SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.13 número3A Escrita E Troca De Cartas Como Estratégia De Pesquisa-IntervençãoOperacionalização Da Articulação Dos Centros De Atenção Psicossocial Na Rede: Perspectiva De Profissionais índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Revista Polis e Psique

versão On-line ISSN 2238-152X

Rev. Polis Psique vol.13 no.3 Porto Alegre  2023  Epub 25-Out-2024

https://doi.org/10.22456/2238-152x.121795 

Artigo

Articulações Entre Crianças E Telas Durante A Pandemia Da COVID-19: Pela Ótica Dos Responsáveis

Articulations Between Children And Screens During The COVID-19 Pandemic: Caretakers Perspective

Articulaciones Entre Niños Y Pabtallas Durante La Pandemia De COVID-19: Perspectiva De Los Responsables

Beatriz Sancovschi1  , Conceitualização, Revisão e edição, Redação do manuscrito, Análise dos dados
http://orcid.org/0000-0001-5399-5580

Luciana Santos Guilhon Albuquerque1  , Conceitualização, Revisão e edição, Redação do manuscrito, Análise dos dados
http://orcid.org/0000-0003-0742-5338

Cassia Patricia Barroso Perry1  , Redação do manuscrito, Análise dos dados
http://orcid.org/0000-0001-9037-1240

Laura Freire Nasciutti1  , Redação do manuscrito, Análise dos dados
http://orcid.org/0000-0003-2991-7042

Marina Teixeira Andrade1  , Redação do manuscrito, Análise dos dados
http://orcid.org/0000-0001-9395-9621

Thalita Cristina Ferreira Martins1  , Redação do manuscrito, Análise dos dados
http://orcid.org/0000-0001-8204-2949

1Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil


Resumo

O artigo versa sobre os resultados da primeira etapa da pesquisa “Crianças e telas digitais no contexto de isolamento durante a pandemia de COVID-19: Articulações performadas”. Utilizamos a cartografia como metodologia com aplicação virtual de questionários e entrevistas. A análise das respostas dos responsáveis por crianças de até 11 anos, que cumpriram o isolamento físico, gerou 5 analisadores: A pandemia como um ator que produziu um rearranjo no tecido social e nas famílias; Telas como aliadas; Telas como fonte de preocupação; Telas e brincadeiras; Interação presencial x interação online: aulas e videochamadas. Concluímos reafirmando a potência do conceito de articulação para pensar telas, crianças e pandemia em sua complexidade. Com a pandemia houve desarticulação da rede de apoio aos responsáveis e aumento do tempo de telas. Estas ganharam novas funções e acionaram posturas contraditórias nos responsáveis.

Palavras-chave Tecnologia; Crianças; Coronavírus; Isolamento; Parentalidade

Abstract

The article addresses the results of the first stage of the research “Children and digital screens in the context of isolation during the COVID-19 pandemic: Performed articulations”. Cartography was used as a method with virtual application of questionnaires and conference. The analysis of the responses of those responsible for children up to 11 years old, that stayed in physical isolation, generated 5 analyzers: The pandemic as an actor that produced a rearrangement in the social fabric and in families; Screens as allies; Screens as a source of concern; Screens and playing; Face-to-face interaction vs. online interaction: classes and video calls. We conclude by reaffirming the power of the articulation concept to reflect about screens, children and the pandemic in its complexity. With the pandemic, there was a disarticulation of the parents’ support network and increased screen time. The screens gained new functions and triggered contradictory perspectives in those responsible for the children.

Keywords Technology; Child; Coronavirus; Isolation; Parenting

Resumen

El artículo trata sobre los resultados de la primera etapa de la investigación “Niños y pantallas digitales en el contexto del aislamiento durante la pandemia COVID-19: Articulaciones realizadas”. Utilizamos la cartografía como metodología con aplicación virtual de cuestionarios y entrevista. El análisis de las respuestas de responsables de niños hasta los 11 años, que cumplieron con el aislamiento físico, generó 5 analizadores: La pandemia como actor que produjo un reordenamiento en el tejido social y en las familias; Pantallas como aliadas; Pantallas como motivo de preocupación; Pantallas y juegos; Interacción presencial X Interacción online: clases y videollamadas. Concluimos reafirmando el poder del concepto de articulación para pensar en las pantallas, en los niños y en la pandemia y su complejidad. Con la pandemia, hubo una interrupción de la red de apoyo a los responsables y un aumento del tiempo de pantallas. Estas ganaron nuevas funciones y desencadenaron actitudes contradictorias en los responsables.

Palabras clave Tecnología; Niños; Coronavirus; Aislamiento; Parentalidad

Introdução

Em março de 2020, no Brasil, fomos confrontadas com a pandemia de COVID-19 e com o isolamento físico (Henrique 2020) como estratégia para evitar a propagação do vírus. Tal situação colocou em xeque modos de ser e se relacionar considerados naturais. Trabalho, estudo, exercício físico, cuidado da casa, tudo precisou ser remodelado a fim de preservar o isolamento necessário. A internet e telas como computadores, smartphones, tablets e ipads (mídias digitais) emergiram como principal alternativa de conexão e encontro (Leal, 2021). Se por um lado elas representaram para muitos a possibilidade de alguma estabilidade no cotidiano profundamente perturbado, por outro, não deixaram de colocar questões. Foi a partir desse contexto que a pesquisa “Crianças e telas digitais no contexto de isolamento durante a pandemia de COVID-19: Articulações performadas” iniciou.

Desde a popularização da TV que as telas, sobretudo na relação com as crianças, tem sido objeto de investigação (Cordelian, Gaitan & Gomez, 1997; Buckigham, 2006; 2012). A partir de certa democratização da internet e dos dispositivos móveis, esses estudos tem ganhado novos contornos. Muitos são os trabalhos que, ao adotarem a perspectiva biológico-naturalizante, apontam principalmente para os prejuízos físicos e orgânicos do uso das telas pelas crianças (e.g.Abreu, Eisenstein & Estefenon, 2013; Wolf, 2019; Unicef, 2017). Estes, servem como dados que sustentam as orientações formuladas pelas sociedades de pediatria (SBP, 2019; AAP, 2016a; 2016b). Com menos ênfase e em menor proporção são feitas ponderações sobre possíveis benefícios das telas. Estas também aparecem, ainda que timidamente, em alguns dos manuais médicos-pediátricos. David Buckingham (2006) ao analisar o campo dos estudos da infância e mídias argumenta que a aparente contradição entre as perspectivas positivas e negativas tem sua origem em compreensões essencialistas e universalistas tanto da infância/crianças quanto das mídias/tecnologias/telas. Crianças e tecnologias tendem a ser concebidas a partir de características a priori que se relacionariam sempre da mesma maneira (Buckingham, 2006, p.30). Defende então a importância do olhar situado e ao mesmo tempo ampliado que se interroga sobre os modos de relação entre as crianças e as mídias, fazendo ver a complexidade e a diversidade das forças sociais que atravessam e compõem essas relações. Com Buckingham vislumbramos caminhos alternativos às perspectivas biológico-naturalizantes que tem subsidiado muitas reflexões e que acabam por reduzir o problema.

