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Reverso

versão impressa ISSN 0102-7395

Reverso vol.40 no.75 Belo Horizonte jan./jun. 2018

 

EDITORIAL

 

A escrita na psicanálise tem sua origem no seio da clínica, na palavra livremente associada do analisante, entrecortada pelo silêncio e por seus tropeços que marcam a emergência do inconsciente, assim como nos sonhos, nos lapsos e nos atos falhos, e no desconforto denunciador do sintoma.

E o analista, ao tomar o produto extraído de sua prática, recorrendo aos seus pressupostos teóricos, faz da palavra escrita uma tessitura a ser compartilhada, acolhida ou rebatida pelo leitor, como todos aqueles diante de mais uma coletânea como esta que agora exibimos.

Eis aqui a revista REVERSO n.º 75, que vem à luz justamente no início do ano em que o CPMG completa 55 anos de sua fundação. É indispensável confessar a alegria e o orgulho que provoca em todos nós a constatação de que este veículo de transmissão e difusão da psicanálise surgiu ao longo desse tempo, há exatamente 32 anos!

Durante esse percurso, passando por inúmeras mudanças de formato e tiragem da edição, pela ascensão progressiva em sua indexação, a REVERSO foi se firmando cada vez mais como o cartão de visita de nossa casa, onde se expõe a produção de nossos associados e de autores convidados do Brasil e do exterior. Daí, o esforço despendido pela instituição de manter viva essa chama, através de uma Comissão de Publicação, jamais cogitando tirar-lhe o brilho, em que pesem as dificuldades de natureza variada para manter sua qualidade e distinção, a serviço da propagação da psicanálise.

Graças a esse trabalho infatigável da escrita da psicanálise, nossa revista, obra têxtil em papel, forma rara em nossos dias, se fortalece cada vez mais e contribui para a difusão do saber psicanalítico na teoria e na clínica.

Paolo Lollo, psicanalista italiano, radicado na França aceitou o convite de publicar neste número e nos contemplou com um trabalho instigante, Os ofícios impossíveis e o chamado do real. Partindo da colocação de Freud a respeito dos três ofícios denominados por ele como impossíveis, o autor toma os modos lógicos aristotélicos aplicados à psicanálise por Lacan e se interroga como sair da impossibilidade armada pelo Real, que impede toda a escritura. E sustenta essa saída através de um estudo que se abre para os mistérios do alfabeto hebraico, a partir de sua origem na letra Aleph.

Este número da revista REVERSO prima pela falta!

Esta já se estampa na capa, criação primorosa de Thiago Mendes para o folder da última Jornada e cedida pelo artista para anunciar aos olhos este número de nossa revista.

É ndispensável/É importante/Vale registrar que esse tema foi inspirado por um artigo de nosso saudoso sócio Antônio Ribeiro, cujo texto A falta está fazendo falta, publicado em 1994, mantém a atualidade da época de sua criação até nossos dias, assegurando esse conceito fundamental sustentado pela psicanálise, inerente à constituição do sujeito e indissociado do mal-estar na cultura – a falta.

É ela, a falta, que perpassa inúmeros artigos aqui contidos, cada um direcionando o olhar a um enfoque específico para abordar esse conceito Uma prova evidente da importância da temática da falta é que ela ainda ressoa entre nós desde a XXXV Jornada, realizada em 2017, resultando em excelentes trabalhos a propósito, já publicados no número anterior, além de outros, igualmente contribuintes, que trazemos agora nesta edição.

Quando falta palavra – é o título da elaboração de Marli Piva Monteiro a respeito da palavra, cuja importância já se fez na criação da psicanálise e é o sustentáculo desse processo, mas diante de sua falta, mostra como o analista se vale da contratransferência, recurso bem demonstrado em sua própria experiência e através de inúmeros autores pós-freudianos.

Já Maria Pompéia Gomes Pires percorre dos primórdios da constituição do sujeito em Freud e Lacan até sua nomeação, partindo de uma questão inaugural: por que a falta? Usando de referências fundamentais ao Nome-do-Pai, esclarecendo a estruturação do nome próprio em psicanálise, nos traz o texto A falta e o nome.

