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versão impressa ISSN 0102-7395

Reverso vol.42 no.80 Belo Horizonte jul./dez. 2020

 

PSICANÁLISE E ARTE

 

Da fala ao canto e ao invés: lalíngua e o real do inconsciente

 

From speech to song and back again: lalangue and the real of the unconscious

 

 

Bernardo MaranhãoI; Guilherme Massara RochaII

IMestre em Teoria do Direito (PUC-Minas). Doutorando em Psicologia - área de concentração Estudos Psicanalíticos (UFMG). E-mail: maranhao.bernardo@gmail.com
IIDoutor em Filosofia. Filiado à International Society of Philosophy and Psychoanalysis (ISPP) e à Fédération Européenne de Psychanalyse (Fedepsy). Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Fafich-UFMG. E-mail: massaragr@gmail.com

 

 


RESUMO

Este artigo discute a fórmula "o inconsciente é o mistério do corpo falante", proposta por Lacan em seu seminário Mais, ainda. A discussão aqui apresentada parte da consideração, lastreada no conceito de lalíngua, de que há continuidade entre a fala e o canto.

Palavras-chave: Gaia ciência, Real, Inconsciente, Lalangue, Parlêtre, Canção.


ABSTRACT

This article discusses the formula "the unconscious is the mystery of the speaking body", proposed by Lacan in his seminar Encore. The discussion presented here starts up from the consideration, based on the concept of lalangue, according to which there is continuity between speech and singing.

Keywords: Gaia science, Real, Unconscious, Lalangue, Parlêtre, Song.


 

 

"O inconsciente é o mistério do corpo falante". Extraída do seminário de Lacan ([1972-1973] 1985) por Jacques-Alain Miller e Miquel Bassols para servir como tema de um congresso (Bassols, 2015; Miller, 2015), essa frase é expressiva quanto às reformulações conceituais empreendidas por Lacan nos últimos anos de seu ensino, as quais refletem uma orientação rumo ao real.

O que nos propomos neste artigo é pôr em discussão essa frase lacaniana a partir da consideração, lastreada no conceito de lalíngua, de que há continuidade entre a fala e o canto. Pretendemos, por meio dessa discussão, avançar na tarefa de circunscrever esse ponto de real, que corresponde ao modo como a língua ressoa no corpo produzindo efeitos de gozo e que provê, no parlêtre, ou seja, no corpo falante, a união entre a consistência imaginária do corpo e a dimensão simbólica da palavra. Tratamos também, ao final do artigo, de indicar os caminhos que vislumbramos na obra de Lacan para um possível esclarecimento da maneira como se passa a conceber a interpretação em análise quando se descreve como corpo falante o inconsciente.1

*

"Todos entoam". Essa expressão, espécie de marco da obra do estudioso da canção brasileira Luiz Tatit (2007), é um modo de enunciar a noção de que o canto antecede a fala e, em grande medida, a abarca. Sob a rubrica do entoar, a fala e o canto são tomados em uma relação de continuidade, mais do que de mútua distinção.

Ordinariamente, a dimensão do canto presente na fala fica recalcada sob o efeito da significação daquilo que é dito: "Que se diga fica esquecido detrás do que se diz no que se ouve", dirá Lacan ([1972] 2003, p. 448) em O aturdito.

Há, no entanto, contextos de uso da palavra que promovem o retorno desse recalcado. Assim, quando ouvimos alguém falar numa língua que nos é desconhecida, somos capturados pela voz desse alguém, por sua maneira de entoar uma fala cujo significado não alcançamos (Vivès, 2012). Se nos tornamos aprendizes dessa língua, temos a impressão de reviver, em certa medida, a experiência infantil, própria do aprendizado da língua materna, de exposição do nosso corpo à materialidade fônica - e também gráfica, sobretudo se se tratar de uma língua atrelada a um outro sistema de escrita - dos significantes. E, mesmo se nos tornamos falantes cotidianos dessa língua estrangeira, conservamos a prosódia de nossa língua de origem (Melman apud Vorcaro, 2017).

A experiência de ouvir a própria voz gravada também pode ter esse condão de inverter a relação figura-fundo entre o dito e o dizer, isto é, entre o significado daquilo que se diz e "[...] aquilo que, do significante, não concorre para o efeito de significação" (Miller, 2013, p. 6) - para retomar uma definição lacaniana da voz.

