As décadas de 1920 e 1930 trouxeram para a Psicanálise, em tempos de consolidação na Europa e expansão para outros continentes, as marcas da discussão sobre feminilidade, sexualidade feminina e diferença sexual. Certamente ainda não se falava no conceito de gênero tal como o conhecemos, tendo em vista seu surgimento posterior tanto nos movimentos sociais quanto no meio acadêmico. Mesmo assim, começava a se formar uma discussão que continua, em seus devires e transformações, até hoje.
Nesse contexto, Karen Horney foi uma autora de destaque. Embora outras autoras e autores tenham discutido tais temáticas amplamente (Rosa & Weinmann, 2020), na produção de Horney, elas tiveram lugar privilegiado na época mencionada, a saber, a década de 1920 e o início da década de 1930. A autora foi pioneira ao traçar críticas aos atravessamentos de ideais culturais patriarcais no psiquismo e também na teorização psicanalítica (Silva & Ferrari, 2022).
Horney era uma psicanalista alemã nascida em 1885 e foi uma das primeiras integrantes do Instituto Psicanalítico de Berlim, onde praticava a Psicanálise atendendo e lecionando (Paris, 1994). Em 1932, foi convidada por Franz Alexander, psicanalista húngaro que emigrou para os Estados Unidos, para que fosse ao país com o intuito de ser a diretora do recém-criado Instituto Psicanalítico de Chicago (Alexander et al., 1966). Em 1934, mudou-se para Nova Iorque, onde morou até o fim da vida. Nessa cidade, praticou a Psicanálise atendendo clinicamente, lecionando, dando palestras e produzindo e publicando textos. Foi integrante do Instituto Psicanalítico de Nova Iorque até 1941, quando se afastou e fundou a própria instituição, com outros colegas, o Instituto Americano de Psicanálise, que ainda hoje está em funcionamento (Gilman, 2001). Viveu até 1952.
Na década de 1920, muitas das produções de Horney se voltaram a pensar uma feminilidade que não se ancorasse necessariamente em um referencial masculino (Silva & Ferrari, 2022). A autora criticava o fato de que a teorização psicanalítica até aquele momento baseava-se quase unicamente no ponto de vista da constituição psicossexual do menino, o que já tinha sido apontado por Freud (1923/1996). Ou seja, até o início da década de 1920, a feminilidade era tomada como um oposto, um inverso, um negativo do modelo já estabelecido da constituição do menino.3 Horney (1923/1991) sugeria que isso se dava em grande parte devido ao fato de a maioria dos autores de textos de psicanálise até aquele momento serem homens.
Dadas essas circunstâncias, a produção inicial de Horney sobre o tema teve enfoque na crítica da inveja do pênis como chave única de leitura para a constituição da feminilidade (Horney, 1923/1992; 1926/1991) e na consequente tentativa de esboçar uma leitura sobre a feminilidade que partisse dela própria. Nesse primeiro momento de sua obra, afirmava uma feminilidade específica por meio de uma leitura bastante análoga à freudiana, porém sustentando-se em uma leitura do corpo que passava pelo útero, a vagina, a capacidade de gestar (Horney, 1923/1991; 1926/1991; 1933/1991). Falava, por exemplo, em uma “inveja do útero”, termo pelo qual ficou conhecida posteriormente em movimentos feministas.
Contudo, sua produção teórica passou por uma transformação que se direcionou cada vez mais a pensar o lugar da cultura na constituição psíquica e na produção teórica da Psicanálise (Paris, 1994). A própria autora nota essa mudança de paradigma e comenta que sua migração para os Estados Unidos, onde viveu em uma cultura bastante diferente da sua, lhe trouxe novas reflexões (Horney, 1939/1966). Aproximando-se da década de 1930, seus textos passam a enfocar gradativamente o lugar da mulher na cultura europeia, a introjeção de ideais patriarcais desde cedo na constituição psíquica e a crítica à universalidade na teoria psicanalítica. Nessa esteira, apontou que Freud, mesmo em sua genialidade que provocou rupturas com o pensamento de sua época, não deixava de ser formado pela tradição da modernidade europeia do século XIX, e que o reconhecimento dessa influência serviria para impulsionar a Psicanálise em direção a novos rumos que não buscassem a universalização de conceitos criados, em sua maioria, tendo como sujeito o homem de classe média da Europa Ocidental (Horney, 1939/1966). Em consonância com isso, passou a dar destaque às contingências particulares de cada cultura na produção da feminilidade:
A mulher norte-americana é diferente da alemã e ambas são diferentes de uma índia da tribo Pueblo. A mulher da sociedade de Nova York é diferente da esposa do fazendeiro de Idaho. O que esperamos poder compreender é a maneira pela qual condições culturais específicas engendram qualidades e faculdades, também específicas, tanto no homem quanto na mulher. (Horney, 1939/1966, p. 99).