O presente trabalho adota a Teoria Ator-Rede (TAR) como referência principal para pensar a articulação entre crianças e telas durante a pandemia de COVID-19. A TAR foi formulada por Bruno Latour (2012) no contexto da sociologia como uma alternativa para pensar o social e a sociedade. Ela concebe a sociedade como uma rede sociotécnica, composta por humanos e não humanos. As tecnologias e os objetos técnicos são considerados atores que compõem o campo social, modificando suas características e sendo modificadas por ele a partir de suas agências e interagências com os humanos. A ideia de mediação ganha destaque, pois sustenta a viabilidade de um social produzido em rede com humanos e não humanos. Com o auxílio da TAR, nós, assim como Buckingham (2006), recusamos a perspectiva essencialista e universalista para as crianças e telas. Nos afastamos de formulações que interrogam sobre os impactos das tecnologias sobre as crianças em prol de explorar as articulações e seus efeitos (Benakouche, 1999). O conceito de articulação tem por inspiração o de mediação de Bruno Latour (2001) e destaca a ideia de que nem o social nem os objetos técnicos são dados, sendo produzidos nas e pelas relações que os conectam. Outra referência importante é o conceito de lógica do cuidado tal como trabalhado por Annemarie Mol (2008). Ao investigar as práticas médicas na relação com a diabetes e as pessoas com diabetes, a teórica faz ver a presença de muitos atores como médicos, enfermeiros, pacientes, famílias, rede de saúde, tecnologia, propaganda, etc. Neste movimento referese à lógica do cuidado que, diferente da lógica da escolha, opera a partir de uma ética engajada e comprometida por parte dos profissionais de saúde e pacientes, que aborda a doença e seu tratamento de maneira contextual e situada e não como uma entidade abstrata, puramente biológica e natural. Assim as decisões são tomadas na relação com o paciente concreto e não apenas a partir de índices, exames ou normas médicas. Ao colocar em ação a lógica do cuidado, caberá ao profissional de saúde muito mais do que fornecer informações para que o paciente faça suas escolhas. É preciso estar junto, acompanhar de maneira atenciosa avaliando a cada momento as possibilidades, implicações e efeitos dos caminhos escolhidos.

Nosso objetivo neste texto é, considerando esses referenciais, apresentar e discutir os resultados produzidos a partir das respostas de responsáveis por crianças de até 11 anos ao questionário virtual que fez parte dos instrumentos da pesquisa “Crianças e telas digitais no contexto de isolamento durante a pandemia de COVID-19: Articulações performadas”.

Metodologia

A pesquisa adota a cartografia como metodologia (Passos, Kastrup & Escóssia, 2009). Trata-se de um método de pesquisa-intervenção que entende que o trabalho de produção de conhecimento consiste menos em representar objetos independentes e mais acessar os processos de constituição dos objetos. Portanto pesquisar é já intervir. A cartografia implica relação entre pesquisador-pesquisado e uma atenção ampliada para perceber as tramas heterogêneas e concretas que subjazem as categorias. Ela é, assim, efeito do encontro do pesquisador com o objeto, mediado pelos instrumentos.

Um primeiro e fundamental desafio de nossa pesquisa foi encontrar, ainda no contexto do isolamento físico, estratégias que nos permitissem acompanhar com atenção ampliada, crianças nas suas relações com as telas e com a pandemia. A distribuição de questionários produzidos no Formulário do google através das redes sociais das pesquisadoras constituiu em estratégia para acessar os sujeitos. Usamos o método bola de neve (Vinuto, 2014) em que partimos das redes sociais das pesquisadoras e contamos com o compartilhamento subsequente. A pesquisa, em sua totalidade, distribuiu dois tipos de questionários virtuais: um para adultos e outro para crianças. Na segunda etapa foram realizadas entrevistas semiestruturadas individuais, em plataforma vitual, com 10 responsáveis e 10 crianças, selecionadas a partir da amostra inicial, para aprofundamento das questões.

Os dados e análises produzidos a partir desses outros instrumentos serão apresentados em outras produções.

Apesar do uso do questionário, em função do tipo de questão abordada e da forma como foram analisadas as respostas, a pesquisa seguiu viés qualitativo. Sobre o uso de questionários em pesquisas que adotam a metodologia cartográfica, César, Silva e Bicalho (2013) argumentam que mais importante do que o instrumento utilizado é a atitude ético-política em relação ao campo pesquisado que deve estar atenta à inseparabilidade entre o plano de formas e forças.

Os sujeitos da pesquisa como um todo foram crianças de até 11 anos que viveram o isolamento físico durante a pandemia de COVID-19 e responsáveis por crianças com essas mesmas características. Não necessariamente eram pais e filhos. Em caso de crianças muito pequenas os pais foram orientados a realizar a mediação e a auxiliar com a coleta das respostas.

O instrumento utilizado na primeira fase da pesquisa com os responsáveis e que escolhemos abordar neste texto foi um questionário desenhado no Formulário Google com 29 questões. Estas versavam sobre: 1) informações sociodemográficas: escolaridade, renda, local de moradia, quantidade e idade dos filhos; 2) informações sobre a dinâmica familiar: divisão dos cuidados dos filhos e da casa com outros adultos, se os adultos trabalhavam e em que, se precisaram sair de casa para trabalhar, se na moradia havia espaço ao ar livre para as crianças brincarem, se possuíam animais de estimação; 3) informações sobre as atividades dos filhos com e sem telas: quais as atividades e brincadeiras os filhos fizeram durante o isolamento, com quais aparelhos os filhos interagiram e se estes tinham acesso à internet, quais as atividades eram realizadas com esses aparelhos, quais os aplicativos acessavam, se houve algum tipo de atividade que as crianças se recusavam ou não gostavam de fazer com os aparelhos, se percebiam mudança no tempo de tela durante a pandemia, se seus filhos necessitavam de ajuda para manipular os aparelhos e como, se percebiam mudança na interação entre seus filhos e os aparelhos durante a pandemia e qual, como eles estavam avaliando a interação entre seus filhos e as telas, considerando aspectos positivos e negativos, como o uso dos aparelhos estava facilitando e dificultando o cotidiano, como seus filhos estavam reagindo às interações com outras pessoas pela tela e as atividades da escola, se percebiam a interferência do uso de telas em outras atividades e brincadeiras e/ou nos comportamentos, emoções e atenção das crianças e como. Por fim, havia um espaço para compartilharem quaisquer outras percepções que julgassem relevantes. Em função das restrições da pandemia, sua aplicação foi realizada virtualmente entre final de agosto e início de novembro de 2020. Adotamos como critério de exclusão a inconsistência no preenchimento, questionários respondidos por pais de crianças com mais de 11 anos e respostas duplicadas. Das 166 respostas recebidas, ficamos com 134.

A fim de manter o sigilo sobre as identidades dos participantes, usaremos neste texto a letra S acrescida do número correspondente à linha da resposta na planilha gerada automaticamente pelo Formulário Google.

