A Analytica Revista de Psicanálise nasce do desejo de fomentar e divulgar a produção rigorosa de conhecimento em Psicanálise no Brasil, promovendo discussões originais, expansões de temas consagrados e articulações críticas com outros campos. Ao celebrar 12 anos de trajetória, reafirmamos nosso compromisso com a divulgação científica em todas as etapas, valorizando e incentivando a publicação de artigos oriundos das pesquisas de iniciação científica na graduação. Acreditamos ser essencial fortalecer a base de nossa produção acadêmica, destacando os jovens pesquisadores que representam o futuro das investigações em Psicanálise e ampliando nossos laços institucionais.
O periódico é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei (PPGPSI/UFSJ). Em consonância com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), estamos atentos à integração dos cursos de mestrado e doutorado em Psicologia com a graduação. Não somos indiferentes ao fato de que a graduação, por intermédio da Iniciação Científica, pode contribuir com importantes quadros para a pesquisa na pós-graduação. No âmbito da UFSJ, destacamos a participação dos discentes do curso de graduação nos eventos promovidos pelo PPGPSI. Nessas ocasiões, surge a oportunidade de que todos os discentes, entre eles diversos alunos vinculados ao Programa Institucional de Iniciação Científica (IC), possam realizar intercâmbio de conhecimentos com os pós-graduandos e convidados externos. Salientamos, ainda, que todos os eventos promovidos pelo Programa, como defesas, palestras e conferências, são abertos e intensamente divulgados para os alunos da graduação.
Destacamos o momento profícuo que o PPGPSI se encontra neste fim de quadriênio da Capes. Obtivemos significativos avanços no processo de internacionalização com docentes do Programa cursando e concluindo estágios de pós-doutoramento no exterior e o acolhimento, em nosso Programa, de alunos estrangeiros no âmbito do Programa de Internacionalização da UFSJ (Proint). Também salientamos o incremento no número de convênios nacionais e internacionais de cooperação, celebrados pela UFSJ, envolvendo diretamente o PPGPSI. Todos esses fatores associados impactam diretamente a qualidade de nossa produção científica, envolvendo, portanto, a formação básica do psicólogo. Atenta a esse movimento e otimista com as perspectivas de crescimento do Programa, neste número e no seguinte a Analytica dedica uma seção especial aos jovens pesquisadores que fomentarão as futuras pesquisas da pós-graduação.
Esta edição destaca-se pelo diálogo com a diversidade, reunindo autores de distintas perspectivas teóricas, instituições e regiões do Brasil, com diferentes trajetórias na Psicanálise. A produção brasileira é representada por pesquisadores do Pará, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraíba, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e São Paulo, abordando uma ampla gama de referenciais teóricos, incluindo Freud, Lacan, Winnicott, Sabina Spielhein, Virgínia Bicudo, Neuza Santos Souza, Laplanche, Jung, entre outros. As discussões respondem às questões urgentes de nossa época e da realidade social brasileira, em diálogo com outros campos do saber, como Arte, Literatura, Filosofia e Sociologia, configurando-se um convite ao debate rigoroso e plural.
A história da Psicanálise mostra como diversas experiências clínicas conduziram a novas abordagens dos conceitos fundamentais, expandindo-os e gerando novos conceitos. No artigo “As relações entre trauma e a tendência antissocial: um relato de experiência sob o enfoque winnicottiano”, Hélio Antônio Anthero Roxo Junior e Leonardo Cardoso Portela Câmara recorrem à teoria da tendência antissocial de Winnicott para refletir sobre a atuação do psicanalista no atendimento a jovens em conflito com lei – um tema cada vez mais urgente em um contexto social que tende a individualizar os problemas coletivos, buscando contê-los sem enfrentar os conflitos que denunciam.
Mariana Guth e Erica Franceschini, retomando as elaborações de Sabina Spielrein sobre a destruição como via para o surgimento do novo, em “Confluências entre destruição e devir: o (re)fundir-se no mar semiótico de Sabina Spielrein”, exploram como essas ideias ressoam nas obras de Emily Dickinson e Sylvia Plath, trazendo a Arte como uma forma de acesso a um saber sobre a verdade, conforme apontado por Freud. Da mesma forma, os contos de fadas – uma mistura de narrativa literária e saber popular transmitido entre gerações – ilustram construções de saber que tocam a verdade, como discutido no artigo “Os contos de fadas como recurso simbólico infantil: uma perspectiva psicanalítica”, de Beatriz Leão de Carvalho, Josué Henrique Reis da Silva, Luan Sampaio Silva e Silvia Dora de Souza Cerveira da Silva.
No artigo “O sujeito do espetáculo: lei e subjetividade na era da imagem”, Daniel Modós convida a refletir acerca das implicações para a subjetividade do que Guy Debord denominou “sociedade do espetáculo”. Ele caracteriza a marca social contemporânea como o gozo pela exibição do espetáculo, que alimenta a fantasia do eu ideal, mas que também impõe uma tirana supergoica, exigindo que o eu se adeque a essa ilusão.