Nesse momento posterior da obra de Horney, a autora questiona o próprio conceito de feminilidade e a preocupação exacerbada da produção teórica da época em estabelecer fronteiras bem delimitadas em relação à diferença sexual. Para ela, o interesse exagerado no estudo da feminilidade dizia respeito a disputas políticas e econômicas que tinham como objetivo atribuir a uma suposta “natureza feminina” as condições de subjugação de mulheres que tinham como origem, na realidade, conflitos culturais. Em uma palestra de 1935, afirma:
De uma vez por todas devemos parar de nos incomodar com o que é feminino e o que não é. Essas preocupações só consomem nossas energias. Padrões de masculinidade e feminilidade são padrões artificiais. Tudo que podemos saber com certeza no presente sobre as diferenças sexuais é que não sabemos quais são. Diferenças científicas entre os dois sexos certamente existem, mas nunca conseguiremos descobrir quais são até termos primeiro desenvolvido nossas potencialidades enquanto seres humanos. Ainda que pareça paradoxal, vamos descobrir sobre essas diferenças apenas se esquecermos delas. (Horney, 2022, p. 02).
Em Construções em análise,Freud (1937/1988, p. 277) sublinha que aquilo que nos constitui não está relegado ao passado: ao levar em conta o inconsciente, a temporalidade assume outra dimensão e “mesmo coisas que parecem completamente esquecidas estão presentes”. A história se ressignifica o tempo todo, repete-se, elabora-se, destrói-se e constrói-se. No devir da constituição da Psicanálise como campo, as contribuições de pioneiras podem ser tomadas para além do passado e ressignificadas a partir das interrogações que surgem como novidade. De forma recíproca, as discussões atuais podem reposicionar-se no encontro com o passado, apontando um percurso e uma historicidade nem sempre óbvios, sobretudo no que tange aos entrelaçamentos com estudos de gênero e feministas. Dessa forma, retomar a produção de Horney pode servir para relançar questões que ecoam de seus escritos e movimentar a Psicanálise na atualidade.
Nesse sentido, a partir da leitura da obra de Horney,4 pensamos ser possível traçar caminhos de suas contribuições até algumas discussões contemporâneas que vêm permeando a Psicanálise brasileira nos últimos tempos, principalmente no que diz respeito a reflexões epistemológicas. Sendo assim, o objetivo deste artigo foi construir ligações entre algumas colocações de Karen Horney e questões contemporâneas que perpassam a Psicanálise, especialmente em seu encontro com os estudos de gênero e feministas.
Breve panorama sobre Psicanálise e discussões relacionadas a “gênero”
Em função dos estudos de textos de Horney, notamos que algumas de suas produções oferecem reflexões sobre a construção de conhecimento na Psicanálise e o lugar da(o) pesquisador(a) nesse processo, em especial no que concerne à interface com os estudos feministas e de gênero, além de algumas interlocuções possíveis com estudos decoloniais. Nesse sentido, salientamos que as elucubrações trazidas neste artigo resultam de um trabalho que visa a associar algumas propostas dessa autora pioneira com discussões epistemológicas atuais, para que possamos lançar luz aos aspectos em que as produções de Horney podem manter-se relevantes ainda hoje. Para tal, traremos alguns autores e autoras contemporâneos para a discussão.
Uma revisão bibliográfica das produções psicanalíticas brasileiras que dialogam com estudos de gênero e queer no período de 2010 a 2018 (Cavalheiro, 2019) identifica um crescimento exponencial nas publicações com essas temáticas. Via de regra, no período mencionado, trata-se de estudos de orientação freudolacaniana com marcada interlocução com um texto específico de uma autora americana: o livro Problemas de gênero, de 1990, de autoria de Judith Butler. Nota-se, portanto, um viés bastante específico nas produções brasileiras recentes sobre as articulações entre Psicanálise e os outros campos mencionados.
Em geral, é comum que psicanalistas apontem as divergências entre Psicanálise, feminismos e estudos de gênero e decoloniais, enfatizando diferenças epistemológicas e metodológicas entre os campos, principalmente no que tange às vertentes freudolacanianas (Ambra, 2018). A partir dessa postura, almeja-se sustentar que a Psicanálise não se debruça sobre uma suposta sociologização do sujeito que acompanharia as discussões sobre conceitos como “gênero” e deixaria de lado sua determinação simbólica, que teria especificidades ao abordar o sujeito que seriam incompatíveis com os demais campos, ou seja, marcam o afastamento da Psicanálise em relação às discussões suscitadas por estudos de gênero e feministas.
