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Mental

versão impressa ISSN 1679-4427

Mental vol.9 no.16 Barbacena jun. 2011

 

ARTIGOS

 

A Compreensão na Psicopatologia de Karl Jaspers e na Psicanálise

 

Understanding in Karl Jaspers' Psychopathology and in Psychoanalysis

 

 

Cristia Rosineiri Gonçalves Lopes Correa

Psicanalista, Membro do Ato Freudiano - Escola de Psicanálise de Juiz de Fora, Mestre em Filosofia e Ética da Saúde Mental pela University of Warwick, Reino Unido

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente artigo examina a abordagem da compreensão na Psicopatologia de Karl Jaspers e na Psicanálise. Argumenta-se que, enquanto Jaspers reivindica a legitimidade da compreensão nos fenômenos psicóticos, Lacan, na Psicanálise, critica tal abordagem, sugerindo que Jaspers desconhece a dimensão dialética na compreensão "normal". Propõe-se, nessa direção, que o argumento apresentado por Lacan coloca em questão a eficácia ética da clínica pautada na compreensão tal como Jaspers a concebe.

Palavras-chave: Compreensão; sentido; ab-sens; Lacan; Jaspers.


ABSTRACT

This article examines the approach to understanding in Karl Jaspers' Psychopathology and in Psychoanalysis. It suggests that whereas Jaspers claims the legitimacy of understanding in the psychotic phenomena, Lacan, in Psychoanalysis, criticizes such an approach, suggesting that Jaspers misses out the dialectic dimension in the "normal" understanding. In this sense, the present article proposes that Lacan questions the ethical efficacy of the clinic grounded on the understanding claimed by Jaspers.

Keywords: Understanding; sense; ab-sens; Lacan; Jaspers.


 

1 A COMPREENSÃO NA PSICOPATOLOGIA DE KARL JASPERS

Se ficamos concernidos com o artigo de Jaspers de 1913, "Causal and Meaningful Connections between life History and Psychosis in Schizophrenia", podemos verificar que esse artigo tem o mérito de trazer no corpo do seu texto a essência da posição de Jaspers acerca da natureza da Psicopatologia em termos de distinções estabelecidas por ele, a saber, entre conexões significativas (meaningful) e conexões causais, e entre explicação (explanation) e compreensão (understanding). Jaspers argumenta que a Psicopatologia é tanto uma ciência biológica natural buscando causas neuropatológicas dos principais tipos de psicose como também uma ciência humana concernida à compreensão da experiência de sofrimento do paciente. A distinção que Jaspers faz entre, de um lado, o compreensível e o significativo (meaningful) e, de outro, o explicativo e o causal é complicada pela sua terminologia e pelas dificuldades de tradução do alemão. A palavra que ele usa para significativo ("meaningful") é "verstandlich", mais literalmente traduzido como "compreensível". "Compreensão" (Verstehen), para Jaspers, é o nosso acesso ao estado mental interno de outras pessoas. É a nossa habilidade para interpretar os motivos do indivíduo e o significado subjetivo das palavras e das ações dele. Para Jaspers, a "compreensão" atua tanto como um termo técnico que fundamenta a Psicopatologia na condição de uma ciência humana, como também um termo de uso ordinário que nos permite alcançar os motivos da vida cotidiana das pessoas ao nosso redor.

Jaspers prossegue distinguindo "compreensão estática" (statische Verstehen) de "compreensão genética" (genetische Verstehen). Na compreensão estática, trata-se de compreender a experiência do paciente fora do alcance de nossas próprias experiências por meio de um exercício de imaginação no qual nos esforçamos em nos colocar vivendo a mesma experiência relatada pelo sujeito psicótico, como, por exemplo, a convicção dele de estar sendo vigiado. Na compreensão genética, trata-se de compreender o encadeamento dos eventos psíquicos, no sentido da emergência de um a partir do outro, restituindo o sentido na cadeia desses eventos. Nessa direção, poderíamos dizer, por exemplo, que para Jaspers o desenvolvimento de um complexo e internamente consistente sistema delirante de perseguição toma seu fundamento e sentido da experiência do paciente psicótico de se sentir vigiado. Ao aceitar a proposição inicial do sentimento convicto de estar sendo vigiado, relatado pelo paciente, todo o seu sistema delirante soa compreensível, na própria medida em que a sua crença delirante de estar sendo perseguido emerge significativa e compreensivamente dessa proposição inicial.

