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Estudos e Pesquisas em Psicologia

versão On-line ISSN 1808-4281

Estud. pesqui. psicol. v.5 n.2 Rio de Janeiro dez. 2005

 

ARTIGOS

 

Falando de metodologia de pesquisa

 

Talking about metodolgy of research

 

 

Elisabeth Maria Aragão*; Maria Elisabeth Barros de Barros**; Sonia Pinto de Oliveira***

Universidade Federal do Espírito Santo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho busca trazer contribuições para as discussões sobre metodologia de pesquisa. Falar de metodologia é falar de escolhas políticas e éticas que pautam qualquer pretensão investigativa, e não de discursos que priorizam um árido formalismo técnico. Dentro dessa ótica, pesquisar é, ao invés de procurar verdades absolutas, conectar-se com a dispersão dos acontecimentos em suas múltiplas direções, cartografando os movimentos que se afirmam em uma determinada realidade. É abrir-se para o inusitado, desviar-se, surpreender e desconhecer. Exemplificando essa forma de compreensão dá visibilidade a uma pesquisa realizada a partir desse eixo metodológico.

Palavras-chave: Metodologia, Cartografia, Pesquisa.


ABSTRACT

This work searches to bring contributions for the quarrels on methodology of research. Speak of methodology it is to say of choices politics and ethics that fundamental any investigation pretension, and not of speeches that prioritize a barren formalism technician. Inside of this optics, to search is, on the contrary, to look absolute truths, to connect with the dispersion of the events in its multiple directions, being mapped the movements that if they affirm in one definitive reality. It is to confide for the unusual one, to turn aside themselves, to surprise and to be unaware of. Exemplify this form of understanding, give visibility to a research carried through from this methodology axle.

Keywords: Methodology, Map, Research.


 

 

Como conhecer a realidade? Do que é feita? Quais seus constituintes fundamentais? A história da Filosofia e da Ciência está marcada por essas e outras perguntas que expressam uma preocupação com o conhecimento da realidade, o que tem acompanhado a história da humanidade. Os fenômenos que cercam a vida e a morte, o lugar dos indivíduos na sociedade, as relações de poder, os mecanismos de controle, materializados no campo social, são temas que encontram explicação em mitos, religiões, filosofias, poesia, arte, ciência. São produções que pretendem explicar os significados da existência, que estão voltadas para o entendimento dos sentidos da vida. Nesse contexto, a ciência é apenas umas das formas de expressão dessa busca que, portanto, não é exclusiva, nem conclusiva, nem definitiva. Na sociedade ocidental, a ciência tem sido a forma hegemônica de construção do conhecimento e, muitas vezes, é considerada um mito por sua pretensão de única promotora e critério de verdade.

Sendo assim, a ciência, como uma das possíveis formas de pensamento, delimita suas pretensões a partir da caracterização de um duplo movimento: contra o senso comum e de afrontamento do caos, entendido como velocidade infinita, e não como desordem ou acaso. A ciência impõe limites ao caos, traçando um plano de referência a partir do qual ele será pensado, referenciado, por conseguinte, por meio dos processos de exigência de fechamento e estabilização artificial do seu objeto de investigação. Estuda mistos espaço-temporais e determina estados de coisas sobre os quais incide sua investigação, gerando conhecimentos. Assim, o conhecimento científico é sempre produção de uma verdade em certas condições de observação.

Há quem busque a uniformidade dos procedimentos para compreender a realidade e atribuir o estatuto de ciência à sua investigação. No entanto, mesmo que a cientificidade possa ser pensada como uma idéia reguladora, ela não se delimita tão-somente por modelos e normas a serem seguidos. Não se trata, assim, de um a priori, mas do que foi produzido em determinado momento histórico com toda a especificidade do processo de conhecimento.

A ciência está marcada por uma problematização operada por uma tendência crítica. Problematização que caracteriza o momento em que a ciência se defronta com o novo e inesperado que a força a pensar e divergir de si mesma. Esse processo nos permite ultrapassar a simples descoberta para a produção de conhecimento, o que configura movimentos de invenção de si e do mundo.

