Introdução
Por vezes nos deparamos com grandes histórias, daquelas que inspiram e, mais importante, nos levam a refletir acerca do modo como nós mesmos enxergamos o mundo e atuamos nele. A história de Nise da Silveira integra este grupo e revela como a ciência aliada ao senso ético, à empatia e à transgressão pode transformar a realidade de pessoas marginalizadas, gerar conhecimento e contribuir para a melhoria de certas práticas, ciências e processos.
Nise da Silveira (1905-1999) foi uma psiquiatra alagoana que atuou por décadas no Hospital Nacional Pedro II entre a década de 1940 e 1980 e que, mesmo após ser aposentada compulsoriamente, retornou ao trabalho como voluntária. Esses anos foram dedicados aos cuidados de internos diagnosticados com esquizofrenia e que sofriam as intolerâncias e violências do frio ambiente hospitalar.
Nise abriu as portas para novos modos de atuação clínica ao considerar que era somente aprendendo a falar na língua do cliente que novas metodologias poderiam ser descobertas. Metodologias estas mais respeitosas à condição de ser vivente do cliente e que se traduziram através do uso da expressão artística e da Interação Humano-Animal enquanto facilitadoras do tratamento.
Para Nise, somente o contato direto com o cliente era capaz de revelar o que se passava no mundo daquela pessoa (Mello, 2014) e, portanto, era necessário desconsiderar os manuais de psiquiatria e demais teorias, inicialmente, a fim de compreender o fenômeno da esquizofrenia e ajudar o cliente a construir um caminho terapêutico. Esta postura criativa e de abertura demonstrada por Nise foi o que chamou a atenção dos autores deste artigo e nos levou a ver que sua trajetória poderia ter pontos de conversa com a Psicologia Clínica Fenomenológica, considerando especialmente sua postura apriorística. Portanto, o ponto de partida da pesquisa de dissertação Uma Fenomenologia das Intervenções Clínicas com Arte e Interação Humano-Animal em Nise da Silveira (SILVA, 2020), a qual gerou este artigo, é a investigação de como as intervenções clínicas de Nise, através da expressão artística e das interações humano-animal poderiam contribuir para a Psicologia Clínica Fenomenológica no mundo-da-vida1 contemporâneo. Para tal, iniciamos com um breve histórico de Nise, passando pela discussão sobre expressão artística e interação humano-animal, chegando às reflexões acerca do exercício clínico. Este artigo se dedica a apresentar o modo Nise da Silveira de realizar tais transformações e, enquanto pesquisadores e psicólogos de orientação fenomenológica, refletir como tal interlocução pode ser feita com a Psicologia Clínica Fenomenológica.
Metodologia
Este estudo foi elaborado enquanto uma pesquisa qualitativo-bibliográfica orientada pelo método fenomenológico. Para tal, foram selecionadas como obras base: Imagens do Inconsciente (2015) e O Mundo das Imagens (2001), de autoria de Nise da Silveira, Nise da Silveira (2001), de Walter Melo, Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde (2014), de Luiz Carlos Mello, Ideias para uma Fenomenologia Pura e para uma Filosofia Fenomenológica (1913/2006) e A Crise da Ciências Européias e a Fenomenologia Transcendental (1936/2012), de Edmund Husserl.
O método fenomenológico tem como conceitos principais “fenômeno”, “consciência” e “intencionalidade”, elucidando que fenômeno é tudo aquilo que se revela para a consciência, a qual se caracteriza sempre por um movimento intencional em direção ao objeto (Husserl, 1913/2006). Deste modo, a relação do sujeito com o mundo é sempre pautada sobre este movimento intencional, significando que sujeito e objeto estão sempre em relação, nunca apartados.
A investigação científica dentro da perspectiva fenomenológica, portanto, busca a essência do fenômeno, apreendida pelo sujeito2 no movimento da sua consciência intencional (Husserl, 1913/2006). E, para chegar até tal essência (ou essências), utiliza-se algumas etapas, como seguem.
Na epoché, ocorre a suspensão de todos os a priori, de tudo aquilo que o pesquisador pensa saber, a fim de conseguir se colocar em contato com o fenômeno tal qual ele se mostra. E, a seguir, tem-se a redução fenomenológica ou eidética, na qual o pesquisador entra contato direto e imediato com o fenômeno puro e pode nele apreender suas essências, ou seja, ele se dirige a reconduzir àquilo que é invariável no fenômeno que é objeto de análise, a fim de captar a essência daquilo que se mostra, ou seja, sua estrutura invariante (Husserl, 1913/2006; Goto, 2008).
Por último está a redução transcendental, na qual se volta para o ego transcendental e as vivências do sujeito, considerados os sentidos que este doa ao fenômeno. Este é o ponto de partida de Husserl: o sujeito que busca sentido O ego transcendental é a consciência do sujeito depurada até a sua essência, de forma que é assim ele possa realizar a redução última, capaz de compreender a relação sujeito-objeto em seu sentido. O ego transcendental é o próprio sujeito que se dirige intencionalmente às coisas e ao mundo, e ao fazer isso, realiza diferentes atos intencionais. Considerando isto, para a fenomenologia, todo o conhecimento científico deve se fundar sobre as vivências dos sujeitos no mundo (Ales Bello, 2006; Husserl, 1913/2006).
