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Tempo psicanalitico

versão impressa ISSN 0101-4838

Tempo psicanal. vol.44 no.2 Rio de Janeiro dez. 2012

 

ARTIGOS

 

O Homem dos lobos e a atualidade da incerteza diagnóstica

 

The Wolf-man and the actuality of diagnostic uncertainty

 

 

Sabrina Gomes CamargoI; Tania Coelho dos SantosII

IPsicanalista; Membro Associado do Instituto Sephora de Ensino e Pesquisa de Orientação Lacaniana ISE-POL; Especialista em Teoria da Clínica Psicanalítica pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Mestre pelo Départemant de Pyschanalyse de Paris 8; Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
IIPsicanalista Presidente do Instituto Sephora de Ensino e Pesquisa de Orientação Lacaniana - ISEPOL; Membro da École de La Cause Freudienne, da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise; Pós-doutorado no Départemant de Psychanalyse de Paris VIII; Professora Associada IV do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Bolsista 1C de Produtividade Científica do CNPq; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental

 

 


RESUMO

A querela dos diagnósticos foi reaberta neste momento de reavaliação crítica de um dos mais importantes protocolos diagnósticos internacionais. Esta epidemia classificatória, ao repertoriar as manifestações do sofrimento psíquico, promove uma leitura biologizante do sujeito. O corpo da pulsão perde espaço para o real do corpo na tentativa vã de normatizá-lo. Na psicanálise, o diagnóstico não se baseia apenas nos fenômenos. Por esta razão, num caso como o do Homem dos lobos, mesmo as classificações mais apuradas se mostram insuficientes. Partiremos da diretriz freudiana a respeito do Édipo invertido, avançando a hipótese de que a virilidade do Homem dos lobos é puro semblant para ocultar uma posição apassividada, mantendo-o afastado da homossexualidade. O rigor da sua psicopatologia não evitou que Lacan se embaraçasse com o caso sem jamais contrapor-se ao ponto de vista de Freud. A orientação proposta por Miller, após a Convenção de Antibes, o reclassificou dentro da categoria da psicose ordinária. Às vésperas do seu centenário, a leitura do Homem dos lobos é obrigatória no debate das querelas diagnósticas atuais.

Palavras-chave: Homem dos lobos; diagnóstico; Édipo invertido; psicose ordinária.


ABSTRACT

This is a time of critical reappraisal of a major international diagnostic protocol. Psychoanalysts fear to promote a biologizing overview of the subject. The body of drive may be losing ground to the body of biology and there is a growing desire to regulate it. However, it is a time of questioning the scientific value of diagnosis in general and in particular of psychoanalytic diagnosis. In Freudian psychoanalysis, diagnosis is not based solely on the phenomena. Therefore, the case of the Wolf Man shows that even the most accurate classifications are insufficient. According to Miller, it is a case of ordinary psychosis. We have resumed the study of the case to show that Freudian diagnosis is based on the theory of the reversed Oedipus. Our hypothesis is that the Wolf Man's virility is pure semblance to hide a passive position, keeping him away from homosexuality. On the eve of its centennial, the reading of the Wolf Man is mandatory in the discussion of current diagnostic quarrels.

Keywords: Wolf man; diagnosis; reverse Oedipus; ordinary psychosis.


 

 

SOBRE A QUESTÃO DOS DIAGNÓSTICOS

O Homem dos lobos de Freud (1918 [1914]/2010), cujo verdadeiro nome era Serguei Pankejeff, é o caso mais demonstrativo da importância da fineza diagnóstica na psiquiatria e na psicanálise. Na miscelânea sintomática descrita por Freud encontramos fobias, conversões histéricas, cerimoniais e ruminações obsessivas, além de uma fixação fetichista bem singular. Ruth Mack Brunswick (1981), a segunda analista deste famoso paciente, descreve fenômenos alucinatórios e delirantes e diagnostica sua hipocondria e sua paranoia. O psicanalista francês Jacques Lacan (1954/1998), por sua vez, relança a importância do termo Verwerfung - que Freud havia forjado no contexto de uma discussão acerca dos mecanismos de defesa contra a castração deste mesmo paciente -, traduzindo-o por meio do termo foraclusão, e elevando este mecanismo à dignidade de operador psíquico constitutivo de todas as psicoses, sem jamais ter proposto que este sujeito fosse psicótico. Em sua abordagem do caso do Homem dos lobos, Lacan destaca a delicadeza do seu posicionamento frente à castração, bem como as diferentes classificações diagnósticas elaboradas por aqueles que se debruçaram sobre o caso.

Estes embaraços explicam-se em parte pelo fato de que o próprio Freud se viu fisgado pelas sutilezas clínicas apresentadas por este sujeito, o que o levou a revisitar o caso, incansavelmente, até o final de seu percurso como analista. Em 1937/1996, no artigo intitulado "Análise terminável e interminável" e, em 1938/1996, com seu artigo póstumo "A divisão do ego no processo de defesa", serviu-se dele para avançar novas contribuições à teoria da clínica psicanalítica. Este analisando tornou-se uma pessoa pública na comunidade analítica, despertando o interesse dos psicanalistas que o reanalisaram e publicaram suas elaborações sobre o caso. A longevidade do paciente, que até o final de sua vida contabilizou uma pluralidade de analistas e mais de uma dezena de diagnósticos, contribuiu decisivamente para esta história clínica.

A querela diagnóstica provocada pela variedade de sintomas apresentados pelo paciente e pela dificuldade de articulação sintoma-doença é o acontecimento a partir do qual nos situamos para pensar o tema da classificação diagnóstica nos dias de hoje. De sua neurose infantil, extraímos as ideias, ruminações e cerimoniais indicativos de uma neurose obsessiva; o sonho com os lobos que nos remete a uma fobia; os problemas intestinais que nos fazem pensar em uma histeria de conversão; o episódio de alucinação do dedo cortado, em sua tenra infância, que sugere uma psicose; e, finalmente, os fenômenos de corpo, que começaram com a gonorreia e foram sucedidos pelas crises depressivas recorrentes, além de preocupações com as marcas no nariz, culminando no sentimento persecutório dirigido a todos os médicos, inclusive o próprio Freud, que o atenderam durante sua vida adulta.

