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versão impressa ISSN 2359-0769versão On-line ISSN 2359-0777

Rev. Subj. vol.22 no.3 Fortaleza  2022  Epub 22-Nov-2024

https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v22i3.e12633 

Estudos Teóricos

A RELIGIÃO NAS NARRATIVAS DO SOFRIMENTO

The religion in the suffering narratives

La Religión en las narrativas del sufrimiento

La religion dans les récits de souffrance

Isadora Veiga Assunção1 
http://orcid.org/0000-0001-9007-1547; lattes: 4615613748819281

Luciano Bairros da Silva2 
http://orcid.org/0000-0002-8864-3881; lattes: 6927791091072112

Susane Vasconcelos Zanotti3 
http://orcid.org/0000-0002-2695-5476; lattes: 0407376488234305

1Psicóloga, Especializada em Saúde da Família pela Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL). Mestranda no Programa de Pósgraduação em Psicologia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

2Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Coordenador do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família, na Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL). Professor do Centro Universitário Cesmac

3Professora Associada do Instituto de Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise (EBP/AMP)


Resumo

Freud apontou as doutrinas religiosas como manifestações significativas do patrimônio cultural. Hoje, observamos que a força religiosa não cessa de se manifestar nas narrativas contemporâneas. Este trabalho, decorrente de uma experiência na residência em saúde, objetivou analisar as formas como a religião se apresenta nas narrativas de sofrimento de usuários que receberam atendimento psicológico em uma Unidade Básica de Saúde em Maceió, Alagoas. Os atendimentos psicológicos, registrados em diários de campo, foram analisados qualitativamente a partir do método de análise de conteúdo. As falas dos usuários foram agrupadas em três categorias: não é coisa de Deus; graças a Deus; e entrega nas mãos de Deus. Destaca-se a importância da religião em relação ao pertencimento social, assim como primeiro e último recurso para se evitar o sofrimento. Ao mesmo tempo, a busca por atendimento psicológico remete aos limites do discurso religioso como único suporte ao sofrimento e ao próprio desamparo, aspectos discutidos à luz da contribuição da psicanálise.

Palavras-chave religião; sofrimento; psicanálise; saúde pública

Abstract

Freud pointed to religious doctrines as significant manifestations of cultural heritage. Today, we observed that religious strength does not cease to manifest itself in contemporary narratives. This work, resulting from an experience in residency in health, aimed to analyze how religion is presented in the users suffering narratives who received psychological care in a Basic Health Unit in Maceió, Alagoas. Recording in field diaries, psychological services were qualitatively analyzed using the content analysis method. Users' statements were grouped into three categories: it's not a thing of God; Thank God and hand it over to God. The importance of religion concerning social belonging is highlighted, as well as the first and last resort to avoid suffering. At the same time, the search for psychological care refers to the limits of religious discourse as the only support for suffering and helplessness, aspects discussed in light of the contribution of psychoanalysis.

Keywords religion; suffering; psychoanalysis; public health

Resumen

Freud señaló las doctrinas religiosas como manifestaciones significativas del patrimonio cultural. Hoy, observamos que la fuerza religiosa no deja de manifestarse en las narrativas contemporáneas. Este trabajo, resultado de una experiencia en Residencia en Salud, tuvo como objetivo analizar las formas en que la religión se presenta en las narrativas de sufrimiento de los usuarios que recibieron atención psicológica en una Unidad Básica de Salud en Maceió, Alagoas. La atención psicológica, registrada en diarios de campo, se analizó cualitativamente mediante el método de Análisis de Contenido. Los discursos de los usuarios se agruparon en tres categorías: no es cosa de Dios; gracias a Dios; y entregarlo en las manos de Dios. Se destaca la importancia de la religión en relación a la pertenencia social, así como un primer y último recurso para evitar el sufrimiento. Al mismo tiempo, la búsqueda de la asistencia psicológica remite a los límites del discurso religioso como único soporte al sufrimiento y al desamparo mismo, aspectos discutidos a la luz del aporte del psicoanálisis.

Palavras chave religión; sufrimiento; psicoanálisis; salud pública

Résumé

Freud a souligné les doctrines religieuses comme des manifestations importantes du patrimoine culturel. Aujourd'hui, on constate que la force religieuse ne cesse de se manifester dans les récits contemporains. Ce travail, issu d'une expérience en Résidence en Santé, visait à analyser les manières dont la religion est présentée dans les récits de souffrance des usagers ayant reçu des soins psychologiques dans une Unité de Santé à Maceió, Alagoas. Les soins psychologiques, enregistrés dans des journaux de terrain, ont été analysés qualitativement à l'aide de la méthode d'analyse de contenu. Les discours des utilisateurs ont été regroupés en trois catégories: ce n'est pas l'affaire de Dieu; grâce à Dieu; et remiseen les mains de Dieu. Se démarque l'importance de la religion pour l'appartenance socialeet comme premier et dernier recours pour éviter la souffrance.Au même temps, la recherche de soins psychologiques pointe les limites du discours religieuxcomme seul support de la souffrance et de l'impuissance, aspects discutés à la lumière de l'apport de la psychanalyse.

Mots-clés religion; souffrance; psychanalyse; santé publique

Este artigo é produto de inquietações sobre a força que a religião cristã desempenha no contexto territorial e relacional de uma determinada comunidade; aspecto identificado durante a experiência da autora principal como psicóloga residente de uma Unidade Básica de Saúde (UBS). A UBS localiza-se em um bairro que, mesmo inserido em um território considerado “nobre” da cidade, contrasta com o seu entorno e permanece na invisibilidade aos olhos governamentais. Alguns aspectos que chamaram a atenção eram a falta de saneamento básico, o baixo nível de escolaridade e o escasso policiamento local.

