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Gerais : Revista Interinstitucional de Psicologia

versão On-line ISSN 1983-8220

Gerais, Rev. Interinst. Psicol. vol.15 no.3 Belo Horizonte  2022  Epub 20-Jan-2025

https://doi.org/10.36298/gerais202215e18542 

Artigo

O efeito do sexismo ambivalente e da satisfação no relacionamento na suscetibilidade à infidelidade

The Effect of Ambivalent Sexism and Relationship Satisfaction on Susceptibility to Infidelity

Mariana Gonçalves Farias1 
http://orcid.org/0000-0003-3953-8687

Walberto Silva dos Santos2 
http://orcid.org/0000-0001-6816-0105

Gisele Loiola Ponte Batista3 
http://orcid.org/0000-0003-2335-9561

Mariana Costa Biermann4 
http://orcid.org/0000-0001-5039-5096

Glysa de Oliveira Meneses5 
http://orcid.org/0000-0002-3472-634X

1Universidade de Brasília, Brasília, Brasil. E-mail: mariana_gfarias@hotmail.com

2Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil.. E-mail: walbertosantos@gmail.com

3Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil. E-mail: giseleloiola@outlook.com

4Universidade de Fortaleza, Fortaleza, Brasil. E-mail: marianabiermann@gmail.com

5Centro Universitário Christus, Fortaleza, Brasil. E-mail: meneses.glysa@gmail.com


Resumo

Buscou-se avaliar neste artigo o efeito da satisfação (emocional e sexual) no relacionamento e dos níveis de sexismo ambivalente na suscetibilidade à infidelidade emocional e sexual. Contou-se com uma amostra de 320 participantes, com idades entre 18 e 69 anos (M=29,4; DP=10,6), sendo a maioria do sexo feminino (61,6%) e heterossexual (92%). Os participantes responderam ao Inventário de Sexismo Ambivalente e aos cenários de infidelidade, os quais foram manipulados em torno da satisfação sexual, da satisfação emocional e do tipo de infidelidade. Os resultados indicaram que os tipos de satisfação diminuem a suscetibilidade à infidelidade e que indivíduos que pontuaram baixo em sexismo ambivalente apresentaram maior suscetibilidade à infidelidade. Tais resultados corroboram achados anteriores de que apenas a satisfação sexual não prediz satisfatoriamente a infidelidade sexual e que os níveis de satisfação estão mais relacionados à infidelidade emocional.

Palavras-chave Infidelidade; Infidelidade emocional; Satisfação sexual; Sexismo ambivalente

Abstract

This study evaluated the effect of relationship satisfaction and ambivalent sexism on susceptibility to emotional and sexual infidelity. The sample included 320 participants aged from 18 to 69 years (m = 29.4, SD = 10.6), most participants were females (61.6%) and heterosexual (92%). Participants answered the Inventory of Ambivalent Sexism and scenarios of infidelity, which were arranged to focus on sexual satisfaction, emotional satisfaction, and type of infidelity. The results indicated that the types of satisfaction reduced the participants’ susceptibility to infidelity and that individuals who scored low on ambivalent sexism were more susceptible to infidelity. These results corroborate previous studies that found that sexual satisfaction does not predict sexual infidelity and that levels of satisfaction are strongly related to emotional infidelity.

Keywords Infidelity; Emotional infidelity; Sexual satisfaction; Ambivalent sexism

A infidelidade pode ser definida a partir do seu componente sexual e emocional (Buss, 2018; Buss & Shackelford, 1997; Jia, Ing, & Chin, 2016). O primeiro compreende a infidelidade sexual, caracterizada como a atividade sexual com alguém diferente do parceiro de relacionamento, ao passo que o segundo compõe a infidelidade emocional, definida como a disposição de afeto, tempo e atenção a um terceiro, sem necessariamente haver um componente sexual manifesto (Buss, 2018; Guitar et al., 2017; Shackelford, Leblanc, & Drass, 2000). Nesse sentido, comportamentos como sair, receber presentes e falar ao telefone com uma terceira pessoa são percebidos como uma infidelidade de caráter emocional, ao passo que comportamentos explícitos como beijar, fazer carícias e ter relações sexuais estão diretamente relacionados à infidelidade sexual (Cravens & Whiting, 2014; Wilson, Mattingly, Clark, Weidler & Bequette, 2011).

Apesar de ambos estarem geralmente interligados, o envolvimento sexual pode ocorrer sem uma ligação afetiva e emocional, do mesmo modo que um envolvimento emocional pode ocorrer sem contato sexual (Buss, 2018). Destaca-se que homens e mulheres parecem concordar com a possibilidade de os tipos de infidelidade acontecerem de forma independente. Entretanto, a maioria acredita que é mais provável a ocorrência da infidelidade emocional sem o aspecto sexual do que a infidelidade sexual sem o aspecto emocional (Guitar et al., 2017).

O estudo da infidelidade é importante, pois esta é responsável por diversos efeitos negativos, tanto para o indivíduo que trai quanto para aquele que é traído, como sentimento de culpa e raiva, diminuição da autoestima, podendo levar ao suicídio ou até à ocorrência de crimes passionais (Shrout & Weigel, 2018; Zeppegno et al., 2019). Além disso, a infidelidade se configura como uma das principais causas de divórcio, sendo uma demanda frequente de casais em terapia (Marín, Christensen, & Atkins, 2014).

