As mulheres representam apenas 33,3% de todos os pesquisadores em nível global, e apenas 12% participam de academias científicas nacionais. Quando se trata de tecnologia e inovação, a participação feminina é ainda mais baixa, contabilizando apenas uma em cada cinco profissionais da área (Unesco, 2023). No contexto comunitário, as mulheres vêm assumindo papéis diversos, desempenhando um lugar importante na tomada de decisões políticas, no desenvolvimento econômico e contribuindo para moldar um futuro mais inclusivo e sustentável (Carneiro, 2011). Nas últimas décadas, tem havido esforço considerável para mudar as assimetrias de gênero, mas as estruturas racistas, sexistas e classistas, que ainda perduram e criam disparidades significativas, embarreiram as trajetórias de muitas meninas e mulheres nos espaços educacionais e comunitários.
Apesar dos desafios e obstáculos enfrentados, as mulheres estão rompendo barreiras e deixando sua marca na ciência, na comunidade e em todas as áreas em que atuam. Segundo a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, um dos objetivos (ODS 5) é alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Por isso, é fundamental reconhecer e valorizar o papel essencial das mulheres, garantindo oportunidades iguais, apoio e reconhecimento, para que possam continuar impulsionando o progresso e a transformação social.
Cargnelutti e Alós (2019), Miguel (2017) e Kyrillos (2020), ao longo dos anos, apontam para a evidência de que as mulheres foram sistematicamente marginalizadas e privadas do seu protagonismo na história. Essa exclusão ocorreu em muitas esferas da vida, incluindo a educação, a política, a ciência e as artes. Pedrosa e Zanello (2016) destacam ainda o silenciamento das violências sofridas por mulheres, o que se apresenta como um dado ainda mais importante para impulsionar o protagonismo e as vozes delas no campo das ciências e dentro das comunidades.
A despeito das lutas das mulheres contra diversas desigualdades engendradas, muitas foram excluídas de atividades cruciais na sociedade; suas contribuições, frequentemente ignoradas ou minimizadas. Essas atividades eram consideradas masculinas, reservadas aos homens, resultando na criação de espaços exclusivos que fortaleceram o poder masculino (Ribeiro, 2018). Tal exclusão teve impacto profundo, limitando a participação política feminina e refletindo na ausência de programas que considerassem as necessidades das mulheres. Além disso, muitas contribuições femininas importantes na ciência, na cultura e nas artes foram ignoradas ou minimizadas, privando a sociedade de uma compreensão mais completa e enriquecedora dessas áreas (Limongi et al., 2019).
Partindo dessas questões, o presente relato de experiência buscou descrever a iniciativa do projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres”, uma proposta de extensão e estágio desenvolvida por professoras, professores e estudantes da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), realizada no período de junho a dezembro de 2022. A proposta foi selecionada pelo Programa de Apoio à Popularização da Ciência, Tecnologia e Inovação (POP C, T&I) e contou com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas.
O projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres”, inspirado na biblioteca humana iniciada na Dinamarca, permite emprestar pessoas em vez de livros para ouvir histórias de vida. Assim, o “Conta, Manas” reuniu mulheres amazônidas para compartilhar suas experiências em espaços da universidade. Essa proposta se caracteriza como um exercício importante de ecoar vozes, já que, segundo Cisne e Ianael (2022), as mulheres foram histórica e socialmente marginalizadas, silenciadas e excluídas em muitos aspectos da vida social, política e econômica. Como resultado, muitas delas enfrentaram discriminação e desvantagens em relação aos homens, e suas histórias e perspectivas inúmeras vezes não foram consideradas ou valorizadas.
Para alcançar o objetivo proposto, o projeto realizou oficinas no formato de biblioteca de livros-mulheres, visando promover a partilha de experiências e ações educativas para disseminar o conhecimento científico e tradicional das mulheres amazônidas na universidade. Este relato incluiu a descrição detalhada da metodologia de construção do projeto e do desenvolvimento das oficinas bem como o debate conceitual em torno de quatro eixos principais: ampliação da representatividade feminina nos espaços da comunidade e universidade; integração entre teoria e experiências das mulheres; emancipação e protagonismo feminino; e transformação social por meio do protagonismo.
Estratégias Metodológicas
O Encontro do Estágio com a Extensão
O Estágio Supervisionado em Psicologia e a atividade de extensão foram desenvolvidos conjuntamente durante o segundo semestre de 2022. A atividade de estágio contou com a participação de oito discentes do curso de Psicologia. Já a atividade de extensão envolveu três alunas da graduação e quatro alunas do mestrado, além de professoras-representantes da Comissão de Enfrentamento à Violência Obstétrica da Universidade Federal do Amazonas. Três alunos de graduação que participam de outro projeto de extensão chamado Maria Jiquitaia apoiaram as atividades fazendo os registros fotográficos.