O artigo de Jaspers publicado em 1912, "The Phenomenological Approach in Psychopathology", encerra uma detalhada abordagem da fenomenologia de Jaspers. Enquanto os sintomas objetivos incluem desempenhos (performances) observáveis e frequentemente mensuráveis quantitativamente, os sintomas subjetivos não podem ser observados por meio dos órgãos dos sentidos. Só podemos alcançar esses sintomas subjetivos quando nos transferimos por meio da empatia para dentro da vida psíquica de outra pessoa. Somente por meio desse procedimento de compartilhamento da experiência psicopatológica do paciente - e não através do pensamento lógico - podemos obter uma consciência interna dos sintomas subjetivos. Sintomas subjetivos são todas aquelas emoções e processos internos que nós alcançamos imediatamente como a expressão de algum fenômeno sensorial, como, por exemplo, o medo. É importante observar que a "compreensão" é requerida também no alcance dos sintomas objetivos, no sentido de obtermos um conteúdo racional, mas a "compreensão" nesse campo se dá por meio da percepção sensória e das regras da lógica, e deve ser entendida como uma "compreensão" racional. No entanto, Jaspers coloca a sua ênfase na "compreensão empática", que consiste em compreender as conexões do paciente psicológica ou empaticamente. "Empatia" é o termo usado por Jaspers para designar o meio pelo qual nós compreendemos, alcançamos o lado subjetivo dos estados mentais ou "sintomas subjetivos", conforme nomeado por esse autor - o meio pelo qual nós compreendemos o conteúdo dos pensamentos tal como eles derivam dos sentimentos, desejos e medos da pessoa quem os pensa. Para Jaspers, a compreensão empática ou psicológica é aquela que toca na verdadeira essência da Psicologia.

Quando o conteúdo dos pensamentos emerge um a partir do outro de acordo com as regras da lógica, nós compreendemos as conexões racionalmente. Mas, se nós compreendemos o conteúdo dos pensamentos tal como eles derivaram dos sentimentos, desejos e medos da pessoa quem os teve, nós compreendemos as conexões psicológica ou empaticamente. Somente o último meio de compreensão pode ser chamado de "compreensão psicológica". (JASPERS, 1913, p. 83, tradução nossa)1.

De acordo com Jaspers, nós compreendemos o outro não através da consideração e análise da sua vida mental, mas o acompanhando no contexto de eventos, ações e destinos pessoais. Trata-se, na "compreensão empática", de começar com uma clara representação do que está realmente acontecendo com o paciente, o que ele está realmente experienciando, como as coisas surgem na consciência dele, quais são os seus íntimos sentimentos etc. Nesse estágio, devemos colocar completamente de lado considerações tais como as relações entre experiências ou a síntese delas em um todo fechado e, mais especialmente, temos que evitar suprir a experiência relatada pelo paciente com qualquer constructo ou referência teórica, mesmo que considerada básica. Devemos abordar a experiência psicopatológica do paciente somente com o que está de fato presente em sua consciência, pois qualquer coisa que não está sendo realmente experienciada conscientemente está fora de nossa consideração. Nessa direção, para Jaspers, a Psicopatologia deve ficar concernida somente à realidade factícia, pois é somente essa realidade que é passível da compreensão empática. Embora Jaspers reconheça a dificuldade na apreensão dessa realidade material, ele acredita nesse ideal e aposta na experiência da "compreensão empática" como um modo legítimo para o alcance dos fatos na Psicopatologia:

Nós devemos dirigir nossa atenção somente para aquilo que podemos compreender, que tem existência real, e que podemos diferenciar e descrever. Isso, conforme a experiência tem mostrado, é em si mesmo uma tarefa muito difícil. Essa específica isenção de preconceitos que a fenomenologia demanda não é algo que alguém possui desde o começo, mas uma coisa que é laboriosamente adquirida após prolongado trabalho crítico e muito esforço - frequentemente estéril - em esboçar constructos e mitologias. Quando fomos crianças, primeiro esboçamos as coisas como as imaginávamos, não como as víamos. Então, como psicólogos e psicopatologistas, atravessamos um estágio onde formamos nossas próprias ideias em um modo ou outro, de eventos psíquicos e, somente mais tarde, adquirimos um alcance direto e sem preconceitos desses eventos, como eles realmente se dão. Logo, essa fenomenológica atitude será adquirida somente através do permanente repetido esforço e através da permanente renovada superação de preconceitos. (JASPERS, 1912, p. 1316, tradução nossa)2.

Assim, a noção de compreensão é um móbil do qual Jaspers fez, com o nome de relação de compreensão, o pivô de toda a sua psicopatologia dita geral (LACAN, 1992).

 

2 A NOÇÃO DE COMPREENSÃO NA PSICANÁLISE

Na Psicanálise, Lacan (1992) critica essa abordagem da compreensão feita por Jaspers, reivindicando que, se de um lado, não é falsa em si a restituição do sentido na cadeia dos fenômenos, de outro é falsa, sob o seu ponto de vista, conceber que o sentido tratado é aquele que se compreende. De acordo com Lacan, no "compreender os doentes", trata-se de uma pura miragem (p. 14). Lacan extrai um exemplo entre muitos dados por Jaspers, para ilustrar a sua crítica, a saber, o exemplo dado por esse autor que, quando alguém está triste, é porque não tem aquilo que o seu coração deseja. Para Lacan, não há nada mais falso, na própria medida em que há pessoas que têm tudo o que os seus corações desejam e que ainda assim são tristes. "A tristeza é uma paixão de natureza inteiramente outra" (p. 15).

