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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437

Estud. psicanal.  n.32 Belo Horizonte nov. 2009

 

 

O homem contra o sujeito

 

Man against subject of unconscious

 

 

Carlos Pinto Corrêa1

Círculo Psicanalítico da Bahia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Trata-se de uma abordagem que abrange questões de Filosofia, Ciências Sociais, Literatura e Psicanálise sobre o homem como sujeito da Psicanálise.

Palavras-chave: Sujeito, Sujeito do inconsciente.


ABSTRACT

This is an approach that adds questions of Philosophy, Social Sciences, Literature and Psychoanalysis about man as psychoanalytical subject.

Keywords: Subject, Psychoanalytic subject.


 

 

... não encontro uma resposta quando me pergunto
quem sou eu. Um pouco de mim eu sei: sou aquela
que tem a própria vida e também a tua, eu bebo
a tua vida. Mas isso não responde quem sou eu!

Clarice Lispector

 

DE PESSOA A SUJEITO

Parece irresistível a vocação que o homem possui para estar sempre voltado para o seu exterior, fugindo àquilo que tem de mais próximo que é o seu próprio interior. Os olhos do homem levavam-no à contemplação do circundante, como se estivesse permanentemente sendo desafiado pelos órgãos dos sentidos a buscar sempre um encadeamento mais além, escapando de si mesmo. As primeiras disposições do homem primitivo foram de entender a natureza à qual estava submetido. Uma perplexidade ante o desconhecido à qual segue a tentativa de explicações místicas ou sobrenaturais, capazes de aplacar sua angústia ou conformar-se com a submissão. Tomemos como ponto de partida uma das mais interessantes e decisivas peças literárias sobre o homem e sua luta: a Odisséia de Homero (1998). Além de ser um cânone da literatura ocidental, esta obra revela a base arquetípica da própria condição humana que ambientou o surgimento da filosofia grega.

Encontramos os personagens enfrentando diversidades em condições metafóricas que bem expressam o antigo ou o atual, a essência do existir que não mudou em 25 séculos. Desse modo, observamos a presença do sagrado com o predomínio da lei divina. Não se trata, entretanto, de uma relação sujeito-objeto, pois a divindade penetra e participa da vida dos mortais. O sobrenatural é acessível através de uma relação próxima entre os deuses e os homens. Eles se odeiam, se amam, se invejam e, até no casamento entre eles, o sobrenatural é apresentado de modo demasiadamente humano. As forças opostas existentes dentro dos homens são, na verdade, um reflexo do conflito entre os deuses que regem o mundo. O simples ato de Odisseu encontrar, providencialmente, um cervo para compartilhar com os companheiros de viagem é prontamente interpretado como intervenção divina a seu favor (HOMERO, 1998). As questões internas estão submetidas a elementos divinos, e tudo que possa levar o homem a algum tipo de reflexão sobre a possibilidade de ser senhor de si mesmo é prontamente explicável por uma vontade superior que submete o homem a um outro intangível e inexorável. Ainda mais metafórica é a caminhada de Odisseu adentrando a terra e conduzindo o seu remo, símbolo das lides do mar. No interior bem distante, depara-se com o agricultor e sua pá de revolver os grãos. Pá e remo são dois objetos tão semelhantes e tão distantes como opostos. A luta do homem na terra e no mar, na vida e na morte, possibilita momentos especiais do existir. Este é o ponto máximo que atinge o ser, como espécie de encontro do Graal. Para nós, uma ilusão, pois sabemos que o sujeito só pode aparecer no lugar onde a pulsão se torna uma representação ligada às redes de representações que compõem o psiquismo. A submissão da vida às condições externas sagradas transforma o que seriam as representações, em real, fazendo parte da luta do homem contra o sujeito.

Os primeiros filósofos buscaram também, no infinito, um sentido que sustentasse a vida, argumentando sobre o télos, o logos e o deus. As reflexões sobre as origens também deixavam o homem como contemplador ou como objeto derivado de uma fusão de elementos básicos ou de uma vontade divina, à qual não tinha acesso. O ser era uma instância desde os pré-socráticos. É categorizado por Parmênides como pensar: “ser e pensar são a mesma coisa”. Esta noção de ser está longe de nos levar ao sujeito, já que não permite uma incursão sobre a subjetividade. Fundamenta-se no princípio da identidade e no princípio da não contradição. Estamos aqui longe de uma concepção dialética, de modo que “o ser é, e o não ser não é”.