A análise dos dados foi realizada por toda a equipe de pesquisa (2 pesquisadoras e 4 estudantes de iniciação científica) em reuniões semanais, seguindo as pistas de Barros e Barros (2013), de maneira consonante à metodologia adotada. Após a separação dos questionários válidos, as respostas foram lidas integralmente por todas e foi feita uma discussão inicial a fim de registrar as primeiras impressões. Em seguida nos dividimos em duplas para análises detalhadas das respostas (quantitativas e qualitativas). Destacamos tanto o que se assemelhava quanto o que era dissonante. O trabalho das duplas era discutido semanalmente pelo grupo. Foram produzidas tabelas com trechos de falas que foram agrupadas em temas e, a partir daí, chegamos aos analisadores. O conceito de analisador deriva da Análise Institucional (Lourau, 1993) e diz respeito aos acontecimentos que fazem aparecer o campo em sua dimensão processual, convocando a análise. Após a definição dos analisadores voltamos aos dados coletivamente a fim de repensar o material e fazer os ajustes nas análises. Destacamos, portanto, um movimento coletivo e em espiral que durou aproximadamente 4 meses. É preciso dizer que concomitante a esta análise, outras etapas da pesquisa estavam acontecendo.

Resultados e Discussão

Reconhecemos que a amostra alcançada reflete apenas um segmento da população brasileira. Trata-se de pessoas (não houve identificação de gênero) que possuem na sua maioria 1 filha/o (79) e, no máximo, 3 filhas/os (7) com idades distribuídas entre as faixas de 0 a 3 anos (65), de 4 a 7 anos (62) e de 8 a 11 anos (47). A maioria possui pós graduação (100) e tem renda familiar superior a 8 salários mínimos (88), embora houvesse também pessoas com menor escolaridade (ensino fundamental (2) e médio (3)) e com renda familiar menor (13 abaixo de 4 salários mínimos). Boa parte trabalha (119) e divide os cuidados dos filhos (115) e da casa (110) com outras pessoas (não necessariamente companheiras/os) e, residem no Rio de Janeiro (122), embora 4 pessoas de São Paulo tenham respondido e 8 de outros estados (MG, ES, PB). Atribuímos a limitação da amostra, em parte à estratégia usada para alcançar os sujeitos. Por maior que tenha sido o esforço para compartilhar entre pessoas de diferentes realidades, talvez pelos algoritmos das redes, talvez pelo interesse sobre a temática, talvez pela própria dificuldade de acesso aos dispositivos e à internet, nossa amostra ficou limitada. Nossa reflexão irá se debruçar sobre a realidade vivenciada pelas famílias pesquisadas, sabendo que o Brasil comporta muitas outras realidades, contrastantes e diferentes.

Após imersão nas respostas, chegamos a 5 analisadores (Lourau, 1993): A pandemia como um ator que produziu um rearranjo no tecido social e nas famílias; Telas como aliadas; Telas como fonte de preocupação; Telas e brincadeiras; Interação presencial x interação online: aulas e videochamadas.

A pandemia Como um Ator que Produziu um Rearranjo no Tecido Social e nas Famílias

Quem está de quarentena por causa do vírus da SARS teve de aprender a duras penas, que não pode mais, como antes, ‘associar-se’ a parentes e amigos por causa da mutação desse bichinho cuja existência a vasta instituição da epidemiologia e da virologia revelou ao mundo (Latour, 2012, p.25)

Com a TAR (Latour, 2012), percebemos o quanto a pandemia produziu mudanças na trama que rearranja o social. Não se trata apenas de uma mudança de contexto que afetou mais ou menos a vida das pessoas. Ao suspender os modos de vida e relações habituais, impôs novas estratégias e convocou a invenção de diferentes articulações. As medidas de isolamento físico adotadas pelos governos, para tentar proteger a população do contágio pelo vírus COVID-19, constituiu uma dessas estratégias. No Brasil, uma das primeiras medidas adotadas foi o fechamento de serviços não essenciais e o incentivo para todos permanecerem em casa a fim de diminuir a circulação de pessoas nas ruas (Brasil, 2020). Cada estado, cidade e família vivenciou isso de uma maneira, com maior ou menor flexibilização. No entanto, talvez a medida que tenha causado mais impacto nas famílias com crianças foi o fechamento das escolas e o início das aulas remotas por parte dos estabelecimentos (MEC, 2020). Além disso, muitas famílias dispensaram seus funcionários domésticos e evitaram o contato com os avós, uma vez que os idosos foram considerados grupo de risco. Assim, a pandemia mudou a rotina de várias famílias, dissolvendo a rede de suporte dos pais, que antes compartilhavam o cuidado das crianças com a família mais ampla, a escola e/ou funcionários domésticos (Macêdo, 2020). No caso das famílias pesquisadas, crianças e pais passaram a ter uma convivência de 24/7. Neste contexto, as telas parecem ter funcionado ainda mais como uma estratégia de cuidado compartilhado: “[As telas] têm ajudado a garantir um tempo mais longo com a criança num lugar sem que você precise observar se ela vai se machucar subindo em alguma coisa” (S124). Vale dizer que, se por um lado, pais e crianças já se valiam do uso das telas como forma, ao mesmo tempo, de distração e cuidado, durante a pandemia a situação tornou-se uma necessidade, fazendo com que os posicionamentos em relação às crianças e às telas fossem revisitados (Kamenetz, 2020; Idoeta, 2020; SBP, 2020).

De acordo com os dados da pesquisa, houve um aumento do tempo de interação e do uso das telas nesse período. Muitas crianças que até então não tinham acesso às telas ou que tinham um acesso limitado, passaram a ter. Em alguns casos, ficaram mais expostas do que era o desejo dos pais. Dos 119 sujeitos que perceberam alguma mudança na interação de seus filhos com as telas durante o isolamento, 73 apontaram para o aumento do uso e do interesse pelas telas. Isso parece ter relação com a necessidade de os pais trabalharem remotamente e se ocuparem dos afazeres domésticos pois em relação à ajuda no cotidiano familiar, 73 destacaram que as telas permitiam aos pais trabalharem, cuidarem das tarefas domésticas e ainda descansarem, enquanto as crianças estavam entretidas. Essa função foi citada 29 vezes, as telas mantinham as crianças ocupadas uma vez que os pais não podiam dar atenção o tempo todo a elas: “Sim, houve aumento da interação pela falta das atividades anteriores...pela restrição aos encontros sociais e por termos que trabalhar e não podermos brincar tanto com ele” (S110); “A interação e dependência aumentou. Como eu fico sozinha com os dois e preciso trabalhar, cuidar da casa, [a tela] é a forma que eles encontraram para se entreter” (S99).

O tom de desabafo ou lamento surgiu em algumas respostas e nos fez refletir sobre o aumento da sobrecarga dos pais, especialmente das mães, nesse período (e.g. Macêdo, 2020; Brigatti, 2021): “... e por fim, comprei um tablet [para o meu filho] e pude trabalhar em paz” (S109)

Telas como Aliadas

A tecnologia é uma excelente aliada não só neste momento de pandemia, como em todo processo educacional das crianças. Entretanto, é necessário acompanhar estritamente o conteúdo, que precisa estar adaptado para cada fase de desenvolvimento das crianças. Além disso, é preciso restringir o

tempo que as crianças ficam conectadas e incluir na rotina atividades físicas, motoras e entretenimento social (S9).

