INTRODUÇÃO
O conflito e a sua resolução têm estado no centro do debate da pesquisa sobre o comportamento organizacional, já que, quando gerido de forma positiva e construtiva, contribui para o desempenho dos indivíduos e das organizações (Al-Mamary & Hassan, 2017). O conflito está presente em qualquer contexto organizacional, e as instituições de ensino não são exceção (Hancks, 2013; Rahim, Civelek, & Liang, 2018). O contexto escolar constitui um espaço social de interações pautadas por situações problemáticas entre os intervenientes com diferentes valores, objetivos e perspectivas, tornando-o propenso ao conflito.
Este estudo reflete sobre a importância da gestão do conflito, analisando-se a forma como o uso de diferentes estilos de gestão de conflitos origina diferentes níveis de comprometimento organizacional, e como estes levam a diferentes tipos de comportamentos de cidadania organizacional.
Ao nível metodológico, realizou-se um estudo de caso com recurso à aplicação de um inquérito aos profissionais não docentes de uma IES. Para testar o modelo proposto, previamente sistematizado (Cordeiro & Cunha, 2018), formularam-se hipóteses e utilizou-se a técnica de Modelação de Equações Estruturais (MEE).
O interesse por estudar este tema nas IES surge por se reconhecer a relevância que as IES têm no desenvolvimento do país, e por os estudos desenvolvidos terem tido uma menor intervenção sobre os não docentes. A importância destes tem sido reconhecida pelo meio acadêmico e empresarial, já que contribuem decisivamente para o seu funcionamento através do desempenho eficaz das funções e pelas pontes que fazem com os demais profissionais.
Para além da especificidade do grupo-alvo, este estudo se diferencia por ser o primeiro em Portugal a analisar empiricamente a relação entre a gestão de conflitos, o comprometimento e a cidadania organizacional, permitindo compreender a dinâmica estabelecida entre estes conceitos.
REVISÃO DA LITERATURA
GESTÃO DE CONFLITOS
O desenvolvimento da pesquisa sobre a gestão de conflitos tem realçado a sua natureza complexa e dinâmica (Mikkelsen & Clegg, 2019). A pesquisa sobre o conflito foi inicialmente desenvolvida por Deutsch (citado por Pruitt, 2018), para quem o conflito existe quando as partes se confrontam para alcançarem interesses ou objetivos percebidos como sendo incompatíveis (Rahim, 2002).
O conflito está omnipresente e tem impacto em todos os processos organizacionais, sendo importante desenvolver várias formas de gestão de conflitos. A concepção mais contemporânea nesta área de estudos assume uma perspectiva dinâmica em que a gestão de um conflito pode traduzir um processo contínuo de produção de soluções criativas e inovadoras para os problemas, retirando-lhes a conotação negativa com vista a fortalecer as relações entre os indivíduos e corrigir problemas emergentes ao nível organizacional (Marujo, 2017). Se os objetivos das partes forem minimamente conciliáveis pode desenvolver-se um espírito de compromisso e cidadania, desencadeando-se um efeito positivo – gestão construtiva do conflito – em benefício de ambos e da própria organização (Cunha & Leitão, 2016; Ensari, Camden-Anders, & Schlaerth, 2016).
Rahim e Bonoma (1979, citado por Rahim, 2002) desenvolveram um modelo para analisar a gestão de conflitos assente em duas dimensões (considerar apenas os interesses do próprio ou de considerar também os interesses dos outros) e evidencia diferentes estilos que resultam da influência de duas motivações independentes (alcançar os objetivos individuais e/ou os interesses coletivos).
Sobre este modelo foram desenvolvidas novas investigações, destacando-se a abordagem de Thomas (1992, citado por Cordeiro & Cunha, 2018) que define cinco estilos de gestão de conflitos: competição (satisfação dos interesses próprios em detrimento dos interesses do outro – assenta na assertividade e não cooperação); evitamento (negligencia os interesses de ambos – assenta na não assertividade e não cooperação); colaboração (satisfação de interesses mútuos – assenta na assertividade e cooperação); anuência (satisfação dos interesses do outro em detrimento dos próprios – assenta na cooperação e não assertividade); compromisso (satisfação moderada dos interesses de ambos – assenta na assertividade e cooperação médias).
No centro do debate sobre o conflito organizacional estão os estudos sobre a inter-relação entre a gestão construtiva de conflitos e demais variáveis, procurando identificar as suas causas e consequências. Nos modelos consequenciais destacam-se os estudos que corroboram a importância da gestão de conflitos no desenvolvimento dos comportamentos de comprometimento.
GESTÃO DE CONFLITOS E COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL
A gestão construtiva de conflitos é fundamental para as organizações dado que pode conduzir a um maior envolvimento e comprometimento, sendo que a forma como é percebido e mediado pelos gestores influencia a percepção dos demais profissionais.
O comprometimento organizacional consiste no estado psicológico que vincula a relação do indivíduo à organização, gerando impacto sobre a decisão de permanecer nela (Meyer & Allen, 1997). Pressupõe a existência de uma atitude proativa dos indivíduos (Silloto & Andrade, 2014), contribuindo para melhorar as suas performances fomentando o desenvolvimento de uma cultura de desempenho (Clardy, 2018), com implicações no desenvolvimento de uma atitude positiva no trabalho (Cordeiro & Cunha, 2018).
