Introdução
Oriso é uma reação espontânea presente no repertório de respostas de qualquer pessoa, mas é apenas um resultado visível aos olhos das pessoas, proporcionado pela ocorrência de construções psíquicas ou mentais, criadas diante de diferentes contextos. Tanto que aparece nos mais diversos grupos em diferentes épocas e regiões do planeta. O riso é universal e sua função é discutida desde os filósofos antigos, e faz aparições nas mais variadas formas de expressão, desde obras literárias até pinturas, esculturas e fotografias. O fato é que as pessoas têm gostos, preferências e modos diferentes de perceber as coisas. Portanto, é normal que as pessoas tenham limiares de sensibilidade diferentes para diferentes assuntos ou situações.
O curioso é que nem tudo que é engraçado para um será engraçado para o outro e, como consequência, causará o riso. Até mesmo pelo motivo de que nem todo riso é causado por algo contextualmente engraçado: há pessoas que riem vendo filmes de terror, ao serem pressionadas, ou mesmo quando vão a um velório.
Os entendimentos sobre o tema foram variados desde o momento em que foi tornado objeto de observação, mas não necessariamente tais entendimentos sobrepõem-se uns aos outros. As compreensões disseminadas séculos a. C. são diferentes das formas atuais de abordagem sobre o tema, mas isso não se traduz em antagonizar visões distintas de tempos e espaços distintos. Atualmente, além de o riso ter seu espaço conquistado como objeto de relatos e investigações entre obras de arte em geral, ele alcança, também, relevância nos campos da filosofia, da sociologia, da antropologia e da psicologia.
É perceptível a presença do riso em nosso cotidiano, devido a sua expressão nas mais diferentes situações. Portanto, este trabalho não terá como objetivo problematizar o riso como consequência de um enunciado humorístico, ou cômico, sobre seu alvo, mas elucidar o mecanismo do riso de forma geral, desde os fatores facilitadores para o acontecimento do fenômeno, até o riso em si e seu possível motivo, sobretudo, no que se refere ao campo social. Para tanto, será trabalhada a hipótese de que o riso não acontece somente em momentos de descontração, visto que o riso é abrangente e também está presente em momentos de tensão e tristeza, onde o previsível seria, por exemplo, o choro. O objetivo principal da produção buscará compreender o riso à luz da Psicanálise ; e, como objetivos secundários e aparentemente distintos, também serão mostradas as compreensões históricas do riso e a perspectiva cognitivista e neurocientífica sobre o tema.
Assim, servirá como justificativa o fato de que, apesar de sua presença universal e atemporal, por muito tempo o riso foi abordado de forma adjetiva, tanto em livros de romance, poemas, passagens bíblicas e pinturas, até mesmo possuindo objetivo, mas não necessariamente com o aprofundamento metodológico e até mesmo científico sobre o assunto a fim de desvendar o que o causa. Dizer que rimos com o objetivo de depreciar alguma situação, ou simplesmente descarregar tensão, é diferente de dizer o motivo real por trás disso, o que proporciona um episódio de riso, os mecanismos envolvidos e o que acontece a partir desse fenômeno.
No campo da psicologia, existe literatura relevante sobre o tema. Dentre tantos autores, por exemplo, ainda no início do século XX, Freud dedicou-se a uma obra chamada Os chistes e sua relação com o inconsciente. Com influência de uma corrente de pensamento provocante em ascensão no século XIX, Freud buscou esmiuçar as características presentes em um chiste, contribuindo para o olhar sobre o riso de forma ainda mais profunda e metodológica, sendo essa obra importante para a psicologia quando relacionada não somente ao chiste (formação do inconsciente), mas também ao riso, ao cômico ou ao humor.
O presente trabalho buscará respostas para perguntas como: Por que rimos das coisas que rimos? Por que as pessoas riem de coisas diferentes? E, ainda, por que algumas expressões de riso podem ser julgadas como inadequadas às situações em que se apresentam?
Como dito, o fato é que o riso não se apresenta somente em momentos consensualmente considerados engraçados, mas também em momentos delicados, de tristeza, de tensão, ou de pressão. A relevância de compreender o fenômeno do riso está intimamente ligada ao ambiente social, onde ocorrem as trocas de informações, conhecimentos, valores, e construções de sentidos. A discussão sobre o riso ganha importância principalmente nos dias atuais, quando pessoas de diferentes lugares do mundo podem se comunicar, podem se corresponder por mensagens instantaneamente ou até mesmo fazer ligações telefônicas de distâncias quilométricas por todo o globo. A concepção de riso mudou ao longo da história, mas será que o riso, em si, mudou?