A fala acima revela o tipo de controvérsia envolvida na articulação entre crianças e telas, em geral e, durante a pandemia, em especial. Ela parece ter a marca dos discursos produzidos por especialistas, que durante a pandemia, povoaram as redes sociais a título de orientação. Neste momento, ficaremos com a ideia da tela como aliada e, posteriormente abordaremos as preocupações em relação ao seu uso. Se antes da pandemia o contato com as telas podia ser mais restrito, regulado ou não existia, com o isolamento físico, elas se tornaram onipresentes, quase uma necessidade. Eram a única forma de falar com quem estava longe, ter aulas e trabalhar. Como nos informa S9 na fala acima, tornaram-se aliadas na rotina familiar.

Nesse ponto, é interessante comparar as respostas de duas perguntas. Quando solicitados a apontarem pontos positivos e negativos do uso das telas, os negativos foram mais citados (198 contra 160 de positivos). Porém, quando perguntados sobre como as telas têm ajudado ou dificultado no cotidiano familiar, situações em que ajudam são mais citadas (167 contra 101). Vemos aí mais uma face da controvérsia que marca os cotidianos familiares, e que durante a pandemia, ficou mais explícita. Voltaremos a essa discussão mais adiante.

Em relação aos pontos positivos, 61 mencionaram algum tipo de contribuição ao desenvolvimento cognitivo como desenvolvimento da fala, ampliação do vocabulário, do raciocínio, de habilidades como a escrita, auxílio na aprendizagem e educação, acesso a conteúdo informativo, desperta a curiosidade e estimula criatividade, maior autonomia e concentração. Em vinculação mais direta com a experiência do isolamento, 36 destacaram a possibilidade de interação com quem está longe, aproximando e colocando as crianças em contato com familiares e amigos. O entretenimento também foi citado como ponto positivo, na medida em que ajuda a passar o tempo, acalma e amplia o repertório de brincadeiras. Além de permitirem que os pais se ocupem de suas tarefas (29 citações). “Ele desenvolve fala e raciocínio muito rápido” (S4); “Positivos: distração, aprendizagem, despertar curiosidade e criatividade” (S7); “A possibilidade de interagir com pessoas que estão distantes, aprender um vocabulário novo, conhecer outros sons/idiomas” (S11).

Dentre as situações apontadas como ajuda ao cotidiano, a mais citada (71), refere-se ao benefício para os pais, nos momentos em que precisam trabalhar e se ocupar dos afazeres domésticos ou até como alívio para o estresse. O entretenimento como benefício para as crianças também é citado. As telas trazem coisas novas e ajudam as crianças a lidar com o tédio e a ocupar o tempo (31). A mediação para atividades pedagógicas e comunicação com amigos e familiares foram igualmente citadas (29). Muito pontualmente foram mencionadas a ajuda na rotina e em acalmar as crianças: “Ajuda nas aulas online, nas reuniões de trabalho, e para abstração do estresse da realidade de confinamento e das mortes lá fora” (S109); “Ajuda em entretê-la enquanto os adultos têm que trabalhar” (S2); “Sim, para diminuir o tédio e trazer novidades para rotina” (S7).

Quando perguntados se haviam percebido alguma mudança na interação dos filhos com as telas, a maioria, como já apontamos, destacou o aumento do uso e do interesse (73) e também algumas alterações físicas ou comportamentais. Outras observações, em menor número, merecem destaque, pois apontam para a diversidade e complexidade da experiência. Houve 20 citações comentando sobre a maior autonomia e aprendizagem no manejo dos dispositivos, visto pela maioria como algo positivo; 8 respostas apontaram para um uso de forma diferente, como vontade de falar e dividir com os pais o que assiste ou joga e ampliação da diversidade dos conteúdos; 7 apontaram melhora cognitiva ou ampliação do conhecimento e 2 apontaram preferências pelas brincadeiras às telas. “Aumentou a agitação, mas ela desenvolveu bastante seu conhecimento” (S19); “Ela aprendeu a enviar mensagens de áudio sozinha, via whatsapp, para os familiares e também aprendeu a manusear alguns recursos do aparelho que antes não sabia” (S36); “Aumentou, mas ainda permanece sendo usado por ela como acessório. Na maioria do tempo, ela está brincando com outras coisas enquanto a TV está ligada ao fundo” (S41); “Foi se tornando cada dia mais independente, mas acho que isso é normal pela aprendizagem da escrita (aliás, acho que foi também um incentivo para essa aprendizagem)” (S48).

Telas como Fonte de Preocupação

Apesar de aliadas, o aumento do tempo de exposição e interação das crianças com as telas parece ter provocado nos pais certa angústia acerca dos efeitos dessa interação e de como mediar essa relação. Chamou atenção nas respostas o tom de lamento ou a justificativa sobre o uso das telas pelos filhos, mesmo quando não estavam sendo perguntados diretamente sobre isso: “Eu odeio a interação exagerada, mas infelizmente foi necessário aumentar a exposição durante a pandemia para que eu conseguisse fazer as atividades domésticas” (S41).

Além disso, alguns pais demonstraram olhar para o momento atual como exceção. Esperam que, com o final do isolamento, o tempo de tela diminua: “Espero que o tempo diminua bastante quando retomarmos a rotina sem pandemia. Durante os dias úteis espero conseguir eliminar as telas da rotina” (S100); “Não vejo a hora da minha filha poder brincar com outras crianças e a tela passar a ter tempo mínimo na rotina dela” (S121).

Inspiradas pelo artigo da Ana Maria Nicolaci-da-Costa (2002), sobre como o discurso da mídia afeta a percepção da experiência das pessoas com as telas, nos perguntamos se essa preocupação dos pais não estaria sendo alimentada por certo discurso médico-midiático (Kamenetz, 2020; SBP, 2019; AAP, 2016a; 2016b).

Trata-se de um discurso que costuma reforçar os riscos pelo uso das telas, responsabilizando os pais quase exclusivamente pelo gerenciamento dessa relação, adotando um tom alarmante, que parece contribuir para o tom de lamento, preocupação e culpa que percebemos. Nos termos de Mol (2008) seguem mais a via da lógica da escolha que do cuidado. Uma fala nos indica como esse discurso parece atravessar a parentalidade: “Negativo é que a exposição à tela pode prejudicar a vista e não estimula alguns sentidos importantes. Pelo menos é o que eu sei sobre as pesquisas a respeito” (S117).

Observamos que uma das maiores preocupações dos pais foi a dependência. Ao abordarem os pontos negativos da interação das crianças com as telas durante o isolamento físico, o mais citado, dentre os 198, foi o uso excessivo ou a dependência (68 vezes): “Se deixar viram zumbis” (S5); “Minha preocupação é a dependência, por tanto controlo muito o uso” (S20); “Os aparelhos são um vício e eles querem sempre mais tempo com eles” (S3).

Ainda sobre os pontos negativos, surgiu a questão da resistência ou desinteresse em realizar outras atividades (citada 37 vezes), que são características apontadas pelos manuais médicos brasileiro (SBP, 2019) e americano (AAP, 2016b) como comportamentos indicativos de dependência, devendo ser alvo de atenção: “Esqueceu os outros brinquedos e brincadeiras... agora é só vídeos e jogos eletrônicos” (S27); “Vejo eles com mais dificuldade de brincar com os brinquedos e outras atividades. As brincadeiras passaram a ser muito mais com tema de luta. Meu filho amava brincar com lego e hoje isso se reduziu bastante” (S92).