A perspectiva multidimensional do construto tem ganhado relevância através do Modelo das Três Componentes (Meyer & Allen, 1997). Neste modelo, os indivíduos estão comprometidos através de relações de natureza tridimensional, permitindo uma melhor compreensão sobre o tipo e a intensidade da relação indivíduo/organização (Klein, 2016). O elo vinculativo entre indivíduo e organização pressupõe relações de caráter emocional (afetiva), de dever moral para com a organização (normativa) e baseadas num investimento pessoal para obtenção de retorno (instrumental) (Sabino, Lopes, & Nogueira, 2015).
O modelo tridimensional deste construto tem vindo a ser questionado, apresentando alguns problemas conceituais e empíricos, visíveis, sobretudo, no comportamento antagônico da base instrumental (Rodrigues, Bastos, & Moscon, 2019). Como parte do esforço em melhorar o nível de validade do construto e, assim, ampliar seu poder preditivo, alguns trabalhos têm substituído a base instrumental pela de entrincheiramento organizacional que pressupõe permanecer numa organização por não conseguir visualizar uma alternativa que o sustente de acordo com suas necessidades e expectativas. Os seus percursores argumentam que a base que melhor caracteriza o comprometimento é a afetiva, por se tratar de um vínculo ativo relacionado a intenções favoráveis para a organização.
As pesquisas envolvendo o comprometimento instrumental e o entrincheiramento organizacional, medido por três dimensões – ajustamento à posição social, arranjos burocráticos impessoais e limitações de alternativas –, tendem a concluir que estes construtos medem porções semelhantes de um mesmo fenômeno (Milhome & Rowe, 2018; Rodrigues et al., 2019). Globalmente, os resultados apontam para divergência da base instrumental em comparação à base afetiva, sugerindo tratar-se de vínculos distintos (Falcão & Bittencourt, 2014). Por sua vez, a similaridade entre o entrincheiramento organizacional e a base instrumental evidencia uma possível sobreposição dos construtos, havendo mesmo quem advoga a possibilidade de integrá-lo com a base instrumental por se tratar do mesmo fenômeno (Milhome & Rowe, 2018).
No que se refere à relação entre os estilos de gestão de conflitos e comprometimento organizacional, Hussein, Al-Mamary e Hassan (2017) desenvolveram um estudo sobre a relação entre os cinco estilos e o comprometimento organizacional ao nível individual, grupal e organizacional, encontrando relações positivas dos estilos de gestão de conflitos com os níveis de comprometimento. Estas conclusões estão de acordo com o apurado por Al-Jawazneh (2015) sobre os profissionais das empresas farmacêuticas na Jordânia.
Nesta linha de abordagem, Kassim e Ibrahim (2014) concluíram que o estilo de gestão de conflitos de compromisso gera uma maior compreensão entre os membros da equipa aumentando o compromisso com a organização. A este nível, Asyraf, Muhammad e Mohd (2016) e Balay (2007) concluíram que o comprometimento é um determinante significativo na utilização de estratégias de compromisso e de colaboração ao nível da dimensão afetiva e normativa do comprometimento.
Por seu lado, Wanyonyi, Kimani e Amuhaya (2015) verificaram que os estilos de colaboração, anuência e compromisso manifestaram correlações significativas com o comprometimento. Já os estilos de evitamento e de competição tendem a originar menores níveis de comprometimento.
Hipótese 1: o estilo de gestão de conflitos de compromisso relaciona-se positivamente com o comprometimento afetivo (H1a) e normativo (H1b) e negativamente com o instrumental (H1c).
Hipótese 2: o estilo de gestão de conflitos de colaboração relaciona-se positivamente com o comprometimento afetivo (H2a) e normativo (H2b) e negativamente com o instrumental (H2c).
Hipótese 3: o estilo de gestão de conflitos de anuência relaciona-se positivamente com o comprometimento afetivo (H3a) e normativo (H3b) e negativamente com o instrumental (H3c).
O estilo de competição revelou ser o único preditor associado ao comprometimento instrumental (Balay, 2007). A adoção de uma cultura competitiva e dominadora na gestão de conflitos tende a estar associada a profissionais com uma consciência analítica forte sobre os custos relacionados com a sua saída da organização. Tal não significa que os indivíduos com comprometimento instrumental tenham desempenhos inferiores – na realidade, este pode mesmo resultar em boas performances (Al-Jawazneh, 2015).
No mesmo sentido vão os resultados obtidos por Silloto e Andrade (2014) ao concluírem que a utilização de formas mais competitivas de gerir o conflito leva os profissionais a recorrer a medidas cuja gênese assenta numa relação instrumentalizada entre indivíduo e organização.
Hipótese 4: o estilo de gestão de conflitos de competição relaciona-se positivamente com o comprometimento instrumental (H4a) e negativamente com o afetivo (H4b) e normativo (H4c).