As etapas preparatórias para realização das oficinas foram organizadas pela professora e professor (coordenadores de estágio), alunos do estágio/extensão e mestrandos. Os encontros ocorreram duas vezes por semana na Faculdade de Psicologia. Nesse período, foram realizadas atividades teóricas e práticas, sempre na presença dos supervisores, os quais, em momentos diferentes, permitiam que os discentes se reunissem por aproximadamente uma hora em salas separadas para tomada de decisões sobre as demandas logísticas do projeto.
No início, os estudantes se envolveram em atividades científicas, como a busca por referências teóricas no campo dos feminismos e a leitura de experimentos inovadores em espaços universitários e comunitários. O grupo adotou o conceito de representatividade (Hooks, 2019) como fundamental, visando assegurar visibilidade e valorização de todas as mulheres, independentemente de suas características. O projeto, realizado em Manaus, na Região Norte do Brasil, procurou identificar mulheres representativas das mulheridades amazônidas, abraçando a diversidade de identidades e trajetórias na região.
A Entrevista-piloto
Como exercício introdutório, foi realizada entrevista com uma mulher da comunidade do Educandos, bairro com desafios como violência sexual, tráfico e vulnerabilidades sociais. A entrevista ocorreu na universidade e visava compreender sua história e perspectivas sobre a apresentação das narrativas das mulheres no projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres”, seguindo um roteiro planejado e valorizando a perspectiva da entrevistada. Além de preparar os estagiários e extensionistas para conduzirem entrevistas, essa atividade assegurou o respeito à trajetória, vivências e desafios cotidianos da entrevistada. Durante o processo, foram destacados pontos importantes de sua jornada como mulher e líder comunitária; a questão do acesso a oportunidades educacionais e profissionais; e a prevalência da violência doméstica e de gênero no bairro. Essa entrevista proporcionou uma compreensão mais abrangente dos desafios enfrentados pelas mulheres naquela comunidade e serviu como base para a seleção de outras que atuariam na universidade e/ou na comunidade.
A seleção dos Livros-mulheres
Após a experiência da entrevista-piloto, foram escolhidas 20 mulheres, que, posteriormente, foram divididas em três grupos representativos, organizados pelos seguintes temas: Grupo 1 - Mulheres e a luta na comunidade (n = 7); Grupo 2 - Mulheres e a luta na universidade (n = 7); e Grupo 3 - Mulheres no ativismo social (n = 6). Essa divisão foi importante para visualizar a aplicação do conceito de representatividade, já que havia três opções (temáticas) com as quais os leitores poderiam dialogar.
Descrevendo o Perfil das Mulheres e suas Lutas
Durante as atividades, os estagiários e extensionistas se dedicaram a identificar mulheres que pudessem representar a diversidade cultural, étnica e social da região amazônica, em especial do estado do Amazonas, considerando suas vivências nas comunidades e universidade. Foram escolhidas mulheres que tivessem vivenciado essa realidade, seja por meio do seu trabalho, seja pelo engajamento comunitário ou luta por direitos e superação de obstáculos diante das adversidades de ser mulher.
Nesse sentido, por um lado, o grupo de trabalho procurou assegurar que a seleção de mulheres representasse a diversidade de diferentes cenários da região e contribuísse para o fortalecimento da visibilidade e do protagonismo feminino na Amazônia. Por outro lado, era importante que fossem trazidas as realidades dos problemas sociais pelos quais as mulheres passam no Norte do Brasil. Baseando-se nessas orientações, os nomes das mulheres foram levantados durante uma reunião em grupo. Os participantes discutiram e compartilharam sugestões de mulheres que consideravam importantes e representativas; em seguida, foi realizada uma escolha dialogada, de acordo com a descrição a seguir.
Foram incluídas sete mulheres com experiências relacionadas às ações nas comunidades. Desse total, duas desenvolvem atividades sociais de liderança; uma passou por experiências de uso abusivo de álcool e outras drogas; uma vive com HIV. Essas mulheres foram selecionadas por representar a diversidade cultural enquanto moradoras do bairro de Educandos, situado às margens do Rio Negro, na área ribeirinha urbana da cidade de Manaus. Essa região é conhecida pela sua diversidade cultural e pela preservação das tradições e costumes locais, além de ser um importante centro de comércio e atividades portuárias na capital do Amazonas. As mulheres escolhidas não só vivem e trabalham nessa região, mas também têm um papel ativo na comunidade, por meio de iniciativas culturais, de saúde ou de apoio às causas feministas e comunitárias. Ainda nesse grupo estão: uma mulher da comunidade quilombola, moradora de um quilombo urbano; uma mulher negra que trabalha com a prevenção da violência sexual de crianças e adolescentes, faz parte de uma religião de matriz africana e trabalha na periferia de um bairro às margens do Rio Negro, na região oeste de Manaus; e uma mulher indígena considerada como a primeira cacica eleita, representante oficial da Associação Indígena de Moradores do Parque das Tribos, também na região oeste de Manaus.
