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Revista da SPAGESP

versão impressa ISSN 1677-2970

Rev. SPAGESP v.5 n.5 Ribeirão Preto dez. 2004

 

ARTIGOS

 

A mortificação do eu: vivências psicológicas de idosos institucionalizados

 

Self-torment - living psychological experiences of old People in institutions

 

La mortificación del yo &– vivencias psicológicas De los ancianos institucionalizados

 

 

Maria Imaculada de Carvalho AnacletoI, 1; Adriana Straioto de SouzaII, 2; Geisa de AngelisII, 3; Marta de Paula PereiraII, 4.

I Sociedade de Psicoterapias Analíticas Grupais do Estado de São Paulo - SPAGESP
II Centro de Estudos de Psicoterapia em Grupo - CEPAG

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Neste trabalho faz-se uma reflexão sobre idosos institucionalizados através das vivências psicológicas em grupos terapêuticos. Percebe-se, com a vivência grupal, que a condição interna dessas pessoas está, muitas vezes, associadas às regras da instituição, sentimentos de abandono, dificuldade em lidar com a sexualidade e a proximidade da morte. Isto forma uma barreira entre os idosos e o mundo externo que favorece a mortificação do eu.

Pretende-se resgatar, através deste trabalho, a identidade do idoso com a promoção da interação entre os mesmos.

Palavras-chave: Mortificação do eu; Idosos institucionalizados; Grupos terapêuticos.


ABSTRACT

In this work we make a reflection about old people in institutions, by observing the way they live in situation of therapeutic groups.

We have noticed that internal situation of these people are mostly associated to internal rules of the institution, feelings of loss, difficulties in respect to their sexuality and the forth-coming of death.

We tried to rescue through this work the identity of old people by promoting interaction between them.

Keywords: Self-torment; Old people in institution; Therapeutic groups.


RESUMEN

En este trabajo se hace una reflexión acerca de los ancianos institucionalizados a través de las vivencias psicológicas en grupos terapéuticos. Nos dimos cuenta que la condición interna de estas personas está muchas veces, asociada a las reglas de la institución, sentimientos de abandono, dificultades en tratar con la sexualidad y la proximidad de la muerte.

Todo esto forma una barrera entre los ancianos y el mundo externo que favorece la mortificación del yo.

Se intenta rescatar, a través de este trabajo, la identidad del anciano con la promoción de la interacción entre los ancianos que hacen parte del grupo.

Palabras clave: Mortificación del yo; Ancianos institucionalizados; Grupos terapéuticos.


 

 

INTRODUÇÃO

Nossa experiência profissional em trabalhar com idosos institucionalizados, nos tem mostrado a desadaptação e o descaimento que lhes são impostos. Percebemos o quanto a velhice os obriga a atos de renúncia diante das novas situações vividas, levando-os a uma falta de confiança e esperança, que os tornam alienados e desmotivados perante a vida. Néri (2000, p.92) afirma que:

“Ao envelhecer, as pessoas se confrontam com novos desafios e novas exigências. As limitações físicas são acrescidas àquelas que a sociedade coloca, como os preconceitos e os estereótipos, e o grande desafio é construir permanentemente o próprio caminho e desenvolver atitudes que as levem a superar suas dificuldades, integrando limites e possibilidades de conquistar mais qualidade de vida”.

O velho tem de passar por situações de aprendizagem, muitas vezes, imposta pela situação social e física em que vive, tem de aprender a ajustar sua vida à perda do vigor físico, à redução salarial e à falta de controle do que lhe restou. Obriga-se a lidar com a ausência de seus familiares, a estabelecer relações sociais com pessoas da mesma idade, e às vezes em piores condições físicas. Além disso, necessita ajustar-se a um novo comportamento sexual, desenvolver uma adequada filosofia de vida que o prepare para enfrentar a morte (BEAUVOIR, 1976).

Em nossas observações, dentro da instituição em que trabalhamos, percebemos alguns fatores psicológicos, físicos e sociais que nos levaram ao interesse em atuar nessa lacuna, que fica entre a perda dos familiares e a adaptação na instituição asilar. Entre esses fatores, destacam-se os seguintes:

• perda da identidade;

• baixa auto-estima;

• diminuição de atividades físicas e até a completa inatividade,por problemas de saúde ou por falta de oportunidade de realizar pequenos exercícios físicos;

• perda da capacidade laborativa uma vez que não é permitida a realização de pequenas tarefas dentro da instituição;

• perda do controle de suas próprias finanças, visto que, não é facultado aos mesmos o controle de sua própria aposentadoria;

• distanciamento do mundo externo;

• poucas oportunidades de lazer.

