Antigamente, a escolaridade era um fator decisivo para alcançar os melhores postos de trabalho, e os graduados transitavam facilmente da universidade para o mercado de trabalho. Cardoso (2019), ao analisar 40 anos de dados sobre escolaridade e inserção profissional (19762015), concluiu que as chances de inserção profissional dos mais qualificados têm se deteriorado. Enquanto em 1976 a maior escolaridade abria portas para as melhores ocupações, em 2006, e novamente em 2015, isso já não parecia ocorrer. Segundo o autor, isso é consequência de três principais vetores: o adiamento da entrada dos jovens no mercado de trabalho, o desemprego no início das trajetórias profissionais, a melhoria da escolaridade das novas gerações em um mercado de trabalho incapaz de oferecer ocupações compatíveis para boa parte dos qualificados, e o consequente aumento da competição pelas posições disponíveis.
Como consequência, a transição da universidade para o mercado de trabalho tem se tornado um processo mais complexo e prolongado, com graduados enfrentando a difícil tarefa de realizar as expectativas profissionais construídas durante a formação. A saída da universidade marca o início da construção de uma identidade profissional, em um mercado de trabalho com menos oportunidades (Cardoso, 2019; Corseuil, Franca e Poloponsky, 2020), e muitos acabam adiando seus projetos de vida e de trabalho, o que compromete as suas perspectivas de futuro (Alves, 2013). Assim, ao concluir a graduação, os jovens frequentemente encontram um descompasso entre suas aspirações e a realidade do mercado de trabalho, o que gera uma desconexão entre o que desejam ser profissionalmente e o que factualmente conseguem (Pochmann, 2004; D’Avila & Coutinho, 2019).
Diante das adversidades no mercado de trabalho, que incluem a falta de oportunidades, a concorrência entre graduados e a saturação em suas áreas de formação (Tibola & Raitz, 2022), o jovem aceita ocupações incompatíveis com sua formação, pela urgência de renda ou pela crença de que isso levará a melhores inserções profissionais (Albert, Davia & Legazpe, 2021). Em 2022, no Brasil, o número de trabalhadores com ensino superior cresceu em funções de baixa qualificação. Dos 749 mil graduados que ingressaram no mercado, apenas 160 mil assumiram cargos compatíveis. A maioria ocupou funções fora de sua área, com destaque para o aumento de 16,4% entre balconistas e vendedores de lojas e 6,8% entre vendedores a domicílio (Dieese, 2022). Reportagens jornalísticas evidenciam essa tendência preocupante, apontando que a incompatibilidade entre formação e trabalho tem se tornado cada vez mais comum dentre os jovens (Nunes, 2024).
Dessa forma, os jovens graduados iniciam e constroem suas trajetórias em condições aquém das expectativas, enfrentando dificuldades para se estabelecer em funções compatíveis com sua formação. Os afetos resultantes, como a frustração, por exemplo, fazem parte dos impactos subjetivos desse cenário, com implicações na maneira como significam e vivenciam o trabalho fora de suas áreas. Argumenta-se que essa dimensão subjetiva pode ser apreendida pela via dos sentidos e dos significados enredados (da significação) nessa experiência de quebra de expectativas ou ruptura. Diante desse contexto e da relevância de compreender como tem sido para os jovens o problema do trabalho fora da área de formação, o presente estudo teve como objetivo investigar os processos de significação envolvidos nas trajetórias laborais de cinco jovens graduados no ensino superior atuando profissionalmente fora de suas áreas de formação ou desempregados.
Os processos de significação
Entende-se por processos de significação a mobilização, produção e utilização de sentidos e significados pelos sujeitos, os quais os empregam em seus processos de comunicação e interação com os outros, consigo mesmos e com o ambiente (Bendassolli & Gondim, 2019). Cada sujeito está inserido em um contexto histórico, cultural e social específico, do qual emergem os repertórios linguísticos e cognitivos que utiliza para interpretar suas experiências e orientar suas ações. Para que sentidos e significados sejam mobilizados, produzidos e utilizados, é necessário que o sujeito entre em atividade, uma vez que a relação com o mundo nunca é direta, mas sempre mediada (Vigotski, 2024).
Os significados podem ser compreendidos como narrativas socialmente compartilhadas sobre objetos ou tópicos específicos, como o trabalho. Eles são estáveis, categóricos e orientam os membros de um grupo sobre como interpretar e lidar com a realidade. Por outro lado, os sentidos referem-se à apropriação e produção individual de significados. Diferentemente dos significados, os sentidos são limitados, instáveis e dinâmicos, pois emergem de processos de mediação simbólica entre os sujeitos e o contexto histórico e cultural. Enquanto os significados podem ser assimilados por meio da socialização em determinada cultura, os sentidos precisam ser criados, uma vez que não preexistem, mas surgem na ação humana contra as barreiras e resistências impostas pela realidade. O sentido é produzido porque essa ação ressoa nos sujeitos e em sua rede de afetos (Vigotski, 2024).
Essas barreiras e resistências podem configurar bloqueios de significação, que, segundo Bendassolli e Gondim (2019), são forças que se opõem às ações dos sujeitos. Nesse sentido, os autores afirmam que, diante de um bloqueio de significação, os sujeitos podem tanto superá-lo quanto desistir, sendo o desfecho determinado pela forma como o bloqueio é estruturado. Além disso, a capacidade de enfrentá-lo pode ser prejudicada quando ele não é reconhecido como um significado com potencial para criar sentido. Ou seja, os sujeitos podem percebê-lo como um obstáculo intransponível ou, ao contrário, como algo que pode ser contornado ou reinterpretado à medida que identificam novas possibilidades de ação.
