Investigações sobre demandas e fatores psicológicos tem sido foco de uma gama de estudos que avaliam a maneira como atletas se relacionam com a prática e o desempenho esportivo (Tertuliano & Machado, 2019). Neste contexto, pode-se citar os apontamentos de Rubio (1999), nos quais os estudos focam situações que permeiam motivação, personalidade, agressão e violência, dinâmica de grupo, bem-estar psicológico, pensamentos e sentimentos de atletas, e que tais estudos têm ganhado espaço na área da Psicologia do Esporte (Tertuliano & Machado, 2019).
Weinberg & Gould (2017) também expõem que diferentes variáveis influenciam o rendimento e o resultado final esportivo, assim como foco em metas, concentração, controle do estresse e coesão de grupo. Em relação a coesão de grupo, foco do presente estudo, a literatura cita que o termo foi inicialmente utilizado por Kurt Lewin em 1945 para indicar a base da consistência de um grupo, na qual permeia o auxílio mútuo e a reciprocidade dos objetivos e as finalidades do grupo, ou seja, é a inter-relação dos atletas em suas atividades individuais e coletivas para o alcance de um objetivo comum (Almeida, 2008).
Posteriormente outras definições foram apresentadas pela literatura, como postulada por Carron (1982), na qual o autor descreve a coesão como a tendência de um determinado grupo em executar atividades em conjunto permanecendo com os mesmos ideais, ou seja, unidos em um mesmo propósito. Ainda, nesta mesma temática, outros estudos apontaram para a tendência multidimensional e compreendem que a coesão de grupo seria composta por quatro dimensões, com fatores ligados às percepções (individuais e de equipe) dos atletas em relação às interações sociais e de tarefa (Carron, Widmeyer, & Brawley, 1985).
As interações de tarefa seriam a maneira como os atletas se relacionam para atingir objetivos profissionais em comum, enquanto as interações sociais estão ligadas a maneira como esses atletas se relacionam em um ambiente não esportivo (Nascimento Junior, Balbim, & Vieira, 2013; Tertuliano, Alvarenga, Xavier, Oliveira, & Machado, 2019). Diante dessa última definição, alguns estudos foram conduzidos buscando compreender a relação entre coesão de grupo e outras variáveis, tais como titularidade e tempo na equipe (Nascimento Júnior et al., 2018), perfeccionismo (Vieira, Nascimento Junior, & Vieira, 2013), motivação (Fiorese et al., 2017), ansiedade pré-competitiva (Nascimento Junior, Balbim, et al., 2016; Paes, Machado, Berbetz, & Stefanello, 2016), estresse psicológico (Balbim, Nascimento Junior, & Vieira, 2012), estilo de liderança (Nascimento Junior & Vieira, 2012, 2013), satisfação pessoal (Leite et al., 2015; Silveira & Oliveira, 2017) e idade dos atletas (Tertuliano et al., 2019).
Uma peculiaridade nos estudos observados na literatura é que a temática coesão de grupo é conduzida, na maioria dos estudos, com atletas de modalidades coletivas (Xavier et al., 2020). Dentre os trabalhos encontrados na literatura em modalidades individuais, podese citar estudos com caratecas e tenistas (Silveira & Oliveira, 2017; Taghizadeh & Shojaie, 2012), o que denota a escassez de estudos com essa população e a necessidade de mais estudos com esse público.
Cabe destacar que embora seja, por vezes, erroneamente associado apenas há ambientes de modalidades coletivas, o termo coesão de grupo se enquadra também em modalidades individuais. Geralmente atletas de modalidades individuais, por mais que exerçam atividades e compitam sozinhos e/ou individualmente, treinam com outros atletas e em alguns casos contam com uma equipe multidisciplinar. Nessa perspectiva, Silveira & Oliveira (2017) afirmam que, mesmo em modalidades individuais, a responsabilidade dos resultados não é apenas do atleta, mas de toda a equipe que participa do processo competitivo junto ao atleta, o que faz sentido compreender a interface do atleta e seu contexto.
Além disso, é oportuno compreender as semelhanças e diferenças que ocorrem junto aos atletas de esportes coletivos e individuais no que tange a coesão de grupo, pois tal compreensão pode ser útil para técnicos e psicólogos. Essas informações podem auxiliar no processo de treinamento e, com isso, contribuir com estratégias mais assertivas para melhoria da coesão de grupo junto a toda equipe. Seguindo tais prerrogativas, o presente estudo teve o objetivo de comparar o nível de coesão de grupo de atletas de esportes coletivos com os níveis de coesão de grupo de atletas de esportes individuais de equipes de uma cidade do interior do estado de São Paulo.
