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Mental

versão impressa ISSN 1679-4427

Mental v.5 n.8 Barbacena jun. 2007

 

ARTIGOS

 

Pode-se fazer um diagnóstico de pré-psicose? Ama questão preliminar ao diagnóstico de estrutura

 

Is it possible to diagnosticate the stage before pshycosis? A structure diagnosis's preliminary question

 

 

Piero FeliciottiI*; Carlo ViganòII, III**; Roseli Cordeiro Pereira (Tradução)

IScuola di Psicoterapia ICLeS - Itália
IIAssociação Mundial de Psicanálise - França
IIICausa Freudiana de Paris - França

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

No artigo é abordada a possibilidade de se fazer um diagnóstico de pré-psicose. Para tanto, apresenta a concepção lacaniana de estrutura psicótica, dando ênfase às noções de diagnóstico e transferência. Posteriormente, ressalta-se a evolução do pensamento lacaniano acerca do tema com vistas a descobrir novos instrumentos para o enfrentamento da situação de um sujeito cujo sintoma encontra-se pouco definido. Finalmente, enfatiza-se a importância de evidenciar a função de forclusão e suplência do Nome-do-Pai utilizando-se a noção lacaniana da estrutura do nó borromeano.

Palavras-chave: Psicanálise, Psicose, Diagnóstico, Estrutura.


ABSTRACT

In this article the author talks about the possibility of diagnosticating the stage before the psychosis. In order to do that, he presents the psychotic structure according to the Lacan's conception and emphasizes the notions of diagnosis and transference. After that, he stands out the Lacan thought's evolution about this subject in order to discover new instruments to face the situation in which there is a citizen with indefinite symptom. At last, the author shows the importance of pointing out the foreclosure function and the Name-of-the-Father's suplency, using the borromean knot Lacan's notion structure.

Keywords: Psychoanalysis, Psychosis, Diagnostics, Structure.


 

 

O termo pré-psicose não é de Lacan. E se nos anos do Seminário III - As psicoses (1955-56), ele faz referências ao debate em torno daquilo que precede a psicose, no curso do mundo psicanalítico, é propriamente para tomar distância de posições extremadas. Assim, disse Lacan: "Antes de nos perguntarmos como é a entrada e de fazer a história da Pre-psychotic Phase, antes de tomar as coisas no sentido da gênese, como sempre se faz, o que é fonte de confusões inexplicáveis [...]" (LACAN, 1985, p. 67-68), convém tomar novamente em consideração a construção do delírio na forma em que Freud propôs. Sua construção mostra que os fenômenos da psicose podem ser explicados se forem dados a eles as modificações de "elementos de um sistema construído em função das coordenadas da linguagem" (Ibid.).

Esse deslocamento de acento da psicogênese do delírio à lógica de sua construção nos aparece muito moderna e parece antecipar o propósito que guiou os extensores do DSM: definir o fenômeno sem ocupar-se das causas.1 Na realidade, Lacan é mais avançado e não diz: esqueçamos as causas em que somos muito divergentes em nossas opiniões e registremos os fatos, os índices sintomáticos. Se ele repele as hipóteses genéticas é porque o fenômeno psicótico lhe aparece claramente como efeito do peso que o significante tem na experiência humana, diferentemente do que ocorre com o animal (isso se o animal tiver uma experiência!). Quando nos convida a não nos deixar fascinar pela prospectiva da gênese, Lacan não tem em mente uma hipótese particular; é somente para articular o problema corretamente, isto é, a partir da relação do sujeito com o símbolo e, em particular, com o fato de que na originária introdução na dimensão simbólica existe a possibilidade de uma "Verwerfung primitiva, isto é, que não seja simbolizada qualquer coisa que se manifestará no real" (Ibid., p. 96).

Naturalmente não se trata de qualquer coisa que seja simplesmente um dado da percepção, mas de um objeto, algo que venha talhado fora da economia das satisfações e dos dados da percepção. Nenhuma possibilidade, portanto, de que os sintomas do eixo I do DSM (que ficam sobre o plano dos dados fenomenológicos, devido à sua tipicidade e sua recorrência) possam se constituir na última palavra sobre a natureza da psicose. No fundo, também os sonhos típicos tiveram para Freud a mesma consideração dos outros sonhos, a partir de sua natureza simbólica e, portanto, da estrutura própria do significante, que é a de representar um sujeito por outro significante e não a de representar um fragmento de realidade. Nem a chamada ao símbolo deve nos induzir a pensar que queremos introduzir aqui as considerações da ordem da etno-psiquiatria e colocar a loucura relacionada às estruturas culturais veiculadas pela linguagem. Vejamos, de forma contrária, como a prospectiva etno-psiquátrica, (da qual Lacan fala no L'envers de la psychanalyse (LACAN, 1992), pode constituir em um campo de aplicação da estrutura lacaniana da psicose. O contexto social não explica a estrutura da psicose, mas coloca os problemas em nível de diagnóstico.

"O que é o inicio de uma psicose? - pergunta-se Lacan - Uma psicose tem, como uma neurose, uma pré-história? Existe, ou não, uma psicose infantil?" (LACAN, 1985). Esse também é um tema da atualidade. A exemplo, alguns psiquiatras ingleses (COW et al), que se inspiram na filosofia da linguagem, têm observado que a infância de psicóticos adultos é sempre caracterizada por distúrbios da linguagem, pela dificuldade específica de aprendizagem da gramática e da sintaxe, documentada pelo currículo escolar.

Todavia, ao atentar para os fenômenos descritos por Schereber sobre o desenvolvimento de seu delírio, Lacan conclui que tudo leva a presumir a não existência de pré-história na psicose. Quando, na história de uma psicose, em determinadas condições, qualquer elemento que surja no mundo exterior e não tenha sido primitivamente simbolizado faz com que o sujeito se encontre absolutamente desprovido, incapaz de operar a partir do surgimento de uma denegação. "O que então se produz tem caráter de ser absolutamente excluído do compromisso simbolizante da neurose, e se traduz em um outro registro, com uma verdadeira reação em cadeia do imaginário (sic), isto é, na contra diagonal do nosso pequeno quadrado mágico" (Ibid.).2 O sujeito não tem condição de operar alguma mediação simbólica na relação com a realidade, aquela que Freud chama realidade psíquica, e entra em uma outra maneira de mediação, substituindo a mediação simbólica "um formigamento, uma proliferação imaginária nas quais se introduz, de um modo deformado e profundamente a-simbólico, o sinal central de uma mediação possível" (Ibid.).

É essa uma formulação muito pertinente e clinicamente irrepreensível do que Lacan chama crise e que é distinta da elaboração imaginária que, posteriormente, levará a estabilizar os sintomas psicóticos. Como exemplo, os dois episódios delirantes de Schreber: o primeiro, na seqüência do desejo irrealizado de ter filhos e o segundo, ocorrido após cinco anos, na época de sua nomeação para presidente da Corte de Apelação. Naqueles anos, sua vida era perfeitamente normal. Além disso, não foi com base nessas crises que se estabeleceu o diagnóstico de paranóia. Entretanto, reduz-se a crise (a posteriori, podemos chamá-la momento do desencadeamento) a uma concessão segundo a qual a psicose seria uma doença de desenvolvimento dissimulado, escondido. Como podemos valorizar a estrutura e, em particular, o problema de um diagnóstico precoce?

