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Jornal de Psicanálise

versão impressa ISSN 0103-5835

J. psicanal. v.42 n.77 São Paulo dez. 2009

 

REFLEXÕES SOBRE O TEMA

 

Marie Bonaparte: princesa e psicanalista1

 

Marie Bonaparte: princess and psychoanalyst

 

Marie Bonaparte: princesa y psicoanalista

 

 

Alessandra Ricciardi Gordon*

Membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Marie Bonaparte foi a primeira psicanalista francesa, uma das poucas analisadas por Freud. Fez parte do grupo fundador da Sociedade Psicanalítica de Paris e por toda vida trabalhou e ajudou a causa psicanalítica. Escreveu extensa obra, grande parte dela explorando os mistérios da sexualidade feminina. Manteve constante presença no panorama psicanalítico: além de traduzir e divulgar a obra de Freud, participou ativamente da vida científica e política da Sociedade. Ferrenha defensora da análise leiga, desentendeu-se com Lacan, e essa contenda foi parte dos acontecimentos que resultaram nas cisões de 1953 e 1963, na Sociedade de Paris. Apesar de tudo, é frequentemente lembrada apenas como a psicanalista abastada, que comprou a correspondência Freud-Fliess, ou ainda como a pessoa influente, cujo papel foi fundamental na retirada da família Freud da Áustria ocupada. O que teria acontecido para que sua produção seja tão pouco comentada e estudada nos dias de hoje?

Palavras-chave: Sexualidade feminina, História da psicanálise, Pioneiras da psicanálise, Masoquismo, Cena primária.


ABSTRACT

Marie Bonaparte was the first French woman psychoanalyst, one of a few to be analyzed by Freud himself. She was one of the founders of the Paris Psychoanalytical Society, and throughout her life she worked as a psychoanalyst and helped the psychoanalytic cause. Her vast written work concerned mainly themes on female sexuality. She kept an active participation in the psychoanalytical scenario in France: she translated and spread many of Freud’s works and took an active part in the scientific and political life of the Society. She was a defender of lay analysis and her disagreement with Lacan eventually resulted in the 1953 and 1963 splits that the French Society went through. In spite of all that, she is frequently remembered simply as the wealthy psychoanalyst who bought the Freud-Fliess correspondence, or yet as the influent person whose role was fundamental in rescueing the Freud Family from occupied Austria. What might have happened so that all her production is little commented and studied today?

Keywords: Female sexuality, History of psychoanalysis, Pioneers of psychoanalysis, Masochism, Primal scene.


RESUMEN

Marie Bonaparte fue la primera psicoanalista francesa, una de las pocas que fue analizada por Freud. Participó del grupo fundador de la Sociedad Psicoanalítica de París y por toda su vida trabajó a favor de la causa psicoanalítica. Su obra escrita fue muy extensa y gran parte de ella se la dedicó a la exploración de los misterios de la sexualidad femenina. Se mantuvo presente en el panorama psicoanalítico, se puso a traducir y divulgar la obra de Freud, participando de la vida científica y política de la Sociedad. Fue una tenaz defensora del análisis profano. Se desentendió con Lacan y esa altercación formó parte de los sucesos que resultaron en las escisiones de 1953 y 1963, en la Sociedad de París. A pesar de todo, es frecuentemente recordada solamente como la psicoanalista rica que compró la correspondencia Freud-Fliess, o incluso como la persona influyente que tuvo un papel fundamental en la retirada de la familia Freud de una Austria ocupada. ¿Qué habrá ocurrido para que toda su producción sea tan poco comentada y estudiada en los días de hoy?

Palabras clave: Sexualidad femenina, Historia del psicoanálisis, Pioneras del psicoanálisis, Masoquismo, Escena primaria.


 

 

A grande pergunta que não foi nunca respondida e que eu não fui capaz ainda de responder, apesar dos meus trinta anos de pesquisa sobre a alma feminina é - O que quer uma mulher?

Freud para Marie Bonaparte (Bertin, 1989, p. 250)

 

