Comportamentos agressivos podem ser definidos como gestos de ameaça ou ataques reais dirigidos a outras pessoas ou objetos (Raine, 2013). Biologicamente, trata-se de um fenômeno evolutivamente selecionado, presente em todos os animais e relacionado à sobrevivência, visto que auxilia na aquisição e defesa de territórios, alimentos, status social, ou parceiros sexuais (Chambers, 2010). Porém, em determinadas magnitudes, pode ser considerado como “mal adaptado”, pois torna-se violento e apresenta sérios riscos e danos a outros indivíduos, transformando-se em um grave problema social (Hoaken, Allaby, & Earle, 2007; Liu, 2011).
Nos seres humanos, formas mais sutis de comportamento agressivo desenvolvem-se no processo de socialização, como é o caso da agressão relacional, que pode ser definida como uma forma de violência que envolve danos nos relacionamentos interpessoais por meio, por exemplo, de fofocas, maledicências, preconceito e exclusão de grupo (Crick et al., 1999; Aizpitarte, Atherton, & Robins, 2017; Crick & Grotpeter, 1995; Crick, Osrov, & Werner, 2006). Nesse sentido, ela distingue-se da agressão física ou verbal por ser uma forma mais sutil e dirigida diretamente para os relacionamentos (Linder, Crick, & Collins, 2002; Cheng, 2014).
As consequências da agressão relacional podem ser tão adversas quanto nas formas mais diretas de violência, podendo gerar transtornos de humor ou afetivos nas vítimas (Archer & Coyne, 2005). Além disso, existem evidências de que indivíduos perpetradores de agressão relacional apresentam mais sintomas do Transtorno Desafiador Opositor (TDO - CID F. 91.3) e Transtorno de Conduta em geral (TC- CID F. 91) (Aizpitarte et al ., 2017; OMS, 1993).
Nos últimos anos, vários estudos internacionais sobre agressão relacional identificaram o envolvimento maciço de crianças e adolescentes, tanto como perpetradores quanto como vítimas dessa forma de violência. Como consequência, há mais probabilidades de depressão, suicídio, fracasso acadêmico e utilização de formas destrutivas de enfrentamento (Baird, Silver, & Veague, 2010; Bass, Saldarriaga, Chen, Santos, & Bukowski, 2018; Ellis, Crooks, & Wolfe, 2008; Payne & Hutzell, 2015).
Do ponto de vista neurocientífico, estruturas como amígdala, hipotálamo e matéria cinzenta periaquedutal desempenham funções promotoras, enquanto regiões como córtex pré-frontal (CPF) e área septal, mediadas por transmissões serotonérgicas e gabaérgicas, atuam como moduladoras de comportamentos agressivos (Heinz, Beck, Meyer-Lindenberg, Sterzer, & Heinz, 2011; Richter et al. 2011). Particularmente, o comportamento agressivo relacional pode estar envolvido com o amadurecimento da circuitaria neural associada ao CPF. Essa região cerebral que, do ponto de vista ontogenético, inicia seu desenvolvimento nos primeiros meses de vida, com um período crítico entre 6 e 8 anos de idade, demora aproximadamente 21 anos para terminar seu processo de maturação (Malloy-Diniz, Fuentes, Mattos, & Abreu, 2010; Teffer & Semendeferi, 2012).
Compreende-se que essa circuitaria está relacionada com as funções executivas (FEs), que correspondem a processos cognitivos de alta ordem envolvidos na iniciação, planejamento e regulação do comportamento dirigido para um objetivo, como memória operacional, tomada de decisão, flexibilidade cognitiva, atenção e controle inibitório (Goldstein, Naglieri, Princoptta, & Otero, 2014; Jurado & Rosseli, 2007; Pahlavan, Mouchiroud, & Nemlaghi-Manis, 2012). Vários estudos, de diferentes campos, sugerem que o prejuízo das FEs tem papel importante na etiologia do comportamento agressivo (Paschall & Fishbein, 2002), indicando uma relação entre baixo desempenho executivo e aumento na propensão à manifestação de comportamentos agressivos (Kramer, Kopyciok, Richter, Rodriguez-Fornells, & Munte, 2011).
