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Junguiana

versão On-line ISSN 2595-1297

Junguiana vol.40 no.2 São Paulo jul./dez. 2022

 

Mano: um ensaio sobre o amor fraterno1

 

"Mano": un ensayo sobre el amor fraterno

 

 

Liliana Liviano Wahba

Psicóloga. Membro Analista da SBPA, São Paulo. E-mail: lilwah@uol.com.br

 

 


RESUMO

O artigo considera o aspecto positivo do arquétipo do irmão, assim como o laço de fraternidade entre as pessoas. No homem, o arquétipo se constela na parceria e na cooperação e como símbolo do Self. Na mulher, ele é vivido, externamente, num relacionamento de apoio e de amor e, internamente, pela força propulsora de seu animus. Culturalmente, a fraternidade e a cooperação são essenciais para se opor à destrutividade imperante.

Palavras-chave: arquétipo do irmão, fraternidade, cooperação, animus, Self.


RESUMEN

El artículo considera el aspecto positivo del arquetipo del hermano, así como el vínculo de fraternidad entre las personas. En el hombre, el arquetipo está constelado en la asociación y en la cooperación y como símbolo del Self. En la mujer se vive exteriormente en una relación de apoyo y de amor e interiormente por la fuerza motriz de su animus. Culturalmente, la fraternidad y la cooperación son esenciales para oponerse a la destructividad imperante.

Palabras claves: arquetipo del hermano, fraternidad, cooperación, animus, Self.


 

 

O arquétipo do irmão traz o laço de fraternidade do qual somos todos, até certo ponto, carentes.

Comecemos com o número 7. Um número mágico, de poder, geralmente benéfico, mas, às vezes, maléfico. São sete os dias da semana, sete planetas, sete graus de perfeição, sete galhos da árvore cósmica sacrificial xamânica. O sete assinala a totalidade das ordens planetárias e angélicas, a totalidade das moradias celestes, a totalidade da ordem moral, a totalidade de energias. É o número da totalidade em movimento, indicando o fim de um ciclo e a renovação. Passagem de um ciclo conhecido para outro desconhecido, desperta a apreensão que vem junto à pergunta de qual será o novo ciclo (Chevalier & Gheerbrant, 1969).

O número 1000 é o número da revelação nos textos de São João, do retorno de Cristo com os justos ressuscitados antes da extinção do mundo. Apesar de a Igreja condenar o entendimento literal desta data, a passagem do 1000 é significativa e levanta temores e esperanças para a consciência humana.

Faltam sete anos para a virada de nosso segundo milênio pelo registro do Ocidente, e a humanidade não pode deixar de indagar-se sobre o significado do tempo histórico e o que foi conquistado. Essa contagem de sete, com seu poder transformador, parece avisar-nos que temos ainda uma chance de apropriar-nos de nossa evolução assumindo a responsabilidade pelo rumo que tomaremos no próximo milênio.

A destrutividade é forte, perturbadoramente desenfreada, em uma crise global de proporções gigantescas. Mais do que nunca, precisamos de coragem, de propósitos firmes e sólidos, de relacionamentos significativos, para ajudar-nos a plantar sementes de renovação.

Entre os arquétipos a constelar para trilhar essa via, um deles nos chama insistentemente, já anunciado na mensagem budista e cristã. Em meio a disputas fica relegado, despercebido; vivências que o fortalecem trazem bem-estar. As famílias que têm irmãos podem reconhecê-lo se estes não se deixarem cegar por invejas e agressões infantis; os que não os têm, podem encontrá-lo com amigos desejosos de participar de um amor desinteressado. É o arquétipo do irmão, o laço de fraternidade do qual somos todos, até certo ponto, carentes.

Como todo arquétipo, tem o seu lado sombrio, muito bem representado nos mitos dos irmãos inimigos; enfocaremos aqui o seu lado luminoso, pois, o outro já foi bastante explorado, e este pode nos guiar na busca de uma saída da violência, da hostilidade, do fastio cotidiano do convívio.

 

Râma: os irmãos fiéis

Râma, herói predileto da Índia, é cantado no Ramayana. É um herói solar, a sétima encarnação de Vixnu, que veio ao mundo para vencer os demônios e restabelecer a pureza religiosa. Sîta, sua esposa, foi a princípio uma divindade da vegetação. O seu rapto equivale ao da deusa grega Perséfone.

