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Reverso

Print version ISSN 0102-7395

Reverso vol.35 no.66 Belo Horizonte Dec. 2013

 

ARTIGO

 

Uma dificuldade no caminho da clínica

 

A difficulty in the clinical pathway

 

 

Vanessa Campos Santoro

Círculo Psicanalítico de Minas Gerais

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A autora encerra a jornada da Clínica de Psicanálise abordando os "pré-conceitos" que interferem no trabalho analítico e fala da elaboração que deve ser feita com os restos que se recolhem nas sessões clínicas. Coloca a lógica do não-todo fálico com a ética da falta a ser, que abre perspectiva novas para a psicanálise e a diferencia da psicoterapia.

Palavras-chave: Trabalho analítico, Ética da psicanálise, Psicanálise, Psicoterapia.


ABSTRACT

The author ends up the journey of the Psychoanalytic Clinic dealing with the pre-concepts that interfere in the analytical work, and also speaks about the elaboration work, which should be done to what is left form clinical sessions. The author centers the not all phallic logic with the ethics of the lack-to-be that opens new perspectives for Psychoanalysis and shows its difference to Psychotherapy.

Keywords: Analytical work, Ethic of Psychoanalysis, Psychoanalysis and psychotherapy.


 

 

É chegada a hora de finalizar a Jornada da Clínica de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. Neste ano de seu cinquentenário foram apresentados trabalhos de colegas triagistas e participantes, e o debate foi muito proveitoso, com certeza.

Gostaria de falar de uma dificuldade no caminho da clínica. Freud, em Uma dificuldade no caminho da psicanálise, fala do preconceito e da não aceitação da psicanálise por causa da polêmica gerada por alguns conceitos, por exemplo, o inconsciente, que as pessoas não reconhecem nelas e que vai de encontro ao que narcisicamente pensam de si mesmas. De fato o homem não é senhor em sua própria casa, e a Outra Cena sempre nos desafia e se apresenta nos atos falhos, nos esquecimentos, nos sonhos e nos sintomas.

Faço uma comparação com a Clínica de Psicanálise do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, que já foi Clínica Social, no social e só depois passou a ser um dispositivo de formação, como Maria Mazzarello historiou. Considerada "sintoma da instituição", enfrentou também polêmicas e preconceito a ponto de não ter ainda seu regimento interno aprovado em assembleia geral. Já se ouviu falar que "a Clínica é um poder paralelo" em relação à Comissão de Formação Permanente, em referência a uma estrutura formal com coordenador e auxiliares que tratavam da elaboração dos pré-requisitos e quesitos para frequentar e permanecer em seu espaço. Espaço de transmissão da psicanálise, pois é a clínica que dá ao psicanalista régua e compasso num trabalho cuidadoso de ir do analisando à teoria, ao analista e de volta ao analisando.

O próprio conceito do que é a formação do psicanalista intervém na maneira como se trata a transmissão da psicanálise. E todos temos nossos"pré-conceitos". Mas numa coisa há unanimidade: é difícil uma formação apenas teórica. Por isso, os espaços de análise pessoal e de supervisão são fundamentais para se tornar psicanalista e, principalmente, recolher os efeitos do que foi e tem sido nossa formação permanente.

Esses efeitos de transmissão causam o desejo de analista e trabalham no sentido de suportar o esvaziamento de qualquer desejo que não seja somente o de analisar. É tênue a posição do analista como agente causa de trabalho e de desejo, pois sempre oscilamos nos outros discursos, como o do mestre e o universitário, principalmente em relação aos aspectos teóricos da psicanálise. É no discurso histérico que interroga o mestre e o saber da psicanálise, fazendo o giro tão importante para a posição de analista que nos colocamos como aprendizes de feiticeiro.

Há muitos anos apresentei um trabalho Aprendiz de feiticeiro, onde abordei a adolescência e o real do sexo. Trata-se de um jovem aprendiz de bruxaria e suas peripécias diante da vassoura mágica que não sabe controlar. A referência à adolescência é obvia, o jovem tem que aprender peça por peça do Outro, o que é ser Homem ou Mulher. Mas sempre fica um resto, um não sabido.

É a clínica com adolescentes que nos mostra os estados de sideração quando algo sai do script. Eles ficam aturdidos diante de seus próprios sentimentos e impulsos. "Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente, aprende", já nos dizia Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas.

Queria falar dos restos. Onde recolher os restos do difícil ofício de analista, essa profissão impossível? Nas apresentações de paciente, nas reuniões entre pares ímpares, nas jornadas, nas análises e nas supervisões, mas principalmente na escrita. "O que não se pode falar não se deve calar".1

Diante do real que ex-siste e insiste na forma do que fica fora do gozo fálico e, portanto, da linguagem e que se apresenta nas análises como autômatos e tiques, pontos de repetição exigindo trabalho de significação, ou de forma abrupta nas atuações, só nos resta enquanto analista escutar, recolher os pedaços de fio e tecer pela escrita uma borda diante do não-todo.