Introdução

Como integrante do grupo da Cowap de São Paulo, coube-me apresentar, em seminário que enfocou as pioneiras da psicanálise, um apanhado sobre a vida e obra de Marie Bonaparte. Ao tomar contato com suas publicações e com alguns livros consultados sobre história da psicanálise, percebi que seria uma tarefa difícil. Além da complexidade inerente a esta, deparei-me com um material vastíssimo, fruto de uma vida rica, vivida por uma pessoa generosa e muitíssimo interessada, dedicada e presente num período histórico particularmente especial: a primeira metade do século 20. Marie Bonaparte foi a primeira psicanalista francesa, uma das poucas que gozou do privilégio de ter sido analisada pelo próprio Freud. Fez parte do grupo fundador da Sociedade Psicanalítica de Paris e por toda sua vida trabalhou e ajudou a causa psicanalítica. Escreveu uma extensa obra, grande parte dela explorando os mistérios da sexualidade feminina. Foi uma ferrenha opositora do nazismo e teve um papel fundamental na retirada da família Freud da Áustria. Manteve-se sempre ativa no panorama psicanalítico: traduziu e divulgou a obra de Freud, registrou suas próprias ideias e participou da vida científica e política da Sociedade. Defensora da análise leiga, desentendeu-se com Lacan, e essa contenda foi parte dos acontecimentos que resultaram nas cisões de 1953 e 1963, na Sociedade Psicanalítica de Paris. Apesar de tudo isso, é frequentemente lembrada apenas como a psicanalista abastada que comprou a correspondência Freud-Fliess, ou ainda como aquela que empreendeu todos os esforços para salvar seu psicanalista, gastando uma pequena fortuna para que a família Freud saísse de Viena e fosse para Londres. Muitas indagações me vieram à mente, dentre elas, uma em particular: o que teria acontecido para que toda a sua produção tenha sido tão pouco comentada e estudada? Este artigo é uma tentativa de encaminhar essas questões, bem como uma pequena colheita dessa vida tão profícua.

 

Seu nascimento

Nascida em Saint-Cloud, cidade localizada em Hauts-de-Seine, Île-de-France, em 2 de julho de 1882, Marie Lätitia Bonaparte era sobrinha-bisneta de Napoleão I da França. Filha de Roland Bonaparte (1858-1924) e Marie-Félix Blanc (1859-1882), tinha como avô paterno Pierre Napoléon Bonaparte, sobrinho de Napoleão. Seu avô materno, François Blanc, era um rico incorporador francês, fundador do Cassino de Monte Carlo, que a ela legou toda sua fortuna.

Órfã de mãe desde o nascimento, Marie Bonaparte teve uma infância infeliz, ao lado de um pai distante e de uma avó paterna ríspida, autoritária e intransigente. Sua mãe, tuberculosa, faleceu trinta dias após seu nascimento, em razão de complicações decorrentes do parto. A pequena Marie ficou a cargo da avó, que administrava a casa e a vida da criança segundo suas próprias conveniências e interesses, que se revelaram oportunistas. Marie teve uma ama de leite, que a acompanhou até perto dos 4 anos e foi despedida por se desentender com a dama de companhia de sua avó. A ligação afetiva mais consistente de sua infância foi com Marie-Claire Druet, uma babá que chegou cerca de dois anos após a saída da ama, e com a qual manteve uma ligação íntima e amorosa, que durou até o final da vida desta. Cresceu cercada por muita atenção e cuidados, mas de pouco amor genuíno. Era uma criança solitária, impedida de ter amigos ou relacionar-se livremente com outras crianças, exceção feita aos primos paternos. Transformou-se em uma moça hipocondríaca, cheia de fobias, infeliz e, sobretudo, muito desconfiada. Em sua casa, rondava a suspeita de que seu pai, com o conhecimento da própria mãe, envenenara a esposa para administrar e desfrutar da fortuna familiar até a maioridade de Marie. Ela própria, até a época de sua análise com Freud, acreditou que seu nascimento permitira a seu pai apropriar-se daquela fortuna.

Ao se casar, Roland Bonaparte era um oficial do exército, que dispunha de posses modestas, mas descendia de distinta estirpe. Ao que parece, esse casamento se apoiava em interesses familiares e financeiros. Roland era muitíssimo dado aos estudos e isso consumia todo o seu tempo. Estudou antropologia e publicou vários trabalhos nessa área, como também em geografia. Viajava continuamente para expedições em diversos continentes, não dedicando tempo nenhum à filha, o que era considerado hábito na época. Segundo Célia Bertin (1989), se Marie sofria com sua existência, era porque não tinha uma mãe para lhe dar a parcela de amor e atenção necessária. Marie, contudo, nunca desistiu do seu quinhão: afoita pelo amor paterno, aprendeu a ler muito cedo e escrevia inúmeras cartas ao pai, para cativar sua atenção. Com sua morte, em 1924, descobriu que ele guardara todas elas, sem jamais abrir uma sequer.

