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Estudos de Psicanálise

Print version ISSN 0100-3437

Estud. psicanal.  no.46 Belo Horizonte Dec. 2016

 

 

Sideração, consideração, de-sideração - O desejo e o saber dos Augúrios

 

Sideration, consideration, de-sideration - Desire and knowledge of auguries

 

 

Paolo Lollo

Tradução: Solange Mendes da Fonsêca

I Universidade Paris 13
II Insistance - Art, Psychanalyse, Politique

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Esta terceira das três conferências proferidas no seminário Direito, Psicanálise e Sexualidade: Universal e Diversidade, realizado pelo Circulo Psicanalítico da Bahia em Salvador em dezembro de 2012, rearticula os conceitos de sideração e de-sideração com a pulsão, o gozo e o desejo. O autor retoma os mitos gregos para falar da estrutura da pulsão e do desejo, propondo uma linguagem que age no real e uma aproximação entre adivinhação e saber inconsciente.

Palavras-chave: Prazer, Gozo, Desejo, Pulsão, Sideração, Desideração, Presságios, Saber, Adivinhação.


ABSTRACT

This third of three lectures given at the Seminar on Law, Psychoanalysis and Sexuality: Universal and Diversity, held by the Círculo Psicanalítico da Bahia in Salvador in December 2012, rearticulates sideration and de-sideration concepts with drive, enjoyment and desire. The author retakes the Greek myths to speak of the structure of the drive and desire, proposing a language that acts in the real and an approximation between divination and unconscious knowledge.

Keywords: Pleasure, Enjoyment, Desire, Drive, Sideration, Desideration, Omens, Knowledge, Divination.


 

A trípode de ouro

Começarei esta terceira conferência com uma história antiga de 2500 anos. Existiam, na Ilha de Mileto,1 na Grécia, pescadores que vendiam o produto de sua jornada de trabalho antes de sair ao mar. Um dia os pescadores voltaram da pesca de mãos vazias. Apenas uma trípode de ouro tinha ficado presa em suas redes. Os comerciantes que tinham feito o pagamernto antecipado da jornada de pesca, não tendo recebido os peixes no retorno, queriam ter, ao menos, a trípode de ouro, sobre a qual estavam gravadas as seguintes palavras: “Ao mais sábio!”. O tripé não estava, pois, destinado aos comerciantes, porém ao mais sábio. Os pescadores apelaram ao deus Apolo, que dá sua resposta sem ambiguidade: “A trípode pertence ao mais sábio dentre os sete sábios”. Dirigiram-se, pois, aos sete sábios para saber quem, dentre eles, era o mais sábio. Mas nenhum dentre eles se considerava “o mais sábio”. Apolo é, então, obrigado a guardar a trípode. Ele a leva para seu templo em Delfos. A trípode (tri-pode = três pés) torna-se um dos objetos mais sagrados de Delfos. Sobre esta singular cadeira, a sibila e, em seguida, as pitonisas se sentavam para proferir seus oráculos. A sacralidade do objeto refere-se, no meu ponto de vista, ao número três (tri-) e, ao mesmo tempo, ao símbolo do pé (podos - πoδóς,).

No mito de Édipo, os pés desempenham um papel simbólico importante. Em primeiro lugar, o nome Édipo significa, precisamente, “aquele que tem os pés inchados”. Com efeito, o pequeno Édipo foi abandonado por seus pais, Laio e Jocasta,2 no Monte Citerão. Um pastor encontrou a criança na montanha, com os pés atados e furados. Ele lhe prestou socorro e o confiou ao rei de Corinto, Políbio, que o cria como seu próprio filho.

Os pés são, em seguida, o centro do enigma que a Esfinge3 lança aos tebanos:

Qual a criatura que, pela manhã, tem quatro pernas, ao meio-dia, duas pernas e, à noite, três pernas?4

Édipo encontra a solução e libera a cidade de Tebas da maldição da Esfinge;5 trata-se do homem. De fato, quando ele é criança, tem quatro pernas, porque engatinha; adulto, ele anda sobre duas pernas; quando se torna velho, tem três pernas, porque se apoia em sua bengala.