O Modelo de Equifinalidade de Trajetória
O Modelo de Equifinalidade de Trajetória (Trajectory Equifinality Model - TEM) é uma ferramenta teórica e metodológica que permite organizar as experiências humanas no fluxo irreversível do tempo. Dessa forma, destaca os processos dinâmicos de construção de trajetórias à medida que se desenrolam (Zittoun & Valsiner, 2016; Valsiner, 2017). O TEM proporciona uma série de orientações e conceitos que permitem dar forma à complexidade das trajetórias humanas, do presente para o passado em vista a se pensar o futuro. Neste estudo, essa ferramenta foi utilizada por possibilitar a investigação dos processos de significação conforme o sujeito atribui sentido e organização às suas experiências.
A noção de trajetória está intrinsecamente relacionada à de equifinalidade, a qual sugere que um estado final comum e temporário em uma trajetória, o ponto de equifinalidade, pode ser alcançado por sujeitos que percorreram caminhos distintos (Sato et al., 2014). Por exemplo, jovens graduados de diferentes realidades e com percursos profissionais e educacionais variados podem, ainda assim, chegar ao mesmo destino: atuar fora de suas áreas de formação ou estar desempregados. No entanto, o ponto de equifinalidade não deve ser confundido com igualdade, pois esta é inviável em sistemas históricos. Ele corresponde, na verdade, a uma área de semelhança dentro dos diferentes percursos temporais das trajetórias (Sato, Fukuda & Hikada, 2009).
O modelo dos processos de significação considera que experiências de resistência, bloqueios ou mudanças inesperadas no curso da ação são momentos sensíveis para a investigação da significação. Assim, a utilização do TEM permite compreender os movimentos que conduziram à mudança, ao bloqueio e/ou à ruptura, possibilitando uma reflexão retrospectiva do sujeito voltada à projeção do futuro. Também permite identificar as ações, mobilizações e trajetórias adotadas pelos sujeitos diante de um bloqueio de significação, bem como suas implicações no processo de produção de sentido.
Traçar as trajetórias com os jovens em pesquisa foi considerada uma atividade mediada semioticamente, a qual mobiliza e produz sentidos e significados como uma atividade psicológica (Vigotski, 2024). Nessa perspectiva, partiu-se do pressuposto de que, ao interagirem com sua trajetória laboral, os jovens graduados recorreram à imaginação, à criatividade e aos sentidos e significados para encontrar formas de lidar com o bloqueio de significação relacionado ao trabalho fora da área de formação. Ou seja, eles recorreram tanto a recursos simbólicos e semióticos disponíveis (significados culturalmente herdados) quanto produziram novos sentidos.
Método
Participantes
Participaram do estudo cinco jovens graduados no ensino superior em uma universidade federal brasileira, com idades entre 24 e 29 anos. Formados em Psicologia, Ecologia, Ciências Biológicas, Química (licenciatura) e Pedagogia (licenciatura), esses jovens estavam desempregados ou atuando fora de suas áreas de formação. A Tabela 1 apresenta um resumo de suas principais características.
Tabela 1 Características dos participantes do estudo
| Nome | Idade | Cor/raça | Área de formação | Situação laboral |
|---|---|---|---|---|
| Luís | 28 | Preto | Química (licenciatura) | Estagiário na área de sua segunda graduação |
| Maria | 27 | Parda | Ecologia | Funcionária pública fora da área de formação |
| Cintia | 29 | Branca | Ciências Biológicas | Começou a participar da pesquisa como gerente de qualidade em uma empresa de telemarketing e concluiu sua participação desempregada |
| Sérgio | 27 | Branco | Psicologia | Começou a participar da pesquisa desempregado e concluiu sua participação atuando com atendimento ao público no setor de comércio |
| Anne | 24 | Parda | Pedagogia (licenciatura) | Estagiária na área de sua segunda graduação |
Os participantes foram selecionados por meio da Amostragem Historicamente Estruturada (Historically Structured Sampling - HSS), um método interdependente ao TEM (Sato et al., 2014). A HSS é um procedimento amostral não probabilístico utilizado para selecionar casos individuais com base em trajetórias, entendidas como uma sequência de pontos de passagem que culminam em um estado temporário comum, denominado ponto de equifinalidade. Dessa forma, selecionar participantes por meio da HSS implicou determinar um ponto de equifinalidade relevante para a pesquisa e identificar sujeitos que tenham alcançado essa zona comum de experiência (Sato, Hidaka & Fukuda, 2009).
No presente estudo, essa zona comum de experiência (isto é, o ponto de equifinalidade) foi a situação de o jovem graduado estar trabalhando fora de sua área de formação ou desempregado e desejar retornar a ela. Portanto, foram convidados a participar da pesquisa aqueles que, no momento da investigação, se encontravam nessa condição. Além disso, o desejo de retornar ou ingressar pela primeira vez na área de formação foi um critério importante de inclusão. Assim, era fundamental que se reconhecesse um problema nessa situação.