 

SUJEITO E GOZO

Pouco nos ajuda repensar o sujeito da metafísica no que tange à matéria e forma, principalmente por se referir ao predicável (qualidade, quantidade, etc.). Mas, de qualquer forma, é bom lembrar que esta concepção influenciou a todos os filósofos até Kant, que tinha em mente a proposta da oposição entre o objetivo e o subjetivo assumido por outros autores alemães. Para Kant (1999) o sujeito é o eu penso da consciência ou autoconsciência, que determina e condiciona toda a atividade cognoscitiva: “Em todos os juízos sou sempre o Sujeito determinante da relação que constitui o juízo. Para o eu, para o ele ou para aquilo (a coisa) que pensa, a representação é apenas de Sujeito transcendental dos pensamentos”. Como psicanalistas, podemos dizer que em Kant o Sujeito é tomado como atributo do eu. O eu é sujeito na medida em que determina a união entre sujeito e predicado na formação dos juízos.

Heidegger (1973) vai-nos mostrar como não só os pré-socráticos, mas também toda a metafísica trataram do ente escapando da conceituação do ser. Ele substitui a pergunta dos filósofos clássicos – o que é o ser? por – qual o sentido do ser? Sua noção de Dasein introduz um significado do ser aí, estar aí, que nos reporta a uma abertura ao subjetivismo. De todos os entes, o homem é o único ao qual é funcionalmente exigida uma solução para o problema do existir. Usando nossos termos, estamos assim ante a angústia da falta primordial do homem, a simbolização necessária ao surgimento do sujeito.

A invenção de Heidegger (1973) contaminou o pensamento europeu e gerou polêmica e desconfiança. De sua entrada na França, teve o Dasein traduzido por Être-là, o que provocou estranheza no autor alemão. Palmier sugeriu certa vez traduzir Dasein por être-le-là e quando interrogado em uma palestra sobre o Dasein no ser e no tempo, falou que Das Da des Seins: é o lá do ser. Heidegger reagiu prontamente dizendo que não, “pois tudo está aí”. É neste ponto que a filosofia toca especialmente o que a psicanálise vai colocar como sujeito.

Lacan (1992), no Seminário O objeto da psicanálise, de 25 de maio de 1966, tomou o quadro de Velásquez, chamando atenção para “você não consegue me ver, lá de onde eu olho você”. O lá está elidido, este mesmo lá que define o Dasein, como se resolvesse dizer que há um ser aí, “[...] neste lugar vazio, intervalo não marcado, está lá onde precisamente se dá a queda do objeto (a) sob esta denominação mantida em suspenso”. Feita esta aproximação, podemos tomar a interessante reflexão de Garcia (1998, p.67), que propõe uma virada na tarefa do pensar filosófico que tem no Dasein espécie de encontro realizador do sujeito, pela questão do objeto (a). A partir daí, o problema se desdobra.

É preciso ainda falar de Hegel (1999) e sua aproximação com Freud no conceito de repetição que foi tratado em conferência clássica, pronunciada por Hyppolite (1998) e estudada por Lacan(1998). Wine (1992, p.99) sugere, a partir desta conferência, que:

... a marca hegeliana está reforçada no texto de Freud e no sentido que recebe da teoria lacaniana. O eixo central do texto freudiano se articula de um lado, com o destacar-se da função intelectual e do outro, com a pulsão de morte, enquanto disjuntiva, separadora e geradora de negações.

O pensamento, como tal, já surge afetado por uma denegação. A negatividade é o fundamento da dialética hegeliana. É a negatividade que comanda o devir criativo do homem, o seu ser para a morte e, finalmente, o seu acesso à sabedoria. O estatuto da negatividade é um dos pilares da reformulação estruturalista que Lacan faz com sua releitura da obra freudiana. Com a Fenomenologia do Espírito, de Hegel (1999), aparece a questão do advento do homem a partir do natural, mas Labarrière (1979) acrescenta que não se trata somente disso, mas da própria estrutura humana como tal, da diferença do homem em relação ao animal e não de sua gênese a partir dele. Aqui, surge um lugar para uma analogia entre o pensamento hegeliano e a teoria psicanalítica de Freud e Lacan, que também pensa o advento do sujeito por via da negação.

O quarto capítulo de A Fenomenologia do Espírito de Hegel (1999), conjugado com a leitura do quinto capítulo de Além do Princípio do Prazer (1920) de Freud, aproxima o conceito de pulsão de morte do desejo que ela sustenta. Hegel ajuda a demonstrar o quanto a subjetividade, na teoria psicanalítica, tem como essência a pulsionalidade pura, movimento sem origem e sem fim, que se desloca produzindo novas diferenças. Hegel descreve ainda a estrutura da consciência de si como diferente de outras formas de consciência já descritas. A forma de consciência que é específica do homem é a consciência de si, que é o desejo. E lembra mais, só se chega à sua verdade ao encontrar uma outra consciência viva. Também para Lacan a consciência perde o seu ser enquanto dado estável, ele chama falasser, a falência do ser do sujeito barrado () ao acesso de sua plenitude existencial.

