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Ide

versão impressa ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) vol.33 no.50 São Paulo jul. 2010

 

RESENHAS

 

Escrita de risco, poesia de abismo

 

Risky writing, poetry of the abyss

 

 

Eliana Borges Pereira Leite*

Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

Endereço para correspondência

 

 

Carvalho, Ana Cecília. A poética do suicídio em Sylvia Plath. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. 307 p.

 

Acontece, por vezes, de um escritor, mesmo em um período de intensa produção, decidir dar fim à sua vida. Sob uma tensão que para alguns é própria da atividade literária, o fio da escrita pode se romper e com ele esgarçar-se também a trama de sentidos que sustenta o viver de um autor. Ruptura comovente e inquietante que nos confronta com a possibilidade de uma infiltração ativa e silenciosa de forças destrutivas nos processos de criação e nos propõe o enigma de uma sombria implicação entre a escrita e o suicídio. É mobilizada por esse enigma que Ana Cecília Carvalho, psicanalista e também escritora, se dedica, com delicadeza e rigor, a examinar nesse livro – originalmente sua tese de doutorado – a obra de Sylvia Plath, poeta e romancista americana radicada na Inglaterra que, em 1963, aos trinta anos, suicidouse com gás. Impossível ignorar o efeito produzido por essa morte sobre a leitura da obra.

Evitando a tentação psicodiagnóstica, mas sem recair, por outro lado, em uma análise puramente formal, Ana Cecília Carvalho toma como referência o “nó aparentemente indissociável” com que o suicídio, ao amarrar a vida, a morte e a obra, coloca em questão a própria função da escrita, sua eficácia e seus limites quanto à possibilidade de conter e transformar os aspectos mortíferos que podem estar presentes nos processos da criação literária. O estudo cuidadoso da vida de Sylvia Plath, ou, antes, dos relatos de sua experiência vivida, a análise do seu projeto literário, no qual se manifesta uma constante inquietação com os limites da escrita, e ainda a possibilidade de abordar – com o recurso às noções freudianas de conflito e de destino pulsional – a forma pela qual ela escolheu morrer, são os eixos que orientam essa consistente investigação.

Além de fornecer ao leitor, na primeira parte de seu livro, os dados mais importantes sobre a vida de Sylvia Plath, Ana Cecília Carvalho descreve e analisa o modo de produção que será a marca registrada da sua poesia, sua poética autobiográfica. Inicialmente influenciada pelo New Criticism – movimento que exigia do autor o distanciamento das suas próprias experiências e que valorizava a impessoalidade –, Plath precisou ultrapassar suas primeiras convicções para assumir uma escrita cuja força estava justamente na captação poética e na transformação das suas experiências cotidianas, das mais simples às mais complexas ou sofridas, em matéria-prima dos seus romances e poemas. A relação problemática com a mãe, o conturbado casamento com o escritor Ted Hughes e as angústias relativas ao seu projeto literário se expressam de diferentes maneiras em cartas e diários. Parcialmente publicados após sua morte, esses documentos pessoais dão a conhecer um árduo trabalho de ficcionalização da experiência, revelando o esforço de representação inerente à busca de uma forma poética que, sem se tornar confessional, desse o contorno adequado e a versão literária ao seu mundo emocional. A determinação de Sylvia Plath fazia com que ela “não perdesse de vista que a complexidade da vida emocional requer uma preparação controlada e sempre atenta aos dispositivos da linguagem para que a efetividade literária possa ocorrer” (p. 42).

Empregando com competência recursos conceituais que permitem elucidar os processos de criação e a articulação entre os modos de escrita empregados por Plath, Ana Cecília Carvalho propõe a figura de uma escrita em espiral que dá conta de uma continuidade entre os diários, as cartas, os romances e as poesias. Alimentando o debate sobre o limite entre a autobiografia e a ficção, essa escrita, a seu ver, parece ter o duplo objetivo de procurar a representação mais precisa, ao mesmo tempo em que busca liberar-se de qualquer aspecto referencial, desconstruindo e reconstruindo os elementos autobiográficos. A dimensão ficcional presente na representação textual do eu impossibilita a redução das identidades presentes nos romances e poemas à pessoa real da escritora, sem deixar de portar a sua posição subjetiva, “levando a noção de persona às últimas consequências [...] fazendo soar uma voz que, não sendo de ninguém, podia ser de qualquer um” (p. 74). Considerando que a condição fundamental da escrita consiste na transformação de algo que não é literário em uma “realidade literária” – cuja eficácia se faz sentir pelo efeito de verdade que é capaz de produzir no leitor –, Ana Cecília Carvalho observa que os efeitos produzidos pela escrita de Sylvia Plath provavelmente decorrem do modo como ela parece expor seu próprio material psíquico primitivo. Sua poética autobiográfica torna-se um recurso privilegiado para dar corpo àquilo que a psicanálise conhece como realidade psíquica.

