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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437

Estud. psicanal.  n.29 Belo Horizonte set. 2006

 

TEXTOS SELECIONADOS

 

Arte contemporânea: a mulher nos poemas de Elisa Lucinda

 

Contemporary art: woman in Elisa Lucinda´s poems

 

 

Stetina Trani de Meneses e Dacorso

Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico (seção Rio de Janeiro) – CBP-RJ. Mestre em Psicologia. Didata – Supervisora Sobrap – Juiz de Fora. Professora Titular do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Considera as rupturas culturais provocadas pelas mudanças subjetivas das mulheres. Os poemas contemporâneos de Elisa Lucinda são usados como expressão desse feminino.

Palavras-chave: Arte Contemporânea, Mulher, Psicanálise, Poesia, Elisa Lucinda.


ABSTRACT

The text talks about the cultural breaks caused by women subjective changes. Elisa Lucinda’s contemporary poems are used to express this feminine.

Keywords: Contemporary art, Woman, Psychoanalysis, Poetry.


 

 

O Iluminismo, produtor da cultura da razão, excluiu o feminino aliando-o à natureza e paixão. Para Foucault (1985), os modos de subjetivação e sexuação são determinados historicamente. Para ele as formas de subjetivação são produções resultantes de um jogo incessante entre poderes, formações discursivas e agenciamentos libidinais.

A literatura sempre foi um mundo dominado pelo masculino. A Revolução Francesa marcou a conquista do espaço cultural pelo feminino que provocou uma ruptura, instaurando um grupo de discursos e um modo singular de existir.

Quando as mulheres escrevem há uma especificidade que diz respeito ao seu mundo. Teóricos da literatura (Pereira, 2004) questionam a divisão de textos entre autores masculinos e autores femininos, consideram que as emoções humanas são despertadas pela obra independentemente do sexo do autor. É a universalização das vivências humanas, tocando a sensibilidade, desta forma há uma transcendência do gênero.

Contudo, existem particularidades e temáticas próprias das mulheres. Sanabria (2005), lembrando os tempos da Idade Média, analisa como os sabás – rituais que reuniam mulheres – eram perseguidos e castigados cruelmente como ato conspirador. Mulheres juntas sempre foram associadas a uma transgressão, possivelmente porque essa reunião de várias femininas implicava uma imprevisibilidade que a linearidade do mundo masculino e patriarcal não conseguia suportar com serenidade. O feminino é uma trama, vai se construindo, é feito e desfeito, recortado, colado. Forma um painel que permite uma multiplicidade de movimentos, leituras e versões.

Este feminino se interroga permanentemente, por isso as mulheres com suas dores, paixões e pesares têm sido objeto de nossos estudos e encantamento. Neste percurso, em Escutando Mulheres (1996), trabalhamos com veredas clínicas construindo hipóteses sobre a importância da analidade na constituição do ser feminino. Propusemos que renunciando aos atos de dominação esfincteriana – primórdio da independência, autonomia e atos masturbatórios –, as mulheres preservavam a mãe onipotente e coercitiva. Recusando a identificação com esta mãe sádica-anal a mulher volta-se para o pênis-pai de forma idealizada e dependente, encontrando o parceiro erótico da mãe. Ocorre, então, um novo recuo que implica num recalque das características anais produzindo cristalizações psíquicas, culpa, sadismo disfarçado e paralisação nas atividades da vida e na vivência da sexualidade. Instala-se uma subserviência psíquica que não elimina a agressividade contra si e/ou o outro. No texto Mulher... por que você não desmaia? (2002) abordamos as várias atividades com as quais as mulheres se comprometem. Neste período várias reportagens da mídia indicavam que havia um desejo, por parte delas, de diminuição de tarefas e retorno ao lar. Fato não comprovado na escuta clínica, que apontava e aponta para uma saída de administrar os compromissos. Utilizando também de flashes clínicos, convocamos o humor como uma via de acordo entre exigências externas e internas. Solução criativa e conciliatória. Em ambos os trabalhos, Elisa Lucinda esteve presente com os poemas: “Aviso da lua que menstrua”; “No elevador do filho de Deus” e “Tinha uma rima no meio da moqueca”.