É a partir de problematizações que um projeto de pesquisa se inicia. A atividade de pensar/construir a realidade implica interrogar o que se encontra instituído historicamente.

Tal um arqueólogo, o pesquisador explora estratos teóricos com o intuito de encontrar restos que, quando atualizados, possam imprimir um movimento de virtualização aos estudos realizados. Um arqueólogo não sabe exatamente o que vai encontrar. Há procura. Não se trata de encontrar uma verdade, mas de atualizar uma virtualidade. Nesse caso, a pesquisa busca a identificação de certas regras de formação dos enunciados, das proposições, de certa forma de colocação do problema.

O procedimento de pesquisa é, ao mesmo tempo, produção de saber, construção de metodologia, elaboração de princípios, estabelecimento de resultados e invenção/construção processual do seu caminho, abandonando certas vias e criando outras.

Tem-se associado a concepção de metodologia à utilização de estratégias formais que têm como modelo o campo das ciências naturais ou exatas. Mas o que entendemos por metodologia? A metodologia fala do como pesquisar. Mais do que uma descrição formal dos métodos e técnicas a serem utilizados, indica as opções e a leitura operacional que o pesquisador fez do quadro teórico utilizado. Fala de uma forma de trabalhar que se relaciona com uma postura ética, no sentido de visões de mundo.

Ao se elaborar um projeto de pesquisa, busca-se mapear um caminho a ser seguido durante a investigação: o que pesquisar? Por quanto tempo? Que estratégias de análise utilizar? Portanto, quando elaboramos um projeto de pesquisa, estamos lidando, ao mesmo tempo, com várias dimensões.

A dimensão técnica é uma delas. Nesse âmbito, incluem-se os princípios para a construção do projeto, o que implica a definição de um objeto de pesquisa e a definição de como abordá-lo e como escolher os instrumentos mais adequados para a investigação. Inclui a montagem de instrumentos, por exemplo, entrevistas individuais ou coletivas, fotografias, filmagens, diário de campo, etc.

Uma outra dimensão é a dimensão ética, que diz respeito às escolhas do pesquisador. Ao definir o que pesquisar e ao determinar a partir de que base teórica sua construção será pautada, o pesquisador efetiva necessariamente escolhas políticas. Como sabemos, o conhecimento é sempre histórico e, ao fazer escolhas, o pesquisador tem como horizonte sua inserção no campo social e suas escolhas expressam, por conseguinte, a mentalidade de um momento histórico.

Muitas vezes, identifica-se metodologia de pesquisa com a sua dimensão técnica. O endeusamento das técnicas pode produzir um formalismo árido. Ao contrário, a produção de conhecimento está muito mais associada à violação das regras do que à sua obediência. Não se trata, entretanto, de desprezo às estratégias técnicas de abordagem da realidade, mas de negar os diferentes tecnicismos.

As técnicas “[...] são imaginadas, fabricadas e reinterpretadas durante seu uso pelos homens, como também é o próprio uso intensivo [dessas técnicas] que constitui a humanidade enquanto tal (junto com a linguagem e as instituições sociais complexas) [...]” (LÉVY, 2000, p.34).

Conforme Lévy (2000), os sistemas sociotécnicos não são uma entidade real que existiria independente de tudo, que teria efeitos distintos e agiria por vontade própria. Nessa perspectiva, seria impossível separar o humano de seu ambiente material, do ambiente das idéias e das representações, pois os objetos técnicos são concebidos e utilizados pelos humanos que os inventam, produzem e os utilizam.

O que temos presenciado é, de um lado, um otimismo exagerado nas supostas virtudes das técnicas (das tecnologias) e, de outro, um pessimismo gerado pela ameaça de uma dominação técnica.

Esse antagonismo resulta numa visão simplista das relações homem-técnica. Pensar essa relação em sua complexidade é tratá-la na sua dimensão de subjetivação coletiva e definida a partir de uma lógica de composição e não de dominação. Tal relação precisa estar situada num mundo de significações ético-políticas.

