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Boletim de Psicologia

versão impressa ISSN 0006-5943

Bol. psicol vol.62 no.136 São Paulo jun. 2012

 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

O fenômeno da negação não psicótica da gravidez: uma pesquisa bibliográfica

 

The phenomenon of non psychotic denial of pregnancy

 

 

Thomás Gomes Gonçalves*; Mônica Medeiros Kother Macedo*

Faculdade de Psicologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - RS - Brasil

 

 


RESUMO

O fenômeno da negação não psicótica da gravidez caracteriza-se pelo fato de uma mulher não saber que está grávida durante boa parte da gravidez ou até o momento do parto. Este artigo objetiva apresentar uma pesquisa bibliográfica sobre o fenômeno da negação não psicótica da gravidez, retratando o panorama mundial das produções científicas a respeito desta temática. A partir da busca de produções sobre o fenômeno em base de dados, identificou-se o tipo de produção, a classificação quanto aos objetivos, assim como os autores e obras mais citados nas referências bibliográficas. Constatou-se que artigos científicos constituem 74% dos tipos de produção; sendo que em relação à classificação quanto ao objetivo 25,8% foram de pesquisa documental.O artigo científico intitulado "Denial of Pregnancy: Obstetrical aspects" de Brezinka et al. caracteriza-se como a obra mais citada nas referências bibliográficas das produções sobre o fenômeno da negação não-psicótica da gravidez.

Palavras-chave: Denial of pregnancy; pregnancy denied; pesquisa bibliográfica; prevenção; saúde psíquica.


ABSTRACT

The phenomenon of non-psychotic denial of pregnancy is recognized when a woman does not know she is pregnant during a great part of her pregnancy, or even until labor. This article has as its aim to present a bibliographic research about the phenomenon of non-psychotic denial of pregnancy, portraying worldwide scientific productions on this topic. From the search of productions about the phenomenon through data bases, we could identify the type of production, classification related to the objectives, as well as the authors and productions more cited in the references. We concluded that scientific articles represent 74% of the types of production. Classification based on the objectives revealed 25,8% of documentary research. The scientific article entitled "Denial of Pregnancy: Obstetrical aspects" of Brezinka et al. is characterized as the most cited production about the phenomenon of non-psychotic denial of pregnancy.

Key words: Denial of pregnancy; pregnancy denied; literature review; prevention; mental health.


 

 

A situação complexa de negação não psicótica da própria gravidez por parte de mulheres sem diagnóstico de psicose tem sua compreensão pouco explorada em artigos científicos. Constata-se, porém, mediante busca e leitura das produções disponíveis, que os escassos estudos realizados sobre essa temática possibilitam um futuro promissor para o entendimento deste assunto.

Para a busca de artigos, os descritores utilizados nessa revisão foram denial of pregnancy e pregnancy denied e fazem alusão a três diferentes definições: concealment of pregnancy (dissimulação da gravidez), psychotic denial of pregnancy (negação psicótica da gravidez) e non-psychoticdenial of pregnancy (negação não psicótica da gravidez) (Friedman, Heneghan e Rosenthal, 2007). A primeira denominação se refere à situação na qual a mãe sabe que está grávida, porém esconde o fato de todos. Geralmente, essa negação ocorre em adolescentes que ficaram grávidas e temem a repercussão que tal fato possa provocar no âmbito familiar. Já a negação psicótica da gravidez é um fenômeno que ocorre com mulheres que já tenham um histórico de psicose ou a perda da guarda de algum filho (Friedman et al., 2007). Neste tipo de negação, a gestante tem um transtorno psicótico preexistente ou contínuo (Spielvogel e Hohener, 1995).

O presente artigo aborda a revisão de literatura da terceira definição, a saber, o fenômeno da negação não psicótica da gravidez, que pode ser definido como a falta de consciência subjetiva por parte da mulher em relação a estar grávida (Wessel, Endrikat e Buscher, 2002). Corroborando essa asseveração, Ferragu (2002) considera que o termo negação não psicótica da gravidez refere-se à ignorância, por parte da mulher, de seu estado gravídico. Chaulet (2011) afirma que esse fenômeno pode ser definido como a negação, por parte da mulher, dos primeiros cinco meses de gestação em diante ou até o momento do parto. No fenômeno da negação não psicótica da gravidez, a realidade está preservada, ou seja, a realidade não é substituída por outra realidade alternativa. Logo, as grávidas não estão vivenciando um episódio psicótico (Spielvogel e Hohener, 1995). A complexidade desta situação provoca a necessidade de um estudo atento sobre os fatores nela envolvidos.