Sob a perspectiva da psicologia evolucionista, a infidelidade sinaliza a perda de recursos importantes para a reprodução (Buss, 2018; Shackelford et al., 2000). Para os homens, o sucesso reprodutivo depende da quantidade de parceiras com quem eles conseguem ter relações sexuais, aumentando, assim, as chances de perpetuar seus genes. Portanto, eles apresentam uma maior tendência à infidelidade sexual (Schmitt, Shackelford, & Buss, 2001). Adicionalmente, os homens têm a incerteza da paternidade e, por isso, tendem a se sentir mais ameaçados diante de uma infidelidade sexual da parceira, pois isso aumentaria os riscos de investirem tempo e recursos em um descendente que não tem seus genes (i.e., cuckoldry;Buss, 2018).

A mulher, no entanto, não lida com a incerteza da maternidade, pois a gestação é interna e não há dúvidas quanto à sua contribuição genética para a prole. Em termos evolutivos, o sucesso reprodutivo das mulheres está mais associado à busca por um parceiro que possa contribuir com recursos para a sua sobrevivência e a da prole, tornando-as mais suscetíveis à infidelidade emocional (Buss & Shackelford, 1997). Além do aspecto material, tais recursos incluem também companhia, suporte e proteção. Nessa direção, a infidelidade emocional por parte do parceiro sinalizaria a perda desses recursos para as mulheres (Buss, 2018). A partir de estudos na temática, tais hipóteses evolucionistas têm sido corroboradas. Diante das distintas pressões evolutivas e dos possíveis benefícios envolvidos na infidelidade, as mulheres apresentam uma maior tendência à infidelidade emocional e os homens à infidelidade sexual (e.g., Glass & Wright, 1985; Urooj, Anis-ul-Haque, & Anjum, 2015).

Contudo, uma revisão bibliográfica identificou que poucos estudos consideram os tipos de infidelidade (sexual e emocional) e que uma parcela ainda menor investiga a relação entre variáveis psicológicas e a tendência para a infidelidade emocional (Jia et al., 2016). Para a perspectiva evolucionista, a persistência de determinadas atitudes e traços de personalidade na população está associada a benefícios reprodutivos, caso contrário, teriam sido extintos por seleção natural ou sexual (Jonason, Li, & Buss, 2010). De fato, algumas pesquisas têm buscado identificar características psicológicas que também influenciam no cometimento de atos infiéis. Além disso, Costa e Cenci (2014) apontam que expectativas excessivas em torno de uma relação amorosa ideal promovem sentimentos desconectados da realidade conjugal, o que pode motivar a infidelidade. Nessa direção, destaca-se a influência do sexismo ambivalente, que tem sido apontada na manifestação de diversos comportamentos nos relacionamentos amorosos e na presença de crenças idealizadas acerca da conjugalidade (e.g., Casad, Salazar, & Macina, 2015; Davodian, 2014; Hammond & Overall, 2017; Martinez-Pecino & Durán, 2016).

2 Infidelidade e sexismo ambivalente

O sexismo ambivalente está relacionado a um conjunto de atitudes e crenças que representam expectativas socialmente construídas de como homens e mulheres deveriam se comportar na sociedade e em seus relacionamentos íntimos (Hammond & Overall, 2017). Consequentemente, o endossamento do sexismo ambivalente pode também apresentar influência na suscetibilidade à infidelidade.

Segundo Glick e Fiske (1997), o sexismo é um construto multidimensional de caráter ambivalente. Tal ambivalência se reflete em dois tipos, o sexismo hostil e o benevolente, os quais, geralmente, encontram-se associados entre si e podem se manifestar simultaneamente em um indivíduo. O sexismo hostil envolve a crença de que a mulher busca uma relação com o homem para prendê-lo e controlá-lo, ao mesmo tempo em que reforça uma falta de controle masculino em relação aos seus impulsos sexuais (Glick & Fiske, 1997). Dessa forma, cria atitudes desfavoráveis ao comprometimento em homens, as quais podem estimular a infidelidade (Davoudian, 2014). O sexismo benevolente contempla atitudes consideradas subjetivamente positivas em relação às mulheres, qualificando-as como puras, delicadas e frágeis (Glick & Fiske, 1997). Homens e mulheres que pontuam alto nessa faceta tendem a apresentar uma imagem idealizada do relacionamento romântico, e quando a realidade não corresponde às suas expectativas, muitas vezes, isso gera insatisfação com o parceiro e leva a atos infiéis (Casad et al., 2015; Lee, Fiske, Glick, & Chen, 2010).

2.1 Infidelidade e satisfação no relacionamento

A insatisfação no relacionamento é reconhecidamente um fator que influencia na propensão à infidelidade. Buss e Shackelford (1997) mostraram, a partir da avaliação de casais casados há menos de um ano, que homens e mulheres insatisfeitos sexualmente com seu parceiro apresentam maior suscetibilidade à infidelidade. No mesmo estudo, em ambos os sexos, a percepção de que o parceiro não expressa amor e afeição, compreendido como insatisfação emocional, associou-se positivamente à probabilidade de ter um caso extraconjugal. Por sua vez, Silva, Saraiva, Albuquerque e Arantes (2017) mostraram que indivíduos que reportam alta satisfação no relacionamento, tendem a desaprovar atos de infidelidade e, consequentemente, apresentam menor probabilidade de serem infiéis (Barta & Kiene, 2005; Hackathorn, Mattingly, Clark & Mattingly, 2011). Outros estudos (e.g., Mark, Janssen & Milhausen, 2011; Shaw, Rhodes, Allen, Stanley & Markman, 2013; Urooj et al., 2015) também apontam a satisfação geral no relacionamento como um importante preditor da infidelidade. Em contexto brasileiro, os estudos parecem indicar resultados semelhantes, por exemplo, em uma pesquisa com 237 pessoas (131 mulheres e 106 homens) de diferentes regiões do país, a insatisfação com a relação ou com o parceiro(a) foi citada como a principal motivação/razão para a infidelidade (Scheeren, Apellániz, & Wagner, 2018).