 

A “arqueogenealogia” 1 como operador das práxis

Temos trabalhado em diferentes espaços sociais – escolas, hospitais, sindicatos – privilegiando o enfoque micropolítcio de G. Deleuze e F. Guattari (1995) e a análise dos discursos legada por M. Foucault (1974).

Inúmeras e constantes indagações/inquietações nos têm sido remetidas em relação à possibilidade de esse instrumental delinear uma metodologia a ser utilizada com clareza.

Atribuímos tais indagações ao fato de as produções no campo da metodologia de pesquisa terem uma marca positivista, mesmo no âmbito das pesquisas qualitativas. Conforme assinalamos, falar de metodologia é falar de escolhas políticas e éticas e não de um árido formalismo técnico. É o caminho do pensamento e a forma de abordar o real, que inclui as concepções teóricas de abordagem e o conjunto de técnicas que viabilizam a construção do conhecimento, que asseguram ou não, o potencial inventivo do processo de investigação, o que equivale considerar todo o conjunto de procedimentos que funcionam como opções teóricas e éticas no encaminhamento do processo construção do conhecimento.

Não é nosso propósito, no presente artigo, realizar uma revisão bibliográfica sobre as concepções teóricas dos referidos autores que nos têm instrumentalizado nas investigações que vimos desenvolvendo, uma vez que esse material é vastíssimo e já há muito disponível. Visamos a afirmar algumas diretrizes que podem contribuir para as discussões sobre “metodologia de pesquisa”, assim como pretendemos uma aproximação mais efetiva com os autores que privilegiamos.

Foucault, em “Arqueologia do saber” (1972) e “As palavras e as coisas” (1987), trata mais detidamente da análise dos discursos como um caminho metodológico de investigação. Mas o que vem a ser discurso? “[...] é um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma época dada, e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística, as condições de exercício da ‘função enunciativa” (FOUCAULT, 1996, p. 28).

Não se trata de analisar o “sujeito” que fala, saber quem fala ou por que fala, mas a função enunciativa, que significa conhecer as regras que constituem aquele discurso, que só pode ser entendido quando articulado no campo social complexo que o engendra.

Foucault não trata os discursos como conjuntos de signos, de elementos significantes que remetem a conteúdos ou à representação, não faz análise das “coisas” ou das palavras; descreve as práticas, ou seja, o que fazem as pessoas em determinadas condições sociais e que formam sistematicamente o objeto de que falam. E aqui lembramos que a prática discursiva é uma prática.

Num procedimento de pesquisa nesse viés, perguntamos: quais são essas práticas? O que criam? O que põem para funcionar? Ao trabalhar com funções enunciativas, fazemos aparecer, fazemos existir com conteúdos concretos e de modo singular tais ou quais conjuntos de signos. Função por que relaciona os signos com os efeitos objetivantes, ou seja, que produz determinados objetos. Produzir objetivações é constituir uma dada materialidade, marcar a carne, fazer corpo. Um corpo discursivamente real, pois o que falam os sujeitos pesquisados só adquire sentido pelo discurso.

Ao invés da análise de um conjunto de proposições logicamente relacionadas, buscando uma ordem, uma sistemática, sua articulação com o real concreto, representando relações abstratas entre coisas, fatos, fenômenos e/ou processos, a análise arqueológica busca descrever os dizeres sem a pretensão de encontrar relações lógicas entre eles. Por meio das frases, do que é falado e/ou escrito, procura dar visibilidade aos enunciados sem se deter em seus elementos constituintes. O que é formulado no enunciado é o que importa ao pesquisador, constituindo-se, assim, como uma análise histórico-política. Para extrair os enunciados, é preciso rachar as frases, as proposições, as palavras.

A análise da função enunciativa não é, portanto, uma análise lógica, nem gramatical, nem psicológica; é uma análise do conjunto de enunciados efetivos que são falados e escritos.