É curioso comentar, nesse ponto, que crítica semelhante partiu de Lacan (1958/1978) em relação a Horney em uma das raras menções do autor a ela, sugerindo que a autora trazia uma discussão “culturalista” demasiado focada em fenômenos sociais que se afastaria da Psicanálise: “Precisemos que esta relação do homem ao significante, como tal, nada tem a ver com uma posição ‘culturalista’ no sentido comum do termo, aquela que Karen Horney, por exemplo, se via anunciando na querela do falo pela sua posição qualificada por Freud de feminista” (Lacan, 1958/1978, p. 266).
Dessa forma, cria-se a leitura de que a discussão de elementos culturais concernentes às teorizações sobre a diferença sexual na Psicanálise se torna uma visão sociológica redutivista e identitária, que não levaria em conta conceitos fundamentais da Psicanálise como inconsciente e desejo.
Ambra (2018) aponta que a defesa, por parte de um certo discurso psicanalítico, da diferença sexual como baluarte definitivo da Psicanálise e sua recorrente confusão com uma suposta realidade do corpo anatômico cria barreiras para a interlocução entre Psicanálise e estudos feministas e de gênero a partir da tentativa de sustentar um purismo do campo psicanalítico. Constatamos, assim, uma força discursiva na psicanálise que busca afastar-se dos estudos feministas e de gênero, atacando suas supostas premissas:
Da acusação de uma postura discursivamente histérica nas demandas do feminismo, passando pela tentativa de apagamento da diferença dos sexos e pela suposta postura voluntarista e muito afim da ego psychology no campo do gênero, tal discurso afirma, reiteradamente, a especificidade, primazia e até mesmo uma superioridade da Psicanálise em relação a tais saberes. Mais ainda, para os menos indiferentes, tal encontro seria potencialmente nefasto para a teoria analítica, na medida em que tanto o feminismo quanto as teorias de gênero apoiam-se numa causalidade social e cultural [...]. (Ambras, 2018, p. 82).
Para Preciado (2022), a Psicanálise, em grande parte, ignora que as construções psicanalíticas partem de uma epistemologia da diferença sexual em opostos binários que descende da tradição psiquiátrica do século XIX e que há décadas está posta em crise. Ou seja, diversos construtos psicanalíticos tiveram como origem uma leitura sobre o anatômico que se ancora na diferença sexual como um dado natural, não levando em consideração que “[...] o regime da diferença sexual é uma epistemologia histórica, um aparato técnico-científico, que nunca existiu e que está sujeito, como toda epistemologia, a críticas e mudanças” (Preciado, 2022, p. 52). O autor sublinha o fato de que a Psicanálise surgiu justamente em meio à consolidação do paradigma da diferença sexual e das oposições binárias que passaram a hierarquizar a sociedade europeia colonial e burguesa, como homem/mulher, pai/mãe, primitivo/evoluído, heterossexualidade/homossexualidade.
Cabe salientar, nesse ponto, que o paradigma da diferença sexual em dois sexos nem sempre foi predominante para a leitura dos corpos. Laqueur (2001) pontua que a tradição da Antiguidade tomava apenas o corpo “masculino” como paradigma, no qual havia variações em espectro: do mais quente ao mais frio, do mais perfeito ao mais imperfeito, do mais divino ao mais terreno. Nessa chave de leitura, a mulher era pensada como um corpo que não atingiu o patamar de homem devido à falta de calor, o que consequentemente fazia com que seus órgãos reprodutivos não se voltassem para fora, mantendo-se no interior do corpo. Portanto, havia uma variação em um mesmo espectro, que incluía certa mobilidade, e não uma diferença radical. Não havia terminologia específica para ovários e clitóris, por exemplo, e a vagina era entendida como um pênis invertido e voltado para dentro, como pontuado por Laqueur (2001) e lembrado por Preciado (2022).
Mediante diversos fatores sociais, políticos e epistêmicos, por volta do século XVIII, passou-se a conceber o corpo pelas lentes da diferença sexual, de um dimorfismo biológico que separa radicalmente homem e mulher e torna-se paradigma para organizar a cultura patriarcal e colonial. Laqueur (2001) nota, então, a prolixidade de discursos sobre “a mulher”, esse outro do sujeito universal masculino, a partir do fim do século XVIII. Essa pontuação encontra ressonância na já mencionada crítica de Horney ao interesse exacerbado no estudo da feminilidade como efeito de disputas políticas e sociais, mais do que um simples interesse científico. Trata-se, como afirma Preciado (2022), da tentativa de delimitação desse “objeto de estudo” como forma de sustentar uma epistemologia política específica, a saber, a da diferença sexual como fundamento do patriarcado colonial.