A pista que Lacan nos fornece é a de que qualquer coisa que seja colocada no real representa para o sujeito algo de si mesmo que nunca tenha sido simbolizado. Notamos ainda que é o estudo da psicose a fazer irromper o registro do real o que Freud sempre colocava como fator de ordem quantitativa que não permite exaurir a subjetividade no binômio imaginário-simbólico. Em particular, a dimensão do real nos levará a repensar, em termos diversos, o tema da pré-psicose não mais na pista de uma temporalidade linear, mas como o estado que precede o desencadeamento psicótico. E não só: a dimensão do real tirará o diagnóstico de psicose de certa dependência, do ponto de vista quantitativo, sempre presente em Freud sob a forma de perda total da realidade.

Ao examinar a estrutura do delírio, o estatuto da certeza que se gera aí, como distinto da crença neurótica, Lacan chega a colocar o dito como o elemento diferencial da psicose. Isso não resguarda a relação que o sujeito tem com as significações, com a dupla significante-significado: relação labiríntica e conectada com a história do sujeito, seja na psicose ou na neurose, mas relação do sujeito com o significante como tal. Na psicose, o significante não se localiza no Outro e, como conseqüência, não se encarna em outro sujeito no símile da inter-subjetividade (de fato, a relação com o símile, com o espelho, no psicótico, é sempre altamente problemática: o imaginário do psicótico tem formas monstruosas). A ação do significante não comporta identificações, mas se faz no real. Um significante significa, mas deixa o sujeito na perplexidade acerca do ponto de origem desse significado: quem quer dizer alguma coisa? Um órgão corpóreo, nenhum ou o Outro como tal? (no fundo, quem quer dizer é sempre o Outro, isto é, a história que já havia dito algo sobre o sujeito. Mas a relação com essa história é profundamente diferente para o psicótico, que tem sobre si a pesada tarefa de reconstruí-la, quase como se fosse o pai de si mesmo).

Em razão dessas premissas estruturais, que rigorosamente tendem a diferenciar a psicose da neurose, pareceria incompreensível a afirmação de que "Nada se assemelha tanto a uma sintomatologia neurótica quanto uma sintomatologia pré-psicótica" (LACAN, 1985). Mas não é assim; pelo contrário, a afirmação de Lacan tem uma lógica que nos propomos a explicitar, que comporta não só que o pré-psicótico não é neurótico. Para demonstrá-lo, não podemos nos contentar com fórmulas do tipo "o inconsciente é passado no mundo externo"; é preciso interrogar sobre o que é sintoma na psicose. Para fixar a atenção sobre as relações que nos interessa evidenciar, as do sujeito com o significante, e que podem nos dar indicações sobre a estrutura subjetiva, recordaremos que "É necessário conceber o significante, antes de tudo, como distinto da significação" (Ibid.).

Em ocasião da abertura da Seção Clínica de Paris, Lacan foi questionado sobre se também na psicose um significante representaria um sujeito para outro significante. Bem, não é esse o problema do psicótico (mas o é para nós e para nossa escolástica). O problema do psicótico é o significante não representativo, o significante como aquele que age, antes de tudo, fora da significação e, por isso, também da representação do sujeito3.

Consideraremos dois fragmentos clínicos, dois episódios de crises subjetivas e, portanto, de encontro com o real não simbolizado subjetivamente, em cujo séquito tem levado a diferentes diagnósticos.

Sofia, depois de uma briga com a amiga, enquanto voltava para casa, sentia suas frases retornarem à mente sem poder expulsá-las. O cachorro do vizinho, que sempre abanava para ela quando chegava, parecia-lhe diferente, escondido no escuro. Chovia. Sofia levava uma sombrinha, que devia protegê-la da chuva, mas diante do cachorro, sentiu-se perdida e tudo lhe pareceu diferente, nunca visto. O primeiro relâmpago foi para ela a luz de uma astronave que vinha prendê-la. Estava, ao mesmo tempo, em sua casa e no espaço, desligada do solo, presa no vazio, sentindo estar sozinha e desligada do mundo, em outros lugares, entre pessoas que não falavam sua língua e não compreendiam o que dizia.

Chiara, já no primeiro encontro, relatou com precisão como foi o início do processo. Encontrava-se na montanha, durante as férias de inverno, quando seu grupo de amigos foi dividido em dois subgrupos: o dos mais jovens, do qual fazia parte, e o dos mais velhos, que não queria a companhia dos mais jovens. Nesse último, estava sua melhor amiga, com a qual interrompe toda relação. De volta à cidade, passou a não se alimentar, mesmo sem necessitar de dieta. Não soube explicar o porquê de tal atitude, mas tinha a impressão de poder ter mais prazer... A mãe, preocupada, levou-a a uma dietóloga: ela se atém à dieta, mas quando pesa os ingredientes para se alimentar, sempre elimina algo.

 

Diagnóstico e transferência

A aparição de um significante novo, de uma nova estrutura nas relações entre os significantes de base, assume "um caráter devastador". Lacan coloca como "um núcleo irredutível" (LACAN,1985) na simbolização do sujeito essa falta de significante que interessa a relação edípica. Trata-se de um buraco e "Não existe nada mais perigoso que investir em um vazio" (Ibid., p. 238). Nesse caso, o sujeito não teve nenhuma possibilidade de se interrogar, de fazer questões; a questão se coloca primeiro, sem que o sujeito a tenha feito. Em outras palavras, na psicose, o momento de desencadeamento é estrutural e obriga o psicótico a uma antecipação lógica contínua (é o "Tróia" (Ibid., p. 59), que vem do Outro e pelo qual o sujeito se coloca no lugar do Outro. Ele se põe a reconstruir, a suportar o Outro que realiza nele a questão vivente. Esse colocar-se com o próprio ser no lugar do Outro pode se apresentar em vários níveis:

a) nível imaginário: assim o sujeito faz como o outro; aqui, a afirmação de Lacan sobre a semelhança entre neuróticos e aquela que só impropriamente podemos definir como pré-psicose;

b) nível simbólico: quando esse trabalho de imitação, esse esforço para manter-se longe do vazio não existe mais e incumbe o real do encontro ruim, a psicose floresce no delírio, que já há longo tempo estava implícito (como De Clérambault já havia colocado em evidência);

c) nível do semblante: seria a possibilidade mais feliz. O significante novo, inventado pelo psicótico, consegue dar certa curvatura ao real, muitas vezes no contexto da criação literária, artística ou científica, impondo-se no social.

Lacan nos recorda um exemplo desse encontro com o real, trazendo-o das suas apresentações do paciente:

Recorda aquele pequeno sujeito que evidentemente parecia, a nós, muito lúcido. Visto de que modo cresceu e havia prosperado na existência, em meio à anarquia, só um pouco mais visível que os outros, da sua situação familiar, era agarrado a um amigo, que havia tornado o ponto fundamental na sua existência e improvisadamente aconteceu alguma coisa e não era capaz de explicar o que. Concluímos que isto se referia à aparição da namorada do parceiro e hoje completamos dizendo que ele sentiu este fato como incestuoso, donde a defesa [...]. Este bravo jovem havia compreendido muito menos que nós. Colocava obstáculo frente a qualquer coisa e lhe faltava toda a chave, meteu-se no leito por três meses, para reencontrar-se. Era a própria perplexidade (Ibid., p. 238-239).