Na natureza, não existe um ser com três pés. Os ritos sacrificais começavam com um sacrifício no altar situado de frente para o templo. Em geral, queimava-se uma pata do animal que era consagrado à deusa.6 Nas tábuas micênicas, a pata do touro simboliza o falo, membro que tem a faculdade de depositar sua semente e de dar a vida. O macho fecunda a fêmea com esta pata que é consagrada à deusa. Essa perna sacrificada remete ao falo, ao membro reprodutor. A trípode representa o animal sacrificado, que se esvai assim como a Pitonisa, que morre e perde a pata consagrada à deusa. A Pitonisa, em transe, inspirada pelos deuses, nesse estado de delírio, responde, de maneira enigmática, às questões que lhe são colocadas.

Sentada na sua trípode,7 ela recebe a inspiração, o oráculo, a palavra dos deuses. Ela a recebe e a restitui aos homens, que devem interpretá-la. A pitonisa se encontra no meio, entre os deuses e os homens. É uma virgem, uma profetisa que fala sentada sobre os três pés, em um lugar especial, próximo a um buraco onde o fumo de louro está queimando e evolando. De repente, quando está bem inebriada pelas emanações, ela começa a falar e a fazer sua profecia. Essa virgem é chamada de Pitonisa, em homenagem a Píton, uma serpente fêmea que foi morta, vencida por Apolo. Uma serpente é, de preferência, um símbolo masculino, mas esta serpente é fêmea e, embora corresponda a um símbolo masculino, apresenta características femininas (um terceiro sexo?). Píton, filho de Gaia, era o guardião do oráculo de Delfos. Qualquer um que aparecesse a sua frente encontraria a morte. Apolo, para vingar a morte de sua mãe Leto, acertou com uma flecha mortal a serpente. Ele a matou e fundou o santuário de Delfos.

 

O Ônfalo

Uma vez morta a Píton, Apolo utiliza sua pele no novo rito divinatório. A Pitonisa senta-se na trípode sobre a qual fica estendida a pele da serpente. A trípode fica colocada ao lado de uma pedra abaulada que recobre o túmulo da serpente. A pedra é o ônfalo, que significa umbigo e representa o centro do mundo, o qual se encontra em Delfos. A palavra grega omphalós (òμφaλóς) significa umbigo, mas descreve também algo redondo, que possui uma espécie de corcunda, que está inflada. Para nós, é interessante constatar que a palavra grega phallós deriva da raiz ‘phal’, que significa inflar. O ônfalo é, pois, um “omphallus”, uma pedra que se assemelha a um falo. Nós podemos decompor a palavra omphalós em om-phalós. Om indicaria o prefixo omo-, que significa “igual”, “semelhante a”, isto é, semelhante ao phalós, que significa falo. Mas nós podemos ouvir, na palavra grega omphalós, também a raiz omphe (òμφñ), que significa a voz divina, a voz profética, o oráculo. Não é, então, por acaso que o ônfalo é colocado ao lado da trípode onde está sentada a pitonisa. O ônfalo, que é o túmulo de Píton, a serpente fêmea, um símbolo fálico, é também o lugar de onde surge a voz divina, e poderíamos dizer, um lugar onde a voz divina se expande e gera oráculos. Ao mesmo tempo, o ônfalo coloca, no centro do mundo, a palavra dos deuses que, por intermédio da Pitonisa, pode ser revelada aos homens. Entre os deuses e os homens, há a Pitonisa, uma intérprete que faz três, que faz in-três-pretação.

 

A pulsão é uma trípode

A descoberta freudiana da psicanálise deve muito à filosofia e à sabedoria grega. A invenção dos conceitos de inconsciente e de pulsão é a base da descoberta de Freud. Tomemos como exemplo o conceito de pulsão: Trieb, no alemão, que tem sido frequentemente traduzido por “instinto”. Freud utiliza a palavra Trieb para exprimir esta função primordial do psiquismo. Treiben significa, em alemão, “impulsionar” no sentido de fazer um esforço para deslocar alguma coisa. Trata-se de um pôr em movimento que exprime a ideia de um trabalho. É um trabalho que afeta o corpo e o psiquismo ao mesmo tempo. Eu coloco a hipótese de que Trieb é o próprio princípio da vida. Podemos ouvir facilmente a proximidade sonora da palavra Treiben8 com o termo alemão Drei,9 que significa três, muito próximo também do latim Tres, ou do grego τρεις. Há, no meu entender, uma relação direta entre a palavra três, que indica um numero, e impulso, que expressa o termo alemão Trieb. A mesma contiguidade também existe com a palavra francesa “travail” [trabalho], como se o número três fosse da ordem de uma impulsão, de um movimento que demanda um esforço para ser realizado.

