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Print version ISSN 0102-7395

Reverso vol.38 no.72 Belo Horizonte Dec. 2016

 

TEORÍA PSICANALÍTICA

 

Sexualidade feminina: um enigma a ser decifrado

 

Female sexuality: a puzzle to be deciphered

 

 

Vanessa Campos Santoro

ICírculo Psicanalítico de Minas Gerais

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A partir da indagação de Freud “O que quer uma mulher?”, Lacan contribui para decifrar a posição de feminino na sexuação e a coloca como um enigma a ser decifrado. Usa a escrita matemática nas tábuas da sexuação para tratar o masculino e o feminino, concebidos como lugares e posições nos seres falantes. Nas mulheres há a divisão entre dois gozos: o gozo fálico e o gozo do Outro. A mulher nunca está inteiramente de um lado ou de outro. Como cada sujeito feminino lida com essa participação? A sexuação está aberta a uma escolha, e não à inscrição de formas estabelecidas pela tradição.

Palavras-chave: Feminino, Masculino, Modalidades de gozo, Gozo fálico, Gozo do Outro, Apelo ao amor, Amor “mais digno”, Escolha forçada.


ABSTRACT

Starting from Freud’s question “what do women want ?” Lacan contributed to solve the position of the feminine in sexuation and he places it as a riddle to be solved. He uses mathematic writing on boards of sexuation to deal with masculine and feminine conceived as places and positions in the spoking beings. In women there is a division between two enjoyments: the phallic enjoyment and the Other enjoyment. Women are never entirely in one side or the other. How does each feminine subject deals with this scission ? Sexuation is opened to a choice and its inscriptions are not established by tradition.

Keywords: Feminine, Masculine, Phallic enjoyment and the Other enjoyment, Appeal to love more “dignified”, Forced choice.


 

Partindo da indagação de Freud “O que quer uma mulher?” Lacan contribui para decifrar a posição do feminino na sexuação. Estudando o caso Aimée, depois as faxineiras irmãs Papin, Medeia e seu amor louco, e Madeleine, que queima as cartas de André Gide, filmes como O império dos sentidos e seu trabalho sobre as místicas, Lacan ([1972-1973] 1985), com seu aforismo “A Mulher não existe”, sustenta que se tornar mulher é a escolha forçada de uma particularidade. Isso tem a ver com o modo como o gozo afeta o corpo feminino, sem que haja um órgão específico responsável por isso.

A história da psicanálise é marcada por divergências de interpretação do “mais ainda” irredutível do lado feminino. Lacan rompe com essa tradição. Ele situa a relação entre a posição feminina e o sem limites do lado do não-todo, como uma loucura feminina e faz a passagem do masoquismo à loucura na relação das mulheres com o supereu.

Lacan coloca a posição do feminino como um enigma a ser decifrado e tenta responder a Freud “o que querem as mulheres” dizendo que elas desejam atingir os homens naquilo que eles têm de mais preciosos, ao mesmo tempo que querem fazer deles o objeto de seu amor louco.

Lacan ([1972-1973] 1985) trata Homem e Mulher como escrita, que é a tábua da sexuação.

A tábua da sexuação é uma construção lógica matemática, que traz os ensinamentos de Freud e do próprio Lacan sobre a sexualidade. Ela é dividida em duas partes: a superior é composta de quatro fórmulas, unidas duas a duas, que se dividem entre o lado masculino e o lado feminino da sexuação.

A parte inferior acompanha a mesma divisão entre masculino e feminino e é onde Lacan escreve cinco termos: (sujeito dividido), (símbolo fálico), objeto a, o significante de uma mulher (La) e o significante da falta do Outro S (). Os dois primeiros do lado masculino, e os três últimos do lado feminino.

Os motivos que levaram Lacan a transmitir um ensinamento psicanalítico através da linguagem matemática se encontram no Seminário XX. Só a formalização matemática é capaz de objetividade.