Por iniciativa de seu pai, a partir dos 4 anos passou a aprender também inglês e alemão. Marie desenvolvia-se bastante bem intelectualmente e, a partir dos 7 anos, passou a escrever pequenos livros de estórias, que chamava de “Minhas bobagens”, nos quais também anotava sonhos e pavores recorrentes, por exemplo, a visão de um parafuso que lhe saía pelo ventre e a fobia por castiçais (morria de medo de ser sufocada se alguém lhe enfiasse um pela garganta). Esses livros foram escritos, em sua maioria, em inglês, idioma que apenas ela e seu pai sabiam na casa, e foram utilizados por ela mais tarde em sua análise com Freud, como forma de recuperar lembranças e fantasias infantis. Posteriormente, ela os publicou em inglês, numa edição muito rica, composta de estórias e desenhos, chamada Os cinco cadernos. Marie, na verdade, manteve por toda a vida o hábito de escrever. Dizia ela: “A salvação seria, contudo, extrair da mágoa, uma narração” (Bertin, 1989, p. 275).

Aos 16 anos, envolveu-se com Antoine Leandri, secretário de seu pai, e manteve com ele um romance secreto e quase que exclusivamente platônico. Ela era completamente carente e desprovida de experiências e sua paixão adolescente foi cruelmente explorada pelo secretário e sua esposa, em trama que durou por volta de cinco anos e teve consequências devastadoras para ela. Antoine foi despedido e afastado do convívio de Marie, mas permaneceu em contato indireto com ela, pressionando-a, manipulando-a, extorquindo-a, até o golpe final no seu aniversário de 21 anos, época em que teve finalmente posse de sua fortuna. O casal ameaçava divulgar as cartas que Antoine lhe sugerira que escrevesse como prova de seu amor. Pediam uma significativa quantia em dinheiro para entregar as cartas. Não lhe restou alternativa, que não revelar ao seu pai toda a situação e pedir ajuda. As cartas foram compradas e destruídas, mas toda essa experiência deixou em Marie uma profunda descrença e amargura.

Cerca de quarenta anos mais tarde, Marie Bonaparte compreenderia como ninguém o desassossego de Freud, quando a viúva do médico alemão Wilhelm Fliess colocou à venda as 284 cartas trocadas entre os dois. A sra. Fliess impunha como condição que o comprador pertencesse à família Freud. Isso não era obstáculo para a princesa, que arrematou o lote de cartas, não para destruí-lo, como queria Freud, mas para que fossem divulgadas apenas depois da morte dele. Não podia imaginar que um dia estudiosos da história da psicanálise também lamentariam o fato de Roland Bonaparte ter queimado suas juras de amor adolescente.

 

Tornando-se princesa

Aos 25 anos, realiza uma ambição paterna e casa-se com o príncipe George da Grécia e da Dinamarca, em 12 de dezembro de 1907. Por meio desse casamento - que apesar de acordado por seu pai teve, não obstante, sua aprovação -, Marie tornou-se a princesa Marie da Grécia e da Dinamarca. Gerou dois filhos, Pedro (1908-1980), que tornou-se antropólogo e especializou-se em estudos tibetanos, e Eugenia (1910-1988), que casou-se primeiramente com o príncipe Radziwill, com quem teve dois filhos, os únicos netos de Marie e, posteriormente, com o Duque de Castel Duino.

O casamento de Marie não resultou em uma união feliz. O príncipe George era apaixonado por um tio, o príncipe Valdemar da Dinamarca, e ambos mantiveram um caso amoroso até a morte deste último, em 1939. Esse relacionamento era de tal forma reconhecido no seu círculo íntimo que seus filhos chamavam os dois de ‘papai’. A princesa também mantinha envolvimentos, perfeitamente tolerados pelo marido, com outros homens. Um fracassado casamento, que conjugava vidas e interesses completamente distintos, não resultou de todo negativo para Marie, uma vez que a conduziu cada vez mais para o interior da biblioteca, onde aprimorou seus conhecimentos sobre psicologia feminina e estudou a obra de Edgar Allan Poe. Apesar dessa união pró-forma e dos conflitos relacionados aos interesses bastante arrojados da princesa, ela e George tornaram-se grandes amigos e permaneceram companheiros por toda a vida.

 

O encontro com Freud

Em 1925, aos 43 anos e deprimida, já interessada em psicanálise, a princesa Bonaparte, aconselhada por René Laforgue, consultou-se com Sigmund Freud para o tratamento de uma frigidez. Marie Bonaparte era inteligente, culta e curiosa, tinha profundos interesses pela psicologia feminina e pela psicanálise, mudando-se de Paris para Viena a fim de se analisar. Apesar das resistências de Freud em atendê-la, supondo que a princesa não passasse de uma aristocrata rica, entediada e em tudo o mais, desinteressante, a análise se iniciou com duas sessões diárias e teve a duração de dois meses no seu período inicial. Após essa data, a princesa voltou para Paris, mas manteve-se em estreito contato com Freud. Passou a traduzir sua obra para o francês e, aos poucos, a gozar da intimidade de Freud, tornando-se uma grande amiga. Retomou sua análise, sempre por algumas semanas, em 1926, 1927, nos últimos meses de 1928 e no início de 1929. Faria ainda algumas visitas a Viena em 1934, 35, 36 e 37 e, nesses curtos períodos, retomaria sua análise.