Também Ayouch (2015) defende que a Psicanálise e suas produções sobre diferença sexual não sejam tomadas como a-históricas, mesmo aquelas que, supostamente, se afastam de uma leitura do corpo biológico: “Quando se sai desse naturalismo que essencializa, como fazem vários lacanianos, se remete, porém, a uma primazia des-historicizada do Simbólico e da Lei” (Ayouch, 2015, p. 25). Assim, ao reconhecer a tradição da epistemologia da diferença sexual na Psicanálise, não se trata mais de negar que essa leitura do anatômico a perpassa, mas de submeter esse perpassamento à análise no esforço de um devir epistemológico no campo.
Como mencionado, desde a década de 1920, a Psicanálise é amplamente transpassada por discussões abertas sobre possíveis vieses de gênero em suas produções. Embora isso seja pouco reconhecido, a Psicanálise esteve desde o início em constante diálogo com discussões caras aos estudos de gênero e feministas, e recentemente isso vem se intensificando à luz de questionamentos contemporâneos (Cavalheiro, 2019). Como resposta a tais questionamentos, criam-se diversos embaraços nas produções psicanalíticas que buscam abordar teorizações e especificidades na escuta de pessoas transgêneras, por exemplo.5 É comum nos depararmos com leituras que alocam pessoas trans nas categorias estruturais de psicose ou perversão (Stona, 2019), mesmo sabendo que o diagnóstico em Psicanálise só se dá em transferência a partir da escuta de um sujeito em sua singularidade, então seria epistemologicamente – e metodologicamente – incompatível com a Psicanálise pensar um diagnóstico baseado apenas da identidade de gênero de uma pessoa. Entretanto, ainda é recorrente a leitura de que pessoas trans negam o “real do corpo” e da castração, e de que os estudos de gênero trabalham com um voluntarismo que não levaria em conta o desejo inconsciente, principalmente tomando como referência estudos freudolacanianos que estão em evidência no Brasil concernentes às interlocuções entre Psicanálise e gênero (Ambra, 2018; Cavalheiro, 2019).
Entendemos, com base em nossa leitura de Karen Horney, que podemos pinçar de seus textos algumas pistas que convergem com debates atuais no campo dos estudos feministas e de gênero em seus enlaces com a Psicanálise. Com isso, ressaltamos a presença, no cerne da Psicanálise, de discussões plurais desde o início sobre o modo psicanalítico de abordar a diferença sexual e a feminilidade. Tendo em vista que críticas e propostas que questionam alguns pressupostos psicanalíticos foram produzidas já há um século na própria Psicanálise, por psicanalistas como Horney, cai por terra o argumento referente às divergências insuperáveis entre Psicanálise, feminismos e estudos de gênero.
Sendo assim, não se trata de diferenças fundamentais entre os campos que impedem a incorporação de novas reflexões, mas de escolhas específicas de correntes da Psicanálise em manter certas construções epistemológicas normativas. A seguir, buscaremos discorrer sobre algumas reflexões epistemológicas suscitadas pela obra de Horney que podem contribuir para essa discussão, no sentido de apontar formas de abordar a construção de conhecimento que abarcam a hibridez com outros campos, as especificidades culturais e a subjetividade do(a) pesquisador(a) – temas caros para a atualidade no terreno dos feminismos e estudos de gênero e que estão agitando também a Psicanálise.
O lugar do agente da produção do conhecimento e a ausência de neutralidade
Como mencionado, Horney (1923/1991; 1926/1991) indicou que as produções sobre feminilidade eram feitas, à sua época, majoritariamente, por homens. Isso era um fato facilmente constatável, mas não suscitava, necessariamente, problematizações no meio acadêmico. A produção do conhecimento era, quase sempre, realizada pelos mesmos agentes, marcados por aspectos sociais, históricos e geográficos específicos: homens brancos europeus em concordância com a cisheteronormatividade. Nessa tradição, aponta Haraway (1995), instaurou-se a ideia de um sujeito supostamente universal, silencioso e não nomeado, ao redor do qual a produção de conhecimento poderia gravitar, tomando as demais subjetividades como “outras”, como local da diferença:
Este é o olhar que inscreve miticamente todos os corpos marcados, que possibilita à categoria não marcada alegar ter o poder de ver sem ser vista, de representar, escapando à representação. Este olhar significa as posições não marcadas de Homem e Branco, uma das várias tonalidades desagradáveis que a palavra objetividade tem para os ouvidos feministas nas sociedades científicas e tecnológicas [...]. (Haraway, 1995, p. 18).
Portanto, criou-se uma noção de objetividade e neutralidade na produção de conhecimento, na qual ao sujeito dito universal era dado produzir saberes de acordo com sua perspectiva, tomando as subjetividades ditas “outras” como objeto de estudo, num movimento próprio à modernidade colonial (Preciado, 2022).