Partindo da lógica clássica de Aristóteles e se valendo da lógica dos predicados de Frege e de Pierce, Lacan faz modificações que levam em conta a compreensão do sujeito feminino. Lacan parte desse quadro para pensar o que é ser Homem e o que é ser Mulher. Os quantificadores podem ser universal positivo, universal negativo e existenciais.

Universal afirmativa: (todo ser falante está inscrito na ordem do falo).

Universal negativa: (ao menos um homem não está inscrito na ordem fálica; há uma parte que escapa, que fica de fora).

Quantificador existencial

Particular afirmativo: (existe ao menos um x tal que a função fálica não se aplica.

Particular negativa: (não existe ao menos um x tal que a função não se aplica).

Lacan introduz como novidade a não existência (não existe x) (onde a função fálica não incide). As fórmulas da sexuação têm a ver com o processo de identificação.

E Lacan escreve as quatro fórmulas indicando a função x como a função fálica, já que é uma função que acomete a todos os seres falantes tanto homens como mulheres ao se defrontar com a castração. “Quem quer que seja ser falante se inscreve de um lado ou de outro” (LACAN, [1972-1973] 1985, p. 107)

A divisão biológica dos seres entre Homem e Mulher não predetermina a identidade sexual de cada um. Homem e Mulher são concebidos como lugares, posições nos seres falantes:

Do lado homem:

}A lógica fálica obriga os Homens a existir dentro de uma universalidade,

} não há nenhum Homem fora da lei, exceto o pai primevo.

Do lado mulher:

} Lacan afirma a não existência de pelo menos um que tenha escapado à } castração. Ou seja, não existe exceção à regra. Mulher não tem norma, tem regras. Exceção feminina. Não existe regra universal para todas as mulheres. Impossível falar de todas as mulheres. “A mulher não existe”: não existe conjunto universal de Mulheres.

Modalidades de gozo

Lacan ([1972-1973] 1985) trabalha a sexualidade pelo viés da entrada do ser falante na linguagem, o que implica uma divisão em dois tipos de gozo: o gozo fálico e o gozo do Outro (gozo feminino).

 

1. Gozo fálico

Finito, limitado pelo significante:

A escolha de objeto que é tão estranhamente condicionada, [...] deriva da fixação infantil de seus sentimentos de ternura pela mãe e representam uma das consequências dessa fixação (FREUD, [1910] 1996, p. 174).

Assim os homens separam a corrente terna da corrente sexual e “[...] quando amam, não desejam e quando desejam, não podem amar” (FREUD, [1912] 1996, p. 188).

O homem não se relaciona com a mulher, e sim com a causa de seu desejo. E isso é a fórmula da fantasia . O parceiro sexual do Homem é a causa de seu desejo. O Homem vê na parceira uma parte dele mesmo, numa visão narcisista. O Homem não tem chance de gozar do corpo de uma mulher, já que ele é castrado.

Se há um gozo para além do falo, isto é, não submetido ao significante, é o gozo feminino, pois uma Mulher não está toda submetida ao falo.

 

2. O gozo do Outro

Lacan ([1971-1972] 2012) fala do ‘Houtro’ sexo, tanto para o Homem como para a Mulher, que vai além da diferença anatômica. ‘Houtro’ sexo é sempre um enigma. Precisa passar por um esvaziamento do campo fálico para chegar ao não-todo.

Lacan ([1971-1972] 2012) fala da parceira desvanecida no Seminário 19: ...ou pior. Desvanecer é se desprender do gozo fálico. O gozo da mulher se duplica. Ela está no gozo fálico, pois o significante do falo do lado Homem dá bordas ao ser de uma mulher. O falo dá um limite ao esvaziamento do gozo do Outro (ou gozo feminino).

Todas as mulheres são loucas, como se diz. É justamente por isso que elas não são todas, isto é, não-loucas-de-todo, antes conciliadoras: a tal ponto que não há limites às concessões que cada uma faz para um homem de seu corpo, de sua alma, de seus bens (LACAN, [1974] 1993, p. 70).