Gostaria de insistir. Quando vocês dão um tapa numa criança, pois bem, isso se compreende, ela chora - sem que ninguém reflita que nada em absoluto a obrigue a chorar. Lembro-me do garotinho que, quando recebia um tapa, perguntava - É um carinho ou uma palmada? Se lhe dissessem que era uma palmada, ele chorava, isso fazia parte das convenções, da regra do momento, e, se fosse um carinho, ficava encantado. Aliás, isso não esgota a questão. Quando se recebe um tapa, há certamente muitas outras maneiras de responder a isso do que chorando pode-se revidá-lo, e também dar a outra face, pode-se também dizer - Bata, mas escute. Uma imensa variedade de sequências se apresenta, as quais são negligenciadas na noção de relação de compreensão tal como a explicita o Sr. Jaspers. (LACAN, 1992, p. 15).

A compreensão empática se fundamenta na premissa de que o paciente compreende algo do que se passa com ele e, assim, trata-se de segui-lo nessa compreensão para compreendê-lo. Trata-se de se colocar no lugar do paciente psicótico para compreender a sua compreensão do vivido.

Entretanto, a partir do que Lacan nos introduz no seu ensaio de 1945, "O Tempo Lógico e a Asserção da Certeza Antecipada", acerca da compreensão experienciada pelo sujeito "normal", ou seja, um sujeito que não está na psicose, não podemos dizer que, rigorosamente falando, o sujeito psicótico compreende a sua experiência, mesmo havendo um núcleo aparentemente compreensível, fonte dos enganos. Lacan aborda o tempo para compreender no sujeito "normal" como uma das etapas lógicas de todo e qualquer processo de assimilação humana que comporta hesitação, dúvidas e resistência. Uma etapa lógica que antecede, prepara e apoia a urgência do momento de concluir que arranca o sujeito da inibição neurótica para que ele possa prosseguir adiante no seu percurso. A partir desse ensaio, não podemos pensar a compreensão vivenciada por um sujeito "normal" sem a dimensão da operação efetiva do recalque, na própria medida em que é essa operação que introduz a dialética da dúvida, própria do tempo para compreender que dialetiza a certeza que concerne a um ponto do real. Não podemos pensar a compreensão "normal" fora de uma temporalidade e de uma amarração lógica ao momento de conclusão.

Freud (1996 [1909]) nos diz que a necessidade de incerteza ou de dúvida na vida do neurótico obsessivo constitui-se em uma necessidade mental compartilhada nessa doença. Segundo Freud, o esforço empreendido pelo sujeito obsessivo para poder evitar a certeza e ficar na dúvida tem como finalidade evitar um conhecimento de quaisquer fatos que o teria auxiliado a chegar a uma decisão sobre o seu conflito. Que nesse sentido se dá na vida do neurótico obsessivo uma aversão por relógios, por exemplo, na própria medida em que eles dão a certeza da hora do dia (p. 201-202).

A predileção dos neuróticos obsessivos pela incerteza e pela dúvida leva-os a orientar seus pensamentos de preferência para aqueles temas perante os quais toda a humanidade está incerta e nossos conhecimentos e julgamentos necessariamente expostos a dúvida. Os principais temas dessa natureza são paternidade, duração da vida, vida após a morte e memória - na qual todos nós costumamos acreditar, sem possuirmos a menor garantia de sua fidedignidade. (FREUD, 1909, p. 202).

Freud (1996 [1939]) argumenta que um sujeito diante de algo novo para ele, que contradiz alguns de seus desejos e vai de encontro com algumas convicções que lhe são preciosas, hesitará e duvidará sobre essa coisa nova, mesmo que verdadeira. Buscará razões que o capacite a lançar dúvidas sobre esse elemento, lutando consigo mesmo, até que, finalmente, admitirá para si o que ele resistiu tanto para acreditar. Segundo Freud, a atividade raciocinante do eu demanda tempo para superar as objeções sustentadas por intensas catexias afetivas (p. 81-82).

Com isso, podemos concluir que para Freud a dúvida é signo da resistência, da preservação de um anterior estado de coisas. E, por conseguinte, que a dúvida faz parte do percurso percorrido pelo sujeito "normal" para que ele possa vir a concluir algo como certo.

Para Freud, a dúvida é onde a certeza do sujeito vêm se apoiar. Onde o sujeito duvida; seguramente um pensamento inconsciente que se revela como ausente está lá. Assim, nós sabemos, graças a Freud, que o sujeito do inconsciente se manifesta, que isso pensa antes de entrar na certeza (LACAN, 1988, p. 40). Nesse ponto, introduzimos as seguintes questões: a que concerne essa dimensão dialetizadora da dúvida nesse tempo para compreender no sujeito "normal"? a que concerne essa referida amarração lógica do tempo para compreender ao momento de concluir? Responder essas questões que tocam no mesmo ponto nos remete à abordagem do ponto de basta que concerne ao pai simbólico e à castração (CORREA, 2010).