Lacan inventa uma linguagem para falar dos pedaços do real: o falo simbólico e . E todos os dois dizem respeito a uma falta. é a marca da falta. significa que falta um significante no campo do Outro. É o vazio, a própria falta.

Arlindo Pimenta fala da política da falta-a-ser:

Não é como seu ego, mas com a falta que o analista trabalha... A Onipotência do Outro, sustentada pela fantasia, se não manejada adequadamente e dirigida pela política da falta a ser, reduz o processo a uma psicoterapia e se afasta do processo analítico (PIMENTA, 2012, p. 16).

Quando iniciamos os atendimentos, às vezes nos colocamos na posição SsS (sujeito suposto, sabido) numa tentativa de tamponar a angústia diante do furo no saber. Outras vezes, nos calamos impactados diante da fala do analisando e com aquele medo tão humano de "dar uma rata". Às vezes me pegava pensando o que meu supervisor teria feito.

Eliana Rodrigues Pereira Mendes cita Marco Antonio Coutinho que, se referindo a Moustapha Safouan, define a supervisão como a posição de aprender a aprender.

Isto só mostra a importância de aprender a aprender que est no núcleo da formação do analista e é uma das formas pelas quais se manifesta o desejo do analista, o desejo de saber (MENDES, 2012, p. 54).

Como a Psicanálise trabalha com restos? Qual a particularidade do discurso analítico? Situar-se na civilização a partir de uma particularidade que não se absorve no universal. Por exemplo, saber se o Nome-do-Pai funciona ou não depende de uma investigação clínica.

É a experiência clínica que nos orientará sobre as formas atuais do desejo da mãe, que podemos considerar hoje como uma função. Não se sabe bem quem é a mãe, daí a ideia do desejo da mãe mais como função, ao passo que hoje se tem certeza quanto ao pai (DNA).

Então, o analista que recebe crianças precisa se preocupar com o novo céu das ideias: não há ideia do que é ser homem e ser pai, e a incidência da metáfora paterna não tem um cálculo matemático. Precisamos estar atentos para ver como aquela particularidade daquela criança se formou.

A psicanálise denuncia o "para todos" tanto para o homem quanto para a mulher e privilegia a singularidade do sintoma que se torna então o operador, programa de gozo que é ao mesmo tempo sintoma e fantasia. O sintoma é o operador de dissolução de todas as linguagens classificatórias.

A psicanálise revela as consequências das paixões universais. Por exemplo, a paixão universal da normalidade, que condena à hipernormatividade, produzindo estranhos efeitos superegoicos. Nosso interesse, enquanto analista, é questionar tanto as paixões universais quanto seus efeitos sobre as paixões particulares.

A psicanálise não quer opor paixão e razão. Esta é a subversão da psicanálise: abrir para o campo fora da armadura fálica, ou seja, leva em conta a lógica do não-todo (fálico) quando se refere ao falo simbólico.

Termino essas reflexões com Eric Laurent:

Temos que mostrar como a escolha das mulheres, a partir de sua paixão particular, um sujeito pode inventar para si um mundo, uma vida compatível com o estado atual da civilização, um mundo, portanto, no qual ele pode situar – se e situar seu sentido gozado, ou seja, a maneira com a qual ele enoda uma significação comum com o particular de sua experiência de gozo (LAURENT, 2012, p. 228).

 

Referências

FREUD, S. Uma dificuldade no caminho da psicanálise (1917). In: ______. Uma neurose infantil e outros trabalhos (1917-1918). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 147-153. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 17).

LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LAURENT, E. A psicanálise e a escolha das mulheres. Belo Horizonte: Scriptum, 2012.

MENDES, E. R. P. Sobre a supervisão. Reverso, Belo Horizonte, n. 64, p. 49, dez. 2012, Publicação do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

PIMENTA, A. C. A ética do desejo e a política da falta. Reverso, Belo Horizonte, n. 64, p. 15, dez. 2012, Publicação do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

 

 

Endereço para correspondência:
Rua Levindo Lopes, 333/1008 – Savassi
30140-911 – BELO HORIZONTE/MG
E-mail: vanessasantoro@uol.com.br

Recebido em: 20/11/2013
Aprovado em: 24/11/2013

 

 

Sobre a Autora

Vanessa Campos Santoro
Psicóloga. Psicanalista. Sócia do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

 

 

1 WITTGESTEIN, L. Tractatus Logico-Philosophicus, 1921.