Nesse contexto de vida, ausentar-se de casa para andar pelas ruas do bairro atestava, muitas vezes, um encontro com um caminho perigoso, a não ser que este caminho levasse à igreja. Em uma comunidade onde, frequentemente, os caminhos eram interceptados pelo comércio ilegal de drogas, a religião indicava uma das únicas alternativas possíveis para se construir uma vida virtuosa. Na fala de muitos usuários, vincular-se à instituição religiosa cristã era uma via potente para se fazer laço naquele local.

Freud (1927/2020a) já apontava como muitas pessoas têm nas doutrinas religiosas seu único consolo para tornar a vida suportável. Ao mesmo tempo, a prática clínica mostra como algumas pessoas podem encontrar amparo na religião – mas também sentirem-se presas em seus preceitos. Quase 100 anos depois de Freud, a força das doutrinas religiosas na subjetividade não cessa de se manifestar, apresentando-se nas narrativas do sofrimento contemporâneo.

Ao falar de religião, considera-se a perspectiva do cristianismo evangélico, justamente por ser a vertente religiosa que se apresenta fortemente, não só na fala dos pacientes atendidos, mas na comunidade onde habitam. Ainda que haja distinções dentro da própria vertente cristã evangélica, parte-se aqui de seus preceitos comuns: a Bíblia como livro sagrado e única diretriz religiosa; a crença em um Deus único; a salvação como produto da fé e de certas condutas comportamentais; a “guerra espiritual” entre o bem e o mal; e a ideia da morte como transição para a vida eterna (Rigoni, 2008).

Em vias de elaborar algo sobre a própria cultura, Freud dedicou-se ao estudo da religião judaico-cristã, mostrando ser impossível dissociá-las entre si. Nesse percurso, ele suscita importantes questões teóricas, como a origem da lei e o lugar do pai. Tendo isso em vista, consideram-se indispensáveis as obras freudianas como suporte às discussões sobre os efeitos que a religião – como elemento cultural – desempenha na subjetividade. Assim, este artigo objetiva, à luz da teoria psicanalítica de Freud e Lacan, analisar as formas como a religião se apresenta nas narrativas de usuários atendidos por uma psicóloga em uma Unidade Básica de Saúde.

A dimensão cultural da religião

A principal tarefa da cultura é defender o ser humano da natureza (Freud, 1927/2020a) – ainda que algumas forças naturais, tais como a própria morte, sigam anunciando a fraqueza e desvalia humana frente ao trabalho civilizatório. Freud enfatiza a dificuldade que é para o sujeito suportar sua existência. Assim, na intenção de tornar suportável o desvalimento humano, constrói-se um acervo de concepções – baseadas nas lembranças da infância do sujeito e da humanidade – que é capaz de protegê-los contra os perigos naturais e do destino e contra os danos nascidos na própria sociedade humana. Dentre tais concepções, estão as religiosas, consideradas por Freud (1927/2020a, p. 244) como “a parte mais importante do inventário psíquico de uma cultura”. Nelas, até a própria morte ganha novo estatuto: ao invés de apontar para a destruição, ela aponta para um novo recomeço, para a eternização de uma nova vida.

O que Freud busca evidenciar em O Futuro de uma Ilusão (1927/2020a) é que as concepções religiosas advêm com o mesmo objetivo das outras elaborações civilizatórias: o de proteger os seres humanos do opressivo e superior poder da natureza; e, paradoxalmente, proteger os seres humanos do próprio processo civilizatório, das imperfeições culturais dolorosamente sentidas. Freud, então, questiona-se sobre o valor psicológico das ideias religiosas, definindo-as como enunciados – que exigem crença – sobre elementos da realidade externa (ou interna) que dizem algo que o sujeito ainda não descobriu sozinho. As doutrinas religiosas, na concepção freudiana, seriam manifestações significativas do patrimônio cultural que servem ao ser humano para clarear enigmas do universo e para dar suporte ao sofrimento da vida e ao próprio desamparo.

Para Freud, a posição de desamparo em que o sujeito se encontra não é novidade, é continuidade do modelo infantil. Segundo o autor, o ser humano, em um movimento de defesa contra o desamparo infantil, dá aos poderes superiores – contra os quais não pode se proteger – traços da figura paterna. Ele cria deuses que deseja cativar, que teme, e a quem confia sua proteção. Logo, a razão pela qual o sujeito anseia pelo pai está na sua necessidade de proteção contra os efeitos da impotência humana. Dessa forma, “(...) a defesa contra o desamparo infantil empresta à reação contra o desamparo – que o adulto tem, necessariamente, de reconhecer como sendo justamente a formação da religião – seus traços característicos” (Freud, 1927/2020a, p. 256).

Freud (1927/2020a), então, deixa claro que o desamparo infantil, que incide sobre a vida adulta, desperta a necessidade de proteção através do amor – esta, que é fornecida pelo pai. O desamparo que persiste por toda a vida motiva o sujeito a apegar-se “à existência de um outro pai, um pai agora mais poderoso” (Freud, 1927/2020a, p. 262). Nesse apego o sujeito poderia atenuar sua angústia.

Freud (1939/1996b), ao explicitar a etiologia das neuroses, faz uma aproximação entre estas e os fenômenos religiosos. Ele afirma que os sintomas neuróticos se manifestam no retorno de certos acontecimentos marcantes da história primeva (há muito esquecidos), que têm força pela verdade histórica de seu conteúdo. A respeito da gênese da neurose, Freud pontua que esta remonta a impressões primitivas da infância. No entanto, o autor acrescenta que, mesmo o sujeito não tendo experienciado determinada cena, há elementos da linguagem que estão presentes nele e que são operantes em sua vida psíquica como uma herança arcaica. Logo, Freud (1927/2020a) busca evidenciar que há uma relação entre sujeito e religião que é anterior à existência deste. O sujeito, ao ser inserido na linguagem, é interpelado por vinculações estabelecidas durante o desenvolvimento da fala e que seguem em repetição.