Crianças com deficit nessas funções podem ser menos propensas a inibir comportamentos não adaptativos e serem pouco adaptáveis às situações sociais, recorrendo, muitas vezes, à agressividade para administrá-las (O’toole, Tsermentseli, Humayun, & Monks, 2019). Em adição a isso, reporta-se que crianças que sofrem ou praticam bullying, um tipo de agressão relacional, apresentam deficit no desempenho executivo (Verlinden et al., 2014; 31). Outros estudos, realizados com crianças entre 9 e 12 anos, mostraram evidências de que baixos desempenhos nas FEs estão relacionados a agressões físicas e relacionais (McQuade, Murray-Close, Shoulberg, & Hoza, 2013; Granvald & Marciszko, 2015).
Colegiais com altos índices de comportamento agressivo relacional, tanto nos relacionamentos amorosos quanto sociais, se caracterizam por serem pouco empáticos, com maior presença de traços antissociais e histórico de comportamento agressivo (Czar, Dahlen, Bullock, & Nicholson, 2011; Loudin, Loukas, & Robinson, 2003; Miller & Lynam, 2003; Schmeelk, Sylvers, & Lilienfeld, 2008). Relata-se, ainda, por meio de um trabalho com ressonância magnética funcional em adolescentes, que pessoas capazes de recrutar redes frontais específicas, como os córtices pré-frontal dorsolateral e cingulado anterior, a fim de aprimorar o funcionamento executivo, em especial inibitório, são menos sensíveis à agressão relacional (Baird et al., 2010).
Juntos, os dados apresentados ressaltam a relevância da investigação acerca da agressão relacional em adolescentes (estudantes de ensino médio), pois trata-se de um comportamento envolvido com o amadurecimento do CPF e, por conseguinte, das FEs, principalmente no controle inibitório de ações agressivas. Além disso, trata-se de um público inserido em ambiente de convívio grupal, possibilitando apresentações de comportamentos agressivos relacionais.
Uma das possibilidades disponíveis para avaliação da agressão relacional é a Relational Aggression Subscale, que foi desenvolvida por Werner & Crick (1999), com base no conceito de agressão relacional, referida como uma tentativa de causar prejuízo a terceiros por meio de manipulação, danos aos relacionamentos e exclusão social (Crick & Grotpeter, 1995). A versão original da Relational Aggression Subscale é composta de sete itens de nomeação por pares e demonstrou-se de elevada confiabilidade, com alfa de Crombach de 0,87. Posteriormente, Loudin et al., (2003) adaptaram a Relational Aggression Subscale para configurar-se como um instrumento de autorrelato, levando em conta que o respondente tem acesso a informações conscientes sobre esses comportamentos agressivos. Essa última versão, composta por sete itens respondidos em uma escala tipo Likert, variando de 1, “Discordo totalmente”, até 5, “Concordo totalmente”, demonstrou uma confiabilidade satisfatória, com alfa de Crombach de 0,69.
No Brasil, até o presente momento, não há na literatura nacional instrumentos com evidências de adequação psicométrica para avaliar a agressividade relacional, demonstrando a carência de investigações nesse campo e inviabilizando o desenvolvimento de estratégias socioeducativas, e até mesmo terapêuticas, para combater essa forma de agressão. O presente estudo tem como objetivo adaptar e reunir evidências preliminares de validade de construto (estrutura interna) e de validade baseada no critério (por grupos contrastados) da Relational Aggression Subscale.
Método
Participantes
Para reunir evidências de validade de construto, participaram do estudo 140 estudantes cursando entre o 1º e o 3º ano do ensino médio de uma escola pública de uma cidade do Centro-Oeste brasileiro, com idade entre 14 e 18 anos (Média = 15,66; DP = 0,08), sendo a maioria do sexo feminino (ƒ= 80; 57,1%). Ademais, utilizou-se uma segunda amostra, para evidências de validade de critério, de 80 universitários, de diversos estados (AL, GO, MG, DF), com idades entre 22 e 38 anos (Média = 22,88; DP = 0,47), sendo a maioria do sexo feminino (ƒ= 58; 71,6%). Para ambas as amostras, foi utilizada uma técnica de amostragem não probabilística de conveniência.
Instrumentos
Para a coleta de dados, os participantes foram solicitados a responder dois instrumentos de pesquisa descritos seguir:
(i) Questionário sociodemográfico: constituído por dados como sexo, idade, escolaridade.