Em muitas ocasiões, prestou auxílio financeiro a Verlag, a editora fundada por Freud em Viena, que se destinava a veicular trabalhos psicanalíticos. O próprio Freud frequentemente prestigiava a editora, com o envio de textos para publicação, e sabemos que esse favoritismo salvou a editora em inúmeras ocasiões.

Além disso, a princesa era uma presença constante e bem-vinda aos Freud e não poupou esforços para que sua influência política e sua fortuna pessoal agissem em favor de Freud e da psicanálise. Em 1936, comprou de um livreiro alemão toda a correspondência que Freud e Fliess trocaram entre si por 1.200,00 marcos alemães. Através de sua intervenção pessoal e contrariamente ao desejo de Freud, a coleção foi mantida na Europa, seguramente depositada em um banco suíço, o Banco Rothschild. A princesa obteve de Freud o consentimento para a leitura dos documentos e convenceu-o da importância da preservação daquele rico cabedal, que remontava às origens da psicanálise, sob a condição de serem mantidos secretos até cem anos após sua morte.

A princesa teve ainda um papel fundamental durante os últimos anos de vida de Freud. Graças à sua influência pessoal e aos esforços do consulado americano, foi possível a saída dos Freud da Áustria nazista. Não só colaborou financeiramente, com grande soma em dinheiro, mas teve uma influência política decisiva junto às autoridades alemãs e austríacas para a liberação de vistos e passaporte dos Freud. Graças a Ernest Jones e ao empenho da princesa, a família Freud conseguiu se estabelecer na Inglaterra, em Maresfield Gardens, no ambiente familiar e caro à Freud. Toda sua coleção de antiguidades, parte de seus móveis, seu divã e escrivaninha foram trazidos e compostos como eram na Bergasse.

Freud dedicou a ela parte de seu tempo, afeição e reconhecimento. Dada ocasião, chegou mesmo a comparar a atenção da princesa àquela que sua querida filha Anna lhe dispensava e externou seu contentamento por tê-la como amiga. Ela, por sua parte, o considerava como um pai, e mantinha com ele uma relação de profundo afeto e consideração e um intenso diálogo sobre suas ideias. Jamais o abandonou, cumprindo sua promessa de que não lhe decepcionaria. Finalmente, uma urna grega, que Marie lhe presenteara em seu aniversário de 75 anos, serviu de repositório para seus restos mortais, após a cremação.

 

Marie psicanalista

Organizadora do movimento psicanalítico francês, a princesa consagrou sua vida à psicanálise com uma coragem e um entusiasmo de causar inveja a muitos de seus contemporâneos. Essa atividade incansável em favor da causa psicanalítica garantiu a ela um lugar de destaque na historia da psicanálise francesa, sobretudo nos seus inícios. No entanto, foi progressivamente desentendendo-se com as novas gerações de analistas. Já era uma opositora de Lacan e terminou por perder a liderança da Sociedade, na cisão de 1953, e ao longo dos anos seguintes.

Suas contribuições teóricas centraram-se na feminilidade e na sexualidade feminina. Era estudiosa, dedicada e escrevia muito bem. Seus textos são claros e se baseiam tanto em sua experiência clínica, como traduzem uma elaboração teórica que, embora siga as ideias de Freud sobre a sexualidade feminina - ou, como hoje denominamos, o monismo fálico -, também foi em alguma medida original e arrojada para sua época. Faz longas e significativas citações tanto de Freud, como de outros autores, inclusive da literatura. Tais citações ilustram seus pontos de vista e tornam a leitura agradável e rica.

