INTRODUÇÃO
Historicamente, os serviços-escola têm sua trajetória entrelaçada com o início do curso de Psicologia e da regulamentação da profissão no Brasil (Sei, Zuanazzi, Oliveira, Lúcio & Cordeiro, 2019), ou seja, este tipo de serviço apresenta-se vinculado às instituições de ensino superior que oferecem cursos de Psicologia (Zuanazzi, Sei & Rodrigues, 2021). A profissão de psicólogo foi regulamentada em 1962 e dentre as condições para funcionamento dos cursos encontra-se a obrigatoriedade de as faculdades organizarem serviços clínicos abertos ao público (Brasil, 1962).
Dentro deste contexto, os serviços-escola têm, desde então, o objetivo de colocar em prática as técnicas psicológicas aprendidas em sala de aula. Ao mesmo tempo em que representam um papel social importante, visto que possibilitam à população menos favorecida economicamente modalidades de atendimento psicológico que, de outro modo, poderia ser inacessível (Amaral et al., 2012). Neste sentido, observa-se claramente a definição de dois grandes eixos norteadores para o exercício das atividades nos serviços-escola de Psicologia: primeiro, auxiliar no desenvolvimento das competências do corpo discente (ensino) e segundo, prestar serviços à comunidade em que está inserido (extensão) (Boeckel et al., 2010).
Costumeiramente chamadas de clínicas-escola, torna-se importante destacar que este termo veio a ser substituído por serviço-escola a partir do 12º Encontro de Clínicas-Escola do Estado de São Paulo em 2004. O novo termo tem como propósito incluir uma gama maior de modos de intervenção do psicólogo para além dos estritamente clínicos, acompanhando o desenvolvimento da profissão (Amaral et al., 2012; Zuanazzi et al., 2021). Tal mudança no nome se justifica pela modificação no perfil de formação que foi ocorrendo ao longo do desenvolvimento da profissão, uma vez que o termo clínica-escola fazia clara alusão à prática predominante clínica e individual dos estágios curriculares de décadas passadas. Atualmente, torna-se necessária a ampliação das áreas de atuação em Psicologia oferecendo espaços para outros tipos de práticas, como a avaliação psicológica, por exemplo (Boeckel et al., 2010).
Observa-se ainda que as atividades prestadas nos serviços-escola são orientadas de acordo com o perfil de cada curso, descrito em seus Projetos Pedagógicos. Entende-se que os trabalhos oferecidos devem estar alinhados com o perfil do profissional que se pretende formar em cada contexto social. Isso significa que a oferta de serviços, em psicoterapia e psicodiagnóstico, deve estar adequada à realidade da comunidade em que os próprios alunos fazem parte (Boeckel et al., 2010).
Neste sentido, ressalta-se a importância dos estágios ao pensar no perfil do profissional que se deseja formar, uma vez que eles contribuem para o desenvolvimento de habilidades e competências e articulam o diálogo entre a academia e a sociedade. Além disso, os campos de estágio oportunizam o levantamento de questões de pesquisa, muito embora estes espaços sejam mais direcionados ao ensino e à extensão, ficando as ações de investigação como secundárias. Apesar dessa secundariedade, nota-se que a diversidade de práticas oferecidas nos serviços-escola propicia distintas possibilidades de estudos, tornando estes locais importantes para a consolidação do trinômio ensino-pesquisa-extensão (Zuanazzi et al., 2021).
Psicodiagnóstico é o termo que se refere à avaliação psicológica realizada com propósitos clínicos, ou seja, as pessoas são avaliadas no intuito de orientar e planejar um tratamento futuro, diante do problema identificado (Pasquali, 2016). Para Cunha (2011) o psicodiagnóstico pode ser definido como processo científico, limitado no tempo, que utiliza técnicas e testes psicológicos para entender problemas (à luz de pressupostos teóricos) e comunicar resultados, propondo direcionamentos.
