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Estudos de Psicanálise

versión impresa ISSN 0100-3437

Estud. psicanal.  no.50 Belo Horizonte jul./dic. 2018

 

ARTIGO

 

Consumismo, compulsões e totemismo: ressonâncias na clínica contemporânea

 

Consumerism, additions and totemism: resonances in the contemporary clinic

 

 

Ana Paula Perissé

I Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho procura fazer uma articulação – atravessada pelo ethos hipermoderno e com a questão do consumo e da obra Totem e tabu em evidência – dos novos processos de subjetivação que apresentam nas compulsões atuais grande ênfase e suas ressonâncias na clínica.

Palavras-chave: Hipermodernidade, Consumo, Compulsão, Totemismo.


ABSTRACT

This work articulates, through the hypermodern ethos and with the question of consumption and Freud’s Totem and Tabu in evidence, the new processes of subjectivation that are present in the current compulsions and its resonances in the clinic.

Keywords: Hypermodernity, Consumerism, Compulsions, Totemism.


 

Este trabalho faz uma articulação entre os atravessamentos do contemporâneo, com a questão do consumo em evidência, e suas ressonâncias na clínica através dos novos processos de subjetivação que apresentam nas compulsões atuais grande ênfase.

Uma articulação que possa desvelar, dar-se a conhecer como uma ‘ideia-sintoma’, algo próximo do desvelar de um ethos para se aproximar da lógica do mundo contemporâneo, que chamo de hipermoderno: a impossibilidade do sujeito atual deixar de consumir. Resistir a esse imperativo seria da ordem inapreensível de um tabu. A compulsão pode ser compreendida como uma resposta atual criada pelo aparelho psíquico do sujeito contemporâneo/hipermoderno para dar conta desse imperativo.

Vamos ensaiar uma contribuição teórica que sustente essa hipótese, pensando de forma e gentileza transdiciplinares, a fim de gerar contribuições em nosso saber-fazer-sentir-com. Na clínica. Na vida. No exercício de nossa cidadania.

Compreender o fenômeno do consumo como um resultado de um jogo de forças que articula o dever da Lei de um Pai ancestral é uma possibilidade que lança luz sobre sua natureza e o modo de funcionamento em suas múltiplas configurações atuais.

Obedecendo a essa lei (primeva), parece que os sujeitos em tempos atuais vivem imersos num desfile de ser e de se identificar com mercadorias num eterno banquete totêmico, em tempos quando o tabu de não consumir é estabelecido de forma muito sutil, no início da formação das sociedades industriais.

Essa é a ideia que pretendo alcançar teoricamente: o lugar (sempre em mobilidade) do consumo na atualidade contemporânea, a qual chamo de hipermodernidade.

Como sujeitos imersos em tempos hipermodernos, nos termos do filósofo francês Lipovetsky (2004, p. 53), quando

[...] longe estamos de decretar o óbito da modernidade, assistimos ao seu remate, concretizando-se no liberalismo globalizado, na mercantilização quase generalizada dos modos de vida, na exploração da razão instrumental até a morte desta, numa individualização galopante.

O ato de consumir a vida, uma possível microssíntese da atualidade, em velocidade furiosa, nos transforma como indivíduos ou como sujeitos quase não desejantes.

Tal aceleração se faz pelo exercício do consumo, ouso afirmar, no tocante ao território subjetivo do desejo. Um imperativo atual? Estar de fora dessa arena e de sua lógica de funcionamento se desvela como uma impossibilidade da sociedade de hoje, uma vez que tal modus vivendi já foi internalizado desde o surgimento das sociedades pré-industriais, como veremos.

A emergência do sujeito contemporâneo como um homem fragmentado e consumista, que permeia tal ideia está identificada em vários teóricos de diversas correntes:

[...] de Christopher Lasch a Lyotard, passando por Dumont e Lipovetsky. É o sujeito liberado das grandes narrativas soteriológicas (religiosas ou políticas), o sujeito pós-moderno, entregue a si mesmo, sem anterioridade nem finalidade, aberto apenas para o aqui e agora, conectado tão bem quanto mal as peças de sua pequena maquinaria desejantes nos fluxos que a atravessam (DUFOUR, 2003, p. 119).