O mito conta que o rei Daçaralha fez uma oferenda aos deuses e inseminou suas três esposas, as quais conceberam seres belos e resplandecentes como o Sol. A primeira deu à luz Râma, o mais velho pelo nascimento e o primeiro pela virtude, pela beleza, pela força, semelhante a Vixnu na sua coragem. Da segunda nasceu Bhâratha, homem justo e magnânimo, e da terceira nasceram Lakchamana e Catrughna, de incrível dedicação.

Estes seriam os príncipes que combateriam os demônios, particularmente Râvana, o monstro dos dez rostos, invencível até para as divindades. Râma conheceu a princesa Sîta, nascida diretamente da Terra. Para obtê-la em casamento, ele usou o arco de Xiva, que precisava de 800 homens para ser levantado.

A mãe de Bhâratha teceu intrigas e obrigou o rei a desterrar Râma, a contragosto, pois era obrigado a cumprir, por promessa, dois pedidos da rainha. Râma e Sîta permaneceram 14 anos no exílio, na floresta. Lakchamana acompanhou o irmão para proteger Sîta e velar pelo sono deles. Dirigiram-se para um retiro a fim de adquirir sabedoria (Figura 1).

 

 

No modelo arquetípico do coexistir, cada um procura o outro para, juntos, construírem um mundo significante.

Nesse período o rei morreu e Bhâratha subiu ao trono. Prometeu, diante do túmulo do pai, procurar o irmão. Quando se encontraram, Bhâratha ofereceu o trono, mas Râma queria dedicar-se à oração no meio da floresta. Bhâratha aceitou e levou as sandálias incrustadas de ouro do irmão para deixá-las no trono como testemunho de afeição fraterna. Recebendo-as, colocou-as sobre sua cabeça em sinal de submissão.

Passaram-se dez anos em paz até que os demônios começaram a persegui-los. Râma e Lakchamana lutaram com coragem, mas Râvana armou uma isca com uma gazela repleta de pedras preciosas que atraiu Sîta apesar das advertências de Lakchamana. Sîta foi raptada e mantida em cativeiro até que os irmãos em violentos combates e com ajuda do macaco Hanuman, mataram Râvana e salvaram Sîta (Lamas, 1972).

Este é um belíssimo mito no qual o heroísmo é enaltecido com valores de dedicação, sabedoria, fidelidade e humildade. Lakchamana e Râma são exemplos de cooperação e entrosamento. Sentimentos de inveja ou de cobiça não cabem entre os irmãos; o mal se concentra no mundo dos demônios, a sombra não atinge o amor fraterno.

O simbolismo do trono e das sandálias de ouro traz a sutileza de uma lição contra o excesso de poder e a necessidade de dominar a inflação despertada pelo comando. Pôr as sandálias na cabeça é um ato de humildade e é o sinal de que o rei está a serviço de algo maior do que ele; lembremos que Râma era uma encarnação divina.

A realidade nos traz uma imagem muito diferente do uso do poder, e as confrarias políticas conhecem apenas os irmãos inimigos. Os eventos recentes no Brasil, envolvendo o ex-presidente e seu irmão, sinalizam a doença grupal2.

A revista Psychological Perspectives, de 1992, publicada em Los Angeles, denomina-se Vida e Sombra. Os editores revelam sua preocupação com eventos sociais, especificamente a revolta na cidade decorrente da absolvição de policiais brancos que espancaram violentamente um negro. A intenção dos colaboradores é a de compor uma "revista de consciência global" e de despertar os arquétipos que solidifiquem a solidariedade comunitária3.

Mary Watkins (1992, p. 58) debate o problema cultural do isolamento do eu e o excesso de individualismo. "Apesar de carregarmos um desejo transcendente para a comunidade, não estamos socializados com os instrumentos para criar um sentido tangível de comunidade". O excesso de separatividade e independência destrói o esforço para a intimidade; temendo mostrar vulnerabilidade, estimulamos o poder, a produtividade, o autocriticismo. A psicoterapia devia, segundo a autora, questionar as raízes culturais que isolam o indivíduo.

No seu artigo, Ernest Rossi (1992) discorre sobre o arquétipo da vida e a importância da cooperação na evolução da vida. Ele cita uma teoria moderna da biologia molecular: a matéria se organiza em vida por meio da informação. Na corrente de informação molecular, fases de competição devem alternar com ciclos de cooperação e, sem esta última, a vida não evoluiria. E uma teoria oposta ao Darwinismo Social que postula que a competição é a máquina propulsora da evolução.

