Recentemente, temos vivido sob o domínio de um discurso científico cada vez mais rígido que, por um lado, promove avanços importantes, mas, por outro, tem se movimentado em um espaço limitado de caráter positivista, tomado por significantes como “experimento”, “evidências” e “pseudociência”. Dentre as consequências mais notáveis, vemos as ciências humanas ocuparem um lugar gradativamente mais marginalizado dentro dos debates científicos e universitários. Com a psicanálise não seria diferente, pois desde seus primórdios, intensos debates foram traçados colocando-a na berlinda das discussões científicas.
Sem dúvidas, a relação entre a psicanálise e a ciência acontece entre aproximações e distanciamentos, e não podemos negar que essas contendas, que se sustentam pela via do saber, colocam em jogo a diferença existente entre o ensino e a transmissão: enquanto o ensino parte de uma lógica agenciada por um saber teórico – que caracteriza o discurso da ciência –, a transmissão guarda a parcela do saber que pode ser veiculada pela via ética do desejo, de onde parte o discurso analítico. É no entrecruzamento possível entre o ensino e a transmissão que a Analytical Revista de Psicanálise apresenta mais uma edição, mantendo seu compromisso com a divulgação do conhecimento científico, sem perder de vista o caráter desejante da transmissão psicanalítica.
Nesse sentido, nesta edição contamos com produções diversas que tecem suas elaborações impulsionadas pelo desejo de saber, sem, contudo, deixar de lado o comprometimento com a dimensão crítica que circunda a construção da pesquisa científica. Desse modo, abrimos o volume 12, número 23, com o artigo Silêncio sobre a contribuição da produção psicanalítica de Hélio Pellegrino, que traça um panorama sobre as obras do psicanalista brasileiro, questionando a amnésia social de suas contribuições teóricas em território nacional. Em seguida, A atualidade de Karen Horney: reflexões epistemológicas mantém a posição crítica sobre a produção psicanalítica ao reconhecer um diálogo fecundo da psicanalista com estudos brasileiros atuais, além de identificar a proximidade com os debates feministas e de gênero.
A partir do reconhecimento de reflexões epistemológicas importantes, o texto sobre Horney abre caminhos para discussões conceituais significativas, como é o caso de As chaves de Dora, as chaves do texto, no qual o autor reconhece no campo lexical da palavra “chave” uma verdadeira chave de leitura para o paradigmático caso freudiano. Posteriormente, em Dos rumos da análise: construções e reconstruções de uma história singular a partir da interpretação em Lacan, o conceito de interpretação é trabalhado em sua relação com a função do Eu, ou seja, demarca a posição lacaniana de retorno à Freud a partir da qual o processo de uma análise não visa o fortalecimento do Eu, mas sim a manutenção de um vazio fundamental como espaço de criação do sujeito.
Partindo do trabalho do conceito, damos lugar a dois artigos que apresentam discussões teórico-clínicas no campo das psicoses e das toxicomanias. A psicose em Lacan: mutações da teoria a partir da clínica, se baseia no argumento importante do entrecruzamento constante entre a teoria e a clínica e nos apresenta a evolução das definições da psicose em Lacan nas décadas de 1950 e i960, tomando como principal diferença a introdução do conceito de objeto a, que modifica a relação anterior existente entre a psicose e a foraclusão do Nome-do-pai. Posteriormente, em Entre o trauma e a toxicomania, o que resta do sujeito?, a autora apresenta um estudo de caso de toxicomania, no qual evidencia a reincidência do trauma a partir das repetições produzidas pelo sujeito. A discussão é balizada pela maneira de acesso à droga e pela relação do sujeito com o Outro e com o gozo, além de trazer à cena as possibilidades da escuta analítica dentro das instituições.
Encerrando a trama conceitual, mas ainda tomados pelo fio do sujeito, apresentamos um diálogo profícuo entre a psicanálise e a lógica no texto Sobre a função sujeito: um diálogo entre Lacan e Frege. Nele, encontramos o trabalho de aproximação, feito por Lacan, entre a noção de função fregiana e a formalização do sujeito da psicanálise. A partir desse recorte, os autores pretendem evidenciar a importância que a aproximação lacaniana ao campo da lógica propiciou para os avanços teóricos da psicanálise de Lacan, principalmente no seu aspecto de formalização da teoria.
Por fim, o último eixo desta edição promove elaborações que tramam as ideias de narcisismo e corpo. Começamos por Adolescências e mídias digitais: alguns desdobramentos possíveis, no qual a reorganização narcísica necessária da adolescência é discutida sob a perspectiva dos impactos das redes sociais, tomadas como dispositivos contemporâneos com papel importante na elaboração psíquica dessa fase do desenvolvimento. Em seguida, em Maternidade e o bebê imaginário, o narcisismo é trabalhado na direção materna, mais especificamente no investimento libidinal da mãe em relação ao bebê em sua construção imaginária; Construção essa que, depois do nascimento e do contato com o bebê real, precisa passar por um trabalho análogo ao trabalho de luto, para que a idealização da mãe dê lugar à constituição psíquica própria e singular do bebê. A importância da posição subjetiva própria da criança é trabalhada com destaque n’0 autismo no espelho, texto no qual os autores discutem o diagnóstico de autismo sob a ótica da psicanálise que, diferentemente dos critérios utilizados no DSM, coloca em destaque as relações entre corpo, palavra e 2Outro em suas observações clínicas.
Como último ponto tecido no fio desta edição, contamos com O corpo na encruzilhada: entre o saber e o fora-de-sentido, título interessante para a resenha do livro Corpo e clínica psicanalítica: teoria e prática. Nela, o autor destaca a importância teórico-clínica da noção de corpo para a psicanálise e aponta de que modo a obra traça as diferenças entre o sintoma, o fenômeno psicossomático e o acontecimento de corpo, dando ênfase principal nesse último.
Assim, diante de todos esses trabalhos que circulam moebianamente entre o saber e o conhecimento, entre o ensino e a transmissão, ou entre a psicanálise e a ciência, desejamos aos leitores que seja possível extrair daqui algum tipo de saber que possa funcionar como causa subjetiva. Causa essa capaz impulsioná-los a traçar construções singulares de pesquisa, pois acreditamos que a trama que tece um bom texto científico se amarra por entre os fios da ciência e do desejo.
Boa leitura!
Helena Caversan