Nesta mesma direção, segundo Hutz (2016) o psicodiagnóstico pode ser entendido como um procedimento científico para investigação e intervenção clínica. Trata-se de um processo limitado no tempo, que utiliza técnicas e/ou testes para avaliar e diagnosticar, no intuito de fazer as indicações terapêuticas necessárias. Este mesmo autor conclui que se trata de uma avaliação psicológica de caráter clínico, que adota técnicas reconhecidas pela ciência psicológica para possibilitar uma hipótese diagnóstica, alicerçada em uma compreensão teórica.
Para a efetivação do psicodiagnóstico são seguidas, tradicionalmente, algumas etapas. Inicialmente são realizadas as entrevistas, livre e de anamnese. A entrevista livre tem a finalidade de acolher o paciente, recebê-lo e explorar suas queixas. A entrevista de anamnese busca investigar a história de vida do mesmo, desde a concepção até o momento de sua realização, na tentativa de contextualizar e dar sentido à demanda em investigação. No psicodiagnóstico infantil é feita ainda a chamada entrevista lúdica, no intuito de conhecer, observar e estabelecer um vínculo com a criança em avaliação. De posse dos dados coletados nas entrevistas supracitadas, torna-se possível a elaboração e a execução de um plano de avaliação, composto por testes e outros instrumentos. Por fim, as informações obtidas são analisadas, selecionadas e integradas de modo a permitir a elaboração do laudo psicológico e a devolutiva de resultados, com as sugestões diagnósticas, estimativa de prognóstico e os devidos encaminhamentos necessários (Cunha, 2011; Hutz, 2016).
Nos serviços-escolas, o processo de psicodiagnóstico reserva ao aluno a oportunidade de experienciar, desde a compreensão das queixas relatadas pelo cliente até o encaminhamento para a terapia psicológica ou outro tratamento, que se fizer necessário (Freitas & Noronha, 2005). Ressalta-se que a supervisão em avaliação psicológica demanda que o supervisor acompanhe grande parte do trabalho dos supervisionandos e envolve ensino, correção e interpretação de instrumentos, além do manejo das demandas. E ainda, na fase final do estágio, ocorre ainda a elaboração do laudo psicológico (Rodrigues, 2021).
Neste caso específico em relato, o estágio em psicodiagnóstico permite ao estagiário ganhar experiência na realização de entrevistas (livres e semiestruturadas) e na aplicação e correção de testes psicológicos distintos. Depois desses passos, o aluno organiza e seleciona os dados coletados para proceder com a elaboração do laudo e a execução da devolutiva de resultados, fazendo os devidos encaminhamentos cabíveis a cada caso avaliado.
Os diversos tipos de intervenções desenvolvidas junto aos serviços-escola têm sido objeto de vários estudos recentes, que focalizam desde a caracterização da clientela e a descrição dos serviços oferecidos até as dificuldades inerentes ao trabalho e a elaboração de novas propostas de intervenção. Tais estudos têm se mostrado imprescindíveis tanto para o aprimoramento das práticas já existentes quanto para a criação de novos serviços ou modalidades de atendimento (Peres, Santos & Coelho, 2003). Neste caminho, Rodrigues (2021) sugere o compartilhamento de informações acerca de avaliações psicológicas realizadas em serviços-escola, ampliando o olhar científico-acadêmico e a busca de melhorias.
Segundo Boaz e Nunes (2010), os serviços-escola estão cada vez mais preocupados em caracterizar a sua clientela, com o intuito de direcionar as suas modalidades de atendimento às diferentes problemáticas apresentadas pela comunidade. Para tanto, estas autoras conduziram uma revisão da literatura acerca do atendimento infantil em serviços-escola na qual verificou-se que a maioria dos estudos realizados nas décadas de 1980, 1990 e nos anos 2000 contemplaram um perfil predominante em termos de encaminhamentos: mais meninos do que meninas e os problemas desenvolvimentais mais citados foram os de aprendizagem e os relacionados ao comportamento externalizante.
