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Tempo psicanalitico

versão impressa ISSN 0101-4838

Tempo psicanal. vol.42 no.1 Rio de Janeiro jun. 2010

 

RESENHAS

 

Os piores inimigos da psicanálise

 

Psychoanalysis' worst enemies

 

 

Eliane Mendlowicz

Membro Psicanalista da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (SPID) e Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)

 

 

RESENHA DE:

Prado de Oliveira, L. E. (2009). Les pires ennemis de la psychanalyse. Contribuition à l'histoire de la critique interne. Montreal: Liber, 227 páginas.

Numa linguagem extremamente vigorosa e sagaz, Prado de Oliveira tece críticas ferozes às instituições psicanalíticas, empreendendo uma pesquisa cuidadosa e extensa dos autores significativos da literatura psicanalítica que se interessaram pelo estudo das instituições, seus problemas e limites.

Adverte que, apesar de na língua inglesa existirem várias publicações nesse sentido, o mesmo não ocorre nas outras línguas em que a prática psicanalítica é difundida, daí a justificativa da publicação de seu livro, uma vez que, sem dúvida, trata-se de um fenômeno extremamente atual, pois, apesar dos cem anos de nossa "ciência", os mesmos impasses continuam a permear a maior parte das formações psicanalíticas.

Tece uma relação muito interessante entre a vida institucional do psicanalista e sua prática clínica, evidenciando que a maneira pela qual o psicanalista se posiciona em relação à instituição influenciará diretamente sua maneira de pensar e, portanto, sua apreensão das manifestações inconscientes dos pacientes.

O cerne de sua crítica centra-se na repressão das instituições que não permitem a emergência do novo, do criativo, do surpreendente, engessando o conhecimento nas teorias já difundidas e incorporadas, paralisando as descobertas e as questões relativas ao já transmitido e instituído.

Observa que desde os primórdios da institucionalização da psicanálise críticas pertinentes à rigidez da formação foram tecidas. Tausk foi o primeiro autor a destacar o quanto a institucionalização estaria afastando a psicanálise do contexto da descoberta, tornando-a uma "religião científica" tanto para os pacientes como para os analistas. Nessa direção seguem-se outros importantes criadores da psicanálise, entre eles: Bleuler, Reik, Anna Freud, Balint, Kernberg, Winnicott, Lacan e, na atualidade, Bollas. Todos se insurgem contra o autoritarismo, o dogmatismo, a violência, a religiosidade, o narcisismo excessivo, a luta pelo poder, fatores que contaminam as instituições que correm, dessa forma, o risco não de "formar" psicanalistas, mas sim de transformar os interessados, numa prática tida como libertária, em seres submissos, seguidores de uma determinada doutrina, uma seita, um rebanho liderado por algum líder-mestre.

Sem dúvida isso é visível até nossos dias, nos quais as "tribos", ao ouvirem os jargões comuns, reconhecem-se, regozijam-se, valorizando muito mais essa identificação do que uma escuta arguta e cuidadosa que poderia resultar numa troca fecunda, mesmo que implicasse certa ferida narcísica. O que reina, em geral, é o conforto do reconhecimento de um saber que não questiona e, portanto, não provoca angústia.

É surpreendente, porém assaz comum, que os analistas se fechem em sociedades que mais parecem clubes secretos e que dessa forma, protegidos, se sintam donos da verdadeira psicanálise, argumentando, superficialmente, que os outros analistas, pobres mortais, não passam de psicoterapeutas. Entretanto, as diferenças entre uma psicoterapia e uma verdadeira psicanálise são sempre ou misteriosas ou pueris, como frequência semanal de sessões, duração dos encontros analíticos etc.

Uma outra crítica importante que Prado de Oliveira tece diz respeito a quanto o movimento societário psicanalítico se afastou das mudanças da sociedade. A sobrevalorização do conceito de realidade psíquica sobrepujou o estudo cuidadoso das mudanças sociais, culturais e políticas e a consequente necessidade de revisão de conceitos e práticas psicanalíticas. Para Prado de Oliveira, as sociedades psicanalíticas foram e são de uma cegueira suicida em relação a todo esse movimento incessante das organizações sociais. É justo esse fechamento o maior responsável pela tão propalada crise da psicanálise que, de costas para o mundo em constante movimento, se ancora em defesa de uma pureza psicanalítica que nada mais é do que uma nostalgia, um horror ao novo, revelando apenas o temor da perda do saber poder.

Aponta também para a falta de pesquisas clínicas consistentes dos segredos da prática dos consultórios particulares: a transmissão do encontro clínico é feita de molde a se adequar exatamente ao esperado, ao adequado, às velhas e conhecidas fórmulas da teorização psicanalítica.

Prado de Oliveira faz uma incursão na psicanálise francesa, apesar das dificuldades que crê ter nessa tarefa, dados seus próprios preconceitos, frutos da sua formação em Paris.

Com seu olhar mordaz, porém bem documentado, comenta que ser freudiano na França não pressupõe uma leitura dos textos de Freud nem mesmo de suas articulações, pois inexiste nesse país uma edição completa e coerente da obra freudiana. Fora isso, os psicanalistas franceses não são muito versados em línguas estrangeiras. Mesmo entre os que se intitulam lacanianos, poucos estudaram a obra de Lacan com o cuidado necessário. Só recentemente foram feitas pesquisas metódicas da obra desse autor.