A falta que consome, de autoria de Eliana Rodrigues Pereira Mendes, é um retrato marcante e revelador dos desvarios do consumismo em busca do prazer a qualquer custo, uma das marcas incontestes dos tempos atuais diante da dificuldade do sujeito se haver com a falta. Daí a busca incessante de seu tamponamento, sempre com o risco de apagamento desse sujeito consumido pela falta.

Em Dimensões clínicas da angústia, Vanessa Campos Santoro faz um apanhado do surgimento da teoria da angústia no pensamento freudiano, em suas etapas de elaboração e a releitura lacaniana. O texto é enriquecido por fragmentos da clínica, percorrendo quadros ilustrativos de histeria, neurose obsessiva e fobia, e pânico, trabalhados à luz dos conceitos expostos.

Gilda Vaz Rodrigues criou em seu texto O último Lacan um espaço valioso de reflexão a respeito do legado de Freud e Lacan na condução do trabalho psicanalítico e, diante do impasse inevitável, diante do Real, o apelo a três recursos da teoria lacaniana: a lógica do matema, a topologia e a lógica do poema.

Incerteza e esperança: a psicanálise é o título de uma reflexão de Ana Maria Portugal sobre o saber em psicanálise, a partir das dificuldades certamente encontradas por seu criador Freud diante daquele saber vigente em sua época. Ainda assim, ele sustentou sua aproximação da ciência, ao contrário de uma Weltanschauung especial, como demonstra a autora, como campo de desafios e pesquisas.

Realizando um rico percurso pela obra freudiana e explorando as possíveis relações entre A psicose, o sexual e a linguagem, título de seu trabalho, a partir daí, os autores Adriano Vieira de Morais e Paulo Roberto Ceccarelli, ao estudar a etiologia da psicose destacam as manifestações dessa estrutura com o sexual, perpassadas pela linguagem.

A morte de Deus, o pai da horda primeva e o interdito. Esse é o título do trabalho realizado por Bernardo Sollar Godói e Sidnei Vilmar Noé, provocado pela inversão lacaniana de uma frase atribuída a Dostoievski, apoiando-se os autores no mito freudiano do pai primevo, a respeito da morte de Deus e suas consequências.

Edson Santos de Oliveira aborda uma questão muito emergente na atualidade que é o fundamentalismo religioso e suas consequências. Fundamentalismo religioso, narcisismo negativo e desamparo: algumas reflexões é o título com que o autor desenvolve um estudo sobre a religião, na óptica da psicanálise e a aproximação com a poesia e o zen budismo.

Finalmente, este número é encerrado com duas importantes matérias constituídas pelos discursos de mudança de nossa Diretoria.

Juliana Marques Caldeira Borges deixa o cargo, depois de conduzir nossa instituição durante três anos, com a parceria de colegas, como ela, altamente dedicados à função, podendo-se afirmar com certeza que deixaram as marcas de uma tarefa muito bem-sucedida. E, como despedida de seu mandato, nos deixou a seguinte afirmação realista e, ao mesmo tempo, encorajadora: Há ainda muito por fazer, uma vez que nosso desejo não finda nunca!

A nova presidente do CPMG, Guiomar Antonieta Lage e todos os colegas que compõem sua equipe de trabalho, são muito bem-vindos à função e contam com a participação de todos os sócios no trabalho institucional. Como ela afirmou poeticamente, Vida, vento, vela, leva essa diretoria a construir caminhos... não recuando... fazendo tessituras... com a ética e a responsabilidades necessárias e exigidas na formação de analistas, possibilitando através das múltiplas formas do desejo de saber, o qual é verdadeiro laço entre os analistas, as trocas entre os pares.

Cada edição desta revista se faz, em especial, graças à participação de nossa revisora Dila Bragança de Mendonça, de Edna Malacco de Resende, secretária do CPMG, de Valdinei do Carmo, responsável pelo projeto gráfico e formatação, e da gráfica O Lutador.

Por fim, vamos registrar nossa imensa satisfação pelo trabalho em parceria com os colegas que compõem a Comissão de Publicação, que sob a coordenação primorosa e eficiente de Mazzarello Cotta Ribeiro é composta além de nós, por Ana Boczar, Eliana Mendes, Paulo Ceccarelli e Marília Brandão que, para nossa satisfação, a partir deste ano veio se juntar ao grupo.

Muito obrigado aos autores e leitores!


Carlos Antônio Andrade Mello

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