Outro estudo conduzido entre 2007 e 2013 observou que o serviço-escola pesquisado registrou 150 crianças inscritas para avaliação psicodiagnóstica, sendo 101 do sexo masculino e 49 do sexo feminino. A maior parte das crianças inscritas concentrava-se nas faixas etárias de nove a 10 anos (36,7%) e de sete a oito anos (26,7%). As queixas escolares foram as mais frequentes, em ambos os sexos. Para os meninos, ela foi seguida pela agressividade e nas meninas, a segunda queixa mais trivial dizia respeito às reações emocionais nas relações familiares (Vagostello, Albuquerque, Queiróz, Lopes & Silva, 2017).
Veríssimo e Serralha (2020) analisaram 60 prontuários de crianças encaminhadas ao serviço-escola por queixas escolares e atendidas entre 2013 e 2017. Elas observaram que a maioria das crianças atendidas era do sexo masculino (75% da amostra), advindas de escolas públicas e com queixas múltiplas de comportamento, aprendizagem e socialização.
Por sua vez, Borsa, Oliveira, Yates e Bandeira (2013) descreveram os atendimentos realizados no Centro de Avaliação Psicológica (CAP) do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um serviço-escola especializado em avaliação e diagnóstico psicológicos. Os resultados indicaram que o psicodiagnóstico ocorreu entre seis e 10 atendimentos, variando de acordo com o objetivo da avaliação e das técnicas utilizadas. A predominância dos atendimentos se deu para o público infantil, seguindo dos adolescentes. Em relação às queixas, a maior parte dos pacientes recorreu ao serviço devido a problemas de aprendizagem e de comportamento, também foram frequentes os problemas de atenção e/ou de hiperatividade.
Os estudos de caracterização das demandas, também entendidas como as queixas apresentadas pelos pacientes, têm o objetivo de qualificar e compreender as questões trazidas pelo público atendido. Ao mesmo tempo em que permitem a identificação das peculiaridades, também significam uma integração entre a pesquisa e a prática. Ressalta-se que segundo a Resolução 510/2016 do CNS, pesquisas com bancos de dados não precisam ser registradas ou avaliadas pelo sistema CEP/CONEP (Lobosque, Capdeville & Pereira, 2021; Zuanazzi et al., 2021).
Considerando o exposto, observa-se que a caracterização do perfil da população, dos procedimentos utilizados e das demandas atendidas é fundamental para compreender o fluxo dos atendimentos em psicodiagnóstico. Ainda, permite o aprimoramento das práticas em execução e a detecção de necessidades que poderão significar mudanças na organização das modalidades de atendimento oferecidas nos serviços-escola. Tendo em vista a importância e a necessidade deste tipo de estudo o presente trabalho foi construído, conforme se poderá observar na sequência, a partir da apresentação detalhada da pesquisa desenvolvida.
1. METODOLOGIA
A presente pesquisa pode ser compreendida como documental, pois ocorreu por meio do levantamento e da análise dos arquivos do serviço-escola supramencionado. Dessa forma, ela se enquadra nesse tipo de pesquisa ao atender a finalidade de ter sua base fundamentada em levantamentos de documentos (Fontelles, Simões, Farias & Fontelles, 2009).
O curso de Psicologia do Centro Universitário Presidente Antônio Carlos da cidade de Barbacena – MG foi estabelecido em 2002. De acordo com seu Projeto Pedagógico, os estágios supervisionados ocorrem do quinto ao 10º período, sendo estruturados em dois níveis de complexidade (básico e específico). Dentre as diversas possibilidades de atuação oferecidas, estão os atendimentos clínicos realizados em local determinado a este fim. Nele, os pacientes são recebidos e atendidos sem necessidade de agendamento prévio por meio do estágio básico de Plantão Psicológico (os estagiários realizam acolhimento, escuta e coleta de dados). Posteriormente e durante as supervisões, estes pacientes são direcionados para uma das modalidades de atendimento disponíveis: Clínica Psicanalítica, Clínica AnalíticoComportamental, Clínica Fenomenológica ou Psicodiagnóstico (Centro Universitário Presidente Antônio Carlos, 2021, 2022).