Através desses itens, observamos que os idosos são carentes de atenção e têm grande dificuldade em lidar com suas perdas, e ao mesmo tempo resistência a novas situações. Sua tristeza parece traduzir o fato de não mais ser alguém e não poder contar com seus antigos companheiros. Isto os leva a viverem no passado, como se quisessem amenizar a angústia que sentem com a realidade. Ao se sentirem excluídos do meio social, afasta-se de atividades grupais.

Percebemos que isto forma uma barreira entre os idosos e o mundo externo que favorece a modificação do eu, e conseqüentemente a perda da identidade, da liberdade de escolha, levando-os a uma ruptura com papéis anteriormente vividos no meio social Goldfarb (1995, p.210) diz que “a velhice é a fase da vida em que as perdas adquirem maior magnitude, se perde a beleza física padronizada pelos modelos atuais, a saúde plena, o trabalho, os colegas de tantos anos, os amigos, o bem-estar econômico, e fundamentalmente, a extensão infinita do futuro”.

Não obstante o fato do idoso estar na instituição família ou instituição asilar, a presença da família nessa fase é de fundamental importância, pois com a diminuição progressiva da capacidade adaptativa, aumenta a dependência dos familiares, de seus cuidadores e amigos.

O abandono, o comprometimento dos vínculos familiares e o escasso número de visitas geram sentimentos de dor, tristeza, revolta e muitas vezes, a perda do sentido do sentido da vida e acreditamos que esses fatores sejam preponderantes para o aparecimento das depressões e o agravamento dos problemas de saúde em geral. De acordo com Néri (2002, p.12 e 13):

“As redes sociais de apoio permitem as pessoas crerem que são cuidadas, amadas e valorizadas, oferecem-lhes garantias de que pertencem a uma rede de relações comuns e mútuas, ajudam-nas a encontrar sentido nas experiências do desenvolvimento (...) auxiliam-nas a interpretar expectativas pessoais e grupais e a avaliar as próprias realizações e competências”.

 

TRABALHO GRUPAL COM IDOSOS

O trabalho grupal com os idosos institucionalizados tem como objetivo, a busca de caminhos menos dolorosos e complacentes em situações de internamentos. Assim, através da troca de idéias, histórias de vida, pensamentos e sentimentos compartilhados, pretende-se resgatar a identidade e promover a interação entre os idosos dentro da instituição.Neste sentido, Goldfarb (1998, p. 82) coloca que:

“O Eu é um projeto sempre inacabado, e para se preservar deve se reconhecer como uma parada, um ancorar, para isto devendo construir uma versão de sua história libidinal e identificatória que outorgue um sentido a seu viver e lhe permita operar com a realidade (...). Assim, dizemos que a reminiscência, com sua insistência histórica preserva a identificação. Voltando repetidamente aos pontos fundeados não se perde no esquecimento”.

A mesma autora acima citada fala que: “o que o Eu sabe é sua história, suas experiências de satisfação, seus fracassos e frustrações” (p.79). Desta forma, com o desenrolar das sessões alguns temas surgiram com maior freqüência, como por exemplo:

Perda da Saúde:

Sr. A. Eu tinha muita saúde, enfrentava boi brabo, sol a sol... agora tô aqui nessa cadeira, sem falar direito, sem movimentos, pareço um morto vivo...

Perda de Trabalho:

Sr. F. Trabalhei por esse Brasil a fora, fui camioneiro, enfrentei tudo que foi traste. Hoje ninguém me dá nada para fazer. Tenho 92 anos, só posso atender telefone...

Sra. S: Eu já fui cozinheira, fazia empada, torta, frango assado, pernil furado com cenoura e levava ao forno para assar... Já fui cozinheira e agora não sou mais(...) desde os dezesseis anos fui cozinhar. Agora não sei mais nada, parece que esqueci.