Uma tradição que se baseasse unicamente na comunicação não poderia conduzir ao caráter compulsivo que se liga aos fenômenos religiosos. Ela seria escutada, julgada e talvez posta de lado, como qualquer outra informação oriunda do exterior; nunca atingiria o privilégio de ser liberada da coerção do pensamento lógico. Ela deve ter experimentado a sorte de ser reprimida, o estado de demorar-se no inconsciente, antes de ser capaz de apresentar efeitos tão poderosos quando de seu retorno, de colocar as massas sob seu fascínio, como vimos com espanto, e, até aqui, sem compreensão, no caso da tradição religiosa. (Freud, 1939/1996b, p. 65)

Nesse contexto, Freud (1939/1996b) apresenta como algumas forças, ainda que não apreendidas diretamente pelos sentidos, podem produzir efeitos poderosos no sujeito – tais como a força religiosa. Mesmo tendo proposto anteriormente, em O Futuro de uma Ilusão (1927/2020a), que o sujeito, ao retirar suas expectativas do Além e centrar-se na vida terrena, teria a chance de viver de forma mais suportável – em uma civilização já não tão opressora –, em Moisés e o Monoteísmo (1939/1996b), Freud aponta a tradição religiosa como cada vez mais poderosa. Ele marca como a influência religiosa pode ser decisiva nos pensamentos dos sujeitos. “O fato marcante com que somos aqui confrontados é, contudo, que essas tradições, em vez de se tornarem mais fracas com o tempo, se tornaram cada vez mais poderosas no decorrer dos séculos” (Freud, 1939/1996b, p. 44).

Em Moisés e o Monoteísmo (1939/1996b), Freud já dava sinais de que a religião não seria tão facilmente superada pelo discurso científico, tal como havia proposto em O Futuro de uma Ilusão (1927/2020a). Sendo assim, pode-se dizer que as investigações freudianas se constroem sob um argumento genealógico, recaindo sobre a origem psíquica da crença religiosa, e de que forma tal crença é transmitida culturalmente (Ianinni, 2014). Partindo da premissa de que as religiões acompanham os progressos culturais do gênero humano, é necessário questionarmos as formas de subjetividade que se implicam hoje no fenômeno religioso, e como estas se articulam no laço social (Lo Bianco, 2014).

Método

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, método orientado a estudos de questões subjetivas (Minayo, 2014), decorrente da inserção da autora principal no território específico de uma Unidade Básica de Saúde (UBS), em Maceió, Alagoas, para, dentre outras atividades, realizar atendimentos psicológicos individuais.

Nomeia-se UBS todos os estabelecimentos que compõem a rede de Atenção Básica de Saúde, considerados a porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS), contemplando ações de promoção, proteção e recuperação da saúde dos indivíduos, família e comunidade em um território geograficamente definido (Lei nº 2.436, 2017). As ações dos profissionais na Atenção Básica de Saúde são mais eficazes quando se concentram na pessoa a ser cuidada e não em sua doença, considerando o sujeito integralmente1 em seu ambiente físico e social (Macinko & Mendonça, 2018).

Como procedimento para produção do material de análise, foi utilizado o registro em diário de campo dos atendimentos psicológicos realizados na Unidade Básica pela autora principal – coincidindo com o período de sua prática enquanto residente do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. Para registro em diário de campo, foram considerados os atendimentos psicológicos individuais realizados no período de 20 de agosto de 2020 a 10 de fevereiro de 2021 de sete pacientes que mencionaram a religião cristã evangélica em suas narrativas. Todos os pacientes eram do sexo feminino, com idades entre 35 e 60 anos e com nível fundamental de ensino completo.

Os diários configuram-se como produção discursiva de caráter pessoal sobre os acontecimentos relevantes e/ou experiências cotidianas da pesquisadora. Entende-se que a escrita em diário de campo tem o potencial de traduzir uma experiência de implicação do pesquisador (Medrado et al., 2014). O material produzido foi tratado através da análise de conteúdo de Bardin (2011), técnica definida em três etapas: pré-análise; exploração do material; e tratamento dos resultados, que levam à interpretação do material, discutido à luz do referencial psicanalítico.

Na fase de pré-análise, os diários de campo registrados à mão foram transcritos para um documento digital. Logo, passou-se à leitura flutuante, considerada o primeiro contato dos pesquisadores com o material, o que permite conhecer e analisar o texto, dando espaço às primeiras impressões sobre o conteúdo do material. A fase de exploração foi orientada pelo tema de interesse da pesquisa: a religião – mais especificamente, a função da religião para os usuários atendidos na UBS mencionada. Para isso, realizou-se a seleção das unidades de registro: trechos das falas das pessoas atendidas, quando estas mencionavam a religião. Para a fase de tratamento dos resultados, iniciou-se uma revisão das unidades de registro selecionadas com a intenção de observar as problemáticas em comum que eram suscitadas, as quais foram agrupadas por semelhanças. Esse processo resultou em três categorias: não é coisa de Deus; graças a Deus e entrega nas mãos de Deus.

Foram utilizados alguns fragmentos dos diários, na intenção de delinear como se constituíram as categorias. Ainda que o método de análise de Bardin tenha como pressuposto a categorização, ele permite ao pesquisador interpretar material sob seu viés teórico, possibilitando uma produção de conhecimento singular através da inferência (Silva & Macedo, 2016). A discussão do material está sustentada na abordagem psicanalítica de Freud e Lacan, que, há muito, se ocupa em estudar a origem psíquica da crença religiosa, de que forma tal crença é transmitida culturalmente e quais os seus efeitos na subjetividade.

Ressalta-se que a pesquisa foi aprovada sob parecer número 4.227.700, pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas.