Foram selecionadas sete mulheres professoras que passaram por experiências de preconceito, superação e violências na trajetória acadêmica: uma mulher negra, professora e pesquisadora, mãe, doutora em psicologia; uma mulher negra, professora das áreas biomédicas, que trouxe a sua experiência de parto normal e os enfrentamentos no campo da violência obstétrica e maternidade; uma professora de filosofia, intelectual, amante dos livros; uma mulher negra, professora, antropóloga, que superou muitos preconceitos para exercer sua profissão; uma mulher negra, psicóloga e professora, que discute o papel da mulher negra e sua posição diante da sociedade; uma mulher universitária que foi vítima de abuso sexual na infância e vivenciou relacionamento abusivo na adolescência; uma mulher, professora, que traz consigo muitas ideias sobre os desafios de ser mulher em nossa sociedade, desde seu núcleo matriarcal, símbolo de independência e força feminina.
Por fim, foram incluídas seis universitárias e/ou pessoas da comunidade voltadas para causas relacionadas ao ativismo social: uma mulher lésbica que vivenciou vários enfrentamentos após ser separada da sua mãe; uma mulher universitária que passou por diversas violências e é mãe de uma criança com autismo; uma mulher surda, filha, amiga, namorada, trabalhadora, acadêmica de Libras; uma mulher que atua em movimento social de mulheres e iniciou sua vida política concorrendo ao cargo de senadora no Amazonas; uma mulher à frente do seu tempo e que, após 60 anos, continua resistindo por meio do seu artesanato, desmistificando os preconceitos do etarismo; e uma mulher que luta pela erradicação da violência obstétrica como feminista e ativista pelos direitos das crianças e mulheres.
A presença dessas mulheres fortaleceu a compreensão da importância de suas vozes e experiências, com destaque para a necessidade de combater as violências e discriminações de diferentes formas e unir soluções/propostas de reconhecimento na sociedade.
A Organização dos Livros-mulheres e suas Narrativas
Após identificar as mulheres, houve um treinamento dos estagiários e extensionistas para entrevistá-las em local e dia agendado, com apoio de um roteiro de tópicos e questões traçados previamente. Na sequência, os estudantes foram divididos em duplas para realizar as entrevistas com as 20 participantes. Após as entrevistas, também elaboraram resenhas sobre a trajetória das entrevistadas. Essa produção escrita foi partilhada e editada com cada uma delas e transformada em uma resenha oficial. Esta foi disponibilizada aos leitores no dia da oficina e também foi publicada em uma cartilha do projeto que tem sido utilizada em atividades pedagógicas em escolas e comunidades.
A Divulgação da Oficina para os Leitores
Levando em consideração a disponibilidade e horário de todas as mulheres entrevistadas, foi agendada uma data em comum para que pudessem compartilhar suas histórias em um espaço aberto da Universidade Federal do Amazonas, na oficina nomeada de “Biblioteca Humana”. Foi criada uma página no Instagram para divulgar o evento, com informações sobre inscrição, horário, local e formato das ações. Além disso, foram feitos cards com as resenhas para divulgação nas redes sociais. Uma equipe de audiovisual foi responsável por várias postagens no Instagram, chamadas na TV universitária e nas páginas oficiais da universidade.
A Organização e Realização da Oficina “Conta, Manas: Livros-Mulheres”
Após a organização das resenhas, foram feitos banners, camisas e garrafas para o evento. Também foi disponibilizado agendamento on-line para os leitores escolherem previamente os livros com os quais gostariam de interagir.
No dia da oficina, foram dispostas cadeiras em um espaço aberto e estratégico na universidade para acomodar as duplas de leitores e livros. As cadeiras foram separadas por uma distância de aproximadamente dois metros em um formato circular, permitindo que as mulheres narrassem suas histórias sem interrupções. Conforme a demanda de leitores aumentava, foram disponibilizadas mais cadeiras durante o evento, permitindo a leitura em grupos quando possível. Essa adaptação proporcionou uma experiência confortável e adequada para todos os participantes.
Parte da equipe também atuou como bibliotecários, auxiliando na recepção e acolhimento das participantes. Eles garantiram a organização do espaço, o acesso às narrativas dos livros mulheres e o conforto dos leitores, incluindo lanches, água e períodos de descanso entre as leituras. Psicólogos plantonistas também estiveram presentes durante a atividade, oferecendo suporte tanto para os livros como para o público em geral. Além disso, um intérprete de Libras traduziu em tempo real as apresentações, tornando o evento inclusivo. Essa organização permitiu que todas as participantes compartilhassem suas experiências de forma coletiva, democrática e cuidadosa, criando um ambiente de diálogo e escuta das narrativas.
Resultado e Discussão
A importância da ampliação da representatividade feminina
O projeto demonstrou a importância de identificar e destacar mulheres que representassem a diversidade cultural, étnica e social da região amazônica. Ao selecionar participantes com diferentes origens, experiências e lutas, essa proposta buscou trazer visibilidade para a multiplicidade de vozes entre as mulheres amazônicas.
A representatividade feminina vai além de simplesmente ocupar espaços de poder ou posições visíveis na mídia. Quando a questão é representatividade autêntica, fala-se da inclusão de vozes e perspectivas diversas, especialmente aquelas que foram historicamente marginalizadas e oprimidas, enfatizando a importância de mulheres de diferentes contextos sociais terem a oportunidade de contar sobre suas vivências e lutas, livres de quaisquer generalizações. A representatividade “verdadeira” implica reconhecer e valorizar a diversidade de vivências e contribuições das mulheres, permitindo que suas vozes sejam visibilizadas e que suas histórias sejam contadas de maneira autêntica (hooks, 2019).