A seleção dos participantes foi conduzida da seguinte maneira: foi disponibilizado um questionário para os jovens egressos da universidade pública em que a pesquisa foi realizada com o objetivo de mapear suas situações de trabalho. O questionário permitiu identificar entre os respondentes quais estavam, no momento da resposta, trabalhando fora da área de formação ou desempregados. 123 jovens nessa situação foram convidados, por e-mail e telefone, a participar do estudo, e 36 demonstraram interesse. No entanto, 13 não atenderam aos critérios preestabelecidos, por exemplo, possuíam dupla formação e atuavam em uma das áreas, ou estavam cursando mestrado ou doutorado relacionado à formação obtida. Outros 15 não responderam ao contato, e três não concluíram o processo de participação. Assim, a pesquisa foi efetivamente realizada com cinco jovens.
Ferramenta
O TEM foi utilizado para traçar as trajetórias laborais rumo ao ponto de equifinalidade, funcionando como uma mediação entre o jovem (sujeito) e sua trajetória laboral (objeto). Essa abordagem se baseia na premissa de que a atividade resulta da interação sujeito-mediação-objeto (Vigotski, 2024), sendo um processo central nos mecanismos de significação. Dessa forma, sentidos e significados são resgatados, mobilizados e produzidos para dar sentido à trajetória e à situação vivida.
De maneira geral, a construção do TEM seguiu o guia de Sato e Tanimura (2016), com adaptações. Inicialmente, cada participante foi orientado a identificar o evento contingente mais significativo, ou seja, aquele que marcou o início de sua trajetória fora da área de formação e, de alguma forma, desviou-o do caminho esperado. Esse evento foi considerado o ponto de partida do recorte analisado de sua trajetória laboral, a partir do qual os demais acontecimentos se sucederam, configurando o percurso realizado até o ponto de equifinalidade.
Na sequência, foram incorporados à trajetória, entre outros elementos, os pontos de bifurcação (Sato et al., 2014) - momentos decisivos em que o jovem precisou escolher entre dois ou mais cursos de ação -, as trajetórias não realizadas (como possibilidades interrompidas ou caminhos impedidos) (Bastos, 2017) e as perspectivas de futuro após atingir o ponto de equifinalidade, com base nas interpretações e reinterpretações feitas ao longo da pesquisa. Nos resultados, serão apresentadas sínteses das trajetórias dos jovens participantes e esses elementos poderão ser identificados como, por exemplo, decisões importantes que foram tomadas ou alusões a caminhos não percorridos em suas trajetórias.
Procedimentos
A pesquisa consistiu em duas sessões de entrevistas em profundidade e remotas, via plataforma de videoconferência, com cada participante, com duração média de 1 hora e 30 minutos. Foram esclarecidos os cuidados éticos, incluindo o anonimato, o uso dos dados e a possibilidade de desistência a qualquer momento, além do processo de gravação para posterior transcrição. Somente após o consentimento dos participantes, as entrevistas, conduzidas pelo primeiro autor, foram iniciadas. A pesquisa foi devidamente aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (75841523.4.0000.5537). O tempo decorrido entre cada sessão foi de uma a uma semana e meia.
Na primeira sessão, o objetivo foi compreender a biografia laboral geral de cada participante. Para isso, foram utilizados os seguintes direcionamentos: 1. relate sua trajetória de trabalho, destacando os eventos mais importantes; 2. fale sobre você em relação à sua trajetória profissional; e 3. qual a importância do trabalho em sua vida?
Já na segunda sessão, o foco foi a construção das trajetórias (o TEM) em conjunto com o participante. A trajetória geral obtida na primeira sessão foi condensada, de modo a incluir apenas os eventos significativos para o ponto de equifinalidade, e, ao mesmo tempo, complexificada, com a adição de outros elementos, como os pontos de bifurcação e as trajetórias não realizadas, mencionadas anteriormente. O resultado foi a criação de um mapa visual semiótico, o TEM, representando visualmente a trajetória de cada participante. Esse processo envolveu tanto a revisão de elementos da entrevista anterior quanto a exploração de novas dimensões da trajetória laboral. Os mapas foram confeccionados em tempo real, conforme a narrativa e os direcionamentos dos participantes, com o suporte de um software especializado na produção de figuras. Eles podem ser consultados na íntegra no Apêndice 1 (https://osf.io/csmjq/?view_only=226413b5a6fe483282b3c5916f18c500).
Plano de análise
A análise foi realizada em duas etapas sequenciais. Primeiro, realizou-se uma análise vertical, caso a caso, estudando os mapas conforme o que comunicavam sobre a experiência individual de estar fora da área de formação. Foram identificados, no discurso dos participantes, por exemplo, afetos, dramas, dilemas, entre outros elementos, relacionados à experiência. Houve, assim, um aprofundamento de cada caso. Em seguida, a análise foi horizontalizada, comparando os casos. Considerando que os mapas visuais foram construídos seguindo os mesmos parâmetros, os da ferramenta utilizada, eles foram justaposicionados, comparados, com o objetivo de identificar consensos e dissensos entre as trajetórias, investigando o que o conteúdo produzido revelou sobre a experiência dos cinco jovens fora da área de formação.
Resultados
A seguir, serão apresentadas cinco sínteses das trajetórias dos jovens participantes, com base nos mapas visuais semióticos. Esse conteúdo, proveniente especialmente da análise vertical, representa os processos de significação de cada um.