Esta interseção da filosofia com a psicanálise proposta por Lacan (1954) se mostra decisiva para o estabelecimento das relações entre os sonhos e o desejo. Foi diante de um público constituído por filósofos que Lacan informou que a descoberta freudiana teria transformado definitivamente todas as concepções anteriores do sujeito, como também do saber e do desejo.

O Sujeito da psicanálise não seria o sujeito absoluto estudado por Hegel, nem o ideal do sujeito abolido da ciência. Para a psicanálise, o Sujeito não seria natural como queria Sade, seria um Sujeito irremediavelmente dividido, como demonstrou Freud, ao que Lacan acrescenta que isso aconteceria pela relação dele, Sujeito, com a linguagem (LACAN apud LEITE, 2000, p.94)

 

O SUJEITO ESQUECIDO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

O pensamento sistematizado científico seguiu a mesma linha reacionária contra o sujeito no aparecimento das ciências. Há uma cronologia cujas explicações se iniciam pelo que está mais distante do homem como a astronomia, a matemática, a física, a química, e só muito posteriormente aparecem as ciências ditas sociais. A ascensão da burguesia e a queda da Bastilha são acontecimentos coletivos que favoreceram o surgimento do pensamento social como indagativo e interpretativo. É intrigante como o homem inicia o estabelecimento da crítica sobre tudo aquilo a que esteve submetido por imposição divina: o poder do rei emana de Deus. A troca de sinais da verdade estabelecida reduziu o novo enunciado: o poder emana do povo e em seu nome deverá ser exercido. Já ficou velha a esperança aqui sintetizada, mas foi a chance de o homem, na ampliação de sua crítica, buscar suas razões internas. Este pensamento social produziu a Sociologia, conhecimento que pretendia revolucionar a posição do homem em seu meio. A ambição de ser ciência levou a sociologia ao abandono de questões primordiais, e Durkheim (1960) estabeleceu as regras do método sociológico. A descrição do fato social como aquele que é geral e exerce coerção, retira a questão da subjetividade e recoloca o homem na sua condição de peça de uma coletividade ou de um conjunto. Da ocasião, a Economia Política chegou mais perto, procurando entender a noção de utilidade, limite e consumo que poderia ter desembarcado na questão do desejo ou a noção de falta econômica que acenava para importantes razões de ordem psicológica. O estabelecimento do valor econômico estava ligado à escassez do produto: em condições normais, o ar não tem preço por sua abundância, o diamante por sua raridade vale muito. Mas nem tudo que é raro tem valor, pois a mediação se dá pelo desejo do homem, e este desejo decorre do sentido de sua falta. Nesta linha de raciocínio, o homem se teria tornado o sujeito da economia, mas foi derrotado pelos números de Keynes, fundador de uma espécie de metaeconomia, que transcende o sujeito. Como lembra Heidegger (1973), o homem usa a ciência apenas para o ente. Sem usá-la para o ser, não poderia chegar ao sujeito.

O último rebento da eclosão das ciências sociais foi a Psicologia. Dominados os campos do saber e da tecnologia pelas ciências, finalmente o homem se colocou como objeto de seu próprio entendimento. O aparecimento da chamada psicologia científica nos sugere, mais uma vez, uma tentativa de o homem escapar do sujeito que sempre temeu encontrar. O experimentalismo e o behaviorismo, pedras básicas lançadas por Wundt e William James, formaram os caminhos para explicar a conduta, sem comprometimento, como um fato cuja observação pode esclarecer sobre um bicho que reage a estímulos de modo programado. Digamos que, em seu movimento reflexivo, a psicologia clássica chegou até à consideração da pessoa. O termo expressa a relação do homem com o mundo e, em seu viés etimológico, traz o sentido de persona, personalidade como máscara, que sociologicamente expressa a possibilidade do homem na representação de papéis, mais determinados pelas atribuições que lhe são propostas ou impostas, do que no atendimento de suas questões internas.

 

O SUJEITO DA PSICANÁLISE

O aprofundamento definitivo, produzido pela psicanálise na questão do sujeito, está marcado por dois cortes principais. Como foi dito acima, o primeiro decorre da evolução do conceito de pulsão em Freud; e o segundo, dos acréscimos introduzidos por Lacan a partir da Fenomenologia do Espírito, de Hegel (1999).