O processo por meio do qual nos inserimos na linguagem é objeto de um esforço de anamnese em A regra do jogo, de Michel Leiris. Esse texto, observa Jacques-Alain Miller, opera uma tentativa de descrição do modo como o sujeito habita a linguagem antes de ser alfabetizado e põe em destaque a figura dos "monstros orais":2 expressões verbais resultantes de vínculos que fogem à ordem lexical, com

[...] interferências, assonâncias, recortes singulares, sendo que a frase mais banal pode tornar-se, porque se a escuta de forma enviesada, a sentença mais obscura que jamais possa ter escapado dos lábios do oráculo (Miller, 2012, p. 13).

Os monstros orais são associados por Leiris ao efeito das canções, ao charme das canções em que há um jogo entre letra e música, canções nas quais

[...] se amalgamam, em enigmas insolúveis, ritmo, conteúdo sonoro, valor significativo das palavras, melodia. As frases embebidas de música adquirem um fulgor especial, que as separa da linguagem comum com a aura de um prodigioso isolamento (Leiris apud Miller, 2012, p. 13).

A presença do canto na fala, a res-surgência da voz desde seu lugar "detrás do que se diz no que se ouve", a zona de indistinção entre os termos lexicais na língua ouvida pela criança ou pelo estrangeiro, com a proliferação de equívocos e de "monstros orais", tudo isso é pertinente ao universo - ou à galáxia, dirá Haroldo de Campos - que Lacan designa como lalíngua.

Nomeadamente, compõem a galáxia de lalíngua a "sonata materna" (Quignard, 1996; Didier-Weill, 1999, p. 9), sentida pelo bebê ainda in utero e, depois, entoada pela mãe paralelamente aos primeiros cuidados do corpo; a lalação, o balbucio do infans; o modo como os sons das palavras nos afetam, pondo em jogo a multiplicidade dos equívocos possíveis; o gozo cotidiano da fala, acentuado em formas como a poesia oral, o rap e a canção, e na tagarelice, inclusive naquela que se dá em análise.

Em suas elaborações sobre o processo de constituição do sujeito a partir da pulsão invocante, Alain Didier-Weill (2011) comenta a cena descrita por Freud do garotinho jogando com um carretel. O autor destaca dessa cena o aspecto do gozo vocal, bem como a sensibilidade das fronteiras entre o canto e a fala. O autor se pergunta por que Freud, ao observar o enleio de seu neto nesse jogo, ouvia "OA" em vez de "A-O". Essa antecedência do "O" em relação ao "A" decorrería, no dizer de Didier-Weill, de uma íntuíção de Freud quanto à antecedência do som em relação ao sentido. Isso porque,

[...] antes mesmo de compreender a alternância do sentido (ausência-presença), ele ouvira, através dessas duas vogais, a alternância por meio da qual o som é promovido à existência pelo ritmo musical (Didier-Weill, 2011, p. 11).

A percepção do som, indica Didier-Weill, tem como pressuposto uma pulsação rítmica que se funda sobre um tempo inaugural, um "começo absoluto", tempo primeiro sem o qual não se concebe e não se espera um segundo tempo.

Penso que é a possibilidade de reconhecer essa coisa primeira - isso por meio do qual a pulsação do tempo pode indefinidamente recomeçar se autorizando apenas por si mesma - que leva Freud a ouvir, desse filho da linguagem que era seu neto, a existência de um começo absoluto, não na vogal "A", mas na vogal "O".

A passagem do par "O-A" ao par "Fort-Da" coloca esta questão: como passar do canto à fala. Antes de falar, seria o humano levado - como já o supunha Jean-Jacques Rousseau - a cantar? (Didier-Weill, 2011, p. 11).

Trata-se, para o autor, de compreender a passagem do som contínuo da vogal que sustenta o canto ao som descontínuo introduzido pela consoante. É a consoante que dá nascimento à palavra por meio da qual, ao dizê-la, o sujeito em devir se extrai do reino exclusivo do som para se expor ao reino do sentido. A passagem do par sonoro "O-A" ao par fonemático "Fort-Da" é resultado de uma mutação que se traduz por uma inversão: o começo absoluto que se dá com a palavra "Fort" é o sentido de uma ausência originária (o recalcamento originário), ao passo que o começo absoluto que se dá com a vogal "O" é, inversamente,

[...] a presença da existência de um primeiro tempo procriador de uma busca rítmica fundando o sujeito a se constituir como um eterno buscador (Didier-Weill, 2011, p. 12).