Elisa Lucinda é capixaba de Vitória. Formou-se em jornalismo, trabalhou em rádio e novelas. Começou a escrever aos 17 anos se apoiando em poetas portugueses: José Régio, Mário Sá Carneiro e Fernando Pessoa. Nos últimos tempos tem escrito livros infantis. Sua presença enche o palco, atirando palavras simples cheias de paixão sobre as vivências cotidianas: tristezas, tesão, filhos, dores. Gosto de lembrar do meu primeiro encontro com ela. Voltando do Rio, estava sentada ao lado de uma mulata bonita com magníficos olhos verdes, só pode ser lente, pensei. Chegando em Juiz de Fora, ele me pergunta como chegar a uma dada casa noturna, onde faria uma apresentação naquela mesma noite. Apresentou-se como Elisa sem nenhuma explicação. Algum tempo depois fui convidada para um sarau poético naquele mesmo bar. Era uma noite chuvosa e fria, típica do inverno de JF... De repente sobe ao palco uma mulata com os verdadeiros olhos verdes. Aprisiona a platéia com sua voz e atuação. Expõe vísceras do mundo feminino e me captura... Seu livro: um xerox com telefone manuscrito. A dedicatória: quero o prazer de ir morar na sua casa. Por um instante nas estantes. Beijos Elisa. O prazer se cumpriu e não por instantes...

Neste trabalho tentaremos, através da poesia contemporânea de Elisa Lucinda, poeticamente pensar a mulher nossa de cada dia. Pinçamos poemas que abordam o que escutamos, observamos e vivemos. Para sermos tocados pela emoção, onde o intelecto vacila e fica aquém não é uma interpretação da obra para confirmar a psicanálise! Mas, para nos emocionar com a literatura, com este discurso artístico que enuncia os movimentos da alma feminina.

Kehl (2002) considera que o humor e a poesia são atos de linguagem que servem para dar conta de representar a divisão do sujeito, sem negar o conflito. É a forma como se pode responsabilizar pelo desejo sem sintoma, projeções ou atos violentos. Para Kehl a palavra poética não recusa nada, não pede coerência, não prefere os grandes temas ao minúsculo da vida:

Dai-me sempre uma poesia que abra feridas e ao mesmo tempo cure todos os nexos, todos os lados de dentro. Uma poesia emplastro, uma poesia ungüento. Uma poesia prova, uma poesia de vento, que ao mesmo tempo dure. (Prece sem pressa, 1997)

Para Freud, a saúde mental tem relação com nossa capacidade de modificar a realidade de acordo com nossos desejos. A criação é uma saída do conflito, semelhante ao sintoma, diferindo deste pela ilusão que constrói, tendo como aliada a fantasia. O prazer oriundo dessa fruição nos alivia se conseguirmos nos identificar. Dessa forma, desabafamos nossos impulsos e sentidos na ânsia de liberdade afetiva.

O inconsciente é um cachorro louco solto no quintal da casa. Enquanto a gente está na sala, ele mija na roupa lavada, morde quem a gente beija, ele, nos fundos de tudo, rosna e late sem a nossa explicação. (Matilha, 1999)

A poesia inúmeras vezes diz o que não conseguimos dizer pela razão. Para muitos, poesia não é coisa séria. Lucinda concorda: “O homem vai pensar que sou louca porque poesia para algumas coisas ou pessoas não comunica, poesia quando o papo é sério, impossibilita, não convém parece impropério”. (1999)

A Conferência XXXIII, Freud a encerra aconselhando a quem quiser saber mais a respeito da feminilidade, indagar de sua própria experiência ou consultar os poetas. Na discursividade do feminino, Neri (2005) aponta uma estética transgressora, de desconstrução dos discursos que pretendem anunciar a verdade sobre a mulher. Situando-se, assim, para além da verdade sobre o feminino enunciada seja pelo discurso filosófico, científico, seja pelo psicanalítico ou pelo da igualdade do movimento feminista. Segundo a autora, não é para perguntarmos ou ficar respondendo quem somos, mas negar o que dizem que somos.

Ouçamos Lucinda poetizar sobre o enigmático da mulher:

Há de ser cautela com essa gente que menstrua... imagine uma cachoeira às avessas, cada ato que faz, o corpo confessa. Às vezes parece erva, parece hera, cuidado com essa gente que gera, essa gente que se metamorfoseia metade legível, metade sereia, barriga cresce explode humanidades... cuidado com cada letra que manda para ela, transforma fato em elemento e tudo refoga, frita... cuidado moço, por você ter uma cobra entre as pernas cai na contradição de ser displicente diante da própria serpente ela é cobra de avental, não despreze a meditação doméstica, é da poeira do cotidiano que a mulher extrai filosofia. (Aviso da lua que menstrua)