Para que haja trabalho, para que haja impulso, é necessario que algo “pulsione”, e para que algo “pulsione”, é necessário uma máquina evocadora, criadora, que se assemelhe a uma trípode, que funcione em três tempos. Na língua semítica, efetivamente, as palavras funcionam, surgem de raízes trinitárias, isto é, três consoantes formam a alma, o coração da palavra. Para dar um exemplo, a raiz hebraica TaRaD (Tav Rech et Dalet), que é muito próxima do termo alemão Trieb, significa impelir para adiante e seguir alguma coisa, algum objeto, sem interrupção. A raiz TaRaD nos sugere que cada impulso (pulsão) deve possuir sempre um alvo, ser dirigida sempre para um objeto. Toda pulsão, entretanto, torna-se visível quando está associada a um desejo que, ao ser expresso, é endereçado a um alvo, criando, assim, um movimento que pode ser igualmente nomeado Treib. Precisamos de três elementos para criar esse movimento:

• uma impulsão para a fonte, que é produzida por uma excitação;

• objetos externos, que podem ser escolhidos, eleitos.

• o desejo, que elege, dirige, orienta o movimento para um objeto. Somente o desejo permite à pulsão produzir um movimento real que cria e mantém pulsando a vida psíquica.

 

Prazer, gozo, desejo

Freud utiliza a palavra Lust para falar do prazer. Essa mesma palavra, em outros contextos, também significa vontade10 ou alegria. Lustig, em alemão, significa feliz, satisfeito. Pensemos, por exemplo, na opereta austríaca, de Franz Lehár, Die lustige Witwe, que é traduzida em português* por “A víúva alegre”. Entretanto, para exprimir a palavra gozo (jouissance), um prazer mais intenso, Freud utiliza a palavra Genuss. É uma palavra que podemos utilizar hoje em Viena na grande Pâtisserie Dehmel, ou no Hôtel Sacher, onde podemos degustar e saborear uma Sachertorte [torta de chocolate]. Com efeito, fala-se de Genuss em alemão igualmente para exprimir o gozo do paladar, o prazer do gosto. Esse prazer, em italiano, é definido como “piacere della gola” (prazer da garganta). O significante gola não está muito longe de gozo, que é sua parte externa. Gozo, em português, é um prazer, um gozo que tem uma conotação sexual. É interessante constatar que os significantes que giram em torno do gozo têm uma relação com o corpo pela via dos sentidos. Genuss, lust exprimem o prazer, a vontade e diferentes formas, diferentes graus de gozo e de desejo. Para dizer “Eu te desejo!”, o alemão diz “Ich habe lust auf dich”. Exprime-se, assim, um desejo carnal, físico. Mas há outro tipo de desejo que eu definiria como existencial, que está bastante afastado da dimensão mais material do prazer e do gozo. A esse desejo, Freud chama Wunch. Três palavras, então, atravessam o espaço do desejo, com uma gradação mais ou menos material: Genuss, Lust e Wunch. A Genuss, termo pouco utilizado por Freud, se relacionam numerosas modalidades do gozo: horror, desprazer, insatisfação, dor, desgosto, masoquismo erógeno, libido e gozo sexual, etc., que, em nossa paleta do desejo, se colocam mais do lado da sideração.11 A Lust se referem as modalidades do prazer e da vontade, que têm uma relação com a materialidade do corpo e o real. Na outra extremidade, há Wunch, que é capaz de alcançar, além da sublimação, o gozo e o prazer. Se existe, entretanto, uma imprecisão de termos que tentam exprimir o desejo como prazer e gozo, menos impreciso é o “desejo simbólico”, que impulsiona o humano a seguir adiante, a elaborar projetos, a mirar seu futuro.