O ego transcendental é aquele que realiza atos. Reflete, percebe, escolhe e toma decisões dirigidas sempre ao mundo-da-vida. É aquele capaz de refletir e se dar conta de que realiza atos.
É importante destacar que a divisão de tais etapas se faz para fins didáticos, visando uma melhor compreensão do método para o leitor. Contudo, elas são realizadas a todo momento ao mesmo tempo ou não, dadas as complexas características da consciência intencional e seus vividos intencionais.
Ademais, a atitude construída com base neste método faz uma crítica à naturalização da vida através das ciências que olham para os fenômenos como fatos, tal como apontado por Husserl (2009), como poderá ficar mais claro a seguir com o delineamento do estudo realizado neste artigo.
Nise da Silveira
Nise da Silveira nasceu em Maceió, Alagoas, em 15 de agosto de 1905 e cresceu em um ambiente rico em cultura e conhecimento. Ali conheceu as obras do filósofo Baruch Spinoza (1632-1677), bem como as do escritor Machado de Assis (1839-1908), autores que exerceram grande influência sobre o pensamento e atuação profissional da futura médica (Silveira citado em Leal, 1994)3.
Estudou medicina na Faculdade de Medicina da Bahia, sendo a única mulher de sua turma. Alguns anos depois se mudou para o Rio de Janeiro e se tornou psiquiatra do Hospital da Praia Vermelha, onde notou que era no contato direto com essas pessoas com esquizofrenia que se poderia aprender a compreendê-las (Mello, 2014).
Em 1936, durante a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, Nise foi presa, acusada de envolvimento com o comunismo, retornando ao trabalho somente oito anos depois, no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no bairro Engenho de Dentro. Em seu retorno recusou-se a aderir às novas técnicas que haviam emergido na Psiquiatria, tais como: o coma insulínico, a lobotomia e o eletrochoque (Mello, 2014; Lima & Silva, 2014). E desta forma foi encaminhada para o Setor de Terapia Ocupacional (STOR), no qual os internos realizavam atividades relacionadas com a economia doméstica do hospital, e que não contribuíam de fato para o seu tratamento clínico (Castro & Lima, 2007; Oliveira, 2012).
Neste setor, Nise realizou suas grandes contribuições para a Psicologia e a Psiquiatria, criando oficinas, como de encadernação, costura, teatro, e outras dentre as quais foram as oficinas de pintura e modelagem que apresentaram grande interesse científico para Nise, bem como foram as de maior destaque (Silveira, 2015).
O volume e relevância das obras a levaram a criar, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente - MIC, no qual constam 352 mil obras4 produzidas pelos clientes que estiveram em tratamento no ateliê ao longo dessas últimas décadas, como Fernando Diniz, Adelina Gomes, Emygdio de Barros, Raphael Domingues, Carlos Pertuis e Lúcio Noeman (Mello, 2014). E, em 1956, fundou a Casa das Palmeiras, com o objetivo de proporcionar uma proposta clínica na qual os sujeitos com esquizofrenia possuíssem liberdade para ir e vir, e onde reinasse entre eles e a equipe profissional uma relação afetuosa e não-hierárquica .
Contudo, o diferencial das intervenções clínicas de Nise da Silveira se firmou também na atuação dos animais enquanto facilitadores terapêuticos dado a sua condição de serem afetos catalisadores (Silveira, 2015), fazendo dela a primeira profissional no Brasil a integrar os animais à terapia de modo a respeitar a relação que os clientes possuíam com eles.
Os diversos aspectos revelam características ímpares, como a afirmação de que o contato direto com os clientes era o que de fato revelava a realidade da esquizofrenia, apresenta, em Nise, um movimento de suspensão das teorias para entrar em contato com o fenômeno da esquizofrenia tal qual ele aparecia, abrindo mão de qualquer explicação científico natural da doença. Isto em muito se assemelha à epoché fenomenológica, explicitada em Husserl (1913/2006). Ao mesmo tempo, o movimento de respeito demonstrado por Nise em relação aos seus clientes, também contribui para demonstrar uma postura de abertura ao outro, bem como aos diferentes campos do saber que contribuíram para sua prática.
E começará aqui a ser delineada discutindo de que modo a expressão artística foi um dos principais caminhos para o acesso ao mundo dos clientes do ateliê.
A expressão artística no ateliê de pintura e modelagem
Métodos como a lobotomia5 e a eletroconvulsoterapia6, surgiram baseados na concepção anátomocausal de que a cura das doenças surgiria da manipulação das partes do corpo. Contudo, Nise coloca que esses métodos, além de agressivos, possuíam eficácia contestável, dado que ela não percebia a cura real dos pacientes (Silveira, 2001). Ademais, tais métodos desconsideravam a humanidade dos clientes (Magaldi, 2018), infligindo a eles sofrimentos que levantam uma discussão sobre a visão dualista de sujeito/objeto na ciência moderna, uma das bases sobre a qual fenomenologia husserliana se constrói.