O operador dessa inversão, diz o autor, é o recalcamento originário, aqui compreendido como

[...] um esquecimento radical do som primordial: esse esquecimento permite fundar o sentido a partir do ausente (Didier-Weill, 2011, p. 12).3

O jogo do carretel, acompanhado da nomeação alternada da ausência e da presença, não produz um conhecimento sobre a ausência, mas um reconhecimento:

[...] ele [o neto de Freud] reconhece que essa ausência do carretel simboliza uma ausência inteiramente outra, aquela pela qual o Outro fez sua retirada, desde o esquecimento do recalque originário (Didier-Weill, 1999, p. 73).

Além de se prestar a essa operação simbólica, o jogo do carretel, vale recordar, serve ao gozo vocal, ao gozo de lalíngua, na fronteira indivisa entre a fala e o canto.

Os estudos de Betânia Parizzi (2009) sobre o canto espontâneo em crianças e bebês caracterizam como canções boa parte do balbuciar e da fala dos primeiros anos de vida e destacam o papel fundamental que essa criação cancional desempenha na aquisição da linguagem e no desenvolvimento da percepção do tempo pelas crianças. A autora observa que a interação vocal entre adultos e bebês se reveste de características marcadamente musicais. Pais e bebês, indica Parizzi, compartilham um "alfabeto pré-linguístico", que se caracteriza por contornos melódicos, alterações de timbre e de altura, acentuações, mudanças de intensidade, padrões temporais e rítmicos específicos.

Esses recursos, tão próprios da música, são utilizados tanto na fala dirigida aos bebês quanto nos sons vocais produzidos por essas crianças (Parizzi, 2009, p. 109).

A maneira como o infans recebe o discurso, observa Colette Soler, é menos da ordem do aprendizado que da impregnação. A voz do Outro não se assimila; ela se incorpora.4 Citando Lacan, a autora recorda que

[...] o inconsciente foi a maneira que teve o sujeito de ser impregnado pela linguagem, de trazer-lhe a marca (Lacan, 1975 apud Soler, 2012, p. 45).

E destaca que essa noção de impregnação exclui o domínio, a apropriação ativa, a discriminação. Há, não obstante, uma "bizarra sensibilidade", da qual resulta que o sujeito, antes mesmo de poder articular sua fala,

[...] reage corretamente a expressões complexas, que, no sentido próprio, ele não compreende e não sabe manejar (Soler, 2012, p. 45).

Dessa permeabilidade à alteridade de lalíngua, a isso que Lacan denomina a chuva da linguagem, recebida pelo infans como o fluir de um continuum sonoro, permanecem alguns detritos, destroços, depósitos.

No dizer de Lacan,

[...] é pelo modo como lalíngua foi falada e também ouvida por tal ou qual em sua particularidade, que alguma coisa em seguida reaparecerá nos sonhos, em todo tipo de tropeços, em toda espécie de modos de dizer (Lacan, 1975).

Nisso reside, ainda nas palavras de Lacan, a moterialidade5 do inconsciente, que condiciona o modo como cada um dá sustento ao seu sintoma. A esse respeito, comenta Colette Soler:

Com a moterialidade, estamos aquém da distinção significante/significado, pois os sons que se distinguem uns dos outros precedem o sentido no ouvido, la, la, la, como o um precede os alguns dois da cadeia. Por isso, os uns enigmáticos que subsistem da canção do ouvido têm um efeito direto ao se conjugarem com o enigma do sexo. Não há pré-verbal no falante, Lacan martelou muito isso, e sim pré-linguagem no sentido da sintaxe. A canção - ou melhor, a "melodia" - dos pais não é a mensagem do Outro e o excede como o inconsciente-lalíngua excede o inconsciente-linguagem (Soler, 2012, p. 47).

No que concerne ao balbuciar que antecede a efetiva entrada do sujeito na linguagem, os estudos de Jakobson dão conta de que, no período que o autor denomina "o ápice do balbucio", o infans pode, sem o menor esforço, produzir qualquer som contido nas línguas humanas:

Em seus balbucios, uma criança pode acumular articulações que nunca serão encontradas em uma única língua, ou mesmo em um grupo de línguas: consoantes com os mais variados pontos de articulação, consoantes palatalizadas e redondas, sibilantes, fricativas, cliques, vogais complexas, ditongos e assim por diante (Jakobson, apud Heller-Roazen, 2010, p. 7).