O estilo de evitamento tende a ser o menos influente no desenvolvimento do comprometimento organizacional. Tal situação é corroborada pelos estudos de Asyraf et al. (2016) e de Kassim e Ibrahim (2014) para quem uma atitude de evitamento tem um efeito negativo no comprometimento afetivo e normativo. Para Hussein et al. (2017), Wanyonyi et al. (2015) e Balay (2007), a postura de evitamento ao conflito pode constituir um entrave à sua resolução, propiciando comportamentos individuais contrários ao comprometimento afetivo.
COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL E CIDADANIA ORGANIZACIONAL
A importância do comprometimento organizacional tem crescido na gestão das organizações pelo contributo que dá à análise dos comportamentos no trabalho, em especial os relativos à cidadania organizacional (Grego-Planer, 2019; Tharikh, Yig, Saad & Sukumaran, 2016).
Os comportamentos de cidadania organizacional representam comportamentos voluntários e não recompensados formalmente pela função, com efeitos positivos na organização já que aumentam a satisfação, a lealdade ao trabalho (Bhatla, 2013) e o engajamento no trabalho (Latha & Deepa, 2017).
Na perspectiva multidimensional, o construto é constituído por cinco dimensões (Pourgaz, Naruei, & Jenaabadi, 2015). O altruísmo é um comportamento voluntário de ajuda a pessoas com dificuldades ou com tarefas organizacionalmente relevantes, sem esperar serem retribuídos por isso. A conscienciosidade é um comportamento tido por profissionais superando os requisitos mínimos ou esperados pelo exercício da função. A cortesia é um comportamento característico de profissionais que agem de forma a prevenir, ou minimizar, a ocorrência de problemas com os outros. O desportivismo é um comportamento típico de indivíduos que tendem a evitar queixas perante os problemas, sobrevalorizando os aspetos positivos da organização. A virtude cívica está relacionada com as responsabilidades e funções que os profissionais assumem na vida política da organização.
Apesar de não ser consensual, a perspectiva dominante converge na existência de relação entre os dois construtos: profissionais comprometidos esforçam-se mais discricionariamente no trabalho (Tharikh et al., 2016) e contribuem para a melhoria do bem-estar pessoal e organizacional (Meyer & Allen, 1997) e para o aumento da eficácia e eficiência das atividades organizacionais (Leephaijaroen, 2016).
Neste âmbito, Meyer e Allen (1997), Rego e Souto (2004) e Grego-Planer (2019) confirmaram a existência de relações positivas entre o comprometimento afetivo e normativo com os comportamentos de cidadania organizacional, sendo a relação negativa ao nível do comprometimento instrumental. Danish e Shahid (2015) e Martins, Costa e Siqueira (2015) evidenciaram apenas uma relação positiva do comprometimento afetivo nos comportamentos de cidadania organizacional. Já Leephaijaroen (2016) evidenciou uma relação positiva significativa entre comprometimento afetivo e normativo com comportamentos altruístas e de desportivismo. Ribeiro (2009) encontrou apenas uma relação positiva significativa com comportamentos altruístas.
Em contexto de ensino, destaque para os estudos de Bhatla (2013), Hasani, Boroujerdi e Sheikhesmaeili (2013) e Cordeiro (2014) sobre os professores de instituições de ensino superior (IES). Os dois primeiros concluíram que os comportamentos de cidadania organizacional são tão mais frequentes quanto maior for o seu nível de comprometimento. O terceiro evidenciou uma relação positiva do comprometimento afetivo e normativo com os comportamentos de cidadania e uma relação negativa do comprometimento instrumental com estes comportamentos.
Hipótese 6: o comprometimento afetivo correlaciona-se positivamente com os comportamentos de cidadania organizacional de altruísmo (H6a), cortesia (H6b), conscienciosidade (H6c), virtude cívica (H6d) e desportivismo (H6e).
Hipótese 7: o comprometimento normativo correlaciona-se positivamente com os comportamentos de cidadania organizacional de altruísmo (H7a), cortesia (H7b), conscienciosidade (H7c), virtude cívica (H7d) e desportivismo (H7e).
Hipótese 8: o comprometimento instrumental correlaciona-se negativamente com os comportamentos de cidadania organizacional de altruísmo (H8a), cortesia (H8b), conscienciosidade (H8c), virtude cívica (H8d) e desportivismo (H8e).
MODELO DE ANÁLISE
O modelo de pesquisa proposto explora a natureza da relação entre a gestão de conflitos, o comprometimento e a cidadania organizacional (Figura 1). Os estilos de gestão de conflitos são variáveis independentes. Os tipos de comprometimento são variáveis dependentes dos estilos de gestão de conflitos, enquanto os tipos de cidadania organizacional são variáveis dependentes dos tipos de comprometimento. Contempla, ainda, as variáveis sociodemográficas (sexo, tempo de serviço, cargo profissional e local de exercício de funções) como variáveis de controle.
MÉTODO
TIPO DE PESQUISA E PARTICIPANTES
A pesquisa incide num estudo de caso (Yin, 2015), apresentando uma vertente descritivo-correlacional de natureza quantitativa apoiada na utilização do inquérito.