Percorre vários autores franceses, entre eles Lacan, Perrier, Valabrega, Safouan, Aulagnier, Leclaire, Mijolla-Mellor, destacando suas contribuições e críticas às instituições psicanalíticas.

Lamenta o fato de que mesmo a revolução provocada pelo surgimento de Lacan e a formação de uma nova sociedade completamente diferente do modelo da IPA não tenha conseguido acabar com as já descritas limitações das sociedades tradicionais, reeditando os mesmos velhos problemas.

Entretanto, valoriza a criação do passe, por ser um mecanismo que implica uma abertura para o exterior, embora não o exterior anelado por Prado de Oliveira, que pressuporia a inclusão de membros de fora da sociedade psicanalítica interessada. Mas não deixa de ser muito importante que a avaliação da análise de um candidato se dê além da díade analista-analisando. A inclusão de outros psicanalistas torna essa passagem mais democrática, além de incluir o analista no processo de averiguação de uma análise que teria chegado ao fim. Infelizmente, esse mecanismo levou dezenas de anos para ser posto em prática, e até hoje parece ser bastante complicado conseguir obter o passe nas sociedades que se sustentam no estudo de Lacan.

A psicanálise na França tem uma particularidade que é o fato de ela, diferentemente do Brasil, ser uma profissão legalizada há bastante tempo. Isso se dá porque a maior parte dos analistas não consegue sobreviver somente de sua prática no consultório e, portanto, os profissionais trabalham no serviço público ou semipúblico. A previdência social financia não somente os psicanalistas psiquiatras, mas também psicanalistas de outras formações que, paulatinamente, se reduziram aos psicólogos clínicos. Isso resultou não só no fim da idealização da reivindicação da psicanálise como uma forma privilegiada de pensar entre as outras como também na pretensão de ser uma profissão "fora da lei", sem mediação do estado e do público.

Prado de Oliveira, acompanhando Leclaire, não deixa de pontuar a importância das instituições psicanalíticas na sobrevivência de nossa prática. A questão é paradoxal, pois, assim como a instituição pode funcionar como uma resistência à análise, ela é uma parte essencial à formação psicanalítica. Ela funciona como um entrave à liberdade e à criatividade, porém ao mesmo tempo tem sido essencial à continuidade do movimento psicanalítico.

O autor dedica a segunda parte de seu livro a uma extensa pesquisa da época das controvérsias entre Anna Freud e Melanie Klein, na esperança de dissipar os mitos que nutrem a história do movimento psicanalítico. Mergulha de corpo e alma neste momento da história da psicanálise, trazendo à tona as rivalidades, as violências, os excessos narcísicos e a intolerância às diferenças de pensamentos desse tempo tão fecundo da teoria, no qual mentes brilhantes da sociedade britânica, como Schmideberg, Low, Jones, Heimann, Isaacs, Glover, Strachey e Winnicott discutiam com fervor as contribuições psicanalíticas numa lógica pretensamente científica. Entretanto, por trás de toda essa ilusão objetiva, reinava com todo esplendor a linguagem das paixões. O autor dedica-se a essas paixões tentando desvendar através do instrumental analítico as profundezas inconscientes da história de muitos desses autores. Apesar do interesse e da riqueza dessa época do movimento da psicanálise fica a impressão de um outro livro e não de um capítulo do mesmo, uma vez que as minúcias excessivas podem levar o leitor a perder a objetividade do tema.

Prado de Oliveira, apesar da insistência na denúncia das relações inconscientes envolvidas na linguagem dos apaixonados, citando inclusive Nicholas Abraham e Torok, que escreveram que os debates dessa época não passavam de um diálogo interminável de surdos, não se coloca inteiramente ingênuo nessa questão. Observa que quando surge uma nova teoria ela vem se afirmar como paixão daquele que a criou e até necessita de uma utilização ideológica para ser entendida. Dessa forma toda teoria, necessariamente, implica um grau de falsidade, e toda verdade, sua parte de mentira. Apesar dessa observação, algumas vezes o autor escorrega na busca de "culpados" pelas paixões e defesas desmesuradas dos criadores da psicanálise, citando algumas vezes Freud como o grande responsável pelo autoritarismo reinante nas sociedades.

Um pouco mais otimista, acredita que hoje somos mais precavidos do que os analistas dessa época. Atualmente, temos mais noção da importância do papel da transferência e contratransferência na elaboração das teorias. Os analistas de outrora estavam mais comprometidos com o positivismo. Houve uma grande transformação na noção de ciência, que já inclui a subjetividade como iniludível.

Finalmente, de acordo com sua convicção de que a criação está vinculada à subjetividade, Prado de Oliveira, corajosamente, fala de seu trauma, sua não-aceitação como membro psicanalista na Associação Psicanalítica da França, pela qual, após ter cumprido os requisitos exigidos, teve seu nome negado. Faz uma análise interessante da razão da sua não-aceitação, interpretando o fato de ser um estrangeiro como aquilo que incomoda, que inquieta e, portanto, deve ser banido.

Prado de Oliveira não poderia ter dado uma resposta melhor a esse trauma do que a autoria desse livro. Um livro denúncia, muito bem documentado e sustentado, defensor da psicanálise enquanto uma criação que deve ser preservada da burocratização, da repressão, da rigidez das instituições. Como bem indica, é preciso saber pertencer a uma instituição, talvez com certa distância e, certamente, sem ingenuidade, pois amalgamar-se a uma sociedade implica na perda de liberdade de pensar e na perda do que é mais caro no psicanalista, isto é, sua escuta.

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