Com a efetiva entrada na linguagem, esse potencial fônico ilimitado dos vocalises infantis é perdido, não gradativamente, mas de forma abrupta. O autor relata que, conforme reconhecido com grande espanto por todos os observadores,

[...] o bebê perde praticamente toda a sua habilidade para produzir sons quando passa do estágio pré-linguístico para a primeira aquisição de palavras, ou seja, ao primeiro estágio genuíno da linguagem (Jakobson apud Heller-Roazen, 2010, p. 8).

Muito mais espantoso, observa Jakobson, é que

[...] muitos dos sons comuns ao seu balbucio e à língua do adulto também desaparecem do repertório da fala da criança nesse estágio; somente nesse ponto se pode dizer que se inicia a aquisição de uma língua particular (Heller-Roazen, 2010, p. 8).

A pergunta que Daniel Heller-Roa-zen (2010, p. 8) se coloca é: "o que acontece nesse ínterim?" O autor tece, então, a hipótese de que seria necessário, como requisito para a aquisição da linguagem, um ato de esquecimento, que ele qualifica não como amnésia linguística, mas como amnésia fônica,

[...] já que aquilo que o bebê parece esquecer não é a língua, mas uma capacidade aparentemente infinita para uma articulação indiferenciada (Heller-Roazen, 2010, p. 8).

A perda de um arsenal fonético ilimitado, sugere Heller-Roazen, seria o preço que caberia à criança pagar para obter a cidadania em sua comunidade linguística.

Um outro modo de nomear esse processo é referir-se à muda, como faz Pascal Quignard em seus ensaios e romances. Sugere o autor que o humano passa por dois períodos de muda em relação à sua voz. A muda mais comumente reconhecida se dá com a mudança de timbre e extensão - e a consequente perda dos agudos - que marca a entrada do menino na adolescência,6 e é vivida como uma castração vocal. 7 O autor também designa como muda, contudo, a amnésia fônica que marca a primeira infância.

Ao se referir a essa primeira muda, Quignard destaca que ela é precedida por uma sucessão de experiências, primeiro auditivas (desde o útero), depois também vocais:

O ouvido precedeu a voz, durante meses.

O balbucio, o cantarolar, o grito, a voz nos vêm meses e estações antes da língua articulada e praticamente sentida. Era a primeira muda (Quignard, [1987] 2015, p. 27). 8

Ao que nos parece, o que está em jogo nessa primeira muda, nessa amnésia fônica, é o esquecimento do som primordial, a que se refere Didier-Weill a propósito do recalcamento originário. Dito de outro modo, se consideramos o processo de constituição do sujeito sob o ponto de vista da pulsão invocante, a amnésia fônica parece corresponder à preparação de um tempo conclusivo desse processo.

Para se constituir como sujeito e fazer da voz um objeto pulsional, sugere Jean-Michel Vivès, o infans deverá constituir um ponto intrapsíquico que seja surdo à voz primordial. Mais precisamente, ele deverá chegar a distinguir sua própria voz em face da voz do Outro e se tornar um sujeito invocante, isto é, um sujeito capaz, por um lado, de não ser totalmente invadido pela voz do Outro - como ocorre no autismo e na psicose - e, por outro, de sustentar a hipótese de que há um Outro não surdo capaz de escutá-lo.

A constituição desse ponto surdo é efeito de uma operação de linguagem, uma metáfora, isto é, a substituição de um significante por outro em uma cadeia. Trata-se, no caso, de vir a voz do sujeito nascente em substituição à do Outro que o invocou, que o chamou a advir (Vivès, 2012, p. 35-38).

De volta aos estudos de Jakobson, Heller-Roazen sugere, em seu comentário, que todas as línguas trazem, quando faladas, vestígios do balbucio infinitamente variado do qual emergiram. Tais vestígios seriam

[...] apenas o eco de uma outra fala e de algo diverso da fala: uma ecolalia, que guardasse a memória do balbucio indistinto e imemorial que, ao ser perdido, permitiria a todas as línguas existirem (Heller-Roazen, 2010, p. 9).

Essa figura da ecolalia proposta por Heller-Roazen, diz Miquel Bassols (2016), é uma boa ideia para entender lalíngua em Lacan:

Aquilo que habita a língua que falamos, que não é igual à língua que falamos e que subsiste de sua materialidade de gozo no corpo, das ressonâncias que subsistem dessa língua no corpo. Em uma análise, podemos vislumbrar como ressoa lalíngua no corpo do sujeito para além da fonetização a que se submeteu ao longo de sua vida (Bassols, 2016, s.p.).