O riso e seus empreendimentos psicológicos
A partir do nascimento, o ser humano está sujeito a possibilidades que despontam no ambiente em que recebe seus primeiros cuidados e investimentos e, também, mais tarde e de forma mais direta, nas relações sociais mais amplas. Nesse jogo de trocas o sujeito aprende, se implica, se recusa, fica tenso e relaxa, e tantas outras infindáveis possibilidades se revelam. As teorias psicológicas desde sempre buscam entender como ocorre a constituição do homem, cada qual com seus termos, conceitos, influências filosóficas e contextos sociohistóricos. Contudo, as teorias mais flexíveis, cada uma à sua maneira, são as mais capacitadas para explicar o desenvolvimento humano.
Atribuir a uma teoria o termo “flexível”, aqui, tem a intenção de dizer que são teorias que acompanham as mudanças socioambientais e até econômicas, além das disposições psicológicas e suas manifestações.
O riso é uma dessas manifestações que expressam todo um envolvimento psicológico no ambiente e ao social. Embora não seja muito discutido, muitos estudiosos, artistas e pessoas das mais diversas ocupações sociais já tentaram entender o que é o riso. Curiosamente, muitos deles, mesmo não sendo psicólogos - muitos, inclusive, teorizaram o riso muito antes do surgimento da psicologia - levaram em consideração o envolvimento psíquico que é gerado e que fundamenta o riso. Naturalmente, após o surgimento da psicologia e o desenvolvimento e aperfeiçoamento de outras ciências, as compreensões sobre o tema tornaram as coisas mais claras, ou menos imprecisas.
Ao buscar o entendimento do riso como expressão de funções psicológicas, as coisas se tornam dinâmicas. Ao escrever sobre os chistes (principalmente), o cômico e o humor, Freud (1996a) explica que o que acontece quando um dos três é proferido é a realização de um desejo por parte do falante, que obtém prazer superando uma barreira pessoal ou social e permite que o ouvinte de sua enunciação passe por uma economia de energia psíquica e também obtenha prazer ao ser surpreendido e suspender o recalque momentaneamente, quando, então, algum conteúdo mantido recalcado aparece e escoa energia libidinal. É uma questão econômica de energia psíquica para superar a crítica por parte de quem fala e de quem ouve. Percorrem-se caminhos alternativos, porém de vias já conhecidas, menos penosas e trabalhosas para escoar energia acumulada.
Nesse momento, a única distinção que se faz necessária entre os chistes, o cômico e o humor é:
(...) o que sugeri sobre o humor encontra analogia digna de nota no campo aparentado dos chistes. Quanto à origem destes, fui levado a supor que um pensamento préconsciente é entregue por um momento à revisão inconsciente (...) Um chiste é, portanto, a contribuição feita ao cômico pelo inconsciente (...) Exatamente do mesmo modo, o humor seria a contribuição feita ao cômico pela intervenção do superego. (Freud, 1996b, p. 173).
O ego é mediador de forças internas diante da realidade. O mundo externo exige renúncias pessoais e o psiquismo se constitui em um equilíbrio constante entre gerar e adiar prazer. O prazer é alcançado de forma indireta ao superar a censura imposta pelo ego. Após o relaxamento da consciência crítica pelos chistes, um pensamento será entregue à revisão inconsciente; pelo humor, um pensamento é permitido pelo superego. Independente da forma indireta de obter prazer, permanece o entendimento de que o riso resulta de um envolvimento psíquico além do perceptível, como a expressão de um conflito psíquico constante.
A distinção entre o chiste, o cômico e o humor não se faz necessária, porque em geral buscam o riso e o prazer, e se direcionam ao social naquilo que é comunicado por palavras, ou não. Essa comunicação acontece de forma fluida ao supor que o outro é capaz de entender a intenção da comunicação feita, mas as palavras não têm significações fixas. De certa forma, Freud (1996a) já falou isso quando descreveu os chistes - formação inconsciente direcionada ao social - sobre a influência direta das condensações e dos deslocamentos. Essa forma de operação é recorrente também na fala, cheia de falhas e imprecisa, causa de desconsertos no psiquismo do outro. Ao dedicar-se às formações do inconsciente em uma de suas obras, Lacan (1999) explica, por exemplo, como ocorrem os lapsos e como eles ocorrem de forma bastante parecida com os chistes. A cadeia significante permite a substituição de significantes (metáfora) e deslizamento entre os objetos (metonímia). Essa cadeia, mais do que a cadeia do discurso (vazia), permite a construção de uma mensagem, onde o desejo é reivindicado, “(...) a princípio o significante existe para servir a alguma coisa - existe para exprimir uma demanda (...) Que é a demanda? É aquilo que, a partir de uma necessidade, passa por meio do significante dirigido ao Outro.” (Lacan, 1999, p. 91). Os significantes usados na cadeia, de forma imprecisa, reivindicam a realização de desejos, a busca pelo prazer, o mesmo prazer que possivelmente resultará em riso.