(ii) Relational Aggression Subscale: elaborada por Werner & Crick, (1999) e modificada por Loudin et al. (2003). O instrumento apresenta uma estrutura unifatorial (α= 0.87) que avalia a agressão relacional por meio de 7 itens (p.ex.: “Quando com raiva ou bravo com um colega, tento prejudicar sua reputação passando informações negativas”) respondidos; escala likert variando entre 1, “Discordo totalmente”, e 5 ,“Concordo totalmente”.
Procedimentos
Inicialmente, o projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), tendo sido aprovado (CAAE: 73093717.4.0000.5077). A aplicação foi realizada de modo presencial. De início, foi solicitada a autorização dos responsáveis para a participação dos menores de idade, tendo sido esclarecidos o objetivo e o caráter voluntário e sigiloso da pesquisa, bem como o respeito às diretrizes éticas que regem a pesquisa com seres humanos. Após obtido o consentimento livre e esclarecido de todos os participantes que se voluntariaram, foi realizada a coleta dos dados, que durou aproximadamente 10 minutos e não envolveu qualquer constrangimento ou risco aos respondentes.
Procedimentos de tradução
Para a tradução da escala, adotou-se o procedimento de back translation (tradução reversa). Em uma primeira etapa, os itens da escala foram traduzidos para o português por um tradutor bilíngue, com formação em Psicologia. Posteriormente, em uma segunda etapa, essa versão foi retraduzida, do português para o inglês, por outro tradutor que não teve contato prévio com o instrumento. Por fim, em uma terceira etapa, foi realizada a consolidação da versão preliminar. De posse das duas versões (a versão original e a versão retraduzida), um terceiro pesquisador bilingue avaliou a proximidade de cada item da versão original com a versão dos itens retraduzidos. Assim, quando a retradução do item se mostrava exatamente igual ao item original, o item era aprovado na sua versão traduzida. Quando a retradução do item divergia do original, o item era discutido entre os autores, levando em conta a definição do construto, até um acordo entre os integrantes do comitê de qual seria a melhor tradução. Desse modo, foi composta a versão preliminar da Relational Aggression Subscale em português.
Procedimentos de validação de conteúdo
Com o intuito de verificar a pertinência teórica, prática e a clareza na linguagem dos itens da Relational Aggression Subscale, procedeu-se à validação do conteúdo. Para tanto, contou-se com a participação de quatro juízes (todos com formação em Psicologia), que responderam em uma escala de cinco pontos, variando de 1, “muito pouco pertinente/claro”, a 5, “totalmente pertinente/claro”, sobre a pertinência teórica, prática e a clareza na linguagem de cada item. Com as respostas, foram calculados os Coeficientes de Validade de Conteúdo (CVC) para todos os aspectos, de acordo com Hernández-Nieto (2002), para cada item, mantendo aqueles que obtiveram CVC > 0,80, e para toda a escala, aqueles que se demonstraram satisfatórios, a saber: pertinência teórica = 0,98; pertinência prática = 0,88; clareza de linguagem = 0,90.
Quadro 1 Tradução dos itens da Relational Aggression Subscale
Itens | Escala original | Versão brasileira traduzida e adaptada |
---|---|---|
01 | When angry or mad at a peer how likely are you to give him/her the "silent treatment?" | Quando zangado ou bravo com um colega, dou-lhe "tratamento silencioso" (não “dirigir a palavra” a esse colega). |
02 | When angry or mad at a peer how likely are you to try to damage his/her reputation by passing on negative information? | Quando com raiva ou bravo com um colega, tento prejudicar sua reputação passando informações negativas. |
03 | When angry or mad at a peer how likely are you to try to retaliate by excluding him/her from group activities? | Quando com raiva ou bravo com um colega, tento retaliar excluindo-o das atividades em grupo. |
04 | How likely are you to intentionally ignore a peer, until s/he agrees to do something you want them to do? | Ignorar intencionalmente um colega, até que concorde em fazer algo que você quer que ele faça. |
05 | How likely are you to make it clear to a peer that you will think less of him/her unless they do what you want them to do? | Deixar claro para um colega que você irá valorizá-lo menos (considerar menos) caso ele não faça o que você quer. |
06 | How likely are you to threaten to share private information with others in order to get a peer to comply with your wishes? | Ameaçar compartilhar informações privadas com outras pessoas com a finalidade de conseguir que seus colegas cumpram seus desejos. |
07 | When angry or mad at a same-sex peer, how likely are you to try and steal that person's dating partner to get back at them? | Quando com raiva ou bravo com um colega, tento roubar o(a) parceiro(a) de namoro dessa pessoa para me vingar. |
Fonte: Elaborado pelos autores.