Viegas e Moreira (2015) indicaram que a baixa qualidade e o baixo investimento na relação estariam mais relacionados à infidelidade de caráter emocional. Em contexto brasileiro, a insatisfação no relacionamento e a falta de comprometimento também foram citadas como algumas das principais razões para atos infiéis (Haack & Falcke, 2013). A explicação evolutiva para tais achados é de que indivíduos com alta satisfação no relacionamento sentem que têm mais a perder, tanto em recursos quanto em investimento, com uma possível infidelidade, do que indivíduos com baixa satisfação (Silva et al., 2017).

2.2 Infidelidade, satisfação e sexismo ambivalente

O sexismo ambivalente promove que é dever do homem cuidar, valorizar, proteger e prover para a sua parceira (Glick & Fiske, 1997). Mulheres que endossam ideias sexistas apresentam a necessidade de que o parceiro esteja constantemente envolvido na relação (Cross & Overall, 2017). Assim, perante a insatisfação, principalmente, emocional, essas mulheres podem procurar tais características em outro parceiro por meio de atos infiéis (Urooj et al., 2015).

Segundo Cross, Overall, Hammond e Fletcher (2017), indivíduos sexistas tendem a apresentar, por exemplo, a agressão verbal como uma forma de se autodefender diante da ameaça de uma dependência emocional do seu parceiro. Os autores apontam que em situações nas quais os parceiros são percebidos como pouco envolvidos ou pouco comprometidos no relacionamento, comportamentos autodefensivos se tornam ainda mais frequentes e prováveis. A infidelidade pode representar, para indivíduos sexistas, um desses comportamentos autodefensivos como uma forma de garantir essa independência do parceiro, de manter o controle do relacionamento ou de obter recursos que eles acreditam que o parceiro deveria suprir; e quando há uma insatisfação no relacionamento, essa suscetibilidade à infidelidade pode se tornar ainda mais evidente.

A influência do endossamento do sexismo ambivalente na suscetibilidade à infidelidade, sobretudo, associado à satisfação no relacionamento, ainda não foi avaliado por pesquisas anteriores. Não obstante, a maioria dos estudos que abordam a influência da satisfação no relacionamento na propensão à infidelidade considera apenas um índice de satisfação geral, normalmente, avaliado a partir de uma única pergunta. Assim, não é possível perceber, por exemplo, se os distintos tipos de insatisfação (emocional e sexual) exercem o mesmo efeito sobre a suscetibilidade aos diferentes tipos de infidelidade. Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivo avaliar a influência da satisfação no relacionamento (emocional e sexual) e dos níveis de sexismo ambivalente na suscetibilidade aos tipos de infidelidade (emocional e sexual).

3 Método

3.1 Amostra

Participaram 320 pessoas, com idades variando entre 18 e 69 anos (M = 29,4; DP = 10,6), sendo a maioria do sexo feminino (61,6%), heterossexual (92%), católica (52,9%), com ensino superior incompleto (51,2%). Em relação à orientação sexual, os 8% restantes da amostra se declararam bissexuais e não foram excluídos das análises, uma vez que poderiam se reconhecer em uma relação heterossexual. Dos 320 participantes, 95 responderam ao questionário on-line e 225 responderam a forma impressa.

Um percentual de 98,3% da amostra afirmou estar em um relacionamento amoroso quando a pesquisa foi realizada, destes, 54,7% estavam namorando, 42,8% casados e 2,5% não responderam ao item. O tempo de relacionamento, medido em meses, variou entre seis meses e quarenta anos (M = 88,9; DP = 99,4). No que tange à infidelidade, 39,2% afirmaram já terem sido infiéis pelo menos uma vez na vida e 15,6% revelaram ter sido infiéis ao parceiro atual.

4 Instrumentos

Acerca dos instrumentos utilizados na aplicação, ressalta-se que os livretos que deveriam ser respondidos pelos participantes, em sua forma completa, eram compostos por outras medidas além das que serão utilizadas neste estudo (e.g., Escala de Ciúme Romântico). Porém, para os fins específicos deste artigo, foram utilizados os instrumentos listados a seguir.

4.1 Cenários de infidelidade

Os cenários foram construídos a partir de um delineamento 2 (presença ou ausência de satisfação sexual) × 2 (presença ou ausência de satisfação emocional) × 3 (tipo de infidelidade). Eles descrevem situações de infidelidade, variando de acordo com a presença ou ausência dos tipos de satisfação (emocional e sexual) no relacionamento amoroso; e em função do tipo de infidelidade cometida, seja emocional, sexual ou ambas (ver Tabela 1).