Esse também é o homem na iminência de deixar de ser um ser de linguagem, que adquire sua habilidade de simbolizar a partir de sua narrativa para o Outro, aquele com quem dialoga e navega por significantes e significados, construindo sua existência a partir da construção de uma experiência com a origem e com o confronto diante do mistério de ser.

Esse mistério se esvanece ou se banaliza a partir do momento em que vive em meio a “desarranjos semióticos” (DUFOUR, 2003, p. 125) que o incapacitam de gerar significado a partir de sua conturbada relação secular com a imagem e a escrita.

Para Dufour, o sujeito atual caminha para um devir a-crítico uma vez que

[...] a iniciação à prática simbólica partia do texto através do qual eram inferidas as imagens (DUFOUR, 2003, p. 124, grifo nosso).

Diante desse cenário, o uso do significante (constitutivo do simbólico) deixa de gerar significado (agora apenas no registro do salteado), já que só vai existir quando exposto ao olhar da capacidade imaginativa do homem. Ao ler um texto ou ao ouvir uma fala, estamos diante do mistério de se fazer uma imagem.

Como essas novas imagens afetam o sujeito na clínica hipermoderna?

A experiência ligada à memória e ao inconsciente, segundo Benjamin (1996), vai ficar comprometida à medida que a quantidade de choque ou de estímulos do mundo moderno atinge o sujeito. Será mais custoso lidar psiquicamente com essa quantidade e essa intensidade?1

Tal atrofia simbólica atual decorre do estado de alerta do homem moderno citadino desde as passagens parisienses ou o início dos templos primeiros de consumo. Estamos todos imersos aqui.

Ao fazer uma leitura bem singular da obra de Freud Para além do princípio de prazer, Benjamin percebe que

[...] o funcionamento do aparelho psíquico serve-se do sistema perceptivo consciente como de um protetor contra as excitações externas. Este dispositivo/mecanismo de defesa serve como um bloqueio para o excesso de excitação, [...] assim quanto maior a possibilidade de choques, mais alerta estará a consciência, o que significa que armazenará uma menor quantidade de traços mnêmicos (MURICY, 2009, p. 205).

Dessa forma, fica claro compreender que, quanto mais informações recebemos, menos comprometida fica a nossa capacidade de reter e formar memória tanto privada quanto coletiva.

Assim, é uma necessidade estar principalmente advertidos em nossa clínica dessas novas modelagens identitárias (ou não tão novas assim porque remexem, necessariamente, com o que é mais arcaico/primevo em nós).

A sociedade moderna, que nos entrega de bandeja a ideia da vivência em contrapartida à ideia de experiência (BENJAMIN, 1996) nos faz também em fragmentos em nossa interioridade, em nossa capacidade de simbolização.

Ao construir relações desgarradas com o passado e percebê-las como ruínas ou destroços numa nova temporalidade, damos um grande salto para um abismo que pode nos indicar como elaborar novas e autênticas experiências.

Benjamin viu no poeta Baudelaire essa possibilidade que a modernidade lhes oferecia. Baudelaire apresentou-lhe uma senha que foi por ele, Benjamin, desvelada. No spleen da hipermodernidade, compreendo que tal senha está no próprio caráter de fragmentação ao qual estamos dispersos e perdidos. Do transitório em que vivemos e desse estranho ‘reconhecimento’, podemos nos lançar em direção ao ‘conhecimento’ do transitório que, de alguma forma, alhures, nos permitirá uma nova experiência: ser sujeitos.

A perda de sentido e a fragmentação da memória proporcionada pelas novas tecnologias, já gestadas ao longo de todo o processo da modernidade, nos faz perceber que dessa descontinuidade de lembranças que se multiplicam e se desligam como num rasgo de um relâmpago, do simples reconhecimento desses instantâneos, aparece uma parcela da verdade ou uma nova possibilidade de experiência histórica de nosso tempo, ao nos confrontarmos com uma vontade de potência: uma vontade de novas atualizações. De sentidos. Isso é um esforço político da ordem da ética. Também um esforço que devemos contemplar em nosso setting.

A fragmentação do sujeito da atualidade o faz necessariamente um sujeito salteado que procura produzir sentidos para suas lacunas/vazios. Há uma sabedoria atual quase ontológica em lidar com o veloz e os pedaços, o rastro que implica a noção de tempo assim como a sobra que se emancipa da ditadura de um olhar reificado. No entanto, tal sabedoria também é da ordem da alegoria e necessita que deixemos nosso analfabetismo moderno de lado para que, como caçadores de sentidos relativos, busquemos nessas sobras uma fenda de emancipação.

