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Reverso

Print version ISSN 0102-7395

Reverso vol.33 no.62 Belo Horizonte Sept. 2011

 

O fio do desejo1

 

The thread of desire

 

 

Vanessa Campos Santoro

Círculo Psicanalítico de Minas Gerais

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A autora usa a intertextualidade da psicanálise e literatura através da Carta de Lacan a Jenny Aubry em “Duas notas sobre a criança” e do romance de Lúcio Cardoso Crônica da Casa Assassinada para tratar do papel da família na formação do sintoma e na transmissão da lei e do desejo.

Palavras-chave: Romance familiar, Sintoma, Verdade do par parental, Nome do pai, Desejo da mãe, Castração simbólica.


Abstract

The author uses the intertextuality of psychoanalysis and literature using the Letter of Lacan Jenny Aubry “Two notes on the child” and Lucio Cardoso’s novel “Chronicle of the Murdered House” to address the role of the family in symptom-formation and transmission of law and desire.

Keywords: Family romance, Symptom, Truth of the parental couple, Father’s name, Mother’s desire, Symbolic castration.


 

 

Para Ruth

 

O objetivo deste trabalho é pensar o papel da família na constituição de cada sujeito através da formação do sintoma.

Para tal reportamos à família Meneses na obra literária de Lúcio Cardoso, Crônica da Casa Assassinada.

Freud nos ensina que os sintomas neuróticos são consequências do complexo de Édipo que ordena a estrutura da família.

Lacan, nos passos de Freud, deu um valor estrutural ao complexo de Édipo de maneira sincrônica que é a metáfora paterna.

O sintoma designa o modo pelo qual se particulariza para cada um a estrutura, índice do que não caminha no Real. Assim, o sintoma é também aquilo que organiza e pacifica a relação do sujeito com o que lhe é insuportável.

Em Crônica da Casa Assassinada, Lúcio Cardoso nos traz o romance familiar dos Meneses, antigos fazendeiros escravocratas das Minas Gerais que vivem do passado de opulência e de lembranças de Maria Sinhá, a mulher forte que deixou marcas nos netos Demétrio, Valdo e Timóteo e na casa através da marca de seu retrato que falta na parede. Compõem a família Ana, mulher de Demétrio, e Beth, a governanta inglesa, até que Valdo traz Nina do Rio de Janeiro, mulher belíssima de passado obscuro, que acirra o imaginário da cidadezinha próxima e de todos da casa.

Começam a acontecer ciúmes, invejas, traições e crimes. Parece que Nina desencadeia e desenterra traições e o lado obscuro de cada um dos personagens. E a casa começa a desabar, bem como aquela família. Há o jardineiro Alberto, amor de Nina e posteriormente de Ana, que é assassinado ou se suicida. Nina aparece grávida e rompe o relacionamento com Valdo, apaixonado e fraco, que a deixa partir por força do irmão Demétrio, preocupado com o escândalo. Ana, também grávida do jardineiro, vai buscá-la e volta com André, que é criado até a adolescência sem ouvir falar da mãe e nem sequer ver seu retrato. Seu pai Valdo o leva para caçar e montar a cavalo e o mantém ali na casa onde ninguém se fala. Timóteo fica trancado no quarto e os silêncios são grandes e pesados.

O que se transmite para André? Sua origem é um enigma, até que Nina volta do Rio e, embora doente, transforma novamente aquela casa e aquelas vidas. André se apaixona pela mãe e eles passam a viver o incesto até a morte de Nina. Ana também tenta seduzir André e não é correspondida. Confessa ao final do livro ser sua mãe.

A narrativa é feita por cartas dos personagens e também de pessoas da comunidade, como o farmacêutico e o Padre Justino que escuta horrorizado o diário do incesto e da vivência edípica no corpo de Nina, na casa em ruínas e em André.