Dada a natureza inovadora do estudo em Portugal, optou-se por uma amostra de conveniência para obter informações sobre tendências e resultados. Esta opção se deveu à facilidade de acesso ao contexto em análise e à dificuldade em compilar as unidades amostrais. Apesar da impossibilidade de generalização dos resultados, permite obter informações pertinentes quando não existem razões fundamentais que diferenciam os indivíduos da amostra e os que compõem a população total.
O estudo foi dirigido aos profissionais não docentes (dirigentes e trabalhadores) de uma IES em Portugal. Os motivos desta opção devem-se, sobretudo, por estes terem sido descurados enquanto objeto de estudo nas investigações sobre o tema, mas também por ser preconizada uma gestão mais centralizada deste grupo profissional, com implicações na estrutura de autoridade formal.
Fundada em 1979, a IES é constituída por cinco escolas (empresariais, educação, saúde e duas de tecnologia) com cerca de 6.000 estudantes e 178 profissionais não docentes.
O inquérito foi aplicado a todos os profissionais não docentes. Obtiveram-se 127 respostas (71,3%), sendo a amostra constituída maioritariamente por profissionais do sexo feminino (76,4%), entre 40 e 49 anos (51,2%), detentores de licenciatura (36,2%), com a categoria de assistentes técnicos (38,6%) e com níveis elevados de antiguidade (55,1% estão há mais de 16 anos na instituição).
INSTRUMENTO
Para a gestão de conflitos aplicou-se o inquérito referente ao modelo de Thomas (1992, citado por Jesuíno, 1992), desenvolvido por Jesuíno (1992). Com uma escala de Likert com 5 pontos (1 “nunca” até 5 “sempre”), incluiu 25 itens distribuídos por cinco escalas: colaboração (5), compromisso (5), competição (5), anuência (5), evitamento (5). Para o comprometimento, dado que a proposição do construto entrincheiramento organizacional representa um avanço na investigação relativa aos limites do comprometimento, a necessidade da continuação de estudos que confirmem a possível sobreposição entre a base instrumental do comprometimento e o entrincheiramento organizacional a fim de construir modelos explicativos que esclareçam os impactos desse vínculo, levou-nos, nesta fase da pesquisa, a optar pela replicação do inquérito sobre o modelo de base de Meyer e Allen (1997), adaptado à realidade portuguesa por Nascimento, Lopes e Salgueiro (2008). Com uma escala de Likert com 5 pontos (1 “discordo totalmente” até 5 “concordo totalmente”), apresenta três componentes com 19 itens: comprometimento afetivo (6), comprometimento normativo (6), comprometimento instrumental (7). Para a cidadania recorreu-se ao inquérito de Konovsky e Organ (1996, citado por Ribeiro, 2009) aplicado em contexto nacional por Ribeiro (2009). Com uma escala de Likert com 5 pontos (1 “discordo totalmente” até 5 “concordo totalmente”), tem 17 itens distribuídos por cinco escalas: altruísmo (3), cortesia (3), conscienciosidade (3), desportivismo (4), virtude cívica (4). Coletaram-se, ainda, os dados sociodemográficos e profissionais dos participantes.
PROCEDIMENTO PARA COLETA E ANÁLISE DE DADOS
A aplicação do inquérito, previamente autorizada pelo Presidente da Instituição, foi realizada pelos autores deste estudo através da plataforma LimeSurvey, entre março e abril de 2018. Os respondentes foram considerados individualmente para assegurar a suposição de observações independentes. As respostas às diferentes seções puderam ser gravadas, permitindo a sua conclusão em diferentes momentos. A aplicação e o tratamento dos dados do inquérito procuraram assegurar o anonimato e a confidencialidade dos participantes, sendo os resultados considerados apenas para efeitos de investigação. Por motivos estritamente estatísticos foi, contudo, necessário recolher alguns elementos sociodemográficos sobre os participantes, cuja participação foi voluntária.
A análise dos dados foi feita através do SPSS/AMOS25, utilizando a técnica de MEE. Não havendo estudos semelhantes em Portugal, a análise é apoiada por estudos teórico-empíricos a nível internacional, pelo que a MEE é aqui entendida como uma técnica confirmatória cujo objetivo é explicar as relações hipotetizadas entre as variáveis do modelo (Ringle, Bido, & Silva, 2015).
O ajuste do modelo foi estimado com base nos índices estatísticos mais frequentemente utilizados. Relativamente à importância do cálculo do tamanho da amostra, que permite conferir validade interna ao estudo, houve a preocupação de se utilizar um tamanho adequado. Devido à especificidade do estudo e de ele ter um número reduzido de respondentes (N = 127), não foi possível respeitar a sugestão optimal de 10 indivíduos por variável, sendo opção a utilização do Critical N (CN), que refere à adequação do tamanho da amostra ao modelo postulado com 95% de confiança e 99%, respectivamente. Este critério verifica a adequação do tamanho da amostra, e não o ajustamento do modelo. Um valor que exceda 200 é indicativo que o modelo representa adequadamente os dados amostrais (Hoelter, 1983).
A análise dos dados tem por base os principais critérios e testes utilizados na avaliação da fidelidade (estabilidade, consistência interna, equivalência) e validade (conteúdo, critério, construto) dos instrumentos para assegurar a qualidade dos resultados (Menezes & Xavier, 2018).