O objeto apresentado no campo simbólico é tomado pelo sujeito, que coloca o objeto como uma imagem, como o próprio significante, de forma metafórica e geradora de sentidos. O chiste ou um dito cômico captam esse envolvimento e o desmascara, subverte essa metáfora com a ajuda da metonímia e dá ao objeto uma atribuição distinta do habitual. Isso ocorre porque, para o desejo - amoroso ou hostil - ser realizado, ele deve ser distorcido para passar pela crítica e a censura que vem do Outro.
A pertinência dessa história não é menor que a de qualquer outra história, pois todas sempre nos colocam bem no cerne do problema, isto é, a relação entre o significante e o desejo. O desejo é profundamente modificado em sua ênfase, subvertido, tornado ambíguo ele mesmo por sua passagem pelas vias de significante. Vamos entender bem o que isso quer dizer. Toda satisfação é permitida em nome de um certo registro que faz intervir o Outro para além daquele que demanda, e é exatamente isso que perverte profundamente o sistema da demanda e da resposta a demanda. (Lacan, 1999, p. 93).
Aqui, já é possível ver o envolvimento psicológico e a expressão do riso perante o social. A proposição psicanalítica sobre o tema é interessante porque permite entender que o riso expressa, desde o início, o alívio de uma tensão, resultante da realização de um desejo, mas esse desejo só é realizado no momento em que há a conformação em ser deformado e expressado indiretamente.
(...) o chiste é um triunfo público do sujeito do inconsciente em relação ao recalcamento, o qual fica suspenso por alguns segundos. Diferente das outras formações do inconsciente (atos falhos, sonhos, sintomas), que são privativas do sujeito, o chiste é partilhado socialmente, é a única expressão social do sujeito do inconsciente. Sem mencionar o momento de relaxamento e enorme prazer que o chiste provoca em todos; um prazer compartilhado pelo riso e pelo alívio das tensões por parte de quem faz e de quem ouve e entende. (Longo, 2006, p. 29).
Novamente, o chiste não recebe ênfase com a citação feita. A ênfase está no recorte feito ao demonstrar o alívio de tensão, a defesa de si no enfrentamento de uma possível ameaça, a busca de liberdade. O chiste, o cômico e o humor, apesar de suas diferenças, objetivam a mesma coisa: o prazer e, consequentemente, o riso.
Pela compreensão cognitiva sobre a fundamentação do riso, estabelece-se que o riso é a resposta possível ao receber uma mensagem e se preparar para uma possível resolução. Além disso, é também uma resposta ao ser surpreendido, obter uma nova perspectiva sobre o tema em questão e, acima de tudo, entender que alcançou uma nova possibilidade. Tudo isso ocorre de forma muito rápida, quase simultânea, libera dopamina, gera prazer e o riso ocorre:
(...) substâncias químicas inundam o cérebro, resultando em alegria, riso ou ambos. Embora muitas pessoas pensem que o cérebro seja como uma máquina elétrica, isso é um equívoco (...) A dopamina, o neurotransmissor mais intimamente ligado ao humor, é muitas vezes considerada como a ‘recompensa química’ do cérebro. É por isso que ela também foi associada com a aprendizagem motivada, a memória e até mesmo a atenção. (Weems, 2016, p. 18).
O riso muitas vezes é a resposta possível porque, com a surpresa, as emoções e as ordens cognitivas entram em uma espécie de conflito que necessita de uma resposta rápida e apaziguadora, daí o fato de as pessoas rirem em momentos normalmente considerados inadequados, como quando estão sob pressão ou confusas. Aparentemente pode parecer desmerecimento em relação à problemática que deve ser tratada, mas o mecanismo funciona de forma imperceptível. Quando estudado pelo prisma da dinâmica psicológica, o riso mostra-se como a expressão de conflitos internos influenciados pelo mundo externo, e que buscam gerar prazer do próprio conflito do aparelho psíquico. As informações e os objetos de investimentos precisam ser organizados, porque influem sobre o psiquismo e este, por sua vez, constitui-se diante do que é posto no jogo de relações e trocas, buscando a autopreservação, o bem-estar, o prazer.
As expressões do riso no social
Durante toda a história, o riso foi usado como ferramenta de união ou exclusão: as festas pagãs para puro divertimento, os carnavais, as festas religiosas, a Igreja, os reis, os políticos, o povo em geral, os comediantes, a televisão, os céticos, os ateus, os filósofos e pensadores, as guerras e suas desgraças, a mazelas sociais, os protesto políticos, os avanços sociais e tantos outros eventos sofreram com o riso ou o empregaram a seu favor. O fato é que nada e nem ninguém escapou do riso, em qualquer de suas atribuições. O riso tem a característica peculiar de poder servir a quem quer seja e seja para que fim for, ele mascara e desmascara, defende e ataca, é maleável e versátil, destitui normas, mas também as reafirma, em um momento é objeto de admiração, mas no momento seguinte é objeto de críticas. O riso sempre foi tendência.