As discussões sobre quem ocupa o lugar de agente na produção de conhecimento tomaram corpo no meio acadêmico principalmente com a participação de subjetividades não inclusas no referencial de sujeito universal. Inicialmente, ainda a partir de um privilégio racial e de classe, esse movimento se deu com a entrada de mulheres brancas europeias de famílias abastadas em universidades e circuitos intelectuais. Podemos situar Karen Horney nesse momento, que ingressou na universidade em uma turma recémaberta para mulheres na Alemanha, reflexo das reivindicações feministas europeias da época.
Isso não significa que tais discussões foram criadas no âmbito acadêmico e intelectual. Pelo contrário, o apontamento das implicações epistemológicas sobre o fato de o conhecimento ser em grande escala construído por grupos favorecidos por estruturas da modernidade colonial vinha se manifestando desde muito antes, isso considerando apenas o que chegou a ser registrado. Em 1851, por exemplo, Sojouner Truth questionou, em assembleia, as narrativas criadas em torno da mulher branca e europeia que afirmavam uma ideia universal de mulher (Ribeiro, 2017). Apontou, também, os atravessamentos raciais e de classe que se manifestavam nas próprias reivindicações de movimentos feministas brancos, o que coloca em relevo a importância de uma leitura decolonial para a complexificação das abordagens feministas. Essa manifestação também demonstra a antecipação, na cultura e nos movimentos sociais, de discussões que tocam a academia somente mais tarde, principalmente a partir de intelectuais negras.
Considerando o imbricamento entre produção de conhecimento e movimentos sociais e políticos, podemos pensar que as colocações de Horney não foram meramente inovações suas: derivaram de uma ampla problematização sobre o lugar da mulher na cultura europeia ocidental que esteve em relevo em seu tempo. Ademais, para uma reflexão epistemológica sobre a construção de saber no campo psicanalítico, Horney deixou de lado discussões fundamentais, pois sua ênfase recaiu sobre o lugar da mulher, sem sublinhar ou levar em conta aspectos raciais e de classe, por exemplo.
Conquanto a Psicanálise não trabalhasse com uma ideia positivista de neutralidade na produção de conhecimento a partir do advento do inconsciente, os marcadores sociais da diferença que perpassam a construção de um saber não faziam, ainda, parte das discussões psicanalíticas sobre neutralidade. A respeito da neutralidade na Psicanálise, Horney (1952/1992, p. 33) afirma que a “objetividade fria” que geralmente se associava à proposta científica, do maior afastamento subjetivo possível do pesquisador, é incompatível com a proposta psicanalítica. Mesmo quando a própria Psicanálise buscava corroborar suas teorizações de forma empírica, ancorando-se na experiência clínica, Horney (1926/1991) chamava a atenção para o fato de que toda experiência é perpassada por uma subjetividade e por leituras teóricas, não refletindo dados concretos e incontestáveis:
Portanto, devemos voltar à questão que propus – se o notável paralelismo que indiquei não será talvez a expressão de unilateralidade de nas nossas observações, por serem feitas a partir de perspectiva masculina. Tal sugestão depara-se imediatamente com um protesto interior, pois nos lembramos do terreno firme das experiências em que sempre se fundamentou a pesquisa analítica. Ao mesmo tempo, porém, nosso conhecimento científico nos diz que este terreno não é totalmente confiável, mas que toda a experiência, por sua própria natureza, contém algum fator subjetivo. Portanto, até mesmo nossa experiência analítica deriva-se de observações diretas do material que nossas pacientes trazem para a análise em livres associações, sonhos, sintomas, e das interpretações que fazemos ou conclusões que tiramos de tudo isto. (Horney, 1926/1991, p. 55).
O trecho apresenta a visão de Horney de que a pesquisa em Psicanálise se dá no encontro entre o que se apresenta como objeto de pesquisa – exemplificado no texto pelas manifestações do inconsciente em análise – e a subjetividade de quem pesquisa, marcada também pelo seu lugar no social, o que sublinha a importância de poder dirigir novos olhares mesmo ao que já parece ser consolidado pela experiência. A autora sugere, assim, o abandono da repetição de concepções teóricas de maneira acrítica, para que possamos nos deixar interpelar por novas experiências e renovar a teoria: “A ciência tem constatado ser proveitoso olhar de nova perspectiva os fatos com os quais estamos há muito familiarizados. Caso contrário, existe o perigo de continuarmos involuntariamente a classificar nos mesmos grupos de ideias nitidamente definidos todas as novas observações que fizemos” (Horney, 1926/1991, p. 52).