Por que retomar essa controvérsia acerca do diagnóstico do Homem dos lobos nos dias de hoje? Este é um momento de reavaliação crítica de um dos mais importantes protocolos diagnósticos internacionais, o DSM. Este manual, atualmente em sua quarta edição, mas já em vias de publicação da quinta, apresenta-nos uma nova perspectiva classificatória, livre da tradição psiquiátrica e psicanalítica. Suas duas primeiras edições contemplavam referências à psicanálise, mas, ao longo de suas sucessivas revisões, afastou-se dela para aproximar-se de uma leitura biologizante do sujeito. Assim, o sofrimento psíquico passou a ser explicado em termos neuronais e genéticos, e o tratamento foi reduzido à administração de psicofármacos de última geração. Sabemos que não se trata apenas de uma controvérsia científica entre psicanalistas e neurocientistas. A Associação Americana de Psiquiatria também não cessa de denunciar a precariedade científica deste manual de classificação. Estão em jogo interesses econômicos de planos de saúde e de poderosas indústrias farmacêuticas por detrás das campanhas de promoção à saúde. Prática, como nos dizia Foucault (1976/1988), do poder higienista, que dociliza os corpos, normaliza as condutas, medicalizando a expressão dos afetos, examinando-os, avaliando-os, cifrando-os e contabilizando-os por meio de dados estatísticos.

Proclamando-se a-teórico, o DSM introduz categorias clínicas diagnósticas com o argumento de evitar incongruências e impasses e facilitar a comunicação entre os profissionais da área de saúde mental. Ao recorrer ao termo transtorno, impessoal e sem qualquer substrato teórico, o DSM inclui a cada nova edição uma centena de novas doenças, tendo atingido a marca de trezentas e cinquenta denominações.

Para servir-se de nomeações não contaminadas pelos conceitos das ciências psiquiátrica e psicanalítica, este protocolo internacional justifica-se pela suposta despretensão em construir uma nova nosologia, aspirando ser apenas uma modalidade de classificação que atenda a todas as correntes. As categorias do DSM apresentam-se como descritivas e abolem as classes psiquiátricas, herdeiras de uma fina tradição construída ao pé do leito do paciente, desde o nascimento da clínica, conforme analisa Foucault (1963/2011). Cresce a tendência à psicofarmacologizacão juntamente com a despsiquiatrização da loucura. O clínico torna-se um técnico habilitado a manusear os manuais de classificação, emitir um diagnóstico automático e prescrever um fármaco potente para debelar qualquer doença. Não se pergunta mais ao sujeito sobre a história dos seus sintomas, nenhuma hipótese etiológica precisa ser formulada. Na contramão desta tendência, os psicanalistas rejeitam a clínica que anula o sujeito. O arsenal farmacológico dispensado ao paciente, na urgência de estabilizá-lo, muitas vezes impede qualquer possibilidade de invenção e solução subjetiva. Para classificações de massa são utilizados quimioterápicos igualmente de massa, em prol de um ideal de "saúde para todos".

Esta gestão dos riscos, como diria Castel (1987), que invalida o recurso à palavra como ferramenta terapêutica, traz mais inquietação ainda ao pretender fazer antecipações terapêuticas sob a alegação de prevenir problemas futuros. Cada sujeito é tratado como um doente em potencial, classificado em categorias denominadas "síndromes de risco", ultrapassando as fronteiras da prevenção em nome da predição. A psicanálise também precisou estabelecer uma tipologia para não ficar à deriva de uma abordagem intuitiva dos fenômenos. Porém, ao partir da etiologia sexual das neuroses, Freud nos mostra que sua preocupação não era realizar uma descrição fenomênica - como acontece hoje no campo da psicopatologia - pois sua tipologia, longe de ser uma coleção de casos, é um convite a ir além da queixa do sujeito e aí circunscrever o sintoma e o fantasma nele implicados. Assim, ao se endereçar a um analista, ao supor que este sabe sobre seu inconsciente, o sujeito, através da palavra, é levado a atribuir ao seu sintoma outra leitura, a da expressão do inconsciente. Desta maneira os sintomas de um sujeito, apesar de parecidos em sua manifestação, não têm o mesmo sentido para outro sujeito, pois a singularidade da sua constituição subjetiva furta-se à categorização.

Jean-Claude Milner (2006) nos convida a repensar os tipos diagnósticos da psicanálise como classes paradoxais. Termos como histeria, neurose obsessiva, ou psicose não conduzem a nenhum agrupamento. A abordagem que se faz do sofrimento psíquico na atualidade, ao atribuir ao sujeito um diagnóstico de depressão, fobia ou transtorno bipolar, acaba por promover uma nomeação do desconhecido, que inclui este sujeito num agrupamento designado enquanto grupo social. "Ser como os outros" é uma ilusão, que produz um "efeito terapêutico" de apaziguamento temporário da angústia. Para Milner (1995), tudo isso conduz ao aparecimento de um sujeito sem substância, sem consistência e sem predicados, um sujeito esvaziado de toda e qualquer subjetividade, comandado por um único significante. Contudo, dadas as suas condições estruturais, o significante é por natureza impróprio, insuficiente para dizer a singularidade do sujeito. Este furo da linguagem dificulta que se produzam conjuntos fechados. A lógica apropriada à psicanálise nos exige admitir conjuntos abertos, isto é, conjuntos que incluem elementos que pertencem e que, ao mesmo tempo, não pertencem a determinado conjunto.

As classes psicanalíticas distinguem-se das categorias do DSM por serem "não- todas", pois seus elementos, ao mesmo tempo, pertencem e não pertencem a um dado conjunto. Miller afirma que a psicanálise sabe que este tipo de classificação é um artifício, um sem blant. Uma classe não consegue abranger um sujeito em sua singularidade única pois esta sempre escapa. Por esta razão um sujeito não é nunca um exemplar perfeito de nenhum universal. Este é o traço que permite apreender o sujeito como um efeito do universo infinito e não totalizável da ciência. Desde a botânica de Lineu e Buffon que os seres vivos são classificados taxionomicamente, e não é pertinente transpor este modelo biológico às ciências humanas, afirma Foucault (1966/2005), pois o sujeito é inapreensível e possui uma anterioridade e uma exterioridade próprias que escapam a qualquer classificação e qualquer possibilidade de ordená-lo completamente num quadro comparativo.