Explorando as interações da Psicanálise com outros campos do saber, o artigo “Contingências da relação entre Psicanálise e transdisciplinaridade: uma revisão sistemática (2012-2022)”, de Allan Santos Martins, Matheus Coutinho dos Santos Alves, Maycon Rodrigo da Silveira Torres, reflete sobre a importância de manejar cuidadosamente essas interlocuções, preservando a especificidade do campo psicanalítico.
Mantendo a marca plural desta edição, a seção Jovens pesquisadores apresenta um panorama de pesquisas, práticas e interesses alinhados às questões contemporâneas da Psicanálise, assim como com a retomada de autores(as) e perspectivas diversas. Nessa linha, o artigo “Angústia e fantasia na nova ordem simbólica: considerações sobre o mal-estar na contemporaneidade”, de Mateus da Silva Boa Morte e Rogério de Andrade Barros, discute os efeitos das mudanças das coordenadas simbólicas na contemporaneidade para os arranjos fantasmáticos do sujeito diante da angústia, convocando a Psicanálise a refletir acerca desses desafios. Esse questionamento é também sustentado por Ana Paula de Resende e Andrade, João Victor Neves Rosa e Jessika Pereira Damásio, no artigo “Na corda bamba do Eu: um recorte do fenômeno bolsonarista sob a égide do movimento de massas”, que aborda questões incômodas sobre a repetição de regimes autoritários e seu vínculo com satisfações e negacionismos narcísicos, com impactos destrutivos para a coletividade.
O artigo “A unilateralidade da razão na Ciência moderna: construção histórica e contrapontos a partir do viés junguiano”, de Guilherme Martins Penso e Pedro Henrique Conte Gil, oferece uma perspectiva crítica acerca das hegemonias epistemológicas do pensamento ocidental. Apoiando-se na obra de Jung, os autores defendem a importância da pluralidade epistemológica para o avanço do conhecimento.
Refletindo sobre os avanços e impasses da cultura, Iasmim Faria Nogueira e Jacqueline de Oliveira Moreira, no artigo “O velar da cultura sobre a androginia: entre o estranho e o sublime”, analisam os efeitos de uma roda de conversa on-line sobre os afetos e reflexões despertados por oito obras de arte representando a androgenia em diferentes épocas e contextos históricos, apresentadas em grupo de conversação. Essa pesquisa também se configura como uma intervenção, ao propor coletivamente novas interpretações sobre um tema que, como apontam as autoras, a cultura tende a encobrir.
O artigo “Interseccionalidade: contribuição de psicanalistas negras e mulheres para o debate”, de Carlos Alberto Ribeiro Costa, Giselle Falbo Kosovski e Jefferson Nascimento, revisita as contribuições de duas importantes psicanalistas negras brasileiras – Neuza Santos Souza e Virgínia Bicudo – para o debate sobre a interseccionalidade e o modo como a Psicanálise aborda essa questão. Em outra frente, o artigo “Multiplicidade feminina e transgressão do um em Luce Irigaray: uma análise psicanalítica”, de Débora Maranhês de Araújo Vaz, Wilson Camilo Chaves e Elizabeth Fátima Teodoro, resgata as discussões de Luce Irigaray sobre a crítica à centralidade fálica, fundamental para uma construção da subjetividade feminina. De acordo com os autores, Irigaray adota uma perspectiva genuinamente crítica, indo além da mera identificação de problemas nas noções e conceitos tradicionais rumo a um avanço no campo psicanalítico. Nessa linha, Irigaray sugere uma retomada das bases teóricas da Psicanálise, desenvolvendo uma linguagem e estruturas que abracem a diversidade e complexidade da subjetividade feminina.
Refletindo sobre os desafios da clínica no Caps, Victória Giacomin Reali e Ariana Lucero, no artigo “Autismo e mediação: Interfaces com o Caps IJ”, exploram as oficinas de mediação como possibilidade para uma clínica do autismo na rede pública, respeitando a especificidade dessa posição subjetiva.
O processo de transmissão do conhecimento envolve a mobilização do trabalho inconsciente, como apontam Fernando Cézar Bezerra de Andrade e Adriana Lessa Viana no artigo “Alfabetização e letramento de crianças: funções docentes na perspectiva da Teoria da Sedução Generalizada”. Baseando-se na Teoria da Sedução Generalizada, de Jean Laplanche, os autores destacam a importância da presença do desejo inconsciente do professor para que o aprendizado da alfabetização e do letramento se realize plenamente.
Esperamos que esta edição possa mobilizar o interesse desejante dos leitores, inspirando novos caminhos e movimentos de pesquisa.
Boa leitura!