Enveredar-se pelos pensamentos do que pode ser o riso certamente não é algo novo, por isso, com perspectiva histórica sobre o riso, Minois (2003) parte da Grécia Antiga e explana o riso desde os mitos das obras literárias, passa também pelos romanos, pela Idade Média, pela Renascença, pelo Romantismo europeu, pelo período das guerras mundiais, até a entrada no século XXI e suas novas tecnologias. Já na sociedade grega, o riso teve diversas perspectivas. É sabido que desde a Grécia Antiga - com seus mitos sobre os deuses e seu riso escarnecedor e, posteriormente, o riso dado aos homens - o riso é motivo de discussão. Portanto, há muito tempo o tema é carregado de interpretações contrárias e concepções diferentes de como, onde e quando deve ser usado, se deve ser comedido ou desmedido, se é expressão de loucura ou sanidade, se é bom ou mau, se é natural ou sobrenatural, se é divino ou diabólico. O riso carrega ambiguidade em toda a sua amplitude. Mas como saber qual a suposta modalidade de riso empregada em cada situação específica ou até mesmo em nosso cotidiano?
Ao considerar que o riso pode ser a expressão de agressividade, é possível fazer um recorte do que é tratado em O mal-estar na civilização, por Freud (1996c): o ônus adquirido pelo desenvolvimento da civilização é a anulação de nossas possibilidades de satisfação. Então, devido ao desconforto gerado por tais renúncias surge a necessidade de criar, inventar, desenvolver, pintar, se expressar e sublimar, ou seja, aquilo que não é permitido escoar livremente é aplicado de forma indireta, caso contrário, ocorre frustração e adoecimento. Isso quer dizer que a civilização avança quanto à segurança e à colaboração mútua, mas inibe a libido em sua forma mais essencial, aquela que ama e que também destrói. É um jogo de equilíbrio constante, amar e ser amado são coisas importantes, mas de certa forma ser agressivo também é importante. A parte destrutiva e agressiva não é aceita socialmente, a sociedade também tem seu superego e suas leis, sua vigília sobre si mesma.
Ainda sob a perspectiva do autor, Freud (1996a, p. 105-106) explica que o que dificulta a obscenidade de ser concretizada é a repressão. Tal repressão é instaurada pela sociedade, principalmente as mais civilizadas e educadas, e isso altera a organização psíquica e pode ser herdado. Algo que era tido como aceitável torna-se inaceitável à medida que a civilização avança e novas questões são colocadas em jogo, mas é sobre a tensão que a mesma repressão propicia que a subversão aja, onde o desejo buscará ser aceito e realizado.
Ao ser aceito socialmente, um dito obsceno provoca o riso. Graças às técnicas, ou aos métodos empregados, cria-se um envoltório em palavras sobre o conteúdo que quer ser expresso e consegue-se alcançar algum conteúdo recalcado, isto é, um rastro de pensamento é dado ao ouvinte e este, por sua vez, completa a pista buscando algo recalcado e que não é permitido ser falado. Aqui, o obsceno ou o agressivo não é empregado diretamente, não é referido explicitamente, mas é permitido que emerja de forma indireta. É importante salientar também que, através do relaxamento e da diminuição da atividade crítica, bem como do ambiente e do contexto, o conteúdo socialmente reprovado consegue provocar o riso.
As obras e citações aqui referidas a Freud baseiam-se no entendimento de que há marcadamente a temática do constante conflito entre a pulsão de vida (proliferação da libido) e pulsão de morte (cessação da libido), prazer e desprazer, alegria e sofrimento, individualidade e coletividade, inibição individual e inibição coletiva, poder fazer e não poder fazer... tudo isso ocorre no campo social e envolve o psiquismo que se desenvolve em constante conflito. Trata-se da busca incessante pelo equilíbrio.
Ao dedicar-se a um artigo sobre o humor, Freud acaba por ratificar sua obra sobre os chistes, de 1905, e escreve anos depois:
Como os chistes e o cômico, o humor tem algo de libertador a seu respeito, mas possui também qualquer coisa de grandeza e elevação, que faltam às duas outras maneiras de obter prazer da atividade intelectual. Essa grandeza reside claramente no triunfo do narcisismo, na afirmação vitoriosa da invulnerabilidade do ego. O ego se recusa a ser afligido pelas provocações da realidade, a permitir que seja compelido a sofrer. Insiste em que não pode ser afetado pelos traumas do mundo externo; demonstra, na verdade, que esses traumas para ele não passam de ocasiões para obter prazer. Esse último aspecto constitui um elemento inteiramente essencial do humor. (...) O humor não é resignado, mas rebelde. Significa não apenas o triunfo do ego, mas também o do princípio do prazer, que pode aqui afirmar-se contra a crueldade das circunstâncias reais. (Freud, 1996b, p. 170).