Tabela 1 Descrição das variáveis e dos coeficientes de validade de conteúdo (CVC) de cada cenário 

Cenários Satisfação Emocional Satisfação sexual Tipo de infidelidade CVC – Clareza CVC – Relevância
1 Não Não Sexual 1 1
2 Não Não Emocional ,91 ,91
3 Não Não Sexual e emocional ,97 ,97
4 Não Sim Sexual ,93 ,85
5 Não Sim Emocional ,97 ,86
6 Não Sim Sexual e emocional ,96 ,84
7 Sim Não Sexual ,97 ,86
8 Não Sim Emocional ,97 ,94
9 Sim Não Sexual e emocional ,96 ,80
10 Sim Sim Sexual ,98 1
11 Sim Sim Emocional ,95 ,90
12 Sim Sim Sexual e emocional ,97 1

Fonte: Elaborada pelos autores.

Os cenários foram adaptados de acordo com o sexo dos respondentes. Nos cenários respondidos pelos participantes do sexo masculino, o personagem principal era um homem, enquanto nos cenários femininos, esse papel era representado por uma mulher. Os respondentes indicaram, numa escala de 1 (Pouco provável) a 7 (Muito provável), em todos os cenários, o nível de probabilidade de eles se encontrarem no papel do personagem principal representado como infiel. A escolha dessa escala de resposta se deu buscando permitir uma maior variabilidade dos dados.

Para ilustrar, segue um exemplo de cenário feminino em que há a presença de satisfação sexual, a ausência de satisfação emocional e no qual ocorre uma infidelidade sexual e emocional:

Isadora e Júnior sentem forte atração um pelo outro, ambos estão sexualmente satisfeitos. No entanto, Isadora está confusa e insegura sobre o que sente por Júnior, achando que ele não demonstra que a ama. Durante um encontro na casa de amigos, ela se sente atraída por Flávio e os dois têm relações sexuais. Para Isadora, não se trata apenas de sexo, ela está apaixonada por Flávio.

O mesmo cenário era respondido pelos homens, alterando apenas a ordem dos personagens:

Júnior e Isadora sentem forte atração um pelo outro, ambos estão sexualmente satisfeitos. No entanto, Júnior está confuso e inseguro sobre o que sente por Isadora, achando que ela não demonstra que o ama. Durante um encontro na casa de amigos, ele se sente atraído por Flávia e os dois têm relações sexuais. Para Júnior, não se trata apenas de sexo, ele está apaixonado por Flávia

Todos os cenários utilizados na versão feminina e masculina do questionário podem ser solicitados aos autores. Como exposto, para os cenários masculinos, o conteúdo permaneceu o mesmo, alterando apenas a ordem dos personagens.

Previamente, foi realizado um processo de validação de conteúdo para avaliar a representatividade dos cenários. Na avaliação, foram observados três elementos: a) clareza, visando verificar a linguagem utilizada nos cenários; b) dimensão, no qual os juízes selecionaram a qual conjunto de variáveis (e.g., presença de satisfação emocional, ausência de satisfação sexual e infidelidade emocional) os cenários pertenciam; e c) relevância, observando a adequação dos cenários às variáveis.

Contou-se com a participação de sete juízes, os quais indicaram notas de 0 a 10 para cada um dos cenários nos critérios avaliados. Para identificar a adequação dos cenários e a concordância dos juízes, foi utilizado o Coeficiente de Validade de Conteúdo (CVC) proposto por Hernandéz-Nieto (2002). Esse cálculo não envolve o critério “Dimensão”, por se tratar de uma variável categórica, no entanto, analisando as respostas dos juízes, observou-se que houve correspondência entre todos os cenários e seus respectivos conjuntos de variáveis. Quanto ao CVC, no primeiro critério, “clareza”, os valores variaram entre 0,91 e 1, já no critério de “relevância”, os valores ficaram entre 0,80 e 1; desse modo, observa-se que todos os cenários obtiveram escores maiores que 0,80, como o determinado pela literatura (Hernandéz-Nieto, 2002).

4.2 Escala de sexismo ambivalente

Este instrumento foi, originalmente, desenvolvido por Glick e Fiske (1996) e validado para o contexto brasileiro por Formiga, Gouveia e Santos (2002). Ele é composto por 22 itens, divididos em dois fatores: sexismo hostil e sexismo benevolente. Para responder, os participantes devem indicar em que medida concordam com as afirmações expressas, utilizando uma escala de resposta com os seguintes valores: 1 = Discordo totalmente; 2 = Discordo; 3 = Nem concordo nem discordo; 4 = Concordo; e 5 = Concordo Totalmente. Neste estudo, o alfa de Cronbach para o fator sexismo hostil foi de 0,90, para o sexismo benevolente foi de 0,91 e para a escala total foi de 0,94.

Questionário sociodemográfico. Além do sexo, escolaridade, religião e orientação sexual, esta seção do questionário contou com perguntas específicas acerca de experiências anteriores de infidelidade. Especificamente, os participantes responderam às seguintes questões: Você já foi infiel no relacionamento atual? Considerando todos os seus relacionamentos de pelo menos seis meses, em quantos você já foi infiel?

4.3 Procedimentos de coleta de dados

A coleta foi realizada por meio de questionários impressos e on-line. Todos os sujeitos responderam voluntariamente à pesquisa e tiveram acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Na coleta on-line, o TCLE foi disponibilizado em pdf e, ao clicar em “próximo”, automaticamente o sujeito concordava com sua participação. Cada acesso ao questionário gerava uma ordem aleatória dos cenários. Para a coleta impressa, foram construídos cinco tipos de questionários para cada um dos sexos, apresentando diferentes ordens dos cenários, escolhidas de modo aleatório. Tais procedimentos foram realizados visando diminuir possíveis vieses nas respostas dos cenários. Os participantes foram abordados e convidados a participar da pesquisa em locais públicos, como praças, parques, universidades, entre outros.