Temos então, de um lado, o gozo imediato, de outro, o desejo como aspiração que nos projeta no futuro. O gozo é um contínuo que, em sua persistência, remete ao real, “o que não cessa de não se escrever”.12 Um real que está em negociação com a morte e que, por isso mesmo, tentamos detê-lo, tentamos escrever com palavras (onoma) ou com a norma (nomos).13 Cessar de não escrever o real significa tentar escrever, isto é, deter seu continuum, que escapa à apreensão do signo. Trata-se, do ponto de vista psíquico, do continuum do gozo. A norma serve para cortar o gozo, para poder compartilhá-lo segundo a justiça. Poder cortá-lo em pedaços de prazer e distribuí-lo para que se possa usufruir dele.14

 

Uma linguagem que age no real

Como a norma (nomos), a palavra (onoma) representa o real. Ela o representa cortando, decifrando, transpondo seu continuum. Ela o traduz assim em linguagem, tornando-o, desse modo, accesível para poder usufruí-lo (para poder utilizá-lo, é preciso dar-lhe realidade). O prazer que dele deriva daria acesso também a uma forma de gozo possível desde que accessível. O prazer da palavra se opõe, então, ao gozo do real e permite, ao mesmo tempo, um encontro com o real do gozo. Por simbolicamente real, entendo exatamernte este encontro que faz da linguagem um instrumento psíquico que opera no real.

Mas, para que haja encontro entre linguagem e real, entre palavra e gozo, é necessário um terceiro elemento que possa constituir o acesso e a mola propulsora, é preciso o desejo com sua força pulsional. A palavra negocia com o gozo do corpo que o produz, realiza nele um prazer que é sublimação mas também tremor. A palavra que sai da boca e faz vibrar as cordas vocais, pondo em ressonância o corpo através de todas as suas cavidades, é, antes de tomar sentido, prazer. Diria mesmo duplo prazer: primeiro, a vibração que ela produz quando surge em nosso corpo e, depois, na produção do sentido, que aspira a ser sempre novo. As palavras surgem na articulação do aparelho fonador (esôfago, garganta, cordas vocais, palato, língua, dentes, lábios), que produz a voz, um fluxo de ar que, por um jogo de fricção, produz um som que, ao sair, toma sentido, graças a uma possível interpretação. Em todo caso, o prazer da palavra não pode ser gozo, pois a função da palavra é ser corte, partilha e distribuição desse gozo e de seu real. De onde vem a força que opera esse corte? Não seria o desejo?

 

De-sideração & desejo

O desejo está do lado da vida, ligando-a, submetendo-a à lei da interdição do incesto. E esta é a lei da interdição de um gozo infinito, sem limites. É graças a essa lei que nós temos acesso à linguagem e ao simbólico. É a interdição do incesto que permite o surgimento do simbólico e o nascimento do sujeito. O incesto é uma desordem da ordem 1-2-3, que impede o simbólico de se ligar a alguma coisa do real, impedindo-o, assim, de se tornar simbólico.

Retorno brevemente às três palavras-chave: Genuss, Lust e Wunsch. Três palavras fundamentais, que é necessário guardar na memória. Lembro, em particular, a palavra Wunsch, que exprime, para Freud, o desejo inconsciente recalcado. Um desejo, pois, que não é prazer, que não é gozo, mas um desejo oculto, que não ousa se exprimir. Há alguma coisa que o impede de se dizer, de se exprimir. Há em nós alguma coisa, uma autoridade que nos diz, que nos ordena: “Goze, mas não deseje”. Nosso desejo é, pois, prisioneiro. Ele pode, entretanto, se libertar dessa autoridade através da palavra. Para Lacan, o desejo é colocado na existência por intermédio da palavra, do significante. Em uma análise, o sujeito identifica os significantes que o determinam, ele tenta fazê-los emergir, liberando, assim, seu próprio desejo até então aprisionado.