Neste compasso de tanta fragmentação e salteamentos, gostaria de fazer uma aproximação com a obra freudiana Totem e tabu, de 1914. Essa pode ser uma condição de aproximação que apresento entre os tempos modernos e os tempos hipermodernos.

Tal ligação está no cerne de um explícito contato que se faz dentro de um mesmo grande projeto humano: a hipermodernidade é corolária do grande projeto da modernidade iluminista da qual Freud pode ser considerado um de seus mais originais arautos, com suas facetas sociais, econômicas, culturais e tecnológicas num continuum expandido mas, em parte com sua essência preservada, e é determinada por uma intensa aceleração que lhe traz algumas alterações que se fazem nesse grande sentido de onda histórico.

Essa aproximação nos fala da atualidade da obra de Freud exatamente como uma lente cujo foco continua, até hoje, a revelar parcelas elucidativas do humano tanto em seu aspecto sociológico quanto em seu desdobramento mais íntimo e privado dentro, naturalmente, desse grande e enevoado esfregaço dos dois campos amplos que se interfaceiam de múltiplas formas: o social e o individual.

Talvez seja nesse ponto de interseção que o fenômeno do consumo se dê exatamente na área em que a possibilidade de naturalização dos fenômenos que acontecem na esfera do coletivo, do econômico e do social, carreados pela compulsiva em sua constituição, presente e agente no cenário global e nos territórios subjetivos cujas forças, especialmente sedutórias, constituem o modo de viver capitalista em seu ápice neoliberal.

A internalização eficiente do desejo de satisfação oral via aquisição de mercadorias é o motor de seu vital funcionamento. O controle daquele desejo totêmico ancestral de matar o pai após devorá-lo todo, num mecanismo de identificação com ele, gera também uma culpa que fecha o circuito da lógica da vida atual.

Portanto, diante de tantas naturalizações, vamos nos ater àquela que acontece no campo de batalha do consumo e que move o que há de mais imemorial no humano. Ser consumidor hoje é ser cidadão, já afirmou Canclini, em 1995. Não se tornar consumidor nos tempos de hoje parece ser uma impossibilidade social e psíquica. Se não há como dele escapar, por que não compreendê-lo a partir do que se apresenta atualmente em sua acachapante imponderabilidade neoliberal: ao consumir, o indivíduo também pensa, escolhe, se reelabora no sentido social e psíquico.

E nesse sentido mais amplo, sem demonizar nem defender o fenômeno, podemos pensar na maneira como nos tornamos cidadãos e como nossas modelagens identitárias estão se construindo atualmente.

A partir dessa possível inevitabilidade, poderíamos pensar que a recusa em não ser um consumidor na contemporaneidade seria uma forma de emancipação para o indivíduo crítico e consciente desse jogo, uma possibilidade de se tornar sujeito de si?

Partindo da ideia de um mito original de nossa formação psíquica, o ato de não consumir poderia ser entendido também como uma atualização da ideia de tabu, de Freud. As mercadorias devem nos transmitir algo de mana, aquilo que é sagrado e do qual ninguém escapa de buscar. Talvez em tal busca o desejo de engolir o impossível-nunca-satisfeito, resida parte do mágico com o qual sempre operamos em nosso aparelho psíquico. Uma magia que nos permite a diferença na horda, uma espécie de lugar mais privilegiado no banquete totêmico, revitalizado hoje na vitrine de cada esquina de qualquer cidade, lugar da horda urbana.

O consumo, nesse contexto, parece mobilizar um quantum psíquico que está associado ao traço mnemônico deixado pelos povos primitivos, aquilo que nos une em humanidade: o desejo de matar o pai, tamanha nossa identificação e devorá-lo como uma possível introjeção dessa força maior.

Não consumi-lo, simbolicamente e em nossa rotina atual, estaria fortemente associado à violação do tabu e se excluir do clã-sociedade globalizada. Uma culpa imensa nos atrai às mercadorias. O medo de não poder comprar é também um desejo de ser diferente e chamar atenção da mãe, tê-la toda para nós em nosso singular chamamento, a acolhida materna que provê aquilo que nos falta.