Foi a propósito da relação do significante com o significado, tão sensível no diálogo dramático entre o sumo sacerdote e Abner (LACAN, 2005 [1970]), na tragédia Atália, de Jean Racine (1970), abordada por Lacan nesse seu seminário sobre As Psicoses, no capítulo sobre o ponto de basta, que Lacan fez referência ao célebre esquema de Saussure, em que vemos representado o duplo fluxo paralelo do significante e do significado, distintos e fadados a um perpétuo deslizamento um sobre o outro.  Lacan, então, forjou a imagem do ponto de basta, retirada da técnica do estofador. Segundo Lacan, é preciso que em algum ponto o tecido de um se prenda ao tecido do outro, para que saibamos a que nos atermos, pelo menos nos limites possíveis desses deslizamentos (Lacan, 1999, p. 15). Mesmo deixando uma certa elasticidade entre o significante e o significado, existem pontos de basta. E a existência desses pontos de basta, Lacan articula com o significante do "Nome-do-Pai" que essa tragédia de Racine introduz de maneira rigorosa e bela com o significante do "Temor a Deus" (CORREA, 2010). Cabe a nós, então, aqui, tentar extrair consequências do ponto de basta para nossa abordagem da compreensão e do sentido.

Se o ponto de basta concerne ao significante-do-Nome-do-Pai que, segundo Lacan nos ensina, é o significante que mantém a ordem significante, que produz um certo efeito, a significação fálica e que, principalmente para o que nos interessa aqui, mesmo mantendo o não sentido, confere um certo sentido ao não sentido do desejo do Outro materno: "Che vuoi" - Que queres?

O presente artigo argumenta que o ponto de basta pode ser articulado com a compreensão, não no sentido dado por Jaspers, mas no sentido que a Psicanálise confere a essa vivência. A partir da Psicanálise, podemos pensar o ponto de basta que concerne ao significante do Nome-do-Pai e, portanto, à castração como a dimensão que introduz a dialética da dúvida no tempo para compreender e que faz a amarração lógica do tempo para compreender ao momento de concluir (LACAN, 1998 [1945]). O significante do Nome-do-Pai, na medida em que é um enxerto de sentido, põe ordem no mundo quando possibilita o sujeito se localizar nos planos simbólico e imaginário (CORREA, 2008). Mas é fundamental ressaltar o que foi marcado há pouco: trata-se de um enxerto de sentido que conserva o ab sens. Trata-se de um certo sentido que mantém a radicalidade do que se mantém como real e, portanto, como incomprensível, puro ab sens, irredutível à qualquer tentativa de especularização que fundamenta a compreensão empática. Lacan (1996) sustenta uma abordagem para esse real que insiste com o peso da suspensão de sentido que o concerne:

Coisa curiosa, o não-senso tem peso. Isso dá um frio no estômago. E este é o passo dado por Freud, ao ter mostrado que isso é o que o chiste tem de exemplar, a palavra sem pé nem cabeça e nem cauda. (LACAN, 1996, p. 54).

Lacan (1996) faz uso da ambiguidade das raízes nas línguas para mostrar que o sentido e o não-senso comporta ambiguidades e um jogo significante nessas línguas, introduzindo o lugar mesmo do sentido, do não sentido e o da verdade. Isso é ilustrado no francês com a palavra sans, presumidamente vinda do latim sine, cuja primeira forma era algo como senz, mostrando um jogo significante no que temos senz e depois sans (puis sans) conotando uma potência (puissance), o que é antes de qualquer coisa o que de ser há no sentido, entendido diversamente de sentido pleno (p. 54).

Essa nuance sutil entre o sentido e o não-senso ou ab-sens, comportada pelo jogo significante, pode ser vista também no inglês com o without - equivalente em inglês para o sans no francês - que estruturalmente conota com estando fora (p. 55).

Enquanto Lacan nos deixa entrever por meio da análise da ambiguidade das raízes do não-senso nas línguas o quão sutil é a linha divisória entre o sentido e o não-senso para a Psicanálise (CORREA, 2009), a abordagem da compreensão na Psicopatologia de Jaspers opõe de uma maneira nítida esses dois elementos, quando reivindica que, em alguns casos, diante de fenômenos incompreensíveis, a falta de um modo adequado de compreender alguém deixa somente a alternativa da explicação. Diante deles, nós devemos ficar concernidos a uma abordagem causal: tentar "explicá-los" (erklaren) como se eles fossem material específico das ciências naturais.

Essa dificuldade em sustentar e extrair consequências de uma maneira rigorosa do que se mantém na dimensão do incomprensível no âmbito da compreensão, encerrada na estrutura da compreensão empática de Jaspers, é deflagrada pelo radical desconhecimento, por parte dessa abordagem, da dimensão dialética no mecanismo da compreensão, na fenomenologia da experiência patológica (LACAN, 1992).