Com o Homem dos lobos, as classificações psicanalíticas também se mostram falhas. Aí onde se desvela esta lacuna, o desejo do psicanalista é convocado a responder ao que um caso tem de inédito. Não faz parte dos objetivos deste artigo emitir novos diagnósticos sobre este caso. Também não vamos nos lançar numa nova revisão da literatura, já tão primorosamente empreendida, por exemplo, por Escars (2002). Acima de tudo, queremos propor uma leitura inovadora, que recupere o espírito da pesquisa freudiana, não sem recorrer ao percurso de Lacan.

Os ensinamentos obtidos a partir da Convenção de Antibes afastam-se das tipificações para destacar a singularidade. Se, para alguns psicanalistas, só haveria uma estabilização com apoio na metáfora do Nome-do-Pai, para outros um sujeito encontra soluções singulares para tratar o real. Em nossa própria pesquisa, partir da intuição freudiana do Édipo invertido conduz-nos a uma clínica mais delicada, na qual se esboça um ponto limite entre a neurose e a psicose. Às vésperas de festejar o seu centenário, a leitura do Homem dos lobos de Freud é um convite obrigatório para aqueles que querem entrar no debate das querelas diagnósticas da atualidade, estando em ampla vantagem temporal e clínica sobre os protocolos diagnósticos internacionais, apesar de não se valer da neurologia, da farmacologia, da genética e da aparelhagem tecnológica de última geração na apreensão do sujeito do inconsciente.

 

DE VOLTA AO CASO DO HOMEM DOS LOBOS

A despeito do aspecto instigante desta fenomenologia caleidoscópica que o caso apresenta, a psicanálise nos ensina que o diagnóstico não pode ser reduzido aos fenômenos, pois pode existir uma disjunção entre estes e a doença. Falar de diagnóstico em psicanálise exige-nos situar a posição do sujeito no inconsciente - que só pode ser apreendido num espaço transferencial esvaziado de ideais e julgamentos preconcebidos - para que o desejo do analista compareça como interpretação de um sentido singular. O analista, ao oferecer uma escuta, permitirá que o imprevisível da fala apareça e que algo mais além dos fenômenos possa se manifestar.

Ao ultrapassar a sintomatologia do paciente e ir além dos fenômenos Freud (1918 [1914]/2010) deparou-se com a complexidade do posicionamento dele frente à castração. Inconscientemente, três correntes libidinais revelavam atitudes psíquicas distintas diante da partilha sexual. Essas atitudes subjetivas tão diferentes levantam uma nova interrogação acerca de um tema a respeito do qual Freud vinha se ocupando, qual seja, o de que a escolha da neurose estava intimamente relacionada à natureza do sintoma. Também Lacan, em sua primeira clínica designada como estruturalista, ocupa-se do mistério desta escolha. Retomou a diferença entre as estruturas neurótica, psicótica e perversa, estabelecendo uma nova topologia relativa à presença ou à ausência do significante do Nome-do-Pai. Apesar do rigor e da exatidão de sua psicopatologia, Lacan também se embaraçou com este caso, chegando a mencioná-lo como um caso borderline no seminário sobre A angústia (Lacan, 1962-1963/2005). Numa outra ocasião chega a propor que o desejo quase desmedido de Freud de descobrir a verdade dos fatos - chegando a impor um limite de tempo a esta análise, na vã tentativa de revelar o que estava oculto por detrás da fantasia primordial do paciente - pode ter desencadeado "o acidente tardio de sua psicose" (Lacan, 1964/1998: 56). Miller, em seu retorno à obra lacaniana, por duas vezes abordou este caso. Na primeira, entre 1987-1988 (Miller, 2009a), deixou em aberto seu posicionamento quanto ao diagnóstico e, vinte anos depois, em consequência das novas proposições acerca da psicose estabelecidas durante a Convenção de Antibes, passou a considerá-lo como um caso de psicose ordinária (Miller, 2009b). O motivo desta reavaliação foi a consideração pelos dados extraídos da análise deste paciente com Ruth Mack Brunswick (1981).

Esta reviravolta no diagnóstico sugerida pelos psicanalistas de orientação lacaniana suscita algumas questões que merecem ser mais bem desenvolvidas. Do ponto de vista freudiano, o Homem dos lobos é um caso de neurose obsessiva. Porém vale destacar que este caso inaugura um novo momento de sua pesquisa, em que concede grande importância à compulsão à repetição e à pulsão de morte na neurose obsessiva e na melancolia, como se pode verificar em sua segunda tópica, no artigo intitulado: "O ego e o id" (Freud, 1923/1996). Quanto a Lacan, após a formalização do conceito de foraclusão no artigo paradigmático sobre a clínica da psicose intitulado "De uma questão preliminar" (Lacan, 1957-1958/1998), não volta a associar o caso do Homem dos lobos com a Verwerfung do Nome-do-pai. Do mesmo modo, constatamos que não menciona o termo borderline após o seminário intitulado A angústia (Lacan, 1962-1963/2005). Observamos também que ele não se serve do caso em seu último ensino, preferindo orientar-se pela bizarra produção literária de James Joyce para abordar a clínica do sinthoma (Lacan, 1975-1976/2007). Assim como Freud foi conduzido a enfatizar a importância da pulsão de morte nos casos mais difíceis, Lacan será conduzido a promover o registro do Real em lugar da energética freudiana, preservando, no entanto, a orientação para aquilo que excede a classificação diagnóstica: a singularidade do sintoma.