Se entendermos, portanto, que o não consumo pode constituir uma emancipação negativa porque o aproximamos da ideia freudiana de tabu, deveremos ter em mente que esse constructo, nos tempos atuais, “denota tudo” (FREUD, [1913] 1996, p. 50) ou todo o sistema criado pela engrenagem capitalista, que transforma qualquer ação, “[...] uma pessoa, um lugar ou uma condição transitória” (FREUD, [1913] 1996, p. 50), a mais íntima possível, em uma possibilidade (harmoniosa) de articulação com esse forte sistema totêmico da sociedade neoliberal: fazer o capital girar a fim de preservar sua existência social e psíquica.

Entender a estrutura psíquica como uma instância cooptada pelas forças econômicas que tomam conta do corpo social pode ser uma ideia marcuseana, nada inédita. Talvez o esforço teórico desse pensador tenha sido, de alguma forma, dar continuidade às obras antropológicas de Freud, esforço também deste trabalho.

Essa referência a uma possível tipologia psíquica ou a uma nova forma de subjetivação, que tem no ethos da hipermodernidade sua emergência mais adaptável e/ou reconhecida, não significa que estamos diante de um evento usual ou de fácil compreensão.

Os traços de compulsão que observamos no mundo atual nos exigem preparo, estudo e experiência para lidar em nossa clínica. Da mesma maneira que associar essa forma de existir como um fenômeno novo que se dá pelo aparecimento de novos sintomas sociais, também seria incorrer noutro erro; apenas poderíamos afirmar que podem existir novas modelagens (acentuadas e/ou com nuances que exigiriam olhares outros) que parecem colocar em cena uma estranha recusa ao imperativo categórico do superego, que não vai oferecer um lugar ao desejo.

Essa formulação é de Jô Gondar (2001), em seu artigo Sobre as compulsões e o dispositivo psicanalítico. Diante do gozo impossível a que somos submetidos na sociedade hipermoderna, muitos indivíduos encontram nessa recusa “vazia” uma resposta psíquica possível. Um gozo autoerótico, autístico, uma vez que se trata de um modo de gozar que tenta prescindir do Outro.

O que é novo, o que nos surpreende, não é apenas o aumento de frequência destes fenômenos, mas a abrangência que conquistam em alguns territórios subjetivos cujos marcos se delineiam de forma diversa da boa e velha histeria, para a qual o dispositivo psicanalítico foi criado (GONDAR, 2001, p. 27-28).

A hipótese que aqui se delineia é a mudança na tonalidade dessa neocompulsão, em seu entendimento de uma tentativa fracassada de dizer não ao imperativo superegoico. Eu acrescentaria que tal imperativo se encontra em sua modalidade mais acentuada em função de uma sociedade em que tudo se torna hiperlativo, ou seja, os tempos hipermodernos, o tempo de hoje.

Em Freud podemos compreender que o fenômeno da compulsão nada tem de novo.

Por um lado, a compulsão [Zwang, em alemão] remete direto à neurose obsessiva, ainda que, no interior desse quadro, ela apresente matizes (GONDAR, 2001, p. 28).

Isso significa que se mostra uma peculiaridade de determinados sintomas obsessivos nos quais, tratando-se de pensamentos ou atos que o indivíduo realiza movido por uma força irresistível contra a qual o sujeito gostaria de lutar, a compulsão resulta, aqui, de um conflito psíquico entre duas injunções opostas estando o indivíduo na impossibilidade de escolher qualquer uma delas. A compulsão, nessa neurose, está no lugar de uma compensação da dúvida ou, como diz Jô Gondar, como uma espécie de “vazamento”, que se materializaria nesses atos.

Outro sentido relevante em Freud “[...] alude também ao que há de mais radical na pulsão, isto é, sua irrefreável repetição“ (GONDAR, 2001, p. 28). No entanto, diferentemente dos atos compulsivos do obsessivo, a compulsão à repetição não pode ser entendida como a resultante de um conflito. Trata-se, nesse caso, de uma característica fundamental da própria pulsão e, naturalmente, é anterior ao próprio conflito pulsional.

Grosso modo, poderíamos caracterizar a compulsão à repetição como um impulso avassalador ao qual sucumbe o sujeito, que passa então a justificá-lo por contingências da atualidade: é como se ele tentasse organizar o impulso cego segundo os ditames de uma cena, buscando conteúdos capazes de preencher uma forma vazia, autônoma, e, em última instância, irredutível aos seus próprios conflitos (GONDAR, 2001, p. 28).