Apesar do reconhecimento da importância da equidade, as mulheres ainda não têm seus direitos respeitados. A participação de homens e mulheres no mercado de trabalho, por exemplo, não é igualitária. As mulheres trabalham o dobro do tempo e ainda ganham menos do que os homens na mesma função (Felix & Silva, 2020). Assim, sua representatividade é um meio de desafiar e transformar as estruturas de poder dominantes, além de garantir que todas elas sejam vistas como agentes ativas de mudança e consigam ter acesso igual a oportunidades, recursos e poder para moldar sua própria trajetória. A representatividade feminina é essencial para a construção de uma sociedade mais justa (hooks, 2019).
A ampliação da representatividade feminina no projeto “Conta, Manas: Livros Mulheres” desempenhou papel fundamental na quebra de estereótipos e na valorização da diversidade feminina na região amazônica. Ao selecionar mulheres com diferentes origens e experiências, o projeto viabilizou a ampliação de vozes já ativas, mas que se ampliam e ganham mais espaço e potência no contexto universitário. Por isso mesmo é que essa experiência se faz importante para desafiar as narrativas dominantes e promover uma compreensão mais ampla das realidades das mulheres na região.
Além disso, reconheceu-se, ao longo do projeto, a importância de incluir mulheres que vivem com HIV, mulheres com deficiência, mulheres na liderança indígena, mulheres quilombolas e mulheres lésbicas, dentre tantas outras que lutam cotidianamente pelos direitos humanos. Desse modo, por exemplo, ao considerarem as narrativas de mulheres com deficiência, outras podem se sentir representadas no que se refere às barreiras de acessibilidade. A ideia era evidenciar o combate às discriminações e promover uma compreensão mais empática e informada sobre a realidade de cada mulher e seus marcadores sociais.
As mulheres que lideram nas comunidades indígenas têm profundo conhecimento das tradições e dos desafios enfrentados por suas comunidades. Essas líderes têm sido fundamentais para impulsionar a busca por uma organização política no contexto brasileiro e manauara, demandando um novo modelo de políticas públicas que garanta sua participação e voz ativa em espaços públicos, que costumam ser dominados por homens brancos. Ao envolver essas mulheres, reconhece-se sua expertise e sua contribuição para a preservação cultural e política e para o desenvolvimento sustentável.
Já as mulheres quilombolas têm uma história de resistência e resiliência, representando uma parte essencial da identidade afro-brasileira. Buscou-se visibilizar suas trajetórias e proporcionar um espaço para que suas vozes fossem ouvidas, fortalecendo sua participação na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Por fim, as mulheres lésbicas enfrentam desafios específicos devido à sua orientação sexual. Ao inclui-las no projeto, a intenção foi promover a visibilidade e a aceitação, bem como combater a lesbofobia e contribuir para a construção de uma sociedade mais inclusiva.
Por meio da representação e participação ativa dessas mulheres, procurou-se construir um projeto com base na perspectiva múltipla dos feminismos. Essa diversidade de vozes ajudou a fortalecer as lutas e a construir uma narrativa mais inclusiva e feminista das experiências na região amazônica, sob a potência de um espaço permeado por relações de poder, como a universidade. Felix e Silva (2020) argumentam que a representatividade é uma questão central no feminismo, já que as imagens, narrativas e discursos influenciam diretamente a maneira como as mulheres são percebidas e tratadas na sociedade. As autoras criticam a noção de que a representação simplesmente espelha uma realidade pré-existente, senão que ela é construída e moldada por relações de poder.
A representatividade envolve questionar e desafiar os sistemas de pensamento e as estruturas de poder que moldam as ideias e as imagens sobre as mulheres. Por isso é essencial examinar as relações de gênero subjacentes e as normas sociais que influenciam a representação feminina (Scott, 1986). Em relação à diversidade feminina, Crenshaw (1989) e Akotirene (2018) também enfatizam a importância de considerar as diferenças dentro da categoria "mulheres" para questionar a noção de uma identidade feminina universal. Defendem a inclusão de diferentes vozes e experiências femininas, levando em conta as interseções entre gênero, raça, classe social e outras formas de opressão e privilégio.
Dentro das análises da categoria "mulher", Wittig (2022) argumenta que a concepção de sexo como uma dicotomia entre "homem" e "mulher" existe principalmente para justificar e perpetuar a subjugação de um sexo pelo outro. Não é um produto da natureza, e sim da dominância social, em uma sociedade com base na lógica heterossexual. Butler (2021) pontua que, se alguém faz parte da categoria ‘‘mulher’’, isso não resume tudo o que esse alguém é, entretanto torna-se impossível separar a noção de gênero das interseções políticas e culturais nas quais essas manutenções ocorrem. Em síntese, a categoria “sexo” pode aprisionar as mulheres, devido às obrigações dos papéis sociais.