O presente artigo argumenta que o problema da compreensão na psicose se encontra justamente porque nessa estrutura há uma falha na operação efetiva do recalque. A problemática da compreensão na psicose se dá na própria medida em que falta ponto de basta nessa estrutura. A origem da psicose está na foraclusão do significante do Nome-do-Pai. A psicose se desencadeia quando, em momentos significativos na vida do sujeito, em que ele é convocado a se situar no plano simbólico, há um apelo a esse significante e ele não comparece, pois não há significante para responder a esse apelo (LACAN, 1998 [1957-58], p. 584). Portanto, a consequência lógica da referida falha da operação efetiva do recalque e, logo, da falta do ponto de basta na psicose, é uma diferença radical na estrutura da compreensão entre a compreensão no sujeito "normal" e a compreensão no sujeito psicótico, no sentido em que, rigorosamente falando, não podemos falar de compreensão na psicose e sim de certeza. Uma certeza radical, não dialetizada pelas dúvidas próprias do tempo para compreender. A certeza concerne ao registro do real que, segundo Lacan (2005), é o que não engana. O real toca no incompreensível, no que não tem sentido algum (LACAN, 1996). Então, uma pergunta inevitavelmente se impõe: na psicose, estaríamos no campo da absoluta incompreensão? E, se assim o for, por que tal miragem da "compreensão encontrou possibilidade de ser reivindicada?

Entretanto, a falta do ponto de basta na psicose não significa que, nessa estrutura psíquica, estamos no império do incompreensível. De acordo com Lacan, a perigosa armadilha na qual caem tanto Jaspers como Kraepelin existe justamente por causa do sentimento surgido ao adentrarmos nos fenômenos elementares, a saber, de que estamos no domínio do compreensível. "Ainda quando o que se compreende não pode nem mesmo ser articulado, denominado, inserido pelo sujeito em um contexto que o explicite, isso já se situa no plano da compreensão" (LACAN, 1992, p. 31). Isso porque, na psicose, antes de uma falta radical, trata-se de uma falha no mecanismo da compreensão. A ilusão de "compreender os psicóticos" surge justamente porque trata-se de um campo concernente às "coisas que em si mesmas já se fazem compreender" (p. 31).

Todavia, nesse "compreender os doentes" trata-se de uma ilusão, porque tal abordagem pautada na ética da compreensão não consegue escutar a diferença na vivência da compreensão na psicose, a saber, que esse núcleo perfeitamente compreensível nessa estrutura surpreendentemente é "inacessível, inerte, estagnante em relação a qualquer dialética" (LACAN, 1992). Lacan fala de uma inércia dialética no cerne dos fenômenos elementares na psicose. Essa suspensão na dialética da compreensão, na psicose, de que nos fala Lacan, nos remete à já referida retroação própria da temporalidade lógica que regula o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir a partir da amarração dialetizadora entre essas etapas feita pelo ponto de basta. Logo, podemos dizer que a consequência lógica da falta ponto de basta na psicose é a ausência da dimensão dialética no mecanismo da compreensão. Devido à falta de ponto de basta, a compreensão na psicose não é dialetizada pela dúvida introduzida pela operação do recalque e nem é amarrada logicamente ao momento de concluir, como ocorre em um sujeito "normal".

A coisa que se esquece é que o próprio do comportamento humano é a movência dialética das ações, dos desejos, e dos valores, que os faz não somente mudar a todo momento, mas de maneira contínua, e até mesmo passar a valores estritamente opostos em função de um rodeio do diálogo. Essa verdade absolutamente primeira está presente nas fábulas mais populares, que mostram o que era num momento perda e desvantagem tornar-se no instante seguinte a própria felicidade concedida pelos deuses. A possibilidade do recolocar em questão a cada instante o desejo, a afeição, e mesmo a significação mais perseverante de uma atividade humana, a perpétua possibilidade de uma inversão de sinal em função da totalidade dialética da posição do indivíduo, é experiência tão comum que se fica estupefato de ver essa dimensão esquecida, desde que se tem de lidar com um semelhante, que se quer objetivar. (LACAN, 1992, p. 32-33).

A falta do significante do Nome-do-Pai, da "estrada principal" (LACAN, 1992) e, por conseguinte, de ponto de basta introduz na psicose uma falha na dinâmica do jogo entre o sentido e o nonsense e na dimensão da compreensão enquanto uma etapa lógica que dialetiza a certeza que toca no real e prepara e apóia pontos de conclusões.