 

CONTEXTUALIZANDO A NEGAÇÃO NÃO PSICÓTICA DA GRAVIDEZ

Constatam-se, na prática clínica, situações nas quais a gravidez só é percebida pela mãe ao final do primeiro trimestre, principalmente com gestantes primíparas que não estão familiarizadas com os sintomas característicos de uma gravidez (Wessel, Gaurder-Burmaster e Gerlinger, 2007). Porém, também na clínica, apresentam-se situações de negação da gravidez por parte de pacientes não psicóticas até praticamente o momento do parto. Evidencia-se, nessas situações, a necessidade de investigar em profundidade os fatores implicados, uma vez que parecem contradizer a sequência dos fatos relativos à constatação de um processo gestacional por parte da futura mãe. Assim, a situação na qual uma mulher não sabe que está grávida, mesmo em estágio avançado da gestação, passando por nove meses sem apresentar ou sem reconhecer o significado dos sintomas típicos de gravidez e sem ter grande aumento de peso, pode ser considerada um fenômeno instigante.

Os estágios para a adaptação frente à ocorrência de gravidez passam pela aceitação, vínculo com o feto, atividades preparatórias e percepção realista do recém-nascido (Spielvogel e Hohener, 1995). Logo, mulheres que descobrem que estão grávidas somente na hora em que estão parindo ou em um estágio avançado da gravidez, possivelmente passaram por algumas ou nenhuma dessas fases. Essas mulheres que não têm consciência de sua gravidez acabaram por ser objeto de estudo de diversos pesquisadores, além de serem consideradas exemplos do fenômeno denominado negação não psicóticada gravidez (Beier, Wile e Wessel, 2006; Friedman et al., 2007; Spielvogel e Hohener 1995; Wessel et al., 2007).

Para uma melhor compreensão da negação não psicótica da gravidez, é necessário situá-la como um fenômeno que não é raro nem exótico, contrariando, assim, o senso-comum. Uma questão interessante em relação a este fenômeno é que a negação da gravidez pode advir não somente por parte da grávida, mas, também, de outras pessoas de seu entorno, como por exemplo, dos médicos e das mães das gestantes (Friedman et al., 2007). A negação por parte dos médicos, segundo Spinelli (2010), diz respeito a atribuir, por exemplo, a amenorreia ao estresse, sem efetivamente submeter a mulher a exames que comprovem ou não uma possível gravidez. Desta forma, considera-se relevante buscar estudos que foram produzidos a partir da existência deste fenômeno, visando à promoção de um olhar mais atento a esta situação que tem importantes consequências na relação primeira da mãe com seu bebê.

 

MÉTODO

Este artigo retrata um estudo na perspectiva da pesquisa bibliográfica (Gil, 1999). As produções analisadas compreendem três décadas, sendo pesquisados artigos publicados desde a década de 1980 até produções mais recentes, do ano de 2010. Neste período, foram identificadas 31 produções sobre o fenômeno da negação não psicótica da gravidez. O material analisado foi composto por 23 artigos, um capítulo de livro e uma tese de doutorado, além de seis produções não localizadas.

Procedimento

Os descritores utilizados para realizar a pesquisa foram: denial of pregnancy e pregnancy denied.Buscaramse as produções nas seguintes bases de dados: Scielo, ISI, Scopus, Clase, Latindex, Redalyc, Lilacs, Psicodoc, Pascal, PsychInfo, além do Portal de Periódicos e Banco de Teses da Capes e do serviço de busca da Biblioteca Central de uma universidade particular de um estado brasileiro. Todas as produções encontradas passaram por um processo de leitura e fichamento. Não foram encontradas seis produções, mesmo após a utilização do Serviço de Comutação (COMUT) da Biblioteca Central da Universidade. Após esse procedimento foram organizadas quanto ao tipo de produção bibliográfica, assim como classificadas quanto aos seus objetivos, segundo a proposta de Gil (1999).

Ademais, analisaram-se as referências bibliográficas existentes nas produções a partir do estabelecimento de suas frequências. Os dados levantados passaram por tratamento estatístico simples, em termos de frequências e porcentagens.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na Tabela 1, apresenta-se o tipo de produção sobre a negação não psicótica da gravidez. Verifica-se que o tipo de material mais encontrado na revisão de literatura sobre o fenômeno diz respeito a artigos de periódicos, correspondendo a 74% de toda a produção disponível sobre o fenômeno.