Do ponto de vista médico, a dependência, é caracterizada como um comportamento que se torna repetitivo, intenso e prioritário para o indivíduo em relação a outros (Tamelini & Mondoni, 2009). Na dependência há dificuldade em controlar ou cessar o comportamento, mesmo que cause prejuízos e um tempo excessivo dedicado a ele em detrimento de outras atividades (Moeller, 2014). Para além da definição médica, que tende a patologizar comportamentos (Caponi, 2009), precisamos compreender o que os pais estão entendendo por vício e dependência. Será que o tempo de tela considerado excessivo antes da pandemia pode ser o mesmo durante esse período de isolamento em que todos nós nos vimos mais tempo frente a elas? Como definir os limites entre comportamentos normais e patológicos em tempos de pandemia? Como entender a relação entre crianças e telas de maneira cuidadosa (Mol, 2008) e não abstrata ou absoluta?

A partir de Georges Canguilhem (1982), entendemos que o normal e o patológico não se definem nem por uma essência, nem por uma característica específica presente ou ausente, mas pelas formas que os sujeitos lidam com as variações do meio que os afetam. A normalidade envolveria a manutenção da capacidade de transformação, reinvenção de maneira articulada ao meio e, a patologia como comportamento fixado em uma referência absoluta. Seguindo o pensamento de Canguilhem, diante da pandemia, os corpos que se mantém normativos, inventando para si novas regras, estariam saudáveis, enquanto aqueles que se mantém presos a regras existentes, estariam doentes. Dessa maneira, é interessante pensar que as telas puderam ser, para alguns, estratégias de normatividade.

Voltando à questão da dependência, ela pode ter relação com certo fascínio que as telas parecem exercer. Ao abordarem as dificuldades que as telas trazem para o cotidiano, a resposta mais citada pelos pais referia-se ao fascínio pelas telas (36 vezes), seguida por dificuldade em desligar os aparelhos, o maior tempo dedicado a elas e a preocupação com a dependência (19 vezes): “A dificuldade é em estabelecer limite, pois sempre há resistência na hora de desligar o aparelho” (S2); “Me preocupo, pois vejo uma certa dependência e fascínio pelas Telas Digitais” (S27); “Ele resiste a querer brincar e insiste em continuar na tela” (S37).

Sobre a interferência da interação com as telas no comportamento, emoções e atenção das crianças, dentre as 107 observações, 34 eram em relação à atenção dispensada às telas (as crianças ficam muito focadas, hipnotizadas, com dificuldade de prestar atenção à sua volta e dispersas com outras atividades) e 19 citaram irritação ligada à dificuldade de desligar ou ficar sem as telas: “Eles ficam ansiosos pela chegada da hora em que estão liberados para ver ... Desligar os aparelho quando acaba o tempo deles é sempre difícil. Quando usam tela antes de dormir demoram a relaxar” (S3); “Fica focada na tv e não vê mais nada ao redor em alguns momentos” (S14); “Ficam mais nervosos e agitados quando ficam sem. Como se não tivesse mais nada interessante pra fazer” (S33).

Acreditamos que esse fascínio pelas telas tanto pode ter relação com características das experiências que elas oferecem, como apelo visual, produção de conteúdo para atrair as crianças e facilidade de acesso, quanto pode ter sido reforçado por características trazidas pela pandemia, como a necessidade do isolamento físico, da restrição de circulação e contato da criança com outras atividades e pessoas.

A aflição dos pais foi perceptível em diversas respostas. Apareceu em relatos sobre o que observaram do comportamento dos filhos e como tentavam controlar essa interação com as telas. Sobre as alterações comportamentais-emocionais percebidas, algumas parecem ter relação com a experiência de interagir com as telas, como ansiedade por usá-la, irritação por desligála e atenção focada no momento do uso. Porém, outras como agitação, irritação, ansiedade e sedentarismo, podem ser também consequência do isolamento provocado pela pandemia. Os adultos foram também afetados pelo isolamento e pandemia, contribuindo, provavelmente, para um ambiente doméstico mais estressante para todos. Como nos sinaliza S87 e S22 fica difícil saber se essas observações sobre o comportamento das crianças têm a ver com a tecnologia, com a pandemia ou com ambos: “Difícil saber o que é do isolamento e o que é das telas” (S87).

Não acho, particularmente, que o aparelho tenha dificultado algo. Sinto que a ansiedade dela e a energia acumulada tem mais relação com o fato de não poder sair tão frequentemente ou brincar ao ar livre sempre quanto antes ou de não poder brincar com crianças e com os familiares presencialmente como sempre fez (S22).

Assim como David Buckingham (2006), questionamos o pensamento linear, direto e causal da relação entre crianças e telas, sobretudo durante a pandemia. Consideramos que as telas não seriam os únicos elementos que deixariam as crianças mais irritadas, agitadas ou com dificuldade para dormir. Segundo Buckingham, o pensamento linear, direto e causal, é efeito de concepções essencialistas. As crianças tendem a ser pensadas como possuidoras de qualidades inerentes a elas e, se ligariam de maneira única às mídias/tecnologias que, por sua vez, também possuiriam características absolutas e próprias. A aposta na ideia de articulações nos parece mais fecunda para colocarmos o problema dessa relação, que é composta não por uma linha, mas por uma trama com muitas linhas e nós. As telas, crianças, famílias, trabalho, pandemia, isolamento, política, formas de habitação, poder aquisitivo se conectam de maneira dinâmica e diversa produzindo redes que, por sua vez, produzem efeitos. Entender a relação entre crianças e telas exige, portanto, a cartografia dessas tramas e o acompanhamento dos efeitos que vão se produzindo.

Outros temas que parecem preocupar os pais foram menos citados: tendência ao isolamento, falta de comunicação e diminuição da interação familiar - “Isolamento, pouca comunicação” (S7), passividade diante das telas - “Passividade completa ao ficar na frente das telas” (S33); preocupação com o acesso a conteúdos inadequados: “Preocupação com sites perigosos, informações ou vídeos piratas violentos” (S111); “Excesso de conteúdos impróprios para a idade” (S6).

A respeito da presença ou mediação dos pais nessa relação das crianças com as telas, percebemos não apenas a questão de auxílio técnico (86) para manuseio dos dispositivos, como ligar, colocar no desenho, aula ou chamada de vídeo, resolver algum problema com a conexão, mas também a questão da vigilância (43), como supervisionar o conteúdo, controlar o tempo de tela, observar ou monitorar as atividades online: “Tudo com supervisão, não pode baixar nada sem que eu coloque senha, contatos no Whatsapp apenas os que eu permito” (S5); “Preciso autorizar. Não quero ela mexendo em qualquer aplicativo. Vigio o quanto posso” (S19); “Como ele tem 5 anos, preciso estar atenta à que tipo de jogos ou vídeos ele vê, para serem adequados à sua idade” (S90).

A vigilância, tentativa de controlar e supervisionar a interação entre filhos e telas, parece ter sido uma saída encontrada pelos pais para lidar com a preocupação referente aos efeitos negativos das telas. Tal aspecto nos chamou a atenção, pois, mesmo sem serem instados a responder sobre esse assunto, foi algo que se fez presente.