Método
Participantes
Participaram do estudo 38 atletas de ambos os sexos (23 homens e 15 mulheres), com média de idade de 16,21 (DP=4,72) anos. Os participantes eram atletas de 4 modalidades esportivas: Voleibol (12 participantes); Basquetebol (07 participantes); Ginástica Artística (06 participantes); Tênis de Campo (13 participantes). Os atletas foram divididos em 2 grupos amostrais de acordo com o objetivo do estudo: “Esportes Coletivos”, com 19 participantes e média de idade de 19,68 (± 4,32); e “Esportes Individuais”, também com 19 participantes e média de idade de 12,74 (± 1,33).
Instrumentos
Os participantes responderam ao Questionário de Ambiente de Grupo – QEG, proposto por Carron et al. (1985), adaptado e validado para o Brasil por Nascimento Junior, Vieira, Rosado & Serpa (2012). Este instrumento é composto por 16 itens que avaliam a coesão de grupo em equipes esportivas, distribuídos em quatro dimensões: (1) Integração no Grupo-Tarefa (GI-T) – como o atleta considera a harmonia da equipe em tarefas a serem realizadas (itens 8, 10, 12, 14 e 16); (2) Integração no Grupo-Social (GI-S) – como o atleta considera a união da equipe como unidade social (itens 9, 11, 13 e 15); (3) Atração Individual para o Grupo-Tarefa (AI-T) – como o atleta considera seu envolvimento com os objetivos estabelecidos (itens 3, 4 e 6), e (4) Atração Individual para o Grupo-Social (AI-S) – como o atleta considera a sua integração dentro do grupo social (itens 1, 2, 5 e 7).
As respostas foram coletadas de maneira que o avaliado escolhesse uma opção de um a nove para cada resposta, partindo do pressuposto em que as respostas variam de 1 (discordo totalmente) a 9 (concordo totalmente). Nesse instrumento, as respostas mais próximas de 9 indicam um alto nível de coesão, enquanto as respostas mais próximas de 1 indicam um nível menor de coesão. Para calcular o escore de cada dimensão somou-se as respostas dos itens de cada dimensão e as dividiu pelo respectivo número de itens, o que variou, enquanto valores, de 1 a 9.
Procedimentos
Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Hospital e Centro de Reabilitação da AACD, sob o número de parecer: 1.541.273 e respeitou a resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Após a provação do CEP, realizou-se contato prévio com os responsáveis das equipes com o objetivo de apresentar o objetivo da pesquisa e solicitar autorização para a coleta com seus atletas. Com a devida autorização dos técnicos, os atletas foram informados dos objetivos do estudo e todos os participantes que aceitaram participar da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), estando cientes de que a participação na pesquisa era voluntária e anônima. Para os menores de 18 anos, o TCLE foi assinado por um responsável maior de idade, e o menor assinou o Termo de Assentimento.
Para que o objetivo da pesquisa fosse respeitado, foram adotados alguns cuidados metodológicos, garantindo a confiabilidade das informações coletadas. Para tanto, o questionário foi entregue aos atletas no dia do primeiro jogo do evento. O questionário foi respondido individualmente, no local de concentração da equipe (hotel ou alojamento). Todos os atletas responderam ao questionário, acompanhados de ao menos um pesquisador, para que os atletas não compartilhassem as informações durante o preenchimento.
O tempo de preenchimento do questionário foi de aproximadamente 10 minutos. Após todos os atletas responderem ao questionário, as informações coletadas foram digitadas no Excel, versão 2016, para posterior análise no SPSS® (Statistical Package for the Social Sciences – IBM), versão 22.
Análise estatística
Neste estudo as análises inferenciais assumiram o valor de p ≤ 0,05 para níveis de significância. Dado o número de participantes do presente estudo, houve a necessidade de testar a normalidade e a homogeneidade de variância. A normalidade foi testada por meio do teste Kolmogorov-Smirnov (K-S) e a homogeneidade de variância dos dados com o uso do Levene. Os dados apresentaram distribuição normal (p>0,05) e homogeneidade de variância (p>0,05) e, por isso, assumiu-se testes paramétricos. Para apresentação dos dados utilizou-se média (M) e desvio padrão (DP).