 

 

Contata-se que 30,6% dos artigos encontrados foram escritos por autores americanos. Em relação aos capítulos de livros, encontrou-se apenas um, intitulado "Denial of pregnancy" (Miller, 2003), que está inserido num livro sobre infanticídio com o título de "Infanticide: Psychosocial and legal perspectives on mothers who kill" (Spinelli, 2002). Ressalta-se também a incidência de produções que relacionam a negação não psicótica da gravidez com o neonaticídio e o infanticídio, num total de 25% das produções encontradas. Na intenção de mostrar os dados em sua totalidade, foi necessário apresentar também as produções não localizadas, representando assim 19,3 % do total, sendo todos artigos científicos. Notou-se que apenas uma produção derivada de um Programa de Pós-graduação aparece nos resultados encontrados. Trata-se de uma tese de doutorado intitulada "Déni de grossesse: Une revue de litterature", da Université de Rennes1 da França (Ferragu, 2002).

Pode-se constatar um número pouco expressivo, ao se encontrar um total de produções de apenas 23 artigos de periódicos, um capítulo de livro e uma tese de doutorado que abordam a negação da gravidez não psicótica, num período de 30 anos. Percebe-se um espaço potencial para estudos que resultem na produção de conhecimentos sobre este fenômeno. A Tabela 2 apresenta uma classificação quanto aos objetivos das produções segundo proposições de Gil (1999).

 

 

Na Tabela 2, verifica-se que, quanto aos objetivos, as produções sobre o fenômeno da negação não psicótica da gravidez apresentam a pesquisa documental com a maior frequência, correspondendo a 25,8% do total. Possivelmente, devido à dificuldade de acesso direto a pacientes que apresentem o fenômeno da negação não psicótica da gravidez, o recurso encontrado pelos pesquisadores para enfrentar essa adversidade foi usar os dados já obtidos pelas instituições hospitalares. Estudos de caso representam a segunda maior frequência, com 22,6%, evidenciando tentativas de efetivar estudos mais aprofundados sobre essas mulheres que não sabiam estar grávidas. O estudo de caso lança um olhar reflexivo e profundo sobre a vida destas mulheres, abrindo, assim, um campo de questionamento e uma ampla possibilidade de discussão. A pesquisa de levantamento, segundo Gil (1999), se refere à interrogação direta das pessoas de cujo comportamento se quer tomar conhecimento. Esta modalidade de pesquisa corresponde a 19,3% de frequência dos objetivos nos estudos encontrados. Essas pesquisas contemplam estudos de caráter prospectivos, assim como estudos longitudinais, abarcando dados referentes à epidemiologia do fenômeno da negação não psicótica da gravidez. As pesquisas experimentais e bibliográficas representam, cada uma, 6,5%. As pesquisas bibliográficas abrangem uma tese de doutorado e um capítulo de livro, enquanto as experimentais se referem à investigação da suposta menstruação que acomete as mulheres na situação de negação não psicótica da gravidez e a tentativa de inserir este fenômeno em manuais diagnósticos.

Na Tabela 3 pode-se constatar a frequência de citações nas referências bibliográficas dos textos encontrados.

Das 25 produções encontradas, procurou-se expor as produções que apresentam frequência igual ou acima de cinco vezes no que diz respeito a citações. O artigo Denial of pregnancy: Obstetrical aspects (Brezinka, Hute, Biebl e Kinzl, 1994) foi o que obteve maior frequência. Possivelmente, esta alta frequência ocorreu por ser esse artigo um dos primeiros nos quais foi relatado um estudo mais aprofundado sobre a negação não psicótica da gravidez, contemplando um estudo com uma amostra de 28 mulheres, diferenciando-se, assim, das outras produções que apresentam apenas um estudo de caso. O artigo Denied pregnancy (Kaplan e Grotowski, 1996) aparece com 48%, a segunda maior frequência. Este artigo apresenta apenas um estudo de caso. O artigo "Denial of pregnancy: A review and case reports" (Spielvogel e Hohener, 1995) aparece com 44%, a terceira maior frequência. Segundo Neifert e Bourgeois (2000), este artigo distingue a negação não psicótica da gravidez daquela que apresenta sintomas psicóticos e apresenta importante revisão de literatura sobre este assunto.