Telas e Brincadeiras

Com o aumento do tempo dedicado às telas, como ficaram as brincadeiras? Pelas respostas percebemos que, apesar das telas estarem muito presentes na rotina das crianças durante a pandemia, as brincadeiras sem telas também tiveram seu lugar:

Nossa filha gosta de fazer muitas coisas, gosta muito de outras brincadeiras, acho que de maneira geral está sempre disposta a brincar de outras coisas com a gente quando propomos e ela mesma inventa também suas brincadeiras (bonecas, invenções com roupas e muito artesanato que ela tira da cabeça dela mesma - gosta de construir coisas com sucata). Pode passar um dia inteiro diante a tela eventualmente, acontece. Mas não deixa de fazer suas coisas (S48).

Ao serem perguntados sobre as atividades e brincadeiras de seus filhos nesse período, as mais citadas foram relacionadas às telas (138) mas não ficaram muito na frente das atividades corporais (125). Foram citadas também atividades plásticas (98), jogos (93), brinquedos (58), faz de conta (45), leitura/contação de histórias (31), atividades artísticas (27), atividades escolares (22), brincadeiras ao ar livre (13) e brincar com a família (12), dentre outros.

Esses dados permitem pensar na diversidade das atividades das crianças pesquisadas durante a pandemia e também na preservação de um tempo sem tela. Destacamos, porém, que, como são respostas produzidas a partir do olhar dos pais, esses dados podem revelar um esforço ou preocupação deles em relação ao uso excessivo das telas pelos filhos. Ressaltamos também que os questionários foram aplicados até o início de novembro de 2020. Não sabemos o quanto essa rotina foi modificada com o prolongamento da pandemia, as medidas de flexibilização do isolamento e a abertura das escolas. O que podemos dizer é que o temor de que as telas poderiam monopolizar o tempo das crianças, substituindo as brincadeiras sem telas, não se sustentou até aqui, considerando nossa amostra.

A polarização entre telas e brincadeiras apareceu em algumas respostas que indicavam a hipótese de que o fascínio pelas telas tornava mais difícil para as crianças se desconectarem delas e se engajarem em outras atividades, ponto já abordado. Neste momento, interessa-nos explorar a preocupação em relação ao espaço que a tela ocupa no cotidiano das crianças quando comparado a outras brincadeiras. Nos questionários, os responsáveis se referiram à resistência, desinteresse ou menor tempo dedicado para realizar outras atividades fora da tela. Como desdobramento sugerem haver dificuldade com a criatividade, em pensar outras brincadeiras, em lidar com o tempo ocioso e em se concentrar em outras atividades: “Mais dificuldade de ouvir e lidar com o silêncio. Dificuldade de lidar com a necessidade de ter que inventar o que fazer e tomar a iniciativa de começar outra atividade” (S37); “Se a TV está ligada em geral perde atenção mais rápido na brincadeira que está fazendo” (S14); “Ele não pede e não sugere mais brincar de outra coisa (abandonou a bola, os brinquedos e carrinhos)” (S27).

Em menor número, houve respostas que indicaram que algumas crianças, principalmente as menores de 5 anos, preferiam brincar com os pais a ficar na tela, além de relatos sobre crianças que ficavam entediadas com as telas. Percebemos que, às vezes, as telas eram incorporadas às brincadeiras e ao vocabulário das crianças, que podiam brincar e interpretar personagens dos vídeos, recriando histórias, imitando brincadeiras, gestos e falas, ou ainda falando sobre o que assistiram: “Traz todas os personagens e os conteúdos para as brincadeiras em casa” (S15); “Pega as referências dos desenho e inventa brincadeiras com personagem” (S42).

A incorporação do conteúdo das telas nas brincadeiras parece indicar uma forma ativa de apropriação e elaboração que as crianças fazem com o que assistem e vivenciam. Segundo alguns responsáveis, as telas ampliaram o repertório de brincadeiras. Houve também relatos, principalmente de responsáveis por crianças acima dos 4 anos, de brincadeiras que aconteciam no online e com os amigos:

Eles chamaram os amigos para brincar, brincaram de estátua, mímica, de pique-esconde, leram livros um para o outro. Conversaram com amigos sobre os sentimentos e as dificuldades que estavam enfrentando, o que os ajudou a sentirem-se menos isolados. Eles também participaram de grupos de brincadeiras no WhatsApp em que trocavam ideias, fotos e vídeos do que estavam brincando (S3)

Sendo assim, as telas podem tanto competir com as brincadeiras, quanto fazer parte delas. É possível, então, dizer que as crianças brincam apesar das telas, com elas e através delas (Albuquerque et.al., 2023).

Interação Presencial x Interação Online: Aulas e Videochamadas

A necessidade de isolamento físico deslocou para as telas situações do cotidiano das crianças que antes eram vivenciadas, quase exclusivamente, na relação presencial como as aulas e as interações com amigos e familiares. Buscamos explorar nos questionários como as crianças reagiram a essa mudança a partir da observação dos pais. As respostas apontam para uma heterogeneidade e singularidade de experiências e para modulações nessas experiências durante a passagem do tempo.

A maioria das reações das crianças observadas pelos pais foram positivas e não apresentavam dificuldades na interação online (80). Sendo citadas reações de bemestar, felicidade, de se sentirem à vontade e de gostarem muito (52), mesmo com uma resistência inicial ou sem câmera ligada; reações mais neutras de normalidade, tranquilidade, aceitação, adaptação e naturalidade (14); reações de bem estar apenas na interação com determinadas pessoas (9); poucas famílias apontaram que isso já fazia parte da rotina antes da pandemia por morarem longe de parentes (4). “Eles adoram. É o momento de falar e interagir com outros” (S21); “Sentiram-se menos isolados com a interação online com amigos e família” (S3).

Ao mesmo tempo, foram citadas reações que denotavam alguma dificuldade das crianças em relação às interações online (70). Dentre essas, reações em que a criança parecia não gostar ou não ter paciência e nem sustentar a atenção para interações longas (29); reações em que pareciam não gostar, não se interessar ou não querer participar (20); algumas pareciam sentir falta e preferir encontrar as pessoas presencialmente, demonstrando que a interação online não substitui o contato pessoal mais direto (11); poucas reações de vergonha, timidez ou desconfiança, mesmo que inicialmente (8); dentre outras, em menor quantidade: “Elas não tem muita paciência para ligações e videoconferência. Preferem brincar” (S16); “Aumentou a exposição e quando o uso é para aulas ou encontrar com os amigos e familiares ela se recusa afirmando que quer ver as pessoas e tocar nelas” (S29).

Foram notadas transformações ao longo do período de isolamento em relação às atitudes das crianças frente às interações online (15), tanto no sentido de melhora (11) - as crianças pareciam ter se acostumado ou participar mais - quanto no sentido de piora (4) - as crianças pareciam não querer mais participar, demonstrando desinteresse. E até de oscilação nas reações (8): “Estranharam no início mas se adaptaram à nova situação melhor do que eu esperava” (S102); “Mas acho que ela começou a achar chatas as videoconferências com as colegas, às vezes não a escutavam, sentia que não havia respeito ao momento de cada uma falar e contar algo...agora tende a rejeitar um pouco” (S48).