Freud destaca a singularidade do sintoma neste caso clínico - para além de sua classificação como uma neurose obsessiva -, que se manifesta na dominância do Édipo invertido e no recalcamento do desejo homossexual endereçado à figura paterna. Onde seria de se esperar o recalque da hostilidade contra o pai, prevalece neste caso o recalque do amor pelo pai. Esta indicação é retomada em seu artigo inaugural da segunda tópica "O ego e o id" (Freud, 1923/1996) e em outro texto da mesma época em que relata um caso clínico cuja saída do Édipo não foi a convencional, o caso da jovem homossexual (Freud, 1920a/1996).

Na literatura lacaniana sobre o caso do Homem dos lobos, verificamos que esta construção freudiana do caso é frequentemente negligenciada. Existe uma tendência a reler o recalcamento da homossexualidade à luz do mecanismo psicótico - elucidado por Lacan - do empuxo-à-mulher. Nossa orientação científica nos exige não deformarmos a perspectiva freudiana, reduzindo-a à leitura pós-lacaniana. O próprio Lacan jamais confrontou o diagnóstico de Freud contrapondo-o ao seu. O que nos interessa aqui é a problemática do diagnóstico, que nos convida a levantarmos algumas questões: tomar o Édipo invertido como hipótese diagnóstica nos deixaria ainda no campo da neurose? Essa hipótese nos afastaria do diagnóstico de psicose e nos aproximaria do diagnóstico de perversão homossexual? Em se tratando de perversão caberia, neste caso, distingui-la da perversão propriamente dita para somente abordá-la no campo das fantasias perversas do neurótico? Essas indagações se apoiam em dois importantes elementos neste caso: a hipótese do recalcamento do desejo homossexual e a escolha fetichista de objeto. Porque, como veremos mais adiante, Freud acredita que o fetichismo é uma barreira contra o homossexualismo. Esta hipótese freudiana teria se apoiado no caso do Homem dos lobos?

A teorização de Freud sobre o Édipo invertido, apesar de melhor trabalhada na segunda tópica, é mencionada em "Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade" (Freud, 1905/1996). Neste artigo, Freud descreve o Édipo invertido como uma aberração sexual, a partir do momento em que a finalidade da pulsão furta-se à reprodução biológica. Alguns anos depois, com o estudo sobre Leonardo da Vinci, Freud (1910/1996) introduz a ideia de que a inversão está na origem do homossexualismo masculino, graças à identificação com a mãe. Ao espelhar-se nela e furtar-se à identificação com o pai, este jovem procura por objetos aos quais possa conceder e receber amor, em consonância com o modo pelo qual foi tratado pela mãe. Esta modalidade de identificação implica em introduzir no eu o objeto ao qual se deveria renunciar. A identificação com o objeto perdido é uma manobra, justamente, para conservá-lo. O tema da identificação ao objeto perdido foi desenvolvido no artigo de 1917 [1915] (1996), intitulado "Luto e melancolia". O artigo sobre "O ego e o id" (Freud, 1923/1996) retoma o tema da identificação aos objetos perdidos e aborda, sistematicamente, o destino do amor e do ódio pelas figuras da mãe e do pai ao final do complexo edipiano. Freud nomeia como Édipo positivo o desfecho típico, ou seja, aquele que conduz a renunciar à mãe como objeto de amor e que promove a identificação com o pai como ideal. No caso do menino, no complexo de Édipo negativo, em lugar da identificação ao ideal paterno, ao contrário, a catexia objetal em relação ao progenitor do sexo oposto regride para uma identificação. Sob esta modalidade invertida de identificação pode residir o alto valor atribuído ao órgão masculino, de tal modo que sua ausência se torna intolerável no objeto amoroso. Igualmente, a fantasia de ser amado pelo pai, tal como a mãe é amada, evita a rivalidade com aquele e, desta maneira, paradoxalmente, afasta o sujeito do temor da castração.

Já Lacan (1957-1958/1999: 176) nos aponta a sutileza desta saída edipiana, surpreendendo-se com "o papel extremamente móvel, cambiante, desconcertante desempenhado pela função do Édipo invertido". Neste, afirma o autor, não se pode eludir o componente do amor pelo pai, ou seja, é pelo caminho do amor que se produz a inversão. É também através do amor que Freud vislumbrava uma saída para o Édipo, posto que, na medida em que o pai é amado, há uma identificação para com ele. Entretanto, o que Lacan enfatiza é que por este mesmo caminho do amor não há uma identificação benéfica de cunho viril, pois o que se desdobra é uma posição apassivada, que captura o sujeito. Identificar-se à posição feminina e fazer-se amar pelo pai coloca o sujeito numa situação conflitante onde deve, por um lado, lidar com o retorno constante da posição homossexual em relação ao pai e, por outro, recalcar esta posição devido à ameaça de castração que ela comporta. Para Lacan, a articulação da problemática do Édipo invertido situa-se no segundo tempo do Édipo, no momento mesmo em que se coloca a questão da diferença sexual e do seu efeito no menino e na menina. Este momento é crucial, pois, se a criança não aceitar ser privada da identificação com o falo imaginário, ela vai conservar esta identificação típica dos sujeitos homossexuais. Passar pelo processo de privação de ser o falo é essencial para que o sujeito possa recuperá-lo pela via do símbolo, para que o sujeito possa vir a desejar o objeto que lhe falta. Não renunciar à identificação com o falo materno é uma barreira à satisfação do desejo, levando o sujeito a buscar uma solução para a escolha do objeto por meio do fetichismo. Esta alternativa subverte a tríade mãe-criança-falo, por colocar a mãe, e não o pai, no lugar do falo. Lacan explica que os homossexuais realizam o Édipo de forma plena, apesar de ocorrer uma inversão quanto ao objeto. Colocar o objeto materno no lugar do falo promove uma supervalorização do objeto que vela sua castração. Por isso a condição para a escolha amorosa do homossexual recai sobre aquele que porta a insígnia fálica e não sobre quem se encontra dela privado. Lacan declara que a chave do problema concernente ao homossexual é atribuir demasiado valor ao falo, a ponto de ser condição sine qua non que o parceiro o porte. Desta maneira, no triângulo edipiano do homossexual, o pai tem uma participação caduca, frágil, débil, permitindo que a mãe seja a transmissora da lei. Esta figura feminina forte, segura, que não se deixa abalar, é o objeto identificatório e amoroso do homossexual.