Husserl (1936/2012) afirmou que a ciência se naturalizou, tornou-se uma ciência de fatos, admitindo somente aquilo que é verificável objetivamente e, assim, instituindo um conjunto de idealidades como conhecimento verdadeiro. Ao apartar o sujeito do objeto, a ciência ignora a subjetividade e parte do pressuposto de que tudo pode ser explicado à parte de estruturas lógico-causais. Tal tecnicização científica colaborou para injustiças e violências em nossos tempos, do mesmo modo que, no Hospital Pedro II, os internos eram vistos como meros objetos e submetidos a tratamentos desumanizantes.
Na contramão, Nise implantou um modelo ético que considerava a humanidade do cliente, reconhecendo este como um sujeito, não como um objeto, e considerando aquilo que este sujeito apresentava sobre sua própria condição e seu mundo (Silveira, 2015).
Ela, por não partir de suposições sobre a superioridade do pensamento lógico-causal, conseguiu perceber que, se quisesse encontrar caminhos terapêuticos eficientes para aqueles sujeitos com esquizofrenia, ela precisaria buscar uma linguagem que eles conseguissem utilizar e a encontrou na expressão artística (Silveira, 2006, 2015).
Com a criação de um ateliê, as numerosas obras nascidas surpreenderam Nise, por conta da “intensa exaltação da criatividade imaginária” que muitos dos clientes do ateliê apresentavam, embora a maioria não houvesse pintado antes do surgimento da esquizofrenia e não apresentassem uma atividade tão enérgica fora dali, por conta do ambiente hospitalar hostil (Silveira, 2006, 2015, p. 15). Ali os clientes recebiam afeto, respeito e podiam expressar livremente aquilo que não conseguiam expressar verbalmente, o que, em Nise, era uma oportunidade para que as imagens do inconsciente pudessem surgir (Silveira citado em Leal, 1994; Silveira, 2015; Lima, Nogueira & Pereira, 2016).
Sua compreensão era apoiada sobre a Psicologia Analítica, na qual o inconsciente coletivo seria constituído por elementos ancestrais que aludem ao ser humano primitivo, perpassando a leitura de temas míticos e arquétipos presentes na psique humana, bem como sua expressão em símbolos. Assim, neste viés, expressar-se artisticamente é agir, é defender-se contra os conteúdos do inconsciente que invadem o consciente. Uma explicitação clara disto pode ser lida nas palavras de um dos clientes do ateliê, Fernando Diniz, o qual disse à Nise: “Mudei para o mundo das imagens [...]. As imagens tomam a alma da pessoa” (SilveirA, 2015, p. 15). É deste modo, então, que as obras seriam como símbolos, ajudando os clientes a estabelecerem a integração da sua psique.
Neste contexto, as mandalas, imagens circulares encontradas em diversas culturas ao redor do globo e que representariam a psique (Jung, 2000), mostraram-se recorrentes nas produções do ateliê que capturaram a atenção de Nise levando-a ao entendimento de que elas eram imagens arquetípicas reveladoras da tendência organizadora e auto-curativa inata da psique que, segundo Nise, seria potencializada através da expressão do sujeito e de relações afetivas (Silveira, 2006, 2015).
Ao mesmo tempo, muitas das produções plásticas eram abstratas, característica que, para Nise, representava o modo como o mundo externo era encarado pelo cliente, a saber, como um ambiente hostil e amedrontador (Silveira, 2006, 2015). Para ela, portanto, era natural que muitas pinturas abstratas surgissem no ateliê, especialmente considerando que aqueles sujeitos vivenciavam inumeráveis estados do ser - expressão que tomou emprestada de Antonin Artaud, artista francês e contemporâneo de Nise que sofreu com problemas de saúde mental e escreveu sobre isso (Silveira, 2015).
Através do estudo em série das obras, era possível à psiquiatra e pesquisadora, ter acesso a algo como uma imagem das vivências e sentidos do cliente no momento da pintura da obra, algo semelhante ao que
Merleau-Ponty (2013) afirma acerca do artista invocar uma razão que abarca suas próprias origens. E assim, Nise construía uma história do processo terapêutico dos clientes e fazia associações entre as temáticas que emergiam. Assim, apesar das constantes dificuldades enfrentadas pelos sujeitos com esquizofrenia, o aparecimento contínuo das mandalas e abstrações nessas séries era algo de grande relevância clínica (Silveira, 2015).
Ela defendia que o psiquiatra deveria acompanhar o momento da atividade artística dos clientes, vendo imediatamente as expressões em seus rostos, o movimento de suas mãos. E neste sentido, ela também discordava de uma outra afirmação de seus colegas: a de que o esquizofrênico fosse embotado afetivamente. Ora podemos pensar: como poderia alguém embotado afetivamente produzir arte tão genuína e expressiva como aquelas ali reveladas? Uma vez que ela observava como seus clientes criavam, não era possível afirmar que houvesse ali qualquer embotamento afetivo (Silveira, 2015).