Poucos pais se pronunciaram em relação às atividades que as crianças não gostavam de fazer com as telas (39 em 134). Porém, dentre as citadas estavam as atividades escolares (24): “A minha [filha] de 4 se recusa a fazer os encontros virtuais da escola. Quando tento, ela chora e fecha o computador” (S45); “Não se adaptaram. Considero que é um ano escolar perdido” (S99). E as vídeo chamadas (16): “Não gostam muito de fazer ligação de vídeo” (S87); “Festas online tem sido difíceis” (S110).

A recusa de algumas crianças à interação online apareceu em relação as aulas e conversas, mas não para jogar junto jogos, atividade que se tornou fonte de diversão e interação: “Vejo como positivo a interação social que o Roblox, sem querer, proporcionou ao grupo neste momento de isolamento” (S45). Como pensar essa diferença? As respostas abrem reflexões e apontam para a diversidade da experiência e a singularidade de cada criança. O foco parece ser menos a tela e mais o tipo de atividade que a criança fará com e na tela.

Podemos, assim, considerar que a interação online não substitui a presencial, principalmente para as crianças. Embora seja uma possibilidade, tem limitações e as crianças percebem isso e sentem falta da presença do outro e de seus pares. A interação online não é apenas uma transposição do presencial para o modo virtual. É uma interação diferente, exigindo ajustes e modulações.

Um último aspecto a ser mencionado é que, no contexto da pandemia, com uma convivência familiar mais intensa, o mundo virtual pode se tornar também um refúgio, um espaço privado para se estar só. Neste caso, o isolamento citado, frequentemente como algo negativo, converte-se em algo positivo: “Por vezes, cada um fica mais isolado usando seus aparelhos. Mas é um tempo necessário para convivência entre nós não ser tão intensa também” (S43).

Considerações Finais

A análise dos resultados produzidos a partir dos questionários dos responsáveis confirma a potência do conceito de articulação para pensarmos as relações entre crianças e telas em tempos de pandemia e de isolamento físico. Através dos analisadores percebemos que as telas não são entidades isoladas do seu entorno. Assim, a articulação telas-crianças-pandemia revela a complexidade de uma trama que vai ganhando diferentes contornos e que precisa ser abordada sem simplificações. Nos termos da Mol (2008) trata-se de abordar a questão das crianças e telas a partir de uma lógica do cuidado. No lugar de formulações totalizantes que operam a partir de índices e informações universais e naturais, a pesquisa fez ver a importância de acompanhar os processos de maneira implicada, atenciosa, concreta e contextual.

Vimos que as telas adquiriram diferentes sentidos, contraditórios até, dependendo de como e com que atores ela se conecta. A pandemia, principalmente a partir da estratégia de isolamento físico, produziu diferença na estruturação do social, fazendo a rede de cuidados em torno das crianças se dissolver, deixando muitas famílias sozinhas nessa tarefa. Essa nova e inesperada situação produziu um rearranjo nas relações familiares, trazendo as telas, de forma mais intensa e onipresente, para o cotidiano. Elas apareceram como grandes aliadas dos pais nesse momento de confinamento, em que não podiam dividir os cuidados dos filhos com outros adultos e instituições. Uma das grandes funções era entreter as crianças para que pudessem se ocupar do trabalho em casa. Ao lado do entretenimento, as telas funcionaram também como janela para o mundo, sendo, durante algum tempo, o meio exclusivo para contato com os amigos, familiares e com a escola.

Esse contexto fez com que o tempo devotado às telas aumentasse e, assim, a preocupação em relação aos prejuízos que poderia trazer às crianças foi sendo sentida de maneira mais intensa, principalmente no que diz respeito ao excesso, vício e acesso a conteúdos inadequados. Por mais que reconheçam que as telas podem trazer novos conhecimentos, ampliar o vocabulário, conectar com os familiares e amigos, expandir o mundo, fazer as crianças se sentirem menos sozinhas, tornar o tempo mais divertido e interessante, ficou explícita a aflição e o sentimento de culpa que atravessavam muitos pais por conta do excesso de tempo de tela experimentado nesses tempos de isolamento.

O que a pesquisa nos fez refletir até agora é que as telas em si não carregam características boas ou ruins, de forma absoluta e definitiva. Algumas respostas parecem apontar para uma ideia de que a tecnologia pode ampliar a rede e o mundo das crianças, enquanto outras levam à ideia de que pode produzir o efeito oposto e restringir suas possibilidades. Assim, colocar as telas como algozes dos prejuízos que o excesso de interação pode causar nas crianças nos afasta de olhar para outros fatores que contribuem para esse excesso, como a sobrecarga dos pais e a privatização do cuidado. Como se garantir um ambiente saudável para as crianças não fosse também responsabilidade de toda a sociedade e do Estado. Em uma sociedade cada vez mais individualista, onde os indivíduos são continuamente convocados a se responsabilizar por suas vidas a despeito de qualquer suporte coletivo, e onde a carga horária de trabalho dos adultos só aumenta, como cuidar das crianças? Essa nos parece uma pergunta e uma reflexão que não concerne apenas aos pais, mas a toda a sociedade e que, como vimos, atravessa o problema da relação entre crianças e telas.

Referências

Abreu, C., Eisemstein, E. & Estefenon, S. (Orgs.). (2013). Vivendo Esse Mundo Digital: impactos na saúde, na educação e nos comportamentos sociais. Porto Alegre, Brasil: Artmed. [ Links ]

Albuquerque, L., Perry, C., Andrade, M., Sancovschi, B., Nasciutti, L. & Martins, T. (2023). Brincar nas, com e apesar das telas. Estilos da Clínica, 28(1), 13-29, doi: https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v28i1p13-29.Links ]

American Academy of Pediatrics [AAP] (2016a). Media and Young Minds. Pediatrics, 138(5), 1-6, doi: https://doi.org/10.1542/peds.2016-2591.Links ]

American Academy of Pediatrics [AAP] (2016b). Media Use in School-Aged Children and Adolescents. Pediatrics, 138(5), 1-6. doi: https://doi.org/10.1542/peds.2016-2592.Links ]

Barros, L.R., Barros, M.E. (2013). O problema da análise em pesquisa cartográfica. Fractal: revista de psicologia, 25(2), 373-390, doi:https://doi.org/10.1590/S1984-02922013000200010.Links ]

Benakouche, T. (1999). Tecnologia é sociedade: contra a noção de impacto tecnológico, Cadernos de Pesquisa, (17), 1-28. Recuperado de https://www.geocities.ws/ecdemoraes/texto_tamara.pdf.Links ]

Brasil. Ministério da Saúde. (2020). Guia de vigilância epidemiológica: emergência de saúde pública de importância nacional pela doença pelo coronavírus 2019. Recuperado de https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_epidemiologica_emergencia_saude_publica_importancia_nacional_doenca_coranvirus.pdf.Links ]

Brigatti, F. (2021, 02 de fevereiro). Pandemia deixa mais da metade das mulheres fora do mercado de trabalho: Folha de São Paulo. Recuperado de https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/02/pandemia-deixa-mais-da-metade-das-mulheres-fora-do-mercado-de-trabalho.shtml.Links ]

