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Tempo psicanalitico

versión On-line ISSN 2316-6576

Tempo psicanal. vol.49 no.2 Rio de Janeiro dic. 2017

 

ARTIGOS

 

A interpretação psicanalítica: um esboço de formalização

 

L'interprétation psychanalytique: un essai de formalisation

 

 

Vitor Hugo Couto TriskaI*; Marta Regina de Leão D'AgordI**

IUniversidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS - Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A fim de investigar o fundamento da interpretação psicanalítica, propomos uma análise de algumas formalizações apresentadas nos livros 11 (1964), 16 (1968-1969) e 17 (1969-1970) dos seminários de Lacan. No primeiro é trabalhada a lógica da alienação e da separação para abordar a afânise do sujeito pelo significante. No segundo, a partir da formalização do campo do Outro, destaca-se o problema da verdade articulada a um elemento exterior ao campo do discurso e à falta de sentido. No terceiro, o matema do discurso do analista permite localizar o lugar de onde opera a interpretação psicanalítica. A comparação e aproximação entre essas três formalizações de diferentes momentos da obra de Lacan busca apontar a centralidade da questão do sentido e da verdade para uma compreensão crítica da interpretação psicanalítica.

Palavras-chave: interpretação, formalização, sentido, verdade.


RÉSUMÉ

Afin d'étudier le fondement de l'interprétation chez Lacan, nous proposons une analyse des formalisations présentées dans trois de ses séminaires: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse (XI); D'un Autre à l'autre (XVI) et L'envers de la psychanalyse (XVII). Le premier (XI) porte sur la logique de l'aliénation et de la séparation pour approcher l'aphanisis du sujet par le signifiant. Dans le deuxième (XVI), à partir de la formalisation du champ de l'Autre, on détache la question de la vérité articulée à l'élément extérieur à l'univers du discours et au non-sens. Dans le troisième (XVII), le discours de l'analyste permet situer le lieu à partir duquel opère l'interprétation psychanalytique. Cette comparaison entre trois formalisations des différents moments de l'oeuvre de Lacan cherche établir la centralité de la question de la vérité et du sens pour une compréhension critique de l'interprétation psychanalytique.

Mots clés: interprétation, formalisation, sens, vérité.


 

 

A aproximação comparativa entre diferentes formalizações lacanianas não é óbvia; afinal, conforme apontado por diversos autores como Badiou (1968/2007), Milner (1995) e Rona (2012), os matemas de Lacan são escritas heterogêneas e locais. Cada um deles serve para abordar problemas teóricos específicos e localizados de maneira mais ou menos independente. Desse ponto de vista, os matemas tratariam de regiões do Real que não compõem um todo, isto é, um conjunto homogêneo e articulável. Podemos, contudo, a partir de uma leitura crítica, investigar aproximações possíveis que permitam extrair de diferentes matemas os elementos que sirvam para a construção de um fundamento comum para, entre outras, a questão da interpretação psicanalítica.

 

O discurso do analista: verdade e semidizer

 

 

Fig. 1: o discurso do analista
(Lacan, 1969-1970/1992)

Em O avesso da psicanálise (1969-1970/1992), seminário 17, Lacan apresenta os matemas de quatro discursos: do mestre, do histérico, do analista e do universitário. Abordaremos o discurso do analista, no qual o lugar ético a partir do qual opera o psicanalista produz um laço social específico. Nesse matema, no andar superior, o objeto a opera como agente e $ ocupa o lugar do outro, enquanto que no andar inferior, por sua vez, S2, o significante do saber, encontra-se na posição da verdade e S1, o significante mestre, aparece como a produção. Uma das leituras possíveis é que o analista, colocando-se a partir de sua falta-a-ser, isto é, presentificando uma falta (a) diante do analisante, destaca a dimensão de sujeito dividido ($) deste, fazendo com que o saber (S2) opere de modo a produzir atos psicanalíticos, significantes (S1) que reordenam uma cadeia. Através dessa formalização Lacan também aborda o campo da técnica psicanalítica, principalmente pelos desdobramentos possíveis de S2 no lugar da verdade, de modo que a interpretação e outras ferramentas técnicas são questões apresentadas de maneira articulada ao discurso do analista em O avesso da psicanálise.