Penso que seu interesse na sexualidade feminina era certamente motivado por questões pessoais, pois Marie sentia-se frustrada como mulher e julgava-se frígida. Em 1924, antes de iniciar sua análise com Freud, fez uma pesquisa com 200 mulheres, na qual avaliou o prazer sexual correlacionando-o com a distância entre o clitóris e a vagina, concluindo que a ausência de prazer coincidia com uma distância maior. Seu artigo “Considerações sobre as causas anatômicas da frigidez feminina”, publicado no periódico médico Bruxelles - Médical, sob o pseudônimo de A. E. Narjani, apontava a existência de duas causas para a frigidez: uma devida à inibição psíquica e outra de caráter vaginal anatômica. Acreditou nos benefícios de uma intervenção cirúrgica que, aproximando o clitóris da vagina, favoreceria, dessa forma, o orgasmo. Apesar do autoconhecimento que sua análise lhe proporcionou e da oposição de Freud, foi a primeira paciente a submeter-se a essa operação, e por três vezes, em 1927, 30 e 31. Estava convencida que sua frigidez se devia, sobretudo, a essa falha anatômica, mesmo tendo descoberto em sua análise que tais dificuldades possivelmente se ligavam a questões emocionais. Conseguiu localizar um trauma de infância capaz de explicar suas dificuldades: a partir do seis meses até por volta dos 3 anos, testemunhara sua babá mantendo relações sexuais com o capataz (e também seu meio-tio) da propriedade.

Um dos pilares de sua produção teórica foi a “descoberta da cena primária”. Como muitos dos primeiros psicanalistas, a princesa usou situações de sua história pessoal para ilustrar seus pontos de vista. Em seu artigo “Notes on the analitical discovery of the primal scene” (1945), descreve um caso clínico - o seu próprio, como iríamos saber mais tarde - em que, através de sonhos, lembranças da infância e pequenos contos que a paciente escrevia quando criança - aqueles escritos a partir dos 7 anos em inglês -, é recomposta na análise a lembrança da cena primária observada de forma frequente, durante os seus três primeiros anos de vida. Nesse texto primoroso, em que acredita ter encontrado uma confirmação para a teoria analítica da existência da cena primária, Marie, como Freud, afirma que a capacidade de investigar com sucesso as recordações infantis se relaciona ao chamado instinto epistemofílico, que por um lado é estimulado pela curiosidade sexual e por outro propicia o desenvolvimento das capacidades intelectuais.

Outro ponto fundamental foi sua teorização sobre o masoquismo como uma característica feminina. No artigo “Passivity, masochism and femininity” (1934), afirma que a feminilidade e o masoquismo estão estreitamente ligados. Enquanto para o homem as funções reprodutivas coincidem com a função erótica, para a mulher a sexualidade está completamente entranhada à dor. Dor narcísica presente já na descoberta da diferenças entre os sexos: castrada, a mulher está destinada a invejar o pênis.

A mulher, por outro lado, submete-se periodicamente aos sofrimentos da menstruação ... e o ato sexual, em si, se inicia com um processo que envolve em certo grau o derramamento de seu sangue, ou seja, o ato da defloração; finalmente a gestação é acompanhada por desconforto e, o parto, por dor, e mesmo a amamentação é frequentemente sujeita a distúrbios dolorosos (Bonaparte, 1934/1975, p. 279).2

A única função reprodutiva que estaria livre de sofrimento seria o ato sexual. A mulher, diz Bonaparte, tem duas zonas erógenas lado a lado, o clitóris e a vagina, e entre elas pode haver um antagonismo, com o predomínio do prazer clitoridiano e uma frigidez vaginal, ou essas zonas podem funcionar em uma harmoniosa colaboração. Entretanto, aí atuam possíveis consequências causadas pelo trauma da visão da cena primária. Quanto mais cedo acontecem as observações, maior o colorido sádico que emana da própria vida pulsional, e essa cena permanecerá na mente de quem a testemunhou, não como lembrança, mas como fantasia inconsciente. Com o desenvolvimento do ego, essa cena é modificada por todas as fantasias sadomasoquistas que se formam nas crianças de ambos os sexos. Os meninos, entretanto, se evadirão dos perigos centrípetos cloacais que a concepção sádica do coito traz para o seu próprio corpo, pois, como possuidores de pênis, tendem a se identificar com o centrífugo e vital. Nas meninas, a concepção sádica do coito, quando muito enfatizada, vai perturbar grandemente o desenvolvimento da função erótica. Tendo sua constituição anatômica, elas passam a temer terrivelmente que seu corpo seja penetrado, e as possíveis visões do sangue menstrual ou comentários sobre a dor no parto e cólicas contribuirão para o fortalecimento da terrível crença no ataque sexual feito pelo homem na mulher, que acreditam ser, de fato, a causa do sangramento e do sofrimento. Em decorrência de todo esse quadro, a única função erótica feminina livre de dor física é revestida desse significado. Ou seja, para a mulher não há prazer sem dor. Para completar esse quadro sombrio, afirma ainda que a mulher é passiva no ato sexual e depende do homem para obter satisfação. Todo prazer experimentado no ato sexual deriva da virilidade contida no orgasmo feminino.