 

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

É importante considerar que Jaspers (1974), influenciado pelos trabalhos de Kant e da fenomenologia de Husserl, estabeleceu na sua psicopatologia moderna uma distinção entre "forma" e "conteúdo", reivindicando fundamentalmente que o mesmo conteúdo, como, por exemplo, o conteúdo hipocondríaco, dependendo da forma como se contitui e se apresenta pode concernir a diagnósticos distintos. Nessa direção, podemos dar os seguintes exemplos: uma crença delirante de culpa tem o mesmo conteúdo, mas uma forma diferente de uma crença obsessiva de culpa. Inversamente, uma crença delirante de ciúme tem a mesma forma, mas um diferente conteúdo de um delírio de perseguição. O mesmo "conteúdo" pode estar presente na consciência do doente em diferentes "formas" - alucinação auditiva, crença delirante, crença obsessiva etc. Com isso, Jaspers e todos que o seguiram, como Wing (1978), Bloch e Reddaway (1977) e Snezhnevsky (1971) reivindicam que o relevante para que uma crença tenha o estatuto de delírio não é o conteúdo, mas a forma dessa crença (FULFORD, 1993).

Entretanto, reivindicamos aqui, a partir da Psicanálise, que Jaspers não extraiu as devidas consequências disso para a sua abordagem da compreensão, na própria medida em que, usando dos seus termos, ele não conseguiu perceber que o processo da compreensão ocorre de formas radicalmente diferentes em um sujeito psicótico e em um sujeito normal.

Ainda na Psiquiatria, encontramos a abordagem de Kraepelin (2009 [1920]) que, prerrogando a via da "psiquiatria comparada" na compreensão sobre a essência e as conexões internas dos processos psicopatológicos dos pacientes psiquiátricos, começa a tecer críticas à "compreensão empática" de Jaspers.

Kraepelin, concernido a alcançar uma melhor compreensão das formas de manifestação da insanidade, apesar da existente dificuldade, reconhecida por ele, pela extraordinária variedade nas formas de apresentação dos quadros patológicos que correspondem ao mesmo sofrimento de base, reconhece a "compreensão empática" de Jaspers como um dos "caminhos principais para se obter uma compreensão mais aprofundada das manifestações das doenças" (KRAEPELIN, 2009 [1920], p. 170). Define empatia como "aquele poético sentimento que nos coloca em sintonia com os processos anímicos que estão ocorrendo no outro" (KRAEPELIN, 2009 [1920]). Reivindica que a "compreensão empática" lança uma surpreendente luz sobre os processos emocionais, frequentemente tão incompreensíveis, como os processos emocionais dos esquizofrênicos. "Ao procurarmos nos colocar em seu lugar através dos sentimentos, conseguimos entrar em contato com as raízes das causas de sua doença; conseguimos conhecer a história do desenvolvimento de suas alucinações e, eventualmente, conseguimos também identificar a 'mola propulsora' oculta - e eventualmente longínqua - responsável por suas estranhas atitudes" (KRAEPELIN, 2009 [1920]). De acordo com esse psiquiatra, por meio da "compreensão empática", podemos encontrar em nosso próprio interior, ao menos em forma de alusão, as raízes de espécies de sofrimento, tais como as alucinações dos paranoicos, bem como as raízes dos processos psíquicos nele envolvidos. Contudo, Kraepelin introduz obstáculos para a abordagem de Jaspers: "as conexões compreensíveis do acontecer psíquico podem (...), ser adiadas ou interrompidas de maneira tão eficaz que fica muito difícil seguir o seu rastro com os meios auxiliares que estão ao nosso alcance" (KRAEPELIN, 2009 [1920], p. 171) nas formas de insanidade causada por fatores externos e no extenso grupo das perturbações psíquicas, que têm suas condições de surgimento nas mudanças corporais internas.

Kraepelin não somente reconhece esse obstáculo no caminho da operacionalidade da "compreensão empática", como também reconhece o pontencial de engano encerrada pela estratégia de compreender a vida psíquica de um terceiro em nosso próprio mecanismo. Assevera que a "empatia é um procedimento bastante inseguro que, no entanto, é indispensável para a aproximação entre os seres humanos e para a criação poética; mas, como meio auxiliar de pesquisa, pode levar aos maiores enganos" (KRAEPELIN, 2009 [1920]), tanto no que concerne aos constructos aventureiros de quem escuta quanto à possibilidade de autoengano por parte do paciente. Chega até mesmo a atentar para o que se mantém como incompreensível. No entanto, o presente artigo argumenta que a crítica de Kraepelin, embora tenha o mérito de denunciar algo da dimensão do engano presente na "compreensão empática", não é rigorosa no sentido de estabelecer essa dimensão do engano na espeficidade própria da psicose como o fez Lacan.

A crítica feita por Lacan da abordagem da compreensão empática reivindicada por Jaspers não significa que a "compreensão" não tenha nenhum valor para a Psicanálise. O que Lacan critica é a dimensão exclusivamente imaginária encerrada na estrutura da "compreensão empática": se colocar no lugar do outro, excluindo as diferenças entre o sujeito e o outro e a dimensão do engano. Critica também a profunda negligência da dimensão dialética no mecanismo da compreensão que abre as portas para uma abordagem equivocada da compreensão e, consequentemente, para os equívocos no diagnóstico e na direção do tratamento, como vimos no decorrer desse trabalho. Isso não significa também que a Psicanálise só esteja concernida com o ab sens, e que, para ela, pouco importa o sentido. Mais uma vez, o que Lacan critica é tomar o sentido na vertente exclusivamente imaginária e, por conseguinte, estabelecer uma relação biunívoca entre significante e significado.