Ele acrescenta que um mínimo de sensibilidade nos faz tocar em algo "que se encontra sempre naquela que é chamada pré-psicose". E aqui não se trata de imaginar o que pode se passar pela cabeça de um sujeito que se encontra diante do vazio, mas de traduzir a razão disso4. Se o banquinho sobre o qual se apoia nossa solitária existência na multidão moderna é reduzido a ter só três pernas, e o sujeito se confronta, em uma encruzilhada da vida, com a falta de uma das pernas do banquinho, não se pode dizer que consegue estar sentado ali. Para Sofia, a falta de significante colocou em jogo o conjunto dos significantes, as relações que entre eles eram estabelecidas precedentemente. O mesmo não aconteceu com Chiara, que, ao evitar engordar, poderia ganhar novamente a posição no grupo. Isso é suficiente para se fazer um diagnóstico de histeria?

Sabemos o quanto um diagnóstico diferencial entre neurose e psicose é importante para decidir a condução do tratamento. O analista, porém, não se contenta com uma hipótese diagnóstica como faria um psiquiatra; ele é mais exigente e conduz as entrevistas preliminares. O que interessa é a existência de um sintoma que o sujeito possa colocar sob transferência. Em outras palavras, o analista parte da suposição dessa letra de gozo que o psicótico inventou, para que, na transferência, ela possa fazer cadeia.

Ainda que Sofia tenha sido vista em um serviço psiquiátrico, e Chiara tenha sido conduzida pela mãe ao serviço privado, em ambos os casos não existe um sintoma que, para o sujeito, faça demanda ao analista. Porém, em ambos os casos, as jovens desejam falar do que se passa com elas. Pode-se talvez afirmar que não existe uma demanda de análise subjetivável... Já Michel Silvestre afirmava a existência de psicóticos que procuram por analistas em número nem maior nem menor que as anoréxicas. Assim, seria mais justo dizer que as duas mulheres desejavam subjetivar o que lhes acontecia, isto é, construir qualquer coisa que organizasse melhor o gozo, enquanto não faziam as próprias produções. Se não fosse assim, não procurariam tratamento. O que importa é o analista atuar para se tornar interlocutor de modo que, aprés coup, nas entrevistas preliminares, uma demanda possa tomar forma.

Dessa forma, o problema se desloca todo sobre a condução das entrevistas, porque diagnóstico e sintoma se realizam sob transferência, tanto na neurose quanto na psicose. Assim, independentemente da estrutura, a questão é saber como construir um sintoma que seja capaz de interrogar o sujeito em nível de inconsciente, como operar uma retificação subjetiva. Nessa ótica, a categoria de pré-psicose é a de obstáculo lógico, mais do que de ajuda. Diferentemente, o tratamento viria decidido unicamente pelo contexto, e Sofia seria conduzida a fazer um bom exame da realidade, a reencontrar o fio de seu discurso de modo que evitasse o dever de inventar nova língua, por meio do reforço de certas identificações precedentes, com o convite implícito de colocar à parte a horrível experiência da crise. Chiara, ao contrário, seria escutada, em busca de qualquer coisa que interrogasse seu tornar-se mulher, o que daria à anorexia o valor de um grito que nós tratamos como apelo ao Outro, ao pai.

 

A evolução da busca de Lacan

Retomemos o percurso da busca Lacaniana, porque isso nos conduz a descobrir novos instrumentos para afrontar a situação de um sujeito cujo sintoma ainda esteja pouco definido, pelo menos na relação com o Outro do significante. Com o escrito Uma questão preliminar a cada possível tratamento da psicose (1998), Lacan dá um salto epistemológico em relação ao Seminário III e da à falta de um significante fundamental um estatuto lógico: a forclusão do Nome-do-Pai. Esse é um conceito que se separa da fenomenologia observável e, portanto, coloca as dificuldades como instrumento para o diagnóstico. O Nome-do-Pai é aquele significante que constitui a chave de volta (lacanianamente, o ponto de capiton) para toda operação metafórica, enquanto fornece ao sujeito aquele lugar vazio na cadeia significante. Tal lugar permite as operações de substituição e condensação; vale dizer, a significação do falo. é um significante totalmente assemântico, não significa nada e, por isso, presta-se a conectar entre eles as significações. Pode colocá-lo em rede enquanto representa o vazio que o significante, como tal, introduz na vida humana (a morte da Coisa como destino da pulsão). Ao mesmo tempo, isso permite defender-se mediante substituições significantes, recalque e retorno do recalcado. É como no jogo do quinze: os deslocamentos da trama são possíveis só se existir uma casa vazia.

Na psicose, portanto, a cadeia é bloqueada; o sujeito encontra-se em uma alienação que é absoluta diante do Outro, da qual não se separa um S1 que o represente. Como se vê, essa é uma definição estrutural, que contrasta com outra afirmação de Lacan (feita na sede da Seção Clínica, no dia de sua inauguração) na qual também na paranóia um significante representa um sujeito para outro significante. O fato é que na neurose o sintoma foi, até certo ponto, pensado exclusivamente segundo o paradigma exaustivo do recalque, portanto como metáfora; ao contrário, ele é o próprio tema da pré-psicose a nos mostrar que o paradigma de uma forclusão da metáfora (que corresponde à freudiana perda total da realidade) deixa um enigma a propósito do sintoma5.

Para buscar a solução desse enigma, Lacan, só no campo da psicanálise, seguiu uma estrada diferente daquela de fazer do impasse uma categoria nosográfica, o borderline, isto é, de fazer sintoma o não-sintoma. É uma via que, como veremos, permite recuperar uma versão do sintoma absolutamente freudiana, aquilo de uma fixação, de um agarramento indestrutível a uma forma de gozo que é, atualmente, produção de uma suplência subjetiva.

As etapas que levam a essa nova solução são, fundamentalmente, três:

1- O Seminário XI, em sua primeira lição sobre "Os nomes do pai". Tal lição permaneceu inédita porque, nesse meio tempo, a separação da IPA determinou mudança de prioridade. Se o Nome-do-Pai pode encontrar uma suplência (como indica o plural), quero dizer que a forclusão não é um mecanismo para pensar em termos absolutos; o ideal é que a compensação da qual Lacan falava no Seminário III não fosse só imaginária (identificação com a imagem do amigo, a compensação identificatória da qual fala na página 230), mas pode comportar certa reparação do simbólico;

2- a segunda etapa é o Seminário XVII, no qual Lacan consegue unificar pulsão, fantasma e vínculo social em uma única escritura, a dos matemas do discurso. Não nos esqueçamos de que foi a partir da lógica dos discursos que Lacan teve a inspiração de fundar uma Section clinique para transmitir o saber do analista no discurso clínico. O instrumento lógico dos discursos permitia a Lacan fazer um enlaçamento entre política e clínica e demonstrar como esses redistribuíram os postos na revolução do discurso universitário ao institucional. Era também a articulação que não se conseguia fazer na anti-psiquiatria; portanto, a ética da psicanálise, ao contrário da ética do sacrifício ou da luta (de Basaglia), permitia dar espaço ao que emerge na contingência da particularidade do sujeito psicótico;

3- enfim, a clínica do nó borromeo dará a Lacan a oportunidade de reformular a teoria do sintoma, elaborando, ali, um tipo de teoria ampliada, na qual faz da suplência do Nome-do-Pai o ponto de reparação de um defeito de simbolização. Isso abre a estrada para um diagnóstico diferencial, que pode prescindir da demonstração de um sintoma como mensagem6 e evitar, ao mesmo tempo, a operação ambígua de inventar novos sintomas do tipo psicose do órgão ou distúrbios de personalidade (que lido como o aforisma lacaniano segundo o qual a personalidade é a paranóia, o que faria dessa última um tipo de ideal implícito).