Os casos
Caso 1 - Síntese da trajetória laboral de Luís
Luís, formado em Química, atualmente cursa Pedagogia como segunda graduação. Concluiu a graduação em 2020 e, durante a pandemia, iniciou um curso de Tecnologia da Informação (TI), mas abandonou-o após três meses para seguir Pedagogia. Sua trajetória laboral fora da área de formação começou ao perceber as dificuldades de inserção no mercado como professor de Química. Influenciado por sua visão específica sobre a educação e o papel do professor, desenvolvidas durante a graduação e o trabalho voluntário em um cursinho popular, ele decidiu buscar oportunidades fora do ensino privado, que considerava voltado apenas à transmissão de conteúdo para provas, sem espaço para debates maiores. Assim, descartou essa modalidade como opção de trabalho.
Diante disso, Luís precisou decidir entre buscar outras oportunidades de emprego, que não exigiam diploma, ou iniciar uma nova graduação. Optou pela segunda alternativa, pois acreditava que trabalho e profissão eram inseparáveis. Abandonar a profissão como eixo organizador de sua vida profissional não era viável, e ele via a Pedagogia como uma reconexão com o campo da educação e uma possibilidade de alcançar o magistério. Durante esse período, manteve-se como professor voluntário, prática que ajudava a mitigar os efeitos negativos dessa mudança de planos.
Inicialmente, Luís viu a Pedagogia como uma forma de aprimorar sua prática, mas logo percebeu que essa escolha representava uma transição de área. Seu objetivo sempre foi lecionar, então começou a imaginar-se como professor de Ciências, integrando sua formação original com as oportunidades da Pedagogia. Esse novo horizonte permitia-lhe abordar conceitos de Química, conciliando as duas áreas e alinhando seus valores educacionais à realidade.
O processo de significação de Luís foi marcado pelas tensões entre seu ideal de trabalho (um cargo público de professor de Química) e as limitações da realidade. Seu ideal estava ligado à sua formação original, à visão do papel do professor e à responsabilidade com os alunos, o que envolvia tanto o tipo de aula quanto a função da escola na formação dos estudantes. As estratégias encontradas por Luís, ou novos sentidos desenvolvidos ao longo da pesquisa e de sua trajetória fora da área, consistiram em redefinir a área, integrando ambas as formações e flexibilizando sua postura em relação ao ensino privado, com o qual passou a perceber haver escolas compatíveis com seus ideais. Embora não significasse um retorno pleno à Química, sua estratégia de uni-la à Pedagogia pelo ensino de Ciências representou uma importante saída para o bloqueio de significação e um direcionamento quanto ao futuro.
Caso 2 - Síntese da trajetória laboral de Maria
Maria, graduada em Ecologia, trabalha atualmente como educadora social e cursa um mestrado fora de sua área de formação. Sua trajetória laboral começou em 2018, quando foi convidada pela prefeitura de sua cidade para o cargo de educadora social, conciliando trabalho e graduação. Em 2019, foi aprovada em concurso público para a mesma função e agora busca concursos na área de Ecologia. A motivação inicial para trabalhar durante a graduação foi a busca por independência, devido às dificuldades financeiras de sua família. Antes do convite, já trabalhava como professora de reforço, com o mesmo objetivo de ajudar financeiramente.
Durante a graduação, a falta de estágios fora da universidade, em empresas, gerou uma lacuna em sua formação, resultando na falta de experiência em áreas importantes, como a consultoria ambiental. Isso a levou a considerar o emprego público como uma alternativa ao setor privado. Embora tenha realizado o sonho de se formar em Ecologia, questionou a viabilidade da área, dada a escassez de perspectivas profissionais, cogitando até ingressar em uma nova graduação. Por fim, optou por manter o cargo público de educadora social como uma alternativa segura, utilizando o salário para investir em qualificações, como a pós-graduação, visando melhorar seu currículo e aumentar as chances de aprovação em concursos.
Atualmente, Maria trilha dois caminhos: um como educadora social e outro entre a pós-graduação e os concursos na área ambiental. No futuro, planeja concluir o mestrado e continuar se preparando para concursos. Caso não alcance seus objetivos, considera manter o cargo atual ou seguir a carreira acadêmica, com um doutorado em Geografia, que a permitiria lecionar disciplinas relacionadas à Ecologia. Seu principal objetivo, no entanto, é realinhar-se à Ecologia em algum momento.
Pode-se perceber que antes de definir um campo de atuação, Maria já trabalhava. Inicialmente, o trabalho significava um meio para se tornar independente e ajudar os pais, mas, com o tempo, transformou-se em uma fonte de sustento provisória até que conseguisse um cargo público na sua área de formação. O que a impede de considerar o trabalho atual como fonte de realização profissional, por exemplo, é a falta de conexão com sua área. A tensão em sua trajetória está em seu cargo como educadora social, que, embora estável, não a completa, por ser fora da área.
Frente ao bloqueio de significação, Maria passou a afirmar seu trabalho atual como uma etapa temporária, um meio para alcançar o trabalho idealizado. Parte do bloqueio estava em sua percepção, que foi reavaliada, de que não estava fazendo o suficiente para alcançar seus objetivos. Nesse processo, ela usa elementos da área de Ecologia, como campanhas de conscientização ambiental, para manter sua conexão com a formação e sustentar sua identidade profissional como ecóloga, já que não atua diretamente na área desde a graduação.
Caso 3 - Síntese da trajetória laboral de Cíntia
Cíntia, graduada em Ciências Biológicas, concluiu a graduação em 2018 e, em 2020, finalizou o mestrado em Psicobiologia. Tentou, por um tempo, seguir a carreira acadêmica com o doutorado, mas foi reprovada três vezes. Após a primeira reprovação, considerando a pandemia, começou a trabalhar remotamente como atendente de telemarketing, uma solução temporária enquanto aguardava novas oportunidades para tentar novamente o doutorado, seu principal objetivo.