O gozo do Outro, gozo feminino, o não todo pode levar à devastação (ravage), à destruição e à identificação com o objeto que cai. O falo é sempre a barreira que protege do jacaré-mãe e da loucura.

A mulher se presta a ser objeto causa de desejo para o homem na posição de a. Ela vai mais longe nas coisas do amor. Ela precisa que o homem cifre seu gozo, lhe dê borda ao amor louco com as cartas de amor.

A mulher permanece sem a resposta fálica de seu gozo, portanto não pode nada dizer sobre ele, mas sabe que o experimenta. O homem passa, então, a falar do feminino, falar pela mulher. Dit-femme, difamação. A busca de Lacan é abordar o gozo feminino sem ser uma difamação.

Simone de Beauvoir (1967) trata de dar palavra às mulheres para que elas possam descrever a inexistência de sua posição. Em O segundo sexo sustenta que elas são privadas de ação, de ser o agente da ação que concerne a seu destino. E, assim, fazem os homens falar por elas. As condições sociológicas de sua história tornaram as mulheres silenciosas, o que por sua vez, provoca o discurso do Outro sobre elas. Para Lacan esse pacto de silêncio é um ponto no qual o gozo não pode ser dito, portanto está articulado às condições de estrutura.

Há uma impossibilidade de representação do gozo para além do falo. É o S () signo do gozo que não tem nome.

Beauvoir (1967) fala “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Tornar-se mulher é a escolha forçada de uma particularidade que tem a ver como o gozo afeta o corpo feminino, sem que um órgão específico venha responder a isso. Tudo o que se pode dizer sobre as mulheres deixa escapar a posição de causa ocupada por uma mulher, no que concerne ao desejo de quem a ama, seja Homem, seja Mulher.

Uma mulher não pode se apoiar sobre um modelo universal. Ela permanece sozinha na relação com seu gozo, esteja acompanhada ou não por um parceiro e dessa forma possa escolher ocupar a posição de causa.

Freud (1933 [1932] 1976) notou o sentimento de inferioridade feminino e o relaciona com a castração (inveja do pênis). Lacan ([1972-1973] 1985) fala do sentimento de exclusão relacionado ao sentimento de insuficiência. Soler (2005) faz uma diferença ao sentimento de exclusão histérica. O ser excluído é paradigmático do sujeito histérico: ele não tem o seu lugar no Outro, ou o lugar que ele tem não é seu, embora ele (Homem ou Mulher) procure esse lugar no Outro, não encontra.

O que é excluído nas mulheres é o seu gozo. O seu ser de gozo. Daí a afirmação de Lacan: a letra é o sinal da mulher. A escrita feminina pode ser uma maneira de expressão do gozo do Outro. Mas ai já é outro texto!

Continente negro: espaço no qual o significante não traz luz (FREUD, 1933 [1932] 1976). Vale lembrar que tudo de uma mulher não é excluído.

Como sujeito uma mulher está exatamente no mesmo ponto que o homem, inclusive exposta à castração. Como mãe seu estatuto é articulado no discurso, na sua conexão com esse objeto particular que é a criança. A única coisa excluída é o que Lacan escreveu S (), é o gozo não fálico.

O homem não é excluído do discurso porque no nível de seu ser de gozo, ele se define pelo gozo fálico, que é aquele homogêneo ao significante e é aquele que sustenta a relação com a realidade. Portanto, o gozo fálico e o S1 do significante mestre são equivalentes.

Lacan ([1972-1973] 1985) diz que o gozo fálico é o gozo do poder. Quanto à localização dos gozos, o gozo fálico é incluído no discurso, homogêneo ao discurso e fora do corpo, deixa o corpo vazio de gozo. O gozo da mulher é fora do discurso e interno ao corpo. Traz o gozo de volta para dentro do corpo.