É verdade que na aceitação do papel feminino pela mulher possa haver certa dose homeopática de masoquismo, e isso combinado com a passividade da mulher no coito a impelem a aceitar e mesmo valorizar certa dose de brutalidade da parte do homem (...) Mas uma verdadeira distinção entre masoquismo e passividade deve ser estabelecida na mente feminina para que sua função erótica passiva seja normalmente aceita em bases sólidas. De fato, o coito vaginal normal não machuca a mulher, ao contrário (Bonaparte, 1934/1975, p. 284).

Marie Bonaparte vai se dedicar ao estudo da vida pulsional e, em especial, às origens da dupla sadismo-masoquimo. No texto “Some biopsychical aspects of sado-masochism” (1945), revisa de forma extensa e cuidadosa a teoria freudiana das pulsões até 1925, enfocando particularmente as origens e as vicissitudes do sadismo e do masoquismo. Cita um romance do marquês de Sade, “Histoire de Juliette: les prospérités du vice”, para introduzir a crueldade na luxúria e afirma que, como Freud, em “O problema econômico do masoquismo”, Sade também considera o masoquismo como precursor do sadismo. De Sade, igualmente aponta a importância da morte como um instinto componente da vida que visa à desintegração e, com isso, se aproxima ao conceito freudiano de pulsão de morte. Nesse texto, reafirma que a sexualidade feminina tem pontos de apoio importantes no masoquismo, que são mesmo determinados biologicamente. Para Bonaparte, a cena primária realmente testemunhada marca de forma profunda e traumática a menina, que equacionará a penetração do coito a um ataque perpetrado pelo homem. Uma confusão psíquica pode surgir entre a penetração que machuca e a erótica. O menino também passaria por temores semelhantes - uma vez que Marie defende a natureza bissexual do ser humano -, mas, tendo um pênis, sua identificação se faz mais facilmente com aquele que perfura e não com o perfurado. Restaria às meninas o terror de viver essa penetração como uma perfuração, o que pode resultar num novo investimento das posições defensivas masculinas.

Assim, das lembranças da cena primária, perdidas em meio à amnésia infantil, e dos traços deixados em cada inconsciente, pode resultar o conceito de coito sádico que leva a mulher a se afastar da aceitação do falo penetrante, que se liga imaginariamente a uma arma perfurante. Mas pode acontecer, por vezes, que o homem predisposto ao sadismo crie a contraparte para esse conceito de coito sádico, no qual o conceito erógeno do machucar, de arma perfurante, é falicizado e erotizado. Nesse caso, o simbolismo fálico da faca é tomado pela mente como literal (Bonaparte, 1945/1973, p. 182).

Utiliza Marie os versos de Baudelaire do poema “Aquela que é tão jovial” (“A celle qui est trop gaie”)3 como ilustração para essa confusão entre a penetração que machuca e a erótica. A natureza da pulsão feminina, passiva, em que prazer e dor estão juntos e inseparáveis, pode estar subjacente a esse conflito.

O erotismo tende a ligar esse terror de invasão - e frequentemente tem sucesso em fazê-lo - por investir masoquisticamente a confusão entre a penetração que machuca e a erótica, ou por estabelecer tal penetração como predominantemente erótica. Entretanto, uma dose homeopática de masoquismo permanece necessária, mesmo para a aceitação feminina da penetração mais erógena (Bonaparte, 1945/1973, p. 180).

Marie escreveu por toda a sua vida e suas obras dão uma espécie de testemunho dos períodos por que passou. Durante os anos de guerra (1941 a 45), em que a desmobilização foi quase geral na Sociedade de Paris, a princesa manteve-se ativa, escrevendo artigos e cartas, analisando pacientes e dando cursos no hospital psiquiátrico, no exílio na África do Sul e no Sul da França. É desse período “Mitos de guerra”, artigo publicado em 1946, que se originou de conferências lidas perante o Instituto de Psicanálise, ainda aberto no inverno de 1939. Nesse texto, fala sobre as fantasias coletivas surgidas nos primeiros meses da guerra, em especial sobre as queixas das mulheres dirigidas aos responsáveis pelo exército em relação ao uso indiscriminado de bromato no vinho dos soldados (é sabido que o bromato favorece a impotência sexual). Sobre esse tema versará uma das duas únicas publicações de membros da Sociedade de Paris, na época: “O mito do bromato no vinho”, por John Leuba.

