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Reverso

Print version ISSN 0102-7395

Reverso vol.40 no.75 Belo Horizonte Jan./June 2018

 

O ESPAÇO DA FALTA

 

A falta e o nome

 

The lack and the name

 

 

Maria Pompéia Gomes Pires

I Círculo Psicanalítico de Minas Gerais

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo trata da importância do termo “falta” na estrutura psíquica e suas consequências. Trata do que é a expressão “Nome-do-Pai” e seus efeitos na organização da psique. Trata do que é o “nome próprio” em psicanálise, como consequência do que foi exposto acima.

Palavras-chave: Falta Nome-do-Pai, Nome, Pai, Nome próprio, Falasser, Falo.


ABSTRACT

This article deals with the importance of the term “lack” in the psychic structure and its consequences. It deals with what is the expression. “name of the father” and its effects on the organization of the psyche. It deals with what is the “proper name” in psychoanalysis, as a consequence of the above.

Keywords: Lack, Name of the father, Name, Father, Proper Name, Falasser, Phallus.


 

Começamos com a pergunta: Por que a falta? Por que se diz que o ser falante (falasser) é um ser de falta?

Começando do início:

Ao nascer, o infans é submetido a uma situação traumática: trauma do nascimento. Puro desprazer, angústia sem nome. Seu organismo é submetido a um ambiente outro que não o útero materno, natural a ele. Na sua expulsão do núcleo homeopático, o grito é a primeira manifestação, já esperada. Então, o que é entendido comumente como a imersão em um ninho acolhedor, é vivido como espanto e dor.

Há, nesse momento inaugural, indiferenciação entre um suposto “eu” e o mundo externo, entre um suposto “eu” e uma suposta “mãe” (aquela que cuida) - pertencendo os dois a uma única célula narcísica (narcisismo primário). Os cuidados maternos, em sua alternância presença/ausência, instalam no bebê um enigma: É? ... O que é?... Sou?...

Tudo? Afirmação - “Bejahung” - afirmação primordial, campo do ser de representação - É.

Nada? Expulsão - “Austossung” - campo da negação para a inexistência - Não.

Lei louca a lei materna.

No entanto, nessa presença-ausência, a mãe cria a temporalidade - é... não... é... não... e na temporalidade a emergência de um lugar terceiro. Lugar do pai, a ser ocupado ou não.

É chamado Nome-do-Pai ao surgimento de seus efeitos:

Chama-se Nome-do-Pai ao acontecimento estrutural da incidência do significante fundamental (Φ) falo, no campo gozoso - mãefilho - incidência radical e traumática, que promove a separação mãe-filho e a fundação de um novo ser a ser nomeado.

Entre o sim e o não (Bejahung-Austossung) se introduz o falo como significante da falta, significante puro, sem significação, criação ex-nihil - faz emergir o Um.

Há Um que diz não à célula narcísica. Faz surgir a falta onde era um todo narcísico. Um que promove o recalque primário. Onde não havia ausência de inscrição, nomeada por Freud núcleo da pulsão de morte e em Lacan o Real, surge o Um, representação que se liga à pulsão, significante que se liga ao gozo.

Corte chamado falo.

Corte chamado castração.

Corte que produz a fundação do inconsciente e o sujeito enquanto sujeito do inconsciente ou sujeito do significante.

Aí temos o Nome-do-Pai como significante da função paterna e o Nome-do-Pai como o significante do desejo materno.

Assim, vemos que é a mãe que possibilita a entrada do Nome-do-Pai, tornando possível a passagem da lei louca à lei normativa enquanto ordenação, pois castração = lei.

Aqui, não no sentido da norma social, mas no sentido da lei do significante, lei do funcionamento do inconsciente enquanto inconsciente simbólico.

Em Freud: condensação e deslocamento

Em Lacan: metáfora e metonímia promovendo a formação e o deslocamento das cadeias associativas e a emergência do pensamento. Aí está a “metáfora paterna” na substituição da mãe louca pelo pai da lei.

Então: falo Φ... fala...

Emergência do falasser.

Aí dizemos: “Que falta faz a falta”!

Desse acontecimento da emergência do falo no corpo de gozo um outro fenômeno se produz, de importância única: há a queda de um resto de gozo, caído do corpo gozoso, não assimilado pelo significante.

Resto de puro gozo nomeado por Lacan - objeto a - resto da operação significante.

O objeto a é a causa do desejo nos dois sentidos:

• Causa do desejo, de sua inauguração no aparelho psíquico, quando exposto a um significante;

• Causa do desejo de ... outra coisa ... outra coisa ... indestrutível.

Voltando Nome-do-Pai:

Significante da função paterna, elemento, como vimos, que promove a emergência do sujeito do inconsciente.

Passamos agora do Nome-do-Pai como pai do nome.

Pai é aquele que nomeia o filho retirando-o do anonimato.