Ora, se o humor está submetido ao prazer narcisista do ego em oposição à renúncia libidinal exigida em favor dos objetos externos e ao superego, inclusive aquele que rege o social, o riso expressado por esse humor pode ser sinal de triunfo ou até mesmo de resistência - que pode ser julgada como boa ou ruim. O equilíbrio consiste em, às vezes, triunfar sobre as imposições sociais, mas também, às vezes, ceder ao que é imposto socialmente.
Em referência ao humor e ao superego, já ao final do artigo, o autor complementa:
Com respeito a outros assuntos, conhecemos o superego como um senhor severo. Dir-se-á que não combina bem com tal caráter o fato de o superego condescender em capacitar o ego a obter uma pequena produção de prazer. É verdade que o prazer humorístico jamais alcança a intensidade do prazer do cômico ou dos chistes, que jamais encontra vazão no riso cordial. Também é verdade que ocasionando a atitude humorística, o superego está realmente repudiando a realidade e servindo a uma ilusão. Entretanto (sem saber exatamente por quê) encaramos esse prazer menos intenso como possuindo um caráter de valor muito alto; sentimos que ele é especialmente liberador e enobrecedor. Além disso, a pilhéria feita por humor não é o essencial. Ela tem apenas o valor de algo preliminar. O principal é a intenção de humor que transmite, esteja agindo em relação quer ao eu quer às outras pessoas. Significa: ‘Olhem! Aqui está o mundo, que parece tão perigoso! Não passa de um jogo de crianças, digno apenas de que sobre ele se faça uma pilhéria! (Freud, 1996b, p. 173).
É importante ressaltar que evidentemente essa forma de triunfo serve a qualquer um, independentemente da posição ocupada na sociedade, visto que a agressividade, a defesa, a resistência, e mais, as formas de rir e se fazer rir estão para todos, salvo casos de acometimento mentais específicos ou condições psíquicas também específicas. Entende-se também que a questão ética da sociedade é transgredida e que a culpa, derivada da realização de um desejo, está sempre em jogo.
Ao permanecer na Psicanálise, porém, numa perspectiva mais notadamente linguística - o que não quer dizer que Freud não se orientava por essa via - que entende o “inconsciente estruturado como uma linguagem”, uma noção empregada por Lacan, vêse a necessidade de introduzir o entendimento de como a linguagem, apoiada na cadeia significante, permite a constituição do sujeito e de sua subjetividade, de seu discurso, de sua forma de apreender aquilo que o precede e o cerca e entender como se coloca diante do Outro e diante de si a partir do Outro:
A propósito das questões relativas à linguagem, à subjetividade e ao discurso, a linguagem que se realiza dentro de uma língua é aprendida e coextensiva à aquisição que o homem faz do mundo e da inteligência. A língua é que vai fornecer o instrumento de um discurso, no qual a personalidade do sujeito se libera e se cria para, então, atingir o outro. É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito; a subjetividade e a consciência de si só podem ser atingidas por contraste, ou seja, o eu diante de um tu, falando de um terceiro elemento, ele (pessoa ou assunto). A linguagem é a única possibilidade de subjetividade. (Longo, 2006, p. 51-52).
A linguagem é aquilo que precede o homem e onde ele é inserido ao nascer e na qual pode investir sua libido; e também onde apreende os valores e as leis. Essa linguagem é referida ao Outro, que está para além de qualquer pessoa, de qualquer verdade ou certeza, logo, que permite apenas inferências e suposições. A linguagem é essencialmente vazada, por isso permite ambiguidades, sentidos diversos e, com ela, cada um constrói seu discurso (consciente), sua forma de se colocar nas relações e sua subjetividade, que é particular, que é do sujeito, que é inconsciente. Aquilo que está para um, não está para o outro.
É possível que aqui possa ser encontrada a resposta para as perguntas apresentadas no início do presente trabalho: por que rimos das coisas que rimos? Por que as pessoas riem de coisas diferentes? Por que algumas expressões de riso podem ser julgadas como inadequadas às situações em que se apresentam? A linguagem é simbólica, vazada e nos permite dar sentidos, nada é exato em si. O sujeito da Psicanálise está sob os significantes, que usam de metáfora e metonímia, ou seja, os significantes se substituem e os objetos se deslocam entre si, geram sentidos e passam de um objeto ao outro em deslocamento contínuo, permitindo inferências ilusórias e dirigindo-se ao Outro a fim de satisfazer desejos. Se não há fixação entre significante e significado, a produção linguística é interminável e permite que diferentes objetos de investimentos psíquicos sejam apreendidos das formas mais distintas.