No retorno a Paris, terminada a guerra e a desocupação, a princesa teme agitações entre os psicanalistas franceses após os anos conturbados em que o grupo mantivera-se pouco ativo e dividido. Havia rumores de que um ou outro analista havia “colaborado com os alemães”. A princesa prevê rivalidades e ataques de uns contra os outros, o que de fato se dá na instauração de um processo judicial de depuração contra René Laforgue. Nada fica provado, mas Laforgue deixa ter qualquer influência na Sociedade. Em meio a um ambiente pouco produtivo e muito solicitador, a princesa passa cada vez mais tempo no Sul da França, de onde escreve, atende pacientes e dá seguimento à sua vida como psicanalista. Cito um pequeno trecho da carta de Paul Jury a Loewenstein, datada de 1946:

Segundo o que entendi, a Sociedade de Paris tornou-se um cesto de caranguejos. A guerra fez dessas coisas. A princesa reina sempre ou pelo menos o desejaria, mas ela não paga mais nada. Enquanto nossos analistas ainda estão no estágio oral, não tendo leite nem mamãe nutridora, não sabem o que fazer. Briga-se com entusiasmo. Parchenimey dirigindo o concerto, desprezado por todos, mas ativo. Acabou-se por colocar Laforgue em frente a uma comissão depuradora, Parcheminey levando as coisas às ocultas e Leuba em primeiro plano. Mas no processo tudo desmoronou, foi necessário em sessão renunciar à acusação (Mijolla, 1988, p. 190).

Outras obras não menos importantes são Marie-Felicite: um caso de loucura criminal, escrito em 1927; os Cinco cadernos, uma série de ensaios autobiográficos, em que comenta sua análise e suas lembranças infantis; e os Cahiers noirs, relato de lembranças íntimas de sua vida e de sua análise.

Escreve ainda uma psicobiografia em três volumes sobre Edgar Allan Poe, obra em que também apreendemos ressonâncias de sua infância. Quando criança, Marie tinha um terrível medo de fantasmas, o que novamente sentiu ao reler os poemas de Poe, entre eles, particularmente, “Legeia”. Célia Bertin nos informa que durante um dos períodos de análise com Freud, Marie pôde explorar esses temores e compreender a que esse monstro temido se relacionava. Tinha medo do retorno da mãe, que teria matado ao nascer e que estaria de volta, feito um ogro edipiano, para vingar-se. Sentia-se cúmplice, por seu nascimento, do assassinato cometido pelo pai. Trabalhando em sua análise, passa a ter consciência do que tanto a atormentara, e sente que pode escrever uma obra em que expresse suas descobertas e conhecimentos tão custosamente adquiridos. Escolhera, por isso, fazer um estudo analítico da biografia e obra de Edgar Allan Poe.

Seu percurso na psicanálise passa - e talvez isso seja inexorável - por suas questões pessoais, e sua grande questão foi em relação à sexualidade. Marie procurou Freud em meio a uma profunda depressão, referindo-se especificamente ao seu intenso sofrimento nas relações afetivas com o sexo oposto e à falta de prazer nas relações sexuais. Possivelmente, sua história de vida, sua elaboração pessoal sobre a morte da mãe e a (im)possível identificação com ela, a falta de trocas afetivas significativas com o pai e a rispidez da avó, a culpa edípica, o casamento frustrado e uma busca incessante por relacionamentos que a preenchessem afetiva e sexualmente tenham moldado seus interesses. Marie Bonaparte teve ainda uma curta análise, mesmo para os padrões da época, que depois foi retomada de tempos em tempos. Podemos nos questionar se sua teorização psicanalítica, apesar de rica, não está excessivamente permeada pela elaboração subjetiva de suas fantasias e teorias infantis.

Para Ethel Person, suas contribuições compreendem o desenvolvimento sexual, mas também traços de caráter associados à feminilidade, dentre eles a passividade, o masoquismo e o narcisismo. Reconhece ela em Bonaparte uma observadora astuta: a maior parte do que descreveu no desenvolvimento psicossexual ainda é observado nas análise de mulheres. Portanto, seus insights são muito úteis clinicamente, até os dias de hoje; o erro de Marie Bonaparte teria sido o de confundir o sentido de certos temas, que emergiam na análise, com causalidade. Como atribuir tanto à observação da cena primária? Masoquismo e feminilidade têm uma determinação muito mais complexa do que Bonaparte supunha. Penso que, em cada um de nós, as determinações inconscientes, transgeracionais e socioculturais são fundamentais para a formação do conceito do que é ser homem ou mulher.