Segundo Lacan (1969-1970/1992, p. 50; grifo nosso), "o que se espera de um psicanalista é [...] que faça seu saber funcionar em termos de verdade. É por isto mesmo que ele se confina a um semidizer". Tal qual aparece no matema do discurso do analista, o semidizer seria justamente o saber funcionando como verdade, operando no campo do não-sentido como uma revelação que surge para além do campo da comunicação intersubjetiva entre dois lugares. Já no início de seu ensino, Lacan (1953/1998) chama de "fala vazia" a comunicação calcada no sentido e entre dois lugares, em oposição à "fala plena", que desvela um saber remetido a um lugar terceiro e impessoal. A expressão francesa ça parle, traduzível por isso fala, dá conta dessa impessoalidade onde quem fala não é um dos eus, mas um lugar Outro. Assim, o semidizer lacaniano se caracteriza como "enunciação sem enunciado" (Lacan, 1969-1970/1992, p. 49, lição de 14/01/70), o que corresponde à própria estrutura da interpretação, um dizer que não chega a atingir o estatuto de enunciado portador de sentido. A enunciação que atinge a dimensão da verdade é um dizer revelador que rompe o campo do sentido, portanto.

A partir desses desdobramentos extraídos do discurso do analista, destacam-se o não-sentido e a verdade como fundamentais à compreensão da interpretação. Buscando lançar luz sobre esses problemas, veremos a seguir de que forma esses elementos do seminário 17 se articulam a questões apresentadas em seminários anteriores, a saber, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964a/1998) e De um Outro ao outro (1968-1969/2008), que serão relidos criticamente neste artigo à luz da orientação lacaniana de fazer o saber funcionar em termos de verdade.

 

Alienação

No seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964a/1998), Lacan apresenta as noções de alienação e separação. O psicanalista toma o termo alienação da leitura marxista de Hegel, mas faz também uma leitura lógica a partir dos diagramas de Venn e dos teoremas de Morgan.

Dois círculos em intersecção são uma forma de representar uma proposição. Considerando cada círculo um termo ou classe, será sombreada a área que corresponde ao enunciado lógico em questão. Lacan utiliza a relação entre dois termos, bolsa e vida, a partir de uma popular disjunção: "a bolsa ou a vida". Na figura 2, aparece sombreada a relação de intersecção "a bolsa e a vida".

 

Fig. 2
(Lacan, 1964a/1998, p. 201)

Lacan aplica esses dois termos para realizar uma comparação à alienação constituinte, ou seja, seria um falso dilema escolher entre a bolsa e a vida, pois a bolsa sem a vida não teria utilidade. Intuitivamente, escolheríamos apenas a vida; trata-se, portanto, de uma escolha forçada e não de uma disjunção.

A vida e a bolsa serão transpostas para o campo do Outro e do sujeito, respectivamente. A intersecção entre os dois será a relação do sujeito com o não-sentido, de dois momentos lógicos nos quais ele se aliena e se separa do sentido. Ainda que essa teorização se dedique à constituição - antes lógica do que cronológica - do sujeito e à sua afânise, veremos como ela permite abordar a interpretação psicanalítica na sua relação com o saber e o não-sentido.

O termo latino vel equivale ao "ou" da disjunção inclusiva. Nesse caso, a escolha poderia ser a bolsa, a vida ou ambas. Aqui é importante situar o leitor quanto ao uso que Lacan fará do teorema de De Morgan para trabalhar o inconsciente como articulado ao não-sentido, isto é, como uma perda comum ao sujeito e ao Outro. Esse teorema mostra que a negação da disjunção de dois enunciados é logicamente equivalente à conjunção das negações dos dois enunciados (Copi, 1978). Assim sendo, dada a disjunção "ou a bolsa ou a vida", seu correlativo será a conjunção das negações na forma de "nem a bolsa, nem a vida".