Freud apresenta a saída edipiana através de um Édipo invertido como uma montagem subjetiva válida como qualquer outra. Ao sustentar, desde "Os três ensaios" (Freud, 1905/1996), a predisposição bissexual da libido, Freud nos explica que tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade são destinos das pulsões possíveis no desfecho edipiano, e que todo sujeito preserva em seu inconsciente vestígios desta escolha homossexual. Assim, simbolizar uma posição masculina ou feminina é resultado de um longo percurso efetuado pela criança para concluir sua identificação sexual. A travessia do complexo de Édipo conduz a tratar o real em jogo na diferença anatômica entre os sexos por meio da assunção dos semblantes, dos papéis sexuais veiculados pela linguagem, numa dada cultura. Dado que a pulsão, diferentemente do instinto, não tem um objeto nem um circuito pré-determinados, ser homem ou ser mulher é, acima de tudo, uma posição inconsciente, que não se reduz nem decorre da pura diferença anatômica entre os sexos. Postular que o objeto da pulsão não é, de saída, outro ser humano diferentemente sexuado, mas que nasce fragmentado nas diferentes zonas erógenas do corpo, levou Freud a equiparar as atividades sexuais das crianças e dos pervertidos, conduzindo-o a revelar que as razões pelas quais um ser humano chega a comportar-se de acordo com as exigências da reprodução da vida dependem muito mais das forças da civilização do que dos ditames da biologia. Como explicar que a espécie humana, em sua maioria, continua a sexuar-se em conformidade com a anatomia e reproduzir-se, a despeito de não contar com um dispositivo instintivo para orientá-la? Será que os homens imitam os animais?

 

FETICHISMO E HOMOSSEXUALISMO: A PARTICULARIDADE DA SEXUAÇÃO DO HOMEM DOS LOBOS

Diferentemente de grande parte dos psicanalistas de orientação lacaniana que escolheu abordar o caso do Homem dos lobos como um caso de psicose, decidimos explorar a hipótese freudiana do Édipo invertido porque acreditamos que ela pode ser muito útil para abordar um grande número de novos sintomas na contemporaneidade. Desta forma, pensamos que era importante trabalhar a questão da sexuação nestes casos, razão pela qual propomos que a virilidade do Homem dos lobos é diferente da posição viril que o menino precisa assumir no desfecho final da sua trama edipiana. É uma virilidade mascarada, de semblant, que surge para ocultar uma posição apassivada, uma manobra para manter-se afastado da homossexualidade. No plano da escolha de objeto, orientamo-nos pela ênfase que Freud concede ao fetiche neste caso, uma vez que podemos tomá-lo no campo das manobras para encobrir uma escolha de objeto homossexual, fazendo semblant de uma escolha heterossexual. O fetiche, como se sabe, é objeto substituto do falo que a mãe não tem. Ele serve para desmentir a realidade da castração materna, uma defesa contra a realidade desagradável que se ergue, criando outra mais compatível com os anseios do sujeito. Retomamos neste ponto a tese freudiana de 1927/1996, segundo a qual o fetichismo é a última defesa encontrada pelo sujeito contra o homossexualismo.

A perspectiva freudiana, neste caso, limita-se à estrutura edipiana ou nos exige ir além do Édipo? O novo modelo do aparelho psíquico - formulado depois da introdução de um princípio "Mais além do princípio do prazer" (Freud, 1920b/1996) - propõe que o eu e o supereu se enraízem no id, conferindo à economia pulsional uma relevância bem mais abrangente do que o conflito entre o eu e o inconsciente. Isto pode ser verificado, por exemplo, na extrema complexidade do conflito psíquico que o Homem dos lobos estabelece com a castração. Esta diversidade de atitudes só pode ser compreendida como consequência de que o ato de admitir e de desmentir, subsequentemente, a castração resulta numa divisão, num splitting do ego. Neste, que é um dos seus últimos escritos, "A divisão do ego no processo de defesa", Freud (1940 [1938]/1996) destaca a sutileza da solução de uma criança diante de um conflito intolerável. A passagem pelo Édipo e pela castração, ao possibilitar à criança a simbolização da falta, pode levar a um entre dois desfechos: no primeiro, ela pode desmentir a realidade e recusar-se a aceitar qualquer proibição e, no segundo, reconhecer o perigo, assumindo o medo e renunciando ao seu desejo.

A inserção numa partilha sexual não é tão simples, na medida em que "existe um conflito entre a exigência por parte da pulsão e a proibição por parte da realidade" (Freud, 1940 [1938]/1996: 293; tradução ligeiramente modificada). Para Freud, além de desmentir a realidade ou reconhecê-la, a criança pode optar por reagir ao conflito, servindo-se dos dois desfechos simultaneamente.

Por um lado, com o auxílio de certos mecanismos, rejeita a realidade e recusa-se a aceitar qualquer proibição; por outro, no mesmo alento, reconhece o perigo da realidade, assume o medo desse perigo como um sintoma patológico e subsequentemente tenta desfazer-se do medo. Deve-se confessar que se trata de uma solução bastante engenhosa da dificuldade (Freud, 1940 [1938]/1996: 293).

É uma solução sagaz, na medida em que satisfaz parcialmente a pulsão, sem violar as leis do princípio de realidade. Disso resulta que a criança, diante do perigo da castração, cria um objeto fetiche que substituirá a ausência do pênis na mulher, evitando com isso a perda do seu próprio órgão, enquanto se apega à crença da universalidade fálica.

Todavia, para Freud, este ganho não acontece sem perdas, "mas tudo tem de ser pago de uma maneira ou de outra, e esse sucesso é alcançado ao preço de uma fenda no ego" (Freud, 1940 [1938]/1996: 293). Esta fenda no ego resulta numa divisão que não deixa de chamar atenção, por ir na contramão da função do eu, que é uma função de síntese. Freud ainda enfatiza que, diante de desvios, o ego está sujeito a clivagens.

