumento terapêutico de que se dispõe.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Durand, M, (1996) - Vínculos enlouquecedores nas instituições, Rev ABPAG, Vol. 03, (127-133).

Franco Filho, O M (1989) - Identidade do psicoterapeuta de grupo - In Grupoterapia Hoje, org. por Luiz Carlos Osório, 2a ed., Artes Médicas, Porto Alegre, 1989.

Kesselman, H; Pavlovsky, E; Frydlewsky, L (1984) - Las escenas temidas del coordinador de grupos, Ediciones Busqueda, Buenos Aires, 1984.

Lema, VZ (1996) - Conversaciones con Enrique Pichon-Rivière sobre el arte y la locura, 11a ed., Ediciones Cinco, Buenos Aires, 1996.

Pichon-Rivière, E. (1971) - O processo grupal, 5a ed., Martins Fontes, São Paulo, 1994.

 

Endereço para correspondência
Dênis Eduardo Bertini Bó
Rua Humaitá, 740 ap. 12
CEP 14020-680 - Ribeirão Preto - SP
E-mail: deyfe@highnet.com.br

 

 

1 Este trabalho serviu de base para apresentação em mesa redonda na IV Jornada da Spagesp ocorrida em Abril de 2000 em Ribeirão Preto.
2 Médico Psiquiatra, Coordenador do Programa de Saúde Mental da Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto e Médico Assistente do NAPS para Farmacodependentes.