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Ide

versão impressa ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) vol.33 no.50 São Paulo jul. 2010

 

ARTIGOS

 

Psicanálise: os próximos 100 anos

 

Psychoanalysis: the next hundred years

 

 

Plinio Montagna*

Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
Associação Psicanalítica Internacional (IPA)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O autor enfatiza a importância da Associação Psicanalítica Internacional na implantação e desenvolvimento da psicanálise, bem como seu papel fundamental na influência que esta teve na cultura do século XX e atual. Destaca o caráter plural da entidade, que permite um foro de discussões em que efetivamente o campo psicanalítico se cria e se constrói, a cada dia.

Palavras-chave: IPA, Pluralidade, Identidade, Movimento psicanalítico, Extensão da psicanálise.


ABSTRACT

The author emphasizes the importance of IPA, now 100 years old, to the development of psychoanalysis. As a plural entity that contains different psychoanalytical ideas, it teaches us to live with and grow from the differences of thoughts.

Keywords: IPA, Psychoanalysis in the 20th century, Plurality, Identity.


 

 

No dia 27 de março, a Associação Psicanalítica Internacional (IPA) celebrou seu 100º aniversário: foi fundada em 1910, após dois anos de gestação por Freud e discípulos de então.

A IPA tem a missão de agregar os psicanalistas de várias origens, favorecer o progresso clínico e conceitual na área, balizar, orientar e promover a formação psicanalítica por meio das instituições filiadas, expandir e difundir seu alcance. Além disso, deve estimular pesquisas, assegurar seu vigor contínuo e estabelecer ligações com outros campos de ciência e cultura. Conta hoje com mais de 12 mil membros, em 33 países. Na China, por exemplo, onde haverá uma celebração importante do centenário, impressiona o interesse e o entusiasmo pela psicanálise. Estima-se um contingente expressivo de membros em alguns anos.

A Associação chegou ao Brasil na década de 1930, com o grupo que fundaria a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, hoje ligada à Federação Brasileira de Psicanálise, composta pelas instituições filiadas à IPA em nosso país.

Sem a organização desta, a imensa influência da psicanálise na cultura contemporânea jamais poderia ter ocorrido. Nem mesmo o enorme avanço do conhecimento psicanalítico, conceitual e clínico.

Ainda que para alguns a ideia de psicanálise se encerre em Freud, trabalhos de inúmeros autores subsequentes ao gênio criador contribuíram para a permanente construção de um corpo vivo, para a tessitura de um saber orgânico, dinâmico, em permanente expansão.

As contribuições de Melanie Klein, Wilfred Bion, Jaques Lacan, Donald Winnicott, Heinz Kohut, Donald Meltzer, Otto Kernberg, André Green e tantos outros ampliaram muito as perspectivas e os horizontes da psicanálise. No Brasil, destacaram-se Isaias Melsohn e Fabio Herrmann. Além deles, centenas de outros menos conhecidos colocaram ou colocam tijolos nesse edifício.

A IPA alberga psicanalistas de todas essas influências, convivendo em um ambiente plural, de debates múltiplos, democráticos. Sua característica ímpar é a possibilidade de conviver com as diferenças, tolerando-as e, quando possível, fazendo-as trabalhar a favor do objetivo comum, o avanço da psicanálise.

O acervo fecundo de conhecimento e de experiência legados possibilita hoje abrangência e profundidade no contato com a realidade psíquica do ser humano, não possíveis nos primórdios de nossa ciência.

Em outras palavras, somos capazes hoje de lidar com fenômenos bem além do horizonte a que o gênio Freud chegou. Se ele nos deixou a abertura de quase todos os caminhos, foram precisos novos ângulos, novas visões para trilhá-los.

Montada em seus ombros, a psicanálise está mais bem equipada para tratar complexidades do ser humano correspondentes à realidade atual. Temos mais condições para lidar com os sofrimentos contemporâneos, o vazio mental, os distúrbios na esfera do limite mente-corpo, as ambiguidades e tibiezas de fronteiras e limites do si mesmo, as especificidades de ansiedade e depressão etc.

O conhecimento pessoal que uma análise pode propiciar não tem paralelo com nenhuma outra atividade humana. Em um mundo que tende a dissociar emoção e razão, a apreensão e apropriação do modo de estar no mundo é fundamentalmente desalienante. O contato real com as próprias experiências emocionais é ímpar.

A psicanálise descortina o virtual de cada um, a serviço de ser, de sua humanidade. Não há dúvida de que psicofármacos, terapias cognitivas e outras têm sua potência. Mas mudança psíquica, de fato, é apanágio da psicanálise, campo único da pesquisa da subjetividade radical, da singularidade de cada um.

A vivência na IPA mostra haver talentos para a psicanálise em latitudes e longitudes diversas, da Amazônia ao Sul, do Canadá à Rússia ou à Austrália. Potenciais a serem desenvolvidos em uma formação psicanalítica apropriada, bem cuidada.

É experiência fascinante, em discussões clínicas multinacionais, debruçarmo-nos sobre aquilo que talvez seja plasmado pela cultura e o universalmente humano, captado por Freud. Sentimos que falamos uma mesma língua psicanalítica essencial, mas com sotaques muito, muito diferentes. Vivemos o vigor da psicanálise, que supera crises, viva, rumo, quem sabe, aos próximos 100 anos.

 

 

Endereço para correspondência
Plinio Montagna
Rua Gracindo de Sá, 71
01443-080 − São Paulo – SP
tel.: 11 3668-3364
E-mail: pkmontagna@gmail.com

Recebido: 04/05/2010
Aceito: 07/05/2010

 

 

* Mestre em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP, analista didata e atual presidente da SBPSP e membro do “board” diretor da Associação Psicanalítica Internacional (IPA).

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