Resultados e discussão

Não é coisa de Deus

Esta categoria advém de algumas falas de pacientes que apontavam para o próprio sofrimento como não sendo “de Deus”; ou para comportamentos que não condiziam com os preceitos religiosos. Ainda que esses fossem seguidos, principalmente a fim de se obter uma vida melhor, a manifestação e persistência do sofrimento causavam estranheza, apontavam para uma “falta de Deus” e, consequentemente, levavam o sujeito a sentir-se culpado. A culpa era de quem sofria, de quem “não tinha Deus”. O sujeito sentia-se culpado por afastar-se de Deus, justamente d’Aquele que, ali, aparecia como suporte primordial ao sofrimento. A fala transcrita abaixo ilustra como ouvir vozes – vivência subjetiva causadora de grande sofrimento à paciente – é vista como decorrente de uma falta de Deus: “Minha mãe me mandou rezar para espantar o inimigo, pois ela diz que ouvir voz não é coisa de Deus”.

Como Freud explicita em Moisés e o Monoteísmo (1939/1996b, p. 67), aqueles que creem em Deus possuem também parte em Sua grandeza. Para esclarecer melhor essa afirmação, Freud faz uma analogia com o sentimento de grandeza que uma nação protegida pelo seu Estado sentiria em um período de guerra. O sentimento de orgulho e identificação que um cidadão teria pelo seu país, ao vê-lo administrando conflitos e protegendo a sua população, assemelha-se ao que o sujeito “guiado por Deus” poderia sentir ao se ver como “auxiliar” de Deus na tarefa de “administrar o mundo”. Entendemos que o sujeito, ao apontar algo seu como “não sendo de Deus”, poderia reconhecer-se distante da imagem do Pai e de Sua grandeza – outrora compartilhada.

Para nos aprofundarmos nesse ponto da identificação do sujeito com a imagem de Deus, recorremos a Lacan (2008, p. 217) que, em seu retorno às elaborações freudianas, diz que “o mito do assassinato do pai é justamente o mito de um tempo para o qual Deus está morto”. Se Deus está morto, é porque, fundamentalmente, Ele sempre esteve. O fato de Deus estar morto desde sempre foi o que precipitou a articulação das mensagens de fé, estas que apontavam para um Deus sempre vivo, havendo uma “ressurreição para além da morte” (Lacan, 2008, p. 218). Logo, ao encarnar a morte de Deus, o homem continuaria existindo. O homem assume a morte de Deus e, ao fazer isso, “ele se propõe ele mesmo perante nós” (Lacan, 2008, p. 218). Ou seja, ao encarnar a narrativa da morte de Deus, o sujeito se oferece como semelhante ao Pai.

Lacan (2008) se utiliza da premissa religiosa do livro Gênesis Deus Fez o Homem à sua Imagem para apontar a verdade contida nessa afirmativa. “Esse enunciado é do mesmo jorro, do mesmo corpo, do livro sagrado onde se articula a interdição de forjar o Deus das imagens” (Lacan, 2008, p. 240). Lacan marca o caráter enganador das imagens. Essas que, segundo ele, deixam sempre um oco vazio. Quando o paciente aponta algo seu como “não sendo de Deus”, toca-se em algum ponto dessa dimensão do vazio? Do vazio de Deus a ser descoberto, do vazio do próprio homem como seu semelhante? Para melhor esclarecer essa reflexão, citamos Lacan (2008, p. 240):

Vamos então ao mais simples – se são belas imagens – e Deus sabe que as imagens religiosas sempre respondem, por definição, aos cânones reinantes da beleza – não se vê que são sempre ocas. Mas então o homem também, enquanto imagem. É interessante devido ao oco deixado vazio pela imagem – por isso é que se vê na imagem, para além da captura da imagem, o vazio de Deus a ser descoberto. Essa é, talvez, a plenitude do homem, mas é também aí que Deus o deixa no vazio.

A partir de outro ponto de vista, retomando a fala da paciente em questão, quando a vivência subjetiva de ouvir vozes é apontada como algo que “não é de Deus”, utilizamo-nos da afirmação de Freud (1939/1996b, p.77) sobre como a conotação religiosa pode aparecer em contextos que não lhe cabem: “(...) nosso julgamento é perturbado pelas numerosas tentativas de aplicar as características de sacralidade a tantas outras coisas – pessoas, instituições, funções – que pouco têm que ver com a religião”.

Freud (1939/1996b) explica que esse caráter religioso, atribuído a tantas coisas, visa a um propósito óbvio e tendencioso – tal como o propósito proibitivo. Uma proibição sagrada, ainda que não se funde em uma base racional, carrega um caráter emocional muito forte. Percebemos, nas falas dos pacientes transcritas nos diários, o quanto a proibição e a renúncia aparecem como exigência religiosa e, se não seguidas, apontam também para a falta de Deus.

A renúncia exigida pela religião foi algo que também nos chamou atenção na fala dos pacientes. A partir da concepção de Žižek (2015), a religião cristã fundou-se na exigência de um preço a ser pago e, sobretudo, na exigência da renúncia para fins de uma vida ética e virtuosa.

A religião exigiu cada vez mais, no decorrer dos séculos, a renúncia pulsional por parte do sujeito. Freud (1939/1996b) esclarece que, de fato, há forças externas inibidoras – as quais são internalizadas e formam, no Eu, uma instância crítica e proibitiva (o supereu). Destaca-se que, muito antes dessa afirmativa, Freud, em sua obra Atos Obsessivos e Práticas Religiosas (Freud, 1907/1996a, p. 116), já considerara a religião como uma dessas forças inibidoras: “A formação de uma religião parece basear-se igualmente na supressão, na renúncia, de certos impulsos (...)”. No trecho do diário transcrito abaixo, observa-se como a mãe aposta na promessa religiosa da vida após a morte para fazer com que o filho se comporte: “Quando meu filho desobedece, eu digo a ele que criança assim vai para o inferno”.