RESULTADOS
AVALIAÇÃO DOS INSTRUMENTOS
Para testar a validade interna das escalas, procedeu-se à análise fatorial e ao estudo da consistência interna. Na estrutura fatorial dos resultados, as escalas foram analisadas através de uma rotação varimax com componentes principais. Foram considerados todos os fatores isolados que apresentassem um valor próprio (eigen-value) igual ou superior à unidade. Os valores obtidos evidenciaram resultados bons e/ou muito bons de coeficientes de confiabilidade. Quanto a este aspeto, de realçar que, quanto mais elevadas forem as covariâncias (ou correlações entre os itens), maior é a homogeneidade dos itens e maior é a consistência com que medem a mesma dimensão ou constructo teórico. Por outro lado, a consistência interna estima a fiabilidade de um instrumento, pois quanto menor é a variabilidade de um mesmo item numa amostra de sujeitos, menor é o erro de medida que este possui associado. Assim, quanto menor for a soma das variâncias dos itens relativamente à variância total dos sujeitos, mais o coeficiente se aproxima de 1, significando que mais consistente e, consequentemente, mais fiável é o instrumento. Assim, na gestão de conflito colaboração (ɑ=0,83), compromisso (ɑ=0,92), competição (ɑ=0,80), anuência (ɑ=0,90), evitamento (ɑ=0,86), os quais se mostraram superiores aos da escala original (colaboração ɑ=0,66; compromisso ɑ=0,61; competição ɑ=0,47; anuência ɑ=0,73; evitamento ɑ=0,73). No comprometimento organizacional afetivo (ɑ=0,96), normativo (ɑ=0,90), instrumental (ɑ=0,86), revelando-se maioritariamente superiores aos da escala original (afetivo ɑ=0,91; normativo ɑ=0,84; instrumental ɑ=0,91). Na cidadania organizacional altruísmo (ɑ=0,92), cortesia (ɑ=0,82), conscienciosidade (ɑ=0,86), desportivismo (ɑ=0,96), virtude cívica (ɑ=0,89), que, com exceção de um fator, se apresentam como sendo muito superiores aos da escala original (altruísmo ɑ=0,82; cortesia ɑ=0,73; conscienciosidade ɑ=0,86; desportivismo ɑ=0,79; virtude cívica ɑ=0,71).
A consistência interna dos indicadores de cada construto foi testada através da confiabilidade composta. Na gestão de conflitos, os indicadores apresentam pesos fatoriais entre 0,58 e 0,89, destacando-se: “Não considera um «não» como resposta” (0,79 colaboração); “Procura um compromisso” (0,82 compromisso); “Impõe a sua solução” (0,81 competição); “Cede um pouco para receber algo em troca” (0,89 anuência); “Ignora o conflito” (0,78 evitamento). No comprometimento, os indicadores revelam pesos fatoriais entre 0,51 e 0,90, nomeadamente: “Sinto-me como fazendo parte da família nesta instituição” (0,90 afetivo); “Acredito que há muito poucas alternativas para pensar em poder sair desta instituição” (0,78 instrumental); “Sinto que tenho um grande dever para com esta instituição” (0,85 normativo). Na cidadania, os indicadores têm pesos fatoriais entre 0,58 e 0,89, realçando-se: “Ajuda as pessoas que estiveram ausentes” (0,86 altruísmo); “Mostra má vontade perante qualquer mudança introduzida pela gestão da organização” (0,89 desportivismo); “Respeita os direitos e regalias das outras pessoas” (0,80 cortesia); “É sempre pontual” (0,82 conscienciosidade); “Faz sugestões sobre como melhorar o funcionamento da organização” (0,80 virtude cívica).
De referir que três indicadores (um da gestão de conflitos competição, um do comprometimento instrumental e um da cidadania altruísmo) apresentaram valores no limiar do aceitável. Poder-se-á supor que esses fatores estão subestimados e que poderiam ter sido excluídos da análise. Todavia, para validar as abordagens originais, sem alterar a estrutura do inquérito e não perder informação qualitativa importante, decidiu-se mantê-los na análise dado que os resultados confirmam que os indicadores se agrupam nas respectivas dimensões. Esta decisão reforça a validade convergente do constructo no qual são previstas relações estabelecidas e plausíveis com variáveis medidas por instrumentos que intencionalmente medem o mesmo constructo e em que se espera que exista uma relação positiva ou negativa.
No teste de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) de adequação de amostra e da esfericidade de Bartlett, as análises revelaram valores de ajuste e ótimas variâncias explicadas: gestão de conflitos – KMO (0,86), esfericidade de Bartlett (χ2(300) = 1981,78; p < 0,01), variância explicada 68.33%; comprometimento organizacional – KMO (0,89), esfericidade de Bartlett (χ2(171) = 1860,53; p < 0,01), variância explicada 69,70%; cidadania organizacional – KMO (0,92), esfericidade de Bartlett (χ2(136) = 1909,55; p < 0,01), variância explicada 82,38%. Os valores indicam que a análise de componentes principais realizada é consistente e que as variáveis são correlacionáveis.