Para a realização deste estudo foram consultados 44 prontuários do estágio específico em psicodiagnóstico que foram recuperados do arquivo da instituição pela responsável técnica pelo serviço. Este montante corresponde aos arquivamentos realizados durante os anos de 2016 a 2019, tendo sido excluídos os prontuários relativos às demais formas de serviços prestados que não a avaliação psicológica.
Neles, foram analisados os seguintes aspectos: ano da avaliação, sexo e idade dos pacientes avaliados, número de sessões, quantidade e discriminação dos testes/instrumentos utilizados e as queixas apresentadas. Os dados levantados foram organizados e quantificados por meio de frequência e porcentagem, usando o SPSS (versão 15.0). Foram considerados os prontuários que tiveram o processo de psicodiagnóstico completo/finalizado e os semicompletos também. O completo implica na realização da sessão devolutiva e o semicompleto é aquele no qual não houve o encerramento do processo e a entrevista devolutiva.
2. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dentre os 44 prontuários analisados, apenas uma avaliação era do ano de 2016 e nove eram de 2019. A maior parte dos protocolos analisados era dos anos de 2017 (27,3%) e de 2018 (50,0%), conforme se pode observar no Gráfico 1. Importante destacar que esses dados se referem aos protocolos que foram recuperados do arquivo pela responsável técnica do serviço-escola em análise e não à totalidade de avaliações feitas em cada um desses anos.

Fonte: Elaborado pelas autoras a partir da análise de 44 prontuários (2023).
Gráfico 1 Ano da realização do psicodiagnóstico
Em relação ao sexo, a maior parte dos pacientes atendidos neste serviço era do sexo masculino (59,1%). Tal dado coaduna com o relatado na literatura consultada, uma vez que Vagostello et al. (2017), Veríssimo e Serralha (2020), Boaz e Nunes (2010) também encontraram maioria de pacientes do sexo masculino atendidos nos serviços-escola explorados por elas.
Para a confecção do Gráfico 2, optou-se por estratificar a amostra em crianças (até 11 anos de idade), adolescentes (de 12 a 19 anos de idade) e adultos (20 anos ou mais) tomando-se como referência a divisão etária proposta por Papalia e Martorell (2022).

Fonte: Elaborado pelas autoras a partir da análise de 44 prontuários (2023).
Gráfico 2 Distribuição da amostra por faixa etária
No que tange à idade, foram avaliadas pessoas de três até 79 anos de idade, uma vez que o psicodiagnóstico realizado no local em questão não faz restrições quanto à faixa etária do público atendido. Porém, a maior parte dos sujeitos avaliados tinha nove anos de idade (20,5%), seguida pelas idades de seis e sete anos, cada uma delas correspondendo a 11,4% do total da amostra. Tal dado também está de acordo com a literatura consultada, uma vez que Borsa et al. (2013) relataram a predominância de atendimentos infantis, sobretudo de crianças em idade escolar.
Sobre a quantidade de sessões realizadas, os dados analisados mostram que o processo de psicodiagnóstico variou de três a 11 encontros, conforme se pode observar na Tabela 1. Analisando-a, torna-se possível constatar que, na maioria das vezes, o psicodiagnóstico transcorreu em sete (16,7%), oito (16,7%) ou nove (16,7%) encontros. Tal dado também está de acordo com a literatura consultada, uma vez que Borsa et al. (2013) relataram a execução de psicodiagnósticos entre seis e 10 sessões, enquanto Freitas e Noronha (2005) relataram entre uma e 13 sessões, com média de cinco encontros.
Tabela 1 Número de sessões realizadas em cada psicodiagnóstico
Número de Sessões | F | % |
---|---|---|
3 | 1 | 3,3% |
4 | 1 | 3,3% |
5 | 4 | 13,3% |
6 | 2 | 6,7% |
7 | 5 | 16,7% |
8 | 5 | 16,7% |
9 | 5 | 16,7% |
10 | 3 | 10,0% |
11 | 4 | 13,3% |
Total | 30 | 100% |
Fonte: Elaborada pelas autoras a partir da análise de 30 prontuários (2023).