Neste contexto, o afeto era reconhecido como fundamental para o processo terapêutico, sendo ele prévio à própria teoria. Segundo Nise, “o que melhora o atendimento é o contato afetivo de uma pessoa com outra. O que cura é a alegria, o que cura é a falta de preconceito” (“Nise da Silveira: uma mulher à frente do seu tempo”, 2014). À esta potencialidade afetiva, ela deu o nome de afeto catalisador, ressaltando a relação intersubjetiva como potencializadora do processo terapêutico (Silveira, 2015).
Esta temática, todavia, não se encerra somente no relacionamento humano-humano entre a equipe profissional do ateliê e os clientes, mas abarca também um outro tipo de relacionamento que se apresentava enquanto igualmente significativo, qual seja: a interação humano-animal (Melo, 2001; Silveira, 1998, 2015). Muito embora os animais não fossem bem-vindos nos demais ambientes do hospital, novamente a capacidade de observação de Nise, bem como seu movimento de suspensão das teorias, levaram-na a perceber que muitos de seus clientes se relacionavam de modo afetuoso com os animais, ao ponto de estes se tornarem integrantes ativos no tratamento e serem chamados de coterapeutas.
Os coterapeutas e considerações sobre a interação humano-animal
Quando Alfredo, um dos clientes do ateliê, apresentou significativas melhoras em seu quadro depois de se tornar tutor da cadela Caralâmpia, Nise testemunhou a diferença favorável da qual esta interação humanoanimal foi capaz de efetuar, Nise passou a dirigir os cuidados dos animais abandonados aos clientes do ateliê (Silveira citado em Camargo & Horta, 2009; Silveira citado em Gullar, 2009). Isto fez dela a primeira profissional em território brasileiro a utilizar a interação humano-animal como facilitadora terapêutica e fortalecedora de vínculos, liberdade e responsabilidade, como também se pode ver na história de Carlos Pertuis.
As comunicações verbais de Carlos eram ininteligíveis, porém, um dia comunicou-se de modo claro com um cão chamado Sultão e estabeleceu com este uma relação de cuidado e amizade. Contudo, quando Sultão foi morto alguns meses depois, Carlos se retraiu e só voltou a estabelecer outro vínculo dois anos depois, com o cão Sertanejo. Para Nise, o forte vínculo afetivo existente entre Carlos e estes animais, permitia que Carlos reintegrasse sua psique ao ponto de voltar a estabelecer comunicações racionais (Silveira, 2015). E, como ele, houve outros como Aberlado, que se mostrava agressivo nas enfermarias, porém cuidava zelosamente de cães e gatos abandonados no hospital, e Djanira, cuja única interação espontânea e inteligível notificada se deu com uma gatinha (Silveira, 2015).
De acordo com Brown (2007), muitos seres humanos se relacionam profunda e empaticamente com animais e, muito embora estas vivências sejam comumente ignoradas como mero sentimento, elas, na verdade, doam sentido às vidas dessas pessoas e as ajudam a elaborar suas vivências. No ambiente do Hospital Pedro II, contudo, em geral, assim como o não reconhecimento das contribuições da arte no processo terapêutico, o mesmo acontecia em relação à interação humano-animal (Silveira, 2015).
Como destaca Ribeiro (2011), o antropocentrismo tem dificultado a capacidade do ser humano de reconhecer os animais enquanto seres dignos de respeito e tem contribuído para a desconsideração de que eles estão sujeitos ao sofrimento tal qual os humanos. Em paralelo, Borba (2017) e Bastos e Borba (2018) afirmam que, apesar da natural origem comum entre seres humanos e animais, o distanciamento dos seres humanos em relação à natureza teve como um de seus resultados o estabelecimento de uma relação utilitária com os animais, nas quais estes são utilizados de modo instrumental pela racionalidade científica.
Esta mesma crítica à instrumentalização da natureza pode ser aqui referenciada à Husserl (1911/1965; 2009, 1936/2012), o qual dirigiu o rigor fenomenológico de análise à matematização da vida, da consciência e a objetificação do mundo por conta do avanço do naturalismo. Nesta perspectiva de objetificação, enquanto para a ciência moderna o mundo é tomado por partes, para Nise ele é uma unidade de todas as coisas (Melo, 2001). O ser humano está inserido em um mundo de ecossistemas interdependentes e também habita o reino animal.
No ateliê, os animais também estavam presentes em muitas das obras elaboradas, aparecendo enquanto relacionados à própria animalidade humana ou, como Nise mesma afirma, o animal é um reflexo da problemática “entre o homem que se esforça para firmar-se na condição humana, e o animal que existe nele próprio” (Silveira, 2015, p. 93).