Em razão da forte associação entre a negação não psicótica da gravidez e neonaticídio, presume-se que, por este motivo, o artigo "A systematic investigation of 16 cases of neonaticide" (Spinelli, 2001) apareça com 40%, a quarta maior frequência. O quinto artigo com maior frequência é "Denial of pregnancy: A case study and literature review" (Neifert e Bourgeois, 2000). O artigo "Frequency of denial of pregnancy: Results and epidemiological significance of a 1-year prospective study in Berlin' (Wessel et al., 2002) aparece com a sexta maior frequência. Este estudo abrange o maior número de casos sobre o fenômeno. E com uma frequência de 20%, consta o capítulo de livro "Denial of pregnancy" (Miller, 2003), no qual se apresentam diferentes tipos de denial of pregnancy.

Nas produções científicas sobre a negação não psicótica da gravidez, destaca-se a pesquisa de levantamento feita na Alemanha e coordenada por Wessel et al. (2002). Optou-se por explorar este artigo de forma consistente, pois apresenta um estudo profundo e completo sobre a situação de negação não psicótica da gravidez, abordando de forma pioneira aspectos de extrema importância para a melhor compreensão do fenômeno.

A pesquisa referida foi realizada entre julho de 1995 e junho de 1996. Foram contatadas 24 instituições que realizam partos na região metropolitana de Berlim para a realização do estudo. Estas instituições tinham a incumbência de informar aos pesquisadores sobre casos de mulheres que não sabiam que estavam grávidas e que não tinham um diagnóstico de gravidez dado por um médico durante as 20 primeiras ou mais semanas de gestação.

Os pesquisadores estipularam um limite para que as participantes fossem ou não incluídas no estudo, isto é, as participantes deveriam ter 20 semanas de gestação ou mais. Esta delimitação se deu para que o estudo pudesse ser comparado com outros já realizados que também determinavam um limite nas semanas de gestação para a validade de seus estudos (Wessel et al., 2002).

As mulheres que foram incluídas na pesquisa eram agrupadas em dois diferentes grupos. O primeiro grupo se referia àquelas mulheres que tiveram um parto repentino seguido de uma quase ou total ausência de cuidado pré-natal, ou que tiveram um início tardio em relação ao pré-natal. O segundo grupo consistia naquelas mulheres que estavam ainda em período gestacional. O critério de inclusão neste grupo era o início tardio de realização de exame pré-natal, respeitando, novamente, o limite imposto pelos pesquisadores. Tanto para um grupo quanto para o outro, o critério determinante para inclusão no estudo era o fato de essas mulheres não terem tido nenhuma percepção subjetiva de sua gravidez até 20 semanas ou mais de gestação.

Depois que as instituições notificavam os casos que atendiam aos critérios de negação da gravidez, os pesquisadores visitavam as participantes até três dias depois do parto. Nos casos em que as participantes descobriram que estavam grávidas antes do parto, três entrevistas eram feitas: uma antes do parto, outra logo após o parto e, a última, realizada três meses após o nascimento do bebê. Os resultados desse ano de pesquisa mostraram que 94 mulheres preenchiam os critérios, mas algumas delas foram excluídas do estudo depois da comprovação da situação de dissimulação da gravidez, pois havia o conhecimento de que estavam grávidas.

Os pesquisadores separaram essa amostra em três grupos. O primeiro grupo era composto por 65 mulheres que apresentaram o fenômeno da negação não psicótica da gravidez. O segundo grupo consistia de 25 mulheres que sabiam que estavam grávidas, mas ocultaram sua gravidez e, no terceiro grupo estavam 4 mulheres que não se enquadraram em nenhum dos grupos. Neste terceiro grupo, três mulheres não mostraram evidências precisas sobre ter ou não negação não psicótica da gravidez e uma cometeu neonaticídio.

Das 65 mulheres do primeiro grupo, 90% tinha idade entre 19 e 41 anos, sendo a média de 27 anos, tendo 15 anos a mulher mais jovem e 44 anos a mais velha; a grande maioria era alemã, sendo apenas 4 estrangeiras; 54 mulheres tinham um parceiro fixo. Dessas mulheres, 42 viviam com seus companheiros e três menores de idade viviam com seus pais; 36 mulheres tinham tido pelo menos uma gestação anterior, oito delas já tinham interrompido ou sofrido um aborto e o restante do grupo nunca tinha engravidado anteriormente. Sobre o diagnóstico de negação não psicótica da gravidez, 24 mulheres descobriram que estavam grávidas durante o trabalho de parto, três delas estavam em casa e repentinamente tiveram um filho, sem nenhuma ajuda médica. Já as outras 41 mulheres tiveram o diagnóstico de gravidez realizado ainda durante a gestação: até a 24ª semana em 14 mulheres, entre a 25ª e 28ª em nove mulheres, entre a 29ª e a 32ª em oito, entre a 33ª e 37ª em oito e no começo da 38ª semana em duas mulheres.