Segundo Soler (1997, p. 60), a disjunção com a qual Lacan trabalha seria uma terceira forma, associada à expressão "escolha forçada", em que um dos termos é sempre excluído. Convocando a operação de reunião entre dois conjuntos, há "um elemento que comporta que, qualquer que seja a escolha que se opere, há por consequência um nem um, nem outro" (Lacan, 1964a/1998, p. 200). Ou seja, trata-se de um elemento cuja escolha resulta na perda de ambos e, nesse exemplo, ele será a bolsa. Escolhendo-se a bolsa, perde-se a vida e, logo, também a bolsa (conjunção das negações: "nem a bolsa, nem a vida"). Escolhendo-se a vida, perde-se a bolsa, mas mantém-se uma vida privada da bolsa. De fato, a escolha fica resumida a manter ou não a vida, pois a bolsa será perdida em ambas alternativas. Na apropriação lacaniana da lógica da alienação há uma implementação, de modo que os elementos bolsa e vida darão lugar a ser (sujeito), não-senso e sentido (Outro), conforme a figura abaixo demonstra.

 

 

Fig. 3
(Lacan, 1964a/1998, p. 200)

Nesse lógico o sentido está atrelado ao Outro, enquanto que a intersecção entre sujeito (ser) e Outro é identificada ao não-sentido (ou não-senso) - lugar do sujeito do inconsciente. Lacan assim apresenta a alienação: "Escolhemos o ser, o sujeito desaparece, ele nos escapa, cai no não-senso - escolhemos o sentido, e o sentido só subsiste decepado dessa parte de não-senso que é, falando propriamente, o que constitui, na realização do sujeito, o inconsciente" (1964a/1998, p. 200). Dado que toda determinação do sujeito é produzida por um Outro, e considerando-se seu estado de desamparo (Hilflosigkeit) inicial, a escolha pelo ser implicaria numa rejeição primordial do Outro e da possibilidade de advento do sujeito. Trata-se de uma escolha forçada pelo sentido no campo do Outro, escolha esta que inicialmente suprime a dimensão inconsciente do sujeito. A partir da concepção lacaniana de alienação, extrai-se uma oposição fundamental entre o sentido e o inconsciente, assim como uma aproximação deste ao não-sentido. Nesse momento, portanto, dá-se uma alienação à dimensão imaginária do Outro, o sentido, às custas da elisão do inconsciente.

Laurent (1997, p. 37) utiliza as fórmulas que J. A. Miller ofereceu em comentário sobre o Seminário 11. Essa leitura da alienação em Lacan permitirá uma articulação mais clara com o matema do discurso do analista. Notemos na figura abaixo que não há o lugar da falta, não há objeto a. Só o encontraremos mais adiante, no momento da separação.

 

 

Fig. 4
(Soler, 1997, p. 61)

No trabalho de Miller, o sujeito é representado por $, enquanto que o não-senso é substituído por S1 e o sentido por S2. Aqui o S1 (significante mestre) funciona como o significante unário e S2 (saber) como o binário que produz sentido. Lembremos que no discurso do analista, por ocupar o lugar da verdade, S2 produz semidizeres, isto é, significantes mestres (S1) fora do campo do sentido. O esquema acima, por sua vez, demonstra como S2 funciona identificado ao campo do sentido no momento lógico da alienação. O significante, portanto, serve tanto à revelação da verdade quanto à produção do sentido, dependendo de como é trabalhado.

De acordo com a lógica da reunião, conforme proposta por Lacan, S1 é um elemento pertencente a ambos os conjuntos que os círculos representam (o da esquerda possui os elementos $ e S1, o da direita S2 e S1). Se a escolha se dá pelo sujeito ($), perde-se o campo dos significantes, o Outro, pois o sujeito é decepado tanto de S1 quanto do S2. Sem os significantes, sem a própria linguagem, perde-se também o sujeito, de maneira análoga ao que se dá na escolha da bolsa, onde tanto a bolsa quanto a vida são perdidas. Se, por outro lado, a escolha se dá pelo Outro, mantém-se o sentido produzido por S2, mas perdem-se o sujeito ($) e o significante mestre que o produz (S1) - a afânise. Como acontece quando se escolhe a vida, a bolsa é perdida. Por isso, estamos diante de uma escolha forçada pelo campo do Outro enquanto portador do significante que sustenta o sentido (S2).