Buckingham, D. (2012). As crianças e a mídia: uma abordagem sob a ótica dos Estudos Culturais. Matrizes. 5(2), 93-121. Recuperado de https://www.redalyc.org/pdf/1430/143023787005.pdf.Links ]

Buckingham, D. (2006). Crescer na Era das Mídias: após a morte da infância. Recuperado de https://www.academia.edu/2748378/Crescer_na_era_das_m%C3%ADdias_eletr%C3%B4nicas.Links ]

Canguilhem, G. (1982). O Normal e o Patológico. Rio de janeiro, Brasil: Forense-Universitária. [ Links ]

Caponi, S. (2009). Biopolítica e medicalização dos anormais. Physis: revista de saúde coletiva, 19(2), 529-549. Recuperado de https://www.scielosp.org/pdf/physis/v19n2/v19n2a16.pdf.Links ]

César, J.M., Silva, F.H., Bicalho, P.P.G. (2013). O lugar do quantitativo na pesquisa cartográfica. Fractal: revista de psicologia. 25(2), 357-372, doi: https://doi.org/10.1590/S1984-02922013000200009Links ]

Cordelian, W., Gaitan, J. A., & Gomez, G. O. (1996). A televisão e as crianças. Comunicação & Educação, (7), 45-55, doi: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9125.v0i7p45-55.Links ]

Henrique, T. (2020). COVID-19 e a internet (ou estou em isolamento social físico). Interfaces Científicas-Humanas e Sociais, 8(3), 5-8. https://doi.org/10.17564/2316-3801.2020v8n3p5-8.Links ]

Idoeta, P. (2020, 23 de agosto). Crianças no celular? Como a pandemia mudou o modo como especialistas veem o uso de telas na infância. BBC News-Brasil. Recuperado de https://www.bbc.com/portuguese/geral-53774440.Links ]

Kamenetz, A. (2020, 27 de julho). I was a Screen-Time Expert. Then the Coronavirus Happened. The New York Times. Recuperado de https://www.nytimes.com/2020/07/27/parenting/children-screen-time-games-phones.htmlLinks ]

Latour, B. (2012). Reagregando o social: uma introdução à teoria do Ator-Rede. Salvador, Brasil: EDUFBA. [ Links ]

Leal, S. (2021). Sociedade informacional no Brasil à provação da pandemia do novo Coronavírus. Controversias Y Concurrencias Latinoamericanas, 12(22), 17-44. Recuperado de https://ojs.sociologia-alas.org/index.php/CyC/article/view/243.Links ]

(2001). A esperança de Pandora. Caxias do Sul, Brasil: EDUSC. [ Links ]

Leal, S. (2021). Sociedade informacional no Brasil à provação da pandemia do novo Coronavírus. Controversias Y Concurrencias Latinoamericanas, 12(22), 17-44. Recuperado de https://ojs.sociologia-alas.org/index.php/CyC/article/view/243.Links ]

Lourau, R. (1993). Análise Institucional e Práticas de Pesquisa. Rio de Janeiro, Brasil: UERJ. [ Links ]

Macêdo, S. (2020). Ser mulher trabalhadora e mãe no contexto da pandemia COVID-19: tecendo sentidos. Revista do NUFEN, 12(2), 187-204. https://dx.doi.org/10.26823/RevistadoNUFEN.vol12.n%C2%BA02resenha41.Links ]

Ministério da Educação (MEC). Portaria n.343 de 17 de março de 2020. Recuperado de https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Portaria/PRT/Portaria%20n%C2%BA%20343-20-mec.htm.Links ]

Moeller, G. (2014). Abuso de drogas e dependência. Medicina Net. 1-16. Recuperado de https://www.medicinanet.com.br/conteudos/acpmedicine/5734/abuso_de_drogas_e_dependencia.htm.Links ]

Mol, A. (2008). The logic of care: health and the problem of patient choice. London: Routledge. [ Links ]

Nicolaci-da-costa, A. M. (2002). Internet: a negatividade do discurso da mídia versus a positividade da experiência pessoal. À qual dar crédito? Estudos de Psicologia, 7(1), 25-36. doi: https://doi.org/10.1590/S1413-294X2002000100004Links ]

Passos, E., Kastrup, V. & Escóssia, L. (2009). Pistas do Método da Cartografia. Porto Alegra, Brasil: Sulina. [ Links ]

Sociedade Brasileira de Pediatria [SBP]. (2019). Manual de Orientação-Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital. Brasil. Recuperado de https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/_22246c-ManOrient_-__MenosTelas__MaisSaude.pdfLinks ]

Tamelini, M. G. & Mondoni, S. M. (2009) Dependência de Substâncias Psicoativas. Medicina Net. Recuperado de https://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/1545/dependencia_de_substancias_psicoativas.htm.Links ]

Unicef. (2017). Children in a Digital World. Recuperado de https://www.unicef.org/media/48601/file.Links ]

Vinuto, J. (2014). A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa: um debate em aberto. Temáticas, 22(44), 203-220. https://doi.org/10.20396/tematicas.v22i44.10977.Links ]

Wolf, M. (2019). O Cérebro no Mundo Digital: os desafios da leitura na nossa era. São Paulo, Brasil: Contexto. [ Links ]

Recebido: 24 de Janeiro de 2022; Revisado: 11 de Setembro de 2023; Aceito: 05 de Fevereiro de 2024

Beatriz Sancovschi: Professora Associada de Psicologia do IP/UFRJ e do PPGP/UFRJ, membro do Núcleo Cognição e Coletivos (NUCC). Com mestrado e doutorado pelo PPGP/UFRJ. Desenvolve pesquisas na área de cognição e produção de subjetividade a partir de abordagens corporificadas e situadas. E-mail:beatrizsancovschi@gmail.com. ORCID:https://orcid.org/0000-0001-5399-5580

Luciana Santos Guilhon Albuquerque: Psicóloga, Psicanalista. Membro Associada ao Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro. Doutora em Psicologia pelo PPGP/UFRJ. E-mail:luguilhon@yahoo.com.br. ORCID:https://orcid.org/0000-0003-0742-5338

Cassia Patricia Barroso Perry: Graduada em Psicologia pela UFRJ (CRP: 05/71728). Residente na Residência Multiprofissional em Saúde Perinatal da Maternidade Escola da UFRJ. E-mail:cassiaperry57@gmail.com. ORCID:https://orcid.org/0000-0001-9037-1240

Laura Freire Nasciutti: Graduanda do curso de Psicologia da UFRJ. E-mail:laurafnasciutti@gmail.com. ORCID:https://orcid.org/0000-0003-2991-7042.

Marina Teixeira Andrade: Graduada em Psicologia pela UFRJ (CRP: 05/70801). Atuação profissional em psicologia clínica. E-mail:marina.t.andrade@hotmail.com, ORCID:https://orcid.org/0000-0001-9395-9621,

Thalita Cristina Ferreira Martins: Graduada em Psicologia pela UFRJ (CRP: 05/74851). Atuação profissional em psicologia clínica. E-mail:thalitacfmartins@gmail.com, ORCID:https://orcid.org/0000-0001-8204-2949

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.