Ao pesquisar pessoas, relações, organizações, temas, obras, documentos o que se procura são os acontecimentos discursivos – conjunto de enunciados – que, como tais, produziram de forma singular os objetos pesquisados. A pergunta a ser feita quando optamos pela análise do discurso é: como apareceu um determinado discurso e não outro em seu lugar?

Os discursos produzem uma forma de “ver e dizer” o mundo em meio a um complexo jogo de forças que lhe dá condição de emergência. É combinação do que é dito e visto numa formação social dada. Não há nada antes ou abaixo do discurso, por isso a análise não se pretende interpretativa, mas descritiva.

O discurso constitui realidades. Não é a “fala” dos entrevistados, no seu aspecto lingüístico, que tentamos ouvir e, sim, o que o discurso enuncia. Buscamos as regras de constituição dos discursos neles mesmos. Melhor dizendo, pretendemos apreender e analisar não a “fala” como coisa dita, mas tentamos procurar as múltiplas determinações que levam os sujeitos pesquisados a fazer determinadas afirmações.

A unidade de um discurso constitui-se a partir de um jogo de regras que conectam enunciados dispersos e que a faz emergir. O discurso, então, englobará um conjunto de enunciados, mas não de enunciados quaisquer e, sim, daqueles que provêm dessa formação discursiva. Por exemplo, analisar os enunciados sobre a loucura, num determinado momento histórico, é analisar as práticas dos hospitais psiquiátricos, as teorias sobre a loucura, o que pensam e dizem da loucura na mídia, nos lares, nas escolas, nas ruas da cidade, nos múltiplos espaços sociais, e analisar como tais discursos produzem uma determinada forma de lidar com a loucura, o que aponta a constituição histórica desse objeto. É analisar as condições de existência das políticas de saúde, perguntando o que dizem, como dizem, por que dizem e afirmam/efetivam determinadas políticas de saúde para o chamado “doente mental”. Os discursos nesse campo, a partir de certas regularidades, constitui um saber sobre a loucura. Tais regras acabam por produzir certas formas de ver e falar essa temática, naturalizando-a. Ao situar sua constituição histórica, desnaturalizando uma certa forma de pensar e tratar a loucura, estaremos sinalizando para a possibilidade de construção de outras práticas. Que efeitos de verdade são produzidos nos discursos enunciados sobre a loucura na nossa sociedade?

As instituições, práticas e processos econômicos também produzem enunciados, o que nos traz um outro aspecto relevante no trabalho de pesquisa, qual seja, a consideração de que o campo de pesquisa é sempre um campo histórico-político. A questão central é, abandonando a noção de influência, tentar descrever o campo discursivo no qual são produzidas concepções, como “o” individual, “o” social, “o” histórico, e como se constituem.

A investigação das práticas não tem o objetivo de constituir explicações universais, já que as práticas são pontuais, singulares, circunstanciais, localizadas. Objetiva-se produzir inquietações e positividades, análises comparativas, generalizações, totalizações são descartadas, pois remetem a uma visão de mundo que essencializa, naturaliza sujeitos e objetos. A análise do discurso não procura verdades a serem reveladas, portanto, como já mencionado, não utiliza interpretações, o instrumental teórico/técnico a ser utilizado busca descrever os procedimentos ou formas por meio dos quais nossas histórias tornam-se verdadeiras.

Assim, os instrumentos comumente utilizados: entrevistas individuais ou em grupo, observações, diário de campo e outros não almejam, quando utilizados, desvelar verdades dos sujeitos, grupos, documentos, que estariam, então, supostamente encobertos em suas expressões. Antes se constituem em ferramentas para a análise da função enunciativa. Os dados não são analisados procurando-se algo que eles estariam ocultando. É “[...] necessário conversão do olhar e das atitudes para poder reconhece-lo (o domínio enunciativo) e considera-lo nele próprio” (FOUCAULT, 1972, p. 204).

Para fazer possível essa conversão, a nosso ver, o exercício da liberdade é fundamental. Na esteira de Foucault (1974), liberdade é o movimento de questionar as práticas por meio das quais somos constituídos e não resgatar algo como quer o humanismo, o antropologismo. Não há esse algo, reiterando, somos produzidos pelas práticas sociais e essas são sempre configurações complexas e processuais.