Diferente do caso da neurose obsessiva, em que na presença desses atos estaria o alcance da dúvida, uma possibilidade de escolha e elaboração psíquica, nas compulsões contemporâneas, o intervalo de tempo para a existência de uma dúvida/ escolha é eliminado; o caminho mais curto é a passagem ao ato.

Nesse momento, somos endereçados à noção de pulsão de morte ou a um gozo autodestrutivo que parece edificar uma aliança entre o superego e essa pulsão (de morte):

[...] ao invés de funcionar como uma barreira a um gozo mortífero, o supereu [...] ordenaria que o sujeito abdicasse de sua dimensão desejante, agindo única e exclusivamente por dever (GONDAR, 2001, p. 29).

A autora nos aponta na direção de entender que os atos compulsivos se revelam como uma tentativa de fazer obstáculo ao cumprimento desse dever tão cruel; há aqui um matiz de subjetivação que (ainda2) não chega a se efetivar como uma afirmação de desejo.

 

Como criar estratégias de manejo na clínica e de bem-estar psíquico dentro ou fora do ‘tabu’ societário do consumo

As forças que internalizam o desejo de consumir estão em consonância com a dinâmica freudiana da libido, que vive lutando à procura de sua satisfação através de seu escoamento no aparelho psíquico do indivíduo, desde tempos imemoriais.

É nessa brecha que a psicanálise nos traz acuradas pistas não só para melhor compreendermos seu funcionamento como também para possíveis rotas de fuga, planos de resistência para a direção daquilo que seria nosso desejo real. E falar de real em psicanálise é estar à beira da fronteira entre o social e o psíquico, lugar bem claro que aparece em suas obras antropológicas.

Ou então, inverter os lugares do tabu e do lugar do desejo nesse mesmo lócus borderline, como afirma Zizek (s/d):

[...] a psicanálise precisa dar-se conta de que a posição antiga, na qual a sociedade carrega os interditos e o inconsciente as pulsões desregradas, está hoje invertido: é a sociedade que é hedonista, desregrada, e o inconsciente que regula.
[...]
Ainda há tabu para se pensar a sociedade atual ou será que ele estará a céu aberto em nosso inconsciente com ligação direta à realidade? A compulsão à repetição pode ser uma potência criadora?

Ao longo deste trabalho, compreendemos a problemática do consumismo como uma adição, portanto como um representante de possíveis ‘novos sintomas’ ou daquele que se adéqua de forma mais eficiente ao sintoma social de nossa época, uma sociedade que oferece pouco lugar para a existência de um sujeito com seu desejo e que possa existir fora do ‘tabu do consumo’.

Acredito que uma grande dificuldade encontrada na clínica pode ser uma nebulosa identificação do sujeito com o produto, um sujeito que compreende sua identidade enquanto um sujeito consumidor. Uma relação tênue de sua identificação com os objetos fora de si parece apenas existir nesse investimento narcísico nos produtos/serviços e mercadorias como se esses objetos-coisas pudessem ser transferidos para o lugar de um outro, numa grande tentativa de se manter distante das exigências, das trocas, do existir diante da diferença.

Como tentar formular uma demanda ou transformar a queixa desses pacientes num sintoma analítico?

Acredito que nosso manejo na clínica diante desses sujeitos tão atuais esteja na direção de conduzir o paciente, através da criação de um processo de transferência, a fazer surgir o enigma do SEU desejo através de uma série construções em análise que poderiam revelar a sua história inconsciente até então ocultadas e coladas na expressão amorfa desses objetos, objetos capazes de originar um prazer muito regredido.

Nesse mesmo artigo sobre compulsões, Gondar (2001, p. 33-34) nos fala de um possível manejo do analista ao valorizar esses fenômenos de fronteira:

[...] tais íntimos e sutis movimentos desejantes que estes pacientes podem vir a apresentar no setting, como lampejos de subjetivação, apreendendo-os através das pequenas percepções que, implicam na dissolução da percepção costumeira, objetivadora. Trata-se, portanto, de levar mais longe a atenção flutuante, envolvendo uma disposição maior do analista para abster-se da condição de sujeito, nela incluindo seu campo particular de percepções [...], este refinamento perceptivo acolheria de modo mais pregnante os signos de subjetivação que ainda não se instituíram como traço, signos que se manifestam através de imagens ou expressões fugidias, aparentemente inócuas, e dificilmente notadas pela percepção corrente. Sobre a base desses signos, todavia, poderiam ser construídas as relações transferenciais.