Nota-se que para tal análise foram considerados apenas 30 prontuários, já que em 14 casos não foi possível identificar, com clareza e segurança, a quantidade de sessões realizadas. Isso se deveu a transcrições pouco compreensíveis feitas nas fichas de evolução dos pacientes que não diferenciavam com precisão as sessões realizadas no estágio de Plantão Psicológico das conduzidas no estágio em Psicodiagnóstico ou no posterior acompanhamento psicológico recomendado após a finalização da avaliação psicológica.
Em relação aos testes psicológicos e outros instrumentos utilizados e analisando os dados da Tabela 2, percebe-se que, na maioria dos casos, foram usadas três ferramentas para a conclusão do psicodiagnóstico (38,2%). Mais uma vez, este dado encontra-se alinhado à literatura consultada, já que segundo Cunha (2011) bateria é a expressão utilizada para designar um conjunto de testes ou de técnicas. Ainda segundo esta autora, uma bateria pode variar entre dois e cinco instrumentos, que são incluídos no processo psicodiagnóstico para fornecer subsídios que permitam confirmar ou infirmar as hipóteses iniciais, atendendo aos objetivos da avaliação.
Tabela 2 Número de testes utilizados no psicodiagnóstico
Número de Testes | F | % |
---|---|---|
1 | 4 | 11,8% |
2 | 6 | 17,6% |
3 | 13 | 38,2% |
4 | 5 | 14,7% |
5 | 5 | 14,7% |
7 | 1 | 2,9% |
Total | 34 | 100% |
Fonte: Elaborada pelas autoras a partir da análise de 34 prontuários (2023).
Para Hutz (2016) a escolha dos instrumentos utilizados deve se basear na situação e nas demandas apresentadas pelo avaliado ou pelo solicitante da avaliação, desse modo, os instrumentos são selecionados para auxiliar a refutar ou a corroborar a hipótese inicial. Por isso é importante pensar na escolha dos testes de forma individualizada para cada caso, tendo em vista de que uma má escolha poderá gerar conclusões e encaminhamentos equivocados.
Ressalta-se que, para esta análise, foram compilados apenas testes e instrumentos psicológicos e que não foram feitas estatísticas descritivas das demais ferramentas usadas no processo, como os diferentes tipos de entrevistas. Importante mencionar ainda que foram analisados tanto processos de psicodiagnósticos completos (finalizados) como aqueles semicompletos (não finalizados), por isso os dados apresentados na Tabela 2 foram feitos com 34 casos, uma vez que em 10 deles não houve aplicação de testes devido ao não fechamento do processo. Tais informações justificam ainda o aparecimento de apenas um teste psicológico sendo utilizado em alguns casos, nos quais houve desistência antes do encerramento da avaliação.
Além da análise do número de testes empregados, observa-se ainda que os testes e instrumentos psicológicos mais frequentemente utilizados foram a Escala Wechsler de Inteligência Para Crianças (WISC: aplicado em 18 avaliações), a Escala de Estresse Infantil (ESI: aplicada em 14 avaliações) e o Teste de Desempenho Escolar (TDE: também aplicado em 14 avaliações). Este dado encontrado está de acordo com a literatura consultada, uma vez que ao pesquisar o perfil do psicólogo brasileiro, Reppold (2020) constatou que os testes psicológicos são utilizados principalmente para fins psicodiagnósticos e dentre os mais utilizados estão as Escalas Wechsler de Inteligência.