Lacan (1999) explica que a relação do desejo com o Outro é complexa, pois o Outro se constitui por inibições e censura: existe um filtro daquilo que pode ou não ser falado ou ouvido, mas o dito cômico ou espirituoso busca resgatar esse algo proibido de alguma forma e usa da própria estrutura que a censura lhe propõe e da metáfora com suas cristalizações imaginárias. O Outro é principalmente um lugar simbólico e está além do individual, é imortal e comunga de concordância cultural, mas não é conhecido em si. A imagem do outro, semelhante - por exemplo - é carregada de tensão psíquica, portanto, observada em ambiguidade, conotada de desejo amoroso ou hostil, sobre quem também o desejo se realiza. Essa realização do desejo é alcançada se o desejo for deformado diante do Outro, através da linguagem, que é simbólica e permite que o prazer seja alcançado ao superar a censura instaurada para além de qualquer um. O riso mostra-se como a expressão da realização de um desejo. A que objeto o desejo se direciona e como se direciona é totalmente particular, embora a vigia do Outro seja constante.
Situações diferentes permitem compreensões momentâneas e fenomenológicas diferentes, envolvem contextos e expectativas sobre como pensar, agir ou falar, são imposições que estão além de qualquer um, mas que não necessariamente serão obedecidas.
O riso apresentado pode receber qualquer atribuição, porque o surgir da ambiguidade também é percebido em ambiguidade: agressivo, empático, amoroso, concordante, discordante, expressão de superioridade, puro e simples alivio de tensão, triste, o riso pelo riso. É realmente difícil apontar precisamente o riso, uma vez que ele afirma uma construção psíquica, ou mental, particular. Se realmente “o riso é próprio do homem”, como teria afirmado Aristóteles, deve ser porque todas essas formas de capacidades psíquicas, numa escala da mais amorosa para a mais agressiva, são próprias do homem, que se difere dos outros animais, sobretudo, pela capacidade de simbolizar. No campo do simbólico é possível colocar-se em concordância ou discordância com o Outro, mesmo que encarnado em um corpo humano; é possível criar, inovar; ou ainda ver-se fora de si e rir de si mesmo. De qualquer forma, para que o desejo seja realizado sobre um objeto, buscase por intermediários na fala, busca-se não ser direto. Caso proceda de forma direta, terá como resposta a recusa do Outro.
Através da perspectiva cognitiva e neurocientífica sobre o tema, Weems (2016) explica o riso enfatizando conteúdos humorísticos. O cérebro aprecia o caos e pensamentos conflitantes e isso permite às pessoas criar hipóteses e antecipar situações na busca de resoluções. O humor cultiva pensamentos e emoções conflitantes - positivas e negativas - porque sem o conflito não surge a tensão - tão complexa - que permite ao ouvinte sair de seu conforto e logo após obter um novo entendimento cognitivo e emocional sobre o tema tratado em um conteúdo humorístico.
O humor é um fenômeno social e exige que aconteça comunicação entre aquele que fala e aquele que ouve. Nessa comunicação os conflitos cognitivos e emocionais emergem; além disso, o não dito também é importante, logo, é comunicado muito mais que palavras. A forma como as coisas são ditas, e, quando são ditas, o que é deixado como uma lacuna são o que pode inferir diferentes desfechos e significados. As pessoas precisam estar conectadas para construir relações, criar expectativas baseadas no que está posto e, em seguida, quebrá-las, revelando o significado pretendido.
Apesar de essa forma de ver o humor e o riso ter suas particularidades, conceitos e algumas determinações próprias, não é tão diferente das perspectivas mostradas anteriormente quando é afirmado que:
A ideia de sair fora das regras normais de humor é importante, porque mostra como os comediantes nem sempre falam literalmente. Quando ouvimos uma piada, construímos certas expectativas, apenas para tê-las violadas para fins de entretenimento. Esta violação controlada permite aos comediantes que falem indiretamente, transmitindo mensagens que talvez não sejam apropriadas se o tema fosse abordado de frente. (Weems, 2016, p. 179).
O humor é criativo e tem um valor, ou seja, é visto como atraente em sua forma de beleza ou utilidade. Muitos não conseguem identificar o que é criativo, isso depende da subjetividade de cada um. Entretanto, é fato que o humor faz com que se depare com os valores mais enraizados; além de, é claro, fornecer informações sobre quem faz uma piada. A questão é se as visões sobre o humor e o riso ficam no campo mais aparente ou um pouco mais aprofundado. Aquele que está convencido de suas faculdades cognitivas e emocionais a despeito de quase qualquer coisa não rirá mesmo!