 

Teoria do sintoma

É importante sublinhar neste ponto que o progresso de Lacan na elaboração de uma teoria ampliada do sintoma nos abre possibilidades:

- individualizar uma estrutura comum para fenômenos como anorexia, toxicomania, alcoolismo, bulimia, psicossomática, depressão, pânico e também aquele que vem sendo chamado pré-psicose sem, no entanto, recorrer ao conceito de borderline ou de distúrbios de personalidade. Fato importante, não só porque tais conceitos foram elaborados em uma ótica genético-evolutiva (e, portanto, fora da orientação estrutural) e nem tanto porque a personalidade para Lacan é, como se dizia, a paranóia, mas sobretudo porque esses conceitos evitam, até o fim, a questão de uma clínica e de um diagnóstico sob transferência (que resguarda a particular cifra produzida pelo sujeito). Eles tendem a reconduzir a clínica psicanalítica para o lado de uma clínica do comportamento, da objetividade médico-diagnóstica e porque, ao dessubjetivar a patologia e a resposta do Outro, fazem referência a um sujeito constituído, mais que constituinte.

Mas não há dúvidas de que essas patologias pedem uma nova teoria do sintoma, e não só para os lacanianos, a julgar pelas expressões como psicossomática, psicose de órgão, patologias narcisistas e outras. Deparamo-nos com comportamentos que não dão lugar a uma demanda de tratamento clássico e em cujo sujeito não procura uma interpretação: esses não têm a estrutura da mensagem que nos interrogue no lugar do Outro. São, antes, respostas do Outro, qualquer coisa que o sujeito encontre sobre o seu caminho na vida social, até o ponto em que somos levados a dizer que tais fenômenos estão fora do discurso, fora daquilo que, no Outro, responde à estrutura significante. Isso implica, portanto, revirar a teoria do sintoma e do inconsciente e reconsiderá-la do ponto de vista daquilo que (no sintoma e no inconsciente) não responde no significante. Isso é do ponto de vista da pulsão. É uma teoria que põe no centro o problema do gozo e não as formações do inconsciente.

Podemos dizer que no último Lacan, a concepção do sintoma se aproxima de um modelo psicótico. Jacques-Alain Miller, nos Seminários de 96 e 97, tende a tomar, como modelo dessa forma de sintoma, o sintoma obsessivo.7 Isso é a conseqüência do fato de que o Outro vem caracterizar-se por uma falta estrutural e não contingente: não existe significante do gozo. A forclusão originária torna-se estrutural: no Outro não tem o significante que possa dizer o gozo, e o Nome-do-Pai torna-se externo ao Outro. Assim, o falo é o significante do desejo, mas só enquanto torna-se significante de um manque-à-jouir.

Nessa ótica, o sintoma, todo sintoma, torna-se uma suplência: toda formação humana é um modo de frear, de organizar o gozo, a pulsão de morte. O sintoma torna-se a forma que o sujeito encontra para lidar com a incompletude do significante. Existe quem passe para o recalque, o neurótico. E, então, o fantasma torna-se o modo de ter sob controle o desejo do Outro, mediante um objeto que o sujeito crê ter em mãos e que condensa do gozo recuperável, privado. Existem outras maneiras de apropriar-se do gozo, de introduzi-lo em uma dialética de alienação - separação e aqui os novos fenômenos da patologia se aproximam da psicose.

O sintoma é, portanto, do gozo que vem fixado por uma função simbólica: F(x). Vejamos como essa função pode ser pensada quando supre o Nome-do-Pai edípico: é uma letra, isto é, um significante só, já que não funciona a metáfora e, por isso, o Outro é saltado como cadeia significante: um significante assemântico, com o qual o sujeito faz frente ao gozo, transformando-o em letra de gozo. É uma estrutura que evoca a da Holofrase: S1 - S2 se grudam, fazem um e isso fixa o gozo, mas fora do discurso. Poderia se escrever S1 - a. Por isso a interpretação não funciona, pelo menos no modo clássico.

Assim, antes que a estrutura subjetiva seja decidida no Outro, ou melhor, para que "a insondável decisão do ser" (1998, p. 117) não venha ratificada no lugar do Outro, o sintoma torna-se o modo com o qual cada um pode gozar do próprio inconsciente, fazendo do sintoma o próprio parceiro: sempre que existe sintoma existe vida! Isto é, há negativização e fixação do gozo, pausa da pulsão de morte. Só que o sintoma como forma de gozar do inconsciente não demanda nada a ninguém porque, se existe demanda, conclui-se que exista perda de gozo. Lacan o antecipava no Seminário III, ao citar um caso de apresentação de enfermos: "Existe uma outra forma de defesa no que diz respeito a provocada por uma tendência ou por um significado proibido. É a defesa que consiste em não aproximar-se ao ponto do qual não existe resposta para a questão" (LACAN, 1985, p. 238).

Suponhamos que um semelhante S1 não seja o Nome-do-Pai (que vem sempre com o S2), mas um traço unário que tem a identificação, certamente, de modo instável. Poderia se dizer que é uma função exclusivamente simbólica: pai simbólico só enquanto morto, P0. Instância não castrada e não castrável, que pode também se chamar Super-eu, a entendê-lo Kleinianamente, um elemento discreto e fora do discurso. Efetivamente, essa nova articulação do sintoma, a que tínhamos chamado modelo psicótico do sintoma, tem como sustentação uma nova definição da função do pai. Esse S1, traço de identificação ideal, pode-se aproximar da identificação narcísica com a Coisa, que, como recorda Laurent, é o regime de identificação típico da melancolia (LP, nº 9). Pode-se também encontrá-lo na histeria, quando o pai vem idealizado como pai morto: "É um título, como ex-combatente" (Seminário XVIII, p.108). O retorno do gozo captura a modalidade da Coisa que cai sobre o eu; a pulsão se concentra toda na identificação ideal.

O que introduz a diferença e assinala a possibilidade de entrada no discurso (e, portanto, a saída da depressão) é preferivelmente o pai real, o que dá a pére-version: real nas duas direções, a do pai em carne e osso enquanto agente, instrumento da castração (Cfr. LACAN, 1992, p. 146) e aquele do real que tem no pai o seu gozo.