O sujeito estará alienado ao sentido (S2) que afanisa sua causa (S1), pois, assim como não há bolsa sem vida, o que Lacan propõe é que não há sujeito sem Outro. A escolha forçada é pelo sentido no Outro, excluindo o não-senso que revela a própria estrutura inconsciente, o Real. Aqui Lacan antecipa o que afirmaria mais diretamente em R.S.I. (1974-1975): o Real é aquilo que ex-siste ao sentido.

A alienação consiste nesse vel que [...] condena o sujeito a só aparecer nessa divisão que venho, me parece, de articular suficientemente ao dizer que se ele aparece de um lado como sentido, produzido pelo significante, do outro ele aparece como afânise (Lacan, 1964a/1998, p. 199).

Na fala o sujeito está sempre dividido entre um significante apagado e outro cuja função opera como sentido. Esse movimento pode ser identificado no processo comum da fala quando, por exemplo, dizemos "dor" para completarmos com "mente" e formarmos "dormente". "Mente" funciona como o S2 do sentido apagando o S1 "dor" que isoladamente teria produzido outro sentido. De forma simplificada, reconhecemos aqui a lógica da escansão. No caso de um lapso há alguma diferença. Por exemplo, um analisante diz "foi na época em que eu morri com meu pai... digo, morei com meu pai". Em se tratando de um ato falho, não seria preciso que uma letra fosse lida através da escuta, nem que uma escansão posterior fosse executada como no caso de "dormente". "Morei", enquanto tentativa de resgate do sentido original da frase planejada pelo paciente, é o apagamento do S1. Caberia ao analista somente destacar o non-sens do S1 "morri", impedindo o remendo de sentido tentado com o S2 "morei". Dessa forma, podemos extrair uma orientação técnica da seguinte frase de Lacan (1964a/1998, p. 208): "O de que o sujeito tem que se libertar é do efeito afanísico do significante binário [...]".

Em "Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise" (1912/1996, p. 132; grifos nossos), da mesma forma que pode ser observado em diversos pontos da obra, notamos que Freud dá singular importância ao estabelecimento do não-sentido nas associações do paciente, assim como da sua contrapartida por parte do analista, a saber, a atenção flutuante:

É errado determinar tarefas ao paciente, tais como coligir suas lembranças ou pensar sobre um período específico de sua vida. Pelo contrário, ele tem de aprender, acima de tudo [...], que atividades mentais, tais como refletir sobre algo ou concentrar a atenção, não solucionam nenhum dos enigmas de uma neurose; isto só pode ser efetuado ao se obedecer pacientemente à regra psicanalítica, que impõe a exclusão de toda crítica do inconsciente ou de seus derivados. Deve-se ser especialmente inflexível a respeito da obediência a essa regra com pacientes que praticam a arte de desviar-se para o debate intelectual durante o tratamento, que teorizam muito [...], evitam fazer algo para superá-lo.

O raciocínio e a reflexão, ou seja, o campo do sentido, alerta Freud, seriam antes entraves do que fomentos à livre associação. É a própria característica do inconsciente freudiano ser estranho a referências de sentido como a temporalidade, por exemplo. O que Lacan busca com suas formalizações é destacar a função do não-sentido produzido na fala, lugar do sujeito do inconsciente, ao qual Freud já havia sido sensível.