Freud esclarece que a psicanálise não descreve o que é a mulher, mas se empenha em indagar como é que a mulher se forma, se desenvolve. Neste constituir, a relação com o pai e posteriormente com outros homens é uma transferência da vinculação inicial com a mãe. Elisa expõe estes amores:

Eu passeando de biquíni pelas praias de Manguinhos... Meu pai preocupado na beleza com que eu crescia: “Menina, o que foi que eu lhe disse!” E eu desobedecia... Menina que eu era, minha mãe escolhendo os peixes na mão de Seu Euclides... As unhas vermelhas de minha mãe, o vestido aviscosado de um pano molinho esverdeado, revelando o sempre belo corpo dela; o azul do mar ao fundo de tudo... Todo esse amor, esse ano novo, essas vitrines, a chegada dos utensílios de plástico na cozinha cheirosa, daquele moderno de minha mãe, sou eu hoje a teu lado. Atada ao seu cheiro como se nunca houvesse respirado outro ar. E querendo mais, como um novo perfume. (O doce segredo da cestinha de cajá, 1999)

O complexo de castração afasta as meninas da mãe com ódio. Nos distanciando dessa inveja fálica e olhando nossas companheiras de gênero, percebemos o exercício ativo do cotidiano, tentando a sobrevivência lado a lado com nossos parceiros, sem receios e ou destrutividade para com a alteridade. A escrita do gênero feminino tem sido atribuída a uma abertura afetiva, entrega, risco, colocando a nu as suas feridas com dignidade. Elisa fez eco de muitas de nós: “o mundo seria muito sem graça sem a masculinidade. Além do que inviabilizaria a melhor brincadeira nossa, a comparação que os homens são bonitos com seus pêlos, paus e sacos”. (Entrevista, 1999)

A arte deve quebrar, subverter uma ordem, fazer olhar o “natural” com outros olhos, “chocar” pela apresentação crua de um óbvio não percebido. Deve estar livre das amarras que mantém servil a uma ordem pré-determinada, contudo, guarda também as marcas de seu tempo.

Mesmo com todos os desencantos que as relações afetivas encerram nos dias atuais, as mulheres continuam tentando parcerias. Afinal: “Sonhos e quimeras são coisas cujo nome é poesia”, como diz Mimi em La Bohéme. Contudo, se a dor se apresenta, não sofrem caladas nem passivas, não temem dizer seu nome. Lucinda usa de objetos e atos do cotidiano para expressar este sofrer.

Ai, como é mórbida a tua secretária eletrônica, roubou meu batom e no mesmo tom me diz que você não está, como uma armadilha de sonora trilha pede um recado após o sinal... não dou. Antes disso terá um longo curto-circuito entre as pernas essa tua secretária calhorda, essa tua secretária moderna, tão sonsa, tão palerma, ligada por ti para te sacanear. (No momento não estou, 1997)

O desencanto e rapidez desses amores líquidos, como diz Bauman, não tornam as mulheres impotentes ou medrosas. A liquidez no amor – diferente da conta no banco – significa frenético movimento, muita fluidez e poucos obstáculos. Amor que é vivido de forma insegura, diante das possibilidades de parceiros e variedade de modelos de relacionamento. Amor é uma hipótese baseada num futuro incerto e inescrutável. Com tantas atividades que exercem – amar é mais uma, incluindo o ter de aprender – para um grupo específico – as novas regras do jogo amoroso. Inclui perceber como as relações podem se constituir num mundo com exigências de flexibilidades, mutação, movimento e transitoriedade, onde nos esvaímos na sucessão brutal de objetos.

Que lá vou eu de novo na solterice, exposta ao mar da mulatice, a honra das novas uniões, vassouras, rodos, águas, flanelas e ceras, protejam as beiras, lustrem as superfícies, aspirem os tapetes. Vai começar o banquete de amar de novo – gatos, heróis, artistas, poetas, psicanalistas, príncipes e foliões, façam todos suas inscrições. (Safena, 1993)
A arte moderna instalou uma inversão, elege o insignificante como objeto estético, as vidas infames como tema literário, a contradição como valor. Tudo que sempre foi considerado sagrado é tratado de forma natural, nos assustando pela força que este é “assim” embutido. A maternidade, por exemplo, considerada, durante séculos, o fim último da mulher, hoje é uma opção: “você é a barbaridade de ter feito a minha barriga crescer meu corpo zunir, abrir, escancarar para você, sair... a criatura é mais que o criador e você saiu por onde entrou... me olha como gente que já me viu por dentro, vasculhou meu plasma, minhas gavetas, me deixou pasma, coroou minha buceta”.
(Consagração da criatura, 1997)