Se, a partir da Psicanálise, é legítimo reivindicar que se trata de uma diferença radical na problemática da compreensão nas estruturas neurótica e psicótica, no sentido em que, rigorosamente falando, não podemos falar de compreensão na psicose e sim de certeza, introduz-se essa questão fundamental para este trabalho: como poderia ser possível o sujeito "normal" que escuta o psicótico se colocar no lugar do paciente no que tange à compreensão da sua experiência?  A referida diferença radical sugere a exclusão de qualquer possibilidade lógica da "compreensão empática".

Isso não implica nenhuma plausibilidade da "compreensão empática" na escuta de sujeitos que não estão na psicose, pois a dimensão do engano, em sua legitimidade, está dada a partir da operacionalidade efetiva da ordem simbólica que é, por excelência, a ordem da mentira, do equívoco e da ambiguidade, a partir da operação do recalque. No entanto, embora haja uma falha estrutural no coração do simbólico, há esse registro na psicose e, com ele, na sua precariedade, a aparência de compreensão.

Apesar da certeza e do não engano na psicose darem a ilusão de que ao contrário da estruturação "normal" estamos nesse campo justamente no campo da compreensão segura, a "compreensão empática" é deflagrada como uma quimera de maneira mais aberrante na psicose. Isso justamente devido à diferença radical no mecanismo da compreensão no sujeito "normal" e no sujeito psicótico. Jaspers parece ter sido capturado por essa ilusão, no que ficou concernido a compreender o encadeamento significativo dos fenômenos elementares, como o delírio, por exemplo, e não conseguiu escutar este elemento como uma produção simbólica precária do psicótico para tentar recobrir o real da sua experiência, que se manifesta na sua certeza inabalável e incompreensível. Lembremos do que Freud (1996 [1911]) nos diz em suas notas sobre o caso Schreber, a saber, que o delírio é uma tentativa de cura. Quando Lacan nos diz que a armadilha da compreensão se coloca a partir do núcleo aparentemente compreensível, isso pode ser entendido nessa referida direção. O delírio, como uma produção simbólica, mesmo que precária, pode aparentar uma certa compreensão e tirar dos trilhos os ouvidos menos atentos que buscam elementos significativos indicadores de compreensão e de sentido. Nessa via da compreensão, não se escuta o ponto fundamental nessa estrutura que está no cerne dos fenômenos elementares da psicose: o incompreensível concernente ao registro do real que no seu caráter inerte se mantém inabalado em sua certeza.

Embora nesse momento de seu ensino Lacan não tivesse definido a categoria do real como viria a fazer anos mais tarde e, por conseguinte, o real seja usado em muitos momentos como o mesmo que realidade, Lacan ratifica na sua interpretação da psicose com os seus fenômenos elementares o corte rigoroso com a realidade material já efetuado por Freud no seu artigo "A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose". Nessa direção, o rigor conceitual do que virá a se constituir anos mais tarde como o registo do real, como o que é impossível de ser simbolizado, e com ele, a noção de verdade como concernente a esse registro e não à realidade material, já estavam presentes no seu espírito, já estavam rascunhados no seu texto, quando ele, mesmo sem separar explicitamente realidade de real, separa com um rigor impecável realidade de certeza ao nos dizer que não é de realidade que se trata na crença delirante, mas de certeza (CORREA, 2008; 2009). Uma certeza radical e inabalável que concerne ao psicótico mesmo quando ele se exprime no sentido de dizer que aquilo que sente não é da ordem da realidade.

De acordo com Lacan, ao contrário do que muitos psicólogos e psiquiatras acreditam - que os psicóticos acreditam na "falsa" realidade deles -, eles, na verdade, mostram que não acreditam nessa referida "falsa" realidade. Antes, os psicóticos têm certeza acerca da experiência deles. Para Lacan, isso está mesmo ao alcance das pessoas que não são psiquiatras. Nesse ponto, Lacan faz referência a Maurice Merleau Ponty (1962) acerca do tema da coisa e do mundo natural, onde Ponty, discutindo sobre a alucinação, observa que, em termos de realidade, o insano não acredita no que ele vê ou ouve, ou, quando questionado, ele corrige sua declaração nesse ponto. Essa é uma indicação importante vinda de Lacan, de que não podemos falar de compreensão da experiência na psicose, no sentido rigoroso do termo, porque a crença, rigorosamente falando, é atravessada pela dimensão da dúvida e, por conseguinte, tem que ser pensada a partir do tempo para compreender. A partir dessa indicação, impõe-se uma questão: será que a reivindicação da legitimidade da "compreensão empática", por parte de psiquiatras e psicólogos, pode ser pensada a partir dessa abordagem da "crença" e não da "certeza" do psicótico acerca da experiência deles?