Adichie (2015) critica as representações estereotipadas e limitantes das mulheres na sociedade, visando desconstruir as narrativas dominantes que simplificam ou restringem o conceito “mulher”. A autora desafia os padrões de gênero estabelecidos e trabalha para ampliar as vozes e experiências femininas. Explora como as narrativas dominantes influenciam as expectativas sociais em relação às mulheres, restringindo sua liberdade e autonomia. Ainda, reforça o quão importante é ouvir as histórias individuais femininas, reconhecendo sua diversidade e complexidade.
À luz desses apontamentos feministas, a valorização da diversidade social se mostrou essencial no projeto. Ao incluir mulheres que passaram por diferentes desafios e enfrentaram diversas formas de violência e discriminação, o projeto ofereceu um espaço para compartilhar histórias de superação e resiliência. Assim, essas narrativas podem inspirar outras mulheres e promover a transformação em vários espaços formados por narrativas dominantes, como na produção de ciência e tecnologia nas universidades.
Tal iniciativa busca ampliar os caminhos para uma compreensão mais ampla e inclusiva das experiências femininas, desafiando as narrativas dominantes que limitam as mulheres a estereótipos e papéis secundários (Adichie, 2015). O projeto enfatiza a importância de representar e valorizar a diversidade étnica feminina, incluindo mulheres negras, indígenas e quilombolas, que muitas vezes são marginalizadas e invisibilizadas. Isso fortalece o reconhecimento das mulheres como agentes ativas na construção da sociedade e na busca pela igualdade de direitos.
Ao desafiar as narrativas que objetificam as mulheres e as retratam de forma estereotipada, o projeto proporciona espaço para que elas sejam protagonistas de suas próprias histórias, levando em consideração suas diferentes identidades sociais. Essa ampliação da representatividade feminina contribui para uma visão mais complexa e multidimensional das mulheres na região amazônica, desafiando visões padronizadas e promovendo uma compreensão mais rica e inclusiva de suas realidades.
O projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres” demonstra a relevância de criar espaços de diálogo e escuta ativa, nos quais as mulheres possam compartilhar suas histórias e serem ouvidas. Ao promover a interação entre leitores e livros-mulheres dentro da universidade, oferece-se um ambiente acolhedor e emancipador, no qual elas podem se expressar livremente e se conectar umas com as outras. Essa troca de experiências e saberes contribuiu para fortalecer os laços comunitários e promover o engajamento de todos na luta por seus direitos e pela transformação social.
A Integração entre as Teorias e as Experiências das Mulheres
Durante todo o processo de construção das oficinas, foi possível identificar a relação entre a teoria e as experiências concretas presente na realidade das mulheres que participaram do processo. As contribuições envolveram uma reflexão crítica sobre questões de gênero, violência, representatividade e emancipação feminina. Além disso, pode-se discutir como essa integração entre teoria e prática impactou tanto os estagiários e extensionistas envolvidos no projeto quanto os leitores e participantes das oficinas.
Os estagiários e extensionistas, responsáveis pela escrita das vivências, uniram essas duas experiências com base no conceito de "escrevivência" de Conceição Evaristo. Esse procedimento metodológico pode ser considerado um exercício de investigação nos estudos da psicologia com as comunidades, ocasião em que essas escritas de mulheres amazônidas tecem confrontos no campo da produção científica hegemônica, demasiadamente branca e androcêntrica; tais escritas oportunizam passos para uma mudança epistêmica descolonizadora, incluindo a ética engajada de uma militância embasada em movimentos políticos de mulheres não apenas negras, mas de várias etnias (Evaristo, 2007).
Essa integração permitiu que as participantes do projeto compartilhassem suas experiências pessoais e conectassem-nas com os conceitos e debates acadêmicos. Isso também proporcionou uma validação das vivências individuais e coletivas, além de ter fortalecido a autoestima e a voz das mulheres envolvidas. Mediante o diálogo entre teoria e prática, as mulheres puderam compreender e nomear as opressões que vivenciaram, bem como encontrar estratégias de resistência e superação.
Nesse diálogo, outro conceito que se destacou para além da representatividade foi a própria categoria de gênero. Para Butler (2021), o gênero não se limita apenas a uma questão individual, mas é também uma construção política e social que reflete e perpetua relações de poder. Essa compreensão aponta para a interconexão entre as dimensões pessoais e estruturais do gênero, evidenciando como as identidades são moldadas por normas sociais e políticas que impactam as experiências individuais e coletivas. Ao enfatizar o caráter político do gênero, a autora destaca a importância de analisar as estruturas de poder subjacentes que influenciam a formação e a expressão de identidades, oferecendo uma perspectiva crítica sobre as construções sociais de gênero e seu impacto na sociedade.