A obscuridade e o enigma permeiam o livro que provoca angústia no leitor e o põe a pensar como André: Essa mulher é minha mãe? O que é uma mãe? O que quer uma mulher? O fato de o incesto ter ocorrido ou não importa pouco. Afinal, como nos diz Ruth Silviano Brandão, “Esse incesto é encenado e exibido, como tal, na superfície da escrita e no desejo do discurso; negá-lo é apenas não querer lê-lo ou revivê-lo e assumir os efeitos de sua leitura, dada a violência de sua verdade” (BRANDÃO, 2003, p.195).

Pensamos em André que não conhecia sua mãe. Era proibido nomeá-la ou lembrá-la. Ruth Silviano Brandão faz um paralelo com Jocasta, que não foi nomeada enquanto mãe e enquanto mulher: “se é mulher, não é mãe, se é mãe não é mulher” (BRANDÃO, 2003, p. 196).
Édipo, como André, não pôde reconhecer a mãe pelo olhar.

Na cena do velório de Nina tudo desmorona. O prestígio dos Meneses cai por terra, nos rodopios alucinados de Timóteo e sua extravagante figura andrógina.

André e Valdo saem da chácara e vão viver suas vidas.

Tantos anos passados e eu ainda não esqueci. Amar, amei outras vezes, mas como se fosse um eco desse primeiro amor não são pessoas diferentes as que amamos ao longo da vida, mas a mesma imagem em seres diferentes” (Citação de André) (CARDOSO, 2005, p.137).

O que Valdo transmite para André é o amor apaixonado por Nina, que embora ausente, domina com sua presença o imaginário da chácara e o coração do pai. O que é um pai?

O pai para a psicanálise não é o pai biológico. Ele é o nome que particulariza um desejo e designa um lugar, sempre terceiro. O pai para Lacan, em RSI (1975), é aquele que situa a mãe de seus filhos como mulher, causa de seu desejo. O pai é a consequência da orientação do desejo de um homem por uma mulher, ou seja, o pai com seu desejo orienta os pares significantes dentro do discurso da família, de modo que sua versão (père-version) estrutura a família edípica.

Há uma fala de André para Valdo na qual se vê que o pai transmite ao filho sua falta: “diga-me, o senhor que me gerou e que deve me ensinar aquilo que não aprendi. Não é meu pai? Não me deve atenção e cuidados? Então responda: A ressurreição existe?” (CARDOSO, 2005, p.491).

O que se transmite numa família?

Freud, em “Romance Familiar” (1908), fala que a criança inventa um novo pai e uma nova mãe, num primeiro tempo. No segundo tempo, ao compreender que o pai é incerto e a mãe certíssima, passa a exaltar o pai, ou seja, restaura sua imagem.

A posição de Lacan sobre a família refere-se às funções materna e paterna. O romance familiar é um mito individual, sendo este um modo de organizar um discurso para suprir a verdade impossível de transmitir. O neurótico necessita e usa o romance familiar e o sintoma por não ter herdado simbolicamente a castração do pai.

Há um irredutível na família. O que garante sua importância e sobrevivência é sua função de transmissão do desejo, “com um desejo que não seja anônimo”, conforme nos aponta Lacan em Nota sobre a criança (2003, p. 369), ou seja, há alguém a quem se pode endereçar o desejo. O real do grupo familiar.

A família, além das representações imaginárias, é o lugar do Outro simbólico, anterior ao sujeito. Há elementos estruturais invariáveis. A família faz valer para o ser falante a função simbólica da castração. A família é o lugar do Outro da lei da proibição do incesto para ambos os sexos. É impossível gozar do corpo da mãe num encontro sexual.

A castração é essa moderação de gozo. Então, para a psicanálise, a família é constituída pelos Nomes-do-Pai, pelo desejo da mãe e pelo objeto a.

Segundo Cirino (2007), Lacan, no texto de 1938, Complexos Familiares, fala que a família transmite a cultura; em Nota sobre a criança (2003) ela transmite a função constitutiva do desejo e no Mal Entendido (1980) transmite o mal-entendido.

Então a única relação que existe é a dos significantes no inconsciente que fazem exatamente da família um lugar de transmissão do mal-entendido, uma vez que não há diálogo entre os sexos como tais” (CIRINO, 2007).