As ferramentas epistemológicas das quais Lacan se apropria, entre elas as topologias das superfícies e dos nós, justificam-se pela possibilidade de formalização a partir de referências geométricas não-euclidianas, isto é, alheias à experiência comum que temos do espaço imaginarizado em três dimensões. Se o discurso do analista destaca o funcionamento do saber no campo do non-sens, a formalização, por sua vez, promove uma matematização do Real enquanto ex-sistência ao sentido. Lacan rejeita assim a ideia de "boa forma" que constitui o eu e é correlato à hipótese pré-científica do movimento perfeitamente circular dos planetas. Da mesma forma que o geocentrismo seria solidário à concepção imaginária do mundo baseada na boa forma, o movimento elíptico descoberto por Kepler - que seria mais revolucionário do que as teorias heliocentristas (Lacan, 1972-1973/1985, p. 59) - representaria a passagem da intuição imaginária à representação simbólica via matematização. Assim como na ciência moderna, onde a matematização ataca a boa forma imaginária, a matematização lacaniana do Real visa um esvaziamento do sentido via formalização.

 

Separação

 

 

Fig. 5
(Lacan, 1964a/1998, p. 198)

Se na alienação observamos a forma lógica da reunião, na separação terá lugar a intersecção, colocando em questão a zona de intersecção entre sujeito e Outro. Separação e alienação estarão numa relação de retorno uma à outra. Muito embora Lacan empregue o termo separação, trata-se antes de uma aproximação e reconhecimento no Outro dos significantes determinantes do sujeito do que de uma separação do Outro. Se o aforismo lacaniano coloca que o inconsciente é o discurso do Outro, qualquer reconhecimento do sujeito do inconsciente não poderá se dar a partir de um afastamento do Outro. Lacan (1964a/1998, p. 202) inclusive acentua a raiz latina da palavra separação, onde encontra engendrar. Afastemos então a noção de separação enquanto desconexão ou afastamento do Outro, pois é uma separação do sentido o que está em questão.

Aquilo pelo que o sujeito encontra a via de retorno do vel da alienação é essa operação que chamei, outro dia, separação. Pela separação o sujeito acha, se podemos dizer, o ponto fraco do casal primitivo da articulação significante, no que ela é de essência alienante (Lacan, 1964a/1998, p. 207).

Qual seria o "ponto fraco do casal primitivo significante" S1 e S2? Ora, aquilo que toda articulação discursiva engendra, o objeto a. É isso que Lacan acentua na relação entre alienação e separação: "Pela função do objeto a o sujeito se separa, deixa de estar ligado à vacilação do ser, ao sentido que constitui o essencial da alienação" (1964a/1998, p. 243). Quando o objeto a opera, o sentido, que é "o essencial da alienação", é suspenso - eis o fundamento da separação. Lembremos que é justamente o pequeno a que ocupa o lugar do agente no discurso do analista. Assim, ao presentificar a falta, o psicanalista contribui para o reconhecimento dos significantes mestres que, do Outro, determinam o sujeito da enunciação. Seguindo a esquematização de Miller citada por Laurent (1997), na separação, ao contrário do que vimos se dar na alienação, a dimensão da falta estará colocada através do objeto a.

 

 

Fig. 6
(Laurent, 1997, p. 33)

Sendo o Outro o lugar dos significantes, uma substituição oportuna pode ser realizada para aperfeiçoar essa representação. É o que ocorre quando o A, do esquema acima, é substituído pelo par significante S1 → S2.

 

 

Fig. 7
(Laurent, 1997, p. 33)

Aqui se situam duas faltas, a do sujeito e a do Outro, que se recobrem no ponto de intersecção entre os dois campos. Destaca-se que o sujeito não pode ser inteiramente representado no Outro, pois este é insuficiente. Se uma primeira falta, dada pelo caráter parcial das pulsões, marca a barra sobre o sujeito, a segunda falta, no Outro, será designada pelo objeto a que marca o par significante S1 → S2. Lacan identifica a falta do Outro, lacunas no discurso, aos "por quês" das crianças que indagam os adultos, colocando a dimensão do enigma do desejo do adulto (Lacan, 1964a/1998, p. 203). De outro lado, a sua própria falta, enquanto perda, é o primeiro objeto que a criança oferece ao desejo enigmático dos pais. O vazio como um campo de relação entre $ e A já estava representado em A identificação (1961-1962) na figura dos dois toros abraçados, o que reforça a não arbitrariedade dos esquemas de Lacan, mas antes desenvolvimentos racionais de um pensamento contínuo.