MODELO ESTRUTURAL
Da análise das estatísticas descritivas para os três instrumentos, conclui-se que os profissionais desta IES preconizam estratégias diferenciadas de gestão de conflitos, estão globalmente comprometidos e desenvolvem comportamentos de cidadania organizacional. No que se refere aos valores das médias em cada dimensão, obtidas através dos seus itens normalizados, os resultados são todos superiores à média calculada para cada dimensão com exceção do comportamento de cidadania desportivismo (M=10,17), cujo valor da média nessa dimensão é de 12. Os valores dos desvios-padrão são inferiores à unidade em todos as dimensões (entre 0,24 da cidadania conscienciosidade até 0,81 do comprometimento instrumental), indicando uma baixa dispersão dos dados em relação a cada uma das médias obtidas. Os valores dos erros-padrão (entre 2,66 da cidadania conscienciosidade até 9,17 do comprometimento instrumental) estão em conformidade, verificando-se a confiabilidade da média da amostra encontrada.
Quanto à normalidade das variáveis, os dados situam-se entre os valores máximos permitidos (2 – assimetria e 7 – curtose) justificando-se proceder à estimação do ajuste do modelo: os valores da assimetria situam-se entre -0,09 do comprometimento instrumental e o -1,89 da cidadania virtude cívica; os valores de curtose situam-se entre -0,36 da gestão de conflitos anuência e o 3,19 da cidadania virtude cívica.
O ajustamento do modelo proposto, foi estimado através dos índices mais utilizados nos MEE (Figura 2), tendo por base as relações causais hipotetizadas que derivaram da revisão da literatura. Conclui-se que os valores obtidos nos índices de bondade de ajustamento global do modelo analítico são robustos [χ2(4) = 101,873, p < 0,058; χ2/gl = 1,258; GFI = 0,905; CFI = 0,962; TLI = 0,936; NFI = 0,851; RMSEA = 0,045 (0,000 – 0,071)], confirmando a hipótese de que o modelo representa as relações entre as variáveis da matriz empírica.

Fonte: Elaborada pelos autores (2018).
Legenda: A letra (e) seguida do número (1, 2… 13) corresponde ao erro de medida da variável observável.
Figura 2 Especificação pictórica do modelo das relações causais (valores estandardizados) a partir de dados da pesquisa
Da análise das variáveis de controle, conclui-se que só o cargo profissional e o local de exercício da função apresentam efeito estatístico significante, mas apenas na gestão de conflitos, pelo que as variáveis sexo e tempo de serviço foram extraídas do modelo de forma a remover o seu efeito nas relações de interesse da pesquisa.
O conflito é diferentemente gerido consoante o cargo exercido e o local de desempenho da função. Por um lado, quem desempenha funções hierarquicamente mais baixas (assistentes operacionais e técnicos) preconiza um estilo de maior competitividade (β = 0,19 e p < 0,05) e de menor compromisso (β = -0,18 e p < 0,05) e colaboração (β = -0,18 e p < 0,05) na gestão do conflito. Por outro lado, quem exerce funções nos serviços centrais e na escola de tecnologia de Setúbal utiliza com menor intensidade o estilo de anuência (β = -0,19 e p < 0,05), evitamento (β = -0,17 e p < 0,05) e competitividade (β = -0,17 e p < 0,05) quando necessita gerir conflitos (Figura 3).

Fonte: Elaborada pelos autores (2018).
Figura 3 Contrastação da estrutura de covariância hipotetizado para a amostra (variáveis de controle, gestão de conflitos e comprometimento organizacional)
As hipóteses formuladas que orientam as especificações entre a gestão de conflitos e o comprometimento (H1, H2, H3, H4, H5) foram confirmadas na sua globalidade, com exceção da H2c e da H3c. Os valores indicam que quem possui um estilo de gestão de conflitos de colaboração e anuência está positivamente comprometido com a organização a nível instrumental (β = 0,19 e p < 0,05; β = 0,16, p < 0,05 respectivamente) (Figura 3).
Os profissionais que apresentam um estilo de maior competição e evitamento revelam ter um comprometimento de maior instrumentalidade (β = 0,16 e p < 0,05; β = 0,32 e p < 0,01, respectivamente) e de menor normatividade (β = -0,20 e p < 0,05; β = -0,28; p < 0,01, respectivamente) e afetividade (β = -0,17 e p < 0,01; β = -0,77 e p < 0,01, respectivamente). Quem preconiza um estilo de maior anuência e colaboração exibe tendencialmente um comprometimento de maior normatividade (β = 0,19 e p < 0,05; β = 0,18 e p < 0,05, respectivamente), afetividade (β = 0,23 e p < 0,01; β = 0,23 e p < 0,01, respectivamente) e instrumentalidade (β = 0,16 e p < 0,05; β = 0,19 e p < 0,05, respectivamente). Já quem possui um estilo de maior compromisso apresenta um comprometimento mais afetivo e normativo (β = 0,43 e p < 0,01; β = 0,16 e p < 0,05, respectivamente) e menos instrumental (β = -0,17 e p < 0,05). Todas as relações são estatisticamente significativas, embora com níveis diferentes de pesos de regressão.
As hipóteses formuladas sobre a relação entre o comprometimento e a cidadania organizacional (H6, H7, H8) foram confirmadas (Figura 4).