Sobre a condição dos nascimentos, foram 69 nascimentos sendo quatro pares de gêmeos; 12 partos a pré-termo e o restante nasceu no tempo normal de gestação. Foram 37 meninos e 32 meninas e o peso variou entre 995 gramas e 4.920g. Dessas crianças, 51 permaneceram com seus pais, 13 foram colocadas para serem adotadas e uma foi efetivamente adotada.

A proporção total encontrada com este estudo foi de uma negação não psicótica da gravidez para 475 nascimentos em geral (Wessel et al., 2002). Os pesquisadores ressaltam que a negação não psicótica da gravidez não deve ser encarada apenas no seu nível mais extremo, ou seja, quando as mulheres entrarem em trabalho de parto repentinamente, mas, também, incluir aquelas que não sabiam que estavam grávidas da 20ª semana de gestação em diante.

Para obter melhor compreensão do fenômeno da negação não psicótica da gravidez, os pesquisadores fizeram uma projeção de quantas gestações com negação não psicótica da gravidez ocorreriam em toda Alemanha, baseado no estudo que fizeram nos hospitais de Berlim. Contatou-se, então, que 300 situações de gravidez aconteceriam por ano sem que a mulher tivesse a mínima noção de estar grávida. Fazendo uma projeção sobre o caso mais extremo de negação de gravidez, que seria quando a mulher repentinamente dá a luz, os pesquisadores estimaram que em torno de 80 partos aconteceriam desta forma em toda a Alemanha. Dentre outras contribuições, este estudo mostrou o quanto o fenômeno da negação não psicótica da gravidez não é um fenômeno raro.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo objetiva mostrar o panorama mundial sobre o estudo do fenômeno da negação não psicótica da gravidez. Sabe-se o quanto os estudos a respeito dos tempos iniciais da constituição humana remetem à importância das primeiras experiências entre a mãe e o bebê. Uma das primeiras condições de cuidado necessárias na condição de gravidez se inaugura na necessidade de um acompanhamento pré-natal. Em uma situação, na qual ocorrem impedimentos para o reconhecimento da condição de gestação de uma vida, é inegável que se faça presente uma preocupação com as condições das demandas inerentes à relação que se dá entre a mãe e seu filho. Logo, esta revisão de literatura busca evidenciar a aproximação a uma temática que convoca à reflexão sobre os efeitos, tanto para a mãe como para o bebê, da impossibilidade de estabelecer condições de reconhecimento de uma gestação e da proximidade de um nascimento. Na revisão realizada, constata-se, também, a existência de diversos artigos (Beyer, Mack e Shelton, 2008; Friedman et al. (2007); Friedman e Resnick, 2009; Riley, 2005; Spinelli, 2001; Tronche, Villemeyre-Plane, Brousse e Llorca, 2007) que relacionam a negação não psicótica da gravidez com a ocorrência do neonaticídio e do infanticídio. Cabe ressaltar que neonaticídio refere-se à morte de um infante por parte de um dos seus progenitores, geralmente de sua mãe, nas suas primeiras 24 horas de vida. Já infanticídio é a morte por parte de um dos seus pais durante a infância (Riley, 2005). Destaca-se o estudo de Spinelli (2001), que investigou o neonaticídio, ou seja, a morte de uma criança no dia do seu nascimento. Neste estudo, o autor relata a ocorrência da negação não psicótica da gravidez como precedente ao neonaticídio. Desta forma, não restam dúvidas sobre a relevância de estudos que abordem os complexos fatores implicados no fenômeno da negação não psicótica da gravidez. Este fenômeno precisa ser efetivamente compreendido, uma vez que sua prevenção contempla importantes cuidados na esfera da saúde pública e pressupõe o conhecimento em profundidade dos elementos que promovem sua ocorrência.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 14/04/11
Revisto em 29/06/12
Aceito em 29/06/12

 

 

* Endereço para correspondência: Av. Venâncio Aires 509, apt. 303. Bairro Cidade Baixa, Porto Alegre - RS. CEP: 90040-193. E-mail: gomes.thomas@gmail.com