Pesquisar é, ao invés de procurar verdades absolutas, ir conectando-se com a dispersão dos acontecimentos em suas múltiplas direções, cartografando os movimentos que ali se afirmam; é abrir-se para o inusitado, desviar-se, surpreender e desconhecer; é positivar as múltiplas direções que os agenciamentos – conexões – podem imprimir aos corpos; é explorar devires que se insinuam. E isso por quê? Porque podemos questionar o modificar aqueles sistemas que tornam possíveis somente certas espécies de ação.

Os instrumentos escolhidos apontam uma direção ético-política. O que distingue os diferentes processos metodológicos é, portanto, a postura assumida na análise dos dados e não os instrumentos utilizados. O olhar sobre o material coletado é o que diferencia, principalmente, os métodos de pesquisa. Como trabalhar com os dados obtidos no campo investigado?

Uma metodologia de pesquisa que se instrumenta na micropolítica é essa que investiga e que acompanha as práticas que constroem e desconstroem os objetos. Pretende estar atenta aos movimentos de criação, às orientações e direções que se opõem à adaptação, a modelos traçados no próprio tecido social. Dessa forma, nesta perspectiva, a análise dos dados não se atém aos aspectos já constituídos do campo social, aos conjuntos bem delimitados, por exemplo: as concepções e contraposições adulto x criança, pai x mãe, novo x velho, que constituem o que chamamos de nível macropolítico. Objetivamos estar atenta não só ao que vemos e já nos acostumamos/naturalizamos e não nos inquieta mais, e, principalmente, estar atentas aos processos mutantes, que criam e destroem, constroem outras configurações na paisagem social.

Esses dois planos da realidade pesquisada estão sempre ligados, são inseparáveis, se cruzam, se entrecruzam, se transformam, estão misturados, um pressupõe o outro. Por isso, é preciso colocar no nosso campo de análise os movimentos que vão se insurgindo e quebrando uma certa configuração social e forçando outra.

Pesquisar, portanto, é questionar e modificar aqueles sistemas que tornam possíveis somente certas espécies de ação. Se quisermos experimentações diferentes daquelas que nossas práticas possibilitam, são outras práticas que devemos construir mergulhando no plano micropolítico, na análise da função enunciativa, para produzir novas regiões de saber. É com esse objetivo que caminhamos quando do tratamento dos dados coletados, nos interrogando sobre o que está instituído e tomando as práticas concretas como domínio privilegiado de análise.

A metodologia que estamos propondo pergunta aos dados coletados: o que é produzido? Que sujeito e objeto são constituídos? Como? Com que contornos? O que põe em funcionamento? Onde e como se localizam os movimentos de criação? E se a pesquisa também é uma prática, o que produz? Com que ética?

 

RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA...

Em pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação na UFES, (OLIVEIRA, 2001), sobre a produção do fracasso escolar, tivemos a oportunidade de experimentar essa forma metodológica de pesquisar.

O trabalho foi realizado em uma escola da rede pública municipal de ensino de Vitória/ES que atende do pré à 8 série.

Durante o período da pesquisa, mergulhamos no cotidiano da escola junto aos alunos, professores, servente, porteiros, bibliotecária, secretárias, diretora, coordenadora...

Realizamos entrevistas e observações, ora individuais, ora em grupos, nos diferentes espaços da escola: sala de aula, sala de professores, pátio, portão, sala de planejamento, secretaria, biblioteca, corredores, refeitório, e também em eventos culturais e comemorativos, dentre outros.

Efetivamos também alguns encontros com alunos, professores e pedagogos, separadamente ou simultaneamente, nos quais se debruçava “[...] sobre o dia a dia marcado por tantos e tão ricos movimentos” (OLIVEIRA, 2001, p. 10).