Análise de dados
As análises foram realizadas por meio do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 24. Em um primeiro momento, foram realizadas estatísticas descritivas (média e desvio-padrão) com as respostas do questionário sociodemográfico no intuito de apresentar um perfil amostral. Posteriormente, verificou-se que os dados satisfaziam os pressupostos da Análise Fatorial Exploratória (AFE). Assim, utilizou-se a análise paralela de Horn para definir o número de fatores a se extrair.
Para avaliar as evidências de validade de construto, foi realizada uma AFE por meio do executável Factor (v.10.8.02). Logo, com o pressuposto do caráter ordinal dos dados, procedeu-se à condução das análises a partir da matriz de correlação policórica (Domínguez, 2014; Hoffmann, Stover, & Liporace, 2013), com extração do fator a partir do método Minimum Rank Factor Analysis (MRFA). Adotou-se também um valor mínimo de saturação do item considerado aceitável de 0,40. A confiabilidade dos fatores da escala foi realizada por meio da técnica de alfa de cronbach (α), no SPSS (v.24). Por fim, a evidência de validade de critério da Relational Aggression Subscale foi analisada por meio do teste t de student, para se verificar a existência de diferenças nos escores médios da escala em função do tipo de participante (colegial × universitário).
Resultados
Evidências de validade de construto (estrutura interna)
Inicialmente, buscou-se verificar a adequação dos dados a AFE por meio dos testes Kaiser-Meyer-Olkin (0,81), que foi considerado aceitável; e o teste de esfericidade de Bartlett [χ2(21) =112,5; p<0,001], que também indicou a adequação dos dados à AFE. Para identificação do número de fatores a se extrair, utilizou-se o AP, que indicou um modelo unifatorial, corroborando a estrutura teórica original da Relational Aggression Subscale, ver Tabela 1.
Tabela 1 Análise paralela de Horn
Real-data eigenvalues | Random eigenvalues |
---|---|
54.6* | 45.8 |
20.2 | 34.3 |
12.6 | 25.8 |
*número de fatores que podem ser considerados.
Fonte: Elaborada pelos autores.
Desse modo, foi realizada uma AFE no executável Factor (v. 10.8.02), com método Minimum Rank Factor Analysis (MRFA) e sem rotação, fixando a extração de um fator (Ver Quadro 2).
Quadro 2 AFE da Relational Aggression Subscale
Itens | Fator |
---|---|
F1 | |
01. Quando zangado ou bravo com um colega, dou-lhe "tratamento silencioso" (não “dirigir a palavra” a esse colega). | 0,14 |
02. Quando com raiva ou bravo com um colega, tento prejudicar sua reputação passando informações negativas. | 0,65 |
03. Quando com raiva ou bravo com um colega, tento retaliar excluindo-o das atividades em grupo. | 0,63 |
04. Ignorar intencionalmente um colega até que concorde em fazer algo que você quer que ele faça. | 0,62 |
05. Deixar claro para um colega que você irá valorizá-lo menos (considerar menos) caso ele não faça o que você quer. | 0,54 |
06. Ameaçar compartilhar informações privadas com outras pessoas com a finalidade de conseguir que seus colegas cumpram seus desejos. | 0,89 |
07. Quando com raiva ou bravo com um colega, tento roubar o(a) parceiro(a) de namoro dessa pessoa para me vingar. | 0,74 |
Alfa de Crombach | 0,72 |
% total de variância explicada | 0,61 |
Fonte: Elaborado pelos autores.
A estrutura unifatorial (eigenvalues = 54,6) resultante da AFE foi responsável por 61% da variação total. Dos sete itens que compunham a escala original, apenas o item 01 não apresentou carga fatorial satisfatória (0,14). Desse modo, foi realizada uma nova AFE excluindo-se o item 01, que são apresentados no Quadro 3.