Desenvolver uma relação não-objetificante com os animais significa também considerar que existe aí uma relação de intersubjetividade. Sanders (2003), Painter e Lotz (2007) e Ruonakoski (2007) concordam que essa perspectiva experienciada e unificada do mundo confere ao animal a posição de um outro. Em Bastos e Borba (2018), de modo consonante, toda manifestação anímica que é realizada por um outro ser revela que existe ali um outro. É concebendo o animal enquanto outro ser vivo detentor de emoções que o sujeito pode estabelecer com ele uma relação baseada no afeto e na ética.
De um ponto de vista fenomenológico, a interação humano-animal deve ser compreendida por meio dos sentidos das vivências dos sujeitos, dado que, como aponta Husserl (1931/2001a), tudo o que existe para o sujeito só pode extrair seu sentido existencial nele. Sanders (2003), por exemplo, coloca que é comum que uma pessoa descreva seu relacionamento com o animal enquanto uma forma de amizade, uma interação importante para sua auto identidade, bem como para a satisfação de outras relações intersubjetivas. O sentido evidenciado no vínculo estabelecido entre humano e animal pode apresentar mesmo particularidades próprias deste tipo de interação, como também a percepção de que os animais não são críticos tal qual os humanos (Boucher & Will, 1991).
Ao pensarmos no ambiente hospitalar em Engenho de Dentro, devemos considerar que os internos residiam em um ambiente hostil e, em geral, destituído de afeto, sofrendo com o preconceito e objetificação da equipe de médicos e funcionários. Mas, uma vez que os animais não possuem preconceitos, podendo ser acolhedores, companheiros e afetuosos, é compreensível que os clientes se sentissem à vontade na presença deles. Eles representavam um ponto estável em meio às instabilidades características da esquizofrenia e do tratamento científico e social oferecido a ela.
De encontro a isto, para Nise, o cão pode ser um importante ponto de referência no mundo externo, pois não provoca7 frustrações, perdoa e doa amor incondicional. Os gatos também podem ter destacada contribuição, por disporem de um modo peculiar de doar afeto e serem mais retraídos (Silveira citado em Leal, 1994; Silveira, 2015)8.
Muito embora o trabalho de Nise com os animais tenha se desenvolvido muito mais de modo empírico do que teórico, portanto, não recebendo a elaboração em seus textos que foi atribuída à arte, para Nise, a interação humano-animal poderia ser tão benéfica no tratamento e, seu respeito e admiração pelos animais eram tal, que ela passou a considerar estes coterapeutas (Silveira, 2015).
Atualmente, a temática da interação humano-animal no contexto terapêutico tem adquirido cada vez mais notoriedade. As intervenções desenvolvidas com a colaboração dos animais são denominadas Intervenções Assistidas com Animais (IAAs), as quais são divididas em: 1) Terapia Assistida por Animais - TAA; 2) Atividade Assistida por Animais - AAA; 3) Educação Assistida por Animais - EAA (IAHAIO, 2014).
Tais intervenções ocorrem em uma diversidade de ambientes, como clínicas psiquiátricas, consultórios de Psicologia, escolas, presídios, instituições para idosos, etc. (McCardle et al. 2013). E, por se tratarem de práticas formais, apresentam grande complexidade de gerenciamento, devendo, assim, obedecer a uma série de critérios, como: animal selecionado, sua espécie, temperamento, interação com humanos, história de vida, saúde física, modo de ser, bem como o tipo de ambiente no qual a intervenção ocorrerá e com quais pessoas (Rocha, 2016).
Se o verdadeiro objetivo de tais intervenções é de que, através da interação com o animal, o cliente apresente melhoras em sua saúde ou desenvolva-se em dado âmbito, isto só pode acontecer se houver o estabelecimento do vínculo e, como asseguram Bastos e Borba (2018), este só pode ser estabelecido em interações nas quais o animal não é tratado como um objeto. É fundamental que tanto o bem-estar do cliente quanto o do animal sejam considerados.
Nise não se inspirou, partir de suas observações, de qualquer teoria para perceber os benefícios da interação humano-animal, dada sua clareza acerca da importância da afetividade para o desenvolvimento saudável do ser humano e são muito interessantes esses ensaios predecessores das IAAs, em Engenho de Dentro. Eles demonstram que, uma vez que o profissional esteja aberto para as possibilidades do próprio cliente, muitas coisas surpreendentes podem se suceder. Para os clientes de Nise, contrariamente à ciência, os animais não eram máquinas, objetos, mas sim, seres vivos que deveriam ser tratados com dignidade. O afeto que lhes havia sido negado tantas vezes por seus pares humanos aparecia por meio de seres de diferentes espécies, mas que não se apresentavam menos importantes por esta razão.
A tarefa do tratamento terapêutico não consiste em moldar os clientes ou adaptá-los a pontos de vista que, em suma, são só mais um dentre uma infinidade de outros. Escutar e observar são de grande valia para o terapeuta, uma vez que ele abandona a ideia daquilo que ele acha que algo deve ser, para aquilo que é possível ser realizado partindo da própria expressão do cliente. É deste modo que os esforços de Nise e de todos e tudo que compunha o ateliê - clientes, monitores, animais, arte - puderam representar para a Psicologia e outros campos, avanços científicos, práticos e éticos cujo desdobramentos se dão até os dias atuais.