Consequentemente, o que está sendo ressaltado aqui é que, se por um lado, Lacan não nega a existência de um núcleo completamente compreensível na psicose no qual a abordagem da compreensão empática encontrou o seu fundamento, por outro, a falta de ponto de basta deflagra, na psicose, a dimensão patente e gritante do incompreensível e do ab sens. Pois, na psicose, a falta da dimensão dialética da dúvida própria do tempo para compreender preparando e apoiando o momento de concluir introduzida pelo ponto de basta situa paradoxalmente o núcleo perfeitamente compreensível como fenômeno incompreensível. Nessa direção, podemos nos reportar para o lugar da certeza psicótica nessa dimensão, no sentido de que essa certeza sustenta o domínio do incompreensível, na própria medida em que se constitui como radical, não dialetizada e, por conseguinte, inatingível, apesar da existência da referida aparente compreensão nos fenômenos elementares onde essa certeza toma lugar. Na psicose, não há a marca efetiva do recalque operado pelo significante do Nome-do-Pai que barra o real, e o inconsciente aparece a céu aberto (CORREA, 2008). Lacan (2005 [1967]) nos dá um indício de que trata-se no ponto de basta, elemento fundamental na compreensão "normal", de uma compreensão de esguelha, efeito de uma não compreensão que opera no a posteriori próprio do tempo lógico.

Lacan, em sua crítica da "compreensão empática" na psicose, parece sugerir que trata-se de uma dimensão idealizante no fundamento da abordagem da compreensão feita por Jaspers. Se levamos em consideração a fina sugestão de Lacan (2005 [1967]) na "Proposição sobe o Analista da Escola"  que onde o Ideal está operando, temos como contrapartida lógica a segregação, a exclusão das diferenças; podemos entrever que tal reivindicação adquire alcance e consistência nesse campo da compreensão, onde é patente a dimensão do Ideal em jogo.

Nessa direção, Lacan parece sugerir que adotar a abordagem da "compreensão empática" na escuta da psicose, ou seja, mergulhar no delírio do paciente para comprendê-lo tal como Jaspers reivindica, tem como consequência lógica a exclusão da diferença de estrutura da neurose para psicose, diferença que diz da espeficidade da psicose, na própria medida em que nessa via da comprensão, conforme Charles Blondel, em seu livro sobre A Consciência Mórbida notou: o próprio das psicopatologias é enganar a compreensão e, por conseguinte, essa via compreensiva fundamenta a "loucura de caráter razoável", de conservação da clareza, da ordem e do querer que podemos encontrar em Kraepelin, ainda que ele pensasse abordar criticamente Jaspers. Como consequência lógica, nessa via "compreensiva", pouco falta para que um sujeito psicótico, ao ser "compreendido" seja visto como tendo um comportamento "normal". Chamar a atenção para essa questão que se mostra ainda atual é ético, pois isso tem fundamentalmente uma consequência em qualquer prática da Psiquiatria, Psicanálise e Psicologia que tenha explícita ou implicitamente uma direção de tratamento fundamentada na ética da compreensão, a saber: o risco de, ao tentar "compreender" o paciente psicótico, não proporcionar o tratamento específico que a espeficidade da psicose requer. O risco de se constituir em uma prática a serviço do Ideal da compreensão que tenha como consequência lógica a degradação da legitimidade da psicose enquanto uma doença mental, ou seja, de incorrer na antipsiquiatria sem o saber. Jerusalinsk (1999), em um trabalho concernido a uma abordagem crítica ao Ideal de inclusão encerrado em todo e qualquer projeto de escolarização de crianças psicóticas na escola comum, nos adverte como um falso igualitarismo pode acabar em segregação.

A partir da Psicanálise, podemos reivindicar: trata-se de escutar e não de "compreender" o paciente psicótico.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Rua Santo Antônio 1.042-A - Centro
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E-mail: crlopes2001@yahoo.com.br

Artigo recebido em: 09/09/2010
Aprovado para publicação em: 14/06/2011

 

 

1 "When the content of thoughts emerge one from the other in accordance with the rules of logic, we understand the connexions rationally. But if we understand the content of the thoughts as they have arisen out of the moods, wishes, and fears of the person who thought them, we understand the connexions psychologically or empathically. Only the latter can be called 'psychological understanding'".
2 "We must turn our attention only to that which we can understand as having real existence, and which we can differentiate and describe. This, as experience has shown, is in itself a very difficult task. This particular freedom from preconception which phenomenology demands is not something one possesses from the beginning, but something that is laboriously acquired after prolonged critical work and much effort - often fruitless - in framing constructs and mythologies. When we were children, we first drew things as we imagined them, not as we saw them; so as psychologists and psychopathologists we go through a stage where we form our own ideas, in one way or another, of psychic events, and only later acquire an unprejudiced direct grasp of these events as they really are. And so this phenomenological attitude is to be acquired only by ever - repeated effort and by the ever - renewed overcoming of prejudice".