O gênero pode ser enunciado como um conjunto de relações sociais que atribui significados e valores diferentes a homens e mulheres. Isso inclui como as normas de gênero são usadas para restringir e controlar as pessoas, além da forma pela qual a resistência a essas normas pode desafiar e transformar as estruturas de poder (Scott, 1986). O gênero não é algo natural ou universal, mas uma construção social complexa que molda as experiências e as possibilidades das pessoas dentro de determinados contextos sociais, políticos e históricos. Por isso, Butler (2022) reforça a necessidade de analisar criticamente as relações de gênero e as normas sociais que as sustentam, a fim de compreender melhor as desigualdades.
Hollanda et al. (2019) e Carneiro (1995) mostram que os estudos de gênero auxiliam a lançar um olhar crítico sobre como as experiências de opressão e discriminação são moldadas por diferentes eixos de poder e que a luta pela igualdade deve ser compreendida em conjunto com outras lutas - interseccionalidade enquanto ferramenta analítica e de luta - para se pensar equidade entre homens e mulheres. A perspectiva interseccional procura romper com uma abordagem monocausal e monolítica que trata o gênero isoladamente; tal perspectiva propõe uma análise mais complexa e abrangente das opressões e desigualdades enfrentadas pelas mulheres, visando capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação.
Assim, a integração entre teoria e experiências das mulheres teve repercussão significativa nos estagiários, extensionistas e leitores envolvidos no projeto. Eles tiveram a oportunidade de vivenciar uma abordagem mais implicada com a decolonialidade e questões de gênero, ampliando sua compreensão para além dos livros e das salas de aula, sem releituras de trajetórias - elas eram narradas presencialmente por quem as vive no corpo e na pele. Essas vivências enriqueceram o aprendizado e contribuíram para a formação dos discentes voltada para o respeito às diversidades e diferenças interseccionais.
Para os leitores e participantes da oficina, a integração entre teoria e experiências também proporcionou diferentes possibilidades de mobilização. Eles puderam se conectar com as histórias das mulheres reais, compreendendo melhor as realidades e os seus desafios enfrentados. A abordagem contribuiu para a construção e estímulo de uma reflexão crítica sobre as estruturas de poder e necessidade de mudanças sociais. Também foi possível perceber uma análise mais aprofundada das interseccionalidades presentes nas vidas das mulheres da região amazônica e compreender o modo pelo qual as opressões de gênero se entrelaçam com outras formas de discriminação, como raça, classe social, etnia e orientação sexual.
Essa compreensão complexa contribuiu para a construção de estratégias mais efetivas de enfrentamento das desigualdades e de fortalecimento do movimento feminista na região. Crenshaw (1989) observou que as teorias feministas e antirracistas, ao se concentrarem apenas em uma forma de opressão, muitas vezes negligenciavam as experiências de pessoas que enfrentavam múltiplas formas de discriminação, como demonstrado pelas mulheres do projeto. Estas narraram, por um lado, várias experiências envolvendo discriminação, racismo, etarismo, violência sexual, violência obstétrica; porém, por outro lado, relataram muitas formas de protagonismo e enfrentamento dessa realidade opressora.
Em suma, essas experiências ilustram a complexidade e a gravidade das opressões vivenciadas pelas mulheres, demonstrando a necessidade de abordagens interseccionais para enfrentar tais desafios e promover a igualdade de gênero. Tais teorias podem auxiliar a refletir, sob várias perspectivas, a realidade da mulher na Amazônia. Além disso, a integração entre teoria e experiências no projeto pode suscitar o desenvolvimento de ações e políticas mais bem embasadas e efetivas no combate à violência de gênero. Com o conhecimento teórico aliado às vivências reais, foram identificadas lacunas e desafios específicos enfrentados pelas mulheres na região, permitindo a reflexão sobre a proposição de medidas concretas de enfrentamento e prevenção da violência.
A Emancipação e o Protagonismo de Mulheres
A experiência do projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres” tornou-se uma construção de histórias compartilhadas e proporcionou um espaço acolhedor para que as mulheres pudessem expressar suas vivências, desafios e conquistas, valorizando suas experiências e trajetórias na comunidade, no ativismo social e na universidade.
Um dos principais aspectos a serem destacados nessa experiência foi a possibilidade de ampliar, expandir, disseminar e propagar as diversas vozes de mulheres que já possuem voz e potência, fortalecendo o protagonismo de suas próprias histórias. Ao serem ouvidas e terem suas experiências validadas pelos leitores, as participantes sentiram-se mais fortalecidas e reconhecidas como agentes ativas de transformação. O ato de compartilhar suas vivências também possibilitou a construção de uma rede de apoio entre as participantes, criando um senso de comunidade e fortalecimento coletivo.
Além disso, o projeto trouxe ressonâncias para emancipação feminina, principalmente ao incentivar o diálogo e a reflexão sobre os desafios enfrentados pelas mulheres na comunidade, no ativismo social ou na universidade. Por meio das entrevistas, resenhas dos livros e das histórias compartilhadas, foram identificadas questões comuns e sistêmicas que afetam as mulheres, como a desigualdade de gênero, o machismo, a violência e o preconceito. Essa conscientização coletiva estimulou a busca por soluções e ações de combate a esses problemas, fortalecendo o papel das mulheres na qualidade de agentes de mudança.