Abandono de Familiares:

Sra. A: Estou surda, sou solteira, tenho duas irmãs, uma por parte de mãe, que mora em São Paulo. Depois que estou aqui ela nunca veio... Acho que ela não sabe que eu estou aqui...

Sra. Ap. V: Tem dia que vem bastante gente. Enche de gente. Mas tem domingo que não vem quase ninguém. Mas a vida é assim, tem que se conformar, tem que agradecer a Deus, pois Ele cuida de todos nós. Ele que move o coração das pessoas para vir visitar, porque Deus é Glorioso.

Sexualidade:

Sra. M. Essa roupa nova que eu ganhei é pro forró. Eu vô bem bunita, porque tem homi bunito lá. Eles dançam cumigo. É bão.

Regras da instituição:

Sr. S. O cadeado no portão é por causa do fujão aqui. Oceis num tão sabendo não? Fugi, bebi, cai, durmi e a policia me trouxe aqui de vorta. Agora eles tão com medo de acontecê de novo. Eles tão certos.

Envelhecimento e morte:

Sra Ap. V:...Tanta coisa já aconteceu na vida.(...) tem a mocidade, depois casa, depois fica velha, é diferente (...) vai ficando cada vez pior. Eu lembro quando era menina, eu arriava o carinho, punha meu irmão no carrinho. Ai que glória! A gente quando é criança, tudo é gostoso.

Sra. S. Tudo isso é bobagem, (se referindo ao forró) num dá mais não, nois tá tudo morrendo. O SR. A. acho que é o próximo. O Sr.l J., Sr. Br., Sr.Joaq,. Já foram...Quem será o próximo?

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar da polêmica existente em relação às instituições que abrigam idosos, elas parecem ser um mal necessário diante das necessidades da sociedade atual. Neste sentido, cabe a nós profissionais da saúde mental, promover ações para melhoria da adaptação a esta situação e conseqüentemente, da qualidade de vida dos idosos institucionalizados.

Percebemos com a realização das sessões psicoterápicas, uma evolução do trabalho pelo vínculo de confiança que foi se estabelecendo entre os membros do grupo, terapeuta, co-terapeuta e observador. Esses vínculos passaram a ser para os elementos do grupo uma forma de segurança, apoio e compreensão, surgindo então sentimentos de pertença.

Aos poucos, percebíamos a necessidade de verbalizar de cada um dos integrantes e o grupo passou a ser um espaço para dividir as angústias, como também para melhor conhecer o outro. Muitas das dificuldades enfrentadas por eles eram comuns a todos, como abandono, perda de familiares, problemas de saúde, entre outros.

Através de relatos, cada participante pôde, de certa forma, resgatar sua identidade, validando sua história e sua vida, ou seja, reconstituindo o “Eu”. Observamos que houve maior interação entre os membros do grupo, através das trocas de idéias, pensamentos e sentimentos que foram compartilhados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEAUVOIR, S de. A velhice: a realidade incômoda. 2.ed. Rio de Janeiro-São Paulo: Difel/Difusão Editorial S.A., 1976.

GOLDFARB, D. C. A violência na velhice: magnitude e subjetivação. In: FERNANDES, B. S. e FERNANDES, W. J. (Orgs.). Anais: III Encontro luso-brasileiro de grupanálise e psicoterapia analítica de grupo, II Encontro luso-brasileiro de saúde mental e I Congresso de psicanálise das configurações vinculares. Guarujá: 1995 p. 209-211.

________.Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.

NERI, A. L. (org.) Cuidar de idosos no contexto da família: questões psicológicas e sociais. Campinas, SP: Editora Alínea, 2002.

NERI, A. L; FREIRE, S. A. (orgs.) E por falar em boa velhice. Campinas, SP: Papirus, 2000.

 

 

Endereço para correspondência
Maria Imaculada de Carvalho Anacleto
E-mail: anacleto@francanet.com.br

 

 

1 Psicóloga, Grupoanalista, Presidente do CEPAG-Franca, Secretária da SPAGESP, Membro Efetivo &– Fundador e docente da SPAGESP.
2 Psicóloga, Membro Efetivo do CEPAG-Franca.
3 Psicóloga, Membro Efetivo do CEPAG-Franca.
4 Psicóloga, Membro Efetivo do CEPAG-Franca.