De aplicação apenas individual e indicado para crianças de seis a 16 anos de idade, o teste mais utilizado na presente pesquisa foi a Escala Wechsler de Inteligência Para Crianças (WISC). Convém destacar que durante o recorte temporal pesquisado foram usados o WISCIII (Wechsler, 2003) e o WISC-IV (Wechsler, 2014). Ambas versões permitem uma avaliação cognitiva ampla, fornecendo resultados expressos em QI Total (QIT), que gera uma estimativa global do desempenho intelectual do sujeito avaliado. O QI de Execução (QIE) estima a aprendizagem não verbal e a habilidade para pensar e manipular estímulos visuais. O QI Verbal (QIV) mensura a capacidade de raciocínio, compreensão, memória e aprendizagem verbal. Além desses resultados mais genéricos, o WISC ainda fornece dados bem específicos avaliados por meio de seus subtestes constituintes. Desde 2018, apenas o WISC-IV está indicado para uso, de acordo com a lista do SATEPSI (CFP, 2023).
Durante o período contemplado por este estudo, o Teste de Desempenho Escolar (TDE) era usado, inicialmente, em sua primeira versão (Stein, 1994). Nas avaliações conduzidas a partir de 2019 passou a ser usada a versão revisada e atualizada (TDE-II). Trata-se de uma tarefa psicopedagógica que visa avaliar habilidades básicas de leitura, escrita e aritmética. De aplicação individual ou coletiva, ele está indicado para uso em crianças do 1º ao 9º ano do ensino fundamental, tanto de escolas públicas quanto privadas. Trata-se de uma ferramenta que permite uma análise quanti-qualitativa da aprendizagem escolar, comparando o desempenho do sujeito avaliado com o de outras crianças do mesmo ano escolar (Stein, Giacomoni & Fonseca, 2019). De acordo com a lista do SATEPSI, trata-se de um instrumento não privativo, ou seja, seu uso pode ser feito por outros profissionais, não apenas por psicólogos (Conselho Federal de Psicologia, 2023).
Por último, a Escala de Estresse Infantil (ESI) foi largamente utilizada nas avaliações durante o período abordado na presente pesquisa. Trata-se de um teste que avalia a presença e a intensidade de sintomas de estresse. Ao detectar a presença de estresse, o instrumento ainda avalia o tipo de reação a ele (física, psicológica, psicológica com componente depressivo e psicofisiológico). Já em relação à intensidade, o instrumento estima se a pessoa se encontra em fase de alerta, de resistência, de quase-exaustão ou de exaustão. Indicado para crianças de seis a 14 anos de idade, pode ser aplicado tanto individual quanto coletivamente (Lucarelli & Lipp, 2011). Ressalta-se que desde 2018 este teste encontra-se com parecer desfavorável de acordo com a lista do SATEPSI (Conselho Federal de Psicologia, 2023), não tendo sido mais usado nas avaliações conduzidas após a data do recebimento deste parecer.
Por fim, foram analisadas as queixas iniciais apresentadas pelos pacientes (Tabela 3). Nota-se que a queixa relacionada à dificuldade escolar e problemas de aprendizagem foi a mais prevalente (52,3%), seguida pela queixa de desatenção e hiperatividade (22,7%), sendo que a maioria dos casos era composta por clientes com mais de uma queixa, o que justifica os valores expostos na Tabela 3. Tal resultado encontra-se alinhado com a literatura consultada, uma vez que Borsa et al. (2013) relataram que a maior parte dos pacientes recorre aos serviços-escola de Psicologia devido a problemas de aprendizagem e de comportamento, seguidos pelos problemas de atenção e/ou de hiperatividade.
Tabela 3 Tipo de queixa inicial apresentada
Queixa | F | % |
---|---|---|
Agressividade | 1 | 2,3% |
Alteração no comportamento | 1 | 2,3% |
Ansiedade | 1 | 2,3% |
Crises de pânico | 1 | 2,3% |
Desatenção e hiperatividade | 10 | 22,7% |
Dificuldade escolar/problemas de aprendizagem | 23 | 52,3% |
Ideação suicida | 1 | 2,3% |
Insegurança | 1 | 2,3% |
Problemas de memória | 1 | 2,3% |
Questões profissionais | 3 | 6,8% |
Tristeza | 1 | 2,3% |
Fonte: Elaborada pelas autoras a partir da análise de 44 prontuários (2023)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho pretendeu caracterizar a clientela, os procedimentos e a demanda atendida no estágio específico em psicodiagnóstico do serviço-escola do curso de Psicologia do Centro Universitário Presidente Antônio Carlos (UNIPAC) da cidade de Barbacena/MG. O levantamento dos dados permitiu observar que o fluxo maior de atendimentos realizados na modalidade investigada se deu com crianças (64%) do sexo masculino (59,1%). A quantidade de sessões de avaliação variou de três a 11, sendo mais frequente que o psicodiagnóstico transcorresse entre cinco e nove encontros.