Portanto, através do que é dito em análise, escutado e elaborado no setting, poderemos juntos fazer emergir novos sentidos em que, falando do gozo pela linguagem e além da linguagem, retiremos essas catexias também das mercadorias ao instaurar um novo movimento ou um novo lugar para o escoamento da libido do paciente-sujeito-menos-consumidor para fora de si, num mundo que ainda pode oferecer algo de receptivo a essas modulações, nas figuras de outras relações de objeto.

O imaginário neoliberal pode tentar colonizar o tempo como seu mestre e senhor, mas tempo não é um continuum apropriado, em sua essência, para acumulação de capital. Tal pensamento é um constructo da ordem de uma perversão.

Tempo é a tessitura de nossa vida. Talvez seja tudo aquilo nos sobra. E o que fazemos com ele dará o tom, o compasso de nossa história pessoal.

Por que neste momento escrevo sobre o tempo e a nossa urgência em transformá-lo lento?

Incorro numa simplificação da teoria freudiana ao mencionar a origem de nosso psiquismo nesse ritmo acelerado. Instâncias psíquicas, tal como apreendemos, não são espaços/lugares no cérebro. São instâncias de tempo (instâncias temporais), que realizam um trabalho de tentar representar um objeto faltante, um trabalho sobre o vazio.

Talvez caiba a nós, psicanalistas, vislumbrar, dentro do possível, a construção de um caminho onde se privilegie a possibilidade de uma existência cuja potência emancipatória consista na dimensão do sensível, de um tempo não utilitário ou da pura desmedida, para demasiado além, portanto, dos ‘preceitos’ limitativos dessa lógica instrumental que impera no reinado hipermoderno.

O tempo da resistência e da pulsão de vida. Que possamos torná-lo audível em nossa clínica. Da palavra ao gesto, através de uma transferência bem manejada. Permitir aos nossos analisandos que se apropriem do seu inapropriável. Em meio ao desfile incessante de tantas mercadorias, eis uma antiga-novíssima demanda... Sigamos rumo a uma nova barbárie.

 

Conclusão: A pulsão de vida como a nova barbárie

Estar advertida de que o conflito entre Eros e Thanatos é algo do qual a humanidade não consegue fugir me faz sentir à vontade de falar de pulsão de vida sem deixar de apostar na vitalidade da descoberta freudiana da pulsão de morte.

Há pesquisas em relação ao tempo e à temporalidade em Freud, a diferentes modos de funcionamento temporal que coexistem na vida psíquica e à potência criativa da pulsão de morte.

A direção deste trabalho aponta para o caminho de uma potência emancipatória do sentir, da imaginação e da alegria diante de um mundo onde o estético e o sensorialismo se espraiam na economia, na política, na cultura e na esfera da mídia em todas as suas formas de expressão salteadas.

Segundo Zygouris (1999, p. 8),

[...] no tratamento analítico a presença do analista, por intermédio da transferência, permite que nesse espaço dual se desdobre e reorganize aquilo que estava ou dobrado ou jogado no acaso bagunçado da vida. Essa dupla não leva em conta o múltiplo, ainda que todo analista saiba que em certas sessões, além desses dois visíveis, uma verdadeira multidão está presente.

Apesar de sabermos a infinidade desses múltiplos ainda não visíveis e ainda assim muito presentes no setting, devemos estar atentos ao manejo dos muitos e aos enunciados para além do descritivo (para além do registro das pulsões) e possibilitar um caminho ao analisando. Barbarizar o setting no que ele tem de mais potente.

Compreendendo aqui a ideia de uma ruptura ou trazer à tona um ‘além do leite’ uma vez que entendemos que o humano não vive exclusivamente num universo de necessidades vitais, num campo delimitado por aquilo que a díade analisando-analista supõe ser um encontro de objetos adequados aos seus desejos:

O pequenino humano mama o amor e aspira para um além do leite, objeto de sua necessidade , assim como aspira incorporar um seio invisível, uma inútil teta de amor. O amor é o suplemento de alma cuja carência mata seguramente tanto quanto a carência do alimento (ZYGOURIS, 1999, p. 9).