O fato de obedecer a Deus, não transgredindo os preceitos religiosos, garante o não merecimento da punição. No entanto, a permanência no sofrimento pode atestar uma punição divina: faltou Deus porque o sujeito falhou com Deus; consequentemente, distanciou-se d’Ele. Segundo Freud (1939/1996b, p. 87), os sujeitos, sob a visão religiosa, “(...) não mereciam mais do que serem punidos por ele, visto não terem obedecido a seus mandamentos”. Justamente aquele que obedece a Deus é aquele que tem participação em Sua grandeza, é aquele semelhante à imagem do Pai.

Graças a Deus

Esta categoria partiu da forma literal pela qual os pacientes agradeciam a Deus diante de algum acontecimento de suas vidas. A gratidão a Deus aparecia quando algo de bom acontecia, mas também na lembrança de um certo “não merecimento” deste algo de bom. Ou seja, quando algo desejado não se concretizava, ainda assim, os pacientes eram gratos a Deus por terem retirado algum ensinamento da experiência que causou sofrimento. Se algo de ruim acontecia, o sujeito deveria reavaliar suas atitudes que levaram a tal resultado.

Žižek (2015), em sua obra O Amor Impiedoso (ou: Sobre a Crença), ao falar da morte sacrificial de Cristo, afirma que há uma grande “força psicológica” nessa passagem. Os sujeitos cristãos carregam em seus atos cotidianos uma conotação inerentemente teológica, visto que devem sempre se lembrar do sacrifício de Cristo. Diante de tal sacrifício, os sujeitos veem-se assombrados pela ideia de que o mundo vai mal e, em última instância, eles são os responsáveis por isso. Instaura-se uma culpa irreparável, visto que Deus, o inocente, em nome do amor infinito, sacrificou Seu filho pelos pecados humanos. Eis então o Cristo que pagou o preço pela libertação da humanidade, redimindo-a do fardo do pecado. “Se, então, fomos libertados do cativeiro do pecado e do medo da morte pela morte e ressurreição de Cristo, quem exigiu esse preço? A quem o resgate foi pago?” (Žižek, 2015, p. 29).

De acordo com a interpretação de Žižek (2015, p. 43) “(...) o sacrifício destrói tanto quanto a dádiva oferece, pois ambos trabalham para estabelecer a troca (...)”. Žižek (2016) recorre a Lacan para afirmar que o sacrifício, em geral, poderia ser perverso, por representar a renegação da impotência do Outro: o sujeito oferece o sacrifício para sustentar, e até mesmo forjar, uma aparência de onipotência do Outro. Aquele que se sacrifica busca preencher a falta no Outro, visando dar a ele consistência. “A falsidade do sacrifício reside em sua pressuposição subjacente, que é a de que eu efetivamente possuo, trago em mim, o precioso ingrediente cobiçado pelo Outro e que promete preencher sua falta” (Žižek, 2015, p. 39).

Nesse sentido, podemos pensar que o sacrifício de Cristo exigiu – e exige até hoje – um preço simbólico a ser pago pela humanidade. Ainda, da mesma forma que a religião cristã fundou-se na exigência de um preço a ser pago e, sobretudo, na exigência da renúncia para fins de uma vida virtuosa (Žižek, 2015), o sujeito, ao viver para Deus – sob determinadas renúncias –, doa algo de si, também na espera de uma troca.

No contexto dos atendimentos aqui relatados, muitos pacientes em sofrimento, na mesma medida em que encaravam o sofrer como um sacrifício para, futuramente, experienciarem a glória divina, ao sentirem algum alívio diante de tal sofrimento, remetiam tal alívio sempre a Quem os sustentou: a Deus. No trecho abaixo, é possível considerarmos como a gratidão a Deus aparece pelo que ainda resta de força à paciente em questão: “Quero recuperar a vida que eu acho que não vivi. Graças a Deus ainda tenho alguma força para isso”.

Deus aparece como Aquele que dá forças ao sujeito, compensando-o, em alguma medida, pelo seu sacrifício. Logo, valeria a pena viver por Aquele que, em algum momento, dá algo em troca ao ser humano que sofre. No trecho abaixo, Deus é referenciado como o único amigo da paciente, que, ao ouvir um louvor, consegue distrair-se e tirar do seu coração “coisas negativas”. “O que me distrai é ouvir um louvor, ele tira as coisas ruins do meu coração. Já pensei em morrer e depois levar os meus filhos. Mas meu único amigo é Deus”.

Sabemos que a religião se dispõe a acolher o sujeito desesperançoso e a ofertá-lo um sentido, velando à sua frente aquilo que não funciona: o real. Eis aí um lugar propício para a instauração da fé, lugar onde Deus pode estar presente, ainda que morto (Rodrigues, 2015). Lacan (2005) fala do real como aquilo que não pode ser simbolizado e que jamais poderá ser apreendido em sua totalidade. Ele deixa um rastro e sustenta-se ali, à deriva.

Drawin e Kyrillos (2018) esclarecem que, sob a ótica psicanalítica, o real seria da ordem de uma convocação, de um acontecimento que convoca o sujeito a tomar uma posição de responsabilidade de escolha frente ao que o interpela. Isso faria do sujeito, como tal, sujeito de seus atos. Na fala transcrita abaixo, a crença aparece como aquilo que vincula o sujeito à vida, atuando como freio à pulsão de morte e impedindo a paciente de pôr fim à sua vida. Ela aponta para Deus como quem a sustenta: “Pensei em tomar veneno de rato, mas creio em Deus, sei que seria pecado”.