É possível que a ilustração clínica desta importante teorização sobre a divisão do eu no processo de defesa seja baseada no caso do Homem dos lobos. Freud traz a história clínica de um menino que, quando contava com três ou quatro anos de idade, se deparou com os órgãos genitais femininos após sedução de parte da irmã mais velha. Seguiu-se a este evento, de forma intensa, uma estimulação sexual através de práticas masturbatórias, o que resultou em ameaças de castração por parte da babá. Para Freud, diante desta promessa, duas reações são esperadas: a primeira, que comporta uma recusa ante a possibilidade de perda do pênis, apegando-se à premissa da universalidade do falo, e a segunda, que comporta o reconhecimento da castração, cedendo o menino à ameaça e obedecendo à proibição. Contudo, o paciente acima mencionado descobre outra saída. Ele cria um substituto para o pênis de que sentia falta nas mulheres, poupando, por meio de um objeto fetiche, seu próprio pênis da ameaça de castração. Para Freud, este afastamento da realidade é um procedimento muito similar ao que ocorre nas psicoses, assemelhando-se também ao mecanismo do desmentido da perversão. Neste último, a maneira de lidar com a realidade revela-se no uso do deslocamento, que consiste em transferir a importância do pênis para outra parte do corpo. Tudo indica que Freud faz alusão aqui ao deslocamento do valor do pênis que falta para as nádegas, como objeto fetiche.

O menino não contradisse simplesmente suas percepções, e alucinou um pênis onde nada havia a ser visto; ele não fez mais que um deslocamento de valor - transferiu a importância do pênis para outra parte do corpo, procedimento em que foi auxiliado pelo mecanismo de regressão (Freud, 1940 [1938]/1996: 295).

Freud (1940 [1938]/1996: 295) ainda ressalta que "esse deslocamento, é verdade, relacionou-se apenas ao corpo feminino; com referência a seu próprio pênis, nada se modificou". Esta maneira sagaz de lidar com a realidade comprova que, ao mesmo tempo que continuava com as práticas masturbatórias como se delas não tivesse medo, o menino desenvolveu um sintoma que demonstrava o reconhecimento do perigo que, através da regressão à fase oral, "assumia a forma de um medo de ser comido pelo pai" (Freud, 1940 [1938]/1996: 295). Freud acrescenta a isso outro sintoma, o receio de que qualquer de seus dedos do pé fosse tocado, "como se todo o vaivém entre rejeição e reconhecimento, fosse todavia a castração que encontrasse a expressão mais clara..." (Freud, 1940 [1938]/1996: 296).

Muito cedo, o Homem dos lobos foi iniciado sexualmente pela irmã. Lembranças trazidas à análise revelavam que a exposição mútua das nádegas era frequente entre eles; todavia, o essencial da sedução ocorreu numa primavera, quando a irmã segurou seu pênis e brincou com ele, afirmando que a babá Nânia fazia o mesmo com o jardineiro. Essas práticas compartilhadas com a irmã não se manifestavam em Serguei de forma passiva, haja vista que ele quis fazer o mesmo com a irmã, despi-la. Com o tempo, as solicitações da irmã cessaram, "mas ele buscou conquistar, no lugar dela, outra pessoa mais querida, e informações da própria irmã, que invocara a Nânia como modelo, orientaram sua escolha para esta" (Freud, 1918 [1914]/2010: 34). Ele começou a masturbar-se diante de Nânia que, descontente, ameaçou-o com a ideia de que, se continuasse com isto, ficaria com uma ferida no lugar. Tais práticas foram interrompidas e "sua vida sexual, que começava regida pela zona genital, sucumbiu então a uma inibição exterior, e por influência desta foi remetida de volta a uma fase anterior, de organização pré-genital" (Freud, 1918 [1914]/2010: 36-37). Tornou-se sádico e cruel com Nânia e passou a ver outra pessoa como objeto sexual, o pai.

Já ouvimos que o pai fora o seu modelo admirado, que, ao lhe perguntarem o que pretendia ser, ele costumava responder: "um homem como meu pai". Esse objeto de identificação da sua corrente ativa tornou-se então o objeto sexual de uma corrente passiva, na fase sádico-anal. A impressão é de que a sedução pela irmã o teria empurrado para o papel passivo e lhe dado uma meta sexual passiva. Sob a influência contínua dessa experiência, através da Nânia, até o pai, da postura passiva da mulher à mesma perante o homem, e nisso estabeleceu contato com sua fase primeira e espontânea de desenvolvimento. O pai era agora novamente seu objeto, a identificação era substituída pela escolha de objeto, correspondendo ao desenvolvimento mais elevado, e a transformação da postura ativa em postura passiva era resultado e indício da sedução que entretanto ocorrera. Naturalmente não teria sido fácil manter uma postura ativa diante do pai poderoso, na fase sádica. Quando o pai voltou, no final do verão ou no outono, seus acessos de fúria e cenas raivosas tiveram nova função. Diante da Nânia serviam a finalidades sádico-ativas; diante do pai seguiam propósitos masoquistas (Freud, 1918 [1914]/2010: 39).

A partir da análise do sonho com os lobos que, retroativamente, remonta à cena de coito entre os pais, Freud faz toda uma construção em que a posição do pai no coito a tergus tem origem na posição ereta do lobo na ilustração da história do "Lobo e os sete cabritinhos", da qual soube a irmã servir-se na infância para atormentá-lo, já que, ao ver a imagem, o jovem garoto temia que o lobo viesse comê-lo. A posição da mãe foi decisiva para a sua vida amorosa, pois sua escolha de objeto se dirigia a mulheres em posição de cócoras, a mesma atribuída à mãe na cena primordial. Assim, "desde a puberdade ele sentia como a maior atração da mulher os traseiros grandes e salientes; um coito que não fosse por trás dificilmente lhe dava prazer" (Freud, 1918 [1914]/2010: 57). Para Freud, a preferência pelo traseiro é própria dos neuróticos obsessivos devido à sua disposição anal da libido. Acrescenta-se a isso o fato de ele ter defecado ao presenciar a cena de coito entre os pais, denotando a sua satisfação, apesar da convicção da realidade da castração, "pois naquele momento ele via com os próprios olhos a ferida de que lhe havia falado Nânia, e compreendia que a sua existência era uma condição do enlace com o pai" (Freud, 1918 [1914]/2010: 63). O despertar do sonho com os lobos em meio à angústia revelava o pavor do desejo de ser satisfeito, sexualmente, pelo pai, do mesmo modo que a mãe, recalcando a atitude passiva com relação ao pai.