A nosso ver, as formas de expressão que buscam amplificar essa ressonância de lalíngua no corpo - como a poesia oral, a canção e mesmo o blá-blá-blá cotidiano -parecem querer enfatizar, realçar, a dimensão de gozo que toda fala comporta e comemorar um tempo anterior à primeira muda, um tempo em que o som ainda não fora colonizado pelo sentido.

A propósito desse gozo da fala, observa J.-A. Miller,

[...] o parlêtre é essencialmente o ser que fala de seu gozo, digamos mesmo isso em complemento de objeto direto, o ser que fala seu gozo, o ser cujo gozo é a razão última de seus ditos (Miller, 2009, s.p.).

Com efeito, esse elemento de gozo no uso da palavra, esse real da língua, lalíngua, é o que responde pela continuidade entre a fala e o canto ou, como sugere Mladen Dolar, pela conjunção, na palavra, do significante com o objeto sonoro:

[...] a palavra como um significante, a palavra como um objeto sonoro: como pensamos as duas conjuntamente? [...] O conceito de Lacan para lidar com isso é lalíngua (Dolar, 2006, p. 143).

É ainda lalíngua, concebida como o real da língua e como o elemento de gozo no uso da palavra, que corresponde à união entre o corpo e a fala no corpo falante, que é um outro nome do parlêtre.

Em diálogo com Miller, Bassols retoma a sexta meditação de Descartes, de modo a evidenciar que, na metafísica cartesiana, a união entre a alma e o corpo constitui um mistério que, poupado à dúvida metódica, resta inquestionado.

Na perspectiva lacaniana detalhada por Bassols e por Miller, a união entre a res cogitans e a res extensa, ou seja, entre a substância pensada e a substância corpórea, constitui uma terceira substância, uma substância gozosa, que corresponde ao que Lacan denomina "o mistério do corpo falante". É essa substância gozosa, diz Bassols, que se encontra no ensino de Lacan, a partir do Seminário 20: Mais, ainda, como o significante que se transforma cada vez mais em letra.

É aí que se coloca o problema do real da linguagem, que amarra o corpo imaginário e o simbólico da realidade psíquica. É o real como terceiro que, não obstante, produz uma amarração (Bassols, 2015, p. 14).

Retomando a afirmação de Lacan, no seminário Mais, ainda, de que "o inconsciente é o mistério do corpo falante", a qual Miller (2015, p. 34) reformula como "o real do inconsciente é o corpo falante", Bassols pondera que

[...] o termo 'parlant' na expressão 'le corps parlant' tem o valor daquilo que em gramática se denomina o particípio presente, equivalente, em alguns casos, ao gerúndio (Bassols, 2015, p. 13).

A prevalecer essa interpretação, seria o caso de traduzir le corps parlant por "o corpo falando". Por outro lado, observa o autor catalão, o substantivo "parlante", no espanhol falado na Argentina, tem sentido de "alto-falante", e isso faz recordar, prossegue Bassols, que o lugar onde se ouve alguém que fala não é o lugar de onde esse alguém fala. O autor precisa ainda:

[...] cremos que é o corpo que fala, mas na realidade essa crença pode terminar por ser uma loucura. O corpo é, antes, um alto-falante. É o ser que fala, o ser na medida em que fala com o corpo e é escutado pelo falante (Bassols, 2015, p. 13, grifo nosso).

Caberia ainda acrescentar que, sob a rubrica do entoar, reúnem-se a fala e o canto, com lalíngua de permeio. Assim, o corpo entoando, a partir de um lugar outro que não aquele onde o ouvimos, seria um modo de designar o real do inconsciente.

*

A reformulação do conceito de inconsciente operada por Lacan nos últimos anos de seu ensino não é sem consequência sobre o modo como se concebe a interpretação. O analista, ao levar em consideração os sedimentos de lalíngua, é convocado a fazer intervenções que jogam não com o sentido, mas com o equívoco e o corte, buscando tocar no sintoma como evento de corpo, ao fazer ressoar aquilo que do significante afeta o corpo em sua dimensão de fora-de-sentido. A interpretação, em lugar de visar a verdade, passa a visar o gozo. Conforme destaca Miller:

A interpretação é um dizer que visa o corpo falante, para nele produzir um evento, para passar pelas entranhas, dizia Lacan. Isso não se antecipa, mas se verifica a posteriori, porque o efeito de gozo é incalculável. Tudo o que a análise pode fazer é se acordar à pulsação do corpo falante para se insinuar no sintoma (Miller, 2015, p. 34).