Logo, esta categoria nos faz refletir que aquele que crê em Deus, espera pelo Seu amparo. Um alívio diante do sofrimento é, muitas vezes, visto como obra divina. Sabemos que a religião, de fato, pode fazer-se terapêutica, mas não incide em uma mudança de posição subjetiva. Somos aqui confrontados também por uma reflexão, suscitada por Freud (1930/2020b) em O Mal-Estar na Cultura: tendo a religião as respostas ao propósito da vida, o que os seres humanos deixam de reconhecer como sendo deles, em termos de propósito e intenção de vida? “A religião é novamente a única a saber responder a (sic) pergunta a respeito de um propósito de vida. Dificilmente estaremos errados ao decidir que a ideia de um propósito para a vida venha diretamente do sistema religioso” (Freud, 1930/2020b, p. 320).

Freud (1930/2020b, p. 322) afirma que o sujeito, em vias de buscar a felicidade – ou, mais precisamente, evitar o sofrimento –, pode servir-se de algumas técnicas para se proteger. Dentre elas, têm-se o isolamento social; a influência química no organismo; o rompimento com a realidade; a vivência do amor como centro (amar e ser amado). A religião aparece como uma técnica de vida que também pode proteger o sujeito do sofrimento. No entanto, ela “prejudica esse jogo de escolha e de adaptação, na medida em que impõe igualmente a todos, de igual maneira, o seu caminho para a obtenção da felicidade e para proteção contra o sofrimento” (Freud, 1930/2020b, p. 332). Esse é justamente o ponto que nos remete à reflexão feita acima. Se a religião oferta a todos a mesma fórmula para se lidar com o sofrimento, ela acaba por fixá-los em um “infantilismo psíquico” (Freud, 1930/2020b, p. 332) frente à neurose individual.

No material analisado, nota-se que a religião aparece como recurso que dá sustentação à vida dos pacientes, mas também, em alguns casos, acaba por velar a responsabilidade deles frente a algumas escolhas. Questionamos as consequências de se atribuírem os acontecimentos/as escolhas de vida exclusivamente à causa divina.

Entrega nas mãos de Deus

Esta última categoria aponta como os pacientes, mesmo buscando atendimento psicológico, frente à persistência do sofrimento, entregavam suas questões à providência divina como primeiro e último recurso. No contexto de vários atendimentos, essa entrega era conveniente, uma vez que muitas vezes impedia o paciente da passagem ao ato2. Partindo da fala dos pacientes atendidos, construímos categorias que convergem quando tratam da religião como uma sustentação ao sujeito em sofrimento, mas também como aquela que exige um preço a ser pago.

Sabemos com Freud (1930/2020b) que o ser humano vive sob um mal-estar crônico e que, através da cultura, dispõe de meios para gerenciar a sua dor. Freud também marca como os seres humanos se encontram sob o efeito do seu meio cultural atual. Assim, a religião, como um desses meios, se apresentou fortemente no contexto dos atendimentos aqui relatados. Tal contexto era atravessado pelas condições socioeconômicas precárias e pelas facções de comércio ilegal de drogas. Aqui, a religião pode ser apontada como uma técnica de vida pouco exigente, capaz de impor seus próprios caminhos a todos, prometendo o encontro com a felicidade e o livramento do sofrimento (Ianinni & Santiago, 2020).

Žižek (2015) ressalta que a religião – como parte da linguagem humana como tal – oferece ao sujeito uma narrativa, uma ficção simbólica. Tal narrativa mostrava-se arraigada no território onde os diários de campo foram produzidos, sendo capaz de oferecer um significado àqueles que integravam a comunidade em questão.

Freud (1927/2020a), em O Futuro de uma Ilusão, propunha uma educação para a realidade, ao invés de uma educação religiosa, em vias de oferecer alguma parcela de felicidade ao sujeito. A ideia freudiana seria que, abrindo mão da referência a um suporte divino e da via transcendental, o ser humano se resignasse às próprias forças, buscando empregá-las como lhe parecesse melhor. No entanto, como já assinalado na introdução, o próprio Freud, em 1939, reconsiderara seu argumento, pontuando que a religião não seria facilmente superada, considerando sua função civilizatória.

Firmino (2018) sublinha a religião como prática emancipatória que pode amenizar certas dores e fornecer ao sujeito um enlace social. Para o autor, se a psicanálise parte da premissa do sujeito desejante, e o desejo permeia toda a atividade humana, nada impede que o crente aposte seu desejo, de fato, na religião e, ainda, que encontre nessa aposta uma via para tal felicidade.

Podemos concordar, então, que a religião seja de fato uma medida paliativa frente ao sofrimento – justamente por Freud já nos tê-la apresentado como tal. O aspecto com o qual discordamos dessa afirmativa é que a religião possa ser apontada como “emancipatória” e como “aposta do desejo”, visto que, muitas vezes, abre-se mão da responsabilidade subjetiva na espera de um apaziguamento que a religião pode oferecer: “Tenho alguns pensamentos obscuros. As pessoas da minha igreja oraram por mim, mas ainda tenho os pensamentos”.

O fragmento acima aponta para a oração como forma de remover os pensamentos obscuros, havendo uma expectativa da própria paciente de que a oração realizada por outras pessoas possa suprimir tais pensamentos. Consideramos que tal expectativa exime o sujeito, em certa medida, de implicar-se na elaboração desses pensamentos. Freud (1930/2020b, p. 363) já evidenciava que o ser humano não tem uma “natureza pacata, ávida de amor”, contando, entre as suas habilidades pulsionais, com uma forte inclinação para a agressão. Sustentar-se na ideia de que as ideias obscuras podem desaparecer somente pela via da oração, muitas vezes, pode gerar até mais sofrimento do que apaziguá-lo, uma vez que o sujeito, em seu ideal de semelhança a Deus, já não mais reflete a imagem de seu Criador.

Na perspectiva psicanalítica, considera-se que aquele que aposta fortemente o seu desejo na religião poderia abrir mão de algo de sua responsabilidade subjetiva. Rodrigues (2015) aponta como a psicanálise vai na contramão da religião como produtora de sentido, destacando que “ir na contramão” não pode ser entendido como sinônimo de “ir contra”. Ou seja, a psicanálise segue em outra direção, mas dentro do mesmo contexto de vida em que a religião se insere. Ora, se a religião contorna as narrativas de vida e sofrimento, o espaço para elaboração analítica é justamente na configuração de tais narrativas. Não há como imaginar que o discurso religioso e o psicanalítico se colocam em realidades subjetivas separadas.