Pela ação daquele sonho, que o colocou sob a influência da cena primária, ele poderia ter avançado até a organização genital e transformado o seu masoquismo ante o pai em postura feminina diante dele, em homossexualidade. Porém o sonho não trouxe este avanço; ele terminou em angústia. A relação com o pai, que deveria conduzi-lo da meta sexual de ser castigado por ele à meta seguinte, ser possuído pelo pai como uma mulher, foi recuada a um estágio ainda mais primitivo, pela objeção de sua masculinidade narcisista, e, por deslocamento para um substituto do pai, cindida sob a forma da angústia de ser devorado pelo lobo, mas de modo algum resolvida por esse meio (Freud, 1918 [1914]/2010: 8687).

A identificação com a mãe na cena de coito faz emergir toda uma rede de identificações com esta, a partir de sintomas intestinais de prisão de ventre e dificuldades de evacuações espontâneas. Segundo Freud, "o órgão em que se podia manifestar a identificação com a mulher, a atitude passiva homossexual diante do homem, era a zona anal" (Freud, 1918 [1914]/2010: 104-105). O sonho com os lobos, que retrocede à cena primária, permitindo o reconhecimento da realidade da castração, é um golpe no narcisismo do Homem dos lobos, que recalca sua posição homossexual passiva. Contudo, como coadunar o reconhecimento da realidade da castração com a escolha do intestino, na identificação com a mulher? O sonho revela três correntes libidinais ante a castração.

Primeiro ele se rebelou e depois cedeu, mas uma reação não suprimiu a outra. Afinal coexistiam nele duas correntes opostas, das quais uma abominava a castração, e a outra se dispunha a aceitá-la e consolar-se com a feminilidade como substituto. A terceira, a mais antiga e profunda, que simplesmente rejeitara a castração, em que o juízo sobre a sua realidade não chegou à consideração, ainda podia certamente ser ativada (Freud, 1918 [1914]/2010: 114).

A consequência da masculinidade é recalcar a atitude homossexual no sentido genital, haja vista que a sua aceitação custaria o pênis. Assim, diferentemente da denegação neurótica (Verneinung), que "não quer saber nada a respeito", a negação perversa (Verleug nung) permite que o sujeito mantenha-se na crença. Podemos confirmar esta asserção nas palavras do próprio Freud (1927/1996: 156), "vemos que a percepção continuou e que uma ação muito enérgica foi empreendida para manter a rejeição".

O garoto sabe que a mulher não tem pênis, mas recusa-se a acreditar que este é um fato consumado, o que o leva a crer que algo tomou seu lugar. Neste cenário, Freud explica que a percepção desagradável (não ter o pênis) e a força do contradesejo fazem um compromisso tal que só é possível sob o comando das leis inconscientes. O fetiche ergue-se então como um monumento e uma proteção contra a ameaça de castração. Por outro lado, salva os homossexuais, uma vez que, com o substituto, dota as mulheres de características que as tornam toleráveis como objetos sexuais. O fetichista vangloria-se ante o horror da castração, negando a castração do pênis materno e elegendo um substituto que satisfaça sua fantasia. Ele age como se a percepção da ausência do pênis não abalasse suas crenças, mantendo-se firme na premissa da universalidade fálica, sem necessariamente tornar-se homossexual.

Em "Neurose e psicose", artigo anterior de Freud (1924 [1923]/1996), compreende-se que a criação do fetiche ficaria a cargo do eu, que, para evitar uma ruptura, submeter-se-ia a uma nova roupagem, de modo a mascarar as excentricidades sexuais, tornando-as socialmente aceitáveis. Isso significa que haveria um conflito constante entre o eu e o supereu caraterístico das neuroses narcísicas.

Como Freud mesmo reconhece, esta maneira de lidar com a realidade é engenhosa, na medida em que mantém a satisfação da pulsão ao preço de desenvolver sintomas que a satisfazem de modo regressivo. Esta contribuição nos permite refletir sobre tal artifício da criança em lidar com a castração, na contramão da grande maioria, que a aceita em detrimento do gozo. Esta forma de posicionar-se diante da falta materna, que não é pautada no recalque e na função do Nome-do-Pai, de algum modo reconhece, parcialmente, a castração, indicando que as defesas na neurose obsessiva se produzem de modo diverso da histeria. Como Freud será levado a reconhecer nesta época, a defesa na neurose obsessiva resulta essencialmente de alterações no próprio eu. As compulsões, as anulações retroativas e as formações reativas dão testemunho desta descoberta.

O episódio de alucinação do dedo cortado, paradigmático no questionamento quanto à ausência do significante primordial do Nome-do-Pai, é retomado por Freud no artigo de 1914 (1996) "Fausse reconaissance (Déjà raconté) no tratamento analítico". Aqui, ele trabalha a hipótese de que a perda imaginária do dedo é uma prova de que o sujeito reconhece a castração. Segundo ele: "o episódio destruiu a resistência em assumir a existência de um complexo de castração" (Freud, 1914/1996: 210). Freud chega a esta conclusão ao construir uma equivalência entre pênis e dedo, ambos como partes destacadas do corpo, afirmando que "em relação ao complexo da castração, falsificações alucinatórias semelhantes não são raras e podem facilmente servir ao propósito de corrigir percepções incômodas" (Freud, 1914/1996: 210). A cena de coito dos pais, constituída como o primeiro núcleo do recalcado, parece ser simbolizada apenas neste momento. Para ele, o retorno é uma maneira de reconhecer e simbolizar a castração, apontando que o que antes parecia ser rejeitado pelo Homem dos lobos efetivamente se estabelece.

Quanto aos fenômenos intitulados paranoicos descritos por Mack Brunswick (1981) e retomados por Miller (2009a; 2009b), curiosamente, numa nota de rodapé, como decisivos para a confirmação de um diagnóstico no campo da psicose, Freud também tem uma resposta. Para ele, tais fenômenos precisam ser postos na esfera da análise, por tratar-se de "partes residuais da transferência" (Freud, 1937/1996: 233).