 

Teoria da clínica

Essa é a nova concepção de sintoma e suas conseqüências do diagnóstico. Com respeito à habitual (ao menos no âmbito lacaniano) oposição estrutural neurose/psicose, ora uma, ora outra conquista valor: a oposição letra/discurso. Essa não elimina a primeira, mas a estabelece. De que modo as três estruturas subjetivas entram no discurso e, eventualmente, em qual discurso? A psicose, que é fora do discurso do Mestre, pode entrar no do analista ou pode-se só manter em equilíbrio com uma suplência (ou com as passagens ao ato no social ou com as identificações)? Pode-se afirmar que as suplências (entre as quais retorna o sinthomo para Joyce) colocam em ato o que Lacan, no Seminário XVII, chama discursos insustentáveis?8

Lacan faz referência à matemática, que "não se pode construir se não a partir do fato que o significante possa significar a si mesmo" (LACAN, 1992, p.103). Analogamente, os discursos insustentáveis exprimem a tentativa (sintomática) do sujeito de proteger-se do postulado segundo o qual um significante não pode significar a si mesmo, isto é, o impossível no qual consiste a castração. O compromisso sintomático não se realiza no nível da significação e graças a ela, por deslocamento de significantes, mas no nível do vínculo social. O impossível de suportar não vem manipulado via falsas ligações significantes por ser, ao contrário, eliminado com um jogo de prestígio. As identificações imaginárias, as especularizações, ao serem manipuladas, levam a uma estrutura do discurso na qual o lugar da verdade (embaixo à esquerda) aparece esvaziado do matema que o ocupa, o qual à sua volta vai holofrazizar-se no lugar de comando (no alto à esquerda). Assim, a anoréxica, ao tomar o nada como objeto a, pode chegar a colocar no lugar da verdade o vazio e a identificar-se como aquele nada em uma deformação insustentável do discurso histérico.

A lei fundamental do significante não está, portanto, nas mãos de um sujeito cuja existência vem sempre direta. Isso, além de tornar insustentável, em nível social, a identificação anoréxica (que no social faz sintoma), fornece-nos a indicação para intervir, em nível de direção de tratamento, no que será levado a escolher a holofrase discursiva. Compreende-se, a exemplo, a utilidade dessa nova concepção do sintoma em patologias ditas como borderline, os adolescentes, os psicóticos ou pré-psicóticos e, em geral, no trabalho institucional, isto é, em todas as situações nas quais o sujeito apresenta identificações que não são discursivas, ou porque o discurso do Outro está fixado em uma holofrase, ou porque é passado na realidade do discurso social.

São duas situações diferentes. A primeira coloca o problema, que é de natureza ética. Colocam-se as barreiras à eventualidade da passagem ao ato ou do desencadeamento psicótico, ou constrói-se um lugar de acompanhamento que o possa acolher, de modo a fazê-lo jogar discursivamente. A segunda, como a fixação em um gozo regressivo, a exemplo bulímico, coloca a alternativa entre interpretar e, portanto, reforçar o sintoma ou coloca o sujeito em condição de falar do outro, propondo-lhe a experiência do pequeno grupo no qual pode emergir a diferença subjetiva.

Em ambos os casos não existe perda de gozo, mas tentativa de circunscrevê-lo em um discurso. A letra que opera essa fixação pode ser inscrita no corpo de forma mais ou menos intensa. Com esses sujeitos é necessário, então, operar uma leitura, uma escanção dos traços e da vida cotidiana, na procura das identificações das crises e das passagens ao ato, para construir o lugar, ainda que puramente virtual, de sua verdade subjetiva. É esse um trabalho preliminar que coloca em jogo um S1 distinto daquele que fez corpo com o sujeito em uma letra de gozo que o identifica nominando-o. A via para conectar a letra a um discurso não é, portanto, aberta pelo interrogativo e pelo enigma no qual se encontra o saber (S2) em posição inalcançável, em baixo, à direita, sem relações de impossibilidade com a verdade. Deverá ser um ato que permita ao sujeito interrogar-se sobre o saber, de uma nova maneira, a partir desse S1 e que, por ora, nos limitamos a definir como a autoridade clínica colocada em campo pelo desejo do analista.

Iremos ilustrar esse processo de instauração da transferência com uma vinheta clínica que os operadores do Anteme 110 de Bruxelas contam. Os educadores se dão conta de que um rapaz fugiu da comunidade. Perguntam-se sobre o que fazer e conversam com o responsável terapêutico. Discutem e decidem procurá-lo na cidade, sem, no entanto, nada fazer para levá-lo de lá. Dois educadores o encontram, o cumprimentam, oferecem-lhe um sorvete e, depois, retornam ao Antenne. À noite o rapaz retorna à casa. Esse episódio assinala uma escanção na relação com os educadores e a comunidade. A certeza de que o queriam preso, ali dentro, é substituída por uma interrogação sobre o que queriam dele; o desejo do Outro fez de seu comparsa fora da fixação superegóica que havia permeado sua existência.

Essas tentativas de fazer entrar o sujeito no discurso, muitas vezes, requerem trabalho em outros níveis, para introduzir as escanções no interior de uma codificação social para as quais têm contribuído a família e as instituições sociais. São escanções de tempo lógico, que podem se transformar nas múltiplas transferências nas quais o sujeito é preso. Um leitor é quem provoca a escolha da sua holofrasização, provocando uma série de movimentos do mesmo sujeito. Isso só torna-se possível pela colaboração ou pelo confronto entre os operadores, que podem adotar técnicas diversas ou que têm uma idéia precisa da psicanálise. Por isso é oportuno operar com um diagnóstico que é também transclínico e que parte do ponto de vista de como o sujeito está no trabalho, antes de cada questão, para fazer suplência com os próprios sintomas e lidar com o gozo. É, porém, um diagnóstico sob transferência, sob Outro, enquanto pressupõe que isso seja colocado na ótica da construção analítica.

Esse modo de entender o diagnóstico demonstra como o diagnóstico de estrutura subjetiva, muitas vezes, tinha o sabor do diagnóstico clássico, isto é, era visto como espécie de pronunciamento sobre o estado do sujeito que tem efeitos de segregação. Conceber, ao contrário, um diagnóstico em termos de discurso quer dizer, no fundo, esconder a leitura do momento de subjetivação (porque ninguém é toxicômano ou anoréxico vinte e quatro horas por dia), o que poderia se chamar diagnóstico dinâmico.

Não devemos nos esquecer de que a crítica de Lacan à sua própria concepção de intersubjetividade (aquela baseada sobre o esquema L) é conseqüente à colocação em evidência da estrutura do fantasma, que, em seu funcionamento, coloca à sua volta em discussão, que seja uma palavra plena, também no caso da neurose. O isolamento da letra, a construção do caso que se faz no trabalho à plusieurs, nada tem a ver com a idéia de que se trata de uma palavra plena. Mas o diagnóstico é sob transferência também por outro motivo. Nessa concepção do sintoma e do inconsciente como forma de tirar e de fixar um gozo, a interpretação é de parte do inconsciente do sujeito; entretanto, da parte do operador existe o ato. O ato do operador ou do terapeuta é o que leva o inconsciente a mover-se, que o leva ao trabalho para o qual o diagnóstico é sempre o resultado aprés-coup do ato; é precisamente um evento dialético que traz à luz o modo no qual o sujeito responde ao Outro. Poderíamos nos referir às neuroses atuais de Freud e ler a teoria do trauma à luz do tempo lógico, reformulado por Lacan como "Um mais a" (LACAN, 1975, p. 49).