Adicionalmente, o projeto também contribuiu para a construção de uma visão mais diversa e inclusiva da sociedade, ao desafiar estereótipos e preconceitos. Ao ouvirem as histórias de mulheres com diferentes origens, experiências e perspectivas, os participantes puderam ampliar seu entendimento sobre as múltiplas formas de ser mulher e valorizar a diversidade como uma força enriquecedora.
Ribeiro (2018) reforça a importância do protagonismo e emancipação feminina enquanto elementos fundamentais para a construção de relações mais equitativas. Ela enfatiza que as mulheres devem ter voz ativa e participação efetiva em todas as esferas sociais, desde a política até o mercado de trabalho, para suas demandas e perspectivas serem levadas em consideração. A autora acredita que o protagonismo feminino é essencial no rompimento com as estruturas patriarcais e opressoras, permitindo às mulheres libertarem-se de estereótipos e assumirem seu poder de transformação. A emancipação feminina não é apenas uma luta individual, mas também coletiva, com vista à igualdade de direitos, oportunidades e reconhecimento para todas as mulheres. Isso contribui para elas se tornarem agentes da mudança em suas próprias vidas e nos diversos espaços possíveis de serem ocupados na sociedade.
A emancipação feminina é um conceito essencial relacionado ao fortalecimento das mulheres, capacitando-as a assumir o controle de suas vidas, fazer escolhas autônomas e exercer influência sobre os espaços em que estão inseridas. Trata-se de um processo contínuo de conscientização, habilidades adquiridas e transformação pessoal e social. Ao contarem suas histórias, as mulheres participantes do projeto tiveram a oportunidade de se conectar com suas experiências pessoais e coletivas, reconhecendo seus desafios, superações e conquistas. Esse reconhecimento é fundamental para a construção da autoestima e confiança das mulheres, pois elas percebem que suas vozes têm importância e que suas experiências são válidas e significativas.
A emancipação feminina foi um elemento central na experiência do projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres”. Contribuiu para tornar visíveis as diferentes realidades nas quais as mulheres se encontram, podendo, assim, melhorar a própria estratégia política de sua atuação enquanto agentes de mudança social para a promoção de relações mais igualitárias.
Transformação Social pela Via do Protagonismo
Schubert et al. (2021) acreditam que as mulheres indígenas são aquelas não encontradas nas reflexões de uma historiografia sobre gênero. São elas que muitas vezes foram e estão sendo destituídas de seus corpos-territórios e precisam desenvolver formas de resistências ao mesmo tempo que trabalhos alheios para gerar renda para a família. Essa reflexão traz à tona a realidade das mulheres indígenas, frequentemente excluídas das narrativas históricas sobre gênero e submetidas à perda de seus territórios e corpos. Diante desse contexto desafiador, é essencial discutir a importância da transformação social como um elemento fundamental para garantir o reconhecimento, a autonomia e a valorização dessas mulheres.
No âmbito do projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres”, essa ponderação se torna ainda mais relevante, pois buscou desafiar estereótipos e preconceitos, proporcionando um espaço para que as histórias e experiências das mulheres indígenas fossem compartilhadas e reconhecidas como parte integrante da diversidade e da força transformadora da sociedade. Ao ouvirem e se conectarem com essas narrativas, os participantes são convidados a refletir sobre as múltiplas formas de ser mulher e a contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e respeitosa com as mulheres indígenas e suas lutas por autonomia, direitos e transformação social.
No projeto, a participação das mulheres negras do quilombo também desempenha um papel fundamental, tanto para a valorização da diversidade quanto para a busca pela transformação social. As mulheres quilombolas são protagonistas de suas próprias histórias e carregam consigo uma trajetória de resistência, resiliência e luta por direitos e reconhecimento. Holanda et al. (2019) ressaltam a importância de romper com a invisibilidade e silenciamento das mulheres quilombolas, especialmente por viverem em um campo de ambiguidades entre a possibilidade do acesso à terra e afirmação de sua identidade. A transformação social passa pela valorização da diversidade e pela superação das desigualdades estruturais que afetam as mulheres negras, periféricas e indígenas. Mediante suas narrativas, elas inspiram outras mulheres a reivindicarem seus direitos, a lutarem por igualdade de oportunidades e a se empoderarem diante das adversidades.
O encontro entre as mulheres da comunidade e as mulheres da universidade exerce um papel crucial na busca pela transformação social. Esse diálogo intercultural e intergeracional permite a troca de experiências, conhecimentos e perspectivas, promovendo um ambiente de aprendizado mútuo e fortalecendo os laços de solidariedade e empatia entre as participantes. Iniciativas como estas abrem frentes de ruptura aos modelos sociais instituídos na universidade, possibilitando o surgimento da alteridade em espaços de privilégios.