As reprovações afetaram profundamente sua autoestima e perspectivas de futuro, pois sempre associou o trabalho à pesquisa, seu foco desde a graduação e a principal razão de ter se afastado de outros campos, como as consultorias ambientais. Mais do que a área em si, era pela carreira acadêmica que Cíntia via o trabalho. Para ela, a carreira acadêmica era um caminho linear, com o doutorado como etapa essencial. A impossibilidade de ingressar nele causou não só um desvio profissional, mas também impactou seus projetos de vida, resultando em um bloqueio de significação.
O telemarketing representou um desvio em sua trajetória nas Ciências Biológicas, período em que cogitou até uma transição de área, principalmente para o campo da tecnologia, visto como mais promissor em termos de oportunidades. Embora o trabalho fosse cansativo, Cíntia se sentia confortável, especialmente pela possibilidade de trabalhar de casa. No entanto, essa relativa estabilidade foi abalada pelas demissões em sua equipe. Após ser desligada, recebeu uma oferta para retornar, mas, ao refletir sobre suas opções, decidiu seguir em frente, reforçando que o trabalho no telemarketing era apenas temporário.
A demissão exigiu reavaliações. Cíntia voltou a considerar o doutorado, mas desta vez com uma abordagem diferente. O nível de dedicação e tempo que antes eram exclusivamente voltados ao doutorado seria agora distribuído entre outras áreas da sua vida. Essa mudança teve um impacto significativo em seu bloqueio de significação, abrindo espaço para novas possibilidades, incluindo a integração de diferentes áreas e interesses. Além disso, a visão sobre o doutorado também se transformou, sendo agora encarado como mais uma forma de trabalho. Nesse processo, o afastamento da área de formação enfraqueceu sua posição central, sendo parcialmente substituída por outras esferas, como o tempo livre e os relacionamentos fora do ambiente de trabalho.
Caso 4 - Síntese da trajetória laboral de Sérgio
Sérgio, graduado em Psicologia, concluiu o curso em 2022. Após a graduação, tentou atuar como psicólogo organizacional, mas sem sucesso, apesar de possuir duas pós-graduações na área. Trabalhou em uma escola privada de cursos profissionalizantes no setor de orientação profissional, mas a vaga era informal e remunerada como estágio, embora fosse graduado. Também atuou como acompanhante terapêutico, mas a falta de vínculo empregatício e a ausência de identificação com o trabalho o levaram a deixar a função. Por fim, ingressou no telemarketing, marcando sua saída da área da Psicologia.
A primeira oportunidade com registro em carteira surgiu no telemarketing, uma função que não exigia formação universitária. Sérgio acreditava que essa experiência poderia levá-lo ao setor de Recursos Humanos da empresa, onde poderia atuar como psicólogo organizacional. No entanto, isso não aconteceu, e o trabalho no telemarketing foi o ponto inicial de ruptura com o trabalho idealizado que ele esperava alcançar com a graduação. A tensão aumentava pela comparação entre suas ocupações como psicólogo, que não ofereciam estabilidade e conforto, e o trabalho no telemarketing, que, embora distante de seus planos, oferecia pelo menos os direitos trabalhistas. O bloqueio de significação surgiu da frustração com um diploma que não proporcionava boas perspectivas profissionais.
A falta de oportunidades de ascensão no telemarketing fez com que Sérgio perdesse o interesse pelo trabalho, que passou a ser visto apenas como uma fonte de salário. Ele permaneceu no emprego para usufruir do plano de saúde, utilizando-o para realizar uma cirurgia no joelho. Após a recuperação, ficou afastado sem trabalho e sem renda. Durante a licença, aguardava o auxílio-doença, mas não o recebeu. Tentou estudar para concursos, mas não conseguiu se concentrar devido às dores da recuperação. Considerou atuar como psicólogo clínico, mas hesitou, temendo que a atividade fosse considerada trabalho e comprometesse o benefício, além dos custos da especialização necessária para ingressar nessa nova área.
O trabalho que sucedeu o telemarketing também prometia oportunidades de crescimento, mas não as concretizou. Durante esse período, tentou conciliar trabalho e estudos para concursos, mas sem sucesso. Sua trajetória passou a ser marcada por frustrações e angústias, e o trabalho deixou de representar um propósito.
Durante a pesquisa, Sérgio conseguiu um novo trabalho com atendimento ao público. Seu maior desafio tem sido administrar o tempo para estudar para concursos, sua principal prioridade no momento. Para ele, o serviço público representa a única oportunidade de obter um trabalho digno, com suas palavras, e uma remuneração que proporcione conforto. Diferentemente de outros participantes, Sérgio concluiu que estava mais próximo de abandonar sua área de formação do que de tentar retomá-la. O bloqueio não foi revisado, mas aceito, fazendo com que a Psicologia perdesse espaço em sua vida e fosse substituída pela busca por estabilidade.
Caso 5 - Síntese da trajetória laboral de Anne
Anne, graduada em Pedagogia, está cursando sua segunda graduação em História. Próxima da conclusão do primeiro curso, sentia-se insegura quanto ao mercado de trabalho, especialmente em sua área. Essa insegurança a tornou mais aberta a experiências fora da Pedagogia. Além de questionar sua capacidade como pedagoga, afastou-se da profissão devido a duas experiências frustrantes em escolas. Na primeira, seus horários não foram respeitados; na segunda, além da remuneração ser inferior ao salário mínimo, as funções não correspondiam às suas expectativas, pois não eram relacionadas à sua formação.