É no intervalo entre esses dois significantes que vige o desejo oferecido ao balizamento do sujeito na experiência do discurso do Outro, do primeiro Outro com o qual ele tem que lidar [...], a mãe, no caso. É no que seu desejo está para além ou para aquém no que ela diz, do que ela intima, do que ela faz surgir como sentido, é no que seu desejo é desconhecido, é nesse ponto de falta que se constitui o desejo do sujeito (Lacan, 1964a/1998, p. 207).

Se na alienação o sujeito tem seu significante determinante afanisado, o S1, a separação, representa a suspensão do significante binário do sentido e um encontro com o lugar de intersecção com o Outro onde o sujeito não encontrará mais S1, mas o objeto a. Ao livrar-se do sentido, portanto, entra em cena a causa de desejo do sujeito. Lembramos aqui da oposição entre desejo e gozo. Abandonar o gozo do sintoma requer suportar a falta. É na passagem do gozo ao desejo causado pelo pequeno a que a queda de sentido acontece.

Através da separação Lacan antecipa o que proporia de forma mais clara alguns anos depois em O ato psicanalítico (1967-1968), a saber, o final de análise como a travessia de analisante para analista. Assim, se a transferência tende a uma identificação idealizada ao analista, ao amor, fomentando sua face de resistência, cabe à função do desejo do analista reorientar a demanda em relação ao lugar de falta no qual se apoia o desejo. Trata-se, portanto, de uma possível formalização da formação do analista. O desejo do analista, essencial à direção do tratamento, coincidirá com a função do objeto a. Reforça-se assim a pertinência do discurso do analista, uma formalização na qual, retomemos, o objeto a opera como agente.

 

O Outro não-todo

A questão do sentido e não-sentido é central na concepção lacaniana da interpretação, visto que esta se propõe a "fazer surgir elementos significantes irredutíveis, non-sensical, feitos de não-sentido" ou "isolar no sujeito um coração [...] de non-sense" (Lacan, 1964a/1998, p. 236). Lacan, portanto, caracteriza a interpretação como uma operação do significante que produz o não-sentido. Caminho aberto por Freud, conforme vimos, quando, em seus textos sobre técnica, recomenda fortemente a regra fundamental para evitar que o paciente racionalize suas associações através de trabalho intelectual, mas também em seus fundamentais trabalhos sobre os sonhos e as demais formações do inconsciente.

Em De um Outro ao outro (1968-1969/2008) o recalque primário é considerado o elemento que organiza uma estrutura enquanto ausente do campo discursivo, o primeiro saber não-sabido. Notemos que no esquema alienação-separação é S1 que está inacessível, identificado ao lugar da falta. No seminário 16, porém, conforme mostra o esquema abaixo, é S2 que faz essa função. Isso demonstra que a álgebra lacaniana não é usada de maneira fixa, de modo que em diferentes formalizações o mesmo elemento pode adquirir distintas funções. Uma compreensão crítica dessas formalizações é, por isso mesmo, necessária, uma vez que elas não podem ser lidas de maneira unívoca e fechada.

 

 

Fig. 8
(Lacan, 1968-1969/2008, p. 74)

Em outras palavras, o que se articula de uma configuração de significantes não significa, de maneira alguma, que se possa totalizar a configuração inteira, isto é, o universo assim constituído. Muito pelo contrário, esse universo deixa tal conjunto fora de seu campo, como não podendo ser situado como uma de suas partes, mas apenas articulado como elemento numa referência a outros conjuntos assim articulados (Lacan, 1968-1969/2008, p. 192).

Inspirado em Russell e Gödel, Lacan concebe o Outro como um universo faltante, que não pode ser totalizado. No esquema acima S2 é o subconjunto que contém os demais significantes que não contêm a si mesmos. Dado o paradoxo acerca de S2 incluir a si mesmo, Lacan (1968-1969/2008, p. 74) conclui que ele deve necessariamente estar fora do universo de discurso. Se o Outro não contém todos os significantes, ele não é todo, porta uma falta. Trata-se de mais uma formalização que busca dar conta da potência conceitual do objeto a, fundamental para a construção do lugar de onde opera o analista.