Salienta-se que foi garantido o sigilo dos dados, além de ter sido dada a oportunidade de desistência para o participante a qualquer momento da pesquisa, sem qualquer prejuízo. Ressalta-se que todos os procedimentos éticos estabelecidos pela Resolução n. 510/2016, do Conselho Nacional da Saúde, foram seguidos adequadamente.

4.4 Análises de dados

Além de estatísticas descritivas, realizaram-se correlações r de Pearson para observar as associações entre os cenários de infidelidade. Realizou-se uma ANOVA mista de quatro fatores (4-way), a fim de avaliar o efeito da satisfação no relacionamento e do sexismo ambivalente na suscetibilidade à infidelidade emocional e sexual. Foram consideradas como variáveis intragrupo (whitin-subjects) a satisfação sexual, a satisfação emocional e o tipo de infidelidade; e como variável intergrupo (between-subjects), o nível de sexismo ambivalente. Para a inclusão do sexismo ambivalente como variável intergrupo (between-subjects), buscou-se, a partir da mediana observada na amostra (Md= 2.75), categorizá-la em dois níveis: pessoas com alto ou baixo nível de sexismo ambivalente. Todas as análises foram realizadas no programa Statistical Package for the Social Sciences, versão 21 (IBM-SPSS 21).

4.5 Resultados

Inicialmente, calcularam-se as médias de cada cenário e as suas correlações (Tabela 2). O cenário 2 (M= 3,07; DP= 2,06) obteve a maior média entre os cenários, indicando que, a maioria da amostra apontou esse cenário como um dos mais prováveis de ocorrer o comportamento infiel. Além disso, todos os cenários correlacionaram-se significativamente entre si. Também, foram calculadas as estatísticas descritivas referentes à variável sexismo ambivalente (ver Tabela 3), tanto em relação a cada fator (sexismo hostil e sexismo benevolente) como em relação à pontuação total.

Tabela 2 Estatísticas descritivas e correlações entre os cenários de infidelidade (n =320) 

Cenários M DP 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
1 2,33 1,81 - - - - - - - - - - -
2 3,07 2,06 ,44 - - - - - - - - - -
3 2,68 1,93 ,57 ,61 - - - - - - - - -
4 2,04 1,60 ,61 ,39 ,57 - - - - - - - -
5 2,77 1,89 ,46 ,65 ,54 ,44 - - - - - - -
6 1,97 1,49 ,46 ,49 ,52 ,47 ,53 - - - - - -
7 2,04 1,62 ,62 ,44 ,52 ,54 ,43 ,47 - - - - -
8 2,61 1,83 ,45 ,63 ,56 ,45 ,59 ,49 ,48 - - - -
9 2,01 1,59 ,43 ,51 ,53 ,47 ,41 ,63 ,47 ,55 - - -
10 1,90 1,60 ,56 ,23 ,41 ,55 ,26 ,31 ,60 ,37 ,41 - -
11 2,15 1,59 ,37 ,49 ,38 ,33 ,50 ,36 ,41 ,47 ,51 ,37 -
12 1,86 1,50 ,39 ,35 ,46 ,52 ,37 ,50 ,45 ,43 ,60 ,48 ,45

Nota: Todas as correlações foram significativas a um p<0,001

Fonte: Elaborada pelos autores.

Antes de proceder com a ANOVA 4-way mista, realizou-se o teste de esfericidade de Mauchly, a fim de observar se é possível assumir a esfericidade da estatística F obtida pela ANOVA mista. Para valores significativos nesse teste, utilizou-se a correção Greenhouse-Geisser.

A partir da ANOVA (4-way) mista, com teste Post Hoc de Bonferroni, foi possível observar que todos os efeitos principais foram significativos. Especificamente no que se refere ao sexismo ambivalente (F [1,312] = 4.33, p= ,04, np2= 0,014); indivíduos com baixo nível de sexismo (M= 2,40; DP= 0,09) indicaram médias significativamente maiores de suscetibilidade à infidelidade do que aqueles com alto sexismo (M= 2,11; DP= 0,10).

Quanto ao efeito principal da satisfação emocional (F [1,312] = 59,70, p= ,0001, np2=0,16), a sua ausência associou-se a uma maior suscetibilidade à infidelidade (M= 2,44; DP= 0,08), quando comparada a sua presença (M=2,07; DP=0,68). Já em relação à satisfação sexual, também houve um efeito significativo (F [1, 312] = 61,62, p= ,0001, np2= 0,16), em que, na sua ausência, observa-se uma maior média de suscetibilidade à infidelidade (M= 2,42; DP=0,08).

No que se refere ao efeito isolado da variável “Tipo de Infidelidade”, também foi encontrado valores significativos (F [1,81, 565] = 45,40, p= ,0001, np2=0,13). Avaliando os contrastes, não foi possível encontrar diferenças significativas entre a infidelidade exclusivamente emocional e a infidelidade simultaneamente emocional e sexual. Entretanto, foram observadas médias significativamente maiores (M= 2,61; DP=0,08) à suscetibilidade ao tipo de infidelidade apenas emocional, quando comparada à suscetibilidade à infidelidade sexual (M= 2,06; DP= 0,08) e à infidelidade sexual e emocional (M= 2,10; DP= 0,73). Dessa forma, observa-se que os indivíduos, de modo geral, se percebem mais suscetíveis à infidelidade do tipo emocional.