A prematuração do infans depende do ser experimentado que cuida e faz a marcação significante nos equívocos e mal-entendidos dando forma e sentido ao grito, transformando-o em demanda. Este processo de subjetivação se estrutura a partir do progresso narcísico, isto é, pelas identificações imaginárias. Porém, na continuidade deste progresso narcísico interferem as descontinuidades, ou seja, os traumas, os encontros com o real diante do qual a criança não sabe mais se situar.

Lacan coloca aí o desmame, a intrusão do terceiro e as relações entre os objetos parentais.

O sintoma da criança surge como uma defesa em face da angústia advinda desse encontro.

Então, ao lado de causas externas ambientais, o complexo familiar também inclui uma posição do sujeito imprevisível e incalculável. É uma parte do intransmissível do sintoma que escapa à determinação simbólica.

As imagos materna e paterna que não podem ser confundidas com os próprios pais, referem-se “ao sentido escondido destas relações (...) a percepção pela criança do sentido neurótico das barreiras que os separam”, segundo Lacan em Complexos Familiares (2003, p.88).

Em Nota sobre a criança, na carta à Jenny Aubry, escrita em 1969, Lacan (2003) desenvolve as ideias trazidas anteriormente em Complexos Familiares, escrito em 1938. Lacan começa a carta dizendo que a constituição do sujeito está relacionada a um desejo que não seja anônimo. Este desejo está relacionado ao par parental; no que diz respeito à mãe, seus cuidados devem trazer a marca de um interesse particularizado e o pai deve portar a função da lei. Lacan propõe, a partir disto, que o sintoma da criança inserido na família traz a marca da verdade. Estabelece a diferença entre identificação da criança ao sintoma e a identificação da criança ao objeto.

Lacan divide o sintoma em duas modalidades de resposta que possibilitam o surgimento da estrutura em cada sujeito. Na primeira resposta pensamos na neurose, e neste caso o sintoma representa a verdade do par familiar. É o caso mais complexo, porém mais aberto às intervenções do analista.

Nessa modalidade de resposta, o sintoma da criança está implicado na vinculação do par mãe/pai, trazendo a marca da metáfora paterna, ou seja, o desejo da mãe enquanto articulado ao nome do pai. Aí existe mais um na relação mãe-criança-falo, fazendo com que essa criança não seja tudo para a mãe e que esta também seja mulher para seu homem.

Quando o pai é insuficiente para representar a falha imaginária na mãe, a criança encontra o recurso do sintoma para manter o laço fálico e ao mesmo tempo distanciar-se da posição perigosa de ser o objeto de gozo da mãe.

No segundo caso, onde se pensa em psicose, o sintoma deriva da subjetividade da mãe, a criança torna-se objeto da mãe, fica presa à fantasia materna. A criança psicótica não tem sintoma, mas é sintoma da mãe.

Pensamos em qual seria a posição de André.

A função de resíduo exercida (e, ao mesmo tempo, mantida) pela família conjugal na evolução das sociedades destaca a irredutibilidade de uma transmissão” (LACAN, 2003, p. 369). Pai-mãe fazem par familiar, recebendo em 1955 a denominação de metáfora paterna, na medida em que ela permite inscrever para o sujeito a relação do pai e da mãe.

Ela inscreve essa relação em termos de significantes, ou seja, relação entre o Nome do Pai e o Desejo da Mãe, sobre uma relação que não pode se inscrever em termos de significantes que é a relação entre um Homem e uma Mulher.

A relação Homem-Mulher então é o que resta em estado de resíduo de intransmissível, de não simbolizado, de Real. Esta função de resíduo, de resto, é uma das funções lógicas do objeto a como real.