Quadro 3 AFE da Relational Aggression Subscale excluindo-se o item 01.
Itens | Fator |
---|---|
F1 | |
02. Quando com raiva ou bravo com um colega, tento prejudicar sua reputação passando informações negativas. | 0,42 |
03. Quando com raiva ou bravo com um colega, tento retaliar excluindo-o das atividades em grupo. | 0,50 |
04. Ignorar intencionalmente um colega até que concorde em fazer algo que você quer que ele faça. | 0,49 |
05. Deixar claro para um colega que você irá valorizá-lo menos (considerar menos) caso ele não faça o que você quer. | 0,42 |
06. Ameaçar compartilhar informações privadas com outras pessoas com a finalidade de conseguir que seus colegas cumpram seus desejos. | 0,64 |
07. Quando com raiva ou bravo com um colega tento roubar o(a) parceiro (a) de namoro dessa pessoa para me vingar. | 0,65 |
Alfa de Crombach | 0,62 |
% total de variância explicada | 0,57 |
Fonte: Elaborado pelos autores.
Após a AFE com o item 01 excluído, a Relational Aggression Subscale ficou composta de seis itens (02, 03, 04, 05, 06, 07), sendo o de menor carga fatorial (0,42) os itens 02, “Quando com raiva ou bravo com um colega, tento prejudicar sua reputação passando informações negativas”; e 05, “Deixar claro para um colega que você irá valorizá-lo menos (considerar menos) caso ele não faça o que você quer”; e o de maior carga fatorial (0,65) o item 07, “Quando com raiva ou bravo com um colega, tento roubar o(a) parceiro(a) de namoro dessa pessoa para me vingar”. Já com relação à análise de confiabilidade, a escala apresentou boa consistência interna (α = 0,62).
Evidências de validade de critério (grupos contrastados)
Com relação à evidência de validade de critério, foi constituída uma amostra aleatória de 80 colegiais, retirados da amostra total de 140 colegiais, com o objetivo de comparar o nível de agressão relacional reportado na Relational Aggression Subscale com os níveis reportados por uma segunda amostra de 80 universitários, com idades superiores a 21 anos. Assim, esperava-se, como anteriormente indicado, que o grupo formado por colegiais reportasse uma média superior e significativamente diferente de agressividade relacional do que aqueles indicados pelo grupo de universitário.
Como se pode observar na Tabela 2, o resultado apresentou-se em consonância com as evidências disponíveis na literatura sobre a relação do amadurecimento do CPF e a agressão relacional (McQuade et al., 2013; O’toole et al., 2019), que indicam maiores níveis de agressão relacional em indivíduos com o CPF ainda em desenvolvimento, quando em comparação com indivíduos com o CPF totalmente amadurecido, maiores de 21 anos. Desse modo, o teste t indicou que o grupo de colegiais reportou um maior nível de agressividade relacional, com uma diferença média de 0,28 (IC95% 0,11 -0,45), com um tamanho de efeito mediano 0,55 - Cohen (1992) indica que, para o tamanho do efeito de teste, t, 0,20 é um efeito pequeno, 0,50 é um efeito médio e 0,80 é um efeito grande.
Tabela 2 Diferenças entre colegiais e universitários em função do nível de agressão relacional
Grupo | M | DP | EP | t | gl | p | DM | d | IC de 95% | |
LI | LS | |||||||||
Colegiais | 1,63 | 0,64 | 0,07 | 3,40 | 128,33 | <0,001 | 0,28 | 0,55 | 0,11 | 0,45 |
Universitários | 1,34 | 0,38 | 0,04 |
* M = Média; DP= Desvio-padrão; EP= Erro-padrão; t= Estatística do teste; gl= Graus de Liberdade; p= Probabilidade associada ao resultado; DM= Diferença das médias dos grupos; d= Tamanho do efeito;
LI = Limite inferior do intervalo de confiança de 95%; LS = Limite Superior do intervalo de confiança de 95%.
Fonte: Elaborada pelos autores.