Discutindo a posição do sujeito em relação ao par significante e o objeto, Miller afirma:

S1 - S2 quer dizer que o sujeito não poderia encontrar no significante designação própria, representante absoluto, identidade precisa. O sujeito do inconsciente não tem nome no Outro do significante. O que o detém, o que o fixa, é o objeto. A certeza subjetiva está sempre no nível do objeto. Na fala, o sujeito experimenta a despossessão de si, da "falta-a-ser" ($), particularmente da falta-a-ser representada por um significante. [...] O sujeito do significante é sempre deslocalizado, e falta de ser (Miller, 1996, p. 100-101).

Dada a oposição lacaniana entre saber e verdade, onde esta é uma insuficiência de saber no Outro, a afirmação de Miller serve de desdobramento para o aforismo destacado neste artigo, a saber, que o analista deve fazer o saber funcionar como verdade. Há um significante que necessariamente remete à falta-a-ser do sujeito, o que, como demonstrado na esquematização alienação-separação, é um campo de intersecção entre sujeito e Outro. Na formalização do seminário De um Outro ao outro apresentada acima, esse significante é representado por S2. Em outros momentos do mesmo seminário, Lacan (1968-1969/2008, p. 177) simplesmente colocará um pequeno a no conjunto A (Outro) para representar esse lugar de falta, o qual o semidizer evoca.

 

O não-senso e a falta

Vimos que no processo de alienação há um significante unário que fica afanisado pelo binário, porém, quando há o retorno sobre o primeiro significante (separação), encontra-se ali uma falta. Para tanto, é necessário suspender o efeito de sentido ao qual serve o significante binário. Em outras palavras: através de um semidizer, fazer com que o saber opere como uma verdade, não como sentido. O que se dá no processo alienação-separação é a alternância entre queda de sentido (efeito de verdade enquanto presença da falta no Outro) e a sua produção. Há um significante que desencadeia o processo, mas que desaparecerá. É necessariamente o significante que, fora de qualquer operação de sentido, remete à falta (objeto a) do universo de discurso (Outro).

Ora, de que tratamos: da falta de um significante ou da falta de sentido? Será a mesma coisa? Em De um Outro ao outro encontramos uma relação direta entre a falha no Outro e um significante com o qual o sujeito se identificaria em último termo (Lacan, 1968-1969/2006, p. 83). Do par significante que produz o sujeito haverá sempre um elemento incluído e outro excluído do Outro, remetido ao seu vazio; por isso que fazer surgir o significante que remete à falta do Outro é operar no não-senso, ao mesmo tempo que o não-senso convoca o lugar de falta que sustenta o desejo do sujeito. É essa ideia que ao longo da obra de Lacan fundamenta as numerosas referências à divisão do sujeito, como a figura de que está com "um pé fora e um pé dentro" do Outro (Lacan, 1968-1969/2008, p. 292) ou que ele "não persegue mais que uma metade de si mesmo" (1964a/1998, p. 178).

A intervenção sobre a repetição de fonemas, por exemplo, identifica no eixo sincrônico do discurso os significantes determinantes do sujeito no Outro. Tal tipo de pontuação retira o sentido, reduz o significante simbólico à sua dimensão de letra real, faz com que o saber funcione como verdade. A escuta, devidamente marcada por escansões e citações, ao isolar um elemento fonético da fala, faz surgir um significante a mais, destacado do campo do sentido e remetido ao desejo. Segundo Lacan, "A interpretação não visa tanto o sentido quando reduzir os significantes a seu não-senso, para que possamos reencontrar os determinantes de toda a conduta do sujeito" (1964a/1998, p. 200-201). Não há nenhuma explicação por parte do analista sobre um possível significado da escansão realizada, o analista não traz de volta o sentido na comunicação, pois, pelo contrário, pode com esse ato terminar a sessão, deixando ao próprio analisante a tarefa inescapável de um novo retorno ao sentido através do movimento separação-alienação.