A idéia de pulsão foi introduzida por Freud em 1905 em Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade com o nome de Trieb, mas só em 1914 se torna um conceito, ainda assim como hipótese especulativa. É em 1920, em Além do princípio do prazer, que encontramos um compromisso para alteração estrutural da teoria psicanalítica com a criação da pulsão de morte. Nesse trabalho, o radicalismo do conceito de pulsão, ainda ligado ao instinto, exige de Freud o retorno ao dualismo libidinal criando a pulsão de morte. Este dualismo, em vez de preservar o naturalismo reinante na época, produz um rompimento. A quebra do radicalismo do conceito de pulsão de morte abre a possibilidade de criação do estatuto do sujeito na teoria psicanalítica. Mas é na conferência XXXI, A dissecção da Personalidade Psíquica, de 1932, que, na tentativa de sintetizar a relação fragmentária e conflitante entre eu, isso e supereu, Freud melhor colocou o destino da pulsão previsto pelo tratamento psicanalítico. Wo Es war soll Ich werden (lá onde isso estava o eu deve advir) significa que o eu deve ir-se constituindo a partir do isso (id). Desfeito o mal-entendido que tanta polêmica provocou na tradução para o inglês, torna-se evidente que a origem continua sendo a moção pulsional do isso (id). A organização do eu se dá pela colocação das impressões em cadeias significantes, em inscrições estatuídas. Isto não basta ao eu para ficar aberto às emergências do sujeito e deixar que novas inscrições se façam.

Como vemos, o sujeito aparece no lugar em que a pulsão se torna uma representação ligada às representações que compõem o psiquismo. Aqui já entramos nos ensinamentos de Lacan, para entender que o sujeito surge no lugar em que algo do real consegue fazer-se representar no campo do simbólico. Aquilo que em termos freudianos é o lugar de articulação entre a pulsão e o inconsciente, para Lacan é onde o sujeito do inconsciente está. O lugar do sujeito está na interseção entre o real e o simbólico. O sujeito do inconsciente é o instante efêmero da transformação de algo do real pulsional em elemento que venha a constituir o campo simbólico.

Mas a psicanálise não restringe o lugar do sujeito ao puramente simbólico. Como lembra Násio (1988), o sujeito é o poder e a potência do significante de significar, potência que é real, contida nas possibilidades da força energética da pulsão. Assim como a pulsão, que só pode ser deduzida e não abordada em si, o sujeito também é deduzido da constelação dos efeitos da representação significante.

 

O HOMEM CONTRA O SUJEITO AUTOBIOGRAFADO

A escrita constitui, antes de tudo, o vencimento do desafio da memória, produzindo uma espécie de democratização e dessacralização da palavra, podendo ir até a sua banalização. Platão (DERRIDA, 1997) denunciou que esta exterioridade da escrita se opõe à visão interior da alma ou se define como um pharmakon artificial. Este pharmakon possui a ambiguidade de um remédio que cura, ou um veneno que traz a morte. É ainda Platão que afirma que a escrita é desvio, afastamento que não leva de volta à origem, mas ajuda a prescindir da origem. Este afastamento nos conduz a uma perda da verdade possível. O pharmakon é como a associação livre, técnica tão promissora no começo de sua utilização. Através dela, a psicanálise confirmou, a duras penas, o quanto a fixação no discurso produzido era enganosa. Parecia que, pedindo ao paciente para que dissesse tudo o que lhe viesse à mente, teríamos o material reprimido, mas logo se entendeu que as associações ocultavam mais do que revelavam. A associação e o pharmakon não nos conduzem facilmente à verdade do sujeito.

O escrito literário, ficcional ou não, memorável ou obscuro tem estado sempre muito próximo da psicanálise. É para nós histórica a pergunta feita a Freud sobre quem seriam os seus mestres. Ele teria apontado para sua estante onde estavam os livros clássicos da literatura mundial e de autores seus contemporâneos. Shakespeare foi fonte constante de inspiração no trabalho de Freud, do mesmo modo que Lacan tomou Joyce, Marguerite Duras, Gide, Sade e outros autores ao tratar de questões cruciais para a psicanálise.

Na literatura, existe uma ficção do si mesmo resultante de uma necessidade que todas as pessoas têm de “contar-se”. Existe aquele que conta e aquele que é contado. Sujeitos e objetos da linguagem estão circunscritos basicamente na referência imaginária. A literatura escrita, como já pensava Platão, nos traz duas experiências temporariamente distantes: o pensar e o escrever. Mas existe ainda um terceiro tempo em que o escrito chega ao outro quando ocorre um certo fracasso na representação do “si mesmo” proposto inicialmente.

