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Junguiana

versão impressa ISSN 0103-0825

Junguiana vol.35 no.1 São Paulo jun. 2017

 

ARTIGOS

 

Elaboração das vivências psíquicas: o papel da literatura

 

Psychic experiences' elaboration: the role of literature

 

Elaboración de experiencias psíquicas: el papel de la literatura

 

 

Isabela Paixão Rodrigues*; Fernanda Gonçalves Moreira**

Universidade Federal de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo tem como objetivo explorar como a literatura pode auxiliar na elaboração de vivências psíquicas, não apenas para quem escreve como também para quem lê. Com base nos textos de C. G. Jung sobre psicologia analítica e literatura, e mantendo o enfoque principal no processo criativo e não na interpretação da obra, o presente artigo avalia como diferentes tipos de textos (poemas, letras de músicas e livros) de épocas distintas podem representar conflitos surgidos do inconsciente do autor ou atuar na individuação do leitor.

Palavras-chave: Literatura, processo criativo, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Harry Potter.


ABSTRACT

This article aims to explore how literature can help to elaborate psychic experiences, not only for the one who writes it but also for the one who reads it. Based on Jungian texts on analytical psychology and literature and focusing the creative process not the interpretation of the work, the present article evaluates how different types of texts (poetry, lyrics and books) from different periods can represent a conflict brought from the author's unconscious or act on the reader's individuation.

Keywords: literature, creative process, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Harry Potter.


RESUMEN

Este artículo pretende explorar cómo la literatura puede ayudar a elaborar experiencias psíquicas, no sólo a quien la escribe sino también a quien la lee. En base a los textos junguianos sobre psicología analítica y literatura y con el enfoque principal en el proceso creativo en lugar de en la interpretación de la obra, se evalúa cómo diferentes tipos de textos (poesía, letras de canciones y libros) de distintos períodos pueden representar un conflicto surgido del inconsciente del autor o actuar sobre la individuación del lector.

Palabras clave: literatura, proceso creativo, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Harry Potter.


 

 

1. Introdução

A literatura, também conhecida como sexta arte, é fonte inesgotável de estudos. Os movimentos literários retratam a realidade do período histórico em que estão inseridos, e uma análise detalhada da obra de um autor específico pode dizer muito sobre a vida desse indivíduo ou sua maneira de interpretar a mesma. Esse tipo de interpretação tem como objeto de estudo a arte em si, ou seja, suas considerações artísticas, a essência daquilo que está sendo retratado. Uma outra maneira de considerar e refletir sobre a literatura é direcionando o foco para o processo de criação, ou seja, considerando o impacto da produção de determinada obra, e não a biografia ou a anamnese do artista que a produziu (PALOMO, 2014, p. 40).

Jung realça a importância de que as obras de arte não sejam avaliadas de maneira científica, uma vez que tal ótica induziria um reducionismo prejudicial à total compreensão da obra (JUNG, 1922/2007, par. 108). A obra de arte, de acordo com Jung, é maior do que o indivíduo que a escreve; naturalmente trará características de seu autor, mas também sairá, como Pallas Athene da cabeça de Zeus, formada e pronta a seus próprios moldes (JUNG, 1922/2007, par. 110). Portanto, manter a análise restrita à visão exata e científica, vinculando todo o significado da obra à biografia do artista que a produziu, leva a uma privação de nuances significativas. A arte é maior que seu artista, é livre das estreitezas e dificuldades do que é pessoal, capaz de se desenrolar de apenas um indivíduo e atingir o coletivo, tornando- se parte do mundo interno de inúmeras outras pessoas. Esse caráter a torna muito ampla para uma visão científica; porque se a ciência é o conhecimento e a observação do mundo e de suas transformações, no que diz respeito aos indivíduos e seus processos mentais, a arte é um agente dessas transformações.

Este artigo tem como proposta justamente avaliar como as obras literárias podem ter papel significativo na elaboração das vivências psíquicas e, portanto, na saúde mental daqueles que as produzem. Paralelamente, aquele que ler o produto dessa elaboração, ainda que sem pretensões analíticas ou interpretativas, também será impactado e lidará com questões próprias. As relações entre psicologia analítica e obra de arte descritas por Jung serão exemplificadas com Vinicius de Moraes, Gilberto Gil, Rita Lee, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e a saga Harry Potter, mostrando como cada produção artística pode ter impactado seus autores e consumidores.

A análise inclui também letras de música: ainda que o resultado final seja diferente, o processo de criação tem sobreposições importantes, e as diferenças são cada vez mais tênues. Desde a utilização de trechos de obras na composição de letras – como, por exemplo, a citação do capítulo 13 de Coríntios na música "Monte Castelo", da banda Legião Urbana – até a musicalização completa de uma obra, como a que transformou uma crônica de Arnaldo Jabor na música "Amor e sexo", por Rita Lee (LEE, 2016, p. 255), podemos notar que o processo de escrita literária e de escrita musical não são apenas parecidos: por vezes, são o mesmo. A percepção dos dois processos de criação artística como algo semelhante, talvez até mesmo único, é ratificada pela premiação do compositor americano Bob Dylan com o Prêmio Nobel de Literatura, em 2016.

Portanto, este artigo se propõe a aplicar a teoria que une o processo de criação artística à psicologia analítica e observá-la em prática em diversas obras de variados estilos, pelo ponto de vista do autor, do leitor e, de modo mais detalhado, sobre como a arte se mistura com o mundo interno e o processo de individuação de cada um.