Um encontro entre Nise da Silveira e clínica fenomenológica
Sobre a porta da biblioteca de Nise, havia uma peneira com dois abanos, um em cada lado. Nise os mantinha ali enquanto uma espécie de metáfora para seu trabalho, afirmando que sua tia costumava fazer um doce de laranja cujo segredo, segundo ela, residia em peneirar sete vezes e manter o fogo aceso com os abanos (Melo, 2001). Deste modo, sua prática profissional consistia em peneirar, peneirar e peneirar antes de qualquer conclusão.
Este rigor, pensamos, apresenta similaridades com a atitude fenomenológica, a qual é apresentada na fenomenologia husserliana através do método fenomenológico. Neste, o sujeito suspende suas teorias e juízos sobre o mundo, efetuando, assim, a epoché. À esta, se segue a redução fenomenológica, caracterizada pela busca das essências do fenômeno (Husserl, 1913/2006).
Nise afirma que sempre partia do que o cliente dizia, sentia ou fazia e não considerava sempre o que as teorias diziam (Silveira citado em Leal, 1994). De acordo com Holanda e Schleder (2015), ela assim atuava para entrar em contato com os clientes e para a relação que eles estabeleciam com o mundo.
Na fenomenologia, a compreensão do sujeito passa pelo retorno ao mundo-da-vida, o mundo das vivências originárias e que aparece para cada um de um modo distinto (Husserl, 1936/2012). Este mundo é o mundo pré-científico, anterior às idealizações da atitude natural e à oposição sujeito/objeto. E, como já mencionado previamente, para a fenomenologia não há cisão entre sujeito e objeto, mas sim uma interdependência entre os dois por meio da intencionalidade (Husserl, 1913/2006). Assim, segundo MerleauPonty (1999), se quisermos pensar a ciência com rigor, é necessário retornar ao mundo das vivências humanas, no qual as essências e sentidos se revelam. O retorno às coisas mesmas do qual fala a fenomenologia, é o retorno a este mundo das vivências originárias.
Se, para Husserl (1936/2012), a verdadeira fonte de conhecimento se encontra no mundo-davida, o mundo das vivências ou das evidências originárias que é doador de todo o sentido numa análise fenomenológica, em atitude semelhante, Nise também afirmava que, em suas intervenções, era necessário partir sempre daquilo que era apontado pelo contato com o cliente (Silveira citado em Leal, 1994).
Podemos pensar que, embora desconhecesse a ideia de mundo-da-vida, ela também propunha um retorno ao mundo das vivências de seus clientes, observando seus clientes enquanto fenômenos, investigando sempre suas vivências enquanto sujeitos com esquizofrenia (Holanda & Schleder, 2015). As próprias obras artísticas serviam ao propósito de explicitar aquilo que se passava com eles, tanto sobre o que já haviam vivenciado, quanto aquilo que vivenciavam, como consta em Hirszman (1988), Silveira (2001), Silveira (2015).
Castro e Lima (2007, p. 366) sustentam este entendimento comentando que, na abordagem niseana, “a vida psíquica deveria ser pensada como processo constante de interação com aquilo que cerca cada ser humano”. Do mesmo modo, a psicopatologia fenomenológica investiga modos de existir e estar no mundo, o plano das experiências. E esta abordagem da psicopatologia, também contribuíram para Nise, especialmente em seus estudos sobre o espaço, apresentados em Merleau-Ponty (1908-1961), Karl Jaspers (1883-1969), Eugène Minkowski (1885 - 1972) e Ludwig Binswanger (1820-1880) (Silveira, 2015).
A arte e a interação humano-animal neste contexto só obtiveram êxito por terem sido viabilizadas pelo afeto. Nise nos traz um novo conceito no âmbito das intervenções terapêuticas, qual seja ele: afeto catalisador. Do mesmo modo que certas substâncias podem acelerar uma reação química, o afeto catalisador potencializa o processo terapêutico e possibilita que o cliente apresente melhoras (Silveira, 2015). Esta evidência levou Nise a colocar a relação intersubjetiva como um ponto de essencial valor e é neste sentido que ela destacava o papel dos monitores e dos animais.
Em Husserl (1931/2001a), temos a discussão acerca da intersubjetividade afirmando que é impossível falar de um “eu” sem falar de um “outro”. O outro é analogon do “eu”, aquele que é semelhante a ele e este sabe disso porque ele o apreende enquanto tal através do ato empático (Husserl, 1973/2001b). Em Ales Bello (2006), empatizar significa sentir a existência deste outro, posto que, tal qual Husserl (1973/2001b), ele aparece ao “eu” enquanto uma unidade corpórea e psíquica.