Podemos tomar as autobiografias como uma espécie de ficção sobre si mesmo. Aparentemente, o discurso ou o texto autobiográfico seria uma possibilidade de o sujeito se revelar. Como mostramos em nosso trabalho Criar para quem (CORRÊA, 1999), toda a criação literária tem um destino, e ao escrever esta autobiografia, o autor sempre o faz para um outro. Não se trata de uma posição transferencial na qual poderia emergir o sujeito do inconsciente ante o suposto saber, mas um encontro pretendido com este outro escolhido. É um conflito insolúvel entre o atendimento às demandas internas e o Outro, leitor imaginário quando escreve. Gerbase (2003) lembra que “o sujeito pode ser definido em relação ao fading, ao cansaço que é fruto da relação entre o sujeito e si próprio, não entre o sujeito e o mundo”. Parece-nos que as autobiografias sejam produzidas mais pela relação do sujeito com o mundo e deste modo se oporiam ao sujeito.

Entre revelar e ocultar, deve-se lembrar que na literatura da época de Freud predominavam as fontes literárias presas ao romantismo e ao realismo, com narrativas claras que evidenciavam um saber do escritor sobre os personagens. Era como se o autor passasse ao leitor os assuntos já interpretados, cabendo a este uma posição identificatória com quem escreveu.

A literatura contemporânea a Lacan, após o surrealismo, se caracteriza pelo rompimento das significações e pela queda do saber do lado do autor. [...] a literatura contemporânea se caracteriza como um ato e não mais como um saber capaz de interpretar (FLEIG, 1998, p.76).

Os lapsos, a elisão das excessivas e pormenorizadas descrições, permitem ao leitor um outro tipo de envolvimento em que sua própria interpretação pode dispensar ou prevalecer sobre o pensamento expresso do autor.

Assim, também as autobiografias deixaram de ter as extensas e minuciosas narrativas mnêmicas e passaram a oferecer lacunas e linguajar próximos a um saber que não se dá conta da verdade. Por esta via, elas continuam tão obscuras quanto antes, embora mais interpretáveis psicanaliticamente. Sempre é possível um pensar psicanalítico, pois “a experiência psicanalítica não é outra coisa senão o estabelecer que o inconsciente não deixa fora de seu campo nenhuma de nossas ações” (LACAN, , 1998). É claro que toda autobiografia como qualquer obra literária fala do inconsciente, mas é diferente a disposição de psicanalisar ou interpretar psicanaliticamente a literatura da possibilidade do autor querer deixar emergir o sujeito do inconsciente através da obra literária e, principalmente, da autobiografia. Diante da impossibilidade de comunicar o irrepresentável, restará ao autobiografando o consolo de que o homem ganhou a luta contra o sujeito que permanecerá velado no texto.

Na poesia, o significante funciona sozinho (va de soi), mas na autobiografia (ne va pas de soi), os significados estão ressignificados pela interpretação do autor que escreve para um outro imaginário. A autobiografia é uma tentativa de ser mestre de si mesmo, espécie de defesa, ao invés do exame da relação do sujeito consigo próprio. A autobiografia é o oposto da sessão analítica.

Para concluir, nas ciências, na filosofia, na literatura, sempre existiu uma dificuldade no homem de pensar sobre si mesmo. Sócrates confessava não saber. Pensar é não saber e, mais, quando se pensa não se pretende saber, quando se pretende saber não se pensa. Assim, o homem tem vivido sem saber de si, mesmo com a proposta psicanalítica de revelar o sujeito do seu inconsciente.

 

Referências

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FREUD, S. [1920] Além do princípio do prazer. In: _____. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XVIII.

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Endereço para correspondência
R. Adhemar de Barros, 1156/202 – Ed. Master Center – Ondina
40170-110 – Salvador/BA
Fone: + 55 71 3247-1813
E-mail: cpintoc@uol.com.br

Recebido: 14/07/2009
Aprovado: 25/08/2009

 

 

1 Psicanalista, fundador do Círculo Psicanalítico da Bahia e seu presidente nos períodos de 1971-1983 e 1988-2004. Presidente do Circulo Brasileiro de Psicanálise em dois biênios 1980 – 1984. Vice-presidente da Internationale Foderation Der Arbeitskreise Fur Tiefenpsychologie (Federação Internacional dos Círculos de Psicologia Profunda) de 1977 e 1989, com sede em Viena- Salzburg. Delegado do Círculo Brasileiro de Psicanálise junto à International Federation of Psychoanalytic Societies (Berlim) no período de 1977- 1989.

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