Com o intuito de avaliar a confiabilidade das dimensões do instrumento, ou seja, para avaliar a consistência interna das dimensões do questionário, utilizou-se o alfa de Cronbach (α de Cronbach), assumindo valores entre 0,7 e 0,8 como aceitáveis para o α (Field, 2009), para cada dimensão de forma isolada. Na avaliação da fidedignidade teste-reteste foi utilizado o coeficiente de correlação intraclasses entre os itens e dimensões do instrumento. Os valores de correlação foram avaliados conforme proposto por Hopkins (2002), em que <0,10 (trivial), 0,10 a 0,30 (baixa), 0,31 a 0,50 (moderada), 0,51 a 0,70 (alta), 0,71 a 0,90 (muito alta), 0,91 a 0,99 (quase perfeita) e 1 (perfeita).
Para analisar as diferenças entre os grupos (esportes coletivos e esportes individuais), utilizou-se o Teste t independente. Dando continuidade as análises, comparando as dimensões, para toda a amostra e para as análises intragrupo, utilizou-se do teste Anova one way com post-hoc de Bonferroni. Para controle do erro do tipo 1, no Post Hoc de Bonferroni houve a divisão do p pelo número de comparações (Green, Salkind, & Akey, 2000).
Resultados
Em relação a confiabilidade das escalas, o alpha de Cronbach revelou bons índices de confiabilidade (α > 0,760) para a amostra investigada, ou seja, o índice de consistência interna geral do instrumento foi satisfatório para o estudo. Todavia, como o instrumento é multidimensional, houve a necessidade de calcular a confiabilidade de cada dimensão, isoladamente. De acordo com a tabela 1, as dimensões apresentaram índices de confiabilidade aceitáveis, variando de α = 0,454 a α = 0,692 e correlação item-dimensão variando entre 0,330 e 0,637, indicando correlação moderada e alta entre os itens e a dimensão a qual ele pertence, não necessitando a exclusão de nenhum item.
Tabela 1 Consistência interna das dimensões do instrumento e correlação item-dimensão (n=38).
Dimensão | Item número | α | Correlação Item-Dimensão |
---|---|---|---|
1. Integração no Grupo-Tarefa (GIT) | 8, 10, 12, 14, 16 | 0,662 | 0,429/0,409/0,483/0,526/0,444 |
2. Integração no Grupo-Social (GIS) | 9, 11, 13, 15 | 0,692 | 0,463/0,490/0,459/0,482 |
3. Atração Individual para o Grupo-Tarefa (AI-T) | 3, 4, 6 | 0,454 | 0,380/0,383/0,330 |
4. Atração Individual para o Grupo-Social (AI-S) | 1, 2, 5, 7 | 0,602 | 0,556/0,412/0,637/0,565 |
Fonte: Elaborada pelos autores.
Nas comparações entre grupos, pode-se observar que o grupo “Esportes Individuais” apresentou escores superiores nas dimensões GI-S, AI-T e AI-S (Tabela 2). Frente a análises inferenciais, o teste t independente apresentou diferença significante entre grupos nas dimensões AI-T e AI-S (p<0,05), confirmando parcialmente a análise descritiva. Enquanto diferenças, o grupo “Esportes Individuais” foi significativamente superior em duas dimensões do instrumento (AI-T e AI-S).
Tabela 2 Comparação das dimensões de coesão de grupo entre grupos (esportes coletivos e esportes individuais).
Dimensão | Esportes coletivos (n=19) M ± DP | Esportes individuais (n=19) M ± DP | Teste t independente | P |
---|---|---|---|---|
1. Integração no Grupo-Tarefa (GIT) | 704 ± 117 | 738 ± 110 | -0,943 | 0,352 |
2. Integração no Grupo-Social (GIS) | 561 ± 145 | 594 ± 173 | -0,633 | 0,531 |
3. Atração Individual para o Grupo-Tarefa (AI-T) | 770 ± 110 | 835 ± 060 | -2,371 | 0,023* |
4. Atração Individual para o Grupo-Social (AI-S) | 634 ± 128 | 747 ± 101 | -3,020 | 0,005* |
Anova one way | 0,001* | 0,001* |
Nota: *Diferença significativa: p<0,05Fonte: Elaborada pelos autores.
Nas comparações intragrupos, pode-se observar que para os dois grupos a dimensão AI-T foi superior as demais escalas (Tabela 2). Falando-se do grupo “Esportes Coletivos”, o teste Anova one way demonstrou que houve diferença significante entre as dimensões [F (2,037; 36,674) = 14,640; p<0,001]. O post hoc demonstrou diferença significante entre a dimensão AI-T e as dimensões GI-S e AI-S (p<0,008, valor ajustado), além de apresentar diferenças significantes entre as dimensões GI-T e GI-S (p<0,008, valor ajustado).