Podemos notar que Karen Horney não apenas auxiliou na construção de uma discussão antiga e sempre atualizada, principalmente quando analisamos a relação da Psicanálise com a universidade, sobre Psicanálise e Ciência, mas também colaborou com novos elementos quando apontou que a subjetividade que perpassa a produção de conhecimento não se refere a um conceito abstrato e universal. Os diferentes lugares ocupados em uma determinada cultura e a concretude dos corpos que ocupam o lugar de agentes da produção de conhecimento, discutidos por Horney em relação à produção feita apenas por homens, também são fatores a serem levados em conta em uma reflexão epistemológica no cerne da Psicanálise. Assim, sua obra apresenta o embrião de uma reflexão abandonada por muito tempo pela Psicanálise mais difundida no Brasil e retomada apenas recentemente, demonstrando que a Psicanálise pode, sim, atentar-se a quem produz o conhecimento e quais os efeitos disso em seu corpo teórico-clínico.
Constatamos, nessa esteira, o surgimento, ainda que tímido, em eventos de instituições psicanalíticas e universidades debates sobre a implementação de ações afirmativas nos cursos de formação das instituições de Psicanálise. Apesar da notória e já relativamente antiga contribuição de Gonzalez (1984) no que tange ao apontamento da denegação do racismo no Brasil por meio do mito da democracia racial, que reforça ideais racistas, a produção psicanalítica brasileira tem se ocupado mais amplamente dessa questão apenas recentemente. Isso se reflete no fato de que a maioria das instituições de Psicanálise brasileiras ainda não se movimentou no sentido de ampliar e incentivar o acesso de pessoas negras em seus espaços.
A necessidade de recorrer a outros campos do conhecimento
A abertura da Psicanálise a outros campos do conhecimento está no cerne mesmo de seu surgimento (Ambra, 2018; Ayouch, 2019). Freud era médico neurologista, estudou com Charcot e frequentou a Salpêtrière, centro da Psiquiatria europeia do século XIX, convocou a literatura, a mitologia, a Antropologia e a Biologia em diversos textos, versou sobre as religiões em tantos outros. A Psicanálise nunca foi uma teoria fechada em si mesma com pretensões totalizantes. Nessa esteira, Ayouch (2019) destaca a importância da hibridez como método transdisciplinar, não apenas como diálogo, aplicação ou uso de ferramentas de outro campo, mas como troca que produz imbricações e efeitos de transformação sobre as disciplinas envolvidas.
Todavia, talvez pela necessidade que teve desde o princípio de se defender de diversos ataques, tanto dos moralistas quanto dos que alegavam sua falta de cientificidade e buscavam, com isso, enquadrá-la no charlatanismo, a Psicanálise por muitas vezes tentou afirmar-se como campo legítimo do conhecimento a partir de um fechamento às interpelações advindas de outros campos, conforme a própria Horney (1939/1966) comenta em um de seus textos. Ao contrapor-se a essas críticas, a autora refutou a noção de que a Psicanálise é fechada em si mesma ou fornece interpretações irrefutáveis. Como Freud (1937/1988), ela sustenta que a Psicanálise se afasta das terapias de sugestão, que nenhuma interpretação é arbitrária e imposta ao paciente e que as formulações teóricas devem passar pelo crivo da experiência analítica, na transferência, estando sempre abertas à possibilidade de revisão.
Entretanto, mesmo como defensora da Psicanálise, Horney (1939/1966) faz suas ressalvas, tendo ela própria feito críticas contundentes ao campo, como acompanhamos ao longo deste artigo. A autora compreende que certas premissas da Psicanálise são profundamente perpassadas por preconceitos culturais que devem ser questionados e revistos para que a Psicanálise possa se atualizar. Nessa seara, vimos que as críticas de Horney se voltam especialmente às questões relativas às teorizações sobre a feminilidade e a diferença sexual, mas não só. A autora tece também, por exemplo, a crítica à psicanálise em relação à explicação de fenômenos culturais pelas lentes das teorizações sobre a neurose, advertindo, contudo, que sua crítica não pressupõe o abandono da Psicanálise:
As polêmicas que surgem por causa dessas incursões nos campos sociológicos e antropológicos procuram, às vezes, desacreditar a Psicanálise, chamando a atenção para a temeridade de suas generalizações em assuntos culturais. Isso não tem razão de ser. Tais generalizações são meros reflexos de certos princípios discutíveis da Psicanálise, e nada têm a ver com aquilo que a Psicanálise realmente tem a oferecer. (Horney, 1939/1966, p. 139).
Para Horney, a problematização de algumas premissas psicanalíticas não tem um objetivo meramente destrutivo, mas criar possibilidades para um devir da Psicanálise que permita a constante movimentação e reinvenção da teoria, afastando-se sempre do lugar dogmático que é incompatível com o campo. Conquanto defenda que a Psicanálise tem muito a oferecer, não se esquiva de refletir sobre as críticas recebidas, ela própria criticando algumas das abordagens psicanalíticas em relação à cultura, por exemplo. Em vez de uma incursão em outras áreas para impor uma ideia preconcebida, Horney (1939/1966, p. 141) defende que a Psicanálise deve compor com outros saberes, reconhecendo suas limitações e possibilidades: “O sociólogo apenas pode dar informações a respeito da estrutura social de uma dada cultura, ao passo que o analista só pode informar a respeito da estrutura de uma neurose. A única maneira de vencer a dificuldade é trabalhar em cooperação”.