É impressionante verificar que ainda hoje este caso continua a ser objeto de interesse, haja vista que a seção clínica de Strasbourg, na França, dedicou o ano letivo de 2010-2011 ao seu estudo. Psicanalistas ligados à École de la Cause Freudienne (ECF) ainda divergem quanto ao diagnóstico. Aflalo (1999), ao concluir que não é possível situar o Édipo invertido na doutrina de Freud, esforça-se por encontrar uma hipocondria paranoide, igualando a posição do Homem dos lobos na partilha sexual àquela de Schreber. Maleval (1982), por outro lado, toma o caso como dentro da estrutura neurótica, relativizando o episódio da alucinação do dedo cortado, e situando-o como articulado na história do Homem dos lobos. Seu artigo não abraça as novas formulações sobre a psicose ordinária, apresentadas durante a Convenção de Antibes, e que conduziram Agnès Aflalo a reclassificar o Homem dos lobos dentro desta categoria.

Agnès Aflalo (1999) retoma a manobra defensiva do fetiche como uma criação psicótica buscada pelo Homem dos lobos na solução dos seus conflitos psíquicos. Em sua investigação sobre este caso clínico, evoca que o fetiche construído pelo paciente em questão não seria da ordem da neurose, mas um pseudofetiche psicótico. Para isso, ela parte da hipótese diagnóstica de uma hipocondria paranoide, inviabilizando a construção pura e simples de um fetiche. Neste caso, o fetiche não se propõe como um substituto do pênis, mas como uma "suplência diante da ausência de simbolização do significante fálico" (Aflalo, 1999: 79). Ela aponta que a criação do fetiche é contemporânea da fobia do Homem dos lobos e que a fobia faria suplência à foraclusão do Nome-do-Pai. A particularidade do pseudofetiche é que, para o paciente em questão, a mulher coloca-se como "toda", isto é, ela seria universalizável no mesmo sentido que o homem é. A metonímia (a nádega feminina), que representa uma parte pelo todo, "produz uma substituição cujo universal da mulher é substituído pelo universal das nádegas" (Aflalo, 1999: 79). Segundo a autora, a diferença entre o objeto fetiche perverso e o pseudofetiche psicótico é que, enquanto o primeiro é uma metáfora do falo, o segundo constitui-se como uma metonímia do pênis. Na perversão, a significação fálica é produzida pelo Nome-do-Pai, ou seja, a falta é simbólica, ao contrário da psicose, cuja falta é real. Aflalo lembra que Freud evoca a presença de uma Verleugnung no caso do Homem dos lobos, pois se trata de uma negação que concerne à castração. Todavia, seu uso não é o mesmo que se observa na perversão. Neste último, há um desmentido no universal da castração da mulher. Para Serguei Pankejeff, o universal que é desmentido não é o da castração, mas o do fato de que a mulher é não-toda, daí por que teríamos aqui algo da ordem de uma pseudo-Verleugnung. A vida amorosa do Homem dos lobos apresenta objetos de amor substitutos da mãe na cena primordial. Vê-se uma ausência da mulher idealizada, bem como de traços ideais sobre o pai simbólico. A vida amorosa desdobra-se sobre o plano imaginário. A fixação no traseiro feminino parece regular a vida amorosa e este pseudofetiche permite que o sujeito seja o pai que faz existir a mulher toda.

Outra vertente de leitura é passível de ser realizada a partir da transmissão do ensino de Lacan sobre a teoria da sexuação. Esta propiciou uma nova compreensão da anatomia e suas consequências psíquicas, ao demonstrar que posicionar-se enquanto homem ou mulher independe do sexo de nascimento. Neste contexto, Jacques-Alain Miller (1997-1998/2008), na tentativa de elucidar o ensino de Lacan, apresenta uma tipologia das características masculina e feminina que transgride as produzidas pelas teorias de gênero. Ele parte do pressuposto segundo o qual ter o falo repercute na estrutura de ser o falo, no objeto e na forma como homens e mulheres posicionam-se na partilha sexual. Enquanto o desejo da mulher é orientado pela forma erotomaníaca de amar, o desejo masculino é orientado pelo objeto mais-de-gozar como fetiche. Dizer que o desejo do macho é essencialmente fetichista é remeter-se à forma de expressão do amor masculino articulada em torno de uma parte. Esta parte, ao se destacar do todo, reveste a mulher, encobrindo sua castração e servindo como objeto de gozo para a fantasia masculina. O objeto fetiche, portanto, é um recorte do corpo da mulher, e a torna uma parceira de gozo. Há uma dissimetria entre os modos de gozo feminino e masculino, pois, enquanto o primeiro é governado por um excesso, o segundo é regido pelo falo. A lógica masculina caracteriza-se como pertencente a uma psicologia da prudência, "de uma ética da justa medida" (Miller, 1997-1998/2008: 284). Já o que é inerente às mulheres é a posição destemida, intrépida, o amor sem limites, o gozo ilimitado, próprio de uma estrutura não-toda formalizada pelo matema S(), que designa o significante da falta do Outro. Enquanto as mulheres procuram no homem esta união falo/pênis, o homem deseja a mulher como objeto a, a mulher coberta por um véu que, por sua vez, recobre a castração. Para tanto, ele deve exercer o falo como semblante, para que a mulher possa consentir em também assumir o semblante de objeto a.

Hoje, entre psicanalistas de orientação lacaniana, já não se acredita que seja suficiente para classificar um caso decidir se a função simbólica do Nome-do-Pai está presente ou ausente. A dimensão pulsional vem relativizando a dimensão simbólica ou estrutural em proveito de uma perspectiva quantitativa. Tomar o caso enquanto um exemplo particular de uma estrutura universal já não é mais a única orientação dominante, como na época em que Lacan (1958/1998: 638) afirmava: "nossa ciência só se transmite ao articular oportunamente o particular".

 

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Recebido em 24 de novembro de 2012
Aceito para publicação em 15 de dezembro de 2012