Mas o que é o desejo, essa palavra de origem latina que Freud não utiliza?15 A palavra desejo remete a de-sideração, e, consequentemente, a sideração. E o que significa sideração? Qual é a origem dessa palavra? Sideração vem de sidus, que significa em latim estrela. Somos siderados quando somos fisgados, atados, prisioneiros de uma estrela. Somos prisioneiros de uma estrela quando somos prisioneiros de uma relação, com uma mãe, por exemplo, ou prisioneiro de uma autoridade exterior ou interior.16 A sideração nos bloqueia, impedindo de nos movimentarmos. Como fazer para nos afastar desta estrela luminosa que nos seduz, que nos cega? Que nos queima ou nos congela? Em todo caso, somos incapazes de nos afastar dela, somos obrigados a girar em torno dela como satélites, em uma repetição mortífera. É preciso encontrar uma forma de nos afastar deste centro que nos atrai, e, então, conseguir de-siderar para poder reencontrar nosso desejo.

 

Sideração, consideração, de-sideração

Há diferentes maneiras de entender a sideração. Alain Didier Weill, por exemplo, pensa que a de-sideração é automática. Desde que há sideração, existe uma espécie de parada, de interrupção do saber, que permite um segundo momento, o da de-sideração, isto é, de um reengajamento no desejo de um novo saber. Nesta articulação binária sideração/de-sideração, falta, no meu ponto de vista, um terceiro momento que chamo de consideração. Trata-se de uma sideração que traz consigo a possibilidade de uma interpretação, a possibilidade de dizer não e de se libertar da estrela, da sideração. Consideração é uma sideração à qual se adere, “com”, que significa “com”. Uma adesão que produz uma fusão com a estrela, uma espécie de ofuscamento que interrompe toda visão, todo saber, mas que permite, ao mesmo tempo, abrir para o novo: para significantes, para um saber novo. Assim, ela permite dizer sim a uma nova interpretação.

 

O super bluff

Para exprimir o conceito de sideração, Freud utiliza uma palavra que vale a pena estudar: Verblüffung. É uma palavra que nada tem a ver com as estrelas, mas que, como elas, é também ofuscante. Essa palavra nos faz ouvir o bluff de quem joga pôquer. É interessante constatar que a palavra blüffung, blüff, não tem uma origem etimológica comprovada; poder-se-ia dizer que, por si mesma, já é um bluff. O prefixo ‘Ver”, de Verblüffung, é um aumentativo que reforça a ideia, neste caso, de bluff: um super bluff. É bem compreensível que tal trapaça possa siderar. Trapacear significa não respeitar as regras. Fazemos crer em alguma coisa que não corresponde à verdade. Todavia, no jogo do pôquer, quando blefamos, respeitamos as regras. Blefar, trapacear, é não apenas permitido no pôquer, mas até mesmo necessário. O truque que o jogador inventa lhe permite jogar, ser sujeito do jogo. Se não trapaceasse, se não fizesse isso, não poderia jogar, não poderia ganhar. Eu diria que a primeira regra do pôquer é blefar. Poderíamos dizer que esse ‘truque’17 permite ao sujeito do jogo aparecer e se emancipar da prisão da realidade, de deslocá-la, através da ficção imaginária, para tocar18 o real, para operar sobre ele. O bluff permite um afastamento da realidade da estrela, permite uma de-sideração. Para sair da sideração, é preciso encontrar uma maneira de blefar o bluff de nosso adversário. É preciso ser mais astuto, inventar um “truque”, criar uma espécie de magia. Para se liberar da grandeza da estrela, para se pôr em condição de aparecer, o sujeito precisa de novos significantes, precisa encontrar a forma de se emancipar da estrela. Freud utiliza essa metáfora da sideração do bluff em seu livro sobre os chistes. Quando se produz um chiste, há um momento em que somos siderados, verblüft. Após um breve tempo de latência, de indecisão, vê-se que há pessoas que riem, e outras não. O que acontece é que alguns captam o significante proposto pela piada e estão a ponto de associá-lo a outro significante. Essa associação produz um efeito cômico. Uma nova ligação de sentido produz um gozo que se transforma em riso, isto é, produz uma de-sideração. Que papel desempenha a consideração neste processo afortunado? Não seria ela que produziria uma nova ligação de sentido (cum-siderare)? O movimento que produz o desejo é, pois, desenvolvido em três tempos: sideração, consideração, de-sideração. Este último momento, que abre ao desejo, é possível somente se for precedido pela consideração, isto é, se estivermos a ponto de religar um significante siderado a um novo significante. Eu digo religar porque o papel de cum-siderare é bem aquele de colocar junto (cum), prefixo que corresponde ao prefixo grego syn-, que forma a palavra sym-bólico. O desejo é esta ligação possível que é da ordem do ‘sym-bólico’. Podemos dizer que o destino do homem depende das estrelas, no sentido de que somente a emancipação, o afastamento do sujeito do astro cria o desastre necessário que permite o movimento e a vida. Mas podemos também dizer, com a expressão de Freud, que o destino do homem depende do bluff, isto é, do expediente que permite ao desejo surgir, e ao sujeito agir e se manifestar. O que é importante é se afastar da estrela e se engajar em um movimento para uma nova direção. Isso pode ser produzido por um bluff, ou por uma circunstância qualquer que, todavia, possa tocar (tangere) a coisa, colocá-la em movimento, fazer de modo que ela se afaste do astro que a prende.