Em suma, na pré-psicose, como nas demais patologias conhecidas por borderline, coloca-se em evidência que a possibilidade de diagnóstico é secundária à entrada do sujeito no discurso, que isso é o limite, uma prerrogativa do discurso humano. A tarefa dessa entrada, nesses casos, é confiada à oferta de um desejo que nasce em um discurso diferente daquele da normatividade edípica, o do analista. Se o universitário tem para oferecer o seu DSM, e a histérica, o seu amor humanitário, o analista se endereça para um sujeito segregado nas suas formas de gozo para fazer vacilar a letra do gozo, aquele (a) S (barrado) que holofrasiza o discurso do sujeito, para dar início a um movimento qualquer de metáfora. Opera com aquilo que Jacques-Alain Miller chamou o avesso da interpretação.

 

Uma teoria unificada do campo clínico

Com a introdução da categoria de discurso, Lacan reconsidera todo o campo da psicanálise a partir da pulsão e não mais do significante e dá uma teoria unificada que é, precisamente, de tipo continuísta e na qual identificação e pulsão são articuladas em uma mesma estrutura. Podemos nos perguntar, então, qual é, sobre o plano clínico, a figura comum que melhor responde a uma clínica pensada a partir do gozo e da suplência sintomática.

Existe outro ponto importante: nessa figura comum deverá ser encontrado um ponto para atravessar que corresponde ao impasse da adolescência e é o entroncamento no qual os sujeitos tomam estradas diversas. Esse ponto de impasse concerne à utilização do fantasma (freudianamente, a erotização dos fantasmas infantis), que constitui o fenômeno estrutural da adolescência como momento chave e crucial da subjetivação. A figura que, em termos clínicos, parece responder melhor a essa leitura unificada é a da depressão - melancolia versus mania. Mas ainda uma vez nos encontraremos simplesmente no lugar comum da psiquiatria atual, se não nos dermos conta de algumas precições que a elaboração lacaniana torna possível.

É necessário, porém, precisar de outra forma. Com esse ponto de atravessamento, trata-se de indicar qualquer coisa que não seja propriamente uma estrutura clínica: de fato, Lacan não dá à depressão o posto de estrutura. A depressão não faz sintoma, não é formação do inconsciente; é letra e não discurso. Entretanto, as outras escolas procuram fazer, desses estados estrutura; nós as colocamos fora do discurso e procuramos uma instância transclínica com a qual nos orientamos. A instância transclínica é o fantasma e, nesse caso, a sua desnecessidade ou falta. Se o fantasma é o que liga o desejo e a causa (sob a forma de objeto causa do desejo), Laurent nos adverte que: "Mania e melancolia desenham aqui dois modos de separar o desejo da causa" (LP, nº 9). É um modo de dizer que do ponto de atravessamento da adolescência a alienação não se dialetiza com a separação, porque o fantasma não liga desejo e causa. É daqui que originam essas patologias que são chamadas alienação sem separação ou, como nos parece mais preciso, defeito de separação por defeito de alienação. Substancialmente, não têm extração do objeto com o qual se chega à montagem da pulsão no fantasma.9

Se a pulsão não se liga a um objeto, não pegará a estrada de um desejo articulável. Como escrever, então, um matema para esse impasse do fantasma, para essa alternância de depressão-melancolia e de mania e mostrar, ao mesmo tempo, que esses são o avesso uma da outra, enquanto duas voltas da pulsão e dois modos de ter o desejo separado da causa? Ao escrever esse matema, podemos observar o oscilar pulsional que se verifica nessas formas patológicas e que faz com que, por exemplo, a bulimia seja um momento de desencadeamento pulsional em relação à anorexia, isto é, à polaridade maníaca que, já presente na anorexia, torna-a mais evidente. Podemos sobretudo compreender porque muitos sujeitos que têm traços de tipo paranóide ou esquizofrênico permanecem em uma evolução tal que os colegas psiquiatras devem diagnosticar como distúrbio bipolar (ou esquizo-afetivo?).

O matema que poderia indicar essa espécie de balança instável da pulsão na qual não existe lugar para o sujeito barrado poder ser: (A) < > (a). Podemos também mostrá-lo assim:

 

 

A relação entre os dois elementos do matema é a de circularidade que indica uma não-função. O sujeito não existe, ou melhor, permanece inteiro, patológico e fora do discurso, enquanto a entrada no discurso se dá pela via fálica, isto é, via negativização do objeto e sua introdução na pulsão com recuperação de gozo. Se não existe essa passagem, o gozo se apresenta pleno, em que as únicas escanções são das letras, inscritas ou no próprio corpo ou no social.

Como ler essa não-função circular sobre o registro melancolia-mania? Partimos da mania: nela, disse Lacan, existe uma não-função do objeto (a). O resultado é, de certo modo, um total desequilíbrio sobre outra vertente, a das significações que proliferam e se mobilizam em fuga contínua e que não se pode capturar. Não são associações; é a corrente maniacal. Isso porque não existe cadeia significante. De fato, é o que faz com que o inconsciente funcione como linguagem, como cadeia; são os controles, os vínculos e aquilo que não existe na mania. Associações, controles e vínculos funcionam só para um objeto que, metonimicamente, fixa o gozo e esconde o desejo. O ponto de estofo só funciona se existe um gozo que, metonimicamente, retorna e que a função do Nome-do-Pai se encarrega de anular, de metaforizar, de levar via na cadeia associativa (Freud dizia que, na mania, o sujeito triunfa do pai, mas o dizia sem considerar a carga mortífera da pulsão de morte que existe nesse triunfo, como demonstra o risco de vida e a alteração dos mesmos parâmetros biológicos na mania).

Assim, a mania é rejeição do inconsciente pela não função do objeto (a). O maníaco se perde em uma série infinita e descontrolável de S1, S1, S1, S1... que nunca faz vínculo. É uma língua privada que nada tem a ver com linguagem. O sujeito, livre do objeto, observa um alívio que o faz afrouxar todas as amarras, inclusive aquelas relativas ao significante. Por exemplo, a função maniacal do álcool é a de adormentar o objeto extremamente presente e, assim, o sujeito desinibe-se. A excitação maniacal pode parecer uma festa, mas é uma sucessão desorientada de elementos singulares da linguagem, livre das constrições da semântica, emancipada do real.10 De qualquer modo, o sujeito é esmagado sobre a letra.

Sobre a outra vertente, a melancolia-depressão, é o contrário: ceder do Outro (A) no mais puro modelo de luto e melancolia (FO, 8). O que distingue o luto da melancolia é que, a partir da perda do objeto real, o trabalho do luto se encarrega de reelaborar esse buraco central (com o último Lacan, diremos buraco originário, forclusão originária), ao recorrer à ressistematização e à mobilização de todas as significações (fálicas) da vida do sujeito. É a reparação da ferida fálica que recorre aos recursos fálicos, ao inconsciente, à linguagem.