Tais informações suportaram parcialmente a análise descritiva, pois a dimensão AI-T foi superior as dimensões de convívio social (GI-S e AI-S), e a dimensão GI-T também apresentou escore superior a dimensão GI-S. Tais resultados sugerem que as dimensões relacionadas à tarefa tiveram escores superiores as dimensões relacionadas ao convívio social para o grupo “Esportes Coletivos”.
Por fim, frente à análise para o grupo de esportes individuais, o teste inferencial demonstrou, também, que houve diferença significante entre as dimensões [F (1,740; 31,316) = 13,580; p<0,001]. O post hoc demonstrou diferença significante entre a dimensão AI-T e as demais dimensões (p<0,008, valor ajustado). Tais informações suportaram a análise descritiva, pois a dimensão AI-T obteve escores superiores as demais dimensões para o grupo “Esportes Individuais”.
Em síntese, os resultados do presente estudo demonstraram que o instrumento apresentou bons valores de consistência interna para os atletas investigados no presente estudo, ou seja, valores satisfatórios de confiabilidade para a amostra participante. Além disso, os resultados demonstraram que os atletas de esportes individuais investigados, apresentaram valores superiores para as dimensões relacionadas a atração individual (AI-T e AI-S), quando comparados aos atletas de esportes coletivos que participaram do estudo, o que apontou o quanto os atletas se consideraram envolvidos com o grupo e com a tarefa.
Finalizando, nas análises intragrupo ambos os grupos apresentaram escores superiores para dimensão AI-T, apontando grande envolvimento pessoal com os objetivos estabelecidos. Somado a isso, o grupo “Esportes Coletivos” teve escores superiores, também, para dimensão GI-T, demonstrando forte relação do grupo com a tarefa.
Discussão
Retomando o objetivo do presente estudo, que foi comparar o nível de coesão de grupo de atletas de esportes coletivos com os níveis de coesão de grupo de atletas de esportes individuais de equipes de uma cidade do interior do estado de São Paulo, pode-se observar que todas as dimensões, para os dois grupos amostrais investigados, demonstraram escores superior a cinco, o que é considerado pela literatura como demonstração de forte coesão de grupo (Nascimento Junior et al., 2013; Paes et al., 2016; Tertuliano et al., 2019; Xavier et al., 2020).
Os resultados do estudo acerca da comparação entre os níveis de coesão de grupo de atletas de esportes coletivos e individuais, demonstraram que atletas de esportes individuais apresentaram escores superiores nas dimensões de atração individual (AI-T e AI-S) comparados aos atletas de esportes coletivos. Tais resultados divergem do estudo de Vahdani, Sheikhyousefi, Moharramzadeh, Ojaghi, & Salehian (2012), no qual os autores não encontraram diferenças de níveis de coesão de grupo entre atletas de esportes coletivos e atletas de esportes individuais.
Todavia, os resultados do presente estudo corroboram o estudo de Silveira & Oliveira (2017), no qual os autores avaliaram caratecas de ambos os sexos e observaram que o grupo de atletas do sexo feminino apresentaram escores superiores nas dimensões de atração individual, quando comparadas com as dimensões de integração no grupo. Os autores sugeriram que as atletas entendem o grupo como uma equipe harmônica em busca de suas metas de desempenho, e o estilo de trabalho do grupo concilia a atingirem seus objetivos individuais, ou seja, os atletas apresentaram maior coesão de grupo relacionada às dimensões de atração individual para o grupo (social e tarefa), em detrimento as dimensões de integração no grupo, corroborando os achados de Taghizadeh & Shojaie (2012).
Referente aos resultados do presente estudo, essa diferença pode ter relação com a idade dos atletas, pois os atletas de esportes individuais eram mais jovens que os atletas de esportes coletivos e, possivelmente, em função da idade, menos experientes. Tertuliano et al. (2019) investigaram os níveis de coesão de grupo de atletas de base do Futebol. Os atletas deste estudo apresentavam idade entre 15 e 19 anos. Os resultados demonstraram que as dimensões AI-T e AI-S foram as dimensões com os maiores escores para esses atletas, da mesma forma que o presente estudo.