Como, então, se separar da estrela à qual o sujeito está aprisionado? E como, em seguida, considerar a possibilidade de percorrer outros caminhos, abrindo-se à ideia de que existam outras possibilidades?! E supondo-se, por exemplo, que existam outras coisas interessantes no universo, outros astros. Para sair da sideração, então, é necessário que acreditemos nisso. É preciso supor, eu diria também imaginar, que existam outros mundos possíveis. Se olharmos o ceú em uma noite estrelada, poderemos observar milhares de estrelas e imaginá-lo cheio de mundos possíveis. O verbo observar, antes de se tornar o verbo princeps da ciência moderna, pertencia à prática da adivinhação: observar as estrelas para interpretar a vontade e o desejo dos deuses, desejo que é muito importante para os humanos, que devem levar isso em conta. Foi isso que Creonte não levou em consideração. Essa falta de consideração conduziu a cidade de Tebas à catástrofe. Os deuses têm um desejo e, talvez, um projeto para os homens. Participar desse projeto significa participar desse desejo. Então, o que nos resta fazer é observar as estrelas, sua posição e, através delas, ler o futuro, ver e ouvir o futuro. O desejo não existe sem essa tensão, sem esse olhar para o porvir.

 

O que os Áugures aspiram?

A palavra “desejo”, no alemão, é expressa pelo termo Wunsch. Há uma expressão em alemão que diz: Ich wünsche dir…, que podemos traduzir assim: Eu te desejo... o melhor. Desejar significa “querer o bem para qualquer um”. O desejo expresso pelo verbo wünchen se projeta em direção ao futuro. Se querem permanecer colados no presente, não há desejo. “Desejar alguma coisa para alguém” se diz, em italiano, augurare.19 Na civilização etrusca, desejar era a função dos Áugures, sacerdotes que possuíam uma técnica que lhes permitia consultar os céus para prever o futuro e para considerar se determinada ação humana tinha o favor dos deuses. Assim, eles observavam com muita atenção os voos dos pássaros. Interpretavam, segundo os códigos, os signos que esses voos representam a seus olhos. Através dos pássaros, os deuses exprimiam sua vontade. Então, os áugures interpretavam o futuro através desses signos.

Quando Freud publicou, em 1900, uma obra que tinha como título Interpretação dos sonhos, assumia os riscos, pois naquela época, assim como em nossos dias, a ideia de interpretar os sonhos parecia uma provocação anticientífica. O título Traumdeutung suscitava suspeita, pois fazia pensar em uma obra destinada a um público supersticioso.

A superstição certamente nada tinha a ver com a ciência da psique que Freud estava em vias de fundar. Todavia a superstição produz efeitos tangíveis que influenciam o destino do homem. Uma anedota relatada por Peter Gay, biógrafo de Freud, conta que, um dia, uma camponesa, vendo o pequeno Freud, havia predito que a criança, quando crescesse, se tornaria um grande homem. Essa camponesa, um pouco feiticeira, havia previsto algo que se revelou mais tarde. Uma suposição que pôde talvez sustentar o desejo dos pais de Freud e dele próprio. Eu diria que essa suposição é sustentada por uma invocação. É a mesma voz com que a Pitonisa faz sua profecia e que leva o humano a se projetar para o futuro. Coloco aqui a suposição de que esse desejo inconsciente é da ordem da invocação. A vox surge do omphalòs, pedra inflada, que se assemelha a um falo, e, ao mesmo tempo, a um buraco de onde sai a omphe, a voz.