O entendimento cognitivo sobre o riso em relação ao social permite compreender que o cérebro trabalha o tempo todo com a percepção, a atenção e a memória, capta informações, entende processos, analisa e alcança resultados e os apreende. Todas essas informações que chegam ao cérebro provêm de todos os tipos de contatos possíveis com um interlocutor, quando então se aprendem normas, diretrizes, valores, conceitos e concepções de uma pessoa, de um grupo ou de uma nação. Essas normas presumem condutas, mas o humor não tem por objetivo ser conivente. Aquilo que é percebido em tensão, em curiosidade, em questionamento será testado. O autor ainda esclarece:
Por que o humor foi tratado tão duramente ao longo da história? Uma razão é que o humor é inerentemente subversivo. Algumas piadas são inócuas, com temas como galinhas cruzando ruas e elefantes escondidos em cerejeiras, mas a maior parte do humor não é assim. Ele trata assuntos sérios com frivolidade e, às vezes, com rudeza e desconsideração também. (Weems, 2016, p. 62).
Até aqui, percebe-se que o riso, ao ser observado no campo social, causa desconsertos, mas isso, de certa forma, é sabido há muito tempo. Não há exatamente negligência por parte de quem quer que seja ao não buscar entender o que é o riso. As risadas são tão comuns que passam despercebidas cotidianamente, são tão comuns quanto qualquer forma de comunicação e, quando são objeto de entendimento, mostram-se fluidas.
As teorias filosóficas do riso esclarecem aspectos variados e complementares desse comportamento, mas nenhuma consegue, realmente, captar-lhe o sentido geral, porque a palavra “riso” abrange realidades extremamente diversas ou contraditórias. O riso não existe: é uma ilusão. Há os risos, cujo ponto comum é apenas uma manifestação psíquica que, é claro, pode traduzir toda uma variedade de sentimentos, ideias e vontades. (Minois, 2003, p. 528).
Ainda em Minois (2003, p. 593627), há um ponto de vista interessante sobre o riso do século XXI. O riso é total, os meios de comunicação aderem ao riso, o comercializam e disseminam a arte de fazer rir. As próprias autoridades entendem que se permanecerem sérias serão engolidas e é preciso ter bom humor. Aqueles que não têm são presa fácil.
O riso da sociedade de consumo pode ser entendido como sinônimo de prosperidade social e econômica. Nunca se fez tantas festas sem motivo algum. Riso é igual felicidade, que é igual a bem-estar, que é igual a gasto. A proliferação de festas faz pensar que está tudo sob controle, porque permite ao homem não pensar nos problemas cotidianos e, mais além, na angústia da existência humana. É semelhante ao entendimento de Freud em Humor e O mal-estar na civilização, o objetivo é superar a barreira social e o desprazer que dela é originado; mas o homem se entorpece de riso, assim como de álcool e drogas, entrando numa ilusão de vida ideal festiva:
A vontade de reencontrar a festa arcaica é evidente no uso das máscaras, dos disfarces, das fantasias, das pinturas corporais, mas também na desestruturação do pensamento, na eliminação de fronteiras entre o real e o irreal, pelo comportamento alucinatório; daí a importância do álcool e, cada vez mais, da droga. Uma festa sem álcool é inconcebível, pois ele favorece a explosão do eu, literalmente, que se dissolve na totalidade da multidão gregária, na ‘comunhão’ do ser coletivo: multidões em delírio nos estádios, manifestações, procissões e cortejos que se alimentam de ruídos e de slogans mágicos, revoluções, concertos de rock ou de tecno. (Minois, 2003, p. 603-604).
E, mais a frente, complementa:
E o riso, em tudo isso? Ele está simplesmente ameaçado de morte, enquanto é visto triunfante. A menos que ainda chamemos ‘riso’ aos clamores e vociferações das multidões e tiques nervosos de indivíduos mergulhados num segundo estado. Por outro lado, do que se riria? Se não há mais diferença entre o sonho e a realidade, se a normalidade desapareceu, do que se poderia rir ainda? O riso baseia-se num deslocamento: se tudo é risível, o riso perde sua força. (Minois, 2003, p. 605).
O século XXI é midiático e propaga o efêmero e a moda, não há referências fixas para ser o alvo do riso. Rir de tudo, aqui, pode ser rir de nada; se tudo é risível, nada é risível. É uma questão interessante de uma possível perda de valor, mas parece que ainda há sempre quem tome algum objeto como sagrado e o outro que tome o mesmo objeto como profano.