Ainda, foi possível notar que, na maioria das vezes, foram utilizados três testes/ instrumentos (38,2%) por processo de psicodiagnóstico conduzido, sendo o WISC o teste psicológico mais frequentemente utilizado (18 vezes). Em relação às demandas iniciais explanadas, a investigação apontou maior índice de problemas escolares/dificuldade de aprendizagem (52,3%), seguido por queixas de desatenção/hiperatividade (22,7%). Ressaltase que todos os dados encontrados nesta pesquisa estão alinhados com a literatura consultada.
Dentre as falhas deste estudo cabe mencionar que os prontuários encontrados continham poucas informações ou informações imprecisas, dificultando a compilação e a análise dos dados, sobretudo em relação à quantidade de sessões realizadas. Não havia uma distinção clara entre as sessões realizadas no Plantão Psicológico, daquelas conduzidas durante o Psicodiagnóstico e, posteriormente, daquelas conduzidas nas sessões de psicoterapia. Ainda neste sentido, dificuldades também foram encontradas na compilação das queixas apresentadas e isso se deveu ao fato de os pacientes relatarem, na maioria das vezes, múltiplas queixas.
Nestes dois pontos de fragilidades elencados, sugere-se uma padronização em relação aos registros feitos nos prontuários, para facilitar pesquisas futuras. Isso no que diz respeito à divisão das sessões realizadas em cada etapa da passagem do paciente pelo serviço, separando com clareza cada fase do processo de atendimento do cliente no serviço-escola. E também em relação à divisão das demandas por blocos pré-estabelecidos.
Ademais, as limitações apontadas acima não permitiram a análise dos índices de evasão, dado que é tão importante para a identificação de falhas e adoção de atitudes preventivas. Altos índices de desistência foram reportados na literatura consultada (Vagostello et al., 2017; Veríssimo & Serralha, 2020) e sugere-se a investigação deste tópico em estudos futuros realizados no mesmo local. Ainda, o mapeamento das fontes de encaminhamentos também não foi investigado e seria de suma importância para o conhecimento das demandas e da clientela; tal informação é importante e foi compilada e analisada por Silva e Lobosque (2021).
Sabe-se que esse trabalho não respondeu a todas as questões possíveis para este tipo de caracterização. Portanto, recomenda-se que novos estudos sejam feitos e que abordem, além das variáveis aqui compiladas, a relação entre a queixa apresentada e o desfecho do caso, ou seja, sugere-se a investigação da relação entre a queixa inicial e o resultado final do processo diagnóstico. Ainda, outro ponto importante a ser investigado futuramente é a questão do uso de psicotrópicos na população atendida, uma vez que os estudos têm apontado que o consumo deste tipo de medicamento vem aumentando gradativamente nos últimos tempos (Quemel et al., 2021).
Por fim, ressalta-se a importância de estudos como este sob vários pontos de vista. O fluxo contínuo de pacientes em serviços-escola é fonte inesgotável de pesquisa para professores e estagiários, permitindo extrapolar a função de extensão dos serviços-escola. Para a comunidade atendida, o mapeamento da clientela e das demandas permite conhecimento e, a partir dele, realização de adequações para melhor atender às necessidades de saúde da população. Para os estagiários e supervisores, a organização, compilação e análise da população, dos procedimentos e das demandas atendidas significa uma visão ampliada dos processos conduzidos e a possibilidade de readequações e melhoramentos. Ou seja, este tipo de pesquisa propicia, sem dúvidas, o fortalecimento da tríade ensino-pesquisa-extensão.