Fonte: Elaborada pelos autores (2018).
Figura 4 Contrastação da estrutura de covariância hipotetizado para a amostra (comprometimento organizacional e cidadania organizacional)
Os valores indicam relações positivas do comprometimento afetivo e normativo com os comportamentos de cidadania organizacional e as relações negativas do comprometimento instrumental com esses mesmos comportamentos. A maioria das relações são estatisticamente significativas.
A análise da Tabela revela que a maioria das dimensões do modelo estão associadas entre si e são estatisticamente significativas. Os valores das associações variam entre muito fraco (r entre 0,000 e 0,200) e forte (r entre 0,700 e 0,899) (Marôco, 2018).
Tabela Correlações de Pearson entre as dimensões do modelo.
GCC | GCA | GCCo | GCCol | GCE | CN | CA | CI | CiA | CiD | CiCo | CiC | |
---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
Competição (GCC) | 1 | |||||||||||
Anuência (GCA) | -0,040 | 1 | ||||||||||
Compromisso (GCCo) | -0,111 | -0,069 | 1 | |||||||||
Colaboração (GCCol) | 0,067 | -0,104 | 0,315** | 1 | ||||||||
Evitamento (GCE) | 0,073 | 0,228** | -0,334** | -0,326** | 1 | |||||||
Normativo (CN) | -0,227* | 0,098 | 0,310** | 0,282** | -0,352** | 1 | ||||||
Afetivo (CA) | -0,234** | 0,011 | 0,661** | 0,502** | -0,825** | 0,452** | 1 | |||||
Instrumental (CI) | 0,203* | 0,216* | -0,238** | 0,031 | 0,359** | -0,176* | -0,297** | 1 | ||||
Altruísmo (CiA) | -0,200* | 0,072 | 0,381** | 0,294** | -0,496** | 0,396** | 0,582** | -0,345** | 1 | |||
Desportivismo (CiD) | -0,092 | 0,024 | 0,223* | 0,171 | -0,235** | 0,201* | 0,283** | -0,142 | 0,192* | 1 | ||
Cortesia (CiCo) | -0,073 | -0,065 | 0,186* | 0,105 | -0,241** | 0,176* | 0,261** | -0,090 | 0,216* | 0,093 | 1 | |
Conscienciosidade (CiC) | -0,078 | -0,002 | 0,097 | 0,136 | -0,299** | 0,372** | 0,277** | -0,308** | 0,282** | 0,089 | 0,085 | 1 |
Virtude Cívica (CiVC) | -0,106 | -0,016 | 0,183* | 0,183* | -0,303** | 0,320** | 0,358** | -0,309** | 0,252** | 0,123 | 0,061 | 0,178* |
Fonte: Elaborada pelos autores (2018).
* Correlação significativa no nível 0,05 (duas extremidades).
** Correlação significativa no nível 0,01 (duas extremidades).
As associações com maior significância verificam-se entre comprometimento afetivo e gestão de conflitos evitamento (r = -0,825 e p < 0,01), compromisso (r = 0,661 e p < 0,01) e colaboração (r = 0,502 e p < 0,01); entre comprometimento afetivo e cidadania altruísmo (r = 0,582 e p < 0,01); entre gestão de conflitos evitamento e cidadania altruísmo (r = -0,496 e p < 0,01). Estes resultados confirmam, globalmente, os resultados obtidos na especificação pictórica das relações causais entre as variáveis do modelo.
Todas as dimensões apresentam alguma associação estatística com significância. De realçar que a gestão de conflitos evitamento (11), o comprometimento afetivo (11) e normativo (11) e a cidadania altruísmo (11) são as que apresentam o maior número de associações significativas. Já a gestão de conflitos anuência é a que menos associações com significância apresenta (2).
Relativamente à confirmação da adequação do tamanho da amostra, os resultados obtidos do CN (128/0,05; e 141/0,01) são muito próximos do valor indicativo de 200, que, em conjunto com os outros índices de ajustamento do modelo, conferem a garantia do número de respondentes, isto é, permite rodar as análises realizadas e conferem confiabilidade aos seus resultados (Hoelter, 1983).
DISCUSSÃO
Este estudo evidenciou resultados pertinentes sobre os comportamentos e as atitudes no trabalho que devem ser discutidos à luz dos referenciais teóricos que o sustentam.
Nas variáveis de controle ficou evidenciado que os profissionais com cargos mais elevados desenvolvem estratégias de gestão de conflitos de maior compromisso, colaboração e anuência e de menor competitividade e evitamento. O local de exercício da função surge também como uma variável diferenciadora, indicando diferentes formas de estar perante um conflito na IES.
Os profissionais estão diferentemente comprometidos com a IES, atuando em função de padrões definidos pelos diferentes estilos de gestão de conflitos, o que é consistente com os estudos de Hussein et al. (2017), Al-Jawazneh (2015) e Kassim e Ibrahim (2014). Os resultados revelaram que os profissionais com maior propensão para o compromisso, colaboração e anuência possuem níveis superiores de comprometimento quando comparados com os profissionais com estilo de evitamento e competição.