Há uma etapa, segundo essa teoria molecular, na qual os gens entram espontaneamente num ciclo de réplicas. Essa etapa exige a cooperação celular para proteger a informação e atingir a concentração necessária para valores estáveis. Somente depois de atingir tais valores, um determinado conjunto de gens pode competir com outros. Em outra etapa se forma um compartimento, uma célula na qual o genótipo evolui. Ocorrem dois modelos, um de competição, favorecendo os mais fortes, e outro de cooperação, com distribuição balanceada entre os fortes e os mais fracos. A cooperação garante uma atividade autoprotetora.

Rossi assinala que esta teoria, que nos remete às origens de nossa organização celular, nos faz pensar em nossa organização social e comunitária com sua dinâmica cooperação-competição, pois é essencial "perseguir ativamente os meios que facilitem a esfera cooperativa e segura para nosso desenvolvimento interior e exterior" (1992, p. 13).

Detivemo-nos neste artigo, apesar de não atender à sua complexidade biológica, a reforçar a tese de que pensadores e cientistas procuram compreender o homem dentro de uma visão mais ampla de sua história social e evolutiva. Na confluência da sociologia, filosofia e biologia, Maturana e Varela (1988, p 245) procuram enraizar na biologia as relações humanas.

Se queremos coexistir com outra pessoa, devemos ver que sua certeza, por mais indesejável que seja para nós, é tão legítima e válida quanto a nossa, porque, como a nossa, essa certeza expressa sua conservação da ligação estrutural num domínio da existência. [...] Um conflito só pode desaparecer se nos deslocarmos para outro domínio onde a coexistência ocorre. O conhecimento deste conhecimento constitui o imperativo social para uma ética humanamente centrada.

Eles vão mais longe ao afirmar que só temos o mundo que criamos junto com os outros e somente o amor nos ajuda a criá-lo. Consideram o amor um integrante ativo da reflexão científica: "O amor é um dinamismo biológico com raízes profundas" (Maturana & Varela, 1988, p. 247).

Os autores acima citados confirmam que as ciências exatas e as ciências humanas andam de mãos dadas, fraternalmente inter-relacionadas. O modelo arquetípico do coexistir é o da fraternidade, pelo qual cada um procura o outro para, juntos, construírem um mundo significante.

Jung (1980) alertou para o risco do isolamento do indivíduo que não se volta criativamente para o coletivo. Posto que a individuação é um processo que retira o indivíduo da coletividade, ele deve devolver a essa coletividade um substituto equivalente por meio de valores, pois o indivíduo que não cria tais valores é um desertor da sociedade. "Somente à medida que o homem cria valores objetivos ele pode e deve individuar" (par. 1095).

 

Os Dióscuros inseparáveis

Zeus, sob a forma de cisne, une-se a Leda e esta põe dois ovos; de um nascem Helena e Pólux, filhos de Zeus, e do outro Castor e Clitemnestra, filhos de Tíndaro (Brandão, 1986). Eles sempre permanecem juntos em todas as aventuras e batalhas. Numa emboscada, Castor foi morto e Pólux, após vencer o inimigo e ganhar o troféu, exclamou para Zeus: "Pai, não me deixe sobreviver a meu querido irmão". Tinha o direito à imortalidade por ser o filho de Zeus e a recusava. Zeus permitiu então que alternassem seus dias juntos no Olimpo e no Hades e, como recompensa de seu amor fraterno, gravou suas imagens entre as estrelas como os Gêmeos. Eram representados em Esparta por duas traves de madeira paralelas unidas por duas transversais (Graves, 1984). O tema dos irmãos inseparáveis, símbolo de cooperação, aparece acrescido de um novo aspecto, um deles é imortal. O mito os une na possibilidade de compartilhar essa imortalidade graças ao amor que os ligava e, assim, sua imagem é levada ao céu. Para nós, configura um arquétipo.

 

O Self universal age em cada ego transitório, quando o efêmero da individualidade se junta à experiência acumulada de outros seres.

Quem é nosso irmão imortal, que pode nos elevar junto com ele por meio da doação amorosa? Seria o Self, como arquétipo que assinala a transcendência do ser humano por meio de sua continuidade no tempo? O indivíduo se une, pelo Self, ao Adão Primordial.