No que tange aos efeitos de interação entre as variáveis, foi possível observar um efeito significativo da interação entre a satisfação emocional e a satisfação sexual (F [1, 312] = 6,80, p= ,01, np2=0,02). Foi observada uma maior média de suscetibilidade à infidelidade na ausência das duas formas de satisfação (M= 2,65; DP= 0,09), quando comparada à presença de ambas as satisfações (M= 1,95; DP= 0,07).

Em relação à interação entre a satisfação emocional e o tipo de infidelidade, os resultados indicaram um efeito significativo na suscetibilidade à infidelidade (F [2, 624] = 7,27, p=,001, np2=0,02). A partir de testes de contrastes, observaram-se, na ausência de satisfação emocional, diferenças significativas entre os níveis de infidelidade emocional (M= 2,86; DP= 0,10; p<,001) e infidelidade sexual (M= 2,20; DP= 0,09); e entre os de infidelidade emocional (M= 2,86; DP= 0,10; p<,001) e infidelidade sexual e emocional (M= 2,30; DP= 0,08). Não obstante, não foram encontradas diferenças significativas entre as médias de infidelidade sexual e as de infidelidade do tipo sexual e emocional.

No que diz respeito à relação entre a satisfação sexual e o tipo de infidelidade, registou-se um efeito significativo (F [2, 624] = 3,08, p= ,047, np2= 0,01). Nos testes de contraste, tanto na ausência como na presença de satisfação sexual, não houve diferença significativa entre as médias de infidelidade sexual e as médias de infidelidade sexual e emocional. Contudo, na ausência de satisfação sexual, a infidelidade emocional (M= 2,80; DP= 0,10; p<,001) apresenta médias significativamente superiores, quando comparadas à infidelidade exclusivamente sexual (M= 2,20; DP= 0,08) e à infidelidade sexual e emocional (M= 2,31; DP= 0,09).

No que se refere à interação entre a satisfação emocional, a satisfação sexual e o tipo de infidelidade (ver Figura 1), encontrou-se um efeito significativo na suscetibilidade à infidelidade (F [2, 624] =8,89, p= ,0001, np2=0,03). Evidenciou-se que não há diferenças significativas apenas entre as médias de infidelidade sexual e as de infidelidade sexual e emocional quando: a) há presença de satisfação sexual e ausência de satisfação emocional; b) há presença de satisfação emocional e ausência de satisfação sexual; e c) há presença de ambas as satisfações.

Fonte: Elaborada pelos autores.

Figura 1 Interação entre a satisfação sexual, a satisfação emocional e o tipo de infidelidade 

Além disso, procurou-se investigar a interação entre o nível de sexismo ambivalente e os tipos de satisfação e de infidelidade. Foi observado que a interação entre a satisfação emocional e o nível de sexismo teve um efeito significativo na tendência à infidelidade (F [1,312] = 5,61, p= ,02, np2=0,02). Na ausência de satisfação emocional, houve diferença significativa entre as médias dos grupos com alto (M = 2,23; DP=0,11) e baixo sexismo, sendo a maior média apresentada por indivíduos com baixo sexismo (M= 2,64; DP= 0,11). Já na presença de satisfação emocional, não foi encontrada diferença significativa entre os níveis de sexismo ambivalente.

Na interação entre satisfação sexual e sexismo, também se evidenciou um efeito significativo (F [1,312] = 10,55, p=,001, np2= 0,03). Na ausência de satisfação sexual, houve diferença significativa entre os grupos, sendo a maior média de indivíduos com baixo sexismo (M= 2,63; DP= 0,11), quando comparados àqueles que apresentaram alto sexismo (M=2,20; DP = 0,11). Na presença de satisfação sexual, não foi obtida diferença significativa entre as médias dos grupos.

Por fim, considerando a interação entre o tipo de infidelidade e o nível de sexismo, foi evidenciado um efeito significativo (F [2, 624] = 7,68, p=,001, np2=0,02). Entretanto, houve diferenças significativas entre os grupos apenas na infidelidade emocional – sendo a maior média apresentada por indivíduos com baixo sexismo (M= 2,89; DP= 0,11), em relação ao grupo com alto sexismo (M=2,32; DP= 0,12).

5 Discussão

O presente artigo buscou investigar a relação da satisfação no relacionamento, do tipo de infidelidade e do sexismo ambivalente na suscetibilidade à infidelidade. De modo geral, os resultados mostraram que a insatisfação, tanto sexual quanto emocional, faz com que os indivíduos se vejam mais suscetíveis à infidelidade. Urooj et al. (2015) mostraram que mulheres apontam a insatisfação emocional como um fator mais determinante para a infidelidade do que a insatisfação sexual. Já os homens consideraram os dois tipos de insatisfação como uma causa provável para a infidelidade. No presente estudo, os cenários que continham a descrição de uma satisfação emocional e sexual obtiveram médias significativamente menores de suscetibilidade à infidelidade. No que tange às análises de interações, como esperado, pôde-se observar que a presença de ambas as insatisfações aumentou as chances de infidelidade.