Esses resultados demonstram que atletas jovens tendem a priorizar a coesão de grupo por meio das dimensões de atração individual. Entretanto esses resultados são suposições para explicar os achados, haja vista o presente estudo ter encontrado tais apontamento junto a atletas de esportes individuais e o estudo de Tertuliano et al. (2019) ter utilizado atletas de esportes coletivos, assim como o estudo de Xavier et al. (2020), o qual foi conduzido com atletas jovens de basquetebol e apresentou resultados similares, ou seja, os jovens apresentaram maiores índices para dimensão AI-T, quando comparada as demais dimensões.
Retomando os resultados, as análises intragrupo demonstraram que ambos os grupos apresentaram valores significantemente superiores na dimensão AI-T, corroborando os achados da literatura (Carron et al., 1985; Estabrooks & Carron, 2000; Eys, Carron, Bray, & Brawley, 2007; Eys, Loughead, Bray, & Carron, 2009; Fiorese et al., 2017; Morão, Verzani, Bagni, Rebustini, & Machado, 2019; Nascimento Junior et al., 2013; Nascimento Junior, Balbim, et al., 2016; Nascimento Junior, Ribeiro, et al., 2016; Tertuliano et al., 2019; Xavier et al., 2020).
No grupo de modalidades coletivas, além da dimensão AI-T, a dimensão GI-T apresentou escores superiores quando comparadas as outras dimensões. Esses resultados assemelham-se aos encontrados na literatura, onde equipes de esportes coletivos apresentaram maiores escores nas dimensões relacionadas a tarefa (Nascimento Júnior et al., 2018; Nascimento Junior & Vieira, 2012; Tertuliano et al., 2019) e demonstram que atletas de esportes coletivos tendem a dar mais importância aos aspectos relacionados a tarefa em detrimento aos aspectos sociais.
Os resultados do presente estudo demonstraram que os atletas investigados, tanto de esportes coletivos como de esportes individuais, deram mais importância à forma como eles se relacionam com os objetivos e metas da equipe que defendem. Segundo Carron (1982), resultados individuais estão alinhados a consequências comportamentais, eficácia relativa e absoluta do atleta e satisfação. Nascimento Junior, Vieira, Souza, & Vieira (2011) apontam que equipes e, consequentemente, atletas que apresentam maior satisfação, manifestam melhores resultados quanto a coesão de grupo relacionados a tarefa, corroborando a teoria de Apple (1993), a qual cita que atletas que demonstram sentimento de pertencimento a equipe, apresentam mais prazer em participar das tarefas impostas para equipe.
Leite et al. (2015) avaliaram a relação entre níveis de coesão de grupo e satisfação dos atletas durante um campeonato de Rugby. Para isso, os autores utilizaram atletas de 12 equipes de Rugby, os quais responderam a dois questionários, o questionário de ambiente de grupo (GEQ) e o questionário de satisfação do atleta (QSA). Os resultados deste estudo demonstraram correlação moderada entre coesão de grupo e nível de satisfação dos atletas. Os autores concluíram que os atletas avaliados se apresentaram integrados nos aspectos sociais e que isso teve relação com os níveis de satisfação relacionados à tarefa.
Uma possível explicação para influência da satisfação nos níveis de coesão pode ser a liderança (técnico) da equipe. Gomes & Machado (2010) apontam que quando os atletas interpretam positivamente seus treinadores, tendem a manifestar maior satisfação em relação à liderança exercida pelo técnico, e que essa manifestação pode explicar maior dedicação aos objetivos impostos e, consequentemente, maior coesão em prol da tarefa.
De acordo com a hipótese da congruência (Chelladurai, 2007, 2012), base para o modelo multidimensional de liderança, quando os atletas conseguem perceber que o seu treinador apresenta o comportamento que eles valorizam e/ou preferem em um determinado momento, tanto o desempenho como a satisfação aumentam, indicando que a relação entre a liderança percebida e preterida pelos atletas influencia a satisfação dos atletas. Rodrigues & Saldanha (2016) tiveram como objetivo testar a hipótese de congruência em atletas escolares. Os resultados suportaram a hipótese de congruência, ou seja, a satisfação dos atletas é dependente da congruência entre o comportamento preferido pelos atletas e o comportamento do treinador.
Nessa perspectiva, pode-se dizer que a liderança é a base para o alcance dos objetivos das tarefas propostas e a manutenção e/ou criação de um ambiente social saudável e de confiança, no qual o respeito deve ser recíproco entre atletas e comissão técnica (Costa et al., 2017). Assim, é possível considerar que exista uma relação entre a liderança e os níveis de coesão de grupo. Nascimento Junior & Vieira (2012) investigaram a relação entre níveis de coesão de grupo e liderança dos treinadores de equipes de Futsal. Os autores avaliaram 122 atletas de diferentes equipes de Futsal.