Com isso, Horney não afirmava que a Psicanálise não poderia ter nada a dizer sobre uma estrutura social; ela própria, inclusive, o fez, como vimos anteriormente. A partir da Psicanálise, pôde contribuir para leituras da estrutura patriarcal que perpassava a constituição psíquica e também as construções teóricas sobre feminilidade e diferença sexual, na Psicanálise e em outros campos. O alerta de Horney é para o cuidado na aproximação com outros campos, para que a Psicanálise não pretenda uma inserção unilateral, que promova uma aplicação da teoria, ou uma superioridade em relação a outros saberes. Além disso, para ela, a Psicanálise precisa se deixar interpelar pelas produções de outras áreas de forma crítica, mesmo que isso signifique repensar alguns aspectos da teoria psicanalítica.
Nesse ponto, Horney não parecia estar se contrapondo especificamente a Freud, mas a um movimento de produção de generalizações que rondava a Psicanálise como um todo. Abraham (1922/1999), que foi seu analista, por exemplo, entendia que os “movimentos de mulheres” (p. 58), como eram chamados os movimentos feministas à época, eram meramente derivados da inveja do pênis, do ressentimento não superado das mulheres com o “defeito” (p. 53) no seu corpo e das decorrentes reivindicações por masculinidade.
Embora existissem, e ainda existam, alguns discursos da Psicanálise que recorrem a esse tipo de generalização normativa sobre o social, alguns autores sublinham o quanto a Psicanálise desde o início esteve permeada e aberta a outros saberes (Ambra, 2018; Ayouch, 2019). Vemos que Horney foi uma das autoras a sustentar esse movimento abertamente, além de operar com essa noção em sua própria produção teórica, malgrado não seja tão lembrada quanto outros colegas em relação a isso. Assim, podemos pensar que suas formulações contribuem para a discussão sobre as aproximações entre Psicanálise e estudos feministas e de gênero. Assim, afirmamos que suas colocações, embora muito anteriores no tempo, podem estar na mesma via dos questionamentos de Ambra (2018, p. 89):
Assim, ao contrário do que a primazia absoluta do “campo psicanalítico” frente a outros saberes faria crer, Freud e Lacan rompem, repetidas vezes, com a insularidade da Psicanálise não apenas estabelecendo diálogos, mas refundando a própria Psicanálise a partir de problemas, conceitos e racionalidades importadas, seja do campo do social, seja de outros saberes. Seriam, assim, as discussões junto às teorias Queer e de gênero improbidades conceituais? Ou seriam, ao contrário, a forma por excelência de estar à altura das epistemologias da nossa época?
As especificidades culturais: o saber parte de algum lugar
Uma das grandes críticas de Horney a Freud em relação a sua abordagem da cultura refere-se à aplicação de conceitos psicanalíticos sobre a constituição psíquica, derivados da experiência clínica, a fenômenos culturais complexos, diversos daqueles encontrados na cultura europeia do início do século XX. A fama de culturalista de Horney se deu, precisamente, devido à importância conferida pela autora às especificidades de uma determinada estrutura social na constituição psíquica dos sujeitos. Horney (1935/1991; 1937/1977; 1939/1966) defendeu a impossibilidade de um saber universal que desse conta de todas as especificidades de todas as culturas humanas em suas diversidades: “Não mais é válido supor que uma nova descoberta psicológica revele uma tendência universal inerente à natureza humana. O efeito de tudo isso é confirmar o que alguns sociólogos têm asseverado reiteradamente: não há uma Psicologia normal aplicável a toda a humanidade” (Horney, 1937/1977, p. 10).
Essa afirmação aporta consigo a aposta em uma cientificidade que não dependa da universalização de um conceito para que seja válido, reconhecendo os limites e a parcialidade das produções teóricas, principalmente ao tratar sobre subjetividade e cultura.