 

2. Aquele que escreve

Esta avaliação começa, naturalmente, a partir do indivíduo em que se inicia a obra literária. Jung considera o autor o "solo" no qual a arte se desenvolve: ou seja, o produto literário carregará características da pessoa que o escreveu, mas também se moldará à própria vontade (JUNG, 1922/2007, par. 115). Ele também faz a distinção entre dois processos criativos: o introvertido, aquele em que o artista controla cada palavra que é colocada no texto, produzindo uma obra mais estética e com significados ocultos menos evidentes; e o extrovertido, em que o artista é sujeito a um produto sobre o qual tem menor controle, expressando sua natureza mais íntima, a qual nunca teria coragem de manifestar conscientemente, resultando numa obra um pouco mais simbólica (JUNG, 1922/2007, par. 111).

Esses dois processos não são necessariamente exclusivos – Jung cita uma situação exemplo de um autor tão absorto em sua obra que sente que tem pleno comando sobre o que produz mas, na verdade, está sendo dirigido pelo inconsciente (JUNG, 1922/2007, par. 113) – e nem mesmo um ou outro é característico de um determinado autor. Na realidade, todo processo criativo parece ter algo de extrovertido e algo de introvertido, em proporções diversas. O interjogo entre introversão e extroversão completaria o processo de elaboração.

Para exemplificar essa diferença na obra de um mesmo artista, seguem dois poemas de Vinicius de Moraes, "A bomba atômica – canto II" e "A rosa de Hiroshima" (MORAES, 1954):

A bomba atômica – canto II
A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!


Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra...
Bomba atômica que aterra!
Pomba atônita da paz!


Pomba tonta, bomba atômica
Tristeza, consolação
Flor puríssima do urânio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do helium
E odor de radium fatal
Loelia mineral carnívora
Radiosa rosa radical.


Nunca mais, oh bomba atômica
Nunca, em tempo algum, jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte demais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!


A rosa de Hiroshima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Os dois poemas não têm em comum apenas o poeta, mas também o tema central – entretanto, diferem diametralmente quanto à abordagem desse tema. A primeira obra tem uma construção que parece mais calculada, sugerindo um processo introvertido, tentando racionalizar o atentado atômico às cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial. Nessa poesia, Vinicius coloca a bomba como assassina também da guerra, um instrumento de paz. A impressão de que foi uma tentativa de elaborar um acontecimento cujo impacto não tinha precedentes é fortalecida pela poesia seguinte, "A rosa de Hiroshima", que é muito mais simbólica e emotiva.

A segunda obra fala com seus leitores por meio de símbolos tanto visuais como significativos. A escolha do termo "rosa" alude tanto à imagem da explosão da bomba como a conceitos mais subjetivos, como a alusão ao feminino, à delicadeza e ao não belicismo. O argumento explorado racionalmente em "A bomba atômica – canto II" pode ajudar a compreender a escolha de uma flor como metáfora para a bomba atômica: esta, como dito no primeiro poema, é uma agente do fim da guerra, e essa promessa, a promessa de paz, é simbolicamente tão bela quanto as rosas.

No entanto, nessa obra mais extrovertida e carregada emocionalmente, Vinicius já contesta essa beleza. As rosas também são as mulheres e crianças que foram feitas vítimas, agora cálidas, cegas e inexatas. Tão cegas e inexatas, é possível argumentar, quanto as pessoas que dispararam o ataque e acreditavam que isso traria a paz novamente, que solucionaria magicamente todos os problemas que haviam culminado naquela guerra.

Acreditar em soluções mágicas é uma tendência natural do ser humano. É, assim como a rosa de Vinicius, hereditária, adjetivo que também tem importante carga simbólica: além da procura por soluções mágicas, é da natureza humana, também, a tendência a conflitos e guerras. A hereditariedade dessas características sugere que a tendência de projetar nos outros a razão e a solução para nossos conflitos faz da "paz" da bomba atômica doente, cirrótica (doença crônica grave associada ao alcoolismo, àqueles que adoecem e eventualmente morrem por não conseguirem deixar a ilusão).

Comparando as duas obras, é perceptível que o inconsciente se manifesta e se impõe apesar das tentativas do consciente de privilegiar a ótica da razão sobre os acontecimentos. Também é perceptível o caminho de elaboração do autor. Em "A rosa de Hiroshima", com o evento traumático melhor trabalhado psiquicamente, é possível ao poeta uma maior aproximação da emoção, sem tantos disfarces ou racionalizações. Se entendermos o conjunto dos poemas como o processo de elaboração de Vinicius, o autor passou pelo processo de introversão e extroversão até chegar a um certo equilíbrio em relação ao tema.

Jung, no parágrafo 448 de Símbolos da transformação, discute que, por meio da introversão, um aspecto arquetípico seria ativado e humanizado, possibilitando a emergência de uma ideia criativa salvadora, para um indivíduo ou para uma comunidade.

A imposição do inconsciente, necessária para o surgimento das obras simbólicas, é chamada por Jung de complexo autônomo, os pensamentos que se formam no inconsciente para, só então, irromperem para a porção consciente do indivíduo (JUNG, 1922/2007, par. 122). Tal conceito é exemplificado