O trabalho buscou trazer algumas análises do que foi vivido em diferentes modulações de intensidades durante todo o percurso da pesquisa. Não procuramos traçar um perfil da escola nem qualquer retrato daquele estabelecimento que implicasse qualquer juízo de valor. O objetivo foi “[...] investigar alguns movimentos que vão construindo o dia-a-dia escolar – seus objetivos, sujeitos, relações, seus funcionamentos [...]” (OLIVEIRA, 2001, p. 10), no sentido do que aquela máquina escolar produz. Nessa direção de análise, o objetivo do projeto da pesquisa foi desnaturalizar ou desmanchar contornos duros que delineiam os cenários da escola na tentativa de construir outras práticas educacionais, em especial quanto à produção do fracasso escolar, aliançadas com uma perspectiva ética de transformação do que está instituído pela lógica hegemônica nas escolas públicas no Brasil hoje.

O que moveu a pesquisa foi, principalmente, tocar a “[...] abertura do devir [...] não se atendo à descrição do real [...] mas identificando os pontos de tensão, os entrelaçamentos, os nós, onde as relações contraditórias se entrelaçam” (ZARIFIAN, 1995, p. 2). Assim, objetivamos produzir inquietações, exercer a liberdade, dentro da ótica foucaultiana, como já mencionado acima.

Nesse sentido, a partir do que falaram os entrevistados, efetivamos um exercício de descrição das práticas que reificam o fracasso escolar, assim como daquelas outras que rompem com seus contornos.

Pelas falas, buscamos analisar o que se colocava em funcionamento no fazer escolar, o que se produzia, os efeitos das práticas, sujeitos e objetos construídos, que ações objetivam o fracasso escolar, como, com que contornos e as possibilidades de potencializar novas práticas já existentes naquele entorno.

Nossa questão se pautou, durante todo o tempo, na interrogação:

Que outras práticas ensejamos incrementar que rompam com o estilo de vida intimizado, classificatório, hierarquizado que concebe e divide a vida num caso de fracasso ou de sucesso, que fragiliza nossa potência de expansão de mundos, de criação, de territórios existenciais, já que concebe esses como naturais, essenciais, definitivos, desejáveis e não como contingentes, circunstanciais, portanto, provisórios? (OLIVEIRA, 2001, p. 20).

O método utilizado na pesquisa viabilizou o enveredamento no cotidiano escolar de forma a exercitar experimentações que anseiam por não aprisionar a riqueza dos movimentos que emergem no cotidiano escolar, na medida em que “desrealiza” esse cotidiano, coloca-o em questão.

Concluindo, diríamos que, conforme afirmamos, somente uma metodologia de pesquisa que tenha como perspectiva ética o questionamento dos especialismos e dos tecnicismos que endurecem e asfixiam o real, pode criar picadas, atalhos e possibilitar a colocação em funcionamento de novas práticas educacionais/sociais. Pode, enfim, concorrer como estratégia para a transformação ou para a manutenção daquilo que se delimitou como real.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. v.1.

LÉVY, P.; AUTHIER, M. As árvores de conhecimentos. 2. ed. São Paulo: Escuta, 2000.

FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Petrópolis: Vozes, 1972.

FOUCAULT, M. Palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

OLIVEIRA, Sonia Pinto de. Micropolítica do fracasso escolar: uma tentativa de aliança com o invisível. 2001. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2001.

ZARIFIAN, P. Travail, événement et rapports sociaux. Le Travail et l’Événement. Paris: L’Harmattan, 1995.

 

 

Endereço para correspondência
Elisabeth Maria Aragão
E-mail: baragao@terra.com.br

Maria Elisabeth Barros de Barros
E-mail: betebarros@uol.com.br

Sonia Pinto de Oliveira
E-mail: soniapdo@bol.com.br

Recebido em: 25/08/2005
Aceito para publicação em: 03/11/2005

 

 

NOTAS

* Professora Doutora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo.
** Professora Doutora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo.
*** Professora Mestre em Educação - Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo.
1 Termo que utilizamos para nos referir à articulação de dois aspectos do trabalho de Michel Foucault: a arqueologia e a genealogia.

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