Uma vez que tratamos de seres humanos, seres complexos e cuja existência não pode ser compreendida pelas regras da ciência natural, a comunicação, assim, não pode se dar por meio da racionalidade ou da objetificação do outro, mas somente por vias do afeto, o qual implica em uma aceitação do modo de ser desse outro sujeito. Este outro é um sujeito de infinitas possibilidades e, como assevera Nise no caso da esquizofrenia, comunicar-se com o cliente exige muita paciência e um ambiente de liberdade, condições que só podem ser alcançadas com grande esforço (Silveira, 2015).
Em tal contexto, Antúnez (2011) reforça o papel do vínculo, destacando que, a partir dele, o psicólogo deve ajudar o cliente a encontrar um sentido para suas vivências. A clínica fenomenológica exige o exercício da análise, mas esta é ainda mais proveitosa quando relacionada com a criatividade do próprio psicólogo. Ele também deve fazer uso da sua própria imaginação para a investigação das essências. E, permeado pelo vínculo, poderá haver diversas possibilidades de acessar os fenômenos das vivências do outro, tal qual demonstra Nise por meio da expressão artística e da interação humano-animal.
Neste mesmo sentido, pressupor que já sabemos tudo sobre o outro ou que nosso conhecimento técnico é capaz de apreendê-lo, exclui do campo de conhecimento do psicólogo que haja aquilo que ele desconhece. O desconhecido, todavia, aquilo que me é estranho/diferente no outro é, tal qual aponta Husserl (1931/2001a), uma importante fonte de conhecimento, pois o campo das vivências do outro nos ensina uma variedade de coisas das quais não poderíamos tomar conhecimento somente a partir da nossa orientação no mundo. Adotar tal postura na clínica fenomenológica constitui uma das essências de tal modalidade terapêutica.
Houvesse Nise se fixado ao modelo tradicional da Psiquiatria, ela nunca teria descoberto as essências que se revelam no fenômeno da esquizofrenia. Ela logo compreendeu que deveria buscar outros modos de se comunicar com aquelas pessoas, pois, muito embora a matematização do mundo tenha encoberto as diversas formas de expressão humana por meio da linguagem verbal, um olhar atento sempre conseguirá descobrir que esta é somente a superfície.
Na expressão artística implica-se não só o movimento de expressão da subjetividade do sujeito, de seus sentimentos e pensamentos, mas também, a evidência de que, ao fazer isso, ele se recria (Reis, 2014). A completa liberdade que a imaginação proporciona ao sujeito para reconfigurar imagens fictícias, bem como gerar novas, aparece e Husserl (1913/2006) como o grande proveito que se pode tirar da expressão artística.
Podemos falar de uma ressignificação das vivências, na qual o sujeito desvela os sentidos de seu próprio mundo-da-vida, evidenciada em Merleau-Ponty (2012) no entendimento de que a obra plástica é uma resposta do artista à sua relação com o mundo e que a expressão artística transforma as vivências dolorosas, privando-as do impacto que tinham sobre o sujeito.
É possível que esta transformação por diversas vezes não seja completa a ponto de a vivência não mais afetar o sujeito, porém, segundo Holanda e Schleder (2015), o processo terapêutico não se trata de curar necessariamente, mas de trabalhar com as possibilidades de cada sujeito.
As interações humano-animais aparecem principalmente como centrais para a ocorrência do afeto catalisador. Boris Levinson (1997), um dos precursores das Intervenções Assistidas por Animais, relata que percebeu que o animal poderia ser um aliado no processo terapêutico quando seu cão, Jingles, estabeleceu uma interação imediata com um menino que Levinson atendia no consultório de Psicologia, mas com o qual ele mesmo não conseguia estabelecer um vínculo.
É possível, assim, que em muitos casos o animal “abra as portas” para que o psicólogo estabeleça seu próprio vínculo com o cliente. Como aponta Silva (2019), os animais não possuem preconceitos e, em nosso relacionamento com eles, podemos nos sentir mais à vontade, revelando sentidos a partir da própria interação. Investigando esta relação, o psicólogo pode compreender como são as relações deste cliente com o mundo.
Bastos e Borba (2018) asseguram que os animais enquanto coterapeutas suscitam a prática do cuidado e do autocuidado, sempre relembrando que isto se dá através da recuperação da própria animalidade humana. E, uma vez que a experiência do animal do mundo é qualitativamente distinta da experiência humana, as suas experiências nos acrescentam e enriquecem nosso conhecimento.
O estudo das intervenções clínicas de Nise nos revelaram que a arte, a interação humano-animal, o afeto catalisador, a suspensão das teorias e juízos e o apoio não-dogmático na Psicologia Analítica9 constituem as essências do seu modo de intervir. Cada um desses aspectos dialoga com aspectos da fenomenologia, tal qual explicitamos.
No espaço da clínica, se perdemos de vista que o outro é um sujeito em relação ao qual tenho um dever ético, o psicólogo pode se deixar seduzir pelas lentes das abordagens e teorias ao ponto de não perceber que a complexidade do ser humano só se revela na singularidade de cada um e não há aquele saber que tudo conseguirá decifrar. Não se trata, de todo modo, de rebeldia, mas sim, de uma ética.