Aquele que nomeia é pai, independentemente da paternidade natural, independentemente do sexo.

Pai do nome, do nome próprio.

Mas o que é nome próprio para a psicanálise?

Todo indivíduo tem dois nomes próprios:

• O patronímico, transmitido através das gerações, tem a marca da genealogia e é diretamente transmitido pelo Outro. Junto ao nome próprio, há o nome individual, que guarda uma qualidade específica: se inscreve como uma escolha, escolha de quem nomeia, escolha essa determinada pela fantasia, estigma do desejo do Outro. Traz os restos de seus desejos vividos em relação àquele que chega: o filho.

• O nome sinthoma: trata-se do nome, reservado para cada ser que o ocupa, do que há de impensável, não inscrito no significante.

Enlaça um desejo a um tipo específico de gozo (). Como é forcluído da fala, o gozo aparece no processo analítico através da repetição.

E no processo de associação livre o sujeito espera, na sua pergunta “Che vuoi?” o seu encontro impossível por faltar um ao Outro ().

Como diz J.-A. Miller (1984), “por trás do fantasma não há nada”.

Em Freud, o rochedo da castração.

O nome sinthoma expressa o ponto limite no qual o sujeito pode se reconhecer e se nomear por esse encontro singular e único de um certo desejo com um certo tipo de gozo, constituindo o nome fantasmático.

Lacan, em seus seminários O sinthoma ([1975-1976] 2007) ou Nomes-do-Pai ([1936] 2005) nomeia o quarto elemento, acrescido ao nó borromeu RSI, como o elemento responsável pelo enodamento corpo (I) gozo (R) e inconsciente (S).

Todos os defeitos e efeitos do sujeito são efeitos do seu nome próprio, nome sinthoma.

O nome próprio é um nome impredicável, impresso sobre um sujeito que vai falar, não de forma obrigatória, pois é sua a fala, marca que o distingue de todos os outros.

Embora o sujeito seja representado por seus significantes, a eles não se reduz. O que ele é em si mesmo, só o recalque primário responderia... Se ele falasse...

Em outros termos, o simbólico faz furo no real, furo indestrutível. Na linguagem psicanalítica esse furo no real tem um nome: a Coisa, objeto perdido para sempre. Na linguagem comum, Deus...? Causando o ser para a morte.

Desse furo emerge o objeto a e, diz Lacan, cospe Nomes-do-Pai.

Para fazer face a esse furo, se apresentam o pai sinthoma e o nome próprio.

É por um dizer que o pai sinthoma funda o sujeito, um dizer de nomeação implicando na sua identidade.

É da ordem da existência.

É necessário frisar que esse dizer é também da ordem da contingência e está disjunto da conjuntura das gerações, da conjunção dos corpos e da boa ordem do cotidiano. Pode ocorrer a qualquer momento.

Daí se indagar se, sendo da ordem da contingência, pode oferecer uma esperança de cura para o psicótico.

Trata-se de um dizer existencial, da ordem da existência e pode não ter a ver com qualquer pai que seja.

É importante salientar que a nomeação é indissolúvel do laço social. O nome que indica a identidade é recebido e, mais, produzido no laço social. Como exemplo: Joyce, o artista.

Então, a nomeação é um dizer, através do enodamento pelo quarto elemento do nó, que enoda as três consistências RSI e causa o nome sinthoma dentro de um sentido social.

A nomeação faz o Um do falasser, sua identidade de gozo, a se distinguir do dois (S1...S2...) em sua apresentação sempre equívoca, sempre semblant .

Segundo Colette Soler (2012), não é a família que faz o nome do pai mas é o Nome-do-Pai que faz a família, promovendo a união de seus escolhidos.

Assim, os psicanalistas poderiam passar sem o apego à família tradicional o que, muitas vezes, provoca a negação de singularidades outras.

 

Referências

FREUD, S. O ego e o id (1923).In: ______. O ego e o id e outros trabalhos (1923-1925). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 27-71. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 19).

LACAN, J. O seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Vera Ribeiro. Versão final de Angelina Harari. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. (Campo Freudiano no Brasil).

LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Sérgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. (Campo Freudiano no Brasil).

LACAN. J. Introdução aos Nomes-do-Pai (1936). Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. p. 56-87. (Campo Freudiano no Brasil; Paradoxos de Lacan).

MILLER, J.-A. Dos dimensiones clínicas: Síntoma y fantasma. Fundación del campo freudiano en Argentina. Buenos Aires; Manantial. 1984.

SOLER, C. Lacan, o inconsciente reinventado. São Paulo: Companhia de Freud, 2012.

 

 

Endereço para correspondência:
E-mail: pompeiapires@hotmail.com

Recebido em: 27/02/2018
Aprovado em: 16/03/2018

 

Sobre a autora

Maria Pompeia Gomes Pires
Psicóloga.
Psicanalista.
Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

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