Em A lógica do fantasma (1966-1967/2002, lição de 14/12/66), Lacan já havia identificado o significante da interpretação, o que desencadeia o efeito de verdade, como um significante a mais, "demais", no universo de discurso, identificado justamente a sua falta. Em De um discurso que não fosse semblante (1971/2009), Lacan retoma a suspensão de S2 enquanto Vorstellungsrepräsentanz, representante da representação, para propor a interpretação em termos de efeito deverdade:

Ela só é verdadeira por suas consequências, tal como o oráculo. A interpretação não é submetida à prova de uma verdade que se decida por sim ou por não, mas desencadeia a verdade como tal. Só é verdadeira na medida em que verdadeiramente seguida. [...] O momento em que a verdade se decide unicamente - de seu desencadeamento para aquele de uma lógica que vai tentar dar corpo a essa verdade - é, muito precisamente, o momento em que o discurso, como representante da representação, é dispensado, desqualificado. Mas, se ele pode sê-lo, é porque, em alguma parte, ele o é desde sempre. É a isso que chamamos recalque. Já não é uma representação que ele representa, é essa série de discurso que se caracteriza como efeito de verdade (Lacan, 1971/2009, p. 13-14).

"Verdadeiramente seguida", pois não é senão depois, num après-coup, que o efeito de verdade se dá; uma sequência de discurso alheia ao sentido, ou seja, libertada do efeito afanísico do Vorstellungsrepräsentanz, significante binário. Interessante notar que Lacan assinala que está aí o recalque, no efeito de verdade, e não num lugar submerso como um saber oculto. Tal ponto de vista é reforçado por alguns psicanalistas que utilizam a banda de Moebius como representação da relação consciente-inconsciente, demonstrando uma continuidade sem barreiras que delimitem que uma zona está acessível e outra escondida, ou que há uma que está em cima e outra embaixo, ou seja, a superfície é uma só. Então, é num jogo de continuidade, de sequência na série de significantes que está o sujeito do inconsciente, representado por um significante para outro significante.

 

Reflexões finais

Ainda que inicialmente divulgado como um retorno a Freud, o ensino de Lacan propõe diversas teorizações originais e não redutíveis à obra freudiana, permitindo novas concepções e ferramentas técnicas. Ao considerar a afirmação de Lacan (1964b/1998) segundo a qual "o inconsciente é o que dizemos", Coutinho Jorge (2008, p. 80) comenta que "o inconsciente não se encontra num suposto mais-além da linguagem, nem em qualquer profundeza abissal ou oculta; ele se acha nas palavras [...]". Na materialidade das palavras, isto é, nos ditos, há um dizer, ou melhor, semidizer que é equívoco e non-sens, objeto não de um ouvir, mas de uma escuta flutuante. A ideia de um inconsciente articulado pelo não-sentido dos significantes opõe-se à noção de inconsciente enquanto conteúdos submersos e profundos, produzindo uma nova perspectiva de interpretação em psicanálise. Esta não estaria baseada na atribuição de um sentido velado e inconsciente a alguma formação do inconsciente, mas na escuta e leitura dos significantes cujos sentidos podem ser suspensos. Nesse sentido, a interpretação lacaniana se dedica tanto ao destaque do não-sentido da linguagem quanto à falta no Outro. Eis a importância da oposição entre saber e verdade, pois, para Lacan, nem toda verdade pode ser apreendida pelo saber, isto é, nem toda verdade inconsciente será sabida. É para esse ponto de impossibilidade radical que a interpretação lacaniana aponta.

 

 

Referências

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Artigo recebido em: 21/01/2017
Aprovado para publicação em: 22/08/2017

Endereço para correspondência
Vitor Hugo Couto Triska
E-mail: vhtriska@gmail.com
Marta Regina de Leão D'Agord
E-mail: mdagord@terra.com.br

 

 

*Psicólogo, Psicanalista, Doutor em Psicologia Social e Institucional - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil.
**Psicóloga, Psicanalista, Doutora em Psicologia (UFRGS), Professora do PPG Psicanálise: Clínica e Cultura - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil.

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