O nível de satisfação no relacionamento é reconhecidamente um fator que influencia na propensão à infidelidade (Buss & Shackelford, 1997; Glass & Wright, 1985; Shaw et al., 2013; Urooj et al., 2015; Viegas & Moreira, 2015). Em termos evolutivos, tais achados podem ser compreendidos considerando que pessoas com alta satisfação no relacionamento sentem que têm mais a perder, tanto em termos de recursos quanto de investimento, com uma possível infidelidade do que aqueles com baixa satisfação (Silva et al., 2017).

No entanto, a maioria dos estudos anteriores só considerava a medida da satisfação geral no relacionamento. Este estudo avança ao considerar a satisfação sexual e emocional, permitindo observar também suas interações com os tipos de infidelidade e os níveis de sexismo ambivalente.

Em geral, os respondentes parecem ter dado mais destaque ao tipo de infidelidade para estimar seus níveis de suscetibilidade à infidelidade, sendo a exclusivamente emocional considerada a mais provável de ocorrer na amostra estudada. Tais resultados corroboram que tanto homens quanto mulheres acreditam que é mais provável a ocorrência da infidelidade emocional sem o aspecto sexual, em comparação à infidelidade sexual sem conexão afetiva (Guitar et al., 2017).

Mesmo diante de uma satisfação emocional ou de ambas as satisfações, os participantes do estudo se mostraram mais suscetíveis à infidelidade emocional, em comparação à infidelidade sexual ou emocional e sexual. Tais resultados corroboram achados anteriores que demonstraram que apenas a satisfação sexual não prediz satisfatoriamente a infidelidade sexual (Shaw et al., 2013) e que os níveis de satisfação estão mais relacionados à infidelidade emocional (Glass & Wright, 1985; Viegas & Moreira, 2015). Portanto, um tipo específico de insatisfação (sexual ou emocional) não torna, necessariamente, as pessoas mais suscetíveis ao mesmo tipo de infidelidade; todavia, a insatisfação em qualquer dessas esferas, ou nas duas simultaneamente, parece aumentar a probabilidade de os indivíduos serem infiéis.

Neste estudo, os resultados apontam que a presença do aspecto sexual já induz respostas com menor probabilidade à infidelidade, o que indica uma maior rejeição da infidelidade sexual pelos indivíduos. A hipótese evolucionista assume que as mulheres são mais propensas à infidelidade emocional do que à sexual, pois ela representa menores custos ao sucesso reprodutivo feminino (Buss & Shackelford, 1997). No caso dos homens, apesar de se supor uma maior propensão à infidelidade sexual, permanecer em um relacionamento com uma única parceira pode apresentar benefícios reprodutivos aos homens, como a redução do esforço de buscar diferentes parceiras, o aumento da certeza da paternidade e a garantia da perpetuação dos seus genes (Gallup & Frederick, 2010). Adicionalmente, diante da ameaça de infidelidade sexual pela parceira, os homens optam por um trade-off, ou seja, ao evitar uma infidelidade sexual, buscam minimizar as possibilidades de uma infidelidade do mesmo tipo pela parceira (Buss, 2018).

Ademais, pode-se conjecturar que a infidelidade emocional é compreendida como algo que pode acontecer independentemente da vontade ou da ação do sujeito, diferentemente da infidelidade sexual, que exige uma postura mais ativa do indivíduo. Portanto, por mais que a infidelidade seja um comportamento repreendido socialmente, os indivíduos parecem se sentir mais propensos à infidelidade emocional, pois a sexual estaria mais associada aos níveis de autocontrole dos indivíduos (McIntyre, Barlow & Hayward 2015).

O presente estudo também investigou a associação entre os níveis de sexismo ambivalente e a satisfação no relacionamento, buscando contribuir para a formação de modelos preditivos da infidelidade. Em contraposição ao esperado, na ausência de satisfação emocional ou sexual, indivíduos com baixos níveis de sexismo ambivalente indicaram maior probabilidade de serem infiéis, quando comparados àqueles com altos níveis. Homens sexistas, em geral, percebem um maior número de parceiras sexuais como um sinal de virilidade e masculinidade, bem como apresentam uma disposição para o uso de estratégias sexuais de curto prazo (Hall & Canterberry, 2011), por isso, esperava-se que eles apresentassem uma maior suscetibilidade à infidelidade; sobretudo quando insatisfeitos no relacionamento, como uma autodefesa perante a ameaça de uma dependência emocional da parceira (Cross et al., 2017).

Não obstante, considerando que a amostra deste estudo apresentou médias maiores em sexismo benevolente, homens que se identificam com esse tipo de sexismo tendem a apresentar visões romantizadas acerca dos relacionamentos, como o sentimento de ser completado pela parceira (Casad et al., 2015; Hart, Hung, Glick & Dinero, 2012). Portanto, tendem a ser carinhosos e atenciosos com as suas parceiras, bem como reportam altos níveis de satisfação nos relacionamentos (Overall, Sibley & Tan, 2011; Sibley & Becker, 2012).

Além disso, a identificação feminina com qualquer um dos tipos de sexismo pode estar relacionada ao endossamento de comportamentos tradicionais, como se manter fiel ao parceiro (Glick & Fiske, 1997). Nesse sentido, é possível conjecturar que mulheres sexistas podem apresentar uma imagem negativa sobre a própria sexualidade, e isso pode torná-las menos propensas à infidelidade (Davodian, 2014).