Jung (1978) refere-se ao Anthropos, o homem mais abrangente, mais compreensivo, a totalidade indescritível que consiste na soma de processos conscientes e inconscientes. O Self corresponde à ideia gnóstica do Anthropos. Cristo, para Jung, é símbolo do homem interior completo, ligado ao Homem Original, o Adão Primordial feito de três partes, racional, psíquica e terrena. Cristo seria o segundo Adão (Figura 2).

 

 

Cabe, em outro momento, discutir a masculinidade do Self nesta descrição e a falta do componente feminino no ser original. Na citação abaixo desaparece essa restrição de gênero.

O Self é um arquétipo que expressa uma situação na qual o ego é contido. Pois, como todo arquétipo, o Self não pode ser localizado numa consciência egóica individual, mas age como a atmosfera circundante à qual não se podem fixar limites definidos, seja no espaço ou no tempo (Jung, 1978, par. 257).

Kushner (1990, p. 75), teólogo judeu, descreve o Adão Primordial agindo dentro de nós. "A memória da unidade primordial está registrada nos cromossomos que modelam o nosso corpo. É transmitida inconsciente e geneticamente e, por essa razão, é observável em todo o Universo". Tudo é parte de um só organismo, e cada parte "lembra" de quando estava na grande unidade que não tinha partes. Esse ser primordial é chamado, no judaísmo, Adam Kadmon, um humanoide a partir do qual o Universo começou. O autor utiliza a imagem de um protoplasma de consciência que une a humanidade registrando sua história evolutiva. "Toda a criação é uma pessoa, um ser, cujas células estão conectadas umas com as outras, dentro de um meio chamado consciência" (Kushner, 1990, p. 83).

Na interpretação judaica da criação, o primeiro ser humano e cada ser subsequente podem compreender intuitivamente que são parte do Adam Kadmon, a pessoa primordial. Na psicologia analítica, seria a regência do Self universal, agindo em cada ego transitório, quando o efêmero da individualidade se junta à experiência potencial de outros seres humanos, que já existiram ou que ainda existirão.

O ser primordial, Adão, Cristo ou o imortal Pólux, partilham a sua imortalidade com seus irmãos deixando-os apropriar-se de uma parcela desta psiquicamente. O irmão eterno está dentro de nós e nos transmite sua divina centelha para iluminar nossa finitude.

O mundo é maya, ilusão; envolvidos na grande ilusão da permanência, nosso ego e nosso corpo são extremamente limitados e, sem esse irmão permanente, permanecemos à deriva, totalmente dispersos, sem memória.

 

O irmão e a irmã: as transformações

No conto de Grimm (1882), "Irmão e Irmã", o irmão tomou a irmã pela mão e disse-lhe que, levando a vida que levavam, maltratados pela madrasta, era melhor arriscarem o mundo lá fora. Entraram numa densa floresta e, no segundo dia, o irmão estava com sede. A madrasta, que era uma bruxa, tinha enfeitiçado os riachos.

Quando o rapaz foi beber, as águas murmuraram "aquele que de mim beber, um tigre há de ser". A irmã, assustada, o impediu de beber dizendo-lhe que temia ser depois cortada em pedaços. No segundo riacho repetiu-se o murmúrio, desta vez com aviso de se tornar um lobo, e novamente a irmã o impediu de beber temendo ser devorada.

Já, no terceiro, a voz avisava que aquele que bebesse se transformaria em corço, e a sede dele era tamanha que, apesar dos apelos da irmã, que temia que ele fugisse dela, bebeu a água e se transformou imediatamente. Ambos choraram e a irmã jurou que cuidaria dele e nunca o abandonaria. Amarrou-lhe um cinto de ouro em torno do pescoço e caminharam até uma pequena casa onde viveram muito unidos. Até que, certo dia, o rei do país organizou uma grande caçada na floresta. O ruído dos caçadores, o apelo das cornetas e o latido dos cachorros, excitaram o corço, que queria participar da caçada.

Rogou tanto que a irmã o deixou ir pedindo-lhe que voltasse à noite. Assim também ocorreu no segundo dia, mas desta vez ele foi ferido na pata e um caçador o seguiu até a casa. No terceiro dia, a irmã implorou que não fosse, pois poderia morrer, ao que ele respondeu que também morreria de desejo se não fosse. Desta vez, o rei pediu aos caçadores que não ferissem o belo animal e foi pessoalmente buscá-lo encontrando a moça. Ficou tão enamorado dela que a tornou sua rainha e o corço foi viver com eles, já que a irmã nunca aceitaria uma separação.