No entanto, o que serve de horizonte à escrita é também o seu limite. O desamparo inaugural, renovado nas perdas posteriores da vida, pode tanto ser a fonte do impulso em direção à linguagem quanto o que, por sua natureza indizível, emudece. Não por acaso Sylvia Plath emprega entre as figuras de seus poemas uma catástrofe como o Holocausto. O que se coloca de modo trágico pelo seu suicídio, segundo Ana Cecília Carvalho, é “o problema da finalidade da escrita, finalidade aqui entendida em uma acepção dupla de função e limite” (p. 95). Os poemas do último pe ríodo de produção revelam cada vez menos mediação e maior proximidade da dor, empregam expressões condensadas de vivências e significações, e seus títulos aludem ao esvaziamento do corpo e da vitalidade, como “Contusion”, “Death & Co.” e “Edge”. Embora pareça estar em marcha um esforço de contenção pulsional pela escrita, a forma desmetaforizada desses últimos poemas também faz pensar em uma dimensão tóxica que nela se inocula. A noção de pharmacon, apresentada por Platão em Fedro e discutida por Derrida, é evocada para dar conta de uma escrita que não é melhor como remédio do que como veneno. Sua função restauradora não prevalece e o polo destrutivo acaba por se impor.

A refinada análise desenvolvida pela autora na segunda parte do livro aborda uma dimensão ainda mais primária do impulso inexorável em direção ao limite que marca a escrita de Sylvia Plath, da ordem de um desdobramento entre o anseio de recuperação de uma língua materna pré-discursiva, sensorial e marcadamente feminina, e as demarcações formais e linguísticas que se impõem à escrita como produto da elaboração simbólica. Uma impressão de estranhamento se produz no leitor diante de inversões, neologismos e rupturas gramaticais que revelam o esforço efetuado pela escrita poética diante dos limites tradutivos da própria linguagem. O efeito desse esforço é o “de uma permanente tensão entre o corpo (e a experiência subjetiva ligada a ele) e a palavra escrita. O que essa escrita parece atingir é o limite da palavra como representação” (p. 123). Escrita de risco que convoca a destituição do sentido e remete aos momentos mais iniciais e precários da subjetividade. Além de ter, como admitia Plath, uma função terapêutica, um caráter ordenador e integrador das experiências da vida, essa escrita, por sua intimidade originária com o sofrimento psíquico, é também uma poética da melancolia, e comporta perigos.

O suicídio acontece no momento em que Sylvia Plath parecia ter encontrado o modo mais apropriado de transformar o seu sofrimento psíquico em escrita poética. Não foram poucos os críticos que relacionaram às particularidades doentias do eu da escritora a falência da dimensão terapêutica da escrita e sua interrupção pela morte. Porém – e é neste ponto que se ressalta a originalidade da reflexão de Ana Cecília Carvalho – caberia também indagar se, em lugar de uma suposta precariedade do eu, o que é posto em jogo não é a precariedade da própria escrita, seus limites como recurso sublimatório.

A inquietante formulação de uma poética do suicídio surge nas últimas páginas desse denso livro de Ana Cecília Carvalho, para dar figura ao que, na poesia de Sylvia Plath, remete ao enigma do fracasso da sublimação. Desde sua formulação inicial, como alternativa ao recalque pela via da dessexualização, essa noção se mostra insuficiente e problemática, em parte porque não explica a presença inegável de sofrimento emocional na atividade criativa de muitos artistas. A introdução da pulsão de morte na teorização freudiana permite articular a sublimação também à desfusão pulsional, o que pode ajudar a esclarecer esse enigma. Ainda que as forças defensivas e organizadoras tenham sustentado a vida e a escrita ao longo de uma década, sua precariedade, juntamente com a desmetaforização da linguagem efetuada em seu último período produtivo, são os aspectos que permitem a Ana Cecília Carvalho distinguir “no gesto de autoextermínio de Plath, um esforço de contenção daquilo que, irrompendo em sua destrutividade, terminou por efetuar na morte uma derradeira representação” (p. 247).

Trabalhando com delicadeza no terreno em que psicanálise e literatura se aproximam como “desvendadoras privilegiadas das expressões originadas no solo inconsciente” (p. 13), Ana Cecília Carvalho propõe uma reflexão que desaloja e interroga a função e as possibilidades da escrita criativa. Que a sublimação não seja o recurso eficaz para ultrapassar a dor de existir, que a escrita se estenda como um fio sobre o abismo que alguns não dão conta de atravessar, esses são os enigmas que ela nos convida a examinar, sem ceder, em nenhum momento, à tentação do deciframento. Abordar respeitosamente o que é enigmático, reconhecer sua irredutibilidade e, ainda assim, fazer trabalhar o pensamento na continuidade de um conhecimento em aberto, é esta a proposta e também o mérito desse livro que, para proveito do leitor que se interessa pelo diálogo entre a psicanálise e a literatura, é fruto de uma escrita que realiza sua travessia.

 

 

Endereço para correspondência
Eliana Borges Pereira Leite
Av. Anchieta, 585
12243-080 – São José dos Campos – SP
tel.: 12 3921-9825
E-mail: elianabpl@gmail.com

Recebido: 30/03/2010
Aceito: 20/04/2010

 

 

* Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora em Psicologia Clínica pelo Núcleo de Psicanálise da PUC-SP, autora de A figura na clínica psicanalítica, Casa do Psicólogo, São Paulo, 2001.

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