É também trazendo o estético à cena, a barbárie das novas atualizações sintomáticas, uma vez compreendendo que:

[...] existe um pulsional ao mesmo tempo erótico e mortífero que tanto engloba sequências mais amplas, territórios reais ou virtuais atravessados por fluxos eróticos, quanto existem territórios que uma estase mortífera imobiliza e subtrai à dinâmica da vida psíquica e somática (ZYGOURIS, 1999, p. 9).

Zygouris (1999) ainda afirma que a agressividade é, em grande parte, expressão das pulsões de vida e só pertence à pulsão de morte quando tem por alvo o próprio sujeito, quando falta o cerco do objeto de prazer. Segundo a autora, para Freud, a pulsão de morte se tratava, em primeiro lugar, da morte do próprio indivíduo e não do assassinato de um outro.

Acredito que esse outro assassinado estará no lugar do próprio sujeito quando não se desvela uma possibilidade de ele se deslocar em seu próprio eixo existencial, aquele lócus da criação que lhe possibilita ser e estar no mundo sob outras formas não necessariamente patológicas.

Nesse sentido, o múltiplo nos revela novas possibilidades psíquicas diante do mundo, cujo tempo acelerado nos impõe remeximentos a todos os instantes, remodelagens até em nível biológico.

Portanto, no lugar da ‘antiga’ interioridade psíquica, que definia o sujeito psicologizado (o sujeito vitoriano de Freud), estamos vivenciando a coaparição de um sujeito salteado, consumista, múltiplo por redes relacionais também (virtuais) com uma força de atração estética quase da ordem da física newtoniana. Uma estranha força que parece colocar em cheque a antiga dicotomia entre lógica sensível e lógica do cálculo instrumental.

A dualidade/multiplicidade é um destino a nos rondar, ao modus neoliberal de ser e de estar no mundo.

Ao vislumbrar esse modus operandi dos novos sujeitos atuais desdobrados, vários duplos de si, bailantes entre sentidos e vazios, encontro na inquietação sobre a possibilidade de existência de uma potência emancipatória na dimensão do sensível, do afetivo ou da desmedida ou ainda do múltiplo para além, portanto, dos cânones limitativos da razão instrumental e da lógica que transforma tudo em mercadoria, inclusive, a nós, como psicanalistas ao longo do próprio processo de análise.

Saber fazer, sentir e compreender foram verbos muito caros aqui, neste trabalho, e são verbos muito caros para nós, psicanalistas.

Pela escuta e pelo sentir do sentimento,

[...] passamos da dissociação entre sujeito e objeto a uma unidade, mesmo que provisória, entre os termos disjuntos, entre o um e o alter (ZYGOURIS, 1999, p. 52).

Tal escuta do sentir pode se transformar numa maneira ‘atualizada’ de agir, cujo sentimento não está isolado da argamassa dos componentes social e econômico da hipermodernidade assim como seus respectivos reflexos no tempo psíquico. Também aqui comparecem novas razões de produção com ênfase no desejo do trabalhador e do consumidor. A aceleração e o prazer, os estímulos ou os múltiplos das imagens não estão descartados.

Alguns corpos não são tão mais disciplinados como outrora e talvez se coloquem a trabalhar e a consumir numa teia que não pode viver independentemente de valores e paixões. São fluxos de subjetividades forjadas em novos ambientes para produção de si, que se constituem também como produtores de capital.

Logo, esse novo agir sentimental de cuja outra razão instrumental também é portador, penetra o sujeito da atualidade em novas formas de resistência criativas coabitando com velhas e novas formas atualizadas de viver reificado.

O homem hipermoderno carrega em seus duplos ou neles múltiplas possibilidades de modelagens identitárias, mesmo diante do profundo desamparo, a possibilidade de afirmar a sua autonomia desejante por meio da linguagem e da estética, que costuramos no setting, um pensamento da diferença que deve ser trágico ao remontar à dor inicial de todos os tempos. Acelerar e desacelerar, adiar ou deparar-se sem freios com o prazer, ver além das imagens, sentir para além de significantes.

Somos, portanto, analistas e analisandos, esse projeto inacabado e deveras incômodo de novas atualizações de homens e suas respectivas técnicas de se refazer, velozes e furiosas, que nos fala de vida e de criação diante daquilo que não devemos mais tanto controlar.