E esta importante reflexão, além de todas as outras, a prática profissional e científica de Nise podem deixar à clínica na orientação fenomenológica. Para que o desvelamento dos sentidos e essências se deem em conjunto com o cliente, e não à margem dele.
Considerações finais
O percurso que desenvolvemos na pesquisa sobre Nise da Silveira e suas possíveis aproximações da atitude fenomenológica de Edmund Husserl foi interessante, desafiador, mas também desbravador de novos modos de ver e atuar com o adoecimento existencial ou doença mental. A análise fenomenológica dos escritos de Nise evidencia que a essência do seu trabalho: 1) o contato direto sem explicações científicas foi privilegiado; 2) firme oposição à objetificação do pessoa a tratamentos que ferissem sua dignidade e humanidade; 3) linguagem e atitudes construídas na relação com a equipe de trabalho e pacientes; 4) respeito ao modo de expressão artística do adoecimento; 5) respeito aos animais e preferencialmente às atitudes dos cães e dos felinos com os quais mais conviveu.
Considerando o tempo que nos separa da época e que Nise iniciou seu trabalho no Hospital Pedro II, podemos somente imaginar o grande esforço que ela fez para efetuar suas intervenções. De fato, enquanto pesquisadores, não podemos deixar de fazer justamente isso sobre o trabalho realizado pela psiquiatra: imaginar. É natural que o passar do tempo e a distância que se nos impõe do espaço do museu facilite a desconsideração de que, muito mais do que um objeto de pesquisa, as intervenções de Nise aconteceram com pessoas reais. Contudo, isto nos leva a um dos pontos mais relevantes da pesquisa fenomenológica: não há real afastamento entre o pesquisador e o seu objeto de estudo. Toda pesquisa é um caminho indissociável da subjetividade daqueles que a conduzem.
Nós, autores deste artigo, estivemos no Museu do Insconsciente e tivemos a oportunidade de não só falar com algumas das pessoas que trabalharam diretamente com Nise, mas também de ver algumas das obras dos artistas que ela nutriu com seu afeto e dedicação, bem como ver como este exercício de cuidado e compreensão humana segue na ausência dela, mas sob a guia do seu legado.
A possibilidade de realizar esta pesquisa foi uma transformação vivencial, derivada de uma reflexão sobre a coragem de certas pessoas que, contra a corrente de uma sociedade supostamente sã, assumem a responsabilidade ética diante da vida de outros seres humanos e animais. Responsabilidade esta que deveria ser assimilada e exercida por todos e que pode ser exercitada de milhares de formas diferentes. Algumas pessoas irão jardinar em uma horta comunitária, outras vão se dedicar a melhorar a vida de quem está próximo, outras se tornarão psicólogos e psicólogas para apoiar as pessoas na construção de sua caminhada, etc.
No caso de Nise da Silveira, a expressão artística livre e a interação humano-animal foram dois dos seus fundamentos na clínica psiquiátrica e que acabaram por influenciar pesquisadores e profissionais que atuam com as Intervenções Assistidas por Animais.
Entendemos que o ponto essencial desta questão reside na evidência de que Nise não olhava para seus clientes como doentes. Sua forma de ver as pessoas, independentemente de quem fossem, era uma característica da atitude fenomenológica. E é possível observar que mesmo não tendo sido a clínica niseana uma clínica ortodoxa, ela foi a todo momento pautada no rigor. A atitude de suspender seus a prioris demonstra isso, uma vez que ela não aceitava como verdade aquilo que o sujeito não lhe apresentasse ele mesmo e suspeitava de qualquer atitude clínica que, por economia, não se interessava em conhecer a vivência de cada paciente, mas ao contrário limitava-se a explicar, sem conhecer em profundidade, algo que Nise exercitou religiosamente no contato com a equipe e com os pacientes e familiares. O diagnóstico deixa de ser o principal para que entre em foco a vivência. Afinal, quem melhor para dizer daquilo que o sujeito vivencia, do que ele próprio?
Nosso foco nesta pesquisa, contudo, residiu em elaborar um estudo que demonstrasse os modos como a clínica fenomenológica pode se beneficiar das intervenções desta mulher de destaque no âmbito da saúde mental brasileira. Nise foi uma psiquiatra criativa e convicta de que todo ser humano é digno de respeito e capaz de transformar a si mesmo no processo terapêutico. Em seu modo de ver do mundo enquanto um todo indivisível, o papel do terapeuta se apoia justamente na busca na integração dos modos de existir no cliente, de reconfigurações vivenciais facilitadas pela terapia.
Maiores investigações neste campo serão muito proveitosas e esperamos que se tornem reais. Apesar das dificuldades de encontrar referências sobre Nise da Silveira e, principalmente, sobre possíveis interlocuções de sua clínica com a fenomenologia e a clínica fenomenológica, esperamos que este artigo possa contribuir para tais estudos. E, ainda, que possa contribuir para a prática de psicólogas e psicólogos que estão se direcionando ao complexo mundo-da-vida de seus clientes.