A madrasta, ao ouvir as notícias felizes, encheu-se de ódio e planejou que sua horrenda filha, de um olho só, tomasse o lugar da enteada. No momento em que a rainha estava dando à luz enquanto o rei caçava, a madrasta feiticeira disfarçou-se de ama e montou uma armadilha no banho para afogar a jovem. Colocou depois na cama a sua filha, enfeitiçando-a para que parecesse a rainha; somente o olho não pôde ser restaurado. O rei ficou feliz ao voltar e encontrar o filho recém-nascido, mas a bruxa não o deixava se aproximar de sua esposa no claro.

 

A intimidade da irmandade é introjetada como animus amoroso.

Nas noites seguintes, a rainha morta aparecia para amamentar o seu bebê e alimentar o irmão corço. A babá a viu e calou-se por medo, mas, finalmente, contou ao rei a estranha cena. Ele ficou à espreita na noite seguinte, exclamando ao vê-la que era sua querida esposa. Nesse momento, o encantamento quebrou e a rainha voltou à vida.

A falsa rainha foi banida para a floresta e ali devorada por animais, e a feiticeira foi queimada. Após ela se tornar cinzas, o corço retomou sua forma humana, vivendo até o fim de seus dias em felicidade com a irmã.

Os sentimentos desse conto giram em torno do amor, da devoção e do sacrifício. A feiticeira, elemento do mal, movimenta a ação para destruir, mas acaba transformando. O tema do mal, enquanto sombra que traz transformações, é frequente nos contos de fada. O encantamento do corço permite que o rei conheça sua futura esposa. A morte da rainha e sua aparição devotada revelam a armação toda podendo eliminar a madrasta (complexo materno destrutivo). Os personagens envolvidos teriam que sofrer para sair de um estado ideal de pureza e infantilidade, um dos simbolismos possíveis para o olho cego.

Quanto à ligação irmão-irmã, o conto a simboliza; podemos verificar a mola propulsora do vínculo amoroso anímico no psiquismo feminino. De início, é ele quem toma a iniciativa e protege a irmã, tirando-a da casa da madrasta. Representa aquele momento em que a mulher se sente motivada para tomar uma decisão que a tire de um estado de estagnação, associado principalmente ao complexo materno pernicioso (bruxa-madrasta).

A intimidade da irmandade é introjetada como animus amoroso, do qual advém a força suficiente que mostra o caminho de libertação. Note-se que o rei não chega diretamente, a intermediação salvadora se dá via irmão. A mulher vive na paixão uma rendição amorosa e uma entrega que requer até certo ponto uma submissão que pode diminuí-la, mas, na irmandade, ela se mantém inteira; seu ser todo é acolhido pelo outro.

O animus-irmão traz aquela ressonância de intimidade compartilhada e reassegurada, na qual a mulher pode sentir-se plena e única, respeitada e valorizada no seu ser inteiro. Recebe, assim, a força e a coragem para prosseguir sua jornada, sustentada pelo amor e pela autoestima.

No conto, depois desse impulso inicial de proteção, o animus-irmão regride a uma forma instintiva e se vê ameaçado e ferido. Ao adentrar-se na floresta, na psique mais profunda, a mulher encontra as bases instintivas do seu animus que podem destruí-la, criando uma identificação inconsciente com o animus, sem diferenciação. A ousadia, o espírito de aventura, o clamor da caçada despertam a hybris, a transposição de limites do humano.

O corço é um animal de simbolismo solar, assim como o colar de ouro que o mantém vinculado a ela. Para atingir a plenitude desse simbolismo transformador, trazer o animus solar à consciência, a jornada heroica requer enfrentar perigos e desafios sem sucumbir ao estado regressivo animal ou encantado.

A felicidade inicial na floresta, uma fase de acomodação, é quebrada novamente pelo espírito masculino do irmão, agora na sua forma instintiva, animal. Ele não suporta a passividade; deseja a aventura, mesmo que possa morrer nela. A irmã está imbuída pelo cuidado feminino, teme as mudanças, pois estas são arriscadas; ela prefere a situação protegida.