Há uma lacuna para podermos ser aquilo que (ainda) existe, nos subterrâneos do desejo do homem, aquilo que nos é interditado pelo mundo instituído, esse mesmo que nos oferece as múltiplas escolhas do mesmo.

Há um risco de aceitarmos o convite que nos chega através de um “caminhar sob o impensável” (HÖLDERLIN apud DUNLEY, 2005, p. 220).

Nesse novo mundo que se constrói freneticamente, a cada instante, nos mundos reais e virtuais, a capacidade dolorosa e saudável do dilaceramento da criação reaparece a cada instante, se for convocada também por um processo de análise.

Brincando na imensidão, por exemplo, das redes sociais, onde acontecem os encontros de troca de capital e de afetos (fragmentados ou não), o sujeito da atualidade parece reafirmar sua natureza ambivalente diante daquilo que pensa que controla para seu prazer de pouquíssimo tempo, ao mesmo instante em que se lança, sem redes de proteção, às ondas eletromagnéticas que o conectam ao mundo.

Em Experiência e pobreza, leio Walter Benjamin anunciando uma dessas rupturas, desta vez com o passado, por acreditar ser essa ação uma necessária exigência convocada pelos tempos contemporâneos. Ele, então, vai revelar o advento de uma nova barbárie.

O arauto dessa nova barbárie é uma figura desconcertante, uma espécie de crítico alegórico apolíneo que vai, a partir de seu caráter destrutivo, trágico, decidir o que merece ser destruído e o que deve se manter como ruínas, sobras de uma passado agora rompido.

Esse tipo em Benjamin, é bom deixar claro, não denota nenhum tipo de autoritarismo; ele vai descobrir em meio a essas ruínas, novos caminhos por onde passar e construir uma nova história. Na verdade, ele é um construtor do novo, aquele que, através desse gesto destrutivo, “instaura uma tábula rasa para o novo”.3

Sem vínculos com a tradição, ele desobstrui caminhos apesar de fazer gerar uma neorrepetição do mesmo. Consciente desse fato, ele empreende uma barbárie positiva porque é controlada pelos homens em ruptura com o destino fatídico da cultura burguesa.

Os arautos dessa nova barbárie para Benjamin, os novos construtores, foram pessoas como Brecht, Le Corbusier, Paul Klee, a arte dos cubistas. Atualizando para as referências do mundo de hoje, poderíamos pensar no movimento feminista, na nova cara de uma micropolítica que se preocupa com o agir ético na comunidade, no movimento transgênero, na arte experimental, no movimento slow e nas ideias dos filósofos do decrescimento?

Fica um ponto de interrogação ao finalizar este trabalho com nomes e ideias tão eloquentes, uma vez que estou diante do homem comum.

Sim, acima de tudo, quem faz história é aquele sujeito comum que deita em nossos divãs e caminha conosco – homens e mulheres também comuns, trans ou não, salteados e fragmentados, consumidores e cidadãos de seu tempo.

 

Referências

BENJAMIN, W. Obras escolhidas II: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1996.         [ Links ]

CANCLINI, N. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1995.         [ Links ]

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Endereço para correspondência
E-mail: anapperisse@yahoo.com

Recebido em: 10/10/2018
Aprovado em: 18/10/2018

 

 

SOBRE A AUTORA

Ana Paula Perissé
Psicanalista.
Membro Efetivo e Professora do Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro.
Doutora e Mestre em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
MBA pelo IAG-PUC Rio.
Bacharel em Comunicação Social pela PUC Rio.
Professora do curso de formação psicanalítica do Centro de Estudos Antonio Franco Ribeiro da Silva, do Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro (CBP-RJ).

 

 

1 Para Benjamin, nós criamos um dispositivo/mecanismo de defesa para poder lidar com esse excesso de estímulos.
2 Este “ainda” pode ser o “tempo” a ser elaborado na transferência.
3 “A barbárie proposta por Benjamin é aquela da estirpe de construtores, esses homens que em todos os tempos foram capazes do gesto destrutivo que instaura a tábula rasa para o novo: Descartes, Einstein, Newton. São estes tipos [...] as personificações do caráter destrutivo, cujo lema é criar espaço, desobstruir caminhos” (BENJAMIN, 1996, p. 198).

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