Para Horney, se cada cultura engendra uma determinada estrutura social, seus conflitos específicos e seu funcionamento próprio, não deveríamos ter como objetivo construir uma teoria com pretensões universais. Cabe lembrar que a autora propõe essa reflexão em uma época em que a Psicanálise começava a ser amplamente difundida em diversos lugares do mundo, em que o complexo de Édipo freudiano foi tomado como central para a Psicanálise, como um de seus conceitos fundamentais que aportava uma verdade universal sobre a humanidade. Foi nesse mesmo momento que Horney questionou, inclusive, a universalidade do próprio complexo de Édipo. Suas críticas a conceitos tão difundidos à época levaram, por fim, a sua saída de instituições tradicionais e na subsequente fundação de um novo instituto de Psicanálise nos Estados Unidos. O questionamento de preceitos psicanalíticos, em especial freudianos, levou muitos psicanalistas a uma ruptura com instituições tradicionais de Psicanálise (Cromberg, 2014; Amorim, 2021), e Karen Horney foi uma das grandes questionadoras daquele período.
A discussão sobre a pretensão de universalidade de saberes ocidentais foi muito mais elaborada posteriormente, notadamente por autores e autoras ligados aos estudos decoloniais, que apontaram os perpassamentos da modernidade colonial na produção de conhecimento acadêmico, marcando as relações raciais que fundam uma epistemologia baseada na exclusão, apagamento ou objetificação de subjetividades relegadas ao lugar de outro (Fanon, 1952/2008; Gonzalez, 1988).
A ideia, aqui, não é sustentar uma noção de que as formulações de Horney são suficientes, ou mesmo condizentes, com as elaborações posteriores de outros autores e autoras. A proposta do presente artigo é demonstrar que, mesmo que de forma embrionária, algumas proposições de Horney oferecem subsídios para compreendermos que discussões tidas, principalmente no Brasil, como atuais e advindas de demandas da cultura de nosso tempo estiveram presentes desde muito cedo na Psicanálise. Se a Psicanálise não seguiu se ocupando delas não foi por uma impossibilidade epistemológica ou pelas limitações de seu tempo, apenas, mas também por escolhas que refletem disputas de poder inerentes a qualquer produção de conhecimento.
Em resumo, sustentamos que, ao pontuar que determinadas reflexões teóricas produzidas à época levavam em conta apenas um contexto cultural e, portanto, não eram passíveis de generalização, Horney aponta para uma Psicanálise que não esteja necessariamente calcada na universalização de saberes. Em vez de tentar defender uma validade universal dos conceitos psicanalíticos, buscava situar esses conceitos em seu entorno cultural, considerando seus agentes de produção do conhecimento e o material a partir do qual este era produzido. Com isso, não afirmava uma invalidade desses conceitos, mas suas limitações e especificidades, além da necessidade de repensá-los continuamente para não os tornar meras repetições e aplicações de categorias já conhecidas.
Considerações finais
Este artigo teve como objetivo articular proposições presentes na obra de Karen Horney com questões contemporâneas que têm suscitado reflexões epistemológicas no âmbito da Psicanálise. Nesse contexto, destaca-se a interlocução com estudos de gênero e estudos feministas.
Percebe-se que algumas discussões tidas como bastante atuais ecoam certos questionamentos que permeiam a Psicanálise desde o início, tendo a obra de Horney como um lugar de destaque. Uma delas tem como enfoque a reflexão sobre quem, historicamente, teve acesso ao lugar de agente de produção do conhecimento e os possíveis efeitos desse perpassamento na teorização psicanalítica. O viés de gênero é o mais tratado pela autora, porém pode ser ampliado para atentar-se às relações raciais e de classe, principalmente com o apoio de autores e autoras cujas produções são mais recentes que as de Horney.
Outra reflexão epistemológica importante diz respeito à hibridez transdisciplinar na produção de conhecimento, movimento que faz parte da Psicanálise desde seu surgimento com Freud e que é sustentado por Horney como essencial para a teoria. Embora alguns autores sustentem a impossibilidade de deixar-se interpelar por estudos de gênero, feministas ou decoloniais por uma suposta inconsistência entre os campos, a partir de Horney e de sua articulação com autores contemporâneos, podemos sublinhar a possibilidade e importância desse movimento para a renovação da Psicanálise.
Por fim, outra linha de reflexão epistemológica destacada no texto refere-se às contribuições de Horney acerca do lugar da cultura para o psiquismo e para a produção de conhecimento, não apenas como discussão abstrata, mas a partir das especificidades culturais que se apresentam. Nesse ponto, a crítica de Horney à universalização na produção de conhecimento encontra reverberações em textos recentes que buscam situar a Psicanálise em seu contexto histórico, cultural e social.
Concluímos, assim, que a obra de Karen Horney segue viva à medida que se reatualiza no encontro com discussões contemporâneas, apontando tanto um histórico para questões que, por vezes, são tomadas como muito recentes quanto contribuições teóricas que dão sustentação a elas. A retomada de Horney, portanto, contribui para a produção psicanalítica nos enlaces entre Psicanálise, estudos de gênero e feministas, trazendo à luz suas produções que, embora antigas, não são tão conhecidas no contexto brasileiro.