Então, a exclusão do ser gozado da mulher é irremediável e não deriva de uma desordem na sociedade. Qual é o poder dessa parte excluída? Estar exposta ao gozo Outro, que é o destino das mulheres, tem efeitos subjetivos. O gozo fálico é manejado com o fantasma masculino, ou seja, há um domínio sobre o gozo fálico através da leitura significante do fantasma. Isso não é o caso para o gozo Outro.

Há nas mulheres uma duplicação da divisão da falta de ser, uma partição suplementar. Ou seja, além da divisão própria do sujeito entre dois significantes, nas mulheres há a divisão entre dois gozos: o gozo fálico, que ela também divide, e o gozo Outro. A mulher nunca está inteiramente de um lado ou de outro. Como cada sujeito feminino lida com essa partição? Como se acomoda a ela?

O que é consciente ao falicismo aparece sob a forma do ter fálico, sob a forma dos filhos, sucesso, trabalho, sob a forma que se consegue no jogo da sedução amorosa. Para cada uma podemos ver o que ela investiu do lado fálico, e o que ela deixou à margem. Quais os efeitos subjetivos dessa parte excluída? É o interesse que cada mulher tem pelas outras mulheres. Como a outra se arranja com isso?

A parte excluída gera o apelo de dizer. Especialmente ao dizer do amor. Conhecemos a aspiração feminina ao amor. Não quer dizer que ela seja mais amorosa, é mais da ordem do APELO AO AMOR. Uma espécie de necessidade subjetiva que ultrapassa o que é próprio a todos os sujeitos. Esse apelo ao amor tem sua lógica porque só o dizer do amor é susceptível de conectar o Outro absoluto com aquele que encarna o UM FÁLICO. Seja ele Homem ou Deus. O que se espera do apelo ao amor é reduzir a exclusão, inserindo a mulher no laço social, no discurso do amor. A exigência de um dizer que carrega o amor equivale a um pedido, uma demanda de nomeação: o que é pedido é um nome do amor que nomeia o que o amado(a) é para o Outro. E esse nome pode recobrir o ser inominado do gozo Outro. O dizer do amor faz falta e ajuda as mulheres a sublimar esse gozo Outro, independentemente da insatisfação histérica.

Em Mais, ainda Lacan ([1972-1973] 1985) fala de um amor que chamou de “mais digno”. No digno há das Ding: a Coisa incluída no círculo do amor. É a ideia de um amor mais digno, que pode incluir toda a carga do gozo. Assim, o amor louco e o amor digno estão ligados. O amor louco no sentido do amor psicótico é uma coisa, o louco amor é outra, e o amor mais digno é a articulação dessa loucura que está sempre por um fio nas questões do amor. O amor mais digno entra pela porta do gozo feminino.

Esta é a subversão da psicanálise: abre para o campo fora da armadura fálica, ou seja, leva em conta a lógica do não-todo (fálico). Quando se refere ao falo simbólico.

A sexuação está aberta a uma escolha, e não a inscrições de formas estabelecidas pela tradição. A eleição subjetiva das mulheres se dá entre a posição feminina e a maternidade, ou seja, há uma gama de configurações no mundo das relações entre os sexos. A psicanálise deve acompanhar esses deslocamentos. Poderíamos continuar pensando as posições sexuadas articuladas às fórmulas da sexuação de Lacan, ou isso exige algo novo?

 

Referências

BEAUVOIR, S. O segundo sexo. 2. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967. p. 9-10.

FREUD, S. Conferência XXXIII: Feminilidade (1933 [1932]). In: ______. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos (1932-1936). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 113-134. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 22).

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Endereço para correspondência
E-mail: vansantoro@uol.com.br

Recebido em: 05/09/2016
Aprovado em: 23/11/2016

 

Sobre a autora

Vanessa Campos Santoro
Psicóloga.
Psicanalista.
Sócia do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

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