Na melancolia, ao contrário, tem-se uma falência do sujeito em relação a essa tarefa: o sujeito se exime da tarefa de bem-dizer o objeto, isto é, a falta do objeto. Como um vil (mas a distinção entre forclusão na melancolia e recalque na depressão menor é estrutural), o sujeito se recusa ao desejo, isto é, ao dever de colocar em boa ordem e em boa conexão as próprias idéias (os significantes) para circunscrever o buraco da falta de objeto. É um rejeito do inconsciente pela não-função do Outro. Aqui o desejo que se apaga, o afrouxamento, também psicomotor, que não é típico de uma estrutura, mas que se pode reencontrar em toda estrutura: neurótica, perversa, ou psicótica, porque todas as três são presas ao dever de bem-dizer, isto é, com a função de suplência que a linguagem diz respeito, do gozo puro. Digamos que o sujeito é totalmente ocupado pelo objeto, que a cadeia significante se comprime, afrouxa e as significações não. Por isso que não é da pulsão? Nesse caso, a pulsão emerge como pulsão de morte no estado puro, como na melancolia. O sujeito é totalmente esmagado sobre o objeto, objeto horrível, pleno, que não passa pela pontuação fálica e deve recorrer ao ato (também suicida) para introduzir uma falta.

Retornemos sobre a valência cujo pólo depressivo existe nos chamados borderline. A patologia borderline teria em comum com a depressão essa recusa do Outro; é uma manobra que, para tentar a separação sem passar pelo Outro, mobiliza os objetos que não são causa de desejo, mas objetos infantis, regressivos, que colocam freio ao gozo mortífero desencadeado pela presença desse objeto inominável, enquanto não negativizado pelo significante. Assim, a comida na anorexia/bulimia, a droga, o álcool fazem função de objetos separadores, falsos, porque não encontrados sobre o corpo do Outro. Portanto, não se constrói um fantasma com esses objetos, dado que se reforça uma identificação, como já dizia Freud quando afirmava que a droga procura um reforço identificatório.

Nesse ponto, a questão que expressamos no título pode encontrar hipótese de resposta sobre qual diagnóstico de psicose se aproxima da expressão lacaniana segundo a qual essa seria uma "insondável decisão do ser". Dessa decisão, a nossa escola pôde explicitar duas características, em dois momentos sucessivos, que estiveram bem marcadas em duas intervenções de Jacques-Alain Miller: em 1986, ele desenvolveu como a decisão psicótica concerne o tema da liberdade humana, em oposição à lâchete moral frente ao significante, típica da mania.

Em 1992, ao contrário, mostrou-nos como essa constitui o protótipo da ironia - em respeito ao real - em oposição ao humorismo com o qual o significante nos defende do real.

 

Por uma clínica da suplência

Concluiremos fazendo menção àquela que poderia se chamar a nova questão preliminar. Se é preliminar a todo tratamento colocar em evidência a função do Nome-do-Pai e sua forclusão, no tratamento dos novos sintomas é preliminar deixar claro a função de suplência do Nome-do-Pai. Para esclarecer essa questão, Lacan encontrou a estrutura do nó borromeano. Ele procurava uma colocação para o objeto (a) como falta estrutural que caracteriza o sujeito. A hipótese era colocá-lo na estrutura da questão em que aparece como quarto termo da lógica do amor11, resumo da frase: "1) Eu te pergunto (Imaginário) 2) de negar-me (simbólico) 3) isto que te ofereço (Real) porque não é isto". A expressão "não é isto" nos diz que coisa é o objeto (a).

Na estruturação do nó, Lacan colocará o objeto (a) no espaço central que, normalmente, assegura a manutenção do nó. Quando, porém, os três anéis não são corretamente enlaçados, e para que se mantenham juntos, mesmo se não mais em modo borromeico, será formado um quarto anel que pare a soltura de um ou de todos os outros (desencadeamento). Esse quarto anel é o que mostra a função da suplência. Trata-se, portanto, de uma suplência "ao vazio improvisadamente advertido pela Verwerfung inaugural" (LACAN, 1998).

O ponto de partida da elaboração dessa suplência é encontrado no Seminário VIII: o silêncio de Sócrates no Banquete é o amálgama incluído no Outro, que organiza o Outro em posição de estimação. Nesse lugar, Lacan coloca um significante diferente dos outros S(A), sem o qual os outros significantes não representam nada. É uma forma de escrever que, frente ao gozo, o Outro não existe; é a função fundadora do "defeito no universo". Aparece depois, no Seminário XX, a língua, isto é, um simbólico desligado do Outro e referido ao Uno do gozo. Nesse ponto, o Nome-do-Pai não é um modo de suturar a divisão do Outro, o do mito freudiano. O nó borromeo é o Uno do gozo: na heterogeneidade dos três registros, real, simbólico e imaginário, existe um medium, não ideal, o anodamento borromeano.

O anodamento, porém, é estruturalmente forcluído e requer um quarto elemento, implícito ou explícito, que faça nó: para Freud, o quarto, explícito, é o Édipo. Lacan individualiza essa função de suplência como a de dar nome às coisas12. O quarto elemento supre essa função de nominação que falta no Outro. O desencadeamento da psicose não é a ruptura do anel do simbólico e, como tal, não será mais a condição necessária e suficiente para fazer o diagnóstico de psicose. Pode-se pensar que essa venha a ser reparada e, assim, o diagnóstico deverá recolher os traços da suplência. Devemos notar que nessa perspectiva do nó, também o ato do analista, o avesso à interpretação, torna plural: corte, escanção, equívoco, suplência, simbólica.

Uma última observação a título de conclusão do tratamento. No tratamento das novas patologias, em nossa experiência, emerge um problema: são muito freqüentes os adolescentes, em particular bulímicos e toxicodependentes, para os quais o tratamento torna-se a ocasião de acesso ao fantasma e, portanto, a uma instituição subjetiva. É o contrário de uma análise encerrada que deveria levar à destituição subjetiva e ao atravessamento do fantasma. Nesse ponto, parece não haver mais transferência e os sujeitos interrompem o tratamento. No fundo, a escanção que induz a forma de se colocar o sintoma na entrada no discurso tem efeito estabilizante, que atua propriamente em como se coloca em função o fantasma. Trata-se de um trabalho que, na passagem da letra ao discurso, segue, preferivelmente, no sentido do funcionamento do Édipo ou de qualquer modo de suplência sintomática. É, seguramente, um efeito terapêutico, e, para outros andamentos, é necessário uma decisão do sujeito. Mas isso não aponta problemas para a psicanálise?

Já que é a ética do discurso analítico que permite esse movimento, não podemos ver uma resposta para o problema na tendência a recorrer ao grupo para o tratamento dessas patologias? O grupo poderia oferecer ao sujeito, mediante as transferências laterais, a ocasião para recontratar a definição social do sintoma e, por isso, colocar à prova o próprio fantasma e sustentar-se diferentemente em sua procura. É essa a indicação que nos vem pelo trabalho em equipe nas instituições. O que a equipe sustenta com o prender desse ato é a obra do sujeito. A presa do ato de suas letras de gozo cria "nova semântica13", uma interpretação do joui-sens.

 

Referências

LACAN, Jacques. O Seminário Livro 3 - As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

LACAN, Jacques. O Seminário Livro 17 - O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

LACAN, Jacques. O Seminário - Livro 18: D'um discours qui ne serait pás du semblant.