A união entre mulheres da comunidade e mulheres da universidade também cria um espaço de encontro e colaboração, no qual diferentes saberes e vivências se entrelaçam. As mulheres da comunidade trazem consigo o conhecimento ancestral, as histórias de resistência e as demandas específicas de suas realidades. Por sua vez, as mulheres da universidade compartilham o conhecimento acadêmico, as ferramentas de análise crítica e as reflexões teóricas sobre transformação social, além de suas lutas no espaço da universidade. Em outras palavras, as mulheres da comunidade se sentem empoderadas ao verem suas experiências valorizadas e reconhecidas, enquanto as mulheres da universidade têm a oportunidade de se engajar em uma prática de pesquisa e ação transformadora que dialoga diretamente com a realidade social.
Além disso, o encontro entre mulheres da comunidade e da universidade contribuiu para o rompimento de barreiras sociais e para a construção de relações horizontais e solidárias. Esse processo favorece a construção de alianças e parcerias duradouras, que podem ser fundamentais na continuidade do trabalho de transformação social após o término do projeto.
A presença e participação de mulheres com deficiência no projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres” é indispensável para a valorização da diversidade e promoção da inclusão e acessibilidade. Essas mulheres têm enfrentado barreiras e discriminações em diferentes esferas da sociedade, o que torna essencial criar espaços nos quais suas vozes sejam ouvidas e suas experiências sejam reconhecidas.
Em suma, o encontro entre mulheres da comunidade e da universidade no projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres” é um catalisador para a transformação social. Essa troca de saberes, experiências e perspectivas colaborou para a construção de uma sociedade mais inclusiva, em que as demandas e lutas femininas foram ouvidas e valorizadas. A união desses grupos representa um passo importante na caminhada rumo a uma transformação social efetiva e duradoura.
Considerações Finais
Com base nas histórias compartilhadas pelas mulheres da comunidade, do ativismo social e da universidade, o projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres” promoveu reflexões importantes sobre questões sociais, como violência, desigualdade de gênero, etarismo, discriminação, capacitismo, dentre outras formas de opressão vivenciadas pelas mulheres. Também contribuiu para a transformação social, para a sensibilização dos leitores e para o incentivo contínuo à busca por mudanças e ações de combate às desigualdades de gênero. Mediante as histórias compartilhadas, o projeto visou despertar a conscientização e promover a reflexão sobre diferentes desafios enfrentados pelas mulheres na sociedade.
A proposta foi uma iniciativa colaborativa e coletiva, estabelecendo uma associação entre as mulheres e suas diferentes lutas. Todos caminharam juntos, reconhecendo a importância dessas múltiplas vozes e experiências. Criaram um espaço seguro e inclusivo, no qual as vozes foram valorizadas, respeitadas e acolhidas. As mulheres da comunidade e da universidade compartilharam conhecimentos, trocaram experiências e construíram juntas uma visão mais ampla e consciente da transformação social, contribuindo para quebrar o silêncio e o estigma associados a diversos tipos de tabus, preconceitos e violências vivenciados pelas mulheres.
Além disso, o projeto colocou em evidência para todos os participantes quatro categorias importantes materializadas neste artigo: ampliação da representatividade feminina; relação teoria-realidade social; protagonismo e participação de mulheres; e transformação social. Ao ouvirem as histórias de mulheres que superaram obstáculos em suas trajetórias dentro das comunidades e na universidade, os participantes do projeto foram incentivados a refletir sobre as barreiras de acesso das mulheres a essas oportunidades. Essa conscientização pode inspirar a busca por soluções e ações concretas para promover a igualdade de oportunidades para as mulheres na educação, no mercado de trabalho e em espaços comunitários.
Por outro lado, ao compartilharem suas histórias, as mulheres participantes demonstram sua resiliência e capacidade de superar desafios em um contexto social marcado, muitas vezes, pela exclusão e marginalização. Essas narrativas contribuem para sensibilizar os participantes do projeto e os leitores sobre a importância do incentivo e busca por mudanças nas estruturas e nos sistemas que perpetuam a falta de representatividade feminina nos espaços de poder.
A conscientização política gestada pelo projeto “Conta, Manas: Livros-Mulheres” foi um exercício central em todas as etapas de elaboração e execução das atividades. Ao conhecerem as histórias e experiências das mulheres, os leitores foram instigados a questionar suas próprias percepções, preconceitos e privilégios, abrindo caminhos para perspectivas que envolvam a possibilidade concreta de construir relações de gênero mais democráticas.
Além disso, o projeto também teve uma repercussão significativa: os participantes das oficinas se tornam multiplicadores de conhecimento, levando as lições aprendidas para suas comunidades, famílias e círculos sociais. Isso ajuda a disseminar a conscientização sobre questões de gênero e a promover discussões construtivas em diversos espaços. Notou-se que foi construída uma rede de apoio e solidariedade entre as mulheres, fortalecendo sua emancipação e promovendo a união para enfrentar os desafios ainda existentes. Essa conexão e engajamento coletivo são essenciais para impulsionar a mudança social e construir uma sociedade mais inclusiva e justa para todos. Assim como as narrativas das mulheres atingiram os participantes, espera-se que este relato experiência seja capaz de despertar a empatia e o senso de responsabilidade social nos leitores, motivando-os a engajarem-se em atividades que promovam a equidade de gênero, como campanhas de conscientização, programas de mentoria e apoio a iniciativas lideradas por mulheres.