O teste da hipótese 1 apresentou significância estatística – existe uma relação positiva com o comprometimento afetivo (H1a) e normativo (H1b) e uma relação negativa com o comprometimento instrumental (H1c). A gestão de conflitos de compromisso aumenta os níveis de comprometimento e incentiva os profissionais a trabalhar em conjunto para resolverem as suas divergências. Este resultado vem no mesmo sentido do defendido por Hussein et al. (2017), Asyraf et al. (2016), Kassim e Ibrahim (2014), Balay (2007). A possibilidade de alcançar um compromisso, ainda que parcial, pode revelar-se uma boa solução provisória (Al-Jawazneh, 2015).
As hipóteses 2 e 3 (excetuando as alíneas H2c e H3c) foram suportadas parcialmente. O conflito, quando gerido de forma colaborativa e anuída proporciona uma atitude positiva de maior compreensão e disponibilidade, aumenta o compromisso (Asyraf et al., 2016; Wanyonyi et al., 2015) e torna os profissionais mais eficientes (Hussein et al., 2017).
Os testes das hipóteses 4 e 5 forneceram suporte para confirmar uma correlação positiva com o comprometimento instrumental (H4a e H5a) e negativa com o afetivo (H4b e H5b) e normativo (H4c e H5c). Este resultado evidencia que, numa relação instrumentalizada, o indivíduo centra-se, sobretudo, na implementação de uma estratégia que previna prejuízos pessoais e profissionais, evitando o conflito (Asyraf et al., 2016; Balay, 2007; Hussein et al., 2017; Silloto & Andrade, 2014; Wanyonyi et al., 2015).
Os resultados da MEE revelaram uma relação positiva do comprometimento afetivo e normativo com todos os comportamentos de cidadania e uma relação negativa do comprometimento instrumental com esses mesmos comportamentos.
A hipótese 6, que testou a relação entre o comprometimento afetivo e a cidadania organizacional, foi suportada. Indivíduos que vêm a organização em que trabalham como grupo de pertença têm maior propensão para agir extrafunções, revelando-se bons cidadãos organizacionais (Ribeiro, 2009), o que é consistente com as análises de Grego-Planer (2019), Leephaijaroen (2016), Danish e Shahid (2015), Cordeiro (2014), Rego e Souto (2004) e Meyer e Allen (1997).
O comprometimento normativo apresentou uma correlação positiva com importância preditiva, de menor intensidade, na explicação de todos os tipos de cidadania, o que permite confirmar a hipótese 7. Este resultado vem no mesmo sentido dos que foram verificados por Grego-Planer (2019), Cordeiro (2014) e Ribeiro (2009).
A hipótese 8 foi suportada. Quem está na organização por uma premissa utilitarista assume uma postura de maior passividade perante os comportamentos de cidadania (Ribeiro, 2009), corroborando os resultados obtidos por Grego-Planer (2019), Rego e Souto (2004) e Meyer e Allen (1997).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo deste estudo foi analisar a relação entre gestão de conflitos, comprometimento e cidadania organizacional dos profissionais não docentes de uma IES. Conclui-se que os estilos de gestão de conflitos influenciam os tipos de comprometimento organizacional que, por seu lado, influenciam os comportamentos de cidadania organizacional. O fomento de processos de gestão do conflito de maior compromisso e colaboração e o controle de processos de gestão do conflito competitivo e de evitamento poderão transformar a situação num benefício organizacional.
Assim, se se assume que a gestão de conflitos tem impacto no desenvolvimento da organização, deve-se também assumir que a organização obterá ganhos superiores quando os gestores conceberem políticas centradas no desenvolvimento de estratégias de gestão de conflitos, de comprometimento e de cidadania organizacional.
Como implicações teóricas, esta pesquisa sistematiza um modelo analítico que permite compreender reflexivamente a relação entre a gestão construtiva de conflitos e os comportamentos de comprometimento e de cidadania organizacional de um grupo profissional específico no contexto do ensino superior. Contribui, assim, para a formulação de uma nova visão, assente numa perspectiva inter-relacional, destacando a sua natureza multidimensional.
Como implicações práticas, auxilia a formulação de estratégias de gestão sustentadas no comportamento organizacional contribuindo para uma maior consciencialização, por parte dos gestores das IES, sobre a importância da concepção de programas assentes no desenvolvimento de competências comportamentais.
Este estudo tem algumas limitações. Primeira, dado tratar-se de um estudo dirigido a um caso específico, com a utilização de uma amostra não probabilística e uma única fonte de coleta de dados, os resultados não podem ser generalizados e as correlações podem levantar algumas preocupações sobre o viés do método comum. Segunda, o tamanho da amostra é relativamente pequeno e constituído principalmente por mulheres. Terceira, a operacionalização do modelo no construto do comprometimento organizacional manteve-se fiel à abordagem original, não tendo incorporado os contributos mais recentes que remetem para a sua reformulação através da inclusão da dimensão de entrincheiramento organizacional dada a necessidade da continuação de outros estudos teórico-empíricos que consolidem a proposta.
Sugere-se a realização de estudos de matriz longitudinal, com amostras mais robustas, em IES dos subsistemas politécnico e universitário, de modo a consolidar o conhecimento sobre a relação entre gestão de conflitos, comprometimento e cidadania organizacional.