Discussão
O resultado da análise fatorial indicou um modelo unifatorial, em consonância com o instrumento original proposto por Werner e Crick, (1999). No tocante à quantidade de itens, nesta pesquisa, foi encontrada diferença, quando em comparação com o instrumento original. Na amostra estudada, a Relational Aggression Subscale, em sua versão final, apresenta seis itens, sendo o item 01, “Quando zangado ou bravo com um colega, dou-lhe "tratamento silencioso" (não “dirigir a palavra” a esse colega”, excluído devido à baixa carga fatorial (0,14). Dessa forma, seguindo o critério estatístico, uma carga fatorial inferior a 0,40 indica uma baixa representatividade do item com relação ao fator (Cohen, Swerdlik, & Sturman, 2014).
Além da AFE, também foi analisada a confiabilidade por meio do alfa de Cronbach. Os resultados indicaram um nível de confiabilidade (α = 0,62) inferior ao da escala original (α = 0,87) e próximo a outras replicações (α = 0,69) (Loudin et al, 2003; Werner & Crick, 1999). No entanto, o nível de consistência apresentado é satisfatório para testes psicológicos (Zanon & Hauck, 2015).
Com relação aos resultados das evidências de validade de critério (por grupos contrastados), foram apresentados dados que corroboram as evidências sobre a maturação do CPF e os índices de agressividade relacional (Granvald & Marciszko, 2015; McQuade et al., 2013; 31 O’toole et al., 2019). Tais evidências indicam que os escores da Relational Aggression Subscale conseguem realizar uma distinção do nível de agressão relacional em indivíduos de níveis escolares diferentes, em função da maturação do CPF. Desse modo, o instrumento pode ajudar na identificação de indivíduos com maior propensão a comportamentos como o bullying, auxiliando o planejamento de intervenções que tenham como finalidade a redução de comportamentos relacionais agressivos, como espalhar boatos, excluir colegas de atividades etc. Em termos teóricos, a disponibilidade de um instrumento com evidências psicométricas adequadas para avaliação desse traço associa-se diretamente à elaboração de pesquisas futuras, na medida em que disponibiliza novas ferramentas que auxiliam na investigação de fenômenos que tenham como ênfase os fatores biológicos e ambientais de risco e de proteção para comportamentos relacionais agressivos no contexto brasileiro. Na prática, futuramente, a utilização do instrumento pode ser aplicável na avaliação do nível de agressividade relacional em colegiais, contribuindo para a elaboração de estratégias de intervenções para grupos sociais.
Considerações Finais
O presente estudo objetivou adaptar e reunir evidências preliminares de validade de construto e critério da Relational Aggression Subscale. Assim, procurou-se apresentar uma medida de avaliação da agressão relacional, viabilizando a avaliação desse fator em pesquisas futuras que relacionem o traço a comportamentos disfuncionais (como o bullying) e planejamento de intervenções em colegiais.
É importante destacar que a coleta de dados ocorreu em uma escola pública de uma cidade do Centro-Oeste brasileiro, o que é um contexto muito específico da amostra e pode ter acarretado algum viés. Destarte, é de grande importância que sejam realizados novos estudos com uma amostra mais diversificada, incluindo escolas públicas e particulares de diversas regiões do brasil, para uma melhor calibração do instrumento e identificação de preditores e consequentes da agressão relacional. Nesse sentido, o presente estudo é o primeiro passo que amplia possibilidades, ao fornecer evidências de validade da Relational Aggression Subscale para o contexto brasileiro.
No entanto, os resultados devem ser interpretados com comedimento, pois é imperativo a obtenção de novas evidências da adequação psicométrica da escala por meio de outros procedimentos, como buscar evidências de validade por meio da relação dos escores da Relational Aggression Subscale e medidas de bullying (Gonçalves et al, 2016; Lima et al., 2017; Soares, Gouveia, Gouveia, Fonsêca, & Pimentel, 2015). Nesse contexto, por ter sido este o primeiro estudo que buscou adaptar e investigar evidências de validade da Relational Aggression Subscale no Brasil, entende-se que a estrutura apresentada e sua confiabilidade são adequadas, mas outros estudos podem agregar mais contribuições na análise de sua estrutura interna. Por fim, sugere-se que a estrutura fatorial da Relational Aggression Subscale seja avaliada por meio da AFC. Além disso, a confiabilidade da Relational Aggression Subscale pode ser avaliada por outros métodos, como teste-reteste, coeficiente ômega (Ω) e, também, estudos futuros poderão estabelecer normas para uma melhor interpretação dos resultados.