A interpretação dos sonhos remete, pois, à adivinhação. Ela abre ao possível somente se houver alguém disposto a dar-lhe crédito, supor que se possa prever alguma coisa do mistério do futuro. Isso permite nos projetarmos no futuro. É próprio do desejo projetar-se para adiante, para um objeto às vezes somente sonhado, fantasiado. Esse desejo que se projeta para adiante é aquele que poderia nos afastar da estrela que nos mantém prisioneiros. Uma estrela que reluz no céu e em nós ao mesmo tempo. Do interior, nos sidera e nos torna frígidos, imóveis. Autorizar-se significa se desprender dessa estrela que queima em nós e desejar.

 

 

A psicanálise e a adivinhação

Os Antigos20 se autorizavam a desejar. A adivinhação era sua ciência do futuro que lhes permitia projetar-se adiante, desejar. A interpretação do sonho, assim como a psicanálise, é uma forma moderna de adivinhação que produz, às vezes, efeitos surpreendentes, chegando a descobrir o desconhecido desejo de quem sonha, de quem fala.

O fenômeno mântico21 era muito importante na Antiguidade. Ele se conjuga com numerosas práticas que visam interpretar os sinais da vontade dos deuses. Cito aqui algumas dessas práticas divinatórias para dar a ideia da expansão dessa arte. Lembro inicialmente a cartomancia, que todos conhecemos e à qual recorre um grande número de pessoas. Existe também a acutomancia, que consiste em prender agulhas e lançá-las como dados sobre uma superfície, para, em seguida, interpretar sua disposição. Com a aeromancia, observa-se o vento, tentando, então, interpretar os efeitos do movimento. A astromancia consiste em observar e interpretar o movimento dos astros. A dendromancia permite interpretar a forma das árvores e das folhas. Todavia, a rainha da adivinhação tem sido, em todas as épocas, a oniromancia. Freud faz referência a uma tradição muito longa a esse respeito.

Os modernos substituíram a adivinhação dos antigos pela ciência, que nos presta grandes serviços. A força da ciência se deve a sua aliança com a técnica, que se dirige ao objeto para transformá-lo, para fazer dele um poderoso instrumento de vida ou de morte. A ciência tenta também prever o futuro, prevenir as catástrofes, imaginar a vida futura e projetar a humanidade para um futuro feliz, de abundância e riqueza. A ciência se interessa também pela psique. Ela a trata como um objeto, mas tem o mal de a ler em sua dimensão dinâmica e proteiforme. A Adivinhação tinha uma função psíquica fundamental que permitia ao homem sonhar o futuro, projetar-se para adiante e desejar. Esta dimensão do desejo, que faz do animal-homem um ser falante e pulsional, não pode ser acolhida nem sustentada pela ciência, porque ela reduz tudo que toca a um objeto. Ela se nutre do esquecimento desse aspecto vital do sujeito. Creio que a psicanálise atravessa esse esquecimento e o restitui à superfície. Como a advinhação, a psicanálise sustenta o sujeito com o que há de mais essencial: o desejo. Como a adivinhação, a psicanálise se interessa por esse “truque”, o Verblüffung, que serve para provocar e alimentar o desejo. O bluff é falso semblante, mas sua falsidade permite jogar pôquer. O bluff contorna, desvia as regras e, dessa maneira, toca o real oculto e permite ao sujeito aparecer, supor e tornar-se. Diria, enfim, que esta trapaça (tri-cherie), esta Verblüffung, é da ordem do três. A própria trípode é um “truque” que se inclina sobre um buraco de onde se elevam as fumaças dos louros. Sobre a trípode, está sentada a Pitonisa que inala esses vapores que emanam das profundezas. Intoxicada, inspirada, ela se deixa levar pela palavra divinatória. Os deuses lhe sugerem as palavras e os sons que serão, em seguida, interpretados pelos sacerdotes. O analisando, sobre o divã, é como se estivesse sentado em uma trípode e evocasse, através da associação livre, as imagens, os sons que surgem do furo de sua memória. O trabalho analítico é uma espécie de adivinhação moderna, uma prática que visa descobrir, fazer emergir do furo o que está recalcado no inconsciente. Trata-se de significantes que são atuantes e que, por vezes, nos governam. É necessário fazê-los sair do furo para desativar sua carga maléfica/mefítica, para transformá-los. Nesse furo, Freud coloca o inconsciente. O sonho é sua ciência: a Traumdeutung.