LACAN, Jacques. O Seminário - Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1975.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

 

 

Endereço para correspondência
Piero Feliciotti
via A. Lucentini, 14 - 62029 - Tolentino
E-mail: orfeove@tin.it

Carlo Viganò
E-mail: carlo.vigano@fastwebnet.it

Roseli Cordeiro Pereira (Tradução)
E-mail: barcia@barbacena.com.br

Artigo recebido em: 24/4/2007
Aprovado para publicação em: 14/5/2007

 

 

*Psiquiatra, psicanalista, psicodramatista. Diretor da Scuola di Psicoterapia ICLeS - Instituto per la Clínica dei Legami Sociali - Sede di Macerata. Itália.
**Psiquiatra e psicanalista radicado em Milão. Membro da Associação Mundial de Psicanálise e da Causa Freudiana de Paris, integrante da Comissão de Saúde Mental da Associação Mundial de Psicanálise.
1O processo que guiou o nascimento do DSM colocou os psiquiatras modernos em situação que recorda, longinquamente, a de Lacan: de fato, a dependência do homem pelo significante foi imposta sob a urgência do fator econômico, da lei de mercado, que leva a medir tudo na tentativa de reduzi-lo em significante, em sistema contábil. Do ponto de vista do método, essa evidência resulta da combinação de dupla metáfora: a oitocentesca do homem-máquina-a-vapor (termodinâmica) e a atual do homem-computador (cibernética). É esse processo que põe a psiquiatria diante da linguagem como tal e de um real que foge sempre e vem talhado fora da economia das satisfações, e a tal ponto o psicótico é isento das satisfações sociais de colocar em discussão, de maneira radical, o mesmo vínculo social. Toda a impostação do cognitivismo com sua obsessão pela valorização objetiva, não faz outra coisa que evidenciar - sobre registro contábil - essa dependência estrutural do significante. Ao contrário, o discurso do analista opera uma reviravolta na qual a dependência pelo significante passa do discurso de mestria ao do inconsciente.
2Lacan refere-se, aqui, ao eixo a-a' do esquema L.
3É a questão posta pelo matema S(A), assim vizinho à posição psicótica, que coisa é aqui o S? Qualquer coisa que seja é da parte do sujeito e não do Outro; no gráfico, é da parte da resposta e não da pergunta; é qualquer coisa da qual o sujeito se apropria na separação do outro e que cria, como significante novo, como invenção. É esta a letra? Estruturalmente sim; ainda se esta letra deve passar pelo Outro para aproximar-se à sublimação e não ser mortífera, como também para tornar-se sintomática, nas entrevistas preliminares.
4Porque a diferença é de estrutura: no fundo, também o neurótico é perplexo, só que pode colocar no inconsciente a perplexidade que, depois, retorna a interrogá-lo no enigma do sintoma, isto é, pode removê-la, graças ao Nome-do-Pai, que faz o trabalho de representar o sujeito. O mito do Pai, o mito edipico, serve ao neurótico para estar longe da perplexidade sobre o Outro e sobre sua falta estrutural.
5Como Jacques-Alain Miller colocou em evidência, até certo ponto do seu ensinamento, Lacan pressupõe, mas não formaliza o Real. Assim, a relação Nome-do-Pai/ Desejo da Mãe, vem a corresponder ao Simbólico/Imaginário: o DM não Dom no Nome do Pai é antes, então, aquele das fantasias, e não do fantasma, este DM entrega à criança um espaço onisignificante no qual tudo é possível. É um pouco a vertente Kleiniana de Lacan, antes da introdução do fantasma. A reprovação disto parece-nos dada pelo fato que, se partimos da oposição dos dois registros, Simbólico versus Imaginário, e isto é do esquema L, a psicose (e a pulsão) são reconduzidas a um puro mecanismo imaginário no qual o delírio é qualificado de produção irreal. Entretanto, em Uma questão preliminar, Lacan corrige (a posteriori) o esquema R, especificando que, a partir da introdução do objeto (a), o Real torna-se um lado de Moebius, o que provoca uma torsão da relação entre Simbólico e Imaginário que não é mais de correspondência.
6Na segunda parte do seu ensinamento, passado pela dialética do reconhecimento ao sujeito e como efeito da estrutura de linguagem, Lacan se desembaraça da retórica da mensagem e chega a dizer que a linguagem não serve para comunicar, mas para fazer a marca de um sujeito. Portanto, ao avesso, nenhuma letra, sem que o Outro a leia.
7Na lição de 21 de maio de 1997 (L'autre qui n'existe pas et ses comités d'éthique), Jacques-Alain Miller introduz a referência à metapsicologia da neurose obsessiva de inibição, sintoma e angústia, referência que serve de guia no Seminário do ano sucessivo (O parceiro-sintoma) e que é desenvolvido amplamente através do comentário do artigo de Freud, em particular nas lições de 3 e 10 de dezembro de 1997.
8Assim temos chamado a modalidade de discurso na qual o lugar da verdade vem esvaziado imaginariamente mediante uma identificação holofrástica. Criam-se deste modo as condições das quais fala Lacan no Seminário XVII, pela qual o sujeito se desembaraça do "do dinamismo do trabalho da verdade."
9Parece-nos, além disso, que essa elaboração torna impraticável um conceito como o de metáfora débil para definir o que está em jogo na passagem perigosa da adolescência. De fato, que seja para nós um forte é antes o mito com o qual o neurótico se assegura do Outro. Se seguimos a revolução que a rotação dos discursos torna possível, acordamo-nos que no fundo a metáfora é débil, como demonstra, no plano inferior do discurso do analista, o marcador da impossibilidade entre S2 e S1. Em outras palavras, a última verdade do discurso histérico é que o pai é castrado do fim ao início e portanto que a sua intervenção mítica não poderia remeter totalmente em circulação um gozo para sempre perdido. Portanto além do Nome-do-Pai (S2), o S1 resta uma possível invenção (existe do Um) também se e propriamente por que é, no fundo, um árbitro, um salto no vazio, um ato criador e sem garantia. Mas é propriamente isto que une em S (A), a posição do neurótico e a do psicótico, em uma "insondável decisão do ser". Pode o pior (como é o trabalho extenuante do psicótico para reconstruir-se), uma letra que mata, como disse Lacan, mas também uma possibilidade de liberdade (não sem o Outro). O único elemento que nos deva parecer restar débil é, então, a lógica dos discursos, de tal modo que o sujeito possa concluir ai uma revolução. Essa debilidade discursiva pode ser ausente, a exemplo no interior da prática institucional (mas também no discurso familiar holofrasizado), que vos opõe, ao contrário, o vínculo débil de uma identificação forte. Esse discurso mascarado débil anotação, que obriga o sujeito àquelas deformações discursivas que tornam-se sintomáticas (enquanto instáveis) para a organização social (e familiar).
10J. A. Miller, D.E.A. 1986-87.
11Na noite anterior da lição de 9 de fevereiro de 1972 do seminário XIV,... Ou pire, uma pessoa lhe apresentou a figura do esquema do Borromeo e, súbito, esta parece a Lacan mais propícia que a do tetraedro sobre o qual estava trabalhando.
12[...] eu mostro a função radical do Nome-do-Pai, que é de dar as coisas, com todas as conseqüências que isto o importa, até ao gozo especialmente". J. Lacan "R.S.I", Ornicar?, nº 5, inverno 75/76.
13J. A. Miller, "Le plus-de-dire", La cause freudienne, nº 30. 1995.

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