Os resultados demonstraram que atletas treinados por treinadores que apresentaram estilo de liderança mais democrático tiveram percepções significativamente maiores, quando comparados a atletas liderados por treinadores com perfil menos democráticos, no que tange as dimensões da tarefa (AI-T e GI-T). Os autores concluíram que o estilo de liderança democrático demonstra-se como influenciador dos níveis de coesão de grupo das equipes em prol da tarefa (Nascimento Junior & Vieira, 2012).
Resultados similares foram encontrados em outro estudo (Nascimento Junior & Vieira, 2013), no qual as equipes com treinadores de perfil mais democrático apresentaram escores superiores para coesão de grupo em prol da tarefa, o que também foi encontrado por Warner (2017). Além desses achados referentes ao estilo de liderança do treinador, o relacionamento treinador-atleta, no que diz respeito a uma dinâmica envolvendo questões cognitivas, afetivas e comportamentais, também influencia a coesão do grupo e sua associação com a motivação dos atletas (Fiorese et al., 2017).
Tais achados demonstram que uma boa relação entre treinador e atleta está associada com percepções de atração e integração no grupo, assim como aspectos sociais e de tarefa (Eys et al., 2013). Entretanto é oportuno citar que a relação entre liderança e coesão de grupo não foi objetivo do presente estudo, mas que podem ser hipóteses explicativas para os resultados encontrados, ou seja, o papel do treinador pode dar suporte aos achados no que se refere os níveis de coesão de grupo e a diferença encontrada entre os esportes coletivos e individuais, mas não pode suportar explicações de correlação ou causa e efeito, pois não foi objetivo do presente estudo, tão pouco investigado no presente estudo.
Nos esportes individuais, a relação entre técnico e atleta é mais estreita, pois eles tendem a passar mais tempo juntos no treinamento, já que o técnico tem menos atletas para gerenciar e treinar (Weinberg & Gould, 2017). Dessa forma, os resultados do presente estudo, bem como as hipóteses explicativas de influência da liderança nos níveis de coesão, sugerem que o treinador seja um possível influenciador dos níveis de satisfação dos atletas (Ribeiro, 2016) e, consequentemente, dos níveis de coesão de grupo (Nascimento Junior & Vieira, 2013; Tertuliano et al., 2019; Vieira et al., 2013). Além disso, é oportuno citar que o psicólogo do esporte tem grande influência nessa relação, pois que o mesmo, enquanto treinamento de habilidades psicológicas, atua diretamente na melhoria das habilidades dos atletas e do técnico, auxiliando-os na relação técnico/atleta.
Considerações finais
Os resultados do presente estudo demonstraram que os atletas de esportes individuais, investigados no presente manuscrito, apresentaram valores superiores nas dimensões AI-T e AI-S, em relação aos atletas de esportes coletivos investigados. Além disso, os dois grupos amostrais apresentaram valores superiores para dimensão AI-T nas análises intragrupo. Somado a isso, o grupo de esportes coletivos apresentou, também, valores superiores para dimensão GI-T nas análises intragrupo. Tais resultados sugerem que os atletas que participaram deste estudo demonstraram, independentemente da análise adotada, níveis elevados de coesão de grupo em prol da tarefa, o que é apontado pela literatura como bom para o rendimento esportivo (Apple, 1993; Carron et al., 1985; Tertuliano et al., 2019; Xavier et al., 2020).
Todavia, como qualquer outro estudo, o presente estudo apresenta limitações. Enquanto limitações, pode-se citar a quantidade de atletas por grupo, demonstrando a necessidade de ampliação da amostra para estudos futuros. Pode-se também citar a limitação de não relacionar os achados acerca dos níveis de coesão com o estilo de liderança, apontando a necessidade de estudos que relacionem tais variáveis, pois a liderança, de acordo com a literatura (Eys et al., 2013; Fiorese et al., 2017), pode influenciar os níveis de coesão dos atletas.
Por fim, é oportuno citar que em função do número de participantes do presente estudo, os resultados encontrados devem ser utilizados, enquanto generalização, com parcimônia. Assim, sugere-se que novos estudos sejam conduzidos com amostras maiores, bem como utilizem outras variáveis, como por exemplo o estilo de liderança, o estado de humor e a ansiedade, correlacionando-as com os níveis de coesão dos atletas.