Falemos um pouco do desejo caprichoso da mãe, “pisoteio do elefante”, esse Outro Primordial materno que ocupa o lugar de Das Ding e marca o corpo do bebê nas zonas erógenas. O desejo da mãe é um significante enigmático e perturbador, qualificado de Desejo do Outro. “Que deseja minha mãe?” é uma questão cuja resposta vale o preço da neurose. Podemos dizer que, se o que quer uma mulher é um enigma, o que quer uma mãe é um filho. A mulher é o limite da mãe. Dizer que a mãe não é toda fálica é dizer que o falo não pode satisfazê-la inteiramente e que, portanto, a criança não pode saturar seu desejo. O significante Nome do Pai vem substituí-lo permitindo que a vertente caprichosa e desregrada da lei materna seja pacificada e subjetivada pela criança nos termos da significação fálica. Assim, a versão do pai assegura a divisão materna, ou seja, se encarrega da castração da mãe.

Quando o desejo da mãe é articulado à função do Nome do Pai, o significante criança vem se articular como resposta, colocando as questões edípicas de seu sexo e de sua existência. Esse tipo particular de resposta produz uma certa verdade do discurso familiar.

Segundo Philippe Lacadée,

a verdade do par familiar não seria também este resíduo intransmissível na evolução das sociedades, este real ao qual o sintoma da criança vem fazer resposta, este real do ‘não existe relação sexual’, o que não se pode transmitir da estrutura, porque não existe em termos de significantes, encarregando o sujeito de colocar aí uma resposta?” (LACADÉE, 1996, p.82).

Voltemos ao livro. Que crime é esse que provoca maldição e passa de uma geração a outra até sua destruição?

Não pretendemos fazer psicopatologia de obra literária, embora no Cartel tenha sido discutida a vida e obra de Lúcio Cardoso, escritor contemporâneo que, como tal, recorre aos enigmas, incoerências e uma certa crueza na escrita.

O que nos tocou da Crônica da Casa Assassinada foi o drama de André, filho de duas mães, de dois pais, Édipo moderno que realiza a fusão do incesto com o corpo da mãe moribunda, num gozo sem mediação.

Quando Nina estava morrendo, André a chama de mãe, o que ela contesta com veemência. Na verdade, Nina nunca tomou o adolescente André como filho, sempre foi A Mulher.

No final ele se salva pelo desejo de seu pai enquanto homem por uma mulher. Apesar das ruínas e da decadência da família Meneses, André pega o fio do desejo que lhe foi transmitido pelo pai e sai de cena buscando outros laços.

 

Bibliografia

BRANDÃO, Ruth Silviano. Mulher ao pé da letra. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.

CARDOSO, Lúcio. Crônica da casa assassinada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

CIRINO, Oscar. A família. Belo Horizonte: Apostila do Campo Lacaniano, 2007.

FREUD, Sigmund. Escritores criativos e devaneio – Gradiva de Jensen e outros trabalhos. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v.IX.

FREUD, Sigmund. Conferência XVII: o sentido dos sintomas. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. XVI.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia: um estudo autobiográfico e outros trabalhos. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v.XX.

LACAN, Jacques. Os complexos familiares na formação do indivíduo: Ensaio de análise de uma função em psicologia. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.29-90.

LACAN, Jacques. Nota sobre a criança (1969). Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 369-370.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 22: RSI (1974-1975/s.d.). Versão anônima.

LACADÉE, Philippe. Duas referências essenciais de J. Lacan sobre o sintoma da criança. Opção Lacaniana. São Paulo: Eólia, nov./1996, n.17, p.74-82.

NOMINÉ, Bernard. O Sintoma e a Família – Conferências Belorizontinas - Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise, out./1997. Disponível na biblioteca da Escola Brasileira de Psicanálise.

 

 

Endereço para correspondência:
Rua Levindo Lopes, 333/1008 – Savassi
30140-911 – BELO HORIZONTE/MG
E-mail: vansantoro@uol.com.br

RECEBIDO EM: 30/05/2011
APROVADO EM: 07/06/2011

 

 

Sobre a Autora

Vanessa Campos Santoro
Psicóloga. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

 

 

1 Trabalho escrito a partir do cartel Sintoma, Família e Transmissão - Psicanálise e Literatura.