Dos tempos mais antigos aos mais atuais, encaixadas em seus contextos históricos e sociais “as técnicas variaram, mas sempre rimos para zombar de nós, para acalmar nosso medo, para manifestar nossa simpatia, para reforçar nossos vínculos e para excluir.” (Minois, 2003, p. 629). Essas são as compreensões mais gerais sobre o riso, nas abordagens mais variadas, ou seja, mesmo que as formas de explicar o tema partam de concepções distintas e usem conceitos diferentes, é possível que haja um espectro delimitado e o riso se desdobre daí. Todavia, por ser admissível como uma transição e carregado de um empreendimento psíquico além do visível pode ser qualquer coisa: da simples felicidade à liberdade, ou da tensão ao reconhecimento de uma realidade assustadora e a tentativa de fugir dela.
Em geral, mesmo as teorias e os estudos mais atuais sobre o riso debruçam-se sobre compreensões filosóficas de séculos anteriores ao surgimento de ciências que atualmente acrescentam conhecimentos sobre o tema. Trata-se mais de agregar conhecimentos que colocá-los em lados opostos.
Considerações finais
O objetivo do presente artigo foi elucidar o riso e seus mecanismos fundamentais, visto que sua presença pode causar desconsertos e situações conflitantes. O riso expressa uma força psíquica ou mental que se direciona a um objeto com uma finalidade, como qualquer outra forma de expressão de forças psíquicas: seja um beijo, um elogio, um insulto ou um soco. Inclusive, uma risada muitas vezes substitui essas formas de expressão, e muitas outras. A questão pode ser se é preferível ser agredido fisicamente ou ser motivo de riso.
Ao admitir ambiguidade, o riso pode ser tudo e pode ser nada, é indefinível em verdade. Isso não é novidade, basta buscar por ampliar a visão sobre o tema. Mesmo o riso que decorre de um insulto feito sobre alguém, admitindo ser possível como expressão de tentativa de superioridade e de agressão, é a expressão de algo próprio do homem em troca constante com o meio social: buscar, entre tantas coisas, sentir-se elevado em relação ao semelhante ou a si mesmo. Novamente, faz-se necessário salientar que não foram consideradas posições sociais, ou quem faz uma piada e ri; quem ouve a piada e ri; ou sobre quem se faz uma piada e não ri - ou ri. O riso está para todos, assim como as ofensas e os elogios e, de certa forma, todos podem atacar e se defender. Trata-se de uma disposição natural do homem, e imaginar que o pacto de paz firmado pelo laço social será sempre respeitado religiosamente induz ao engodo.
Tal engodo eventualmente pode ser percebido nas questões sobre os motivos de as pessoas rirem de coisas diferentes e muitas vezes não entenderem o riso do outro. A certeza de que as pautas tratadas em uma simples conversa devem ser entendidas de uma determinada forma por todos revela uma ilusão. A forma de apreensão do que cerca o sujeito é particular, cada pessoa tem seu aparato mental e suas disposições psíquicas, seus conflitos internos, suas crenças, suas dúvidas e suas certezas, porque cada sujeito se constitui por sua experiência psíquica. O que é instituído socialmente pode velar algo que não quer que seja tratado e fazer pressão sobre o sujeito, mas este nem sempre está em consonância com o que é exigido, nem sempre cede, nem sempre tem o mesmo entendimento, nem sempre se limita a uma visão sobre o assunto tratado e capta diferentes atribuições permitidas na fluidez daquilo que é comunicado. Tratase da suposta comunhão social que determina entendimentos, mas ignora a individualidade e o papel representativo e simbólico no próprio campo social. O riso ocorre da derivação de prazer das próprias capacidades mentais e psíquicas, pois acontece quando o sujeito percebe que pode ser levado a uma perspectiva que escapa ao comum.
Como cada um faz uso do riso, como o expressa, como e por que o guarda ou o liberta muitas vezes foge do entendimento da própria pessoa. Isso não é uma justificativa para poder rir de tudo; é, ao contrário, uma possível explicação de por que tudo pode ser motivo de riso. Supostamente, todos sabem que o riso expressa alguma coisa e, talvez, não saber exatamente o que é e só poder supor é o que causa o desconforto consciente. A falha estruturante da linguagem apenas permite suposições, mas não certezas. Dificilmente alguém quer ser alvo de zombaria, mas quem garante que o riso dirigido a esse alguém é zombeteiro? As concepções sobre o riso continuarão a ser criadas, mas o riso em si não mudou, ainda aparece como inexato e flutuante.
O riso visto na superfície das relações, passível de más e boas interpretações, é a expressão de algo além, de um envolvimento psíquico ou mental que - isso sim! - é difícil definir. O riso torna-se complicado em definição por refletir a complexidade do psiquismo. É realmente interessante que se aprecie o tema como uma forma de comunicação e estabelecimento ou quebra de laços com o social. Em contrapartida, se ao final deste trabalho uma atribuição menos incerta pode ser dada, independentemente de interpretação, época, local ou qualquer coisa a que esteja relacionado, o riso manifesta-se, desde sempre, como superação.