Parafraseando, se não parodiando, essa última frase de Miller, arriscaríamos dizer que tudo que um analista pode fazer é insinuar, na pauta do Sprechgesang do parlêtre, algumas barras de compasso (o corte) e, com ânimo jocoso, notas para um possível contracanto (o equívoco).

Devaneios nossos à parte, dois momentos do ensino de Lacan merecem destaque, a nosso ver, por oferecerem elementos para o debate sobre a técnica de intepretação analítica sob esse novo quadro conceitual, em que à noção de sujeito se sobrepõe a do parlêtre, em que o inconsciente estruturado como uma linguagem cede espaço ao inconsciente que é o mistério do corpo falante.

O primeiro desses momentos se dá em Televisão, quando Lacan articula a ética da psicanálise à ética do bem-dizer e ao gaio saber. O segundo, já no Seminário 24, L'insu qui sait de l'une bévue s'aille à mourre - seminário cujo título já é dado na língua dos pássaros, como convém a um cultor da gaia ciência -, é aquele em que o mestre francês estabelece paralelos entre a interpretação analítica e o fazer poético, com menção específica à escrita poética chinesa.

Retraçar uma e outra dessas duas trilhas talvez seja um bom exercício para quem se propõe exercer nos dias de hoje o ofício de psicanalista.φ

 

Referencias

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Recebido em: 12/05/2020
Aprovado em: 18/09/2020

 

 

1 Este artigo é uma reunião condensada dos achados de uma pesquisa ainda em curso. Trata-se do projeto de investigação "As canções e seus destinos: a voz, a letra, lalíngua", desenvolvido por Bernardo Maranhão, sob a orientação do Prof. Dr. Guilherme Massara Rocha, no âmbito do curso de doutorado em estudos psicanalíticos do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMG.
2 Ver exemplos de monstros orais extraídos da obra de Leiris em O escrito na fala (Miller, 2012). O cancioneiro nacional é fonte de alguns monstros orais famosos, como o da canção Se, de Djavan - "mais fácil apedrejar pôneis em Braille" - ou o de Como nossos pais, de Belchior - "é você que é mal-passado e que não vê". Curiosa coincidência: Noel Rosa denominava "letra-monstro" o texto provisório, com grande carga de nonsense, que utilizava na preparação das letras de seus sambas, para conservar, num tempo em que era difícil dispor de um gravador, a melodia que lhe fora apresentada por seu parceiro Vadico (ver Luiz Tatit, Todos entoam e O século da canção).
3 No original: un oubli radical du son premier: cet oubli permet de fonder le sens à partir de "l'absens".
4 A respeito da incorporação do objeto-voz, diz Lacan: "A voz responde ao que se diz, mas ela não pode responder por isso. Dito de outro modo, para que ela responda, devemos incorporar a voz como a alteridade do que se diz. É bem por isso, e não por outra coisa, que, destacada de nós, nossa voz nos aparece com um som estrangeiro. É da estrutura do Outro constituir um certo vazio: o vazio de sua falta de garantia". No original: "La voix répond à ce qui se dit, mais elle ne peut pas en répondre. Autrement dit, pour qu'elle réponde, nous devons incorporer la voix comme l'altérité de ce qui se dit. C'est bien pour cela, et non pour autre chose, que détachée de nous, notre voix nous apparaît avec un son étranger. Il est de la structure de l'Autre de constituer un certain vide: le vide de son manque de garantie" (Lacan, O seminário, livro 10: A angústia. Sessão de 5 de junho de 1963. Grifo nosso).
5 No original, "moterialité", amálgama de mot [palavra] e materialité [materialidade].
6 Em tempo, sugere Quignard, sem dar mais detalhes, que, do lado das mulheres, a correspondente dessa muda do menino seria a menopausa (cf. Quignard, [1987] 2015, p. 30-33).
7 O único modo de se furtar a essa castração vocal seria substituí-la pela castração de facto, como na tradição dos castrati (cf. Quignard, [1987] 2015, p. 30-33).
8 No original: " L'oreille à précédé la voix, des mois durant. Le gazouillis, le chantonnement, le cri, la voix nous sont venus sur nous des mois et des saisons avant la langue articulée et à peu près sensée. C'était la première mue" (Quignard, [1987] 2015, p. 30-33).

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