Além disso, Danube, Vescio e Davis (2014) encontraram o sexismo benevolente associado negativamente às atitudes favoráveis ao sexo casual, bem como ao número de envolvimentos sexuais fora de um relacionamento estável, tanto em homens quanto em mulheres. Os autores argumentam que o sexismo benevolente apresenta características ligadas à busca por intimidade e a comportamentos prossociais, os quais o qualificam como mais sutil em relação ao sexismo hostil (Glick & Fiske, 1997). A partir desse estudo, pode-se pressupor que a desaprovação do sexo casual e a manutenção de comportamentos prossociais apontam para uma menor tendência à infidelidade, principalmente aquela exclusivamente sexual.

Outro estudo aponta que pessoas com altos índices de sexismo ambivalente endossam mais valores normativos, como obediência e religiosidade (Mikołajczak & Pietrzak, 2014). Desse modo, indivíduos sexistas tendem a se comportar de acordo com os padrões estabelecidos pela sociedade e pela religião; e, por sua vez, o comportamento infiel, pode ser incluído, em termos gerais, como um desses comportamentos socialmente reprováveis, podendo estar associado a sentimentos de vergonha, o que pode dar suporte para os menores níveis de suscetibilidade à infidelidade nesse grupo (Fincham & May, 2017).

Os resultados do presente estudo apontam que o sexismo ambivalente funciona como um fator que diminui a probabilidade do comportamento infiel. Com efeito, Cross e Overall (2017) indicaram que o sexismo é, inclusive, uma característica considerada atrativa na busca de parceiros. Nicolas (2016) afirma que as vantagens da manutenção de práticas e atitudes sexistas, ao longo da evolução humana, está associada, principalmente, ao controle da sexualidade feminina, o que representou uma estratégia dos homens para garantir a certeza da paternidade. Nessa perspectiva, tais atitudes permaneceram, pois contribuíram para o sucesso reprodutivo dos homens. Assim, é possível considerar que baixos níveis de sexismo ambivalente estão relacionados a uma maior liberdade sexual, o que pode levar à maior suscetibilidade à infidelidade.

É importante investigar como o sexismo influencia na relação entre homens e mulheres no contexto das relações amorosas, como realizado no presente estudo em relação à infidelidade. O sexismo ambivalente reforça uma desigualdade entre os gêneros (Hammond & Overall, 2013). Entretanto, como já mencionado, o sexismo não tem um valor unicamente negativo (Glick & Fiske, 1997) e pode representar algumas vantagens em termos evolutivos. Com isso, não se pretende justificar ou reforçar estereótipos de gênero ligados ao sexismo ambivalente, contudo, à luz da psicologia evolucionista, o conhecimento de possíveis vantagens evolutivas e sociais do sexismo ambivalente é fundamental para a compreensão dos processos relacionados à manutenção de ideias sexistas e para o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento.

6 Considerações finais e direcionamentos futuros

Apesar da sua importância em outros contextos, os pressupostos da psicologia evolucionista ainda não são amplamente utilizados em pesquisas latino-americanas. Por sua vez, o estudo da predição da infidelidade à luz da perspectiva evolucionista também é iniciante em pesquisas brasileiras, diante disso, este estudo traz contribuições importantes para o avanço do conhecimento acerca da infidelidade e para a pesquisa no contexto dos relacionamentos amorosos, bem como possibilita a comparação com estudos futuros realizados com outras amostras brasileiras, no campo da psicologia evolucionista.

Apesar de tais contribuições, o presente estudo apresenta limitações. Primeiramente, é importante considerar o maior número de mulheres na amostra. Altgelt, Reyes, French, Meltzer e McNulty (2018) apontam que os efeitos de alguns preditores da infidelidade, como os traços de personalidade, parecem ser mais evidentes para as mulheres. Assim, o maior número de mulheres na amostra pode ter afetado o padrão encontrado, uma vez que as mulheres, de acordo com a psicologia evolucionista, estão mais propensas à infidelidade emocional. A amostra também apresentou uma amplitude muito grande em relação ao tempo de relacionamento, variando de seis meses a 40 anos; no entanto, não foi possível controlar o efeito desse aspecto nas análises realizadas e, consequentemente, no nível de suscetibilidade à infidelidade. Além disso, o efeito da desejabilidade social não foi controlado de forma direta por medidas psicométricas; não obstante, acredita-se que os cenários tenham reduzido tal efeito, uma vez que a pergunta acerca da suscetibilidade à infidelidade era eliciada em torno de um personagem fictício.

O presente estudo avaliou a infidelidade apenas em indivíduos em um relacionamento heterossexual, logo, não foi possível analisar o fenômeno em relações homoafetivas, bissexuais e poliamoristas. Para além dessas amostras, pesquisas futuras podem utilizar amostras de casais, o que possibilitaria analisar outras variáveis relacionais que influenciam na infidelidade, ou diferenças entre os traços de personalidade e os níveis de sexismo entre os parceiros; o que poderia tornar os resultados mais esclarecedores.

Nesse sentido, os resultados do presente estudo têm implicações para a prática clínica, sobretudo para a terapia de casal, indicando possíveis focos de intervenções e tópicos que devem ser abordados durante o processo terapêutico, como os níveis de satisfação emocional e sexual no relacionamento e as expectativas e crenças sexistas que circundam a relação entre o casal. No âmbito social, apesar de não ser o foco de investigação, em consonância com os pressupostos evolucionistas, o estudo incentiva a compreensão de alguns processos relacionados à manutenção de ideias sexistas.

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Recebido: 09 de Julho de 2019; Aceito: 06 de Março de 2020

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