“Rezei para Deus tirar as vozes de mim, mas não adiantou”. Este fragmento é de uma paciente que se apoia na oração como saída possível ao sofrimento – neste caso, como resolução à vivência alucinatória de ouvir vozes. Mas, na mesma medida, também reconhece a oração como insuficiente. Essa mesma paciente teve sua fé questionada na instituição religiosa que frequentava por escutar vozes e estar em sofrimento constante.

Como já foi evidenciado, a religião não só contorna a linguagem humana, como se encontra potente no recorte territorial dos atendimentos aqui relatados. Reitera-se: não caminhamos contra a religião, mas, advertidos pelo discurso analítico, destacamos a importância de o profissional de saúde não apostar nela como resposta ao sofrimento. Vimos nesta categoria que “entregar-se nas mãos de Deus” pode fornecer uma ideia provisória de amparo ao sujeito que, em seguida, pode estar estagnado nessa posição.

Žižek (2015) sublinha que, ao abandonarmos a ideia de que há uma entidade superior que garante sentido à vida, seremos confrontados com a nossa responsabilidade. Porém, pensar nesse abandono indiscriminadamente parece-nos demasiadamente radical, justamente porque, ao se privar o ser humano do suporte religioso – tal como Freud (1927/2020a) destacou –, muitas vezes não se tem nada melhor para ofertar em troca. O recorte territorial em questão apoia-se na religião e, com ela, faz laço. Ainda assim, alguns moradores, ao buscarem o atendimento psicológico na Unidade, viram-se diante da necessidade de tratar do sofrimento por outra via.

Retomamos a questão feita na categoria anterior: “apostando na religião, o que os seres humanos deixam de reconhecer como sendo deles?” e a reelaboramos: apostando na religião, mas não só, o sujeito já reconhece algo como sendo dele? Arriscamos a dizer que sim. Ainda, incluímos aqui uma outra problematização: o que pode o profissional de psicologia, guiado pela escuta analítica, em um contexto especialmente marcado pela religião?

Rodrigues (2015) nos convida a pensar qual seria o caminho possível para a psicanálise em um contexto de vida atravessado pela religião – questão que também nos confrontou. O ser falante, em seu encontro com o real do sintoma, busca dar um sentido ao que está fora dele. A demanda da busca pelo sentido apresenta-se tanto no contexto religioso como no analítico. No entanto, indo de encontro às religiões que acolhem os indivíduos em sofrimento e apostam na via de sugestão pelo sentido, a psicanálise, como prática de fala, opera com o sintoma em sua dimensão real (Bittencourt, 2017).

No intuito de acolher as formas de sofrimento humano, é inegável que haja um efeito terapêutico no acolhimento religioso. No entanto, é um efeito temporário “pois se trata de um deslocamento infinito, que não toca na causa do sintoma” (Bittencourt, 2017, p. 114). Quando o efeito terapêutico3 da religião se faz insuficiente, a psicanálise poderia encontrar espaço de intervenção. Como afirma Miller (2008), em Coisas de Fineza em Psicanálise: “Quando o cuidado terapêutico domina, adiamos o que a operação analítica tem de radical” (Miller, 2008, p. 5).

Ainda que a psicanálise possa ter efeitos terapêuticos, de alívio, de adaptação, este não é seu objetivo – já que terapêutico refere-se ao tratamento de doença, em contraposição à saúde. Estaríamos aqui no campo dos ideais, distante da psicanálise, que constrói sua prática fora do ideal terapêutico e curativo, privilegiando o que há de mais singular no sujeito – sua forma de viver, sempre sintomática –, abrindo mão de qualquer inclinação religiosa a que venha ser atrelada (Bittencourt, 2017). Esse aspecto é evidenciado por Lacan em seu Discurso aos Católicos, em março de 1960 ao responder à afirmativa “Quando se vai ao psicanalista, também se confessa”. Lacan é categórico: “Mas de forma alguma! Isso não tem nada a ver. Na análise, começa-se a explicar às pessoas que elas não estão ali para se confessar. É o começo da arte. Elas estão ali para dizer – dizer qualquer coisa” (Lacan, 2005, p. 64). Reitera-se aqui o que a psicanálise pode ofertar ao sujeito: um espaço de fala, seja ela qual for.

Assim como o discurso religioso delimitado neste artigo carrega promessas de contentamento e de alcance da felicidade, ele também o faz ofertando fórmulas universais. Todos devem seguir o mesmo caminho para a salvação. A psicanálise aposta em soluções singulares. “A verdadeira psicanálise no sentido de Lacan é aquela que se põe no rastro do desejo e que visa isolar, para cada um, sua diferença absoluta, a causa de seu desejo na sua singularidade, eventualmente a mais contingente” (Miller, 2008, p.19).

Com Lacan entendemos que o sujeito, pelo simples fato de falar – e ser falado – ordena a sua trama. Em uma articulação espontânea de significantes, o acaso ganha um sentido. Assim, caberia ao psicólogo orientado pela psicanálise “reconduzir a trama de destino do sujeito da estrutura aos elementos primordiais, fora de articulação, quer dizer, fora do sentido” (Miller, 2008, p. 58). Ou seja, a interpretação analítica não buscaria propor um sentido, sustentando-se como operação de desarticulação.