Esse sentimento a levou a aceitar um trabalho como atendente de telemarketing, que, assim como no caso de Sérgio, ofereceu melhores condições salariais e maior segurança. Além disso, o telemarketing representou um afastamento do campo de atuação de sua formação. Durante esse período, teve dificuldades para se engajar em novas oportunidades na área, descartou a ideia de fazer mestrado e não se matriculou em especializações, como havia planejado inicialmente. Foi nesse momento que decidiu iniciar uma segunda graduação em História.
Anne enxergou a segunda graduação como um recomeço, uma tentativa de construir uma trajetória mais segura, contrastando com seu sentimento de inadequação em relação à Pedagogia. Ao avaliar suas opções, optou por História, influenciada por uma historiadora que conheceu durante uma internação hospitalar. A hospitalização ocorreu devido ao desgaste físico e psicológico causado pela dificuldade de conciliar trabalho e estudo no telemarketing. Após essa experiência, Anne retomou os estudos com mais clareza sobre seus objetivos: pretende concluir a graduação, seguir para a pós-graduação e considerar concursos públicos.
O início da nova graduação proporcionou a Anne uma integração de áreas e interesses, ampliando suas perspectivas profissionais. A interseção entre Pedagogia e História despertou seu interesse pelo trabalho em museus, especialmente como guia, função que combina processos educativos com conhecimentos históricos. Anne tem ressignificado sua relação com sua área de formação, afastando-se das percepções negativas que tinha sobre si mesma como profissional. Isso a ajudou a superar o sentimento de inadequação, desenvolver maior confiança e encarar o futuro de maneira mais positiva. Para ela, a Pedagogia tem ganhado um novo sentido, relacionado menos a um cargo ou função específica e mais à possibilidade de participar dos processos educativos de outros, independentemente do contexto.
Discussão
As sínteses apresentadas refletem as narrativas produzidas pelos jovens participantes, resultado da atividade de construção de suas trajetórias laborais com o TEM. Nesse processo, os sentidos e significados foram utilizados como recursos semióticos para dar sentido às experiências de estarem fora de suas áreas de formação. Ou seja, a interação com suas próprias trajetórias, ao longo da pesquisa, os levou a interpretar e reinterpretar suas experiências profissionais. Essas elaborações foram compreendidas como sentidos construídos em relação a experiências de ruptura e mudança, momentos em que os significados anteriores, que antes orientavam suas ações, começaram a se esgotar. Esse esgotamento se manifestou nos bloqueios de significação, tornando necessário compreender as tensões, decisões, desvios e afetos que surgiram ao longo de suas trajetórias.
Na análise horizontal, foram identificados os elementos que orientaram os processos de significação, os quais emergiram à medida que o TEM foi sendo construído. A Figura 1 sintetiza esses elementos, oferecendo uma visão integrada do material das entrevistas e ilustrando as significações atribuídas aos momentos-chave de quebra de expectativas e ao bloqueio de significação vivido. Fatores promotores podem ser entendidos como narrativas produzidas em favor da manutenção da relevância da área para a experiência de trabalho dos participantes; fatores inibidores sendo, de forma contrária, as narrativas que representavam a possibilidade da perda dessa relevância ou mesmo o abandono da área.
A análise do material indicou que os significados de trabalho, área de formação, profissão, emprego, carreira e vocação foram determinantes nos processos de significação dos jovens, pois a relação com esses conceitos foi central para a produção de sentido e para a configuração de suas trajetórias. Para eles, a definição que eles forneciam ao trabalho estava diretamente vinculada à possibilidade (ou não) de atuar em suas áreas de formação, que estavam associadas ao uso do repertório técnico e cultural assimilado ao longo do período formativo; ou seja, atuar nela significava aplicar esse conhecimento no exercício profissional. No entanto, essa atuação não se limitava às habilidades técnicas, mas também envolvia expectativas, projetos e significados em relação à prática profissional, os quais foram sendo internalizados ao longo da trajetória educacional e laboral.
As narrativas apresentadas permitiram estabelecer um paralelo com o modelo tripartite de Schwartz (1994), que distingue três formas de relação com o trabalho: emprego, carreira e vocação (Job-Career-Calling distinction). Segundo o autor, a maioria dos trabalhadores percebe o trabalho a partir de uma dessas perspectivas. No marco teórico deste estudo, emprego, carreira e vocação foram internalizados pelos jovens como significados na dinâmica que moldou as suas relações com o trabalho, funcionando como referências importantes em seus processos de tomada de decisão diante das tensões e rupturas vivenciadas.
Em síntese, segundo Schwartz (1994), para aqueles que veem o trabalho como um emprego, o foco está no retorno financeiro. Nessa perspectiva, o trabalho é apenas um meio para alcançar outros objetivos, como mais tempo livre, e não um fim em si mesmo. Ambições e interesses pessoais não se refletem na atividade profissional. Já para aqueles que percebem o trabalho como uma carreira, há um maior investimento na profissão, valorizando não apenas a remuneração, mas também o crescimento dentro da hierarquia ocupacional ou da área de atuação. Por fim, para os que enxergam o trabalho como uma vocação, ele se torna uma parte essencial da vida. Nesses casos, a motivação não está no ganho financeiro ou no avanço profissional, mas na satisfação intrínseca que o trabalho proporciona.
