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Analytica: Revista de Psicanálise

versão On-line ISSN 2316-5197

Analytica vol.12 no.22 São João del Rei jan./jun. 2023  Epub 05-Set-2025

https://doi.org/10.69751/arp.v12i22.5178 

Editorial

Editorial

Thales Fonseca1 

1Editor-Assistente da Analytica: Revista de Psicanálise


O ano de 2023, pelo menos para os brasileiros, trouxe consigo um clima geral de novidade relativa. Novidade porque o que nos separa de 2022 não é in-significante. Relativa porque fruto de uma repetição. De fato, olhando em perspectiva, com relação aos últimos anos, a sensação é de que a história, por ora, parou de andar para trás. Para nossa fortuna, algum efeito de mudança já se faz sentir no universo acadêmico, o qual voltou a ter algum reconhecimento governamental e, nesse sentido, a ter garantidas as condições mínimas para se manter viva a construção rigorosa de conhecimento.

É sob novos ares, portanto, que a Analytica: Revista de Psicanálise, contando com uma nova avaliação (qualis B1) na classificação de periódicos da Capes, o que atesta a excelência de sua contribuição para a literatura psicanalítica nacional, dá à luz uma nova edição. Como já se tornou uma tradição no decorrer dos 12 volumes e 22 números que compõem sua história escrita – recheada de temáticas para todos os gostos e interesses, marcada pelo entrecruzamento crítico com outros campos –, mais uma vez a Analytica comprova que a Psicanálise não circula em circuito fechado.

Nela, as leitoras e os leitores encontrarão autores diversos, além de Sigmund Freud e Jacques Lacan, Sándor Ferenczi, Donald Winnicott, Lélia González, Lou Andreas-Salomé, Hélio Pellegrino, Fernand Deligny e Karl Marx. A amplitude dos temas segue a mesma toada: dentro e fora da clínica tradicional, vemos estudos sobre autismo (cuja relevância, na atualidade, se traduz na recorrência do tema neste número), adolescência, quadros clínicos conversivos, violência sexual, historiografia de nomes importantes para o movimento psicanalítico no Brasil e no mundo, feminismo, antirracismo e política revolucionária.

Em todo caso, apesar da multiplicidade imanente a esta edição, faz parte das virtudes de um editorial ser capaz de “contá-la por um”, ainda que a unidade daí deduzida seja sempre um tanto precária, não completamente totalizável, por assim dizer, não toda. Portanto, se podemos falar em um sentido geral para a composição dos artigos aqui presente, cuja polissemia irredutível torna-o passível de ser constantemente desestabilizado, acreditamos que ele se encontra no movimento traçado por seus manuscritos, que vão da clínica ao seu mais além.

Assim, a edição é aberta com o artigo intitulado “Autismo e alienação”, no qual a teorização sobre o trajeto contraditório de constituição do sujeito em sua relação com o Outro, proposta por Lacan, é lida pelas autoras por meio de elaborações derivadas da clínica do autismo. A densa discussão do primeiro artigo acaba por criar uma ponte para a leitura do segundo, “Relatos de familiares sobre autismo a partir da teoria lacaniana dos quatro discursos”, em que se encontra um estudo de caráter exploratório realizado com familiares de adolescentes diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista focado, sobretudo, nos efeitos de circulação dos discursos e de seus modelos sociais de parentalidade, no que tange à relação dos diferentes membros da família com o sujeito autista. Adiante, a discussão específica sobre autismo dá lugar a uma continuidade do debate sobre a prática com adolescentes em “Desamparo, clínica e política: prática psicanalítica com adolescentes em acolhimento institucional”, no qual a incidência dos marcadores sociais na clínica dita clássica, tão presente no trabalho com sujeitos em situação de vulnerabilidade, é demonstrada, explicitando assim a relação de indissociabilidade entre clínica e política.

Ainda no interior do universo freudo-lacaniano – se não quisermos desagradar os que defendem uma quebra de paradigma entre ambos, podemos falar “no interior do universo freudiano e lacaniano” –, encontra-se “Reflexões sobre um caso clínico de stroke mimic conversivo sob a perspectiva da Psicanálise”, que retoma a importante oposição entre quadros conversivos e de etiologia orgânica, verdadeiramente fundante nos primórdios da Psicanálise, mas relativamente pouco discutida pela literatura atual, em uma discussão de caso que dá o devido relevo à solução sintomática singular do sujeito atendido.