 

Marie-Athena

Em 1950, Marie escreve: “Nas profundidades da carne materna, a natureza fez de mim, através do sexo, uma mulher fracassada, mas em revanche, através do cérebro, quase um homem” (Alizade & Schust-Briat, 1990/1999, p. 199). Temos aí a Marie-Athena, que não consegue realizar-se na amplitude de uma sexualidade a que não tem acesso, mas que fala a língua paterna do saber intelectual, da investigação científica, da vastidão de seus inúmeros escritos. Ela persegue um prazer que não consegue sentir. Contrariamente a Athena, não renuncia jamais à vida sexual. Curiosamente, ao se casar, usa um rico diadema, que reproduz um ramo de oliveira, árvore símbolo de Atenas... Quem poderia supor o que essa marca significou em sua vida! Nas misteriosas vicissitudes de suas identificações, desenvolveu-se essa mulher ativa, curiosa, generosa, “o demônio da energia” segundo Freud (Gay, 1989, p. 491); profundamente dividida, no entanto, entre um saber, que conseguia buscar e realizar, e uma sexualidade, que sentia inalcançável.

Marie publicou vários trabalhos seus e traduziu a obra de Freud para o francês; clinicou sem formação médica; tornou-se porta-voz de Freud na França; fundou, juntamente com alguns outros colegas, a Sociedade Psicanalítica de Paris (1926); a Revista Francesa de Psicanálise (1927) e o Instituto de Psicanálise (1934), e usou métodos personalíssimos. A analista Marie Bonaparte nunca deixou de agir como a princesa que era. Não abria mão das férias de verão em Atenas ou Saint-Tropez, incentivava os pacientes a acompanhá-la e, não raro, mandava um esplêndido Rolls- Royce prateado buscá-los. Algumas vezes, chegava mesmo a hospedá-los em sua casa...

A princesa Marie Bonaparte viveria 80 anos, atendendo pacientes quase até o último dia, 21 de setembro de 1962, quando foi vencida pela leucemia. Morreu em Saint-Tropez, foi cremada, e suas cinzas enterradas em Tatoï, perto de Atenas, na tumba do príncipe Georges. No seu túmulo não quis nenhuma cruz, mas os versos de Leconte de Lisle, em seu Dies Irae:

E tu, divina Morte, para onde tudo volta e se apaga,
Acolhe teus filhos em teu leito estrelado,
Libera-nos do tempo, do número, do espaço,
E dá-nos o repouso que a vida tirou (Bertin, 1989, p. 384).

 

Referências

Bertin, C. (1989). A última Bonaparte (R. Menguello, trad.). Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Alizade, A. M., & Schust-Briat, G. (1999). Marie Bonaparte, a princesa psicanalista. Revista de Psicanálise, Porto Alegre, 6 (2), 189-203. (Trabalho original publicado em 1990.)

Bonaparte, M. (1975). Passivity, masochism and femininity. In J. Strouse, Women and analysis: Dialogues on psychoanalytic views of femininity (pp. 279-288). New York: Laurel. (Trabalho original publicado em 1934.)

Bonaparte, M. (1945). Notes on the analytical discovery of the primal scene. Psychoanaytic Study of the Child, 1, 119-125.

Bonaparte, M. (1973). Some biopsychical aspects of sado-masochism. In H. M. Ruitenbeek (Ed.), The first freudians (pp. 164-193). New York: Jason Aronson. (Trabalho original publicado em 1945.)

Gay, P. (1989). Freud: uma vida para o nosso tempo. (D. Bottman, trad.). São Paulo: Companhia das Letras.

Mijolla, Alain (1988). Revista Internacional da História da Psicanálise, 65.

 

 

Endereço para correspondência
Alessandra Ricciardi Gordon
R. Pedroso Alvarenga, 1245/103
04531-012 São Paulo, SP
E-mail: argordon@uol.com.br

Recebido em: 22/04/2009
Aceito em: 07/05/2009

 

 

* Membro associado da SBPSP. Mestre em Saúde Mental pela Unifesp.
1 Trabalho apresentado no seminário “Pioneiras da Psicanálise”, realizado em São Paulo pelo Committee on Women and Psychoanalysis (Cowap), da International Psychoanalytical Association (IPA).
2 Esta e as demais citações de Marie Bonaparte foram traduzidas pela autora.
3 Louca mulher que me enlouquece,/ Eu a odeio tanto quanto a amo!/ Assim, gostaria de em uma noite,/ Quando bater a hora da luxuria,/ Rastejar, eu, covarde, em silêncio,/ Em direção aos tesouros que são seus./ Para açoitar sua maravilhosa carne,/ Para machucar seu peito piedoso/ E para infligir ao seu soberbo flanco/ Uma chaga oca e profunda./ E, entontecido pela doçura desse ato,/ Através desses seus novos lábios,/ Mais belos e mais radiantes,/ Infundir em ti meu veneno, Ó irmã minha! (Versão da autora.).

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