Os cinco casos estudados revelaram que a relação dos jovens participantes com o trabalho era de carreira ou vocação, conforme a teoria mencionada, quando havia alinhamento com a área de formação. Quando esse alinhamento não foi possível, o trabalho passou a assumir um caráter predominantemente instrumental (emprego). Nos casos em que a relação com o trabalho se restringiu à necessidade de obtenção de renda para a subsistência, a área de formação tornou-se secundária. Nesses contextos, o trabalho adquiriu outras conotações, sendo, por exemplo, racionalizado como um aspecto não central na vida.
Percebe-se que a carga de significação atribuída pelos jovens à área de formação acrescentou outras dimensões à experiência de trabalho, que não se encaixavam na perspectiva do emprego. Um exemplo disso é a dimensão do sonho, presente nos processos de significação de Cíntia e Maria. Em uma relação estritamente de emprego, não há espaço para a realização de sonhos profissionais. Assim, a área foi um fator determinante para que os jovens estruturassem seus processos de significação com base em sentidos outros. Quando o trabalho estava relacionado com ela, seja como realidade ou projeto de futuro, a narrativa era, por exemplo, de fonte de realização pessoal e profissional, estabilidade, concretização de sonhos e até mesmo de oportunidade de contribuir para o bem-estar do próximo.
Os casos analisados também demonstram que, de modo geral, para os jovens participantes, era essencial haver algum alinhamento entre o trabalho realizado e o idealizado. Atuar na área de formação, por si só, não era suficiente caso as experiências profissionais não correspondessem às expectativas associadas a ela. Isso incluía aspectos como a remuneração abaixo do esperado, a falta de segurança jurídica, a ausência de demanda pelo uso do repertório técnico e cultural adquirido e a impossibilidade de fazer a diferença no trabalho. Dessa forma, era importante que a prática profissional se aproximasse, em algum nível, das expectativas iniciais que motivaram a escolha da profissão.
Exemplos disso são os casos de Anne e Sérgio. Ambos tiveram suas expectativas em relação à área de formação frustradas por uma realidade desmotivadora. Ao ingressarem em suas respectivas áreas, confrontaram a promessa de um trabalho seguro, com direitos trabalhistas, boa remuneração e potencial de realização profissional. No entanto, a área que simbolizava essas expectativas deixou de representá-las.
Além disso, após a formação, os participantes recorreram a hibridismos e estilizações para adaptar as concepções construídas ao longo de suas trajetórias, especialmente durante a universidade. Esses processos transformaram a área pura ou idealizada em uma mais dinâmica, que combinava diferentes interesses e experiências, abrindo novas possibilidades profissionais. O hibridismo entre áreas tornou-se uma estratégia compartilhada para lidar com os bloqueios de significação, ao integrar o campo de formação original com novos interesses e aptidões desenvolvidos após a graduação, alguns, inclusive, distantes da área inicial. Em todos os casos, essa abordagem foi essencial para redefinir os bloqueios gerados pela não concretização do trabalho idealizado, permitindo a construção de novas identidades profissionais e a ampliação das perspectivas futuras.
Dessa forma, os hibridismos e estilizações emergiram como elementos importantes na produção de sentidos diante dos bloqueios de significação. Destacaram-se como uma estratégia para preservar a conexão com a formação recebida e com as significações atribuídas ao trabalho na área original. Mais do que uma adaptação, tornaram-se um meio de conciliar novas possibilidades, representadas pelo trabalho em áreas híbridas, com as limitações impostas pela realidade da área pura.
Pode-se também observar que, durante o período investigado, as inserções profissionais dos jovens funcionaram como uma espécie de “armadilha”, nos termos de Albert et al. (2021). O conceito de armadilha (trap hypothesis) tem sido estudado em conjunto com o de trampolim (stepping-stone hypothesis) em pesquisas que buscam compreender se a passagem por ocupações fora da área de formação e incompatíveis com o nível de escolaridade obtido proporciona, posteriormente, ascensão profissional ou se, ao contrário, deixa uma marca negativa na trajetória, perpetuando um histórico de ocupações precárias (Albert et al., 2021).
O contato com ocupações fora de suas áreas de formação não resultou em oportunidades mais alinhadas às suas qualificações. Em alguns momentos, os jovens acreditaram que essas experiências poderiam abrir portas, mas isso não se concretizou. Sérgio, Cíntia e Anne, por exemplo, ao se afastarem de suas áreas, não conseguiram retornar. Maria sequer teve experiências profissionais na área, enquanto Luís atuou apenas como voluntário. Além disso, as oportunidades encontradas por Sérgio e Anne fora da área ofereciam vantagens, como melhores salários e direitos trabalhistas, intensificando a tensão entre permanecer nessas ocupações ou tentar atuar em suas áreas de formação.
As implicações disso para os jovens participantes foram além dos aspectos objetivos, como baixos salários, ausência de direitos trabalhistas e perspectivas limitadas de crescimento profissional. Envolveram também a frustração de não encontrar no trabalho aquilo que esperavam. Nesse contexto, a busca por uma posição estável, que garantisse segurança financeira e possibilitasse investir em melhores perspectivas, como a preparação para concursos públicos, tornou-se para eles uma prioridade.
O concurso público passou a ser percebido como uma estratégia para reorganizar a trajetória profissional e alcançar o trabalho idealizado. Para os jovens que ainda mantinham uma conexão estreita com a área de formação, ele foi visto como uma ponte para atingir suas aspirações profissionais. Já para aqueles cuja área perdeu a relevância original, o concurso público passou a representar a melhor alternativa disponível de inserção profissional.