 

Referências

BURKERT, W. Homo Necans: The Anthropology of Ancien Greek Sacrificial Ritual and Myth. Berkeley, USA: University of California, 1983. p.116-130.

LACAN, J. Le Séminaire, livre XX: encore (1972-1973). Paris: Seuil, 1975.

PARKE, H. W.; WORMELL, D. E. W. The Delphic Oracle. Oxford: Blackwell, 1956.

 

 

Endereço para correspondência
E-mail: plollo@free.fr

Recebido em: 02/12/2016
Aprovado em: 05/12/2016

 

 

SOBRE O AUTOR

Paolo Lollo
Filósofo e psicanalista.
Pesquisador associado da Universidade Paris 13 (Unité Transversale de Recherche Psychogenèse et Psychopathologie).
Secretário da Associação “Insistance - Art, Psychanalyse, Politique”.
Membro do comitê de redação da revista Insistance (França) e da coleção Libertà di psicanalise (Itália).
Clinica na Unidade de Psicossomática no Serviço de Estomatologia do Hospital Pitié-Salpêtrière.

 

 

1Comentários retirados de ARISTÓFANES. Pluto, 9 (Cf. Or. 247 Parke; Wormell). Sobre a trípode no contexto de Delfos, ver também BURKERT (1983).
2Laio e Jocasta tiveram um filho, Édipo. Para que o oráculo não se cumprisse, eles levaram o recém-nascido para o Monte Citerão, depois de ter perfurado e amarrado seus pés para pendurar em uma árvore: é a partir daí que vem o seu nome, Édipo, “pés inchados”.
3A Esfinge (Σφíγξ) é um monstro feminino ao qual eram atribuídos a cabeça de uma mulher e um corpo de animal: peito, patas e cauda de um leão, asas de pássaro.
4Apollodore, Bibliothèque, III, 5, 8)
5A Esfinge, enviada por Hera à Beócia após a morte do rei de Tebas, Laio, começa a devastar os campos e aterrorizar as populações. Tendo recebido das Musas um enigma, ela declara que não deixará a região senão quando alguém o tiver resolvido, acrescentando que mataria quem o errasse. O regente Creonte promete, então, a mão da rainha viúva, Jocasta, e a coroa de Tebas a quem livrasse a Beócia daquele flagelo.
6Gea na época micênica.
7É interessante constatar que a trípode é portadora de outro oráculo que permitiu decifrar a escrita linear B. Com efeito, a palavra TI-RI-PO-DE é atestada na época micênica na tabuinha de Pilos – Ta 641. Tripos tem sido interpretado como “tendo três pés” graças a iconogramas que representam vasos de três pés.
8Podemos traduzir a palavra treiben do alemão pelo verbo trabalhar.
9A proximidade das consoantes D e T é evidente em uma análise fonética: [d] é uma consoante oclusiva, linguodental (“laminodental ou laminoalveolar”) l sonora e oral, sonora e oral, enquanto o [t] é uma consoante oclusiva, linguodental (“laminodental ou laminoalveolar”), surda e oral. Diz-se que as consoanres T e D são irmãs.
10A expressão: ich habe Lust significa em alemão, eu te desejo.
11Sideração como oposto de de-sideração, isto é, do desejo.
12Definição do real segundo Lacan.
13A propósito de onoma e de nomos, ver as duas conferências que antecederam a esta, publicadas em Estudos de Psicanálise n. 43 e 44, respectivamente.
14Jacques Lacan. Séminaire XX : Encore.
15Em Traumdeutung, Freud utiliza a palavra Wunch, para designar o desejo inconsciente reprimido.
16Penso no Supereu.
17Truque no sentido de trapaça.
18Tocar, tangere.
19 Do latim augurare, derivado de augur; “augúrio”: desejar, predizer, preanunciar.
20Os “Antigos“ (por oposição aos “Modernos“) são os habitantes da Grécia e da Roma antigas.
21O nome mântico designa o que, na Grécia Antiga, é a arte da adivinhação.

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