Lacan evidencia que o sujeito tem a singularidade de seu sinthoma4 recoberta pela busca de encarnar uma outra coisa – seja ela um destino, a herança de família, um personagem, um ideal (Miller, 2008). Poderíamos apontar a própria religião – delimitada na experiência relatada neste artigo – como algo que, por vezes, o sujeito encarna com rigidez e que o encaminha à significância; um discurso que não admite furo e ausência de resposta; um discurso que promete a cura. O discurso analítico, ao operar pela palavra, faz emergir justamente o incurável, na medida em que “(...) tomar o ponto de vista do sinthoma é saber que há aquilo que-não-mudará” (Miller, 2008, p. 62).

Considerações Finais

Este artigo propôs-se a analisar as formas como a religião cristã evangélica se apresentava nas narrativas de sofrimento de usuários que recebiam atendimento psicológico em uma Unidade Básica de Saúde. Como resultados, obtivemos três categorias: não é coisa de Deus, graças a Deus e entrega nas mãos de Deus. As categorias evidenciaram a força psicológica da religião no contexto estudado.

A primeira categoria apontou como a persistência de algumas formas de sofrimento pode ser vista como não sendo de Deus, gerando até mesmo um sentimento de culpa no sujeito que sofre; além disso, poderia atestar um afastamento deste da imagem divina. A segunda categoria evidenciou a força psicológica que o sacrifício de Cristo carrega, o que leva o sujeito ao dever de retribuir tal sacrifício através de algumas renúncias. Assim como a religião espera uma troca pelo amparo que fornece, aquele que se submete aos preceitos religiosos também espera alguma compensação. Se esta não vem, ou se é o sofrimento que constantemente se manifesta, isto pode ser encarado igualmente como punição divina. A última categoria reiterou a forte aposta que é feita na religião, no contexto dos atendimentos, como primeiro e último recurso simbólico para se buscar a felicidade – ou, melhor dizendo, a diminuição do sofrimento. Consideramos que tal discussão não cessa, nessa construção, o que abarca elaborações sobre a função da crença religiosa para cada sujeito.

Importante ressaltar que o fato de a religião ter sido apontada por Freud como uma técnica de vida pouco exigente para se lidar com o sofrimento não implica em associá-la a contextos marcados por extremas desigualdades sociais. No entanto, no recorte econômico-social desta pesquisa, a predominância do discurso religioso como suporte e, por vezes, causadora de sofrimento, foi o ponto que nos chamou atenção. A religião cristã evangélica apareceu como aquela que cobra, mas ampara, e que fornece ao sujeito, além de um pertencimento ao reino dos céus, um pertencimento social.

Assim como Freud assinalou em 1927 que o abandono da religião poderia dar ao sujeito melhores condições na elaboração de seus conflitos na vida terrena (argumento posteriormente retratado em 1939), Žižek (2015) retoma essa afirmativa, apostando também no abandono da religião como um caminho para se confrontar com a própria responsabilidade. Consideramos que tal afirmativa, além de presunçosa, é superficial. Afinal, Freud modifica sua proposição de 1927 sobre o abandono da religião, considerando-a elemento imprescindível à própria cultura.

Entendemos que os sujeitos atendidos vivem em um contexto extremamente marcado pela religião, servindo-se dela para a construção de suas narrativas particulares. Além disso, eles encontram na religião um suporte ao sofrimento e formas de fazer laço naquela localidade. Consideramos tal especificidade, mas advertidos do que não se pode perder de vista: as intervenções analíticas que aí podem ser feitas.

Assim, ponderamos que os psicólogos inseridos no campo da saúde pública atentem para não se servirem da religião como um recurso frente ao sofrimento, mas também não se valerem do discurso analítico para questionar a validade das crenças religiosas nas narrativas de sofrimento dos pacientes atendidos. Situar as possibilidades analíticas em um contexto que se vale da religião diz respeito muito mais à posição do profissional do que à do usuário. Assim, advertido pela força psicológica da religião – colocada em perspectiva no presente estudo –, o psicólogo orientado pela psicanálise reconhece os efeitos da linguagem no ser humano, e assim, opera fora do ideal terapêutico e curativo.

1A integralidade é uma diretriz do Sistema Único de Saúde (SUS) que reitera a necessidade de o profissional considerar o sujeito de forma integral – em todas as suas necessidades e dimensões biopsicossociais. Trata-se de um conceito usado neste artigo para marcar a inserção político-contextual (Unidade Básica de Saúde) dos autores durante a experiência na saúde pública.

2Passagem ao ato é um conceito psicanalítico introduzido por Lacan em seu Seminário X (1962) para designar a inscrição temporal inevitável do ato – sob forma de urgência – do sujeito frente à angústia. Miller (2014) distingue ação de ato, considerando este último como aquele que visa o cerne do ser, sendo indecifrável. Na ação, há uma cena, espera-se um espectador. Já na passagem ao ato “há o desaparecimento dessa cena e digamos que o sujeito está eventualmente morto. É ele, morto, quem olha os outros e lhes dirige sua questão, e lhes faz sentir o porquê de seu olhar” (Miller, 2014, p. 7).

3Partimos da concepção de efeito terapêutico descrita por Miller (2008), que aponta esse efeito como resultado de uma escolha rápida de um significante-mestre, capaz de fixar o sujeito em uma posição. “O discurso do mestre quer sempre a mesma coisa, o discurso do mestre quer o como todo mundo. E se o psicanalista representa alguma coisa, essa coisa é o direito, é a reivindicação, é a rebelião do não como todo mundo” (Miller, 2008, p. 19).

4Em vias de sublinhar algo da singularidade absoluta do sujeito, Lacan, em seu Seminário XXIII, elabora o conceito de sinthoma. Nessa concepção, Lacan mostra que cada sujeito tem um gozo absolutamente singular e irredutível, que configura o limite inaugural do sinthoma próprio de cada um (Miller, 2008).

Referências

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Recebido: 25 de Maio de 2021; Revisado: 18 de Setembro de 2021; Aceito: 03 de Dezembro de 2021; Publicado: 03 de Janeiro de 2023

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