Ribeiro (2023), ao discutir carreiras contemporâneas, contextualizou o momento atual no mundo do trabalho como um continuum com extremos definidos: de um lado, a estabilidade dos cargos públicos; de outro, a flexibilidade do empreendedorismo; e, por fim, a precariedade da informalidade. Para Alves (2013), os concursos públicos surgem como uma saída individual para os mais qualificados nesse cenário, assim como a busca por aprimoramento contínuo, representada pela pós-graduação. Essa estratégia, além de ser uma alternativa frequente diante do desemprego, responde à necessidade de melhor qualificação para acessar os postos de trabalho mais valorizados, restritos a uma parcela limitada da população.
Assim, os cinco casos analisados revelaram trajetórias laborais marcadas por incertezas, inconstâncias e inserções profissionais precárias, por vezes sem vínculo empregatício e desprotegidas, como documentado sobre a experiência juvenil no mercado de trabalho brasileiro (Corseuil et al., 2020; Guimarães, 2021). Esses casos foram representativos de uma juventude com a crença da promessa integradora do mercado de trabalho formal (Cardoso, 2019), em busca de melhores condições de vida e não apenas de um trabalho, mas de um trabalho com o qual pudessem se relacionar para além da mera execução de tarefas. Essa busca também inclui o investimento em aprimoramento contínuo, por meio do retorno aos estudos, seja com novas graduações, como no caso de Luís e Anne, ou pós-graduações, como fizeram Sérgio, Maria e Cíntia, na esperança de ampliar as chances de inserção profissional alinhada às suas qualificações e aspirações.
Considerações finais
O estudo permitiu identificar, nos casos investigados, a relação entre os significados de emprego, carreira e vocação, cada um vinculado a universos de significação específicos. Os jovens participantes recorreram a esses conceitos ora de forma isolada, ora integrada, evidenciando constantes tensionamentos. Esses tensionamentos decorrem, em grande parte, para esses jovens, da discrepância entre carreira, vocação e a realidade do mercado de trabalho. Por exemplo, jovens que viam o trabalho predominantemente como vocação enfrentavam conflitos mais intensos ao se deparar com um mercado que não correspondia às suas expectativas idealizadas. Além disso, os conflitos também estavam presentes no hiato entre emprego e profissão: os participantes frequentemente se viam em uma posição ambivalente, na qual exerciam um emprego necessário para a subsistência, mas que não incorporava os elementos desejados associados à profissão.
Além disso, a utilização do TEM na pesquisa evidenciou esses e outros tensionamentos que marcaram decisões cruciais nas trajetórias laborais investigadas, desempenhando um papel importante nos processos de significação. Desse modo, emergiram tanto sentimentos de paralisia diante do bloqueio de significação quanto a construção de novos sentidos. Isso ocorreu justamente devido à tensão entre opostos na vida profissional desses jovens, como o literal e o imaginado, o possível e o impossível, o desejado e o indesejado, o justo e o injusto, no contexto da área de formação.
O estudo também revelou que a forma como os jovens participantes enxergavam o trabalho estava diretamente ligada à (im)possibilidade de atuar em suas áreas de formação. A análise dos casos mostrou que essa área não se resumia ao repertório técnico e cultural adquirido na universidade, mas carregava uma carga de sentidos e significados próprios. Esse conjunto de significações agregava novas dimensões ao trabalho, de modo que a obtenção do diploma, em maior ou menor grau, transformou a relação dos jovens com suas trajetórias laborais, influenciando suas expectativas e aspirações.
Quanto às limitações de pesquisa encontradas, uma primeira diz respeito à definição do intervalo entre as sessões de entrevista, que variou de sete a onze dias; se demasiadamente curto, esse período pode causar repetição de conteúdo, e, se muito longo, pode levar ao esquecimento por parte dos participantes, o que sugere que um tempo intermediário seria mais adequado em estudos semelhantes. Outra limitação refere-se ao público-alvo: ao considerar apenas egressos de uma universidade pública, aspectos específicos dessas trajetórias, como maior envolvimento em atividades acadêmicas e a valorização da continuidade da formação, podem ter sido superdimensionados, em detrimento de outras experiências possivelmente mais presentes entre egressos de instituições privadas, por exemplo. Uma última limitação corresponde à não consideração, dentro das análises, do impacto da pandemia nas trajetórias, considerando a força do período pandêmico no mundo do trabalho, de um lado, e nas vidas das pessoas, de outro.
Cabe enfatizar, como perspectiva para novos estudos e para subsidiar ações no campo da Orientação Profissional (OP), o potencial de utilizar o Modelo de Equifinalidade de Trajetória como forma de possibilitar à pessoa um contato com eventos importantes de suas trajetórias de formação e trabalho, promovendo uma leitura reflexiva desses percursos. A ferramenta permite à pessoa colocar em perspectiva o momento presente, ampliando a compreensão de sua posição atual a partir do resgate do passado e da projeção do futuro, favorecendo processos de autoconhecimento, ressignificação e planejamento. De tal forma, ela contribui para se compreender a complexidade das trajetórias laborais e visualizar novos caminhos possíveis. Além disso, o estudo abordou temas que fazem parte da experiência juvenil diplomada e que trazem relevo às discussões em OP, como a transição da universidade para o trabalho e a relevância da área de formação para escolhas profissionais.