A arte é expressão de algo considerado belo, pungente e/ou angustiante. É expressão de um ideal individual, cultural, procurando produzir no outro uma sensibilidade. Barthes (1973) diz que o texto deve nos desejar. Não se diz dele bom ou mau É texto de fruição: desconfia, vacila, assusta. Faz-se ouvir e imediatamente ouve-se outra coisa. O fim dos deuses, o desânimo, a falta de crença, rejeição às normas: os poemas caem na realidade.

Nós que escutamos as companheiras de gênero e a nós mesmas, percebemos que depois de brigar, masculinizar, pagar o preço, a prece, suar para entrar no padrão e brigar para dele sair, encontrar o amor e vivê-lo a qualquer preço; pagar contas; cuidar da cabeça, acumular títulos... enfim se quer e pode se estabelecer como “a singular” como não perdida no grupo. A atividade/masculinidade que percebemos nas mulheres atuais é muito mais o prazer de se constituírem do que a inveja e destrutividade em relação ao companheiro de humanidade e/ou parceiro amoroso gênero-masculino. São seres explosivos, de lua, estações e marés, em mutação na direção de uma nova ordem, desconhecida, sem verdades oraculares se expandem em desejos, que provocam o sonho, que provocam a fantasia e o poema.

...Uma mulher é uma espécie de alma como enfeite. Chega diante do espelho, adorna-se como uma árvore de natal, nem é natal, mas ela vai dar bola. Às vezes não varre quintal, mas pinta as maçãs: blushes e ruges. Ás vezes não costura, mas realça as cortinas, cílios, rímel, lápis... pinta as bordas das janelas: pálpebras, delineador, sombra. Mulher é uma Eva encantada de espalhar-se por fora em paraíso, batons, cintura, tesão, juízo. (Lilith Balangandã, 1999)

Muitas vezes o dia-a-dia é implacável na apresentação de suas faltas e dificuldades. Não é possível disfarçar, mas faz-se mister resolver. Este ofício de ser mulher requer cuidar de tudo que nossa mulherice exige. Estamos aprendendo a reconhecer que é assim... Além do óbvio que se fala desse gênero: mãe e parceira... somos tantas que às vezes, rimos sós diante do matreiro das diversidades. O nosso excesso espalhafatoso, barulhento, simples, silenciosos, escorregadio, gentil, jeito de ser possibilita o encanto a nossa volta, apostando sempre no que vira. Tantas coisas a se fazer. São vidas dentro de vida vivida porque:

A vida não tem ensaio, mas tem novas-chances. Viva a birelação externa, a possibilidade, o esmeril dos dissabores. Abaixo o estéril arrependimento a aturação inútil dos rancores. Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos. A vida inédita pela frente e a virgindade dos dias que virão. (Libação, 1999)

 

Bibliografia

BARTHÉS, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Editora Perspectiva, 1973.        [ Links ]

BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.        [ Links ]

DACORSO, Stetina. Escutando mulheres. Monografia final de curso. Círculo Brasileiro de Psicanálise. Rio de Janeiro, 1996.        [ Links ]

DACORSO, Stetina. Mulher... Por que você não desmaia? In Estudos de Psicanálise n. 25, 12/2002. ISSN-0100-3427.        [ Links ]

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I. 6. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.        [ Links ]

FREUD, Sigmund. Feminilidade (1932). ESB v. XXII.. Rio de Janeiro: Imago, 1976.        [ Links ]

LUCINDA, Elisa. Aviso da lua que menstrua. xerox. 1993.        [ Links ]

LUCINDA, Elisa. CD. O semelhante. Julho. 1997.        [ Links ]

LUCINDA, Elisa. Eu te amo e suas estréias. Rio de Janeiro: Record, 1999.        [ Links ]

NERI, Regina. A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.        [ Links ]

PEREIRA, Prisca Agustoni de Almeida. A encarnação da escrita feminina na poesia contemporânea brasileira. In: POTESI. Juiz de Fora: UFJF, 2004, v.8.         [ Links ]

SANABRIA, Marisa. A procura do feminino. São Paulo: Idéias e Letras, 2005.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Rua Padre Nóbrega, 35/201
36016–140 – Juiz de Fora – MG

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