Enquanto a mulher se identificar totalmente com a boa mãe, que deseja segurar e proteger, o espírito solar está impedido de atuar. A imprudência do animus-irmão impele para a aventura da vida e do encontro. O corço sacrificial dispõe-se voluntariamente a esse papel dizendo que a pior morte é a da estagnação.

A caçada é uma atividade tradicionalmente masculina de competição e de destreza, de destrutividade canalizada obedecendo a um instinto poderoso que exige a medição de forças. Aqui, a vontade masculina fala alto; ele subjuga a irmã e clama por sua independência. Entendido como animus, se faz presente por meio de iniciativas arrojadas e de desejos impetuosos que trazem em si o risco e a necessidade intransponível de aventurar-se.

Uma vida passiva representa a morte; não podemos optar sempre pela segurança e somos, em última instância, impulsionados pelo arqueiro que dispara suas flechas a partir de uma região impenetrável, sem saber se iremos sucumbir ou se iremos vencer quando a ação nos chama. Este é o chamado do corço, o seu ímpeto motivador agindo no psiquismo feminino.

A etapa seguinte cabe à iniciativa dela; a redenção final vem pelo amor. O amor do irmão se completou com o amor do esposo e do filho; a mulher atravessou as fases de seu crescimento e está amadurecida para amar. Deixou de ser menina; conheceu a vida e seus desafios e se entrega à doação para o filho e para o irmão.

Curiosamente, a doação não se dirige ao marido; considera-o independente, um outro separado dela. A união com o filho é visceral, ele precisa ser amamentado e nutrir-se dela, e, com o irmão-corço, a ligação é instintivamente indissolúvel. Esta ligação é o modelo do amor fraterno, maior do que as circunstâncias ou eventos ocorridos; é a aliança irremovível, geneticamente impressa, a união que permanece intocada e protegida. O filho e o irmão mantêm a rainha enraizada no seu amor mais instintivo, inquebrável, e é este amor que vai atrair o rei para salvá-la.

O conto nos ensina que a mulher é fortalecida pelo suporte amoroso de seu animus quando conheceu ligações instintivas amorosas que escapam ao ciclo incestuoso dominador. A figura do pai tem sempre um elemento de poder e de autoridade. O irmão é um amado igual, aquele com quem se partilha, ele não ameaça e não exige.

O fato de ser um corço reforça a ideia da ausência de exigência; outras relações de troca sempre pedem algo, "eu dou, se você fizer". Desde o querido e admirado pai até o amante apaixonado, qual é o amado que escapa dessas demandas? O irmão é o amado que não pressiona, que dá e recebe pelo prazer de compartilhar, é a alma complementar que acompanha e se regozija com cada realização e cada meta em comum. Quando a mulher tem a chance de encontrar-se com um homem na vida desta maneira, ela adquire a alegria de sentir-se motivada e ativada por um animus propulsor e vibrante, que não cobra como um juiz crítico.

Jung, ao descrever os efeitos da possessão pelo animus na mulher, se referia a um animus-pai, exigente, crítico, dogmático, autoritário. O animus-irmão é instigador, vibrante, amoroso e estimulante.

A mitologia grega configura a dupla de irmãos Apolo e Ártemis, cujas aventuras conjuntas pouco conhecemos fora a matança cruel das Nióbides. A imaginação completa o que não está relatado para traçar o quadro da ação conjugada. Ele, com suas flechas de ouro e ela, com as de prata, se completando. Ambos numa missão comum na qual razão e intuição são companheiras, em que a atividade noturna, metabólica, associa-se à atividade diurna, intencional. Eles se escutam, interpenetrados e aliados, sem dissociação.

Apolo é o curador, o animus-irmão que cura a ferida feminina. Mergulhadas na solidão e na separatividade, poucas mulheres encontram a cura em suas mães e tampouco em seus amados (Figura 3).

 

 

O sentimento de desvalorização, de culpa, de impotência, a imensa pequenez e a falha de nossas individualidades frágeis e pressionadas encontram sua cura no espírito solar de fraternidade, que lança seus raios luminosos e calorosos com uma mensagem de amor e de mérito, em que cada um é... o que pode ser... o que pretende ser... o seu ponto de encontro.

 

Referências

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Recebido: 27/08/2022
Revisão: 25/10/2022

 

 

1 Refere-se ao presidente Fernando Collor e a seu irmão Pedro Collor.
2 Publicado originalmente na Revista Junguiana nº 11, 1993, p. 10-19.
3 Pungentemente, em 2022, esses fatos continuam.

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