Nos dois artigos que se seguem, por sua vez, as leitoras e os leitores têm a oportunidade de desfrutar de abordagens não lacanianas. Em “Violência e Psicanálise: caminhos teóricos e possíveis modos de ruptura de ciclos de violências sexuais intrafamiliares”, temos uma relevante discussão, pautada sobretudo nas obras de Freud e Ferenczi, sobre o lugar do analista diante de vivências traumáticas decorrentes de violência sexual cometida na família, que, ao gerarem um pacto familiar de segredo que visam à autopreservação e sustentação dos vínculos, frequentemente culminam em um processo de transmissão psíquica e reprodução de um ciclo de repetição dessa violência entre gerações. Em “‘Eu matei minha mãe’: análise winnicottiana” é a vez de, como o próprio título já indica, Winnicott guiar uma análise fílmica em torno da relação ambivalente entre mãe e filho, tal como representada em quatro cenas emblemáticas do filme em questão, nas quais o conflito entre impulsos amorosos e agressivos é evidenciado. Se nesse manuscrito, baseado em uma obra cinematográfica, já é possível entrever a passagem da clínica ao seu mais além, daí em diante tal movimento se faz sentir de maneira cada vez mais explícita.

Desse modo, em “El lamento de Áyax: anotaciones sobre la condición humana actual desde el psicoanálisis aplicado al mito”, as leitoras e os leitores se deparam com uma reflexão original sobre a presença de traços da subjetivação neoliberal no mito grego de Ajax (narrado por Homero, Sófocles e Ovídio), no qual o autor aponta o personagem mítico como representante de um complexo psíquico presente na contemporaneidade, na esteira da operação teórica freudiana que propõe que o mito edípico é o representante por excelência dos conflitos estruturados pela família patriarcal. E como aludimos ao papel do patriarcado na constituição das relações de poder intrínsecas à família burguesa, tal como reconhecido pelo fundador da Psicanálise, não poderíamos deixar de ressaltar a importância dos dois manuscritos subsequentes.

O artigo “Lou Andreas-Salomé e Sigmund Freud: encontros e diferenças”, nesse sentido, se constitui como uma verdadeira denúncia da influência do machismo no estabelecimento do que é ou não considerado digno de interesse na literatura psicanalítica, empurrando para segundo plano as questões de ordem biográfica às quais o nome da psicanalista é geralmente associado e resgatando a relevância de Lou Salomé como teórica que contribuiu para temas diversos como sexualidade, amor, feminilidade, religião, constituição do eu, entre outros. A seguir, temos o entrecruzamento entre o pensamento de uma das mais brilhantes intelectuais da teoria social brasileira e a Psicanálise lacaniana no manuscrito “Do nome próprio à nomeação: diálogo com Lacan e Lélia González”, que, por meio de uma interlocução já inaugurada pela própria Lélia González, visa contribuir para uma escuta clínica atinente à estrutura racista e sexista da sociedade brasileira relegada pela colonização e, assim, efetivar a potencialidade subversiva atribuída à Psicanálise.

Já caminhando para o fim da edição, as leitoras e os leitores encontram mais dois artigos preocupados em dar o devido destaque para autores nem sempre reconhecidos pela comunidade psicanalítica. “Hélio Pellegrino: história de um inconformista radical” é, nesse sentido, um exercício exemplar de articulação entre os marcos da história de vida de um autor e a contextualização panorâmica de seus escritos, na qual a Psicanálise é tomada como um ponto de interseção privilegiado devido à maneira como ela perpassa a relação de Pellegrino com a política: seja em sua iniciativa de articulá-la ao marxismo e à teologia da libertação, seja na sua defesa da democracia no Brasil e da democratização da própria Psicanálise. Fechando a seção de artigos e concluindo a amarração do sentido aqui proposto para a edição, esbarramos em um manuscrito que, ao mesmo tempo em que dá continuidade à exploração da obra de autores improváveis, retoma a temática que abre a edição: “O humano e a linguagem: ressonâncias da Psicanálise na rede de Fernand Deligny com crianças e jovens ditos autistas” apresenta a influência, ainda que ambígua, da Psicanálise na escrita de Deligny e na criação de uma rede de acolhimento para crianças autistas no sul da França.

Para (des)completar, as leitoras e os leitores são ainda presenteados com uma resenha crítica, vinda em boa hora, do livro Marxismo, Psicanálise, Revolução, organizado por Christian Dunker, Heribaldo Maia e Jones Manoel, intitulada “Marxismo e Psicanálise: uma articulação possível rumo à revolução brasileira”, na qual o confronto entre Psicanálise e marxismo por meio do horizonte comum da revolução é apresentado em um texto-intervenção que aposta na urgência da crítica em relação ao que limita a imaginação política e o engajamento subjetivo na edificação de uma experiência social que se atreva a se apresentar como novidade não apenas relativa.

Cientes do alto nível dos escritos aqui reunidos, desejamos a todas e todos uma boa leitura!

Thales Fonseca

Editor-Assistente da Analytica: Revista de Psicanálise

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